1 - Macroambiente de Negócios

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2 Apresentação Brasil e Angola são países em construção. Têm em comum o desafio de transformar imensas potencialidades em termos de recursos naturais e humanos em riqueza efetiva, de forma a proporcionar níveis crescentes de prosperidade às gerações presentes e garantir o bem-estar de gerações futuras. As economias dos dois países apresentam inúmeras interfaces nas quais a complementaridade de interesses e capacidades é muito evidente, o que se reflete no significativo fluxo de comércio bilateral. Na verdade, Angola já é, de longe, o principal destino para alocação do investimento direto brasileiro na África. À medida que as economias do Brasil e de Angola crescem e se diversificam, torna-se mais relevante a participação do setor de serviços na composição da referida complementaridade. Não obstante, dificuldades existem e devem ser superadas num esforço conjunto dos dois países, com o envolvimento tanto dos governos quanto do empresariado. Aliás, a esse propósito elogios enfáticos devem ser feitos ao trabalho de alta efetividade empreendido pela Apex-Brasil, aos esforços do Ministério das Finanças de Angola e entidades correlacionadas e, principalmente, aos empresários brasileiros e angolanos que, a despeito de todos os percalços, têm logrado identificar e explorar oportunidades de negócios em serviços entre os dois países. Desse esforço participa a Secretaria de Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - SCS-MDIC, locus definidor de políticas públicas para a internacionalização das empresas brasileiras de serviços, como facilitadora da interlocução institucional e empresarial entre todas as partes interessadas na promoção e facilitação do comércio e do investimento em serviços entre Brasil e Angola. De fato, as comunidades empresariais do Brasil e de Angola atuantes no setor terciário têm a percepção difusa de que há relevantes oportunidades de negócios com o país vizinho, mas escapa-lhe a exata delimitação dessas oportunidades. Essa incerteza é particularmente aguda para as pequenas e médias empresas PMEs que não podem arcar com os elevados custos envolvidos na contratação de consultorias especializadas. Inteligência comercial abrange a coleta e sistematização de informação relevante para a formulação de políticas públicas e para a redução do risco empresarial no que se refere à inserção em mercados. Nesse contexto, e visando conferir maior visibilidade às oportunidades de negócios em serviços ente os dois países, a equipe de inteligência comercial da SCS-MDIC elaborou o estudo que se segue que, tendo em vista da importância das relações bilatérias, será objeto de permanente aperfeiçoamento e atualização. Este estudo é referenciado ao interesse nacional angolano manifesto em páginas de entidades oficiais na Internet e o interesse brasileiro tal qual é definido na Política de Desenvolvimento Produtivo e outros normativos. Caso o leitor queira manifestar qualquer crítica ou sugestão que possa contribuir para o aperfeiçoamento desse estudo, poderá fazê-lo encaminhando mensagem para 2

3 Índice 1 - Macroambiente de Negócios Território e População Economia PIB Outros índices Proteção aos Direitos de Propriedade Intelectual Quadro Atual para Negócios em Serviços Comércio Exterior e Investimentos Principais Empresas Compras Governamentais Caracterização do Setor de Serviços Caracterização dos Subsetores de Serviços Serviços Afeitos a Energias Renováveis Construção Software Facilidades e Impedimentos aos Negócios Presença Estrangeira em Angola: concorrência e parcerias Complementaridade e Distância Complementaridade Distância Conclusões Recomendações às Empresas Brasileiras Estatísticas de Comércio Exterior e Outras Informações Estatísticas Fluxo Comercial Exterior de Serviços Principais Acordos Firmados entre o Brasil e Angola Outros Estudos de Interesse Endereços e Links Úteis No Brasil Em Angola Outros Links de Interesse

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5 1 - Macroambiente de Negócios 1.1. Território e População Angola estende-se por km² (equivalente ao Estado do Pará), com grande variedade climática. O extenso litoral atlântico, de km, defronta-se com litoral brasileiro na mesma latitude do nordeste do Brasil. Administrativamente, Angola está dividida em 18 províncias, de diferentes vocações econômicas. O território angolano é extraordinariamente rico em recursos naturais, oferecendo oportunidades imediatas para atividades empresarias focadas no setor primário: petróleo, diamantes, minério de ferro, ouro, terras agrícolas e pastoris, recursos florestais, entre outros. As águas frias do litoral sul estão entre as mais piscosas do mundo. Rios caudalosos que descem das terras altas propiciam imenso potencial de aproveitamento hidrelétrico. À medida que as atividades focadas no setor primário venham a crescer e se diversificar, indo além da excessiva concentração no setor petrolífero e de diamantes, crescerão extraordinariamente as oportunidades no setor secundário e no setor terciário. Antecipando-se a isso, empresas estrangeiras têm estabelecido presença comercial direta em Angola, inclusive empresas brasileiras de serviços, realizando vultosos investimentos naquele que promete ser um dos mercados mais atrativos da África Subsaariana. A população total está em volta de 13 milhões de habitantes (pouco menos que o estado da Bahia), fortemente concentrada na capital (mais de 5 milhões) em virtude do êxodo provocado pela guerra civil. Quase 60% da população acima de 15 anos de idade afirma saber ler e escrever em português. A população angolana é majoritariamente jovem. Houve grandes progressos em instrução pública e em formação e treinamento profissional desde a independência. No entanto, grandes contingentes da população, mesmo no meio urbano, ainda está fortemente vinculada aos valores sociais e ao universo simbólico próprios da sociedade tradicional africana, aos quais a organização burocrática, impessoal e orientada ao lucro da empresa capitalista podem parecer estranhos, despropositados ou mesmo inumanos. Esse é um fator a ser considerado pela empresa estrangeira que queira estabelecer presença comercial direta no país, principalmente no setor terciário, no qual as relações pessoais intra e extraempresa são mais estreitas e freqüentes. Nesse contexto, a empresa deverá ser extremamente cuidadosa na seleção dos seus quadros e investir massivamente na formação e treinamento da mão-de-obra 1. 1 Ver ao final deste estudo Angola The Global Competitiveness Index in Detail, do Fórum Econômico de Davos. 5

6 Espera-se que, no futuro, o estreitamento da cooperação institucional ente Brasil e Angola possa levar a replicação no país africano, de entidades do chamado Sistema S, como SEBRAE, SESC, SENAR E SENAT, com imensos ganhos para o setor produtivo angolano. Diferentemente do que ocorre em muitos países da África Subsaariana, a epidemia de AIDS que assola o Continente não atingiu níveis calamitosos e está a iminência de ser contida. Portanto, sob esse aspecto, as empresas estrangeiras estabelecidas no país não têm que se defrontar com custos extraordinários imediatos e com futura redução de mercado consumidor, como ocorre, por exemplo, na África do Sul Economia PIB Considerada a equivalência do poder de compra, o PIB de Angola é da ordem de US$ 105,1 bilhões (dados referentes a 2008). Para efeito comparativo, pelo mesmo critério, o PIB do Brasil é de US$ bilhões 2. PIB de Angola e Países Selecionados PIB pela Paridade do Poder de Compra (PPC) e PIB pelo Câmbio Oficial (PCO) - US$ milhões Angola África do Sul Argélia Egito Nigéria PPC PCO Nos últimos anos, a economia angolana obteve altíssimas taxas de crescimento devido à expansão do setor petrolífero e a retomada de atividades econômicas interrompidas ao longo de 40 anos de conflitos armados. As cifras a seguir mostram o alto crescimento angolano nos últimos anos (números relativos ao Brasil entre parênteses): 11,2% em 2004 (5,7%), 20,6% em 2005 (3,2 %) e 18,6% em 2006 (4,0%), 20,3% em 2007 (Brasil: 5,7%) e 13,2% em 2008 (5,1%) 3. No entanto, é de se ressaltar que, em virtude da forte declínio do preço do petróleo e da retração da demanda por outras matérias-primas exportadas por Angola, é improvável que a economia angolana ostente números tão extraordinários enquanto perdurar o agudo quadro recessivo global. Estimativas do FMI apontam para um crescimento de 0,2 % em 2009 (-0,7%) e 9,3% para 2010 (3,5%). Em função da atividade petrolífera (dois milhões de barris diários, equivalente à atual produção brasileira de petróleo) e pelo fato de Angola ter uma população relativamente pequena, o país desfruta um dos maiores PIB per capita da África. 2 Economist Intelligence Unit. O PIB calculado pela equivalência de poder de compra retrata o tamanho do mercado potencial pela comparação dos custos relativos de produtos e serviços nos EUA, informação relevante para o investidor estrangeiro que deseje estabelecer presença comercial direta e atender o mercado local. 3 Fundo Monetário Internacional World Economic Outlook (2009). 6

