A VIDA, A MORTE E OUTROS SENTIDOS NO CONTO O CRIME DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA DE CLARICE LISPECTOR (Ana Lady da Silva - UFAL) 1

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1 Resumo A VIDA, A MORTE E OUTROS SENTIDOS NO CONTO O CRIME DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA DE CLARICE LISPECTOR (Ana Lady da Silva - UFAL) 1 O conto O Crime do Professor de Matemática encontra-se no livro Laços de Família (1998) de Clarice Lispector. Nessa narrativa em terceira pessoa, um homem, que mais tarde identificaremos como professor de matemática, sobe ao ponto mais alto de uma colina da cidade com um saco pesado nos ombros. Dentro dele havia um cachorro morto, desconhecido, e após algum tempo de reflexão enterra-o como se fosse seu antigo cão que abandonara. Analisarei este conto tendo como apoio os textos de Benedito Nunes, A Forma do conto (1984) e outra pesquisa encontrada na internet de Sandra Faria de Resende, Morte e vida nos contos de Clarice Lispector: reflexões sobre as potencialidades da Literatura e os limites da formação cultural Disponível em: <www.ip.usp.br> Acesso: 15 de set. de Palavras-chave: Clarice Lispector; morte; vida; perdão; punição. O jogo de sentidos Para entendermos a estrutura e a linguagem do conto clareciano, vamos utilizar a princípio o texto A forma do conto de Benedito Nunes. De acordo com o autor, o conto de Clarice respeita as características fundamentais do gênero, concentrando num só episódio, que lhe serve de núcleo, e que corresponde a determinado momento da experiência interior, as possibilidades da narrativa. Assim, os contos da coletânea de Felicidade Clandestina seguem o mesmo eixo mimético dos romances. (NUNES, 1984, p.83) Uma das características principais de sua narrativa é o surgimento de um momento de tensão conflitiva que, segundo o autor, é um episódio que serve de núcleo, um momento de crise interior. Ainda para Benedito Nunes, em certos contos, a tensão conflitiva pode aparecer tanto no início e se declara subitamente e estabelece uma ruptura da personagem com o mundo, ou ela raramente se resolve através de um ato, mantendo-se do princípio ao fim seja como aspiração ou devaneio, seja como mal- 1 Ana Lady da Silva é mestranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Alagoas, UFAL. 1

2 entendido ou incompatibilidade entre pessoas, tomando a forma de estranheza diante das coisas, de embate dos sentimentos ou de consciência culposa. (p.84) Tomemos como base para análise do conto proposto este último tipo de tensão, a consciência culposa. Ao iniciarmos a leitura do conto O Crime do Professor de Matemática nos deparamos com a seguinte imagem: um personagem masculino situado no ponto mais alto de uma cidade, numa colina, observando tudo o que ficou embaixo, segurando um saco pesado. No entanto, apesar da posição geográfica privilegiada, ele não consegue ver de forma clara tudo aquilo que cobre seu campo de visão, de forma ambígua, o narrador descreve, Olhou para baixo com olhos míopes. (LISPECTOR, 1998, p.12) Ainda tentando aguçar os sentidos, parece não ouvir bem e enxerga ainda pior o que está no horizonte. O que estaria este personagem fazendo neste momento, solitário, distanciado, não só, espacialmente das outras pessoas? O que ele procurava? A princípio é como tentamos nos aproximar do drama desse personagem. Numa mistura sinestésica, o narrador onisciente nos dá inicialmente a dimensão da confusão dos sentidos instalada dentro da personagem, ele procurava ouvir as vozes esparsas das crianças espalhadas na praça. Mas apesar da limpidez da manhã os sons mal alcançavam o planalto, Não fazia frio, mas ele ajeitou o paletó agasalhando-se melhor, Tirou os óculos talvez para respirar melhor porque, com os óculos na mão, respirou muito fundo, A claridade batia nas lentes que enviaram sinais agudos. (LISPECTOR, 1998, p.12) Logo percebemos que este personagem procura um lugar inóspito, vazio, longe de olhares e de sons. É como se quisesse paralisar o mundo, por instantes, esvaziar-se para depois poder realizar seu ato de consolo da punição. Tenta ainda, por mais uma vez, perceber o som do rio, o barulho das árvores e do ar, Forçou a vista para perceber a correnteza do rio, inclinou a cabeça para ouvir algum ruído: o rio estava parado e apenas o som mais duro de uma voz atingiu por um instante a altura sim, ele estava bem só. O ar fresco era inóspito, ele que morara numa cidade mais quente. A única árvore da chapada balançava os ramos. Ele olhou-a. Ganhava tempo. Até que achou que não havia porque esperar mais. (LISPECTOR, 1998, p.13) Ao abrir o saco e fechar os olhos, retira um cachorro morto, mantinha os olhos profundamente fechados. (LISPECTOR, 1998, p.13) Seus olhos, segundo o narrador, profundamente fechados transmitem a ideia de também estarem mortos, por 2

