CARGA FISIOLÓGICA DOS FUNCIONÁRIOS DE RESTAURANTE DA CIDADE DE IRATI - PR

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1 CARGA FISIOLÓGICA DOS FUNCIONÁRIOS DE RESTAURANTE DA CIDADE DE IRATI - PR Dante Luis Pereira (UTFPR) Luiz Alberto Pilatti (UTFPR) Maria Helene Giovanetti Canteri (UTFPR) Joao Luiz Kovaleski (UTFPR) A presente pesquisa teve o objetivo de avaliar a carga fisiológica do trabalho através da monitorização dos batimentos cardíacos, e analisar a relação entre a variação da freqüência cardíaca com o nível de carga mental e estresse de trabalhhadores. A pesquisa caracterizase como descritiva, e foi realizada em um restaurante da cidade de Irati - Paraná. A carga de trabalho físico foi obtida através do levantamento da freqüência cardíaca média durante a jornada de trabalho, os dados foram obtidos com o uso de um sistema de coleta e análise de dados de freqüência cardíaca que consiste em um receptor digital de pulso, uma correia elástica e um transmissor com eletrodos. As atividades exercidas pelos garçons foram classificadas como trabalho pesado com 104 bpm em média, as exercidas pelo gerente e churrasqueiros tiveram respectivamente 118 e 103 bpm e classificadas também como trabalho pesado, enquanto que a função barman teve em média 100 bpm com exigência medianamente pesado. Conclui-se que a atividade do gerente, diferente do que se hipotetizava, é revestida de grande pressão temporal e por produção, ocasionando aumento dos batimentos. No trabalho dos garçons, o desgaste físico encontra-se em um limite normal de intensidade. Palavras-chaves: carga fisiológica, trabalho, funcionários

2 1. Introdução Segundo o Ministério do Trabalho e do Emprego (2011), é importante garantir condições de trabalho seguras e saudáveis, tendo como finalidade a preservação da saúde e da vida do trabalhador, prevenindo acidentes e doenças ocupacionais. O trabalho ocupa grande parte da vida e a prevalência de posturas inadequadas mantidas, por tempo prolongado durante a jornada de trabalho, são fatores que constituem riscos para o desenvolvimento de doenças ou desconforto nos trabalhadores. O impacto da mudança no mundo do trabalho acelerou o adoecimento físico e psíquico decorrente dele, especialmente em meados do século XX, quando o sistema produtivo incorporou definitivamente a mecanização e a automação. Nesse contexto, inclui-se os DORTs (distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho) descrito, ao longo da história recente, como de ocorrência específica em determinadas profissões e reconhecida, no final desse último século, como uma afecção epidemiológica impactante e que pode atingir uma ampla gama de trabalhadores, em diferentes tipos de atividades (SHEPHARD, 2008). O estudo das doenças ocupacionais oferece importante oportunidade para atuação em prevenção e melhoria da qualidade de vida no trabalho, no entanto, estas doenças constituem apenas uma pequena parcela das atuais causas de mortalidade e morbidade dos empregados, pois, doenças cardiovasculares e outras doenças crônico-degenerativas, somam à maior parte (SHEPHARD, 2008). A relação entre as variáveis, carga de trabalho e freqüência cardíaca (FC) tem sido largamente pesquisada, inclusive combinando-as com outras variáveis associadas à fisiologia do trabalho, possivelmente devido à facilidade de acesso à FC. Os estudos sobre a relação entre a FC e a carga de trabalho não são unânimes em suas conclusões. Para Kamal et al. (2009), Meshkati (2009), Feuerstein e Fitzgerald (2010) o estudo da FC mostra-se um importante método de avaliação fisiológica da carga física e/ou da carga mental de trabalho, independentemente do método utilizado. Porém Lee (2007), Steptoe et al. (2008) deduziram que o aumento da carga mental não influencia o ritmo cardíaco. Portanto o presente estudo avaliou a carga fisiológica do trabalho através da monitorização dos batimentos cardíacos em funcionários de um restaurante, e analisou a relação entre a variação da freqüência cardíaca com o nível de carga mental e estresse dos trabalhadores. 2. Metodologia O estudo foi realizado com nove sujeitos do sexo masculino, adultos com idade entre 18 e 42 anos, trabalhadores de um restaurante tipo churrascaria situada na cidade de Irati - Paraná. Os cargos ocupados pelos sujeitos da pesquisa foram: gerente, garçom, barman e churrasqueiro e a carga horária de trabalho foi de oito horas por dia. A pesquisa ocorreu em três etapas, sendo a primeira avaliação da aptidão física e anamnese; segunda etapa avaliação da freqüência cardíaca e avaliação da carga mental através da aplicação do questionário da NASA-TLX (Task Load Index, 1996) e a terceira etapa análise estatística dos resultados. 2