7 PIB per capita pela Paridade do Poder de Compra (PPC) Angola e Países Selecionados (US$ mil) Angola África do Sul Egito Argélia Nigéria Na tabela abaixo, observa-se o grande crescimento do PIB angolano (calculado pelo câmbio oficial): 7

8 Nos próximos anos, segundo a Economist Intelligene Unit, taxa de crescimento do PIB e outros indicadores econômicos devem evoluir como segue: Indicadores Crescimento Real do PIB (%) Inflação de Preços ao Consumidor (%) Balanço Orçamentário (%PIB) Balança de Conta Corrente (% do PIB) Dívida Externa Total (US$ m) Taxa de Câmbio Kz/US$ 13,2-2,3 6,2 14,9 10,9 7,7 12,5 11,3 10,5 11,3 12,2 12,4 10,4 2,2 2,6 4,0 4,9 5,2 38,9-3,1 4,7 7,6 6,6 3,1 7, 597 5, 146 5, 330 6, 272 6, 609 6, ,03 78,98 83,50 83,08 81,17 82, Outros índices O Índice de Competitividade Global 4 do Fórum Econômico Mundial não classificou Angola nos dois últimos relatórios por falta de dados. No entanto, em 2007, o Fórum Econômico Mundial divulgou o chamado Africa Competitiveness Report. Nesta publicação, Angola ocupou a última posição (128ª). Para efeitos comparativos, o Brasil ocupava a 72ª posição no índice mundial de 2007 e, no último relatório, datado de 2008, ocupa a 64ª posição. Segundo esse índice, atualmente, a economia angolana está entre as menos competitivas do mundo, abaixo até mesmo da média das economias cuja competitividade está lastreada na abundância de fatores de produção primários (recursos naturais e mão-de-obra). Pelos critérios do Fórum Econômico Mundial, Angola é uma economia cuja competitividade deriva da abundância de recursos naturais, evoluindo gradativamente para uma economia cuja competitividade derivará essencialmente do uso eficiente dos fatores de produção, mas ainda distante do padrão dos países mais desenvolvidos, onde a competitividade decorre da inovação tecnológica, inclusive tecnologias de gestão. 4 Esse índice avalia o ambiente de negócios de cada país considerando vários fatores como efetividade das instituições públicas, qualidade da mão-deobra, eficiência dos mercados favorecimento à inovação etc. Global Competitiveness Report disponível em 8

9 Fonte: The Africa Competitiveness Report World Economic Forum 5 O Growth Enviroment Score (GES) atribuído pelo Goldman Sachs (maior banco de investimentos do mundo) a Angola é 2.1 (158ª posição). Para efeito comparativo, aos EUA foi atribuída pontuação 7.4 (10ª posição) e ao Brasil 3.8 (95ª posição) Proteção aos Direitos de Propriedade Intelectual Conquanto a legislação angolana proporcione proteção básica aos direitos de propriedade intelectual e a Assembléia Nacional esteja envidando esforços para aprimorar a legislação pertinente, no momento a efetividade desta ainda fica muito aquém do que se estima ser desejável. Como é notório, a proteção a direitos de propriedade intelectual constitui tópico muito sensível para empresas atuantes em certos setores de serviços (especialmente serviços de informática, audiovisual, propaganda e marketing, franquias etc). Os diplomas legais que regem a proteção aos direitos de propriedade intelectual são a Lei 3/92 para direitos de propriedade industrial e a Lei 4/90 para direitos autorais e copyrights. O assunto é de alçada do Ministério da Indústria (marcas, patentes e desenho industrial) e do Ministério da Cultura (direitos de autor, direitos sobre obra literária e criação artística etc). Em agosto de 2005, Angola aderiu à Convenção de Paris para Proteção da Propriedade Industrial e ao Tratado de Cooperação em Patentes da Organização para a Propriedade Intelectual (WIPO)

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11 2. Quadro Atual para Negócios em Serviços 2.1. Comércio Exterior e Investimentos Setor de atividades Setor de atividades Processamento de Produtos Agropecuários, Pesca e derivados, Construção Civil, Saúde e Educação, Infraestrutura de Energia e Água, Rodovias e Ferrovias, Portos e Aeroportos Telecomunicações, Equipamentos de transportes de cargas pesadas e passageiros Localização geográfica Zona de desenvolvimento Zona A: Província de Luanda, as capitais municipais das províncias de Benguela, Hulia Cabinda e o município de Lobito. Zona B: Restantes dos municípios das províncias de Benguela, Cabina e Huíla, e Províncias da Kwanza Norte, Bengo, Uige, Kwanza Sul, Luanda Norte e Luanda Sul. Zona C: Províncias de Huambo, Bié, Moxico, Cuando Cubango, Cuene, Namibe, Malanje e Zaire. Zonas econômicas especiais: Definida em projeto básico. Incentivos concedidos Tributos aduaneiros: Operações de investimentos isentos de pagamentos de tributos. Taxas industriais: proveniente de investimentos isenta dos pagamentos de taxas industriais. 3 Anos 8 Anos 5 Anos 4 Anos 12 Anos 10 Anos 6 Anos 15 Anos 15 Anos Taxas sobre ganhos de capital: Companhias que promovem investimentos de capital isentos das taxas de pagamento de capital. Observada a tabela acima, os incentivos concedidos pelo governo local variam segundo o setor de atividade e alocação geográfica. O investimento direto estrangeiro tem sido o motor da 11

12 expansão econômica do país. O governo angolano promove ativamente o investimento estrangeiro através da ANIP Agência Nacional para o Investimento Privado (http://investinangola.com/port/), subordinada ao Ministério das Finanças 8. A ANIP indica agricultura, construção e serviços afins, energia e águas, desenvolvimento e gestão de infraestruturas, turismo e hotelaria, indústria de processamento e extração de minérios, como os mais atrativos para o investidor estrangeiro. O gráfico abaixo ilustra a divisão administrativa de Angola. As áreas mais atrativas para as empresas de serviço são a capital e as cidades costeiras. Os maiores incentivos são reservados às províncias mais remotas ou mais devastados pela guerra civil 1. Bengo 2. Benguela 3. Bié 4. Cabinda 5. Kuando-Kubango 6. Kwanza-Norte 7. Kwanza-Sul 8. Cunene 9. Huambo 10. Huíla 11. Luanda 12. Lunda-Norte 13. Lunda-Sul 14. Malanje 15. Moxico 16. Namibe 17. Uíge 18. Zaire 8 12

13 Incentivos adicionais são concedidos para empreendimentos nos mesmos setores de atividades referidos na tabela anterior, independentemente de alocação geográfica do investimento, como segue: Setor de Atividades Incentivos Adicionais São Considerados como Custos Processamento de produtos agropecuários, Pesca e derivados, Construção civil, Educação e saúde, Infraestrutura de energia e água, Rodovias e ferrovias, Portos e aeroportos Telecomunicações, Equipamentos de transporte de cargas pesadas e passageiros. Isenção de tributos sobre a produção industrial no período de até 10 anos: Criação de 50 ou mais trabalhos de expediente completo para os cidadãos nacionais. Investimentos em novos empreendimentos e na recuperação de empreendimentos destruídos ou paralisados nas áreas prioritárias (apenas zona C). Até 100% dos gastos dispêndios na construção e reparo de rodovias, ferrovias, telecomunicações, abastecimento de água e infraestrutura social para os trabalhadores, suas famílias e habitantes locais. Até 100% dos gastos dispêndios no treinamento profissional em todos os campos relativos à produção e serviços prestados a pessoa. Até 100% de gastos decorrentes dos investimentos alocados de apoio a setor cultural e/ou aquisição de criações artísticas de criadores angolanos residentes em Angola e que não venham a ser vendidos em um período inferior a dez anos. Em 2007, segundo a UNCTAD, o investimento direto estrangeiro correspondia a cerca de 20% do PIB angolano. O comércio exterior angolano é caracterizado por uma altíssima concentração da pauta de exportações em poucos produtos, notadamente petróleo e gás, bens cuja extração, transporte e refino respondem por 85% do PIB angolano e importação de quase todos os bens e serviços de maior valor agregado, inclusive alimentos. Segunda a Agência Nacional para o Investimento Privado de Angola, as exportações de Angola têm como principais destinos: EUA (44,2%), China (18,7%), França (9%), Bélgica (8,8%) e Espanha (2,1%). Os principais produtos importados por Angola são: maquinaria e equipamento elétrico, veículos, medicamentos, produtos alimentares e têxteis. A maior parte das importações angolanas origina- 13

14 se dos seguintes países: Portugal (20%), África do Sul (13%), Estados Unidos (13%), França (7%) e Brasil (6%). 9 O comércio exterior angolano está caracterizado por superávit na balança de bens e déficit na de serviços. Balança de Bens (US$ bilhões) 66,3 44,4 45,2 24,1 8,4 15,8 31,9 8,8 23,1 13,7 30,7 21, Exportação Importação Saldo Balança de Serviços (US$ bilhões) 11,61 6,191 6,86 0,177 n.d. 0,311 n.d. 0, ,0-6,9-11,3 Exportação Importação Saldo 9 Fonte: 14

