UMA ANÁLISE DA RELAÇÃO PROFESSOR E O LIVRO DIDÁTICO.

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1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO CAMPUS I CURSO DE PEDAGOGIA AMANDA PENALVA BATISTA UMA ANÁLISE DA RELAÇÃO PROFESSOR E O LIVRO DIDÁTICO. Salvador 2011 AMANDA PENALVA BATISTA

2 UMA ANÁLISE DA RELAÇÃO PROFESSOR E O LIVRO DIDÁTICO. Monografia apresentada como requisito para obtenção da Graduação em Pedagogia do Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia, sob a orientação da Profª. Vivian Antonino. Salvador 2011 AMANDA PENALVA BATISTA

3 UMA ANÁLISE DA RELAÇÃO PROFESSOR E O LIVRO DIDÁTICO. Monografia apresentada como requisito para obtenção da Graduação em Pedagogia do Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia, pela seguinte banca examinadora: Salvador, de de 2011

4 Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos (...). Coríntios 4: 8 e 9.

5 Dedico este trabalho a todos envolvidos com a Educação e aqueles que não acreditam que as técnicas superem nossa capacidade humana. AGRADECIMENTOS

6 Agradeço a Deus por mais uma etapa concluída em minha vida, pois sem Ele todo esforço seria em vão, por isso expresso aqui minha gratidão pelo milagre da vida e pelas bênçãos derramadas durante a minha trajetória. À minha família, pelo carinho nos momentos de solidão, pelas palavras de incentivo e a compreensão pela falta de tempo e atenção, agradeço, principalmente, pelas orações. À professora, Vívian Antonino, pela aceitação em orientar meu trabalho, pela perseverança, paciência e dedicação. A todos os meus amigos, principalmente a Brisa, Juliana e Renata por me ajudarem nos momentos mais difíceis do processo monográfico e pela paciência por me ouvirem. À minha prima Eneida, pela ajuda no planejamento do trabalho e pelo incentivo em continuar, tendo como exemplo sua própria vida. Ao jornalista José Carlos Amorim, pela boa vontade em me ajudar e aceitar fazer as revisões da minha monografia em tempo recorde. Por fim, à professora Jane Célia e aos alunos da Escola Municipal Jaqueira do Carneiro, pela atenção dedicada nos dias de pesquisa.

7 RESUMO Este trabalho tem como finalidade refletir sobre o papel que o livro didático tem assumido ao longo dos tempos até os dias atuais, no contexto escolar. Para isso, vale-se da pesquisa bibliográfica e da pesquisa de campo como elementos para análise do uso do livro didático e da autonomia do professor na sala de aula bem como dos limites impostos por este suporte pedagógico e dá sugestões para resolução destas questões. Alguns aspectos didáticos estudados no ensino da língua materna serão discutidos para levar o leitor à reflexão para a melhoria do uso crítico do livro didático. Também aborda como a relação entre a formação docente e uso do livro didático têm sido traçados historicamente resultando uma educação precária. Com isso, mostra a possibilidade de construção de caminhos que levem o professor a ser cada vez mais independente do livro didático, favorecendo o processo de aprendizagem na escola. Palavras- Chave: livro didático processo de ensino e aprendizagem- autonomiaconstrutivismo- formação docente. ABSTRACT

8 This work is one of the purposes to reflect on the role that the textbook has taken over the years until today, even under the influence of constructivist theory. To do this, it is a bibliographic and field research as evidence for analysis of the use of textbooks and teacher autonomy in the classroom as well as the limits imposed by this pedagogical support and give suggestions for addressing these issues. Some didactic aspects studied in mother-tongue teaching will be discussed to bring the reader to reflect for improving the critical use of the textbook. It also discusses how the relationship between teacher training and use of textbooks have been traced historically resulting in a poor education. Thus, it shows the possibility of constructing paths that lead the teacher to be increasingly independent of the textbook favoring the learning process at school. Key-words: schoolbook teaching and learning autonomy constructivism teacher training SUMÁRIO

