ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA PROF. DR. IVO DANTAS 1

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1 ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA PROF. DR. IVO DANTAS 1 CONSULTA Consulta-me a ANPAF ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS PROCURADORES FEDERAIS sobre a sua legitimação para propor Ação Direta de Inconstitucionalidade junto ao SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, em especial quanto à Pertinência Temática na ADI 5017, protocolada em 17/07/2013, visando declaração de Inconstitucionalidade da Emenda Constitucional n. 73/13 que cria mais quatro Tribunais Regionais Federais. 1 Professor Titular da Faculdade de Direito do Recife - UFPE. Doutor em Direito Constitucional - UFMG. Livre Docente em Direito Constitucional - UERJ. Livre Docente em Teoria do Estado - UFPE. Membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas. Membro da Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas. Presidente do Instituto Pernambucano de Direito Comparado. Membro da Comissão para elaboração do Código Brasileiro de Processo Constitucional, designado pelo Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Conselho Federal, através da Portaria n. 445/2013. Presidente da Comissão de Estudos Constitucionais, OAB Pernambuco. Presidente da Academia Pernambucana de Ciências Morais e Políticas. Miembro del Instituto IberoAmericano de Derecho Constitucional México). Miembro del Consejo Asesor del Anuario IberoAmericano de Justicia Constitucional, Centro de Estudios Políticos y Constitucionales (CEPC), Madrid. Ex- Diretor da Faculdade de Direito do Recife UFPE. Membro da Academia Pernambucana de Letras Jurídicas. Fundador da Associação Brasileira dos Constitucionalistas Democráticos. Membro Efetivo do Instituto dos Advogados de Pernambuco. Membro do Instituto Pimenta Bueno - Associação Brasileira dos Constitucionalistas. Ex-Professor Orientador Visitante do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, conforme aprovação do Colegiado, em 31 de maio de Ex-Professor do Curso de Mestrado em Direito da Universidade da Amazônia, UNAMA, Belém do Pará. Juiz Federal do Trabalho - (aposentado). Advogado e Parecerista.

2 SUMÁRIO 1. As circunstâncias e o conteúdo ideológico da Constituição de A Supremacia e a Supralegalidade Constitucionais. p A amplitude e o sentido dados à legitimação para propositura do controle concentrado: do Procurador Geral da República ao art. 103 da CF. p O entendimento da expressão entidade de classe de âmbito nacional (CF art. 103, IX). p A ANPAF e a questão da pertinência temática e o objeto da ADIN. p CONCLUSÃO p. 28 2

3 PARECER 1. As circunstâncias e o conteúdo ideológico da Constituição de A Supremacia e a Supralegalidade Constitucionais. No itinerário percorrido pelos diversos textos constitucionais, nenhum outro se mostrou mais valorizador da Democracia e da República, do que a Constituição de 5 de outubro de Neste sentido, é um texto que valoriza a atividade do Supremo Tribunal Federal ao qual compete, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe (I) processar e julgar originariamente (a) a ação direta de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo federal ou estadual e a ação declaratória de constitucionalidade de lei ou ato normativo federal. Neste sentido, o atual texto constitucional marcha de acordo com todo o constitucionalismo ocidental, ou seja, (a) valoriza a Constituição e o Controle de Inconstitucionalidade como pilar essencial da Democracia contemporânea, e (b) mostra uma coerência invejável entre o seu Preâmbulo, seus Títulos I e II (e capítulos) e a enumeração de suas Cláusulas Pétreas, expressão que entre nós se fez presente na Doutrina nacional após aquele ano, muito embora, pessoalmente, prefiramos aquela outra antes adotada, ou seja, Limites Materiais e Formais ao Poder de Reforma Preferimos esta expressão, e não outras como Poder Constituinte Derivado, Poder Constituinte de Segundo Grau ou outras, por entendermos que o Poder