15 Total da Balança Comercial (Bens + Serviços) 72,5 Balança Comercial (US$ bilhões) 44,7 24,3 n.d. 15,6 25,3 19,4 n.d. 0, ,6-48,2 Exportação Importação Saldo As principais fontes de investimento estrangeiro direto em Angola são mais ou menos coincidente com a origem das importações. O Brasil é um dos investidores estrangeiros mais importantes, respondendo por 10% do PIB angolano 10. De fato, no Continente Africano, Angola é a principal destinação do investimento brasileiro, como evidencia o quadro abaixo. Investimento Brasileiro na África - Estoque Acumulado até 2007, em US$ Milhões Fonte: BACEN Angola Ilhas Maurício África do Sul Guiné Equatorial Moçambique Angola, mesmo no contexto africano, no que tange ao quadro institucional e político, está longe de se configurar como um dos mercados mais seguros, transparentes e previsíveis para alocação do investimento estrangeiro. No entanto, é um país rico em recursos naturais, grande exportador de petróleo, com uma das maiores taxas de crescimento econômico do mundo, onde o investidor estrangeiro disposto a assumir riscos encontrará diversificadas oportunidades de negócios, principalmente no setor terciário. Há três dezenas de operações de financiamento do BNDES para Angola. Cerca de metade dos projetos é para financiar a construção de rodovias por construtoras brasileiras como Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa. Há também financiamentos para bens e serviços diversos 10 InfoMoney (www.infomoney.com.br). 15

16 como a construção da Hidrelétrica de Capanga, centros de pesquisa e tecnologia etc 11. Atualmente, mais de 30 empresas brasileiras operam em Angola 12. As afinidades linguísticas e culturais e a proximidade política entre os governos de Angola e do Brasil (há vários projetos de cooperação técnica e econômica firmados) são fatores que favorecem a implantação de empresas brasileiras no mercado angolano. Não obstante, o investidor brasileiro tem perdido terreno para competidores estrangeiros mais ágeis em identificar oportunidades negociais num país que se afigura como um dos mais atraentes da África. Assim, o setor de petróleo é dominado por empresas americanas e européias, o setor ferroviário por uma empresa anglo-belga, o setor financeiro, pesca e consultorias pelos portugueses e no que se refere aos serviços de engenharia e construção civil, os chineses vêm se colocado com muita agressividade 13. Surpreendentemente, Angola já é o mais importante parceiro comercial da China na África, à frente da Nigéria e da África do Sul. Juntamente com Gana e Moçambique, Angola tem sido o país africano mais receptivo às investidas da diplomacia comercial brasileira visando promover os biocombustíveis como commodities com abrangência global no que se refere à produção e ao consumo. Espera-se que disso resultem relevante volume de exportações do Brasil para Angola de bens e serviços pertinentes à produção e distribuição de biocombustíveis ainda num futuro próximo 14. Também há boas oportunidades para empresas estrangeiras provedoras de serviços na área de mineração 15, em especial serviços de alta tecnologia, área em que as empresas locais tendem a ser pouco competitivas. Serviços afeitos às tecnologias da informação e comunicação, inclusive serviços de valor adicionado a telecomunicações são um segmento com amplo potencial para o incremento de comércio e investimentos entre Brasil e Angola. Recentemente, o governo de Angola tem envidado esforços para viabilizar infra-estruturas e capacitação de mão-de-obra nessa área indispensável para a expansão dos setores mais modernos da economia 16. O volume total de negócios dos associados da AEBRAN Associação dos Empresários e Executivos Brasileiros em Angola (mais de meio bilhão de dólares anuais) e a diversidade das áreas em que atuam constituem excelente indicativo das oportunidades existentes em Angola. De fato, os associados da AEBRAN têm negócios nas seguintes áreas: agroindústria, agropecuária, alimentação industrial, comércio geral varejista e atacadista, comunicações, concessionária de veículos, construção civil, consultoria empresarial, educação, eletrodomésticos, energia, engenharia e projetos, equipamento de refrigeração industrial, formação e capacitação técnicaprofissional, incorporação e promoção imobiliária, informática, loterias, medicamentos, mineração, navegação marítima, petróleo, propaganda e marketing, representações comerciais, restaurantes, saúde, telecomunicações e transportes 17. A presença comercial de instituições financeiras estrangeiras tende a fomentar o fluxo de comércio e investimentos entre o país de origem e o país anfitrião, dado que, via de regra, as instituições financeiras têm investimentos cruzados com empresas do setor secundário e terciário. Nesse contexto, certamente é de interesse comum de Brasil e Angola incentivar o estabelecimento de empresas e o cruzamento de investimentos nesse setor. Ainda não há bancos brasileiros estabelecidos em Angola, mas cogita-se que isso venha a ocorrer em breve com a abertura de agências do Banco do Brasil e Banco Rural do Brasil O Estado de São Paulo, 23/04/ Jornal Mundo Lusíada, 10/10/2007 (http://www.mundolusiada.com.br/politica/poli274_out07.htm). 13 A Nova Ameaça Chinesa empresas brasileiras sofrem mais um golpe das concorrentes chinesas desta vez na África, artigo publicado na revista Exame edição de 31/01/ O Estado de São Paulo, 23/04/ Além de petróleo, gás e diamantes, Angola tem relevantes jazidas de minério de ferro, urânio e ouro. 16 Angolanos debatem no Rio perspectivas tecnológicas (http://www.fesa.org.br/imprensa/angolahoje/2007/julago/33/33%2035.pdf)

17 2.2. Principais Empresas A maior companhia de Angola é a paraestatal petrolífera Sonangol. O Grupo Sanangol compreende várias subsidiárias do setor de serviços que têm como principal cliente a própria petrolífera. Essas subsidiárias atuam nos setores de transporte, logística, locação e assistência técnica de máquinas e equipamentos, telecomunicações, engenharia e construção civil e serviços financeiros. O faturamento do Grupo Sonangol representa boa parte do PIB angolano. Outras grandes empresas de capital majoritariamente angolano são Angola Air Charter, Caminhos de Ferro de Angola e TAAG Angola Airways. Todas essas empresas são grandes adquirentes de serviços no mercado interno e, principalmente, no exterior. Ainda não há empresas angolanas listadas entre as 2000 maiores empresas de capital aberto do mundo pela Forbes 19. Para efeitos comparativos, o Brasil tem 34 empresas relacionadas no referido índice. Estas empresas representam 16,7% do PIB brasileiro e somam US$ 319 bilhões em valor de mercado. O parque industrial angolano, com exceção do refino de petróleo, ainda é incipiente. É focado na indústria leve (têxtil, agroalimentar, bens de consumo não-duráveis etc) e na indústria de transformação de produtos primários. Há umas poucas indústrias de base (siderurgia, indústria metalomecânica, química etc) e estaleiros para reparo de embarcações de pesca. Cogita-se que o parque industrial angolano venha a crescer significativamente nos próximos anos, já que o país necessita diversificar sua economia e gerar emprego e renda para uma população em franco crescimento. Em virtude da disponibilidade de divisas decorrente das exportações de petróleo e diamantes, Angola está capacitada a importar os bens e serviços necessários para a expansão do setor. Nesse quadro, empresas brasileiras prestadoras de serviços de consultoria, assistência técnica e manutenção podem se inserir competitivamente em Angola, disputando espaço com as concorrentes estrangeiras Compras Governamentais Em Angola, as compras governamentais, juntamente com as aquisições das empresas paraestatais, constituem a maior parte do mercado de serviços angolano de interesse para as empresas estrangeiras. Assim como o Brasil, Angola não é signatária do acordo da OMC sobre compras governamentais. O governo publica os editais de licitação na imprensa local e internacional 15 a 90 dias antes da recepção das propostas. Os formulários necessários para participar do processo licitatório são disponibilizados pelo órgão da administração direta ou indireta diretamente afeito ao objeto da licitação mediante o pagamento de uma taxa não reembolsável. As propostas devidamente documentadas são encaminhadas para avaliação do órgão interessado após o depósito de uma caução. Na percepção de muitas empresas, os prazos entre a publicação das convocatórias e o encerramento das inscrições são exíguos e informações técnicas relevantes para a elaboração de propostas competitivas não são prontamente disponibilizadas para o público em geral. É geral a percepção geral de que falta transparência ao processo, conquanto, nesse aspecto, tenham ocorrido progressos em virtude do aprimoramento da legislação 20. As empresas brasileiras de serviços de grande envergadura financeira e reconhecida competência técnica não tem tido dificuldades extraordinárias para contratar com o governo de Angola a despeito dos esforços da concorrência estrangeira. No entanto, às pequenas e médias empresas de serviços brasileiras é recomendável firmar parceria com empresa angolana, ou participar de consórcio ou joint venture envolvendo empresa brasileira ou estrangeira de grande porte (frequentemente empresa portuguesa). 19 Forbes 2000 é um ranking atualizado anualmente abarcando as 2000 maiores empresas do mundo organizado pela revista Forbes (http://www.forbes.com/2007/03/29/forbes-global-2000-biz-07forbes2000-cz_sd_0329global_land.html)