9 1. INTRODUÇÃO PARA QUE SERVE O LIVRO DIDÁTICO? DEFINIÇÕES DE LIVRO DIDÁTICO BREVE HISTÓRICO DO LIVRO DIDÁTICO NO BRASIL PNDL (PROGRAMA NACIONAL DO LIVRO DIDÁTICO) A VISÃO DO LIVRO DIDÁTICO NAS QUESTÕES EDUCACIONAIS LETRAMENTO E LIVRO DIDÁTICO: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS E O LIVRO DIDÁTICO O USO DO LIVRO DIDÁTICO OU DAS APOSTILAS NA ESCOLA? A EPISTEMOLOGIA DO PROFESSOR E A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO A DINÂMICA EM SALA DE AULA A PRÁTICA PEDAGÓGICA E O LIVRO DIDÁTICO: TENSÕES E POSSIBILIDADES CONSIDERAÇÕES FINAIS 57 REFERÊNCIAS 61 APÊNDICE 64

10 10 1.INTRODUÇÃO O livro didático faz parte da história da escola há pelo menos dois séculos. A origem do seu nome vem do latim libru, que se refere às cascas das árvores que antigamente se escrevia o chamado líber. Segundo a UNESCO, o livro é todo material impresso não periódico contendo pelo menos 48 páginas, excluindo a capa. Porém, o material descrito também leva o termo didático do grego didaktikós, que indica que ele serve para instruir. Mas será que o livro didático tem servido para esses objetivos? Neste sentido, busca-se neste trabalho discutir a articulação entre o as teorias pedagógicas e a utilização do livro didático na prática em sala de aula, refletindo sobre o papel que historicamente o LD desempenha no contexto escolar e sua relação com a falta de investimento em educação, propondo mecanismos para superação das tensões provocadas entre as questões educacionais e o livro didático. O livro didático ainda é visto com desconfiança por alguns setores da sociedade por uma série de equívocos. Então, para deixar mais claro nosso objeto de estudo, o primeiro capítulo deste texto procura delimitá-lo, fazendo referência ao foco das pesquisas sobre livro didático nos últimos anos, além de explorar historicamente a postura adotada pelos estudiosos com referência à utilização do livro didático e como o governo trata, atualmente, sobre estas questões através da análise Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Já no segundo capítulo, a ênfase é dada às mudanças que o livro didático sofreu a partir do PNLD, como a atenção dada aos Parâmetros Nacionais Curriculares (PCNs) e suas propostas de letramento, tanto na leitura como na escrita e na oralização, sendo que se deslocou o foco do estudo das questões gramaticais para a análise do discurso. Com isso, o livro didático passou a misturar uma série de teorias pedagógicas além de criar novas questões a serem discutidas por toda comunidade escolar. No terceiro capítulo, é analisada a relação entre a postura do professor, sua teoria pedagógica e a utilização do livro didático em sala de aula através da pesquisa de campo em uma escola pública, considerando o livro didático adotado, seus limites e como a professora administra essas dificuldades, transpondo os conhecimentos adquiridos na faculdade com os adquiridos na prática em sala de aula como fatores para o desenvolvimento de sua autonomia profissional.

11 11 Além disso, a motivação por esse tema veio através da pesquisa de campo realizada na Escola Municipal Jaqueira do Carneiro, na sala do primeiro ano, sendo que o objetivo inicial era identificar as práticas de letramento suscitadas pelo projeto Cidade Educadora, mas o que foi visto na sala de aula me despertou para novas questões. Na sala de aula, verificou-se que a professora não utilizava o projeto e sim outros suportes pedagógicos que extrapolavam os limites do livro didático e produzia um resultado interessante, e isto me motivou para estudar mais sobre o livro didático e suas implicações na sala de aula. A partir desta motivação, é necessário debruçar sobre este assunto durante o processo de formação docente, até por que ainda que com maior ou menor frequência o uso do livro didático é uma ferramenta influente na prática de ensino na maioria das escolas. Muitas vezes o livro didático tem servido de manual para professores na falta de um planejamento escolar mais consistente. Nos meus estágios curriculares, percebi o quanto a educação às vezes parece ser norteada pelos improvisos; durante a disciplina de Estágio Supervisionado III, a professora da sala que estava sendo observada adoeceu, então nos pediram para tomar conta da sala, e para que as crianças ficassem quietas, a orientação era passar muitas atividades, incluindo as do livro didático. Quando refletimos sobre a escola, percebemos que o papel da educação está muito além do de instruir, pois deveria proporcionar ao sujeito: a produção e alteração de significados e o desenvolvimento humano, além da formação para o trabalho. Desta forma, é indispensável o trabalho do professor em auxiliar a construção do conhecimento do aluno a partir dos seus conhecimentos prévios, sendo o livro didático apenas um dos instrumentos que facilitam esta aprendizagem.

