Agroindústria familiar: problemas e melhorias para a região do Alto Uruguai Catarinense

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1 Agroindústria familiar: problemas e melhorias para a região do Alto Uruguai Catarinense CLADECIR ALBERTO SCHENKEL 1 DEBORA DE MOURA 2 TANICE ANDREATTA 3 RESUMO O presente trabalho busca avaliar aspectos voltados à execução de projetos ligados ao desenvolvimento de agroindústrias familiares de pequeno porte na região do Alto Uruguai Catarinense. O problema que norteia o trabalho está focado nos serviços de assistência técnica prestados pelas instituições públicas aos agricultores familiares da região, mais especificamente acerca de agroindústrias. O objetivo central é o de avaliar, sob a ótica do agricultor familiar, como as ações das agências públicas vem sendo desenvolvidas junto às agroindústrias familiares de pequeno porte. Mais especificamente, é feita a caracterização da região e seus principais problemas, a apresentação da situação atual das agroindústrias e a elaboração de propostas que venham a minimizar os problemas apontados. Metodologicamente é uma pesquisa exploratória, do tipo estudo de caso. Estes casos referem-se a dois estudos realizados por alunos e professores da Universidade do Contestado Campus de Concórdia, respectivamente, com seis frigoríficos de cinco municípios da região e com cinco agroindústrias familiares incubadas na Incubadora Agroindústria de Concórdia IAC, durante o mês de Janeiro de A coleta de dados apresentou problemas voltados à gestão ambiental, tais como, a alocação de resíduos sólidos e líquidos, e de gestão administrativa, tais como, a elaboração de preços, a organização da produção e controle de custos. Sendo assim, as principais propostas apontadas podem ser agrupadas em quatro pontos centrais: a capacitação dos profissionais envolvidos na condução e assistência dos projetos; capacitação dos agricultores familiares; maior interação entre os profissionais e os agricultores e, por fim, criação de parcerias entre as instituições envolvidas diretamente com organizações não governamentais ONGs - e instituições de ensino e pesquisa presentes na região. PALAVRAS-CHAVE: Agroindústria familiar, assistência, agricultura familiar. 1 Mestre em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade CPDA/UFRRJ, professor dos cursos de Gestão Ambiental, Economia Agroindustrial e Administração da Universidade do Contestado UnC/Concordia SC. Rua Leandro M. D. Costa, 71 cs 12 Bairro Imigrantes - Concórdia SC - 2 Mestre em Agronegócios - CEPAN/UFRGS, professora do curso de Administração e Química Industrial de Alimentos da Universidade do Contestado UnC/Concordia SC. Travessa Antônio Brunetto, 105/1003 Concórdia SC 3 Mestre em Desenvolvimeto Rural PGDR/UFRGS, professora do curso de Economia Agroindustrial da Universidade do Contestado UnC/Concordia SC. Travessa Antônio Brunetto, 105/1003 Concórdia SC

2 INTRODUÇÃO A região do Alto Uruguai Catarinense, situada no Meio Oeste do estado de Santa Catarina, é conhecida pela sua tradição agrícola familiar, pela presença de grandes frigoríficos, tais como a Sadia e a Seara, e, mais recentemente, também pelos problemas ambientais decorrentes da expansão e concentração da produção de suínos de aves. O presente trabalho é fruto das preocupações que vem sendo alimentadas pelo contato direto com algumas das pequenas agroindústrias rurais familiares instaladas na região do Alto Uruguai Catarinense, a partir da experiência da Incubadora Agroindustrial de Concórdia IAC. Estas agroindústrias são resultantes de iniciativas dos próprios agricultores e do poder público, para fazer frente ao quadro de exclusão dos agricultores familiares em curso, a partir da reestruturação do sistema de integração às grandes agroindústrias (fornecimento de matéria-prima) e da abertura comercial. É preciso dizer que tais iniciativas não se restringem ao incentivo para a implantação de pequenas agroindústrias rurais, mas são as que se destacam. A busca de alternativas para a viabilização das unidades de produção agrícola familiar certamente é uma necessidade do ponto de vista social e econômico. Cabe, entretanto, averiguar se os