uma meia verdade em três oportunidades 1. Renegociação da dívida

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1 Contestação à matéria publicada pelo Deputado Raul Pont no Jornal Le Monde Diplomatique, de novembro/2007, intitulado: Rio Grande do Sul: crise das finanças públicas A matéria já começa com uma monumental inverdade, a de que o Estado do Rio Grande do Sul RS é um estado tradicionalmente equilibrado. (Grifei). As finanças estaduais apresentaram déficits primários desde o início da década de 70, alcançando no período uma média de 16% da receita corrente líquida - RCL, gerando, em decorrência, uma dívida que, medida em números relativos, foi do índice 100 para o índice 2.736, isto é, multiplicou-se por 27 em 28 anos, em termos reais (Tabela 1). Nesses 28 anos, em todos eles, sem exceção, ocorreram déficits primários! O percentual dos déficits primários entre 1971 e 1994, antes do Governo Britto e Bogo ( ), considerado neoliberal, que vendeu patrimônio público e renegociou a dívida, ficou próximo a 16% (Tabela 1). Por isso, a causa da crise não está nas políticas adotadas nesse período. Além do endividamento, esses déficits foram financiados pela receitas financeiras provenientes da inflação, que em dois períodos governamentais ( e ) atingiu a média anual de 1178% e de 1360%, respectivamente. No ano de 1989 a inflação foi de 1783% e em 1993, 2.708% (28% e 32% ao mês, respectivamente). O rendimento referido foi, em média, de 18% da receita corrente líquida. Era como se o governo dispusesse de cinco orçamentos em quatro anos pelo lado da receita. A queda da inflação para níveis abaixo de um dígito a partir de 1995 com a conseqüente redução das receitas financeiras deixou a descoberto um déficit que, potencialmente, já existia há muito tempo. A venda de bens patrimoniais entre outras ações foram as alternativas adotadas pelos governos seguintes para financiar os déficits. Os déficits citados tiveram também como causa os altos níveis de investimentos, que foram de cerca de 30% nas décadas de 1970 e 1980, descendo para 7,5% no período e para 5,8% no período A redução do nível de investimentos, conjugada com o cumprimento apenas parcial das vinculações constitucionais com educação, saúde e ciência e tecnologia que fez com que melhorassem os resultados primários, dando a falsa impressão que a situação financeira melhorou. Segue o ilustre Deputado com outra inverdade, quando afirma que o Governador Rigotto atrasou salários. É verdade que ele pagou o 13º salário através do Banrisul, mas nunca atrasou um dia de salário, tendo utilizado para isso o sistema de caixa único do Estado 1, com retiradas crescentes e sem devolução, pratica essa concebida no Governo anterior, do Sr.Olívio Dutra. O Governador Olívio Dutra, que também não atrasou salário, utilizou-se, conforme referido, de R$ 1,7 bilhão de recursos do caixa único. E, para 1 O caixa único é um sistema que centraliza numa única conta uma grande quantidade de contas, a maioria constituída de recursos vinculados a finalidades específicas pela legislação, cujas retiradas são lançadas em outra conta denominada de resgates. Esses resgates passaram a ser efetuados sem devolução à conta única, a partir do Governo do Sr. Olívio Dutra ( ).