18 2.4. Caracterização do Setor de Serviços O setor de serviços em Angola ainda é pequeno (cerca de 25% da economia do país) e bastante concentrado em atividades correlatas à extração e ao refino de petróleo. Porquanto Angola tenha sido a economia de mais rápido crescimento da África nos últimos anos, o setor de serviços também tem registrado forte expansão, atraindo empresas de diversas nacionalidades, inclusive brasileiras. De fato, em decorrência da reconstrução da infraestrutura do país, da expansão da infraestrutura de geração e transmissão de energia e do crescimento urbano, há extraordinárias oportunidades no setor de serviços relativos à engenharia, construção civil e arquitetura. Também existem relevantes oportunidades de negócios nos setores de distribuição e vendas (inclusive franquias), consultoria e assistência técnica e serviços afeitos às tecnologias da informação e da comunicação. Os números referentes ao turismo em Angola crescem com bastante intensidade. Em 2007, o número de turistas que visitaram Angola aumentou 62% em relação ao ano anterior, demonstrando o grande crescimento do setor. Os turistas vêm, em ordem de relevância, da Europa, Estados Unidos, África, Ásia, Oriente Médio e Austrália. 21 O turismo é uma área de grande potencial para o incremento do comércio e do investimento entre Brasil e Angola. Devido ao exotismo das paisagens e riqueza da fauna angolana 22, o país pode configurar-se como destinação turística relevante para os brasileiros, como já o são África do Sul e Namíbia. Além disso, as visitas feitas por brasileiros a Angola, em decorrência de negócios, podem funcionar como estímulo ao desenvolvimento do interesse brasileiro pelo país. Por outro lado, comerciantes angolanos desembarcam no Rio de Janeiro para comprar os mais diversos produtos para serem revendidos em Angola, configurando um relevante turismo de negócios. Uma área de grande potencial de negócios para empresas brasileiras é o chamado turismo focado na prestação de serviços médicos e odontológicos, haja vista a excelência dos profissionais brasileiros e a carência desses serviços em Angola. Contingente significativo de angolanos viaja a Europa em busca desses serviços quando esses estão acessíveis em condições mais vantajosas no Brasil. Na verdade, Angola é um dos países da África subsaariana com maior renda per capita, as elites viajam regularmente ao exterior. Para essas pessoas, o Brasil afigura-se como atrativo destino turístico, em parte devido à proximidade geográfica, afinidade linguística e cultural e à facilidade de locomoção. A TAAG (Linhas Aéreas de Angola) opera voos diretos entre Luanda e Rio de Janeiro. A ANAC Agência Nacional de Aviação Civil autorizou a empresa Oceanair a operar voos ente Luanda e São Paulo. Para que o fluxo turístico entre os dois países possa se expandir, faz-se necessária a ampliação da frequência de voos entre Luanda e Rio de Janeiro (atualmente são três voos por semana) e a criação de novas rotas aéreas ligando Angola e Brasil. A expansão do turismo em Angola abre mais um nicho de mercado para as empresas brasileiras de construção civil, engenharia e arquitetura, haja vista a necessidade de melhoramento de aeroportos, expansão da rede hoteleira etc. Também há oportunidades para empresas de consultoria especializada, operadoras de turismo e empresas especializadas na qualificação de recursos humanos. Angola precisa capacitar sua mão de obra para atender os altos padrões internacionais e pode aproveitar a vasta experiência brasileira para isso. A cooperação institucional entre Brasil e Angola na área turística progride a passos largos. Em agosto de 2008, veio ao Brasil uma missão angolana para conhecer as políticas e programas e 18

19 desenvolvidos pelo governo brasileiro em turismo e hotelaria. O governo angolano pretende utilizar a experiência brasileira e firmar acordo de cooperação técnica 23. O diretor do Instituto de Fomento Turístico angolano, Amaro Francisco, disse que Angola, depois de resolver seus problemas de infraestrutura, tem potencial de ser um dos destinos turísticos mais importantes na África 24. Em 2010 Luanda sediará o Campeonato Africano das Nações (CAN2010). O evento deve representar um forte impulso para a expansão da rede hoteleira da capital, vindo a gerar oportunidades de negócios para empreiteiras, empresas especializadas na qualificação de mãode-obra etc Caracterização dos Subsetores de Serviços Serviços Afeitos a Energias Renováveis Em decorrência de o Brasil dispor de recursos energéticos exportáveis de grande monta (biocombustíveis e o petróleo e gás a serem extraídos da chamada camada pré-sal), o item energia, incluindo bens e serviços, será um dos mais fortes motores de atração e expansão de investimentos do País nas próximas décadas e de projeção das empresas brasileiras no exterior. O aproveitamento econômico das energias renováveis envolve não só a produção de bens (biocombustíveis, insumos químicos, geradores, turbinas, maquinário diverso etc), mas também um considerável aporte de serviços. Estes compreendem desde os mais gerais como logística, distribuição, vendas e aluguel de equipamentos, até os mais específicos, de alto valor agregado, como os serviços inerentes a P&D, consultorias e assistência técnica especializada. Assim, no que se refere a comércio e investimentos em bens e serviços afeitos a biocombustíveis, vislumbram-se crescentes oportunidades já que Angola tem potencial para se tornar um importante produtor de biocombustíveis, com possibilidade de se tornar um exportador do produto para os países da União Européia. Atualmente, Angola não figura entre os países produtores de biocombustível. No entanto, faz parte dos projetos do governo atual desenvolver o setor e, assim, estuda a aprovação de uma lei que prevê a ocupação de 30 mil hectares para o cultivo de cana de açúcar e o investimento de U$ 258 milhões 26. O primeiro projeto está previsto para a província de Malanje, onde o governo tenta reavivar a economia agrícola após décadas de guerra. O Brasil terá importante participação na implantação da produção de biocombustíveis no país, com a previsão de transferência de tecnologia brasileira na produção de biocombustíveis. A empreiteira brasileira Odebrecht anunciou, em agosto deste ano, um investimento de US$ 220 milhões através do consórcio Biocom, com a angolana Sonangol, para a produção de açúcar e energia no norte de Angola. O projeto angolano-brasileiro é o segundo de grande impacto na área de biocombustíveis uma vez que em 2007 o grupo AfriAgro 27, criado a partir de um consórcio luso-angolano, anunciou seus planos para um investimento de US$ 46,6 milhões em uma usina de produção de biodiesel que usará como matéria-prima o óleo de palma, planta característica da região. O projeto de criação de óleo de palma para produzir biodiesel da AfriAgro começou no início de 2008 e nesse mesmo e O grupo português Atlântica detêm 45% das ações da empresa e os outros 55% são dividos entre as empresas angolanas N zogi Yetu(20%), Coroagest (15%) e Lion(20%). 19