3 segundos. Ao abri-los, algo de mágico acontece, pois os sons e a claridade ganham vida e o seu entorno se modifica, o ar estava ainda mais claro e os sinos alegres tocaram novamente chamando os fiéis para o consolo da punição. (LISPECTOR, 1998, p.13) É como se nesse momento de fechamento e abertura dos olhos houvesse uma morte e uma ressurreição instantâneas do personagem. Segundo Nunes (1984), o confronto homem-animal é muito recorrente nos contos de Clarice, e ainda, associam-se a esse confronto, de natureza visual, os dois motivos que são recorrentes nos romances de Clarice Lispector, da potência mágica do olhar e do descortínio contemplativo silencioso, este interceptando o discurso verbal. (1984, p.88) Assim, concomitante a retirada do cachorro morto do saco este personagem ressurgido magicamente pelo olhar, já não está mais confuso; seus sentimentos estão restabelecidos e se encontra racionalmente em equilíbrio. Reflete então sobre o lugar de enterro do cão que substituí aquele que seria o seu verdadeiro animal de estimação, calcula fria e matematicamente o exato lugar: o centro. Mostrando-se consciente do seu ato, Então, já que o cão desconhecido substituía o outro, quis que ele, para maior perfeição do ato, recebesse precisamente o que o outro receberia. Não havia nenhuma confusão na cabeça do homem. Ele se entendia a si próprio com frieza, sem nenhum fio solto. (LISPECTOR,1998, p.13) Os momentos que se seguem são da escavação da cova, não muito funda, pois Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade (...) O cão agora era apenas uma aparência do terreno.. (LISPECTOR, 1998, p.13) Conclui assim seu ato de punição, sentia-se livre da culpa que o aterrava, Seu crime fora punido e ele estava livre. (1998, p.14) Porque o professor se sentia culpado diante de um cachorro que não era seu e que muito menos o matara? Qual a representação da morte diante da culpa que sente? De acordo com Horkheimer e Adorno, os mortos trazem à lembrança dos vivos a parcela de culpa que lhes cabe diante do suplício injustificado, da dominação que atinge o homem e sua natureza(...)e quando o fardo da vida pesa de novo sobre os que ficaram, é compreensível que a situação do morto lhe pareça como preferível. (Apud Resende, s/d, p.5) 3

4 Ao final do sepultamento, encerra-se assim uma história para possibilitar o princípio de outra em forma de digressão, a lembrança de seu antigo cachorro de estimação, que aos poucos se transforma em saudade, Pôs-se então a pensar com dificuldade no verdadeiro cão como se tentasse pensar com dificuldade na sua verdadeira vida. O fato do cachorro estar distante na outra cidade dificultava a tarefa, embora a saudade o aproximasse da lembrança. (LISPECTOR, 1998, p.14) Neste momento de introspecção, chamado de prática-meditativa por Benedito Nunes (1984), o narrador onisciente em terceira pessoa, transforma-se no eu-narrador em primeira pessoa, numa perspectiva memorialista e em tom lírico, assim como ocorre em Desastres de Sofia, que segundo o autor, (...) a confidência e o memorialismo não diluem a presença do eu-narrador, que contrabalança a efusão lírica (...), A digressão em torno do acontecimento sob a forma de um comentário que o interpreta, integra-se por conseguinte, ao desenvolvimento da história. Verifica-se em Desastres de Sofia uma constante oscilação do narrativo ao expressivo e do expressivo ao narrativo. (NUNES, 1984, p.90-1) O então agora eu-narrador em tom de confissão, relembra dos momentos que passaram juntos. Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua, Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente, Lembro-me de ti quando eras pequeno, E como cheiravas as ruas! (1998, p.14) No entanto com tantas boas lembranças, havia um problema que tornava esta amizade insuportável e impossível de continuar. O próprio narrador em primeira pessoa revela seus controversos sentimentos, Porque eras irredutível, Porque, embora meu, nunca me cedeste nem um pouco de teu passado e de tua natureza. E, inquieto, eu começava a compreender que não exigias de mim que eu cedesse nada da minha para te amar, e isso começava a me importunar. (1998, p.14) Percebe-se então que enquanto o professor batizava-o com um nome humano e bíblico José para tentar incutir-lhe também alma humana, o cão seguia apenas o seu instinto de ser cão, seguia sua natureza irracional e nisso contrariava a vontade do professor, Era no ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que nos entendêssemos. Não me pedindo nada, me pedias demais. De ti mesmo, exigias que fosses um cão. De mim, exigias que eu fosse um homem. (1998, p.14) E quando 4

