CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTOS E CRIAÇÃO DE CURRÍCULO IN- VENTADOS COM AS MÍDIAS NOS COTIDIANOS DO ENSINO MÉDIO

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1 CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTOS E CRIAÇÃO DE CURRÍCULO IN- VENTADOS COM AS MÍDIAS NOS COTIDIANOS DO ENSINO MÉDIO Edivan Carneiro de Almeida, UEFS-BA Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento. Érico Veríssimo Introdução Este trabalho apresenta parte das experimentações realizadas em uma pesquisa do Mestrado em Educação na Universidade Estadual de Feira de Santana (UFES), Bahia, envolvendo o tema construção e expressão de conhecimentos in-venta-dos por meio de táticas-invenções realizadas por estudantes nos/dos/com os cotidianos (CERTEAU, 2012; ALVES et all, 2012; OLIVEIRA, 2012) do Ensino Médio, através dos usos-apropriações (CERTEAU, 2012) de mídias e linguagens no Projeto Comunicação, Interação e Aprendizagem, desenvolvido no Colégio Estadual Aristides Cedraz de Oliveira (CEACO), em Ichu, no sertão baiano. A pesquisa foi concluída em abril/2014 e teve por objetivo cartografar (descrevercaracterizar-delinear) movimentos-processos-situações e/ou possibilidades-potencialidades de construção-expressão de conhecimentos-saberes e criação de currículos que acontecem no Projeto de Comunicação 1, realizadosspensados pelos estudantes e pela professoracoordenadora nos cotidianos da escola, considerando as táticas-invenções que realizam em processos colaborativos (e) de negociação/produção de sentidos/significação, de empoderamentos e emancipação, que atravessam seus fazeressaberes e os usos-apropriações que realizam dos conhecimentos-saberes e das mídias-linguagens utilizadas. A pesquisa apresenta uma possibilidade de produção coletiva de conhecimentos apostando na potência de uma política de narratividade que favorece as expressões dos estudantes e da professora envolvidos com o Projeto de Comunicação, desejando discutircompreender as práticasteorias que eles realizam nos cotidianos de uma escola pública, levando em conta os atravessamentos provocados pelas condições-contextos-transformações 1 No Projeto de Comunicação (como é chamado na escola) os estudantes do 2º ano produzem notícias, entrevistas, imagens e programas radiofônicos sobre atividades/assuntos/acontecimentos ocorridos-relacionados nos/aos cotidianos da escola, utilizando mídias e conhecimentos referentes às três atividades-linguagens utilizadas/desenvolvidas: rádio-escola, blog (http://ceacoichu.blogspot.com.br) e boletim impresso.

2 culturais, políticas e socioeconômicas. De maneira especial, tivemos a pretensão de produzir visibilidades sobre as táticas-invenções realizadas por estudantes e professores na criaçãodesenvolvimento de práticas de construção de conhecimentos e desenvolvimento de currículos singulares nos cotidianos de escolas públicas de Ensino Médio, espaçostempos de experimentação e produção de sentidos, de empoderamentos e emancipação social, necessários aos jovens para compreenderem-participarem-viverem criativamente o/no mundo atual. Tendo como locus uma escola pública de Ensino Médio, a pesquisa teve como principal objetivo cartografar os movimentos-processos-situações e/ou possibilidadespotencialidades de construção e expressão de conhecimentos-saberes e de criaçãodesenvolvimento de currículos, praticadospensados nos cotidianos escolares pelos estudantes e pela professora-coordenadora no Projeto Comunicação Interação e Aprendizagem, levando em conta as táticas-invenções que eles desenvolvem em processos coletivos/colaborativos (e) de negociação/produção de sentidos/significação, de empoderamentos e emancipação que atravessam seus fazeressaberes e os usos-apropriações que realizam dos conhecimentossaberes e das mídias-linguagens utilizadas. Dentre os objetivos específicos da pesquisa destacamos neste trabalho a tentativa de: a) descrever/caracterizar os processos-situações e/ou possibilidades-potencialidades de construção de conhecimentos-saberes praticadospensados pelos estudantes, juntamente com a professora-coordenadora, ao utilizarem mídias e desenvolverem as atividades-linguagens do Projeto de Comunicação nos cotidianos da escola; b) delinear indícios/possibilidades de criação-desenvolvimento de currículos praticadospensados nos cotidianos de uma escola de Ensino Médio. Assim, nos propomos a cartografar os cotidianos do Projeto de Comunicação visando delinear os movimentos-processos-situações e/ou possibilidades-potencialidades de construção e expressão de conhecimentos e saberes que os estudantes e a professoracoordenadora realizam a partir dos usos-apropriações das mídias e dos contextos que agenciam os cotidianos escolares. Nesse movimento, direcionamos nossa atenção para as táticas-invenções (CERTEAU, 2012) que eles desenvolvem em processos coletivos de produção de conhecimento/sentidos/significação e a criação de currículos nesses cotidianos. Assumimos, com Barros e Kastrup (2012), o caráter construtivista da atividade cartográfica e da ciência como invenção, compreendendo os processos de pesquisa e produção de conhecimento como uma atividade que se realiza coletivamente, neste trabalho, envolvendo