20 ano o Grupo Atlântica criou a Escola Agrária no Ambriz para formar técnicos, principalmente para serem absorvidos pela própria empresa Construção As afinidades lingüísticas e culturais e a proximidade política entre os governos de Angola e do Brasil (há vários projetos de cooperação firmados ou em implantação) são fatores que favorecem a implantação de empresas brasileiras no mercado angolano. Não obstante, o investidor brasileiro tem perdido terreno para competidores estrangeiros mais ágeis em identificar oportunidades negociais num país que se afigura como um dos mais atraentes da África. Assim, no setor de engenharia e construção civil os chineses têm se colocado com muita agressividade. Nesse sentido, em 2004, o banco oficial chinês que financia o comércio exterior (China s Eximbank) aprovou uma linha de crédito de US$ 2 bilhões. Surpreendentemente, Angola já é o mais importante parceiro comercial da China na África, à frente da Nigéria e da África do Sul. Em decorrência da reconstrução da infraestrutura do país, da expansão da infraestrutura de geração e transmissão de energia e do crescimento urbano, há extraordinárias oportunidades no setor de serviços relativos à engenharia, construção civil e arquitetura. Empresas brasileiras de construção civil, que detêm excelência na área e apresentam, ainda, as facilidades linguísticas e culturais já mencionadas, já atuam em Angola com esse fim, tendo construído desde centros de comércio (shopping centers) até a maior hidrelétrica do país. A verdadeira gigante brasileira em Angola é a Construtora Norberto Odebrecht. Há 25 anos no país, a empresa já participou e está participando de dezenas de obras públicas e privadas no país, como a construção da hidrelétrica de Capanda, de 520 megawatts. Para além do gigantismo da Odebrecht e de outras construtoras do primeiro time do Brasil, como a Camargo Corrêa e a Queiróz Galvão, e das pretensões da Petrobras, os empresas brasileiras estão espalhados por praticamente toda a renascente economia angolana Software O Brasil é um grande mercado de softwares com um volume de negócios que superou US$ 20,6 bilhões (2007, IDC) sendo US$ 9 bilhões em serviços. Possui um mercado de serviços competitivo e diversificado (Accenture, Atos Origin, BRQ, BT, Cast, CPM Braxis, Datasul, DTS, EDS, GPTI, GFT, HSBC, Hughes, IBM, Intel, Itautec, Microsoft, Politec, Promon, Satyam, Softtek, Siemens, Stefanini, Sun, TCS, Tivit, Totvs, Virtus, Ubik, Unisys), profissionais de TI com sólida experiência que já somam mais de 1,7 milhão no acumulado de 45 anos em que o país investiu na área. O setor de TI é um dos mais dinâmicos da economia brasileira. O Brasil é, há muito tempo, um pioneiro na área de políticas de incentivo à ciência e tecnologia, P&D e investimento no setor de TI. O Governo brasileiro garante uma variedade de incentivos ao mercado de TI, tais como reduções de impostos e subsídios. O Brasil está em segundo lugar (depois dos EUA) em população de mainframe, com uma grande oferta de profissionais habilitados em COBOL28. Líder em programadores de Java, com vários JUGs29, e possui o maior JUG no mundo (18 mil membros, IDC). O Brasil é visto como um dos maiores mercados para softwares no mundo, tendo gerado um total de US$10 bilhões em Ademais, o setor de TI tem crescido a uma taxa anual de 10% desde 2000, tendo inclusive, sido um dos setores menos afetados pela recente crise econômica. De acordo com o relatório do Fórum Econômico Mundial Global Information Technology Report , o Brasil é o 59º colocado dentre os 134 países avaliados, tendo boa colocação em 28 COBOL é uma linguagem de programação de Terceira Geração. Este nome é a sigla de COmmon Business Oriented Language (Linguagem Orientada aos Negócios), que define seu objetivo principal em sistemas comerciais, financeiros e administrativos para empresas e governos 29 JUG Java User Group 30 Fórum Econômico Mundial Global Information Tachnology Report: 20

21 quesitos como oferta local de banda larga, participação da internet em negócios e de spesa em P&D. Grandes empresas brasileiras de Software como Stefanini e Totvs já atuam no mercado angolano. Mas ainda há espaço para crescimento das empresas brasileiras do setor em Angola. Um campo que tem se mostrado promissor refere-se ao desenvolvimento de softwares relacionados às atividades do petróleo, tendo em vista a atual base econômica angolana e também pela tentativa do país em diversificar a economia do petróleo. O Brasil é grande fornecedor de tecnologias relacionadas, sendo líder mundial em tecnologia de exploração de petróleo em águas super-profundas. 21

22 22

23 3. Facilidades e Impedimentos aos Negócios 3.1. Presença Estrangeira em Angola: concorrência e parcerias Não há Brasil sem Angola. Assim se caracterizava a conexão econômica entre as duas mais importantes colônias do Império Marítimo Português do final do século XVI ao início do século XIX. Após esse período, Angola esteve sob o jugo do colonialismo português, com poucos vínculos com o Brasil, até a independência conquistada em A independência foi precedida por vários anos de guerra que desestruturou por completo a economia do país. A guerra civil que perdurou até 1992 inviabilizava a normalização da vida econômica do país e afugentava o investidor estrangeiro. Nesse período, os únicos setores que prosperaram significativamente foram a exploração petrolífera e a mineração de diamantes. Hoje, Angola buscar utilizar as receitas geradas por esses dois setores para empreender um projeto de desenvolvimento que considere as diversas potencialidades do setor primário (mineração, agropecuária e florestas, pesca etc), com o concomitante desenvolvimento dos setores secundário e terciário. Para isso, Angola empenha-se em construir parcerias com empresas e governos estrangeiros de forma a obter o capital, a tecnologia, a capacidade institucional, a formação e treinamento de quadros e a expertise em gestão de negócios de que carece. Nessa empreitada, os principais atores tem sido Portugal, demais países da União Européia, China, EUA, África do Sul e Brasil. Ainda em um nível de interação bem menos intenso, Rússia, Japão, Índia e Coréia buscam ampliar negócios no promissor mercado angolano. A rationale econômica e estratégica que norteia as ações de cada um desses atores varia caso a caso, em parte se complementam e em parte se excluem, em parte vão ao encontro do interesse nacional angolano e em parte com ele colidem, gerando um quadro complexo de convergências e dissensões que Angola, nos limites de suas fragilidades institucionais e organizacionais, procura orquestrar em seu favor. Interessa às entidades afeitas à promoção das exportações e dos investimentos brasileiros no exterior e às empresas brasileiras focadas no mercado angolano conhecer profundadamente o referido quadro, de forma a potencializar os ganhos e reduzir os riscos de entrada e atuação no mercado angolano. Nesse contexto, seguem-se algumas considerações sucintas sobre cada um dos principais competidores/parceiros do Brasil em Angola 31 : Portugal 32 : presença difusa em todos os setores de serviços, lançando mão de facilitadores como a afinidade lingüística e cultural, conhecimento profundo da realidade institucional angolana e engajamento de quadros angolanos capacitados na antiga metrópole para estabelecer conexões com atores locais e firmar-se em nichos de mercado exclusivos, vazios de concorrência local ou estrangeira. Forte presença no setor financeiro e bancário, hotelaria, distribuição e vendas, elaboração de projetos, empreendimentos imobiliários, consultorias e assistência técnica. Presença difusa em todos os setores de serviços. As empresas portuguesas atuam em áreas onde as empresas brasileiras têm forte interesse atual ou potencial. Muitas vezes atuam em parceria com empresas de outros países da União Européia, mais capacitados em termos financeiros e tecnológicos. Porquanto sejam tão estreitos os vínculos empresarias e institucionais Portugal-Angola, ultimamente as empresas portuguesas tem sido cortejadas inclusive pelos chineses 33. De fato, a conexão portuguesa pode se mostrar instrumental para as pequenas e 31 A respeito de oportunidades de negócios em serviços entre o Brasil e Portugal, diversos países da União Européia, China, EUA e África do Sul, há estudos elaborados pela equipe de inteligência comercial da Secretaria de Comércio e Serviços disponíveis em Em alguns desses estudos há informação sobre a possibilidade de parcerias para atuação em Angola. 32 Mais de três décadas após a independência, Portugal ainda é a principal origem das importações angolanas, respondendo por 18,2% do total (The Economist). As exportações portuguesas para Angola são diversificadas, contemplando uma expressiva participação de serviços. Para informações sobre a atividade de empresas portuguesas em Angola é útil contato com a Câmara de Comércio e Indústria Portugal Angola 33 Ver artigo Empresário chinês em Portugal quer aproveitar posição portuguesa para comércio China - Angola do qual transcreve-se: O presidente do Centro de Distribuição e Negócios Luso-Chinês e do Centro Parque Industrial Ango-Sino considerou recentemente que Portugal tem uma posição única para servir de plataforma comercial entre a China e Angola. O presidente do Centro de Distribuição e Negócios Luso-Chinês e do 23