3 Para a coleta dos dados de freqüência cardíaca, foi fixado em cada trabalhador o frequencímetro do modelo Polar Team SystemTM, no início da jornada de trabalho, sendo retirado para o almoço e colocado novamente até o fim da jornada. Os valores são armazenados em intervalos de 5 segundos durante a jornada de trabalho e transferidos para o computador por um equipamento próprio ( interface ) para análise em software desenvolvido pelo fabricante. A carga física de trabalho foi classificada de acordo com a metodologia proposta por Apud (2007), da seguinte forma: - Trabalho muito leve: freqüência cardíaca média de trabalho inferior a 75 batimentos por minuto (bpm); - Trabalho medianamente pesado: freqüência cardíaca média de trabalho entre 76 e 100 bpm; - Trabalho pesado: freqüência cardíaca média de trabalho entre 101 e 125 bpm; - Trabalho extremamente pesado: freqüência cardíaca média de trabalho entre 126 e 150 bpm. O limite de carga máxima no trabalho foi calculado com base na freqüência cardíaca do trabalho (FCT) ou pela carga cardiovascular (CCV). Para avaliar a carga mental de trabalho foi utilizado um instrumento de mensuração das exigências mentais atribuídas pelos sujeitos, o NASA-TLX (Task Load Index,1996). É um procedimento multidimensional que provê uma avaliação quantitativa global da carga mental de trabalho baseada na média ponderada da avaliação de seis dimensões da carga mental de trabalho: Exigência Mental, Exigência Física, Exigência Temporal, Nível de Realização, Nível de Esforço e Nível de Frustração. Destaca-se que o NASA TLX apresenta a particularidade de ponderar as dimensões da carga mental de trabalho, de acordo com a importância subjetiva (peso) atribuída pelo sujeito, multiplicada pela taxa aferida para cada dimensão da carga, visto que as dimensões da carga de trabalho variam de acordo com as tarefas/atividades e a forma como o sujeito a percebe. Ao final do procedimento se calcula a taxa global ponderada da carga mental de trabalho do sujeito. Essa taxa global ponderada é obtida através do somatório de todos os pesos multiplicados pelas taxas de todas as dimensões. Esse valor é dividido por 15, oferecendo o valor final da taxa global ponderada. A análise dos dados foi feita por meio de estatística descritiva dos dados, utilizando média, com distribuição da freqüência e percentual através de tabela e gráficos. 3. Resultados e discussões A freqüência cardíaca em repouso foi obtida através da sua medição, durante um período de 10 minutos, 5 minutos para repousar e 5 minutos de teste. A média da freqüência cardíaca em repouso dos indivíduos foi de 66,55 bpm ± 5,93. O gráfico 1 nos mostra que, independente da função exercida, houve semelhança entre a Freqüência cardíaca de repouso (FCR) nos sujeitos C2,G1,G2,G3,G4,G5, porém observa-se que os sujeitos apresentaram FCR elevadas, sendo eles, B1= 75 bpm; C1= 74 bpm e Ge1= 72 bpm. 3

4 Gráfico 1: Média da FCR dos indivíduos. (B barman; C churrasqueiro; G garçom; Ge1 gerente). Fonte: elaborado com dados da pesquisa A função cardíaca também apresenta alterações de acordo com a hora do dia, sendo consistentemente mais baixa à noite, independente da carga de trabalho, com uma diferença entre o dia e a noite de 5-10 bpm. A freqüência cardíaca (FC) no exercício físico máximo (FCmáx) varia com a hora do dia, entretanto, com variação de menor amplitude se comparada com a FCR (REILLY, 2007). Sendo assim, analisando os gráficos 1 e 2, observamos que os sujeitos, C1, G3,G4,G5,Ge1, apresentam médias de freqüência cardíaca de trabalho (FCT) acima de 100 bpm, ou seja, estes indivíduos estão acima do limite estipulado para que não seja prejudicial à saúde. No que diz respeito à freqüência cardíaca de trabalho, observa-se no gráfico 2 abaixo, que 05 dos 09 indivíduos estiveram acima do recomendado em relação a FCT. Gráfico 2: Média da freqüência cardíaca de trabalho dos indivíduos. 4