encaminhamentos que estão sendo dados pelos órgãos e agências competentes permitem soluções de longo prazo ou se, talvez no afã de apontar soluções para o caso, podem comprometer em futuro próximo todo o trabalho e investimento realizado atualmente. Não se trata aqui de julgar os serviços prestados pelas agências de fomento e de assistência técnica públicas, mas de perceber o trabalho que está sendo desenvolvido a partir da perspectiva do agricultor familiar. Assim, o que se busca é analisar eventuais falhas que possam estar acontecendo e apontar formas de aperfeiçoamento do trabalho realizado junto aos agricultores familiares e de sua metodologia, tendo como fim fortalecer a proposta das agroindústrias rurais de pequeno porte enquanto alternativas de longo prazo, evitando-se, no que couber, problemas decorrentes de falhas na gestão econômico-financeira e ambiental destas unidades. Diante do exposto este artigo apresenta como questão central, o seguinte problema: como têm sido realizados os serviços de assessoria e assistência pelas instituições públicas aos agricultores familiares para a organização e implementação dos projetos agroindustriais rurais de pequeno porte na região do Alto Uruguai Catarinense? OBJETIVOS Geral Avaliar, sob a ótica do agricultor familiar, as ações que vêm sendo desenvolvidas pelas agências de fomento e assistência às agroindústrias rurais de pequeno porte. Específicos Caracterizar a agricultura familiar da região e seus principais problemas; Verificar a situação atual das agroindústrias rurais e de pequeno porte da região; 2

3 Propor sugestões que contribuam para a solução dos problemas apresentados. METODOLOGIA O presente trabalho consiste em uma pesquisa exploratória, uma vez que este método de pesquisa tem como objetivo, proporcionar uma visão geral acerca de determinado fato, ou seja, busca esclarecer soluções para problemas passíveis de investigação, mediante procedimentos mais sistematizados, (GIL, 1995). Neste sentido, busca-se apresentar os principais problemas que vem sendo enfrentados pelas agroindústrias familiares e de pequeno porte da região, uma vez que, na busca de soluções para a permanência do produtor rural no campo, a manutenção da cultura e tradição da região e sua contribuição no desenvolvimento econômico nacional e até internacional, venha realmente surtir o efeito desejado. O tipo de pesquisa realizado é considerado multicaso por ser caracterizado como um estudo aprofundado de um ou poucos objetos, cujo objetivo é permitir um conhecimento amplo e detalhado de determinado caso (GIL,1995). Sendo assim, foram realizados dois estudos, um pelos alunos do curso de Gestão Ambiental da UnC/Concórdia e o segundo pelos professores coordenadores da Incubadora Agroindustrial de Concórdia IAC, também vinculada a mesma universidade. O primeiro caso foi realizado na região da Associação dos Municípios do Alto Uruguai Catarinense AMAUC, mais especificamente nos municípios de Concórdia, Seara, Ipumirim, Arabutã e Lindóia do Sul, cujo objetivo central era obter informações quanto à gestão ambiental. Selecionaram-se seis frigoríficos nos quais foram feitas visitas e entrevistas com os responsáveis, durante o mês de janeiro de O segundo caso, realizado pela IAC, foi constituído de um diagnóstico com as cinco agroindústrias incubadas produtoras de frutas cristalizadas, vinho, geleado de laranja, derivados de cana-de-açúcar (cachaça, açúcar mascavo e melado) e embalagens para carvão. A partir deste diagnóstico, também realizado em janeiro de 2004 buscou-se levantar problemas acerca da gestão administrativa das respectivas agroindústrias. 3

