A AMAZÔNIA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: O PAPEL DA INFLUÊNCIA INTERNACIONAL NA FORMULAÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA PARA A REGIÃO

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1 FACULDADES INTEGRADAS RIO BRANCO CURSO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS AGATHA MANON SAMUDIO A AMAZÔNIA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: O PAPEL DA INFLUÊNCIA INTERNACIONAL NA FORMULAÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA PARA A REGIÃO São Paulo 2010

2 AGATHA MANON SAMUDIO A AMAZÔNIA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: O PAPEL DA INFLUÊNCIA INTERNACIONAL NA FORMULAÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA PARA A REGIÃO Monografia apresentada ao Curso de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, como requisito para obtenção do Grau de Bacharel em Relações Internacionais, orientada pelo Prof. Dr. Sérgio Gil Marques dos Santos. São Paulo

3 Aos meus pais, por me ensinarem a acreditar e persistir nos meus sonhos. 2

4 AGRADECIMENTOS A finalização do presente trabalho encerra uma importante fase de crescimento e amadurecimento pessoal e intelectual. Agradeço primeiramente a Deus, que esteve sempre ao meu lado me indicando mesmo que por linhas tortas o melhor caminho. Agradeço a todos os familiares, amigos e colegas de graduação que de alguma maneira fizeram parte desse momento. Aos meus pais, pelo amor incondicional. Agradeço a dedicação em me proporcionar visões corretas. Obrigada pela confiança e credibilidade. Pai tenha certeza que seu amor e orgulho pela América Latina foram retransmitidos. Mãe, você é o meu maior exemplo de vida. Aos amigos Leonel, agradeço a compreensão e companheirismo durante boa parte dessa caminhada, e Paulo Sérgio, obrigada por nossas longas conversas que tanto me ensinaram sobre o mundo e as Relações Internacionais. Minha imensa gratidão ao Embaixador Bernhard Griesinger pela oportunidade de estágio na Organização dos Estados Americano (OEA) - Bolívia, experiência curta, porém, essencial para a minha formação. Suas histórias pela Amazônia instigaram a minha curiosidade pela região, e tiveram fundamental importância para o desenvolvimento desta monografia. Aos meus irmãos e amigos, agradeço a paciência nos momentos tortuosos de estudo, obrigada pela compreensão nos momentos ausentes. Agradeço também aos amigos que fizeram parte dessa graduação, companheiros em todos os momentos. Registro minha gratidão as Faculdades Integradas Rio Branco, que me apoiaram no decorrer dessa graduação, e aos professores pela dedicação e comprometimento durante o curso. Em especial ao Prof. Rogério Buccelli, que no início desse trabalho me ajudou com bibliografias, idéias e questionamentos. E por fim, agradeço imensamente ao Prof. Sérgio Gil responsável pela orientação desse trabalho. Muito obrigada pelo apoio, paciência e compreensão. Todo o respeito e admiração. 3

5 RESUMO A proposta deste trabalho é analisar a influência das pressões internacionais sobre a mobilização da política externa brasileira para a Amazônia. Para tal, foi realizado um resgate histórico dos principais acontecimentos que conduziram o Brasil a adotar medidas regionais e internacionais para a região. A hipótese central desta análise é que a mobilização da política externa brasileira para a Amazônia está diretamente relacionada à interferência de forças externas à região, representadas por pressões internacionais que visam, sobretudo, questionar a conduta dos países amazônicos sobre seus territórios. PALAVRAS-CHAVE: Amazônia. Pressões Internacionais. Política Externa brasileira. Cooperação Amazônica. ABSTRACT The aim of this study is to analyze the influence of international pressure on the mobilization of Brazilian foreign policy for the Amazon. Therefore, it was executed an historical review of the key events that led Brazil to adopt regional and international measures for the region. The central hypothesis for this analysis is that mobilization of Brazilian foreign policy for the Amazon is directly related to the interference of external forces beyond the region, represented by international pressure that aims, above all, to questions the conduct of the Amazon countries over their territories. KEY WORDS: Amazonia. International Pressures. Brazilian Foreign Policy. Amazon Cooperation. 4