3 estudantes e professores do Ensino Médio que se dispuseram a narrar, com imagens-sonsfalas, suas experiências com o Projeto de Comunicação. Cartografia e oficinas de vídeo na produção dos dados Na realização da investigação decidimos enveredar por algumas pistas propostas pela cartografia (KASTRUP, 2010), método de pesquisa-intervenção que pressupõe uma orientação do trabalho do pesquisador que não se faz de modo prescritivo, por regras já prontas nem com objetivos previamente estabelecidos (PASSOS; BARROS, 2010, p. 17), mas pelo acompanhamento do desenvolvimento de processos-experimentaçõesacontecimentos. Combinamos as perspectivas da cartografia com os estudos dos cotidianos em Certeau (2012) na tentativa de produzir visibilidades sobre os modos de proceder da criatividade cotidiana, a produção microbiana, astuciosa, silenciosa e quase invisível dos consumidores : estudantes e professores que vivenciam os cotidianos de escolas públicas, geralmente vistas como espaços de imposição política e reprodução das desigualdades sociais, lugar de problemas/negatividade. Nesse sentido, dialogamos também com pesquisadores brasileiros dos cotidianos escolares entendidos como espaçotempo rico em criações, reinvenções e ações, recusando a noção hegemônica segundo a qual o cotidiano é espaçotempo de repetição e mesmice (OLIVEIRA, 2012, p. 51). Na produção dos dados cartografamos as experiências de doze estudantes que atuaram no Projeto de Comunicação em 2012, promovendo dois ciclos de oficinas-encontros de artecriação de vídeos: o primeiro ciclo em novembro/2012 e o segundo em outubronovembro/2013. Os dados produzidos possibilitaram análises para a pesquisa, assim como escaparam das amarras de análises estritamente científicas e ressoaram com os sentidos e(m) expressões. Além de narrarem os processos-situações vividos-experimentados e as possibilidades-potencialidades de construção-expressão de conhecimentos-saberes e criação de currículo, os estudantes permitiram poemar o cotidiano entendendo tal poesia como indicação de um registro que não se pretende ser significado/representado, despertando o político na expressão dos saberes através das superfícies-cores-imagens-sons nos vídeos.

4 Figura 1: Oficina de produção do vídeo coletivo, 2º ciclo, no CEACO Foto: Jociel, Realizamos oficinas-encontros apostando na potência da arte-criação-experimentação com vídeos enquanto possibilidade de expressão que escapa à explicação e à representação. Partimos da compreensão de que as oficinas são espaços de composição (PREVE, 2010) que possibilitam múltiplas conversações, experimentações, expressões, compartilhamento de experiências-conhecimentos-sentidos-sentimentos. Desse modo, foi possível uma produção coletiva-colaborativa de conhecimentos entre pesquisadores e sujeitos intensamente envolvidos nos cotidianos do Ensino Médio. No primeiro ciclo, realizamos duas oficinas e vários encontros pessoais ou em pequenos grupos, para acompanharmos o processo de produção e apresentação de dez vídeos (de cinco minutos), que provocaram novas conversas/registros sobre as experiências vividas e sobre as expressões neles contidas nas imagens produzidas. Oficinas e vídeos a desencadearem afetos entre os/nos participantes, de maneira que as experiências continuaram em novos entrelaces que foram se tecendo, engendrando uma rede de conversas-pensamentos entre pessoas- Projeto-escola-práticas-cotidianos, delineando os efeitos do processo do pesquisar sobre o objeto de pesquisa, o pesquisador e seus resultados (PASSOS e BARROS, 2010 p. 17).