4 Na Constituição de 1988 seu texto, sem exceção alguma, e em sua integralidade, está marcado pela característica da Supremacia, em favor da qual, o constituinte criou os instrumentos necessários à Defesa de sua Supralegalidade. Dizendo melhor: se a matéria constasse da Constituição por opção do constituinte ou do poder de reforma (via emenda ou revisão 4 ) de nada adiantaria, se qualquer espécie de norma viesse alterá-la para lhe tirar o destaque de que é portadora. É aí que surge o conceito de Supralegalidade, ou seja, conjunto de procedimentos que poderão ser acionados em defesa do conteúdo constitucional marcado pela Supremacia. São os meios e/ou processos de Controle da Constitucionalidade. Neste sentido, demos um exemplo: de nada significaria ou valeria o comportamento do constituinte, ao estabelecer a estrutura da Constituição, fazendo nela constatar o Título I DOS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS se estes não tivessem um arsenal de instrumentos que defendesse o conteúdo do seu art. 1º, deixando-o à mercê da vontade dos governantes de cada período: A República federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e como fundamentos: I a soberania; II a cidadania; III a dignidade da pessoa humana; IV os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V o pluralismo político. Parágrafo único: Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. 4 Constituinte só pode ser corretamente entendimento como aquele que constitui e como tal é inicial, prévio a qualquer sistema jurídico positivo. Neste sentido o ordenamento não lhe opõe nenhum limite, salvo os naturais. O Poder de Reforma, ao contrário, é limitado pelo sistema, existe nele, e só existe porque o Poder Constituinte assim o permitiu, pois que poderia o texto que o prevê, não o ter feito, supondo a possibilidade de Constituição Eterna. Mencionamos este aspecto porque será ele utilizado mais adiante. 3 Pois bem, este conteúdo se explica pelo período que lhe antecedeu, ou seja, pelo período militar e sua Constituição de 1967 e a Emenda 1/69, expressões com as quais não concordamos e por isto as juntamos para utilizar a expressão Texto 67/69, cuja natureza, ao nosso sentir, não passou de um Pacto Constitucional. 4 Utilizamos as duas expresses, adiantando, entretanto, que a Revisão Constitucional no Brasil, foi prevista pela CF/88 para que ocorresse uma única vez, como de fato ocorreu ( ). Qualquer tentativa em sentido contrário é Golpe contra a Constituição.

5 Vale observar que e foi de propósito o exemplo trazido este conteúdo encontra-se transcrito, de forma telegráfica, no art. 60 4º, incisos I a IV nos seguintes termos: 4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I a forma federativa de estado; II o voto direto, secreto, universal e periódico; III - a separação dos Poderes; IV os direitos e garantias individuais. Por outro lado, quando a Constituição aponta os procedimentos pelos quais poderá ser defendida toda vez que qualquer lei ou ato, parta do Legislativo, do Executivo ou do próprio Judiciário, desejar atingi-la, não poderão ditos comandos ser ampliados salvo pelo Poder de Reforma como, p. ex. a EC 3/93 nem ter interpretação restritiva, devendo esta ser praticada nos exatos limites da própria determinação constitucional. Voltaremos a este ponto mais adiante. 2. A amplitude e o sentido dados à legitimação para propositura do controle concentrado: do Procurador Geral da República ao art. 103 da CF. 5 O tema do Controle de Constitucionalidade, em qualquer sistema de Constituição Rígida, é, como já o dissemos, um dos pilares do sistema jurídico, sendo tal sua importância, que autores já se referem a uma troisième vague como sendo o estágio atual em que se encontram os diversos modelos de controle 5, visto que a Primeira Onda corresponderia ao período posterior a Iª Grande Guerra Mundial, com o controle concentrado consagrado pelas Constituições de Weimar e da Áustria, enquanto a Segunda Onda se deu após a IIª Grande Guerra, com os textos constitucionais da Itália, Japão e Alemanha Ocidental. 5 LOUIS FAVOREU, Europe Occidentale, in LOUIS FAVOREU et JOHN-ANTHONY JOLOWICZ, Le Controle Juridictionnel des Lois. Légitimité, effectivité et développements récents. Paris: Economica, 1986, p. 19.