6 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Divisão Política do Brasil: Tratado de Tordesilhas (1494)...p.9 Figura 2 Amazônia Brasileira e Bacia Amazônica...p.20 Figura 3 Países membro do Tratado de Cooperação Amazônica...p.34 Figura 4 Área de cobertura do Projeto Calha Norte...p.37 5

7 SUMÁRIO Introdução...7 Capítulo I: A Ocupação da Amazônia ) Brasil Colônia ) O Tratado de Madri e o Governo do Marquês de Pombal ) A Amazônia e o Império...14 Capítulo II: Da República Velha a primeira década do Regime Militar ) O Ciclo da Borracha ) A Política Externa brasileira na República Velha ) O Estado Novo ) A era dos Grandes Projetos...27 Capítulo III: A Amazônia e os desafios da Agenda Ambiental no Cenário Internacional ) A Criação do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA) ) O Programa Calha Norte (PCN) e a Conferência RIO ) A Retomada do TCA: A criação da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA)...39 Considerações Finais...41 Referências Bibliográficas

8 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como propósito analisar as circunstâncias que levam o governo brasileiro a se mobilizar em relação à Amazônia. Para tal, será realizado um resgate histórico dos principais acontecimentos que conduziram o Brasil a adotar medidas regionais e internacionais para a região. A importância de tal análise se deve, inicialmente, ao valor representado pela região na América do Sul: com dimensões continentais, a Amazônia esta presente em 40% dos territórios sul americanos, em nove países - Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. Possui recursos naturais (fauna, flora, água, florestas, entre outros) que afetam e tem importância ambiental, econômica, social e cultural para todos os Estados envolvidos na região. Por tais fatores, e pelos potenciais recursos a serem explorados, pelo aumento das pautas ambientais na agenda mundial, e pela posição estratégica da região, a Amazônia tem importância não só nos debates regionais, mas também no cenário internacional. A investigação da mobilização política brasileira para a Amazônia contribui para a interpretação da lógica e das circunstâncias que levam os países amazônicos a se mobilizar e cooperar mutuamente em prol de benefícios para a região, e será o foco desta análise, pois, é possível verificar a partir dela uma considerável influência nas medidas para a região. A hipótese central desta monografia é que a mobilização da política externa brasileira para a Amazônia está diretamente relacionada à interferência de forças externas a região, representadas por pressões internacionais que visam, sobretudo, questionar o direito de soberania dos países amazônicos sobre a floresta e seus recursos. Tais pressões inserem a Amazônia em um cenário de possíveis intervenções estrangeiras, e por conseqüência em uma zona de atenção. Para a verificação dessa hipótese, foram utilizadas bibliografias disponíveis no campo das relações internacionais e da política externa, através de fontes secundárias: artigos acadêmicos e de revistas especializadas, teses de mestrado e pós-graduação, e livros; bem como fontes primárias: documentações oficiais com discursos, declarações, e sítios governamentais na internet. A estrutura do trabalho é composta por três capítulos. 7

9 No primeiro capítulo será realizado um resgate histórico da ocupação do território amazônico na época colonial, com o objetivo de estabelecer um panorama do cenário a ser analisado. Logo em seguida, será abordada a gestão do Marquês de Pombal e suas contribuições para a incorporação do território amazônico ao Estado brasileiro; e o Período Imperial, com destaque para a primeira reação da diplomacia brasileira a ameaça de interferência externa, representada pela intenção expansionista norte-americana em meados de No segundo capítulo será examinada a política externa brasileira para a região Amazônica durante a República Velha - passando pelo ciclo da borracha, e pela gestão do Barão de Rio Branco; e durante o Estado Novo, período que deu início aos chamados Grandes Projetos para a Amazônia, concretizados na primeira década do Regime Militar. E no terceiro capítulo serão apresentadas as principais iniciativas brasileiras decorrentes do agravamento da crise ecológica mundial que gerou pressões internacionais na região amazônica a partir da década de Assiste-se nos anos seguintes a Conferência de Estocolmo (1972) primeira Conferência da ONU sobre o meio ambiente - uma progressiva expansão do movimento ambientalista no cenário internacional, notavelmente com o surgimento de organizações nãogovernamentais, grupos comunitários, agências estatais, comunidade científica, empresariado e partidos políticos (os Verdes), que vão disseminar a discussão ambiental em diversos níveis. A criação do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), e posteriormente da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), bem como a promoção da conferência RIO-92 podem ser consideradas as mais notáveis respostas do Brasil e dos países amazônicos as pressões internacionais em relação à região amazônica, em que é possível verificar a mobilização regional em prol da cooperação. O Brasil teve papel central na criação desses os projetos, já que coordenou regionalmente as iniciativas. Por fim, na conclusão, serão feitas considerações sobre o objetivo proposto nesse trabalho através da verificação da existência de relações diretas entre a mobilização da Política Externa brasileira na Amazônia, e as pressões externas ao Norte da América do Sul confirmando a hipótese levantada. E também, será questionado o papel da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) no atual contexto dos países amazônicos. 8