24 médias empresas brasileiras de serviços com foco no mercado angolano, e mesmo para grandes empresas, seja apenas numa fase inicial de aprendizado, seja para a constituição de parcerias de longo prazo. União Européia: no seu conjunto, a União Européia representa o maior cliente das exportações angolanas e o maior fornecedor das importações de alto valor agregado, inclusive máquinas e equipamentos e toda sorte de bens de capital. Em função disso, são gerados negócios em diversos setores de serviços que exijam grande envergadura financeira e tecnológica, muitas de provimento exclusivo dos mesmos fornecedores europeus dos bens importados por Angola. A União Européia é também um grande provedor de cooperação técnica, capacitação institucional e ajuda financeira, sempre vinculada à importação de bens e serviços da UE. É notória a ingerência de grandes transnacionais européias, com a complacência ou mesmo a cooperação de seus respectivos governos, em assuntos de Estado em muitos países africanos. Esse tipo de ação, ao qual sucumbiram países no entorno de Angola, é energicamente rechaçado pelo governo angolano. EUA 34 : desde o fim da guerra fria, que foi a gênese dos conflitos armados em Angola (a guerra de independência, a invasão da África do Sul sob o regime do apartheid, a guerra civil ), as relações econômicas entre Angola e EUA tiveram forte incremento, centradas na extração e exportação de petróleo. Essas relações devem continuar a se expandir, haja vista o interesse americano em reforçar vínculos com um exportador de petróleo politicamente estável e o interesse angolano em diversificar fontes de investimento e parcerias comerciais. Essa aproximação deve dar-se à custa da União Européia e poderá vir a beneficiar involuntariamente as empresas brasileiras ao reduzir a relevância da intermediação das empresas portuguesas. China 35 : a expansão da demanda chinesa por commodities, a grande disponibilidade de crédito à disposição das empresas daquele país e a prioridade atribuída pelo governo angolano à recuperação e expansão da infraestrutura do país no prazo mais curto possível fizeram que as empreiteiras chinesas vencessem várias licitações envolvendo obras de grande porte 36, em parte à custa dos interesses das empreiteiras brasileiras 37. Segundo matéria veiculada pela BBC British Broadcasting Corporation, In exchange for Angola's oil, energy-hungry China is helping to repair the country's infrastructure. Although Beijing insists its credit comes with no strings Centro Parque Industrial Ango-Sino considerou recentemente que Portugal tem uma posição única para servir de plataforma comercial entre a China e Angola e defendeu maior investimento do governo português na promoção do comércio trilateral. "A porta da China está sempre aberta para Portugal. Se o apoio do governo português e os conhecimentos dos portugueses sobre a China se tornarem mais fortes, o acesso ao país será mais fácil e o papel de ponte de ligação entre a China e os países lusófonos sairá mais reforçado,", afirmou Zhan Yongqiao em entrevista à agência noticiosa oficial chinesa Nova China. 34 Atualmente, os EUA são o principal mercado para as exportações angolanas, respondendo com 34,9 % do total (The Economist). A imensa maioria dessas exportações é petróleo e derivados. 35 Surpreendentemente, Angola já é o mais importante parceiro comercial da China na África, à frente da Nigéria e da África do Sul. A China tem concedido vultosos empréstimos a Angola para a contratação de empreiteiras chinesas. A esse propósito, consultar artigo de fevereiro de 2009 da Câmara de Comércio Brasil-Chiua, China empresta mais US$ 1 bilhão para reconstrução de Angola, do qual transcreve-se: A China vai conceder US$ 1 bilhão em créditos adicionais para a reconstrução de Angola, depois da redução abrupta da arrecadação do país africano, com a queda do preço internacional do petróleo. Com o crédito adicional, a ajuda chinesa subiu para cerca de US$ 5 bilhões, através do Eximbank, resultado da segunda visita à China, em dezembro de 2008, do presidente angolano José Eduardo dos Santos, em menos de cinco meses. (...) O Ministério das Finanças angolano já assinou com o Eximbank três acordos de crédito, no valor de US$ 2 bilhões (março de 2004), US$ 500 milhões (julho de 2007) e US$ 2 bilhões (setembro de 2007). Os recursos estão sendo utilizados em projetos de infra-estrutura para reconstrução de Angola. Numa segunda fase do apoio chinês, já foi aprovado um financiamento de mais de US$ 1,6 bilhão, segundo dados oficiais recentemente divulgados. 36 Nas palavras do Conselho de Relações Exteriores de Angola: "To be sure, there are causes for concern. There is a lack of transparency about Chinese operations in Angola. Loans from Beijing are funding major infrastructure projects, directed by Chinese firms and staffed with Chinese labor. But what s unclear is how much money is on the table, how contracts are awarded, how many Chinese are in the country, and how many Angolans are actually employed by Chinese companies operating in Angola. Furthermore, Angola should be wary of outsourcing jobs Angolans could do themselves; importing labor may be sowing the seeds of future resentment. Nonetheless, China is making significant contributions to Angola s development by building and rebuilding roads, hospitals, schools, and sanitation systems." 37 A Nova Ameaça Chinesa empresas brasileiras sofrem mais um golpe das concorrentes chinesas desta vez na África, artigo publicado na revista Exame edição de 31/01/ Ver também A ameaça atende pelo nome de China: Empresas brasileiras instaladas na África perdem espaço para as chinesas, que oferecem serviços com preços até 30% mais baixos 24

25 attached, the deal in Angola is that 70% of tenders for public works must go to Chinese firms 38. No entanto, com o indispensável apoio do BNDES e do Banco do Brasil, as empreiteiras brasileiras poderão vir a recuperar competitividade face à concorrência chinesa, haja vista a excelente reputação das empresas brasileiras em Angola. Essa boa imagem, consolidada em décadas de atuação em Angola, decorre não só da excelência técnica, mas também da prioridade concedida à aquisição de bens e serviços providos por empresas locais e à contratação e capacitação da mão-de-obra angolana, prática desprezada pelas empresas chinesas. É improvável que as empresas chinesas de serviço venham a se inserir no mercado angolano em outros setores de interesse de empresas brasileiras. África do Sul 39 : país cujas empresas, no geral, têm capacidade financeira e tecnológica equivalentes às de empresas brasileiras em diversos setores de serviços, com a exceção notável do setor de engenharia e construção civil, no qual as empresas brasileiras são de envergadura muito superior. O governo e entidades associativas da África do Sul incentivam ativamente a internacionalização das empresas, priorizando a África. Angola é um dos alvos prioritários e muitos dos setores em que as empresas sul-africanas são competitivas (informática, consultorias, assistência técnica, elaboração de projetos, serviços afeitos à mineração, serviços de apoio ao agronegócio etc) são áreas de interesse atual ou potencial de empresas brasileiras. Tratados que venham a ser firmados entre África do Sul e Angola relativos à promoção e proteção de investimentos, à bitributação, à harmonização de normas e regulamentos, ao reconhecimento de diplomas e outros tratados na esfera econômica necessários à consolidação de uma área de livre comércio na África Austral podem vir a conferir vantagens competitivas às empresas sul-africanas de serviços Complementaridade e Distância Duas forças poderosas, agindo em direções contrárias, moldam a aproximação econômica entre dois países ou blocos de países: complementaridade e distância. No caso das relações entre Brasil e Angola, se, por um lado, a evidente complementaridade entre as duas economias induz a que sejam parceiros naturais, por outro lado, o fator distância, em suas diferentes dimensões, é bem mais matizado. Segundo o setor de serviços considerado, porte da empresa etc, ocorre que o fator distância possa ser quase irrelevante, ou que seja efetivamente um forte impedimento à intensificação dos fluxos de comércio e investimento entre os dois países Complementaridade A complementaridade entre as pautas de exportação e importação do Brasil e de Angola e a indução de investimentos recíprocos decorre de diferentes fatores. Dentre os mais relevantes, podem ser citados: i) diferença na participação dos diferentes setores de atividade na composição percentual do PIB em cada economia; ii) disponibilidade de excedentes exportáveis ou de produção interna insuficiente para o atendimento da demanda doméstica; iii) interesse contínuo, não esporádico, das empresas de cada país em operar em mercados externos, inclusive mediante o estabelecimento de presença comercial direta; e iv) e diferentes estágios de desenvolvimento do Brasil e de Angola. Expressão inequívoca dessa complementaridade, a corrente de comércio entre os dois países é bastante expressiva: mais de US$ 4,2 bilhões em 2008, com significativo superávit para Angola. 38 China in África: developing ties (dezembro de 2007) 39 O setor de serviços responde por 54% do PIB da África do Sul, percentual próximo do Brasil, o que expressa a paridade de nível de desenvolvimento entre os dois países. Para uma visão panorâmica do setor de serviços na África do Sul, além do estudo elaborado pela SCS-MDIC (http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=4&menu=1949), consultar Guía País Sudáfrica, estudo elaborado pelo Escritório Econômico e Comercial da Espanha em Johannesburgo (http://www.comercio.es/tmpdocscanalpais/8a7eca5b25bbb2b95a3b22279ebfab07.pdf). 25

26 Para efeitos comparativos, os números equivalentes ao Paraguai, Bolívia e Venezuela são, respectivamente, US$ 3,1 bilhões, US$ 4,0 bilhões e US$ 5,7 bilhões 40. Ano (Jan - Set) Fonte: MDIC - AliceWeb Elaboração: DECOS/SCS Exportação Valores em US$ F.O.B (2008) Importação Saldo Corrente de Comérico Enquanto a pauta de exportações do Brasil para Angola é bastante diversificada, inclui serviços e composta de apenas 11% de produtos primários, quase 100% das exportações angolanas para o Brasil são representadas por petróleo, subprodutos e derivados. É de se supor que, à medida que as economias dos dois países evoluam, o setor de serviços cresça não só quantitativamente, inclusive em setores bem consolidados como engenharia e construção civil, mas também venha incluir ou reforçar a participação de setores ainda subexplorados como turismo, franquias e audiovisual. Listam-se abaixo, de forma não exaustiva, os setores de serviço nos quais a complementaridade de interesses é mais evidente e a viabilidade de comércio e investimentos imediata. Foram identificados a partir de prospecção tentativa baseada nas características da economia angolana face às capacidades empresariais existentes no Brasil com provável interesse de inserção no mercado angolano e vice-versa Dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. 41 Elaboração da Secretaria de Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior com base nas seguintes fontes principais: Angola Estudo de Oportunidades 2008 elaborado pela Unidade de Inteligência Comercial da Apex Brasil (http://www.apexbrasil.com.br/portal_apex/publicacao/download.wsp?tmp.arquivo=1315), sítio da Associação dos Empresários e Executivos Brasileiros em Angola AEBRAN (www.aebran.com), sítio da Embaixada de Angola em Washington (www.anogola.org) e Country Briefings: Angola ( 26