6 No caso do Brasil, com a aprovação e vigência da Constituição Federal de o Controle de Constitucionalidade sofreu inúmeras inovações, todas elas no sentido de uma maior possibilidade de defesa do texto da Lei Maior. Neste sentido, no modelo de controle concentrado, é de se destacar algumas inovações trazidas ao sistema jurídico brasileiro pela EC 45/2004 (Reforma do Judiciário), a qual já fora precedida pela aprovação da Lei n ( ), que dispõe sobre o processo e julgamento da ação direta de inconstitucionalidade e da ação declaratória de constitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal. No mesmo sentido, mencione-se ainda a Lei n ( ), que dispõe sobre o processo e julgamento da arguição de descumprimento de preceito fundamental, nos termos do 1º do art. 102 da Constituição Federal. No modelo de controle difuso, por outro lado, o instituto do recurso extraordinário, único veículo de, no caso concreto chegar-se ao pronunciamento do STF sobre a matéria constitucional, igualmente foi alcançado pela já citada EC 45, de que lhe introduziu várias inovações, dentre as quais, a necessidade de que o recorrente demonstre a repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso. 6 Apesar de todas as considerações que fizemos em diversos estudos, vale que transcrevamos a lição de HUMBERTO THEODORO JUNIOR 7 ao tratar do tema no item Relevância da questão federal (CF de 1967 EC 6 nº 1, de e EC nº 7, de ) e repercussão geral da questão constitucional (CF 1988 EC nº 45, de ), quando afirma: a Constituição revogada permitia ao Supremo Tribunal Federal criar limitações regimentais ao cabimento do recurso extraordinário, nos casos de negativa de vigência de lei federal e de divergência interpretativa entre tribunais (art. 199, 1º). A atual Constituição, em seu texto primitivo, deixou de outorgar semelhante poder tanto 6 Veja-se IVO DANTAS, Novo Processo Constitucional Brasileiro. Curitiba: Juruá Editora, 2010, cap. IV. 7 Curso de Direito Processual Civil Teoria Geral do Direito Processual Civil e Processo de Conhecimento vol. I atualizado de acordo com a Emenda Constitucional nº 45, de e a Lei nº , de Lei de Falência (43ª edição, Rio de Janeiro: Editora Forense, 2005, p Negrito no original.

7 para o Supremo Tribunal Federal como para o Superior Tribunal de Justiça. Desaparecia, de tal forma, o instituto da arguição de relevância, que era um mecanismo de filtragem do recurso extraordinário criado pelo Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal para amenizar a sobrecarga, quase intolerável, do volume daquele recurso. No regime então implantado, caberia tanto ao Supremo Tribunal Federal como ao Superior Tribunal de Justiça conhecer e julgar todos os recursos (extraordinários e especiais), sem outros condicionamentos e limitações que não fossem aqueles traçados pelo próprio texto constitucional (arts. 102, nº III; 105, nº III). A matriz constitucional do recurso extraordinário veio ainda segundo THEODORO JUNIOR -, porém, a sofrer significativas alterações por força da Emenda nº 45, de , dentre elas a que figurou no novo 3º do acrescido ao art. 102 da Constituição. Por força desse dispositivo, doravante caberá à parte fazer, em seu recurso, a demonstração da repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso. À luz desse dado, o STF poderá, por voto de dois terços de seus membros, recusar o recurso. Ou seja: está o Tribunal autorizado a não conhecer do recurso extraordinário se, preliminarmente, entender que não restou demonstrada a repercussão geral das questões sobre que versa o apelo extremo. Tal como dito no enunciado deste item - A amplitude e o sentido dados à legitimação para propositura do controle concentrado: do Procurador Geral da República ao art. 103 da CF. enfrentemos de forma direta o Controle Concentrado, sem dúvida, matéria ligada aos objetivos deste parecer. Nas Ações Diretas de Controle da Constitucionalidade, o constituinte de modificou, profundamente, a legitimação ativa dos que as podem propor, embora não tenha chegado ao modelo alemão. Esta ampliação, em última análise, atendeu reivindicação antiga da Doutrina Nacional, que apontava graves inconvenientes no fato de o 7