10 CAPÍTULO I: A OCUPAÇÃO DA AMAZÔNIA A ocupação do que é hoje o Brasil e toda a América Latina é decorrente do processo de expansão marítima das empresas comerciais e Estados europeus para exploração de recursos naturais em outras regiões do mundo. Na região amazônica existiram particularidades distintas do restante do território brasileiro, e para entender tal distinção deve-se olhar inicialmente para a construção econômica e política da economia-mundo, e não a partir apenas da Ibérica, de Portugal ou Brasil, pois somente na segunda metade do século XVII a Amazônia se articula ao conjunto do sistema colonial português, e apenas no século XIX integra-se ao Império brasileiro (BECKER, 2009, p.204). 1.1 Brasil Colônia A partir da descoberta do continente americano em 1492 o território passa a ser anexado pelo Tratado de Tordesilhas 1 antes mesmo de ser conhecido e ocupado; no território amazônico o Tratado dividiu as terras disputadas entre a Lusitânia, parte oriental portuguesa, e a Nova Andaluzia, parte ocidental espanhola, primeiras denominações da Amazônia (Ibid, p.204). Figura 1 - Divisão Política do Brasil no Tratado de Tordesilhas (1494) Fonte: TRATADO DE TORDESILHAS, s/d. Disponível em: Acesso em: CORRÊA, Assinado em 7 de junho de 1494 na cidade espanhola de Tordesilhas entre Espanha e Portugal, o Tratado representou a divisão das terras descobertas e a descobrir pelas Coroas fora da Europa. 9

11 O acordo representou mera anexação - a conquista da região implicaria apropriação, sobretudo mediante colonização. O desinteresse espanhol na conquista, colonização e defesa das fronteiras na América do Sul durante o século XVI, segundo Gadelha (2002, p.76), pode ser entendido pelo foco das atenções dos mesmos no controle das riquezas do Peru e de Nova Granada, em que havia sido descoberto um verdadeiro Eldorado - representado pelo cerro de Potosi que financiava a política expansionista espanhola na Europa. Além disso, a dificuldade de penetração e o desconhecimento da região amazônica dificultavam a empreitada. Já nessa ocasião a cordilheira prendia os conquistadores, revelando ser ela, de fato, a verdadeira fronteira que separaria os territórios das duas coroas. A união das Coroas 2 entre 1580 e 1640 caracteriza um estado de inexistência de fronteiras nas terras americanas dominadas pelos colonizadores, e é nesse período que se inicia a apropriação da Amazônia. Em fins do século XVI praticamente todas as terras tropicais do continente (potenciais produtoras de açúcar) estavam nas mãos das Coroas, e a preocupação em defender o monopólio do açúcar dos demais colonizadores europeus fomentou o movimento expansionista português lado com maior interesse - em direção ao norte (FURTADO, 2003, p.72). Nesse momento, mercadores e colonos franceses, holandeses, ingleses e irlandeses já disputavam o acesso àquelas áreas, aproveitando-se da imensa costa desprotegida do território espanhol e dos poucos recursos disponíveis às autoridades coloniais para a defesa dessas regiões periféricas. O ataque de holandeses, franceses e ingleses se fez em toda a linha que desce das Antilhas ao Nordeste brasileiro. Os monarcas espanhóis não hesitaram em entregar aos súditos portugueses a responsabilidade pela vigilância e defesa da linha ao sul da foz do Amazonas, já que o interesse da Espanha estava desviado do vale do grande rio (FURTADO, 2003, p.72; GADELHA, 2002, p.15). 2 A UNIÃO IBÉRICA ( ), s/d. Ocorreu após a morte do então rei de Portugal D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em O trono português passou a ser disputado pela Espanha, já que o falecido rei não tinha herdeiros diretos; assim, o rei da Espanha Filipe II conseguiu o trono após a morte do Cardeal D. Henrique parente mais próximo de D. Sebastião. A união das duas coroas ficou sob o comando de um único rei, e durou até 1640 quando o Duque de Bragança foi aclamado rei de Portugal com o título de D. João I. 10