12 12 2. PARA QUE SERVE O LIVRO DIDÁTICO? À primeira vista, a resposta desse questionamento parece ser simples, mas não é, pois esbarra em outras perguntas como: o que vem a ser o livro didático e como ele é encarado em nossa sociedade. 2.1 DEFINIÇÕES DO LIVRO DIDÁTICO Quando se fala em livro didático (LD), é natural associá-lo a todos os impressos que circulam na escola. Isso ocorre porque o LD, por ser tão comum, e recorrente no contexto escolar, acaba não chamando a atenção para sua singularidade no que se refere à sua produção e consumo, por esse motivo tem sido pouco utilizado como objeto de interesse de pesquisas que queiram delimitá-lo, sendo analisado apenas enquanto revelador das práticas escolares. O livro didático tem sido objeto de discussões nos últimos anos. Nas décadas de 70 e 80, estudos (Nosella (1979), Freitag (1989), Deiró (1981), Mota (1989) e outros) apontavam mecanismos utilizados pelas classes dominantes para, através do LD, incutir seus valores aos mais pobres. Nos dias atuais, pesquisas de D Ávila (2008), Lajolo (1996), Costa (2007) desenvolvidas sobre o LD, giram em torno das questões didáticopedagógicas e sua relação na prática em sala de aula. É interessante notar que um mesmo objeto de pesquisa, no caso o livro didático, é abordado em suas várias dimensões: primeiramente, a partir de sua ideologia e depois pelo seu conteúdo e como material de análise da própria sala de aula. Porém, uma questão essencial em todas essas discussões é justamente a definição do que venha a ser o livro didático, sem negar a existência de outros materiais escritos na escola. Não se pode cair no equívoco, por exemplo, de analisar um material da editora Melhoramentos, utilizado de 1ª a 4ª série na forma de cartazes organizados em um álbum com cenas para serem descritas em formas de redações pelo aluno como se este fosse um livro didático. (Abreu, 1999) Apesar de o LD ser criticado por inúmeros pesquisadores como Lajolo (1996), Faria (1994) e Nosella (1979) que o entendem como um produto que não reflete a

13 13 realidade de um povo, mas sim a visões particulares de mundo presas às concepções da época em que foram escritos, há muitos que concordam com sua relevância no processo de ensino e aprendizagem (cf. Rojo (2005) SOARES (2009)). O LD já faz parte da história da escola há pelo menos dois séculos, povoando o imaginário da comunidade que faz o seu uso: família, escola, família e governo. A família tem como referência de bom ensino a prática de exercícios exaustivos, fato que pressiona o professor a ensinar em conformidade com o LD, devendo obedecer à disposição dos conteúdos dentro do livro. A família cobra que se façam todos os exercícios propostos no livro. E o professor, devido à frágil formação acadêmica, vê o LD como verdade absoluta e praticamente não utiliza de outros elementos para enriquecer o aprendizado na sala de aula. E quando ele consegue romper as barreiras do livro didático, buscando outros suportes para o ensino-aprendizagem, enfrenta resistência, inclusive dos alunos que muitas vezes não entendem o seu método de ensino e solicitam o uso de LD. O governo brasileiro, mesmo diante das carências generalizadas na sociedade e mesmo nas escolas especificamente, dispensa muito dinheiro para adquirir os livros didáticos, como se estes por si só resolvessem os problemas referentes à Educação. O governo é incentivado por organismos internacionais, como o Banco Mundial a investir em livros didáticos devido à formação precária do professor. O investimento em livro didático faz com que o governo brasileiro seja o maior comprador deste tipo de material no mundo, porém a produção do livro didático não descarta mudanças estruturais na educação, como a valorização da carreira de professor e abertura de bibliotecas para incentivar a leitura e a pesquisa. Estes são apenas alguns exemplos em que podemos notar a complexidade da discussão em torno do LD e ao mesmo tempo o quanto o LD é conhecido, até porque é debatido dentro da escola por professores, alunos e suas famílias, em encontros acadêmicos e por intelectuais de diferentes setores, pelo governo e nas editoras. Mas, afinal, o que é o livro didático? Há diferentes respostas para esse mesmo questionamento. Segundo Silva (2000), qualquer texto pode ser utilizado como recurso didático, já D Ávila (2008) entende o livro didático como um manual. O livro didático muitas vezes é qualificado como um material impresso para fins escolares, ou seja, é resultado de um processo de reprodução com características específicas. A utilização do termo impresso torna-se problemático porque a escola