8 Procurador Geral da República ser o único legitimado para provocar o Supremo Tribunal Federal à análise da matéria. A Legislação ordinária manteve a legitimação ativa daqueles que estão enumerados no art. 103 da Constituição Federal, em sua redação originária, salvo o acréscimo feito aos incisos IV e V, que incluíram a Mesa da Câmara Legislativa do Distrito Federal e o Governador do Distrito Federal. Vale lembrar que, à época da edição da Lei n /99 8, esta situação apresentou-se, pelo menos de constitucionalidade duvidosa, o que foi corrigida pela EC 45/2004 a denominada Reforma do Poder Judiciário, ao incorporar as inovações da Lei, trazendo-as para o plano constitucional. Mesmo assim, há uma alteração provocada pela EC 45, que reconheceu a mesma legitimação tanto para a ADIN como para a ADC (revogando o art º da CF). Em nosso entendimento, marchou no sentido correto, visto que assim defendemos desde nossa Tese para Professor Titular da Faculdade de Direito do Recife (UFPE), O Valor da Constituição. Do Controle de constitucionalidade como garantia da supralegalidade constitucional 9. A propósito, determina o art. 103 da Constituição, com a redação que lhe deu a EC 45/2004: 8 Art Podem propor a ação direta de inconstitucionalidade e a ação declaratória de constitucionalidade: I - o Presidente da República; II - a Mesa do Senado Federal; III - a Mesa da Câmara dos Deputados; IV - a Mesa de Assembleia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal; V - o Governador de Estado ou do Distrito Federal; VI - o Procurador-Geral da República; VII - o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil; VIII - partido político com representação no Congresso Nacional; IX - confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional (negrito nosso). Em decorrência, da alteração ocorrida nos incisos IV e V, fica evidente que a legitimação prevista nas legislações infraconstitucionais, deve 8 Dispõe sobre o processo e julgamento na ação direta de inconstitucionalidade e ação declaratória de constitucionalidade perante o STF. 9 3ª edição, (Histórica), Curitiba: editora Juruá, 2010.

9 ser lida sob a óptica da EC 45. Em nosso entender, trata-se de uma inversão de valores, pois, para ampliar a legitimação, a iniciativa deveria partir de uma alteração constitucional para, só depois, ocorrer na Lei Ordinária. No caso concreto, ocorreu o inverso. Exatamente por esposarmos este entendimento, escrevemos no já citado livro O Valor da Constituição Do Controle de constitucionalidade como garantia da supralegalidade constitucional 10 que limitaremos nossas observações a um aspecto que nos parece de fundamental importância: quando a Lei nº 9.868, , em seu art. 2º, ao fixar os legitimados para a Ação Direta de Inconstitucionalidade, resolveu inovar nos incisos IV e V, entendemos que, indo além do art. 103 da CF, pecou por inconstitucionalidade material. Apesar do entendimento aqui esposado, vale lembrar que o STF, através da ADIn nº (Rel. Min. ILMAR GALVÃO. DJU , p. 1693), o mesmo acontecendo na ADIn nº 665 (Rel. Min. OCTÁVIO GALLOTTI (DJU , p. 5376) já havia entendido ser possível a Ação Direta de Inconstitucionalidade, através do Governador do Distrito Federal. Neste sentido, na mencionada ADIn nº 645-2, entendeu o Min. ILMAR GALVÃO que a legitimação ativa do Governador do Distrito Federal se dava por via de interpretação compreensiva do texto do art. 103, V, da CF/88, c/c o art. 32, 1º, da mesma Carta. Em que pese defendermos uma interpretação sistêmica da Constituição 11, cremos que, no caso, não caberia ao STF ir além dos termos fixados na Carta Magna, inovando o art. 103 (antes da EC 45/2004), da mesma forma como não poderá ir além, na interpretação dos preceitos contidos no art. 60, ao fixar o procedimento para o exercício do Poder de Reforma ob. cit. p A propósito, consulte-se nosso livro Princípios Constitucionais e Interpretação Constitucional (Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 1995), bem como os já mencionados O Valor da Constituição (3ª edição, revista e aumentada, Curitiba: Juruá Editora, 2011) e Instituições do Direito Constitucional Brasileiro (3ª edição, revista e aumentada, Rio de Janeiro: Editora Juruá, 2012). Ao indicarmos trabalhos nossos não temos outro objetivo senão o de demonstrar que a nossa posição neste Parecer não é encomendada, feita por encomenda, mas é uma posição científica, de há muito sedimentada.