12 A conquista política portuguesa na Amazônia pode ser considerada a partir do início do século XVII; entre 1600 e 1750 a fundação do Forte do Presépio de Santa Maria de Belém, em 1616, inaugura uma série de fundações de estabelecimentos militares e feitorias concluídas ao longo dos séculos posteriores. Belém apresentava uma posição privilegiada para a defesa da bacia Amazônica. Outra estratégia geopolítica concebida nessa fase para resistir aos ataques - sobretudo dos franceses na Amazônia e dos holandeses no Nordeste foi à criação de grandes territórios ligados a metrópole. Em 1621 a Espanha cria o Estado do Maranhão e Grão-Pará que se estendia desde o Ceará até o rio Amazonas, com sede própria em São Luís, e com estreita relação com Portugal, que gozava de regalias. A ocupação foi seguida de decisões com o objetivo de criar colônias permanentes e estáveis, semelhante do que ocorria no Nordeste (BECKER, 2009, p ). Para tal, uma terceira estratégia conjunta entre Portugal e Espanha para a conquista e colonização da Amazônia foi implementada apoio à presença religiosa na ocupação; os religiosos acompanharam as expedições portuguesas e espanholas sendo os primeiros organizadores das aldeias e aglomerados populacionais, através da conciliação de Deus e o Rei na manutenção da posse convergindo aliados contra franceses, holandeses e ingleses. Os aldeamentos indígenas foram essenciais para a conquista, lutavam contra os invasores, favorecendo a apropriação da terra e servindo como mão de obra. Os principais agentes da ação cultural européia sobre os povos amazônicos foram os jesuítas, que chegaram em 1615; desenvolveram técnicas racionais de incorporação das populações indígenas à economia de colônia, fator decisivo para a penetração econômica na bacia amazônica. Em 1655 a Companhia de Jesus possuía 28 aldeias, 11 no Maranhão, 7 no Tocantins e 6 no rio Pará, e em 1686 chegaram ao Solimões. Em 145 anos, a Companhia de Jesus na Amazônia deu origem a 24 cidades (Ibid., p ). Assim, defendendo as terras da Espanha dos seus inimigos durante a união das duas Coroas, juntamente com o apoio dos jesuítas que comandaram a organização da mão de obra indígena, os portugueses se fixaram na foz grande rio, posição chave para o fácil controle da imensa bacia fatores decisivos para a expansão territorial portuguesa que se efetuou na primeira metade do século XVIII na Amazônia. 11

13 1.1.2 O Tratado de Madri 3 e o Governo do Marquês de Pombal Em 1640 Portugal recupera a independência da Espanha, porém se torna fortemente dependente da parceria com a Inglaterra em um cenário de crise dos países ibéricos em que a defesa e o asseguramento dos espaços conquistados passam a ser vitais para a permanência dos mesmos na política européia. Restaurado o Estado português como unidade nacional, surge à necessidade de reorganização política e econômica, e a metrópole passa a depender da riqueza produzida nas colônias para sustentação da Coroa. Dessa maneira, a parceria com os ingleses para o domínio da Amazônia foi fundamental, já que o jogo diplomático internacional após a separação das duas Coroas amparava-se nas alianças entre Inglaterra e Portugal X França e Espanha. À Inglaterra interessava que o controle da região amazônica fosse assegurado com possessão de Portugal, pois, dessa maneira, enfraqueceria a expansão francesa no local, e geraria lucros financeiros pela intermediação das transações portuguesas (BECKER, 2009, p. 208). O Tratado de Madri (1750) finaliza, formalmente, o atual delineamento da fronteira amazônica brasileira. Foi fundamentado na idéia de posse efetiva uti possidetis que assegurou o direito de posse aos portugueses, e defesa contra invasões inglesa, francesa e holandesa. Porém, segundo Goes Filho (1999 apud ANTIQUERA, 2006, p.21) o Tratado de Madri não proporcionou plena eficácia, ou seja, não garantiu ao Brasil a estabilidade total de suas fronteiras - existiam fortes tensões entre as coroas espanhola e portuguesa e os Estados que apoiavam as coroas. A subordinação da ação missionária outra questão importante para a ordenação nacional brasileira no período foi efetivada com a declaração de liberdade dos índios (1775) e representou o esvaziamento do poder dos jesuítas na região (BECKER, 2009, p.208). O Marquês do Pombal, primeiro-ministro ( ), se revelou como importante estadista nesse período, com uma visão nacional de Portugal e suas 3 O TRATADO DE MADRI, s/d. Considerado um dos mais importantes tratados de limites da história da diplomacia brasileira, pois estabeleceu não só as bases territoriais do Brasil, mas também definiu o princípio que norteia as questões de limites surgidas posteriormente: o uti possidetis, segundo o qual a terra pertencia ao país de origem dos homens que nela morassem. 12