5 Figura 2: Oficina de socialização do vídeo Comunicação: futuro presente, 2º ciclo, na UEFS Foto: Jociel, Uma rede-fluxo-troca constante de conversas-afecções que se expandiu, solicitando um novo ciclo de oficinas-encontros, ao final de 2013, produzindo novas experimentações visando cartografar outros percursos/relações dos estudantes e da professora, do tempo transcorrido, das memórias não dissipadas, das invenções e sensações que se aglutinaram a essas memórias provocando novos devires. Três oficinas e vários encontros resultaram na produção coletiva do vídeo Comunicação: futuro-presente com 35 minutos de novas expressões que provocaram/desencadearam o registro de outras conversas, possibilitando levantar elementos novos, apagar/borrar linhas de representação e acentuar os traços da experiência com o Projeto e a pesquisa. Práticas de construção de conhecimentos que in-ventam o currículo Pensados como um devir expressivo, os resultados foram expressos nos escritos da pesquisa no modo como os estudantes consideraram significativas e prazerosas as experiências vividas nos processos de construção de conhecimentos realizados através das produções-publicações de informações por meio das atividades/situações comunicativas experimentadas nos/dos/com os cotidianos escolares, provocando efeitos-sensações-afecções nas pessoas neles envolvidas. São processos de construção de conhecimentos que ocorrem por meio de experimentações, pela utilização tateante de mídias e linguagens através das quais os estudantes produzem e veiculam seus textos, orais e escritos, dentrofora da escola. Assim, os estudantes são desafiados a produzirem e publicarem informações em

6 cotidianos vividos, situações concretas de uso dos gêneros textuais, linguagens e mídias nos cotidianos do CEACO, afetando as pessoas neles envolvidas com sua voz-texto-imagens e maneiras de pensar-entender-expressar os acontecimentos e vivências nesses cotidianos. São atividades que possibilitam a produção-veiculação das expressões dos estudantes e que não visam, apenas, como acontece geralmente nas disciplinas escolares, a repetição/reprodução de conhecimentos em atividades cujo objetivo é verificar/determinar o que/quanto os alunos aprenderam do que lhes foi ensinado. O Projeto de Comunicação tem proporcionado oportunidades de produção de textos orais e escritos (construção de conhecimentos) nos gêneros notícia, entrevista, reportagem, editorial, dentre outros veiculados nos blocos dos programas de rádio e nas seções no blog e do boletim impresso. Além disso, os estudantes constroem conhecimentos quando utilizam/publicam/leem textos diversos, que não foram produzidos por eles no Projeto, a exemplo de mensagens, poemas, dicas, avisos, convites etc. Desse modo, acontecem situações de produção/utilização textual em cotidianos vividos destinados aos leitores/ouvintes que habitam os cotidianos da escola e às pessoas da comunidade externa, diferente do que geralmente acontece com os textos produzidos pelos estudantes na escola, lidos/ouvidos/avaliados apenas pelo professor. No vídeo Comunicação: futuro presente 2, produzido coletivamente no segundo ciclo de oficinas, com um tom enfático, o estudante Jociel 3 narrou que com o Projeto a gente aprende e vê coisas que a gente nem imagina. A gente chega a estudar no primeiro ano, a gente não imagina fazer uma apresentação de rádio, ser locutor... Aí com esse Projeto eu acho que muitos alunos saíram daqui inspirados em relação com a comunicação e através desse Projeto eu vejo a vida de forma diferente. (JOCIEL, vídeo coletivo, 2013) Conhecimentos conectados com a vida-mundo, que proporcionam novas percepções sobre ela-ele, sobre as redes de saberespoderes que nos engendram, que possibilitam negociações de sentidos/significados sobre a vida-mundo-comunicação-engendramentos que estamos inseridos. No Projeto o estudante tem o acesso aos meios de comunicação e passa a ter a noção de como funciona o processo pelo qual a notícia faz antes de chegar até a mídia (LAYS, vídeo E, 2012). Conhecimentos que se configuram como uma noção do processo de 2 Disponível em: https://drive.google.com/open?id=0b2c3ltyjcxaad1pmwk5itf84s0u&authuser=0. 3 Os estudantes participantes da pesquisa foram identificados ao longo do texto com o seu primeiro nome, uma maneira que encontramos para valorizar sua participação e expressar o processo coletivo/colaborativo de produção do texto-pesquisa. Vale lembrar que obtivemos todos os consentimentos legais dos sujeitos envolvidos para a publicação de suas narrativas, dos vídeos produzidos e de suas próprias imagens.