14 14 também produz seus textos através do mimeógrafo, computador ou xérox, chamado por Abreu (1999) como imprensa escolar. Esses textos, produzidos pela escola, são de suma importância para aprendizagem por ser uma espécie de apostila geralmente utilizada para o ensino médio e em cursinhos pré-vestibulares, ou quando existe a falta do livro didático no Ensino Fundamental. Também não podemos perder de vista que muitas editoras, como a Ática, começaram através da imprensa escolar, ou seja, das apostilas feitas pelos próprios professores copiados por outros docentes e mais tarde submetidos a processos editoriais. (Abreu, 1999) Associando à imprensa escolar, Silva considera que um livro qualquer é didático, em qualquer momento, se, naquele momento, ele atende, de alguma forma, propósitos da aprendizagem, sejam com jogos, estudos dirigidos, etc. (Silva, 2000). A partir desta definição, é possível perceber que o professor precisa ter competência para retirar de textos reais aspectos a serem analisados, indo além da gramática tradicional e do pretexto de ensinar sobre determinado assunto, buscando a real necessidade do seu alunado. Acostumamo-nos a ver o livro didático sendo utilizado como principal, ou até mesmo o único material de estudo, o que deixa o ensino desgastante e sem criticidade para despertar a necessidade de aprender. O processo de ensino e aprendizagem deve envolver materiais variados e nenhum deles deve ser mais importante do que o educador, que tem de ser o autor do ato de ensinar, de modo a definir objetivos próprios, seguir metodologias específicas conforme o público que ele atende e não segundo um modelo proposto no livro didático. Este ensino inovador não requer malabarismos por parte do professor, mas que aperfeiçoe os recursos existentes na escola e transforme-os em estratégia para ensinar, respeitando as diferentes formas com que cada aluno aprende. Isto possibilita que o aprendiz faça a leitura crítica da realidade através de vários suportes, sem fugir dos objetivos propostos pelo currículo mínimo nacional. Segundo Moysés (1997), todo este movimento é possível se nos apoiarmos na formação docente de qualidade, que promova a criatividade do futuro professor no sentido defendido por Vygotsky, que, diante de uma situação nova, reorganize as experiências pelas quais já passou, divida-as em inúmeras partes, retendo aquelas que podem ajudar a resolver determinada situação e esqueça-se das demais.

15 15 Em seguida, é necessário que este faça associações e até distorções dessas experiências e possa alterá-las em sua mente. Estas modificações podem ser feitas através do que a pessoa aprendeu, como, por exemplo, na faculdade, e aí unir essas ideias alteradas e combiná-las formando um novo sistema, culminando para a resolução de suas questões através da ação. (Moysés, 1997) A criatividade, tal qual como é descrita por Moysés (1997), é o movimento de o professor analisar a realidade dos seus alunos e repensar os conhecimentos adquiridos na faculdade, adaptando para a solução de problemas na sala de aula. Isso equivale repensar a formação inicial dos professores e investir em escolas de aplicação desde o início do curso de pedagogia aliando à pesquisa, ensino e extensão. Segundo Libâneo (2002), o livro didático é um recurso importante na escola por ser útil tanto ao professor como ao aluno. Pois, através dele o docente pode reforçar seus conhecimentos sobre um assunto específico ou receber sugestões de como apresentá-lo em sala de aula. Já para o aluno, é uma forma de ter de maneira mais organizada e sistematizada um assunto que possibilite que ele revise em sua casa e faça exercícios que reforcem este conhecimento. A decisão de fazer do livro didático um aliado ou inimigo parte do professor em relação às escolhas que faz no seu dia a dia. Se é notório que o livro didático apresenta problemas tanto em erros conceituais como também preconceitos dos mais diversos, por outro lado pode ajudar os alunos a formarem conceitos e elaborarem suas próprias estratégias cognitivas.(lajolo,1996) A importância do livro didático é que ele pode ser um suporte para aprendizagem quando utilizado de acordo com os objetivos traçados pelo docente para sua sala de aula. Desta forma, os conteúdos, valores e comportamentos e atividades que o LD sugere devem estabelecer uma relação entre os que pensam os alunos e o que é ensinado pelo professor para fazer com que a classe avance na aprendizagem. (Lajolo, 1996). O livro didático possui características que o diferencia dos demais livros por uma série de fatores, como sua lógica, público específico e sua utilização restrita. Sem dúvida, trata-se de um gênero particular na literatura em geral, entendido por muitos como um livro de menor importância. (Bourdieu, 1992). Diante dessa situação, alguns pesquisadores chamam o LD de manual didático por entenderem que, diferentemente do livro comum, deveria ser lido página por página de forma linear. Ele é um material para