14 colônias; suas ações para articular a Amazônia ao império português acabaram por constituir as primeiras conexões da região com o Estado brasileiro. Foi responsável pela instalação da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão ( ), que representou um instrumento do Estado mercantil para equacionar problemas econômicos e políticos da metrópole, buscando, inclusive maior independência de Portugal diante os ingleses. Na ação econômica, Pombal estimulou o extrativismo, recuperando a exportação de cacau, introduziu novas lavouras como algodão e café (sobretudo no Maranhão), tabaco, cana-de-açúcar, algodão; luzitanou-se o nome das cidades, a língua portuguesa passou a ser ensinada e difundida. Administrativamente a região sofreu reformas: em 1771 é criado o Estado do Grão-Pará e do Maranhão, com centro de decisões em Belém e tendo como governador o irmão de Pombal. E para proteger os limites ocidentais do Grão-Pará, em 1757 é criada a Capitania de São José do Rio Negro, que se difundiu em dezenas de vilas e povoados, e gerou povoamento para a região representando um cinturão de segurança; tais Estados eram subordinados diretamente a Lisboa (BECKER, 2009, p.210). A fase pombalina terminou em 1777, mas, segundo Becker (2009, p.210), o reformismo português na Amazônia continuou, com idéias como, por exemplo, de elevar a região à categoria de vice-reino, e de minimizar a dependência de Portugal do domínio inglês; tais projetos foram discutidos no final do século XVIII até 1820, mas foram inviabilizados quando a metrópole se deu conta de que havia o risco de independência da colônia. O fim da era colonial - entre o final do século XVIII e início do XIX apresenta grandes dificuldades econômicas na colônia, com forte queda nas exportações; o território amazônico permaneceu marginalizado frente às demais regiões brasileiras, já que a prioridade econômica estava concentrada na economia cafeeira do Sudeste do país. Dessa maneira, é possível verificar que a política externa para a região amazônica na época colonial estava voltada basicamente para a conquista e aumento territorial da metrópole, com o objetivo prioritário de garantir a sua soberania na região. O objetivo de Portugal era controlar os recursos e rotas comerciais de sua colônia, e a partir disso, colher frutos do domínio através do acumulo de capital - lógica do sistema mercantilista. Assim, o povoamento e desenvolvimento do espaço colonial não foram, a princípio, objetivos da metrópole 13