7 produção-veiculação de informação, uma experiência/experimentação com as mídias e linguagens envolvidas e que possibilitam a expressão de pensamentos nos/sobre os cotidianos escolares e fora deles, como acontece no boletim CEACO Informa e no blog CEACO. A estudante Tatiane comenta as experiências comunicativas e expressivas vividas por ela no Projeto de Comunicação, colocando como esse processo de construção de conhecimentos em cotidianos vividos é diferente e mais significativo em relação a outros comumente realizados na escola. [...] Eu aprendi a fazer notícias, reportagens... e eu gostei muito. [...] A gente tem que trabalhar em cima daquilo [...] pra transmitir aquilo para outras pessoas que não teve a oportunidade de ver no momento. Eu acho que é uma diferença enorme! A gente aprende mais! (TATIANE, vídeo coletivo, 2013) Nos diálogos realizados nas oficinas-encontro de produção-apresentação dos vídeos os estudantes narram sua preocupação produzir textos que sejam lidos/compreendidos por outras pessoas. Na sala de aula eu escrevo o wadsonês. Só eu mesmo entendo. E pro outros ler, tenho que escrever no português correto. (WADSON, oficina 14/11/2013). Essas narrativas parecem indicar que a produção-publicação de textos em cotidianos vividos, destinados a diversos leitores dentrofora da escola, provoca uma preocupação com a necessidade de escrever de maneira que suas produções/expressões sejam compreendidas por quem tem acesso a elas. Não é, portanto, uma preocupação com uma leitura avaliativa a ser feita somente pela professora, como geralmente ocorre nas atividades escolares. E, provavelmente, por serem produções que serão lidas pela comunidade escolar e externa, possibilitam aos estudantes uma aprendizagem efetiva, uma apropriação dos recursos linguísticos inerentes à escrita de textos, nos gêneros desenvolvidos/utilizados. Bastante... produção de texto, produção de notícias que eu não sabia nem pra onde ia, como mexer em computador... Muita coisa mudou! Porque a pessoa se desenvolve mais... naquilo que ela faz. Até na fala, em termos da rádio, se desenvolve bem mais. O meu caso foi esse: Eu desenvolvi em tudo! (REIGIANE, vídeo coletivo, 2013) [...] nós podemos escrever as notícias, os acontecimentos da escola, podemos expor as nossas ideias, pra que a gente possa escrever melhor, ler melhor, e, participando mais na vida escolar do nosso colégio [...] informando a comunidade. E no blog também é a mesma coisa. Só que, no blog, a diferença é que a gente pode também aprender a digitar no computador, a [...] interagir com outras pessoas e conhecer melhor esta tecnologia que o mundo nos oferece. (WADSON, vídeo B, 2012) O processo de produção de textos para o boletim e o blog possibilita a construção de