27 Engenharia, construção civil e arquitetura Incorporação e promoção imobiliária residencial e comercial Serviços afeitos às tecnologias da informação e comunicação Transporte e logística Propaganda e marketing Serviços educacionais Audiovisual, inclusive serviços de apoio para produções locais Serviços afeitos a atividades fabris e comerciais (projeto e instalação da planta industrial e escritórios, assistência técnica, consultoria, capacitação da mão-de-obra, aluguel de equipamentos etc) Serviços de apoio à mineração (prospecção geológica, sondagens, análises mineralógicas) Serviços de apoio à cadeia de extração e processamento de petróleo e gás Vendas (atacado e varejo, inclusive franquias) Geração e distribuição de energia Serviços afeitos à manutenção e reparo de maquinaria e equipamento Serviços afeitos à pesca e à agropecuária e florestas e à agroindústria Serviços afeitos à saúde, inclusive turismo de saúde Serviços de alimentação industrial e restaurantes Representação comercial e trading Serviços financeiros A Política de Comércio Exterior do Brasil preconiza o estreitamento das relações econômicas com países em desenvolvimento em bases mutuamente vantajosas, sem prejuízo ou deslocamento de nenhuma das partes interessadas. Com esse norte, as ações da Secretaria de Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior e da Apex- Brasil focadas no incremento dos negócios em serviços entre Brasil e Angola priorizam os setores em que houver coincidência entre os interesses ofensivos e receptivos de ambos os países. Entende-se como interesse ofensivo os setores de atividade que o país tenha interesse em promover exportações e investimentos no outro país e interesse receptivo, às atividades que o país tenha interesse em promover importações e em atrair investimentos do outro país. A complementaridade que se procura ressaltar neste estudo é referenciado ao interesse nacional angolano manifesto em páginas de entidades oficiais na Internet e o interesse brasileiro tal qual é definido na Política de Desenvolvimento Produtivo 42 e outros normativos Distância O conceito de distância abrange diversas dimensões da interação das partes interessadas na operacionalização e promoção das relações econômicas entre Brasil e Angola. Essas dimensões incluem desde dimensões de percepção objetiva e imediata, como distância geográfica, facilidade (ou dificuldade) logística de movimentação de cargas e passageiros, normas e regulamentos técnicos e afinidades culturais e linguisticas, até dimensões de ponderação menos imediata ou mesmo subjetiva como práticas correntes na comunidade empresarial local e entre essa e agentes públicos, padrões e preferências de consumo. Análises econométricas do comércio internacional 43 sugerem que o comércio entre dois países tende a ter um incremento de 42% se utilizam o mesmo idioma, 47%, se são membros de uma 42 Em maio de 2008, o Governo Federal lançou a Política de Desenvolvimento Produtivo - PDP, que valoriza ações abrangentes e coordenadas entre as diferentes áreas do governo e do setor privado. A Política de Desenvolvimento Produtivo tem como desafios a ampliação da capacidade brasileira de oferta, o melhoramento contínuo do Balanço de Pagamentos, a elevação da capacidade de inovação e o fortalecimento de MPEs. Os principais desafios da PDP são: i) aumento da taxa de investimento; ii) ampliação da participação das exportações brasileiras no comércio mundial; iii) elevação do dispêndio privado em P&D; e iv) ampliação do número de MPEs exportadoras. O setor de serviços é uma componente importante da PDP 27

28 mesma área de livre comércio, 114% se utilizam a mesma moeda, 125% se são fronteiriços e 188% se outrora houve entre ambos relação colônia-metrópole. DISTÂNCIA CULTURAL Cosmovisões divergentes Culturas empresariais diferentes Redes profissionais e empresariais não integradas Não reconhecimento de diplomas Valores e normas sociais divergentes DISTÂNCIA POLÍTICA-ADMINISTRATIVA Vínculos empresariais tênues e recentes Não participação numa mesma área de livre comércio Falta de moeda comum Insuficiente diálogo e cooperação institucional Insuficiente proteção aos direitos de propriedade intelectual Falta de harmonização de normas e regulamentos e insuficiente transparência na sua aplicação Leis de imigração restritivas DISTÂNCIA GEOGRÁFICA Distância física Falta de fronteira terrestre Diferenças de fusos horários Diferenças climáticas e doenças endêmicas Dificuldades logísticas Insuficiência de vôos diretos DISTÂNCIA ECONÔMICA Mercado exíguo Diferenças no custo ou na qualidade de: - Recursos naturais; - Recursos financeiros; - Recursos humanos; - Infraestrutura; - Acesso à informação. Padrões de consumo divergentes Maquinações de concorrentes estrangeiros Para efeito de categorização analítica, as diversas dimensões de distância entre Brasil e Angola podem ser tentativamente relacionadas e agrupadas, de forma não exaustiva, em quatro categorias básicas, como segue 44 : Distância cultural: a afinidade lingüística-cultural entre Brasil e Angola é sempre lembrada como facilitador de negócios entre os dois países. Não obstante, distância cultural diz respeito também a outros aspectos: valores, percepções, formação profissional, conexão de redes profissionais e empresariais. Tudo isso tem significativo impacto nas relações intra e inter empresas e dessas com agentes externos à comunidade empresarial. É um poderoso conformador do ambiente de negócios, especialmente no que diz respeito à consolidação de confiança entre os agentes econômicos que decorre da observância de um mesmo referencial normativo (escrito ou tácito). Há convergências culturais que podem ser um extraordinário facilitador em certos setores de serviços (audiovisual, propaganda e marketing, serviços de capacitação de mão-de-obra e educação, turismo de saúde etc). Mas não se deve perder de referência que em Angola as empresas brasileiras se veem afligidas por problemas de comunicação intercultural com frequência maior do que em países de língua não portuguesa na América ou Europa. Para contornar essas dificuldades, sugerem-se como indutores da competitividade dessas empresas naquele concorrido mercado: i) ampliação dos programas de iniciativa pública ou privada de 43 Fonte: Ghemawat, P.2007, Redifining Global Strategy: Crossing borders in a world where differences still matter, Harvard Business School Press, Boston. 44 Elaboração da Secretaria de Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior com base na categorização de Ghemavat (ver nota de rodapé acima). 28

29 formação e treinamento de quadros angolanos no Brasil, familiarizando-os com o modus operandi específico das empresas brasileiras; ii) apoio institucional à atuação de redes como a AEBRAN Associação dos Empresários e Executivos Brasileiros em Angola e eventual criação de uma câmara de comércio Brasil-Angola agregando empresas dos dois países; e iii) reforço do apoio institucional à realização de missões empresariais, feiras e seminários, nos moldes dos que já são realizados pela Apex-Brasil 45 e outras entidades afeitas à promoção da internacionalização de empresas brasileiras. Distância administrativa-política: essa dimensão inclui as leis, regulamentos políticas e instituições que balizam as ações de governo e do setor privado. Nessa dimensão, a percepção geral é que a distância entre os dois países é mais larga que o oceano que os une e os separa. Angola é um país ainda insuficientemente estruturado sob os aspectos institucional e organizacional. Em Angola, a intervenção do Estado na economia é muito mais freqüente e contingente para o setor privado do que no Brasil. A paraestatal Sonangol tem proeminência na vida econômica do país comparável, no contexto latinoamericano, à da PDVESA na Venezuela. Ademais, a antiga metrópole é zelosa de seus interesses e reticente à entrada de competidores brasileiros no mercado angolano. Portugal ainda é, de longe, a principal origem das importações angolanas, em parte pela retomada de antigos vínculos, em parte porque Angola, como quase toda a África, busca convergências preferencialmente com a União Européia no que se refere a acordos de promoção de comércio e investimentos, harmonização de normas e regulamentos, uso do euro nas transações com o exterior etc. Por outro lado, há décadas o Brasil mantém excelente interlocução política com o governo angolano 46 e grandes empresas brasileiras tem tido atuação destacada no esforço desenvolvimentista do país. Espera-se que a cooperação institucional, no que diz respeito ao setor de serviços, continue a evoluir, de forma a aplainar caminhos e endireitar veredas para as empresas dos dois países, em especial para as micro, pequenas e médias. Nesse sentido, cabe destacar a atuação da Apex-Brasil 47. Distância geográfica: a proximidade de Angola dos portos brasileiros é um fator facilitador de negócios. Luanda está apenas a km do complexo industrial e portuário de Suape (Pernambuco), enquanto, para efeitos comparativos, a distância de Suape para o Porto de Buenos Aires (Argentina) é de Km, Veracruz (México) Km e Valparaíso (Chile) Km. No entanto, a pouca disponibilidade de ligações marítimas e aéreas diretas entre Brasil e Angola, dificuldades na concessão de vistos são problemas recorrentes e afetam principalmente empresas e profissionais atuantes no setor de serviços. 45 Em Outubro de 2008] 60 representantes de mais de 100 empresas brasileiras estiveram em Angola, na primeira missão comercial organizada no país pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil). «Vemos um mar de oportunidades lá», anuncia Juarez Leal, coordenador da Apex e responsável pela missão. 46 No anexo 3 deste estudo, listam-se os acordos firmados entre o Brasil e Angola