15 já que esses visavam, prioritariamente, a exploração dos territórios coloniais para enriquecimento e expansão do império português. Para Demétrio Magnoli (apud ANTIQUERA, 2006, p.22), a mudança mais significativa deu-se com a transferência da corte para o Brasil em 1807, movimento que demonstrou o projeto geopolítico de continuar o império português na América. Porém, a presença do Estado Português no Brasil se encerra logo em seguida, com a independência brasileira em A Amazônia e o Império A geopolítica imperial foi crucial para a incorporação do território amazônico ao Brasil. O movimento pela independência enfrentou, internamente, uma das mais resistentes oposições no país: a cabanagem 4. Forças militares do império forçaram os cabanos a sair de Belém, em 13 de maio de 1835, representando a anexação amazônica pelo Estado brasileiro (BECKER, 2009, p.212). No plano internacional, mesmo independente, o Brasil (e a região amazônica) continuou a ter sua história fortemente ligada à dinâmica da economia-mundo no século XIX, marcada pela tentativa do controle da América do Sul pela Grã-Bretanha a que estão associados os movimentos de independência do continente (Ibid., p.212). É possível notar em parte da literatura referente à política externa brasileira no império que as questões amazônicas não obtiveram prioridade se comparadas as demais pautas existentes no país, quais sejam, a relação com a Argentina e com os demais países do Cone Sul, a consolidação das fronteiras na bacia do Prata, a Guerra do Paraguai ( ). Entretanto, observa-se nesse período a primeira mobilização do Estado brasileiro em âmbito regional e internacional a tentativa de interferência externa ao território amazônico, e por isso, uma análise do período merece atenção. 4 CABANAGEM, s/d. A Cabanagem pode ser considerada um movimento político e um conflito social ocorrido no Pará entre , envolvendo homens livres, sobretudo indígenas e mestiços de regiões pobres da Amazônia. A luta originou-se no combate a penúria e péssimas condições sociais em que vivia a população paraense; proclamaram a independência do Pará, mobilizaram as populações ribeirinhas, mantiveram a rebelião até Foi um movimento popular em que camadas inferiores da população conseguiram, com certa estabilidade, ocupar o poder de toda a província. 14

16 A política externa brasileira no império, para Magnoli (apud ANTIQUERA, 2006, p.22), teve basicamente dois intuitos: combater a política antiescravista da Grã-Bretanha e consolidar as fronteiras nas bacias Amazônica e Platina; para Celso Lafer (apud ANTIQUERA, 2006, p.23) se baseou em dois planos: no plano internacional buscava autonomia frente às grandes potências (especialmente da Grã-Bretanha), e regionalmente visava praticar uma política de balanço de poder, com principal atenção para a Argentina. Já para Antiquera (2006, p.26), o foco se dava na relação com a Argentina e com os demais países do Cone Sul; o autor acredita que a preocupação com o balanço de poder entre os países da Bacia Amazônica não era expressivo já que não havia nenhuma força que ameaçasse o equilíbrio de poder regional, e por isso não estava entre as principais pautas da política externa brasileira - a importância da região estava ligada, primeiramente, ao objetivo de consolidação territorial já que era o próprio Estado que estava se constituindo, ao mesmo tempo em que se tentava construir uma nação. Nesse sentido, a Amazônia tinha uma importância objetiva referente ao espaço geográfico a ser conquistado e também uma forte função simbólica mito Ilha Brasil - baseada no discurso que visava atribuir ao território um caráter natural, como uma dádiva, ou uma unidade doada pela natureza, e não construída pela história. Entretanto, Bueno e Cervo (2002, p ), levantam uma importante questão: a posição e atuação dos EUA em relação à região amazônica; os norteamericanos, em plena ascensão econômica fundamentavam sua política externa nas doutrinas do destino manifesto (para justificar sua expansão territorial) e na doutrina Monroe (baseada no afastamento dos países europeus da política americana, reservando o continente à preponderância dos norte americana). Nesse contexto, a intenção expansionista americana no século XIX era perceptível, pois anexou enormes territórios, principalmente no México; no continente americano visava continuar o avanço territorial - objetivava Cuba, Panamá e a Amazônia. Assim, quando cidadãos americanos começaram a discutir a importância da Amazônia nos EUA, o assunto ganhou relevância para a política externa do Brasil. O plano de ocupação da Amazônia em 1850 representava uma saída para a crise da economia escravista dos EUA, já que se conseguissem a transferência dos colonos e escravos do sul - que se dedicariam à produção da borracha e do 15