16 16 ser utilizado em uma situação específica, que é durante o processo de ensino e aprendizagem tanto em grupos como individualmente. Trata-se, portanto, de um livro que parece ter um prazo de validade ao final de cada período escolar, quando o aluno o deixa de lado ou entrega para outra pessoa utilizá-lo, e por isso alguns autores entendem que o LD tem usuário ao invés de leitores (Lajolo, 1996). Além disso, o livro didático aparece nas prateleiras de livrarias somente no começo do ano letivo, sempre voltado para o público escolar, sendo pouco visto em bibliotecas particulares. De acordo com D Ávila (2008), o livro didático se assemelha a um manual quando é utilizado cegamente para um determinado objetivo. O LD cumpre o papel de guia do aprendizado, desenvolvendo pouquíssimas habilidades cognitivas e emocionais do aluno, dando pouco espaço para o aluno refletir sobre si mesmo e sua língua materna, bem como adquirir sua autonomia. O LD oferece exercícios no qual é valorizada a memorização, e as atividades de interpretação encontram-se no próprio texto; o LD está alicerçado no modelo behaviorista de estímulo e resposta. Contudo, o LD não precisa ser descartado da sala de aula, mas, sim, ser utilizado e percebido como um produto cultural e científico. O que revela sua complexidade é a transposição dos conhecimentos científicos através de metodologias específicas e linguagem superespecializada para a didatização, desde conteúdos de forma compreensível ao aluno para que ele utilize destes saberes em seu cotidiano, dando oportunidade à criança de ressignificá-los e de transformar sua realidade. O livro didático, além de seu aspecto científico, tem todo aparato cultural, e por isso deve ser analisado dentro do contexto social, econômico e político, representando também dificuldades em defini-lo, já que adquire diferentes funções em nossa sociedade. Desta forma, não se pode desconsiderar o entendimento de Paulo Freire sobre o fazer pedagógico: Na medida em que compreendemos a educação, de um lado reproduzimos a ideologia dominante, mas de outro proporcionamos, independente da intenção de quem tem o poder, a negação daquela ideologia [...] pela confrontação entre ela e a verdade. (Freire, 1987, p. 28-9). Nesse sentido, fica evidente que se pode fazer a diferença no ensino mesmo que os materiais disponíveis sejam problemáticos se o professor for instrumentalizado de modo a analisar essas questões com a sala e promover a reflexão de como superar esses embates. É importante refletir sobre o papel do professor assumindo sua autoria no processo de ensino, mesmo que isso signifique