5 Fonte: elaborado com dados da pesquisa O limite de aumento da freqüência cardíaca durante o trabalho, aceitável para uma performance contínua, é de 35 e 30 batimentos por minuto (bpm), no homem e na mulher, respectivamente. Isso significa que o limite é atingido quando a freqüência cardíaca média do trabalhador estiver 35 bpm acima da freqüência cardíaca média de repouso (FCR) (FIEDLER, 2008). A carga de trabalho físico foi obtida através do levantamento da freqüência cardíaca média durante a jornada de trabalho. As atividades exercidas pelos garçons foram classificadas como trabalho pesado com 104 bpm em média, as exercidas pelo gerente e churrasqueiros tiveram respectivamente 118 e 103 batimentos e classificadas também como trabalho pesado, enquanto que a função barman teve em média 100 batimentos com exigência medianamente pesado. Tabela 1: Média de freqüência cardíaca de trabalho comparado com a metodologia proposta por Apud (2007). Carga física do trabalho/sujeitos < 75 bpm Trabalho muito leve G (n=5) Ge (n=1) B (n=1) C (n=2) bpm Trabalho medianamente pesado 100bpm bpm Trabalho pesado 104bpm 118bpm 103bpm bpm Trabalho extremamente pesado Fonte: elaborada com dados da pesquisa. Em seu estudo Apud (2007) determinou o limite de 40% da capacidade cardiovascular do indivíduo como aceitável para o trabalho desenvolvido num turno de 8 horas. A aplicação da análise da carga cardiovascular através da freqüência cardíaca estabelece a carga de trabalho físico dentro dos limites que podem ser mantidos em uma jornada de trabalho de 8hs e a freqüência cardíaca não deve exceder a 110 bpm (COUTO, 2005). 5

6 O limite da carga máxima no trabalho pode ser calculado com base na freqüência cardíaca do trabalho (FCT) ou pela capacidade cardiovascular (CCV). Sendo assim, observamos no gráfico 3 que apenas um garçom (G5) e o gerente (G1) ultrapassaram este limite. Gráfico 3: Capacidade cardiovascular de cada indivíduo (%). Fonte: elaborado com dados da pesquisa A carga cardiovascular corresponde à percentagem da freqüência cardíaca do trabalho, em relação à freqüência cardíaca máxima utilizável, não devendo ultrapassar 40% da freqüência cardíaca do trabalho (FIEDLER, 2008). Com a aplicação do instrumento Nasa-TLX que avalia 6 subgrupos: Exigência Mental, Exigência Física, Exigência Temporal, Nível de Realização, Nível de Esforço e Nível de Frustração, chegamos a Taxa Global Ponderada (TGP), observa-se que, no gráfico 4 a TGP do gerente (Ge1) foi a mais elevada, devido um alto nível de estresse, assim como uma frequência cardíaca mais elevada que as dos outros funcionários, ou seja, o gerente tem uma carga mental de trabalho mais elevada. Em seguida está um garçom (G1), o barman (B1) e um churrasqueiro (C1) com TGP de 15,2%; 14,6%; 14,4%, respectivamente. Gráfico 4: Taxa global ponderada de cada indivíduo. 6