10 3. O entendimento da expressão entidade de classe de âmbito nacional (CF art. 103, IX). Aqui começamos a discussão da expressão entidade de classe de âmbito nacional (contida no inciso IX), visto que, só depois de conceituada esta categoria, poder-se-á verificar a existência, ou não, da denominada pertinência temática para proposição pela ANPAF de Ação Direta de Inconstitucionalidade. De início, cabe a lição que nos é dada pelo Min. GILMAR FERREIRA MENDES e PAULO GUSTAVO GONET BRANCO em seu Curso de Direito Constitucional 12, ao analisarem a Legitimação de Confederação sindical e entidade de classe de âmbito nacional, quando não encontram um critério único para definir a expressão entidade de classe de âmbito nacional. Neste sentido, é sua lição: O direito de propositura das confederações sindicais e das organizações de classe de âmbito nacional prepara significativas dificuldades práticas. A existência de diferentes organizações destinadas à representação de classe de determinadas profissões ou atividades e a não existência de disciplina legal sobre o assunto tornam indispensável que se examine, em cada caso, a legitimação dessas diferentes organizações. Causam dificuldade, sobretudo, a definição e a identificação das chamadas entidades de classe, uma vez que, até então inexistia critério preciso que as diferençasse de outras organizações de defesa de diversos interesses. Por isso, está o tribunal obrigado a verificar especificamente a qualificação dessa confederação sindical ou organização de classe instituída em âmbito nacional. Por isso, merece especial referência sobre a legitimação das confederações sindicais e das entidades de classe de âmbito nacional, tendo em vista os problemas suscitados, desde então, pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ª edição revista e atualizada, São Paulo: Editora Saraiva, 2011, p O autor manteve o mesmo texto na 8ª edição, 2ª tiragem revista e atualizada, 2013, p do Curso Ob. cit. p Negrito e sublinhado, nossos. Itálico no original.

11 lapidar: Logo em seguida, escreve o Ministro com linguagem clara e Em decisão de (ADIn-MC 34 DF) tentou o Tribunal definir a noção de entidade de classe, ao explicitar que é apenas a associação de pessoas que representa o interesse comum de uma determinada categoria intrinsecamente distinta das demais. 14 Em outra passagem, GILMAR FERREIRA MENDES enfatiza o que se deve entender por âmbito nacional. Total razão tem o Ministro, até porque, esta flexibilidade terminológica, existente em todos os ramos da Ciência Jurídica, é exigência que tem de ser superada para uma compreensão do que está contido, expressamente, no art. 103, IX da CF/88. E diz: Quanto ao caráter nacional da entidade, enfatiza-se que não basta simples declaração formal ou manifestação de intenção constante de seus atos constitutivos. Faz-se mister que, além de uma atuação transregional, tenha a entidade membros em pelo menos um terço das Unidades da Federação, ou seja, em 9 dessas unidades (Estados-membros e Distrito Federal) número que resulta da aplicação analógica da Lei Orgânica dos Partidos Políticos (Lei n /95, art. 7º, 1º) Agora em outro livro, desta feita Controle Abstrato de Constitucionalidade: ADI, ADC e ADO comentários à Lei 9.868/99 16 ainda GILMAR MENDES, é mais incisivo ao escrever: Relativamente à legitimação das entidades de classe de âmbito nacional e das confederações sindicais é difícil admitir a juridicidade da exigência quanto à representação da entidade em pelo menos nove Estados da Federação, como resultado decorrente da aplicação analógica da Lei Orgânica dos Partidos Políticos. Ainda que se possa reclamar a fixação de um critério preciso sobre tais noções - entidades de classe de âmbito nacional e das confederação sindical não há dúvida de que eles devem ser fixados pelo legislador, e não pelo Tribunal, no exercício de sua atividade jurisdicional. O recurso à analogia, aqui, é de duvidosa exatidão Ob. cit. p Idem, p Negrito e sublinhado nossos. São Paulo: Saraiva, 2012,110.