4 CARACTERIZAÇÃO REGIONAL A colonização da região do Alto Uruguai Catarinense se inscreve na história de imigração e colonização realizada na região Sul do Brasil a partir de 1824, quando, sob a direção do Governo Imperial brasileiro, se deu início ao processo de atração de imigrantes europeus não portugueses ao Brasil, com o objetivo de promover a ocupação de territórios pouco ou não ocupados, como mecanismo de defesa da posse dos mesmos, especialmente no Sul do Brasil, onde a disputa territorial com os povos do Plata era constante (SCHENKEL, 1997; ROCHE, 1969). Tal processo de colonização, interrompido entre 1830 e 1847 por razões diversas, foi retomado a partir da segunda metade do século XIX, já com vistas ao suprimento de mão-de-obra para as lavouras cafeeiras do centro do país, dada a crise do trabalho escravo advinda do combate da Inglaterra ao comércio de africanos (PETRONE, 1976; PETRONE, 1984; OBERACKER, 1976; HOLANDA, 1976; HOLANDA, 1991; PRADO JÚNIOR, 1967). As colônias instaladas inicialmente no Vale do Rio dos Sinos no Rio Grande do Sul, alastram-se serra acima na segunda metade do século XIX, alcançando o Planalto Norte e o Oeste de Santa Catarina, já nas primeiras décadas do século XX. Tal expansão foi resultante de um conjunto de fenômenos interdependentes e complementares, dos quais destacam-se: a pouca influência do latifúndio exportador sobre a região; a contestação da Argentina sobre a posse da região e a ameaça de invasão; a promulgação da lei de terras; o tamanho exíguo dos lotes de terras destinadas aos imigrantes, forçando os descendentes à continuidade do processo migratório em busca da reprodução social e familiar; a abertura dos meios de comunicação ligando o sul ao centro do país, propiciando a incorporação definitiva da região à produção nacional, especialmente a construção da Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande, ligando Santa Maria no Rio Grande do Sul à Itararé em São Paulo (SANTOS, 1978; SANTOS, 1993; PETRONE, 1984; WERLANG, 1994; SCHENKEL, 1997). Formou-se uma sociedade com traços significativamente distintos nas regiões de colonização em relação aquela formada nos trópicos, que teve por base o latifúndio, a agricultura de monocultura e de exportação e o trabalho escravo. A sociedade organizava-se sob o modelo de colônias de povoamento, ancorados numa produção de gêneros alimentícios voltados ao mercado interno, na pequena propriedade, no trabalho familiar, na policultura, na diversificação das atividades econômicas, que incluíam atividades de artesanato, manufatura, indústria e comércio ligados às necessidades das colônias, bem como, no desenvolvimento de um tecido social complexo em relação à simplicidade do modelo social implantado nas áreas de plantation. (HOLANDA, 1991; ROCHE, 1969; OBERACKER, 1976). Imediatamente após a construção da referida estrada de ferro, e por contrato firmado entre a companhia responsável pela construção da obra e o governo brasileiro, foi dado início ao processo de colonização da região do Oeste de Santa Catarina. Foram atraídos, especialmente, os descendentes de imigrantes italianos e alemães oriundos do Rio Grande do Sul que implantaram na região um modelo social e econômico semelhante ao praticado nas colônias do Rio Grande do Sul (FERREIRA, 1992; THOMÉ, 1992; WERLANG, 1994; SCHENKEL, 1997). A região do Alto Uruguai Catarinense foi colonizada a partir do início da década de vinte, do século XX. Mais especificamente, a partir da transferência da responsabilidade pela colonização 4

5 da região da Brazil Railway Company para outras companhias, quais sejam: à Companhia Luce e Rosa, a Colônia de Uvá; à Companhia Capelli, a Colônia de Rancho Grande; à Empresa Brum, as da região de Suruvi; e à Sociedade Territorial Mosele, Eberle, Ahrons e Companhia as Colônias de Sertãozinho e de Rio Engano, dentre outras (FERREIRA, 1992; SCHENKEL, 1997). Desde o início do processo de ocupação destacaram-se na região, além das atividades de produção agrícola e animal, a produção de milho, o feijão, o trigo, a alfafa, os suínos e outros, as atividades artesanais, dentre as quais as de transformação, com a fabricação artesanal (colonial) de embutidos e outros derivados da carne, queijos e demais derivados do leite, doces e compotas, conservas e outras (SCHENKEL, 1997). O desenvolvimento da região ao longo do século XX foi decisivamente influenciado pelo desenvolvimento das agroindústrias que surgiram e prosperaram como resultado das atividades realizadas pela agricultura familiar regional, tais como, a Sadia e a Seara, para citar duas empresas que surgiram na região do Alto Uruguai (TORMEM e FERREIRA, 1987; SCHENKEL, 1997). O processo de modernização da agricultura, ocorrido no Brasil como um