2 pagar o 13º salário do último ano, usou R$ 258 milhões recebidos para a aplicação na manutenção de estradas federais, além de ter antecipado receita de impostos de competência do governo seguinte. Continua com uma meia verdade, quando faz a seguinte afirmativa: Com a maioria da Assembléia Legislativa, aplicou nos últimos dois anos uma brutal elevação de impostos, que ficou conhecida como tarifaço. Um aumento médio de 20% nas alíquotas principais do ICMS: energia elétrica, telefonia e combustíveis (álcool e gasolina). O aumento médio não foi de 20%, porque reajuste dessa dimensão só ocorreu com um dos itens atingidos, que foi a telefonia, que passou de 25% para 30%. A energia elétrica e os combustíveis subiram de 25% para 29% em 2005 e para 28% em 2006, portanto 16% e 12%, respectivamente. Não vou entrar no mérito das críticas políticas à Governadora Yeda, com exceção da relativa ao aumento do ICMS, que também é de natureza técnica. Diz o Deputado o seguinte: Ainda em dezembro de 2006, antes da posse, a governadora eleita rasgou o discurso eleitoral e requereu ao governador Rigotto que enviasse á Assembléia Legislativa projeto de lei prorrogando o tarifaço do PMDB. De fato, a Governadora descumpriu a promessa de não aumentar impostos. Da mesma forma, o Governador Olívio ( ) também prometeu que não os aumentaria e, em três oportunidades, encaminhou à Assembléia Legislativa três projetos semelhantes, todos eles baseados na tributação dos mesmos itens, com algumas reduções em outros de menor peso na arrecadação, a exemplo do projeto encaminhado pela Governadora Yeda. Todos os projetos do Governador Olívio, assim como o da Governadora Yeda, não obtiveram aprovação legislativa. Passo agora a comentar as principais afirmações relativas a cada um dos itens arrolados na matéria em causa. 1. Renegociação da dívida No tocante à renegociação da dívida, todos os estados fizeram acordos semelhantes, sendo o que os livrou do colapso financeiro. No RS não havia mais como rolar uma dívida, cujo serviço bruto superava a média de 30% da RCL ao ano, o que explica o fato de seu estoque ter passado do índice 100 para o entre 1970 e 1998, antes do acordo. Diga-se de passagem, que as condições do acordo do RS, com uma taxa de 6% ao ano e com limite de 13% da receita líquida real foi melhor que alguns estados, que o fizeram com uma taxa de 7,5% e limite de 15%. Não é verdade que nunca o serviço da dívida líquido passou de 5,4%. Sem falar do período , quando atingiu 26%, no período seguinte ao que antecedeu ao acordo, isto é, , o serviço da dívida líquido foi de 11,4%, resultante de um serviço bruto de 31,3% e de operações de rolagens de 19,9%. Tudo isso consta dos balanços gerais e de documentos oficiais da Secretaria da Fazenda (Tabela 2). Então, trocou-se uma dívida que crescia sem cessar, de custo de 11,4% da RCL, por outra que ficou estabilizada e que custa 14%. Essa a é verdade. E, se não houve redução do estoque a partir de então, foi porque o indexador da dívida, o IGP-DI, apresentou um crescimento 50% maior que o IPCA. Nem o Governo Federal anterior aceitou e nem o atual aceita rever o 2

3 contrato para corrigir essa distorção. A alegação de que a Lei de Responsabilidade Fiscal não permite não é justificativa, porque lei não é imutável, principalmente no tocante a um dispositivo que todos os estados entendem ser necessária sua revisão. 2. Política de renúncias fiscais Na realidade, há um percentual muito alto de desonerações do ICMS, na ordem de 35,61% do seu valor potencial. A metade, no entanto, tem origem nas exportações, matéria disciplinada pela Constituição Federal. O restante está a cargo do Estado, mas seu corte pode causar prejuízo às cadeias produtivas locais. Pelo menos, foi essa a argumentação dos deputados, tanto da situação como da oposição, quando o Governador Rigotto tentou reduzir esses incentivos. No governo em que o ilustre Deputado fez parte as desonerações chegaram a 39,75%, em média, portanto maiores, conforme dispõe a Lei de Diretrizes Orçamentárias para Quanto ao Fundopem, programa utilizado para a atração de novos investimentos, representa o menor valor entre as desonerações, pois em 2006, foi de apenas 1,62% do ICMS potencial (Tabela 3). É claro que deve haver alguma margem para redução, mas essa não é causa da crise estrutural, que é muito mais ampla. 3. Lei Kandir A Constituição brasileira de 1967 já isentava de ICMS os produtos industrializados destinados ao exterior. Em 1996, a Lei Complementar 87/96, denominada Lei Kandir, estendeu essa isenção aos produtos primários e semi-elaborados, medida essa importante, porque aumentou a competitividade dos produtos exportados, mas que, por outro lado, prejudicou as finanças dos estados, principalmente daqueles que apresentam saldo negativo na balança comercial com o exterior, como é o caso do RS. As compensações por ela criadas apresentam queda gradativa desde A reforma tributária de 2003, encaminhada pelo atual presidente, acabou constitucionalizando os dispositivos da Lei Kandir. Não dá para acreditar que o Presidente Lula com essa iniciativa pretendesse causar prejuízo aos estados, quando, em vez de propor a revogação da citada lei, incorporou-a aos dispositivos da Constituição Federal, situação que a torna de muito mais difícil revogação. 4. Venda de patrimônio Na realidade, no período houve venda de patrimônio que, em valores atualizados, atingem o montante de R$ 8,5 bilhões. No período , também houve venda de patrimônio, no valor atualizado de R$ 2,02 bilhões, só que não se tratava de empresas, mas de créditos do Estado. Tudo isso foi feito para enfrentar o déficit que ficou a descoberto com o fim das receitas inflacionárias, após a edição do Plano Real, em meados de Não sei baseado em que o ilustre deputado faz a afirmativa de que as empresas privatizadas eram lucrativas. Os relatórios do Tribunal de Contas 3