5 esta convivência já se tornava insuportável para o professor, o homem na sua incapacidade de aceitar o cão apenas como cão, recorre ao ódio, à brutalidade, como confessa em algumas passagens, Enquanto isso, nossas brincadeiras tornavam-se perigosas de tanta compreensão, lembrou-se o homem satisfeito, (...) tu terminavas me mordendo e rosnando, eu terminava jogando um livro sobre ti e rindo. Mas quem sabe o que já significava aquele meu riso sem vontade. Eras todos os dias um cão que se podia abandonar. (1998, p. 14) A pesquisa de Sandra Faria de Resende considera que no convívio com os homens, os animais são alvo de ódio e de hostilidade. Os olhos dos inocentes tornam-se ameaçadores porque, na falta de gratuidade de uma vida que serve a si própria, projetase aquilo que não foi realizado. O animal que, em sua natureza, conduz sua vida sem máscaras, conserva os traços nobres que, no homem, estão uniformizados. (s/d, p.7) Assim, o homem que projeta suas expectativas no animal de estimação ou que por viver em sociedade, não se satisfaz com as atitudes do cão, pois este não lhe responde como gostaria, de forma humanizada. Instala-se então a frustração neste homem, que reage agressivamente ao olhar inocente e natural do animal. E esta naturalidade, não alcançada pelo dono, o torna uma ameaça constante para o incompreensível animal, que a princípio já era considerado um cão que podia abandonar. O personagem então frustrado por sua projeção sem sucesso age de forma agressiva contra o animal, batendo-lhe, jogando um livro e o cão responde mordendo, avançando, rosnando... Segundo Resende sobre A dialética do esclarecimento de Horkheimer e Adorno (1944/1985) indica que, na ausência de condições que permitam o entendimento do homem com o mundo, há um desequilíbrio na tensão interno externo que impede os movimentos de identificação e diferenciação, fundantes na formação do indivíduo. (RESENDE, s/d p.4) E continua, o ódio é a tentativa desesperada de projetar no outro a culpa e o medo, destruindo-o. (RESENDE, s/d, p.7). No conto de Clarice, o real cachorro do personagem não foi destruído, não houve a morte física, apenas a representada por outro cachorro, significando ausência e por consequência um mal menor a ser praticado contra o amigo de estimação. O narrador em primeira pessoa deixa entender-se por suas palavras que um mal maior seria 5

6 praticado, caso não houvesse o abandono, e com isto, este, por ser menor, seria facilmente perdoado, Mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a possibilidade constante de eu pecar o que, no disfarçado de meus olhos, já era pecado. Então pequei logo para ser logo culpado. E este crime substitui o crime maior que eu não teria coragem de cometer, pensou o homem cada vez mais lúcido. (1998, p.15) Mas em sua mente sabia que cometia um grande pecado, ou um crime que ficaria impune, pois este ainda não havia sido registrado dentro dos grandes crimes puníveis a traição, pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições. (1998, p.15) Ainda assim, diante daquilo que considera crime, sabia que não seria condenado nem pela igreja, nem pelos vizinhos, nem pela família e muito menos pelo próprio cão, pois se o reencontrasse e apenas o chamasse pelo nome, o cachorro rapidamente pularia em seus braços e lamberia seu rosto, Nem tu, José, me condenarias. Pois bastaria, esta pessoa poderosa que sou, escolher de te chamar e, do teu abandono nas ruas, num pulo me lamberias a face com alegria e perdão. Eu te daria a outra face a beijar. (1998, p.15) Nesta última frase, não se sentindo ainda digno de perdão, mas sentindo-se superior ao cão, numa alusão à parábola cristã, pois quem deveria dar a outra face seria o animal traído e não o dono traidor, desenterra o cachorro, como forma de não esquecer seu crime não-punível, deixa-o à mostra, E assim o professor de matemática renovara seu crime para sempre. (1998, p.15) Da mesma forma que no conto Amor, a história termina num anticlímax, ou seja, após a tensão conflitiva apresentada no conto por meio do sentimento de culpa pelo abandono do cão, o homem retorna calmamente ao seio familiar, num movimento cíclico, de retorno ao princípio. Para Benedito Nunes, o conto (Amor) não termina com a tensão conflitiva levada aos dois extremos que se tocam, do rompimento com a realidade habitual e da contemplação extática. Depois de atingir o ápice a história continua à maneira de um anticlímax. (NUNES, 1984, p.86) O narrador em terceira pessoa encerra então, o momento de reflexão do professor, E como se não bastasse ainda, começou a descer as escarpas em direção ao seio de sua família. (1998, p.15) Dessa forma, mesmo depois de toda a ação para ser perdoado e se perdoar, desfaz o seu próprio consolo da punição, mantém a cova aberta, assim como uma 6

7 ferida que não cicatriza ou uma lembrança que não cessa, e volta ao ponto de onde partira, sem redenção. Referências Bibliográficas LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina e outros contos. Disponível em: <WWW.4shared.com> Acesso: 15 de set. de NUNES, Benedito. A forma do conto. In: O Drama da Linguagem: Uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, RESENDE, Sandra Faria de. Morte e vida nos contos de Clarice Lispector: reflexões sobre as potencialidades da literatura e os limites da formação cultural. Disponível em: <www.ip.usp.br> Acesso: 15 de set. de

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