17 algodão além do realocamento dessa população, ajudaria o equilíbrio da balança comercial dos EUA. Esse objetivo só seria possível com a abertura da navegação ao comércio internacional, apoiados pela França e Inglaterra que na época acreditavam no mito do eldorado produtivo da região. A experiência americana demonstrava o tipo de ação que poderia ser tomada por eles na ocupação territorial, que se pautava em quatro fases: penetração demográfica, provocação, conflito e anexação (Ibid., p.102). Porém, segundo os autores, o objetivo norte americano para a região amazônica vinha de encontro aos objetivos da política externa brasileira: determinação de resistir a pressões externas no terreno econômico e político, de exercer a hegemonia sobre o Prata, e defender as posses territoriais. O tenente da Marinha Mattew Maury liderava a campanha norte-americana de ocupação da Amazônia desde Seus artigos na imprensa e sua obra de 1853 (The Amazon and the Atlantic Slopes of South América) tiveram enorme repercussão sobre a opinião pública, sobre os meios empresariais e sobre o governo; exigia-se a abertura do Amazonas e já se preparavam grandes expedições de flibusteiros que precederiam a vinda de empresários, colonos e escravos. Paralelamente, os representantes norte-americanos junto aos ribeirinhos superiores do Brasil Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Bolívia tentavam atrair os governos a sua causa, indispondo-se contra a monarquia, que mantinha o Amazonas fechado após obter a liberdade de navegação dos rios platinos. No Rio de Janeiro, representantes norte-americanos visavam atingir dois objetivos: firmar um novo tratado de comércio e conseguir a abertura do Amazonas para viabilizar o empreendimento de Maury; receberam por duas vezes recusas do governo brasileiro, o que atrapalhou os objetivos dos EUA. Mas a ação norte-americana parecia poder triunfar em 1853 quando o Brasil fora totalmente isolado, tendo contra si os ribeirinhos amazônicos, os Estados Unidos, os Estados europeus - em particular a Inglaterra - que apoiava a potência do Norte e exigia a livre navegação do Amazonas (ibid., p.103). A estratégia brasileira de defesa se baseou em ações pontuais interna e externamente; a-) fortaleceu o Amazonas e criou uma companhia brasileira de navegação, focada na exclusividade do comércio e da colonização - em 1852, o governo brasileiro concedeu a Mauá o privilégio exclusivo e subsídios para a Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas - a navegação brasileira 16

18 tornou-se, enfim, realidade, em respostas às pressões externas; b-) no campo jurídico, o governo brasileiro armou-se estudando a fundo o direito internacional dos rios: a doutrina jurídica brasileira se firmou baseada no princípio de direito imperfeito dos ribeirinhos superiores, que podiam aceder à navegação dos rios interiores apenas mediante convenção. Foi aplicada de forma equivalente no Prata, onde o Brasil, como ribeirinho superior, obteve a navegação por convenção, e no Amazonas, onde oferecia aos Estados vizinhos pela mesma via, embora fazendo-se depender da solução concomitante dos limites. A peça-chave dessa política foi o tratado de 1851 com o Peru, pelo qual se regulamentou os limites, e concedeu a navegação à nação contratante, excluído terceiros; c-) confrontou a campanha norte-americana pela ação diplomática: o governo despachou três eminentes diplomatas para a posição chave do confronto Duarte da Ponte Ribeiro, nas repúblicas do Pacífico, e Miguel Maria Lisboa junto a Venezuela, Nova Granada e Equador pretendendo contra-atacar a posição norte-americana frente aos vizinhos amazônicos através do convencimento dos governos e opiniões de que a aliança antibrasileira servia-lhes para facilitar a penetração imperialista, que acabaria por engoli-los. Francisco Inácio de Carvalho Moreira, em Washington, rebatia na imprensa, com coragem e persistência os argumentos de Maury e adotava com relação ao governo dos EUA hábil manobra, mediante a qual importunava o Departamento de Estado e a Presidência, exigindo documentos escritos que tornassem pública a afirmação de não-envolvimento oficial, que veladamente sabia-se existir, contra a soberania brasileira; enfim, protelou a abertura visando desaparecer com o risco de dominação estrangeira (Ibid., p ). As ações brasileiras obtiveram sucesso, assim como outros fatores conjunturais ajudaram no resultado. As relações entre Brasil e EUA, embora marcada por atritos ocasionais, pautavam-se no entendimento, já que vinculavam interesses comuns. O comércio bilateral era o maior comércio continental, necessário e útil para ambos os lados; a parceria Brasil-Estados Unidos fortalecia o equilíbrio de poder Europa-América, uma das metas externas comuns; era, em suma, estratégico para as duas nações superar os conflitos ocasionais, e manter boas relações recíprocas. Dois outros fatores agiam para aliviar a pressão norteamericana a partir de 1855: por um lado, os EUA já se confrontavam com um conflito interno que explodiria na guerra de secessão; por outro, Maury se 17