todo, teve reflexos decisivos no cenário agrícola da região em foco. Tal processo caracterizou-se pela integração do agricultor familiar, enquanto consumidor de insumos de produção e fornecedor de matéria-prima, ao processo de produção agroindustrial, especialmente no setor de carnes (SORJ, POMPERMAYER, CORADINI, 1982; BELATTO, 1985). As agroindústrias da região, especialmente a Sadia, foram pioneiras neste processo de integração da produção agrícola familiar à produção agroindustrial, submetendo aos agricultores o padrão tecnológico de produção de interesse da indústria. No bojo deste processo, foi exigido que o agricultor familiar produzisse em quantidade, épocas e volumes segundo interesses da agroindústria. Em nome da qualidade e produtividade, foram promovidas profundas transformações no processo de produção, envolvendo o emprego de raças melhoradas e de ração balanceada, a construção de instalações adequadas, o emprego de máquina e equipamentos, o uso de fármacos, dentre outros, num processo que ficou conhecido como de industrialização da produção agrícola (MULLER, 1982; MOREIRA, 1982). Constitui, assim, parte do fenômeno mais geral ocorrido na agricultura brasileira a partir de meados do século passado, qual seja, a implantação da Revolução Verde (GRAZIANO DA SILVA, 1999; MOREIRA, 1982). Com a Revolução Verde, houveram significativos ganhos de produtividade, aumento de produção, padronização da produção, dentre outros. Entretanto, ela se fez acompanhar de mudanças sócio-econômicas também significativas: a especialização da produção, a perda da autonomia de decisão, a monetarização das atividades, a inserção e dependência crescente em relação ao mercado e ao crédito agrícola, a concentração da produção e a exclusão de agricultores familiares, dentre outras (GRAZIANO DA SILVA, 1999; MOREIRA, 1999 e outros). O processo de exclusão foi reforçado na década passada com a abertura econômica brasileira ao comércio internacional, pois submeteu os já descapitalizados agricultores familiares brasileiros à concorrência com agricultores de outros países, em situação muitas vezes de desigualdade, seja em função de subsídios agrícolas concedidos aos agricultores de outros países, seja em função de restrições de mercado (de ordem sanitária ou não), seja em função da definição de cotas, como é caso da carne suína na Rússia. 5

6 É dentro deste quadro que a busca por alternativas econômicas toma corpo junto à comunidade regional. Encontrar alternativas para a geração de renda e emprego para a agricultura familiar tem o significado de promover o estancamento do processo de exclusão e, mais do que isso, de revertê-lo, de passar a incluir. Dentre as medidas tomadas neste sentido, valem ser destacadas as ações das agências públicas de crédito, pesquisa e extensão rural, as quais, apesar da tônica central estar orientada para os interesses da Revolução Verde, têm desenvolvido relevante trabalho no sentido de propiciar alternativas sócio-econômicas para a agricultura familiar, tais como, a agregação de valor aos produtos através da industrialização rural em pequenas agroindústrias. Este programa, na região em foco, como em todo o Oeste de Santa Catarina, teve fomento e foi incentivado por diversos órgãos federais (EMBRAPA, PRONAF, Desenvolver e outros), estaduais (Desenvolver, EPAGRI e outros) e municipais (Secretarias Municipais de Agricultura), permeou a pesquisa, a extensão e o processo de formação de agricultores, através dos Centros de Treinamento de Agricultores da EPAGRI. Da mesma forma, são merecedoras de reconhecimento, embora não constituam alvo deste, o conjunto de ações empreendidas pelas ONG s, especialmente no que tange ao fomento da agroecologia, formação de associações e cooperativas de agricultores familiares, do resgate de sementes e da agroindústria rural de pequeno porte. AGRICULTURA FAMILIAR Traço característico da agricultura regional é o seu caráter familiar. Para Lamarche, a exploração familiar corresponde a uma unidade de produção agrícola onde a propriedade e o trabalho estão intimamente ligados à família (1993, p. 15). De acordo com o projeto de Cooperação Técnica realizado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária e Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, um estabelecimento agrícola tipicamente familiar é aquele em que a direção dos trabalhos é exercida pelo produtor e que o trabalho familiar sobreponha-se ao trabalho contratado, além da extensão territorial das unidades de produção, limitadas regionalmente, mas, via-de-regra, de pequeno porte (INCRA/FAO, 2000). Como aponta Lamarche (1993), a agricultura familiar apresenta grande diversidade, cujas formas assumidas não permitem compreendê-la como um modelo único, enquanto classe social no sentido marxista. Se bem que esta afirmação tenha como referência a presença da agricultura familiar em todo mundo, independentemente dos sistemas sócio-políticos vigentes e do grau de reconhecimento e de participação na econômica, na região do Alto Uruguai Catarinense tal afirmativa se aplica para o entendimento da diversidade de formas assumidas por ela. Neste contexto, a exploração familiar não é um elemento da diversidade social, mas contém em si mesma toda esta diversidade. Pode ser definida como um modelo de funcionamento da exploração agrícola, subdividida em classes sociais no interior do próprio modelo, estas determinadas pela capacidade de apropriação dos meios de produção e de desenvolvê-los. Devese estudá-la numa totalidade, isto é, deve-se considerar a influência dos diferentes níveis da 6

7 realidade na sua capacidade de adaptação e de reprodução, tendo como eixo o grau de integração à economia de mercado (LAMARCHE, 1993). Propõe, para efeito de análise, os conceitos de modelo original (memória) e modelo ideal (ambição). O modelo original consiste num modelo anterior ao qual o agricultor familiar necessariamente se refere, depende do contexto histórico específico do grupo (LAMARCHE, 1993). No caso em foco, conforme apontado, a tradição oriunda do processo de colonização, como o trabalho árduo, o pioneirismo e a etnicidade, com matizes de economia camponesa, compõe este modelo original (SCHENKEL, 1997). O modelo ideal, por outro lado, é a projeção para o futuro de uma imagem idealizada da exploração e um conjunto de estratégias é adotado para que se alcance tal situação esperada. Segundo a importância da lógica familiar e do grau de dependência ao mercado para o funcionamento da unidade, Lamarche (1993) distingue quatro tipos de modelos ideais: modelo empreendimento familiar, em que o objetivo é a realização de uma produção para o mercado, permanecendo o trabalho essencialmente familiar; modelo familiar, em que finalidade essencial é a reprodução da família e não da unidade de produção; modelo subsistência, em que o objetivo é a simples sobrevivência da família; e o modelo empreendimento agrícola, cujo objetivo é uma exploração agrícola voltada ao mercado, realizada com trabalho assalariado e para a obtenção de um ganho máximo. A questão referente ao comportamento econômico é bastante complexa e delicada, pois os colonos (agricultores familiares) sempre mantiveram relações com o mercado, desde os princípios do processo de colonização, embora, conforme apontado, com matizes da racionalidade camponesa. Com a implementação da política de modernização da agricultura brasileira, a partir de meados do século passado, na região representada pelo processo de integração da produção agrícola familiar a produção agroindustrial, foi estabelecido, de fora, um padrão tecnológico e um controle do volume de produção e da época de venda, aprofundando a integração ao mercado e intensificando a interferência de fatores externos à racionalidade interna da unidade de produção familiar (SCHENKEL, 1997). Como aponta Abramoway (1992), a racionalidade da organização de uma agricultura familiar altamente integrada ao mercado, capaz de incorporar os avanços técnicos e de responder às políticas governamentais, não depende mais da família em si mesma, mas de sua capacidade de adaptar-se e de montar um comportamento adequado ao meio social em que está inserida. Por outro lado, o que se percebe na região em foco, é uma multiplicidade de modelos, com base em Lamarche, de agricultores familiares, sendo encontrados representantes do modelo empreendimento agrícola - altamente