17 17 sair do lugar comum e questionar os próprios saberes. O professor deve ser capaz de identificar a partir de textos reais aqueles que estejam em consonância com as necessidades da turma para estudá-los, fazendo os alunos avançarem na aprendizagem. 2.2 BREVE HISTÓRICO DO LIVRO DIDÁTICO NO BRASIL Os materiais impressos na/para a escola assumem diferentes funções na sala de aula, sendo as mais comuns classificadas por Abreu (1999) baseados em Chopin (1992) em: manual e seus satélites, as edições clássicas, as obras de referência e os paradidáticos. Estas não são classificações estáticas, mas se intercalam no contexto da escola. Pode-se dizer que os livros considerados manuais e seus satélites são aqueles que servem de suporte para a ação do professor. Neste tipo de material, os conteúdos iriam obedecer a um grau progressivo de dificuldade sob a forma de lições ou unidades bem definidas. Essas obras podem ser utilizadas tanto na sala de aula com na orientação do professor, e como também de forma individualizada. As edições clássicas como o próprio nome já diz, trata-se de textos gregos, latinos ou até de língua materna, amplamente divulgadas ou comentadas. Seu uso depende muito da autonomia que o professor tem em relação aos programas tradicionais adotados pela escola (o currículo). (Abreu, 1999) Nas obras de referência, não existe um padrão único para classificá-las, podendo ser dicionários, mapas, revistas ou enciclopédias que não são de uso estritamente escolares ou restritos a uma determinada série, mas que servem como um complemento para o estudo. Por último, têm-se as obras paraescolares também chamadas de livros paradidáticos, que, em geral, apresentam um assunto visto na escola de maneira mais intensa. São obras destinadas a serem lidas individualmente em casa por livre-escolha do aluno ou se fazendo obrigatória a sua leitura, a depender da escola. Compreender como se dá o processo de ensino-aprendizagem requer também examinar os materiais utilizados como suporte ou guia na sala de aula. Sabe-se que o livro didático ocupa um lugar privilegiado na maioria das escolas pelo seu fácil acesso e popularização; nas famílias mais pobres, inclusive, ele é utilizado como fonte de informação. Analisá-lo significa percorrer a história envolvendo toda a formatação atual

18 18 desde o material utilizado como capa à opção por ser livro consumível ou não, o próprio reconhecimento dos conteúdos elencados para serem trabalhados durante o ano letivo baseados na idade da criança e como foi pensada a divisão dos conteúdos por unidades temáticas. Tudo isso reflete o fato de o livro didático ser também um produto cultural. Assim não basta definir o livro didático apenas como um produto científico, já que o conhecimento de maneira alguma pode ser neutro, pois é fato que nos movemos de acordo com os nossos interesses; desta forma, o autor também influencia naquilo que está sendo escrito, retratando um dos lados da história, geralmente a história e o ponto de vista dos vencedores. Então, nesse caso, é preciso verificar o imaginário popular que legitima o livro didático como fonte de conhecimento, pensando que na trajetória das pessoas que passaram pela formação básica na escola são comuns as lembranças boas ou más dos professores, horários, espaços, e, principalmente, dos livros que marcaram sua história de vida e da relação que é passada de pai para filho da autoridade deste tipo de material. A formatação do livro didático é algo importante de ser analisado, visto que se modificou de acordo com o público ao qual se destina. Primeiramente, o alvo eram os professores, por isso a linguagem era bastante técnica por servir como apoio aos seus conhecimentos, cabendo ao docente ditar esses conteúdos aos seus alunos. (Nakamoto, 2010) A partir do século XIX, o livro didático é, enfim, dimensionado à criança e ao adolescente, e assim o governo brasileiro começa a regulamentar o que deveria conter neste material didático, visto que ele poderia ter um conteúdo inadequado, erros gramaticais ou falhas na impressão. Estas mudanças no perfil a quem seria destinada essas obras didáticas são resultados de questões tanto estilísticas quanto comerciais. De início, nossa análise considerará que a literatura didática no Brasil inicia-se no século XVI através das cartas que eram levadas pelo professor e pelos pais dos alunos para que as crianças aprendessem a ler, as famosas cartilhas, que eram utilizadas para também transmitir noções de catecismo. (cf. SILVA, 2000) Alguns depoimentos desta época chegaram a afirmar que, graças à utilização destas cartas, quase não sobraram documentos escritos por causa da intensa manipulação destes documentos e da sua degeneração pelo constante uso. Em regiões como Goiânia, onde havia falta deste tipo de material, era comum que fizessem as cartilhas utilizando materiais, como caixas de sapato, grão de milho ou traçassem letras de todos os tipos