4 sempre atestaram sua situação deficitária e que a expansão delas estava totalmente inviabilizada pela ausência de recursos públicos. Por outro lado, o crescimento real do ICMS no período , de 10,8%, teria apresentado um decréscimo real de 4,2% não fosse o crescimento real de 39% nos setores de energia elétrica, combustíveis e telefonia, tendo este último setor conseguido um crescimento real de 66%. Além do crescimento provocado na arrecadação, a privatização da telefonia permitiu que a população, que antes esperava até quatro anos para conseguir uma linha telefônica, passasse a dispor desse serviço tão pronto solicitado, tanto na versão fixa como na móvel. Deve ser destacado, ainda, que antes da privatização só conseguia um terminal telefônico sem uma longa espera aqueles que dispunham de recursos expressivos para adquiri-lo no mercado negro ou alugá-lo a preços também expressivos na chamada bolsa de telefones. 5. Crise do orçamento O Estado do RS apresenta um processo de formação da despesa que o conduz sempre ao déficit, devido à elevada vinculação da receita (65%) e à excessiva rigidez da despesa, onde a folha de pagamento representa mais de 73% da RCL, sendo composta por mais da metade de inativos, ao mesmo tempo em que 95% dos ativos estão lotados em setores de difícil redução (segurança pública, educação, saúde e outros Poderes). Com isso a despesa vai a 115% da receita corrente líquida, excesso esse que nas propostas orçamentárias vem sendo zerado há anos pela inclusão de receitas fictícias. Com isso, o orçamento dava uma impressão de equilibrado, quando na realidade sempre trazia oculto, um déficit próximo a R$ 2 bilhões. Que fez o atual Governo? Encaminhou um orçamento que deixou transparente o déficit, ao não incluir as tais receitas fictícias, obedecendo ao que dispõe a Lei de Responsabilidade Fiscal, em seu artigo 12. As ações voltadas contra essa medida não passaram de uma coalizão contra a verdade. A medida da Governadora foi sim um ato de coragem, por si só e não por blindagem da mídia, conforme afirma o deputado. Ela alterou uma sistemática nefasta ao equilíbrio das contas publicas da qual os últimos governos não conseguiram se afastar. A medida em causa vem ao encontro do que ficou convencionado no Pacto pelo Rio Grande, quando estabeleceu que as receitas extras só seriam consideradas para efeito de liberação pelo seu efetivo ingresso, medida essa necessária para evitar a perpetuação do déficit. Inquestionavelmente, um governo tem mais força para negar uma reivindicação, quando deixa transparente o déficit do que quando o esconde, dando a falsa impressão de equilíbrio. 6. Conclusão A afirmação de que as causas do problema financeiro do Estado do RS estão nas políticas neoliberais é um diagnóstico preconcebido e, portanto, deslocado da realidade. Nosso Estado, na década de 80 já apresentava a pior situação financeira entre todos os estados da federação. De lá para cá, a situação agravou-se por diversas razões, destacando-se o fim da inflação e o crescimento do número de servidores inativos em 4