8 conhecimentos a respeito da atividade busca/registro de informações, por meio da participação dos estudantes nas atividades, eventos e/ou acontecimentos da escola, desempenhando o papel de repórter : fazer anotações, produzir fotografias, realizar entrevistas ou registrar opiniões de participantes e/ou organizadores, coletar material como folders ou roteiro de atividades etc.. Partindo dessas informações e materiais levantados/produzidos, os estudantes selecionam imagens, escrevem, revisam e digitamformatam os textos a serem publicados no boletim e no blog, assumindo ainda a tarefa de distribuição do impresso na comunidade escolar e externa. Esse processo também possibilita a construção de conhecimentos relacionados às mídias digitais, como o uso de softwares/aplicativos/ferramentas de edição de texto-imagens e postagem/publicação no blog, e mais recentemente no facebook. Contudo, os estudantes destacam, nos vídeos-narrativas produzidos, a rádio-escola e a produção de textos/expressões orais, considerando-as como as experiências mais marcantes vividas no Projeto de Comunicação. Eu vi que a rádio é um meio de comunicação muito desenvolvido. Com a rádio a gente aprende muito, perde mais a timidez, fala mais, se comunica mais... melhor (JOCIEL, vídeo G, 2012). Nos vídeos e nas oficinas surgemaparecem muitas narrativas sobre a rádio-escola e imagens do espaço onde ela se desenvolve e dos equipamentos utilizados. Também se destacam as imagens que apresentam a realização e simulação de programas radiofônicos o que nos indica a importância que os estudantes atribuem a essa atividade/linguagem e como as experiências realizadas proporcionaram a construção de conhecimentos significativos para suas vidas. Nas imagens abaixo (figura 3), é possível notar como o apresentador e a entrevistada utilizam variadas táticas enunciativas (CERTEAU, 2012) e transitam/deslizam habilmente pela linguagem radiofônica: espontaneidade diante da câmera e nas expressões; intensa interlocução apresentador-entrevistada-ouvintes (mesmo sendo uma simulação, o apresentador e a entrevistada incorporam nas expressões todo o cenário/contexto do programa Conexão colegial ); carga de emoções/sentimentos inserida nos discursos/mensagens, expressando afetos para com as questões abordadas; constante tentativa de envolver o ouvinte pela imaginação, provocando-os a desencadearem imagens e a comporem o cenário de expressão que possibilita a compreensão e a interação com o texto/discurso radiofônico.

9 Figura 3: Simulação de entrevista na rádio-escola, apresentada no vídeo Conexão Colegial Fotograma: Vídeo Conexão Colegial 4, Nos contextos das atividades-linguagens desenvolvidas no Projeto, as performances realizadas pelos estudantes ocorrem através dos usos que fazem, em suas práticas comunicativas, dos recursos linguísticos e midiáticos disponíveis em cada uma delas. Uma performance que se desenvolve por meio de atos enunciativos envolvendo a linguagem-mídia radiofônica, tendo como foco o ato de falar. Segundo Certeau (2012, p. 40), um ato de fala [...] opera no campo de um sistema linguístico; coloca em jogo uma apropriação, ou uma reapropriação, da língua por locutores; instaura um presente relativo a um momento e a um lugar; e estabelece um contrato com o outro (o interlocutor) numa rede de lugares e de relações. As performances dos estudantes na rádio-escola, assim como nas demais linguagensmídias utilizadas no Projeto de Comunicação, possibilitam a articulação-construção de diversos conhecimentos e saberes necessários à realização das atividades comunicativas/enunciativas, operadas nos cotidianos escolares, portanto, em situações de interlocução vividas/experimentadas com os sujeitos que deles participam. Situações e experiências que têm se expandido na vida de alguns estudantes que, partindo das experimentações realizadas no Projeto de Comunicação, buscaram atuar em outros espaços sociais como a rádio comunitária da cidade, em radioweb ou mesmo participando de cursos de graduação em Comunicação Social. Outras duas questões (interdependentes) que se destacam nos processos de construção de conhecimentos ocorridos no Projeto de Comunicação, sobretudo na rádio-escola, são a autonomia e a troca de experiências entre os estudantes. A própria rádio... lembrem aí como é que funcionava! Eu dava uma aula inicial... [...] as outras, o que é que eu fazia? Eu ia lá pra rádio ensinar vocês como é que 4 Disponível em: https://drive.google.com/open?id=0b2c3ltyjcxaazgzbqldpwwp5bwm&authuser=0