7 Fonte: elaborado com dados da pesquisa O estresse mental é outro fator de risco adicional para a doença hipertensiva, visto que uma exagerada resposta cardiovascular às situações estressantes tem mostrado estar associado à isquemia do miocárdio, e é um prognóstico para um futuro desenvolvimento da hipertensão e doenças coronárias. Em estudo de Fernandes, et al. (2006) mostram que as relações no trabalho envolvem o apoio social dos colegas, chefes e subordinados, que são consideradas como variável importante na saúde mental do trabalhador, e que podem ser consideradas estressantes no dia-a-dia. Estudos realizados por Kamal, et al. (2009) e Feuerstein e Fitzgerald (2010), evidenciam que o estudo da FC mostra-se um importante método de avaliação fisiológica da carga física e/ou da carga mental de trabalho, independente do método utilizado. Isto se confirmou neste trabalho, pois comparando o resultado do Nasa-TLX com a FC destes indivíduos percebemos que realmente há relação entre a variação da freqüência cardíaca com o nível de carga mental e estresse de trabalhadores. Corroborando Meshkati (2009) em uma revisão sobre estudos que empregaram a variabilidade da FC, mostra que a variável FC continua sendo uma das medidas mais promissoras da carga de trabalho mental e esforço fisiológico do operador. O nível e a variabilidade da FC sofrem importantes influências genéticas individuais em associação com fatores ambientais. Dentre as causas ambientais, o estresse durante a jornada de trabalho tem ganhado importância nas últimas duas décadas. Sua relação com níveis elevados de pressão arterial, tanto no trabalho quanto no lar, e possível envolvimento em doenças cardíacas. Acredita-se que a exposição crônica de indivíduos suscetíveis a condições de trabalho estressantes, possa ser responsabilizada por aumentos pressóricos persistentes e significativos, conduzindo ao quadro hipertensivo (SCHNALL et al., 2010). Um aspecto essencial da manutenção da saúde é tentar manter a harmonia nos relacionamentos, sejam familiares, de trabalho ou de amizade. Existem indivíduos que constroem relacionamentos de brigas constantes, e outros que ficam submersos em tristeza, propiciando a formação de tensões crônicas, que pioram a qualidade de vida e são à base de inúmeras doenças (MALDONADO, 1997). 4. Conclusão Ao término deste trabalho foi possível concluir que as atividades desenvolvidas por profissionais em restaurantes, requerem esforço físico do trabalhador próximo do limite recomendado da capacidade cardiovascular, sendo as atividades classificadas como moderadamente pesada ou pesada. Deve-se levar em consideração a carga mental do trabalho, pois é um fator que altera a freqüência cardíaca dos indivíduos. Recomenda-se estratégias que ajudem estes trabalhadores a regularem mais seu trabalho, e intervenções como pausas e análise ergonômica do trabalho para preservar a saúde dos mesmos. 7

8 As pausas são necessárias para evitar a sobrecarga de trabalho quando se detectam excessos de carga física, por isso não se recomenda a organização do trabalho em metas, visto que o trabalhador muitas vezes ignora as limitações do seu organismo, procurando encerrar a tarefa o mais breve possível, ignorando os malefícios das pausas irregulares. Referências APUD, E. Temas de ergonomia aplicados al aumento de la productividad de la mano de obra en cosecha florestal. Rev. Floresta, v. 11, n. 2, p , BRASIL. Ministério do Trabalho e do Emprego Disponível em: Acesso em 23 set COUTO, H. A. Ergonomia aplicada ao trabalho: o manual técnico da máquina humana. Editora Ergo, v.1, p. 353, FERNANDES, J. D. et al. Saúde mental e trabalho: significados e limites de modelos teóricos. Rev Latina Enfermagem, v. 14, n. 5, FEUERSTEIN, M. & FITZGERALD, T.E. Biomechanical factors affecting upper extremity cumulative trauma disorders in sign language interpreters. Journal of Occupational Medicine, v. 34, n. 3, p , FIEDLER, N. C. Avaliação da carga física de trabalho exigida em atividades de fabricação de móveis no Distrito Federal. Revista Cerne, ed. 8, n. 2, p , KAMAL, A. M., et al. Relative cardiac cost and physical, mental and psychological work load among a group of post-operative care personnel. International Archives of Occupational and Environmental Health, v. 53, n. 3, p , LEE D. H. Multivariate analysis of mental and physical load components in sinus arrhythmia scores. Ergonomics, v. 33, n.1, p , MALDONADO, M. T. & GOLDIN, A. Maioria de 40: guia de viagem para a vida. São Paulo: Saraiva; Estilo de vida: mudando a maneira de olhar; p MESHKATI, N. Heart rate variability and mental workload assessment. Human Mental Workload, v. 22, n. 3, p , NASA-TLX MANUAL NASA Ames Research, Califórnia Estados Unidos, SCHNALL P.L. et al. The relationship between "job strain", workplace diastolic blood pressure, and left ventricular mass index: results of a case-control study. JAMA, v. 10, n.1, p , SHEPHARD, R. Geriatric benefits of exercise as an adult. Journal of Gerontology, n. 63, p ,

9 STEPTOE, A. et al. Aerobic fitness, physical activity, and psychophysiological reactions to mental tasks. Psychophysiology, v. 27, n. 2, p , REILLY, T. Biological rhythms and exercise. Biological Human Exercise, v. 23, n. 2, p ,

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