integrados ao mercado, com uso de mão-de-obra assalariada e voltados à obtenção de ganho máximo até representantes do modelo de subsistência sobrevivência da família. Em função do processo de exclusão em curso, decorrente da reformulação do processo de integração pelas agroindústrias e da abertura comercial, há uma diminuição do número de agricultores altamente integrados, e uma elevação daqueles que se aproximam do modelo de subsistência; de maneira geral, pode-se dizer que está ocorrendo um empobrecimento generalizado dos agricultores familiares da região. É o que justifica a busca pelas alternativas de emprego e renda. 7

8 AGROINDÚSTRIA As agroindústrias constituem um subsistema constituinte do grande sistema denominado como agronegócio, que se encontra a jusante da agricultura. Assim como as grandes agroindústrias, as pequenas, geralmente formadas por agricultores familiares também contribuem de maneira relevante para o desenvolvimento econômico do país. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (2003), a participação da agricultura familiar representa mais de 84% dos imóveis rurais do país, constituindo mais de 4,1 milhões de estabelecimentos do meio rural. A produção destes estabelecimentos é responsável por aproximadamente 40% do valor bruto da produção agropecuária, 80% das ocupações produtivas agropecuárias e parcela significativa dos alimentos que chegam à mesa da população brasileira, merecendo destaque os seguintes produtos: feijão (70%); mandioca (84%); suínos (58%) bovinocultura de leite (54%); milho (49%) e aves e ovos (40%). Neste sentido, nota-se a relevância das agroindústrias familiares como alternativa para a permanência dos agricultores familiares no meio rural e também na construção de um novo modelo de desenvolvimento sustentável, que visa o rural como um todo, e não somente ligado à produção agrícola. Além desta alternativa, há também duas outras contribuições das agroindústrias familiares: a primeira é a criação de oportunidades de inclusão social, principalmente para os segmentos menos privilegiados como as mulheres, jovens e idosos, uma vez que, para estes, se tornar ativo pode representar o início ou até mesmo o reinício da construção da cidadania, bem como, a oportunidade de resgatar seus valores sociais e culturais. E, a segunda, consiste na promoção da participação dos agricultores familiares no processo produtivo e no mercado. Apesar da sua grande contribuição econômica e social para o produtor rural, o subsistema agroindústria vem sofrendo algumas mudanças. Uma delas, segundo dados do Instituto de Planejamento e Economia Agrícola de Santa Catarina - CEPA/SC (2002), é a abertura de novos mercados e a formação de grandes grupos econômicos internacionais, ocasionando em um ambiente competitivo com novos paradigmas gerenciais e operacionais para as empresas agroalimentares. Neste contexto competitivo, e com tendências de ampliação na escala de produção agrícola destinada às grandes agroindústrias, a opção de geração de renda e agregação de valor para a agroindústria familiar de Santa Catarina está na criação de produtos diferenciados e também na articulação de redes de cooperação, cujo objetivo é buscar economias de escala, viabilizando o acesso desta produção tanto para o mercado nacional quanto para o internacional. Vale ressaltar, que para tanto, é necessário a adequação aos instrumentos de apoio governamental, dentre estes: o acesso ao crédito, a desburocratização de processos de registros empresariais e de produtos e a adaptação às leis vigentes quanto á produção de alimentos, dentre outros. Para esta última, o que se busca é a adequação às normas de produção de alimentos típicos regionais, buscando resgatar as especificidades do saber-fazer tradicional aliado a preservação das características originais dos produtos com qualidade reconhecida (ICEPA/SC, 2002). 8