10 usava? Dificilmente eu ia pra lá ensinar vocês como é que usava. [...] Um colega que tinha mais experiência ia lá e ajudava vocês na rádio. E vocês se viravam. (HUDA, professora-coordenadora do Projeto, oficina 14/11/2013) Figura 4: Troca de experiências na operação dos equipamentos da rádio-escola Fotograma: Vídeo Jovem em talento 5, Os processos colaborativos de construção de conhecimentos e saberes foram bastante discutidos/narrados nas oficinas e nos vídeos. Isso talvez porque essas práticas escapam às formas tradicionais por meio das quais, geralmente, se organizam as atividades escolares, pelo fato dos estudantes, autonomamente, produzirem e publicarem textos (orais e escritos) enquanto práticas expressivas que afetam a si mesmos e aos demais estudantes e pessoas nos cotidianos escolares. Textos que provocam os interlocutores e desencadeiam uma produção coletiva de sentidos. Como é possível observar na sequência de fotografias abaixo, Wadson e Reigiane tateiam tentando ajustar o microfone para que possam entrar no ar. São três tentativas realizadas por Wadson (estudante cego) sem sucesso, o que faz Reigiane ficar desorientada, mas quando Wadson consegue abrir o volume do microfone, eles riem da satisfeitos. Figura 5: Wadson e Reigiane tateiam na operação dos equipamentos Fotogramas: Vídeo Interação jovem 6, Disponível em: https://drive.google.com/open?id=0b2c3ltyjcxaawuday0nrb2uyzta&authuser=0. 6 Disponível em: https://drive.google.com/open?id=0b2c3ltyjcxaay1m4nfk4dxd5yke&authuser=0.

11 Alguns vídeos mostram como os estudantes vão tateando, experimentando, por meio de tentativas e erros, de interações e colaboração, os usos das mídias e linguagens no Projeto. Por meio do contato com essas mídias os estudantes vão se apropriando delas como ferramenta de produção/realização de práticas comunicativas concretas nos cotidianos da escola, realizando usos que objetivam a produção de textos/narrativas a serem publicados, compartilhados com as demais pessoas. As práticas de construção de conhecimento realizadas-experimentadas pelos estudantes e a professora-coordenadora no Projeto de Comunicação constituem uma criação, a invenção de um currículo diferente/singular nos cotidianos do Ensino Médio, que destoa da mesmice geralmente encontrada/visibilizada nos cotidianos de escolas públicas. Um currículo praticadospensado que se materializa na expressão de ideias e pensamentos, que encontra eco/sentido na vida dos estudantes dentrofora da escola, em vez da costumeira e desinteressante reprodução/repetição de conhecimentos que aí geralmente se observa. É totalmente diferente das outras matérias! Porque as outras matérias tá preocupada com o resultado, tá preocupada com a nota. E aqui, a gente tá preocupado assim... como se fosse nosso trabalho, tá preocupado com o resultado lá fora. Com o que é que os funcionários, os alunos tão achando do que a gente tá fazendo, né? Porque a partir do resultado, do que eles estão achando, a gente pode sentir amor por aquilo e levar isso pro resto da nossa vida. (CÍNTIA, vídeo Comunicação: futuro-presente, 2013) As questões apontadas pela estudante Cíntia no vídeo desencadeou muitas discussões, na última oficina, em que os estudantes questionavam o currículo escolar e sua falta de sentido. Nas matérias é [...] muita teoria, [...] é muita coisa que ninguém usa mais (MIRLI, oficina 19/11/2013). Buscando compreender a questão recorremos à noção de conhecimento em rede que introduz um novo referencial às praticas sociais, considerando que nelas os conhecimentos são tecidos por meio das variadas interações entre os sujeitos que as realizam. Concordamos com a [...] a inversão da polarização moderna entre teoria e prática, passando-se a compreender o espaço prático como aquele em que a teoria é tecida. Tal proposição, ao reconceituar a prática como o espaço cotidiano no qual o saber é criado, elimina as fronteiras entre ciência e senso comum, entre conhecimento válido e conhecimento cotidiano. (LOPES; MACEDO, 2002, p. 37) Nesse sentido, recorremos também ao que afirmam Ferraço e Carvalho (2012) sobre a necessidade de pensarmos currículos em redes, realizando processos de construção de