19 encontrava na defensiva, sendo suas idéias criticadas e combatidas pelos relatórios de viajantes, pela imprensa, pela corrente anti-escravista, e seu celeiro do mundo, a República Amazônica, foi convertida em reino de fantasia (Ibid., p.105). Em síntese, para Bueno e Cervo (2002, p.106), o jogo diplomático nesse processo passou por três fases: i) inicialmente o perigo foi ampliado pela resistência do governo brasileiro em ceder sob pressão; ii) a questão passa a fase da diplomacia continental quando extrapola os limites das relações bilaterais mais inclinada a apoiar a causa norte-americana; iii) na terceira fase refluiu novamente a esfera bilateral em função do êxito alcançado pela estratégia brasileira e dos fatores conjunturais negociar para o governo brasileiro significava não ceder enquanto houvesse risco. A percepção do interesse nacional ditou uma política firme, sábia e flexível, que adiou a abertura do amazonas até cessar fogo o perigo de dominação externa. Finalmente no final de 1866, o governo brasileiro baixou um decreto para a abertura incondicional a todas as nações, excluindo apenas trânsito de navios de guerra; dessa maneira interrompia-se o prolongado debate nacional e chegava-se a um desfecho soberano no quadro externo. Dessa maneira, é possível verificar que a região amazônica apresentou importância para a política externa brasileira imperial - como destacam Bueno e Cervo - e demonstrou a primeira reação do governo brasileiro a ameaça de interferência externa a região; para Bandeira (1978), a Amazônia foi responsável pela primeira campanha anti-americana no Brasil, e de fato, a questão da tentativa de interferência dos norte-americanos na região causou desconforto entre os dois países, demonstrando a importância e sensibilidade da região em âmbito regional e internacional (BANDEIRA, 1979 apud ANTIQUERA, 2006, p.29). 18

20 CAPÍTULO II: DA REPÚBLICA VELHA A PRIMEIRA DÉCADA DO REGIME MILITAR 2.1O Ciclo da Borracha Entre 1840 e 1924 um novo ciclo econômico se desenvolve na Amazônia. A máquina movida à energia foi à marca da Revolução Industrial e a borracha tornou-se um de seus insumos básicos, revolucionando a economia e o modo de vida amazônico. Para inserir-se na economia-mundo - configurada com a Revolução Industrial - o Brasil necessitava de mão-de-obra, problema crucial que se colocava para o país desde o final do século XIX com a abolição da escravatura. A economia da Amazônia havia entrado em decadência, porém com a valorização da borracha surge à questão de como aumentar a produção para atender a procura mundial crescente, impondo um adequado suprimento de mãode-obra e recursos financeiros. Nessa ocasião, dois grandes movimentos de população atenderam às novas demandas: uma grande corrente migratória de origem européia sustentou a economia cafeeira no Sudeste do Brasil, e uma corrente migratória nordestina sustentou a economia da borracha na Amazônia. Calcula-se que aproximadamente 260 mil imigrantes se deslocaram para a região amazônica entre 1872 e 1900, sem contar os que teriam vindo antes para o Acre, o que teria repercutido em um crescimento populacional de 250 mil para 500 mil no período (BECKER, 2009, p ). Uma análise dos impactos do ciclo da borracha na Amazônia tem fundamental importância na formação social e econômica da região; para Becker (ibid., p.213), foi à economia da borracha que configurou a Amazônia como unidade em si, primeiro pelo crescimento da população, graças aos Nordestinos, e segundo pelo crescimento econômico no final do século XIX o Brasil tornou-se o maior fornecedor mundial de borracha - em 1912 a borracha era o segundo maior produto de exportação do Brasil, atrás apenas do café. Esse impulso econômico gerou novos atores sociais na região: nos portos instituíram-se as financiadoras, exportadoras, bancos ingleses e americanos, trabalhadores estrangeiros, e o desenvolvimento das cidades de Belém e Manaus foi perceptível - as cidades tornaram-se centros de comércio. Porém, o denominado ciclo da 19

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