5 quase 70%. A despesa com servidores inativos é mais da metade do valor total da folha (a maior entre todos os estados), o que equivale a pagar dois servidores para um trabalhar. É isso que está gerando o estado mínimo, porque a situação financeira não permite a reposição integral dos que se aposentam, mesmo num cenário de crescimento da população. Além disso, a Constituição de 1988 criou uma série de vantagens que aumentaram sobremaneira a despesa pública, com destaque especial para a pensão integral, sem que existisse contribuição para isso. No caso do RS, a instituição da pensão integral, acabou gerando uma obrigação que, pela não existência de recursos para honrá-la, formou R$ 2 bilhões de precatórios judiciais impagáveis. As vendas de bens patrimoniais e o crescimento da dívida e sua indispensável renegociação não são causas, mas conseqüências de uma crise histórica, cujos meios para seu enfrentamento estão cada vez mais esgotados. Temos que ter muito cuidado com os falsos diagnósticos, porque eles conduzem aos remédios mal ministrados, que só servem para complicar as enfermidades. Tabelas anexas Tabela 1 Evolução da dívida, resultado primário e investimentos em % da RCL, Em percentual da receita corrente líquida Períodos Governo Dívida Resultado Investi- Como foram enfrentados os déficits Relativos Primário mentos , TRICHES 218,8 (9,6) 29,2 Endividamento GUAZELLI 400,4 (17,2) 29,4 Endividamento AMARAL 717,3 (19,6) 27,4 Endividamento JAIR 995,8 (20,9) 19,7 Débitos de tesouraria SIMON 997,2 (15,4) 20,4 Inflação COLLARES 1.231,0 (13,0) 13,0 Inflação BRITTO 2.736,4 (14,6) 16,7 Privatização OLÍVIO 2.729,2 (3,2) 7,5 SIAC, redução investimentos, venda de créditos, não cumprim.vinculações (em parte) RIGOTTO 2.781,1 4,0 5,8 SIAC, redução investimentos, depósitos judiciais, financ.13o.salário, não cumprimento. de vinculações e aumento de alíquotas do ICMS. Média período (16,0) 23,2 Média período (15,8) 22,2 Fonte dos dados brutos: Balanços do Estado do RS. 5

6 Tabela 2 Rolagens e serviço da dívida, Em R$ de 2006, pelo IGP-DI ANO VALOR OPERAÇÕES SERVIÇO DA SERVIÇO DA RCL SD BRUTO/ ROLA- SDL/RCL PARA ROLAGENS DÍVIDA BRUTO DÍVIDA LÍQUIDO Adm.direta RCL GENS/RCL A B C=B-A D B/D A/D C/D ,2% 31,4% 18,7% ,6% 6,8% 31,8% ,6% 5,6% 7,1% ( ) ,3% 22,0% -3,7% MÉDIAS ,9% 16,5% 13,4% ,6% 13,2% 8,5% ,7% 14,8% 10,9% ,3% 19,2% 16,0% ,1% 28,4% 9,7% MÉDIAS ,2% 18,9% 11,3% ,7% 24,6% 9,1% ,4% 20,4% 9,0% ,8% 28,9% 9,0% ,5% 23,6% 10,9% MÉDIAS ,9% 24,4% 9,5% MÉDIA GERAL 31,3% 19,9% 11,4% Fonte: Balanços do Estado - serviço da dívida Divisão da Dívida Pública/SEFA: Dados sobre rolagens. Tabela 3 Desonerações fiscais de ICMS % das Desonerações % do ICMS Potencial DESONERAÇÃO Valor Nominal NÃO INCIDÊNCIAS (Exceto exportações) ,99% 3,20% EXPORTAÇÕES ,12% 17,13% ISENÇÕES ,22% 3,28% REDUÇÃO DE BASE DE CÁLCULO ,41% 2,64% CRÉDITOS PRESUMIDOS: ,62% 6,63% FUNDOPEM ,55% 1,62% DEMAIS ,07% 5,01% MICRO E EPP ,65% 2,73% TOTAL DAS DESONERAÇÕES ,00% 35,61% ICMS ,39% ICMS POTENCIAL ,00% Fonte: Secretaria da Fazenda do Estado do RS - Proposta Orçamentária 2008, página 49, conjugada com a página 57 para o caso do Fundopem. 6

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