30 Distância econômica: a relevância dessa dimensão varia consideravelmente segundo o setor de serviços considerado e segundo o porte da empresa. Para empresas brasileiras de grande envergadura financeira, que se inserem no mercado angolano em função de contratos com o governo do país ou com outras grandes empresas (como a Sonangol), operar em Angola não é consideravelmente mais difícil do que operar em outros países de nível de desenvolvimento comparável. É o caso freqüente com empresas de setores como serviços de engenharia, serviços de apoio à cadeia de extração e processamento de petróleo e gás, serviços de apoio à mineração e outros. O interesse estratégico conjunto dos governos do Brasil e de Angola em promover um determinado setor de atividade pode ser um fator adicional na redução da dimensão distância econômica. É o caso dos serviços afeitos à produção e distribuição de biocombustíveis. Distância econômica é fator de influência bem mais matizada para a maioria dos demais setores de serviços. De fato, a prosperidade criada pelo petróleo possibilitou a criação de uma classe média numericamente significativa. A exemplo do que ocorre em muitos países em desenvolvimento, preferências de consumo e estilo de vida tendem a convergir para padrões globais, mesmo em extratos menos favorecidos da população. Criam-se, assim, oportunidades de negócios para empresas brasileiras em diferentes setores de serviços: arquitetura, incorporação imobiliária e comercial (shopping centers), serviços educacionais, concessionárias de automóveis, turismo, franquias nos mais variados segmentos de atendimento direto ao consumidor final etc. Por outro lado, a composição de custos fixos e variáveis para atuação de empresas nos setores mencionados pode ser radicalmente diferente dos que incidem para operações no Brasil e em outros mercados, infraestruturas indispensáveis à operacionalização de certos negócios podem ser extremamente onerosas ou mesmo não existir, especialmente fora da capital. Casos de sucesso não podem ser automaticamente replicados, o que reforça a percepção de que Angola é um mercado relativamente distante sob o aspecto econômico para a maioria dos setores de serviços Conclusões A complementaridade entre as economias do Brasil e de Angola - cada qual ofertando o que o outro deseja adquirir a preços competitivos, continua sendo o principal fator dinamizador da expansão dos negócios entre os dois países. 30

31 Essa complementaridade é significativamente limitada pela distância entre Brasil e Angola que resulta não só do oceano que se interpõe entre os dois países, mas também de impedimentos como insuficiente interlocução institucional, limitada integração das redes profissionais e empresariais, restrições ao trânsito e residência de profissionais e diferentes padrões de consumo. A superação dos impedimentos decorrentes da distância requer esforço empresarial e institucional. Nas cadeias produtivas em que é a complementaridade é forte, o apoio governamental à internacionalização de empresas facilmente resultará em comércio e investimentos. Onde a complementaridade for menos pronunciada, serão necessários esforços extraordinários para a redução das distâncias impeditivas. À medida que as economias do Brasil e de Angola crescem, se sofisticam e aumenta a participação do setor de serviços na composição do PIB, concomitantemente à intensificação da integração de cadeias produtivas globais e regionais, cambiam as relações de complementaridade entre Brasil e Angola, e torna-se mais urgente reduzir as distâncias não geográficas Recomendações às Empresas Brasileiras Se, por um lado, as afinidades lingüísticas e culturais entre Brasil e Angola constituem um facilitador de negócios, por outro lado as empresas brasileiras devem sempre ter em perspectiva que Angola é um país cuja ordem institucional e organizacional (setor privado e sociedade civil) ainda está em construção. Sob esse aspecto, Angola é muito menos desenvolvida que o Brasil ou países africanos como África do Sul e Namíbia. Como decorrência, transparência no relacionamento entre setor privado e poder público, burocracia, corrupção, confiabilidade dos quadros executivos e técnicos locais, ética de trabalho da mão-de-obra em geral e outros aspectos relevantes para avaliação do risco de entrada e operação de empresa no mercado angolano são desfavoravelmente avaliados face a outros países em desenvolvimento mais alinhados com os padrões vigentes em sociedades industriais avançadas. Esses aspectos são particularmente relevantes para empresas de serviços cujo modus operandi exige intensa interação interpessoal com agentes públicos, clientela, concorrência e alto grau de integridade e compromisso do corpo funcional. O quadro abaixo refere-se a enquete realizada junto a empresários e executivos atuantes no mercado angolano. 31

32 Fonte: The Africa Competitiveness Report World Economic Forum 48 Segundo a ONG Transparência Internacional, o índice de percepção de corrupção em Angola em 2008 foi de 1,9, posicionando o país na 158ª posição num ranking de 180 países. Para efeitos comparativos, no mesmo ano, o índice atribuído ao Brasil foi 3,5, correspondendo à 80ª posição 49. Relatam-se casos de perseguições a investidores estrangeiros, interferências políticas e pressões para que estes vendam seus investimentos. Em alguns casos, essas práticas envolvem indivíduos do alto escalão do governo que exercem pressões diretas ou por meio de exigências ou atrasos burocráticos exorbitantes. Como resultado, alguns investidores sofrem atrasos significantes em relação aos pagamentos do governo por seus contratos e não obtenção das devidas autorizações ou aprovações de projetos. Os investidores relatam pressões ocorridas no sentido de firmar jointventures de acordo com interesses dos poderosos locais. Nos últimos anos, o governo angolano tem evitado expropriar bens de estrangeiros e tem sido rigoroso no cumprimento de obrigações contratuais, principalmente quando eventuais litígios ganham a atenção da mídia e da opinião publica 50. A tabela abaixo, extraída de estudo do Fórum Econômico de Davos, evidencia que, na visão das empresas estrangeiras que operam em Angola, o país ainda tem um longo caminho a percorrer em termos de competitividade em indicadores relativos ao ambiente de negócios. De fato, num rol de 128 países estudados, Angola ocupa a última posição:

33 Nesse contexto, recomenda-se ao empreendedor brasileiro não transpor para o caso angolano eventuais sucessos em outros mercados melhor estruturados, África do Sul, por exemplo. Deverá considerar estratégias extras de minimização de risco, de modo que as peculiaridades de realização de negócios no país estejam a seu favor, e não o contrário. Segundo a Câmara de Comércio África do Sul Angola, with Angola still being ranked by respected entities such as doingbusiness or transparency, or as a place that is ultra-difficult to do business, directorship risk mitigation in the Angolan marketplace is a top priority for critical sucess factor in most investments. Especialmente ao pequeno e médio empreendedor, é altamente recomendável exaustivo mapeamento dos riscos e oportunidades envolvidos. É indispensável o estudo de casos de sucesso (e de fracasso), estudo da legislação, normas e regulamentos relativos à natureza do negócio (inclusive eventuais restrições à contratação de quadros e mão-de-obra brasileira), identificação de parceiro angolano com portfólio adequado, extrema atenção na contratação de quadros locais e treinamento da mão-de-obra e outras diligências normalmente aplicáveis à inserção qualquer mercado estrangeiro. Nisso, o empresário brasileiro poderá ser auxiliado pela AEBRAN, Apex-Brasil, Embaixada do Brasil e consultores privados. Feitas essas observações, retoma-se o estudo do Fórum Econômico de Davos, abaixo exposto em detalhe. Como todo estudo desta natureza, deve ser lido e interpretado cum grano salis. O estudo reflete essencialmente a perspectiva de empresas transnacionais, afeitas a operar em mercados em países desenvolvidos e, muitas vezes, com limitada capacidade de acomodação a situações atípicas. De fato, em que pese haver em Angola fatores de altíssimo risco independentemente do porte, modelo de negócios e nacionalidade da empresa, por outro lado algumas das carências indigitadas na verdade evidenciam nichos de mercado não explorados. São oportunidades de negócios a ser arrebatadas pelos mais adaptáveis e experimentados a navegar em mares não cartografados pelos manuais de administração corporativa, aspecto em que as empresas brasileiras de serviço detêm notável expertise. 33

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