12 conhecimentos a partir de agenciamentos coletivos, de relações de colaboração e compartilhamento de saberespoderes, de relações não/menos hierárquicas. Reconhecemos que, de um modo geral, os conhecimentos ensinados na escola estão desconectados da vida dos estudantes, são marcados pela fragmentação, dicotomização e hierarquização teoria-prática que ocorrem nas ciências e nos currículos escolares, como também ressaltam Oliveira e Sgarbi (2008, p. 55): Nos currículos escolares, até pela carga horária destinada às várias disciplinas, observamos que os conhecimentos teóricos são mais considerados que as disciplinas que abordam conhecimentos práticos [...]. Desse modo, consideramos que o processo de produção colaborativa e criativa de conhecimentos e criação de currículo investigado é expressão de uma crença-aposta nos [...] possíveis que se tecem nas redes de conhecimentos dos sujeitos praticantes dos cotidianos (FERRAÇO; CARVALHO, 2012, p. 159), pautada na poética de um futuro como devir e nas possibilidades da ação coletiva. Percebemos que as praticasteorias realizadas no Projeto de Comunicação constituem uma invenção carregada de singularidades, operada coletivamente a partir das necessidades/desejos das pessoas na escola, colocando os estudantes como protagonistas de uma produção que movimenta seus cotidianos e altera seus modos de realizarpensar construção de conhecimentos, currículo, sujeitos e cotidianos escolares. (In)Conclusões Com uma produção hibridizada de textos-imagens-sons, os estudantes fazem escolhasinterpretações-recortes-colagens nos/dos/com os cotidianos, inventam maneiras de verpensaragir no mundo, a partir das concepções/visões que lhes atravessam cotidianamente. Visões/concepções e textos/vozes/imagens/sons compartilhados nas vivências cotidianas em que se realizam as atividades do Projeto de Comunicação e que ressoaram nesta pesquisa como possibilidade de construção de conhecimentos e criação de currículo, de produção de visibilidades sobre o que in-ventam os sujeitos em suas práticasteorias nos cotidianos de escolas públicas, geralmente ofuscadas pela produção hegemônica de imagens negativas sobre eles, realizadas pelas mídias tradicionais e pela produção de conhecimentos científicos. Tantas são as possibilidades de se realizarpensar a produção de conhecimentos científicos nos/dos/com os cotidianos escolares, na atualidade, quanto as imensuráveis maneiras em que neles se processa a criatividade humana. Desejamos compreendercartografar-visibilizar os entrelaces que aí se produzem ao realizar práticas não autorizadas,

13 lançando mão dos artefatos culturais de que dispomos para potencializar a expressão, a invenção e transformação do mundo em que vivemos, noutro mais igualitário, democrático, cheio de vida e de possibilidades para (re)in-ventá-lo, sempre... Referências ALMEIDA, Edivan Carneiro de. Construção de conhecimentos e currículos in-venta-dos com as mídias nos cotidianos de uma escola pública de ensino médio Dissertação (Mestrado em Educação) Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, ALVES, Nilda et all. Como e até onde é possível pensar diferente? Micropolíticas de currículo, poéticas, cotidianos e escola. Revista Teias, v. 13, nº 27, p , jan/abr CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, RJ: Vozes, FERRAÇO, Carlos Eduardo; CARVALHO, Janete Magalhães. Lógicas de currículos em redes e projetos. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo, CARVALHO, Janete Magalhães (Orgs). Currículos, pesquisas, conhecimentos e produção de subjetividades. Rio de Janeiro: DP et Alii, 2012, p KASTRUP, Virgínia. O funcionamento da atenção no método cartográfico. In: PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; e ESCÓSSIA, Liliana da (Orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, p LOPES, Alice Casemiro; MACEDO, Elisabeth. O pensamento curricular no Brasil. In: LOPES, Alice Casemiro; MACEDO, Elisabeth. (Org.) Currículos: debates contemporâneos. São Paulo: Cortez, 2002, p OLIVEIRA, Inês Barbosa de. Currículos e pesquisas com os cotidianos. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo, CARVALHO, Janete Magalhães (Org.). Currículos, pesquisas, conhecimentos e produção de subjetividades. Rio de Janeiro: DP et Alii, 2012, p OLIVEIRA, Inês Barbosa de; SGARBI, Paulo. Estudos do cotidiano e educação. Belo Horizonte: Autêntica, PASSOS, Eduardo; BARROS, Regina Benevides de. A cartografia como método de pesquisaintervenção. In: PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; e ESCÓSSIA, Liliana da (Orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009, p PREVE, Ana Maria Hopers. Mapas, prisão e fugas: cartografias intensivas em educação Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2010.

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