19 19 em folhas de bananeiras cravadas com folhas de laranjeira. (cf. SILVA, 2000). Ao lado deste tipo de material, existiam os livros feitos em Portugal e trazidos para o nosso País, em que eram reunidos os clássicos, e, a partir disso, era estudada a gramática, o latim e a retórica, além de noções de geografia, história e ciências, tendo pouca ou nenhuma importância a matemática. É paradoxal pensar que o LD, tão criticado por seus textos artificiais em nossos dias, tenha partido de um modelo que tinha como base a própria realidade dos educandos, e que estes aprendiam a ler e escrever através de cartas, ou seja, de situações reais em que era necessário dominar o código escrito. Porém, a aprendizagem através de cartas foi logo substituída por um ensino alienante, baseado nos livros de origem portuguesa que tinham pouca ou nenhuma relação com a realidade dos alunos brasileiros. Então era necessário criar livros que tivessem "o jeito" brasileiro de enxergar o mundo; era uma procura pela identidade nacional. O Brasil só teve as primeiras iniciativas editoriais após a vinda da família real portuguesa, quando foi permitido que tivesse bibliotecas, jornais, tipografias e a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, sendo que até o século XIX e começo do século XX os livros utilizados aqui vinham de Portugal. Somente em 1930 é que o livro didático no Brasil teve maior notabilidade e crescimento devido à crise econômica mundial, que fez cair o valor de nossa moeda, e o livro estrangeiro ficou mais caro. Assim, o produto nacional tornou-se mais acessível e com uma qualidade gráfica melhorada, proporcionada pela maior circulação de capital devido à produção cafeeira. A expansão do livro didático está ligada à abertura de escolas, incluindo as particulares, na segunda metade do século XX (cf. SILVA, 2000). Desta forma, Getúlio Vargas criou o Ministério da Educação e Saúde, passando a exercer um maior controle sobre essa produção nacional e, em 1937, foi criado o Instituto Nacional do Livro (INL) com o objetivo de planejar a divulgação e produção, realizando, inclusive, o controle ideológico do livro didático. É dessa época a legislação de 1938 com o Decreto-lei nº 1006 de 30/12/1938, em que aparece pela primeira vez a definição do livro didático: 1 Compêndios são livros que exponham total ou parcialmente a matéria das disciplinas constantes dos programas escolares; 2 livros de leitura de classe são livros usados para a leitura dos alunos em aula; tais livros

20 20 também são chamados de livros de texto, livro-texto, compêndio escolar, livro escolar, livro de classe, manual, livro didático. Então, de acordo com este decreto, para que o livro possa ser reconhecido como didático, é preciso que atenda a duas dimensões: a do aluno e do professor. Em relação ao aluno, o LD apresenta-se como livro de leitura em sala de aula, dando a entender que este tipo de ensino baseava-se na memorização e que os livros-textos eram utilizados como única fonte de informação. A outra definição concentra-se na ideia de manual do professor, ou seja, de livro que norteia tanto o ensino como a aprendizagem, desde a seleção dos objetivos até a forma de como eles seriam alcançados. Na Era Vargas, é possível ter uma ideia sobre esta teoria através da criação da Comissão Nacional do Livro Didático (CNLD), responsável por verificar se os livros seriam aprovados ou não mediante alguns critérios, tais como serem escritos em língua portuguesa em sua norma culta e estarem de acordo com o sistema educacional vigente. Estas atitudes tinham como objetivo propagar os sentimentos pela Pátria, ou seja, a construção da identidade do que seria o povo brasileiro e o desejo de ser reconhecido no âmbito internacional. Desta forma, os LDs e cartilhas passaram a enfatizar questões de higiene e comportamentos que seriam necessários para que os alunos se adaptassem às condições do trabalho naquela época e fizessem o País crescer. Após muitas críticas questionando a autoridade desta comissão, enfim, em 1945, é dada a liberdade de o professor escolher seu material didático. Vale destacar também que o professor até essa época não tinha o direito de escolher o livro didático a ser adotado, dada à sua formação precária. Cabia a outro (o governo) avaliar o que seria estudado e como seria ensinado, ficando com o professor a responsabilidade de passar os conteúdos às crianças. Isso mais uma vez nos remete ao LD como um manual, legitimado pelo Decreto-lei nº 1006 de 30/12/1938, que definia o livro didático como um livro que servia apenas na sala de aula. No período da ditadura militar, houve um retrocesso quanto à escolha do livro didático pelos acordos feito entre o MEC e a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Industrial (USAID), que criaram a Comissão do Livro Técnico e Didático (COLTED). Este órgão era responsável pela produção, edição e distribuição do material didático, e tinha como meta a distribuição gratuita de 51 milhões de LD em três anos, a criação de bibliotecas e a formação imediata de professores e instrutores.

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