9 APRESENTAÇÃO DOS CASOS Conforme apresentado na metodologia, a elaboração deste artigo foi fundamentada na condução de dois estudos realizados por alunos e professores da UnC Concórdia, em janeiro de 2004, abrangendo dois tipos de agroindústrias. As primeiras foram frigoríficos de pequeno porte da Região do Alto Uruguai Catarinense AMAUC e as segundas são cinco agroindústrias familiares incubadas na IAC. O primeiro caso levantou questões referentes aos seguintes aspectos: ano de fundação dos abatedouros, capacidade de abate, destino de sólidos e líquidos, abate diário, quantidade de sólidos e líquidos, limpeza, animais condenados, destino do couro, controle de insetos e aquisição de água quente. Diante dos dados coletados, foram apontados os seguintes aspectos: Os frigoríficos já estão em funcionamento desde 1996, sendo que dois deles foram estabelecidos em 2003; A quantidade de produção de resíduos está acima do que fora planejado no projeto original (um abatedouro tem licença para o abate de 80 cabeças/dia, no entanto está abatendo 180 cabeças/dia) resultando no aumento do volume de resíduos produzidos; A quantidade de resíduos líquidos e sólidos está sendo atirada ao ar livre atraindo animais e poluindo o meio ambiente; Percebeu-se que algumas lagoas de estabilização não são revestidas e a distância dos mananciais de águas é inferior ao permitido pela legislação ambiental (IN4); Falta assistência técnica por parte dos órgãos competentes quanto à educação ambiental dos responsáveis pelos abatedouros e seus funcionários; Há mau cheiro provocado pelo processo errôneo de fermentação das lagoas de decantação; Alguns abatedouros incineram os animais condenados, o que não é permitido pela legislação; Há deficiência por parte da fiscalização; Faltam instruções normativas para os donos de abatedouros. Diante do exposto, concluiu-se que os frigoríficos estudados não estão cumprindo adequadamente a legislação, uma vez que não estão sendo realizadas as ações necessárias para evitar a poluição ambiental. No entanto, sabe-se que algumas mudanças aconteceram, o que não veio garantir, necessariamente, que ocorreram mudanças de atitude e de comprometimento da relação abatedouro sociedade-meio ambiente, mas, indicam um início de caminhada na busca do equilíbrio e de uma relação harmônica com o mundo natural. 9

10 O segundo caso, conduzido pela IAC, realizou um diagnóstico focando as principais questões relacionadas à administração geral de uma agroindústria. Neste sentido, os principais itens abordados foram: produção, comercialização, custos e legislação para produtos alimentares. Assim, os principais pontos observados foram os seguintes: A matéria-prima consumida geralmente é produzida no próprio estabelecimento, exceto para agroindústria de embalagens; O acompanhamento da qualidade da matéria-prima para processamento é deficitário; Não há controle oficial de entrada e saída de matéria-prima e a elaboração dos produtos é feita pelos próprios proprietários; Em três agroindústrias a comercialização do produto se dá principalmente no próprio estabelecimento ou por venda direta, sem dispor de estratégias de comercialização; O valor de venda dos produtos é estabelecido com base principalmente no preço de mercado, incorporando algumas vezes, os custos variáveis; Não são feitos controles de custos específicos para as entradas e saídas de recursos financeiros; Apenas duas agroindústrias possuem certificado de boas práticas; Há produtos que ainda não podem ser comercializados oficialmente por falta de registro no Ministério da Agricultura; De posse destas informações, conclui-se que ainda há deficiências no tocante às técnicas administrativas adotadas pelas agroindústrias consultadas. Neste sentido, há necessidade de promover a capacitação dos gestores, mediante a realização de treinamentos direcionados e assessorias. CONSIDERAÇÕES FINAIS Conforme proposto no início do trabalho, as considerações a serem apresentadas referem-se à sugestões e propostas que possam no entender dos autores contribuir para minimizar os problemas comumente encontrados nas agroindústrias familiares e de pequeno porte da região. Tais sugestões e propostas podem ser agrupadas em quatro pontos centrais: a capacitação dos profissionais envolvidos na condução e assistência dos projetos; capacitação dos agricultores familiares; maior interação entre os profissionais e os agricultores e, por fim, criação de parcerias entre as instituições envolvidas diretamente com organizações não governamentais ONGs - e instituições de ensino e pesquisa presentes na região. Acerca do primeiro ponto, cabe ressaltar que a proposta de capacitação refere-se criação de uma visão interdisciplinar do profissional, isto é, que ele ultrapasse a visão específica da sua área incorporando novas técnicas e conhecimentos que estejam em áreas correlatas aos projetos a serem desenvolvidos. Mais especificamente, espera-se que o técnico que atue junto ao agricultor no planejamento de alguma atividade agroindustrial possa ao mesmo tempo estar capacitado para orientar tanto questões econômicas e agronômicas, quanto produtivas e ambientais, dentre outras. 10

11 Neste sentido, destaca-se que a ausência deste tipo de visão pode comprometer todo o projeto a ser executado. Para a capacitação dos produtores a proposta que se apresenta está calcada nos mesmos princípios apontados para os profissionais, devendo, entretanto, pautar-se pela criação de uma cultura de gestão que envolva os aspectos econômicos, ambientais, produtivos, agronômicos e legais. A promoção da interação entre os técnicos e agricultores tem o propósito de fazer com que os aspectos técnicos e legais que necessariamente precisam ser abordados na elaboração de um projeto, sejam efetivamente compartilhados sob o ponto de vista da co-responsabilidade entre o técnico e o empreendedor. Tal proposta tem como fundamento a percepção de que a falta de conhecimento dos critérios utilizados pelo técnico no momento do planejamento, tem levado muitas vezes os agricultores familiares a desrespeitá-los. As parceiras, como é do conhecimento de todos, são necessárias em razão da dificuldade das Instituições em ter nos seus quadros profissionais de todas as áreas, problema este que se torna ainda mais presente nos dias de hoje em função das dificuldades financeiras enfrentadas pelas diversas esferas do poder público. Por outro lado, na região do Alto Uruguai Catarinense, como em outras, há um conjunto de Instituições cujos quadros se complementam, mas que na maior parte das vezes trabalham de forma desarticulada. É certo que algumas iniciativas já estão em curso, das quais a Incubadora Agroindustrial de Concórdia é um dos exemplos em fase ainda germinal. No entanto, este é apenas um primeiro e tímido passo; muito mais ainda pode e precisa ser feito em favor da agricultura familiar. 11

12 REFERÊNCIAS ABRAMOWAY, Ricardo. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. Rio de Janeiro: ANPOCS; Campinas: UNICAMP; São Paulo: Hucitec, BELATO, Dinarte. Os camponeses integrados. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, BRASIL, Programa de agroindustrialização da produção dos agricultores familiares 2003/2006: Documento Referencial. Brasília, Ministério do Desenvolvimento Agrário, FERREIRA, Antenor Geraldo Z. Concórdia: o rastro de sua história. Concórdia: Fundação Municipal de Cultura, GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, GRAZIANO DA SILVA, José. Tecnologia e agricultura familiar. Porto Alegre: Ed. UFRGS, HOLANDA, Sérgio Buarque de. As colônias de parceria. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (Diretor). História Geral da Civilização Brasileira. TOMO II, Vol. 3, Livro Segundo. São Paulo: Difusão Européia do Livro, HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 23ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, ICEPA/SC, Perspectiva para a agricultura familiar Horizonte Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural e da Agricultura. Florianópolis, INCRA/FAO. Novo Retrato da Agricultura Familiar: O Brasil Redescoberto. Brasília: INCRA/FAO, LAMARCHE, Hughes (Coord.). A agricultura familiar: comparação internacional - uma realidade multiforme. TOMO I. Campinas, Editora da UNICAMP, MOREIRA, Roberto José. Agricultura brasileira: os interesses em jogo no início dos anos 80. Reforma Agrária, Vol. 12, nº 6, nov/dez MOREIRA, Roberto J. Agricultura familiar: processos sociais e competitividade. Rio de Janeiro: Mauad; Seropédica: UFRRJ, MULLER, Geraldo. Agricultura e industrialização do campo no Brasil. Revista de Economia Política, Vol. 1, nº 6, abr/jun

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