12 No sentido de que não cabe limitação por parte do STF, CLÈMERSON MERLIN CLÈVE, em livro hoje indispensável para o estudo da matéria, intitulado A Fiscalização Abstrata de Constitucionalidade no Direito Brasileiro 17, ao tratar da Ação direta genérica de inconstitucionalidade discute a Legitimidade processual ativa e passiva e menciona o acúmulo e quantidade de ações que têm sido impetradas nos diversos tribunais, e em especial no STF, em razão da nova estrutura do Poder Judiciário. Em seguida, destaca o caráter objetivo do controle abstrato, tudo isto, de forma corretíssima, sem merecer nenhum reparo. Ato contínuo, doutrina textualmente: O Supremo Tribunal Federal reconhece que alguns legitimados ativos - o Presidente da República, o Procurador Geral da República, as Mesas do Senado e da Câmara dos Deputados, os partidos políticos e o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil têm interesse em preservar a supremacia da Constituição por força de suas próprias atribuições institucionais. Quanto aos demais legitimados ativos, entretanto, o Supremo Tribunal Federal inclina-se a estabelecer restrições. O Excelso Pretório caminha para só admitir a ação direta por parte de Governadores e Mesas das Assembleias Legislativas, se a lei impugnada disser respeito, de algum modo, às respectivas unidades federadas; e por parte de confederações sindicais ou entidades de classe, se a norma em causa ferir os interesses dos respectivos filiados ou associados Logo na linha seguinte, CLÈMERSON MERLIN CLÈVE nos dá o cuidado que deve ter o STF ao tratar da matéria. Escreve: Com a exigência da demonstração do interesse dos filiados ou associados das confederações sindicais ou entidades de classe, o Supremo não pode chegar ao ponto de transformar a ação direta em processo subjetivo de tutela de interesse concreto (ainda que coletivo). Sendo processo objetivo, cumpre exigir e apenas para efeito de aferição da legitimidade, porquanto esses órgãos não dispõem de interesse genérico de preservação da supremacia constitucional, a demonstração do interesse de seus São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1995, p. 110 e segs. ob. cit. p. 121.

13 filiados e associados na questão constitucional para o fim de evitar a multiplicação de ações propostas nem sempre com propósitos sérios. 19 ZENO VELOSO (Controle Jurisdicional de Constitucionalidade) 20 de forma lapidar, contundente e direta dá-nos uma importante lição que, mesmo sendo em texto longo, merece ser citado e lido. Ensina-nos que Para reconhecer a legitimidade ativa das confederações sindicais e das entidades de classe no tema do controle abstrato, o Supremo Tribunal tem exigido critérios rígidos, e sua interpretação, sem dúvidas, é restritiva, tendo por objeto limitar o número das mesmas. Mas a compreensão redutiva não parou aí. O STF já firmou jurisprudência, numa visão teológica do art. 103 da Constituição, de que as confederações sindicais e as entidades de classe de âmbito nacional, para propor ações diretas de inconstitucionalidade, só têm legitimidade ad causam se preencherem o requisito objetivo da pertinência temática entre o interesse específico da classe ou categoria, para cuja defesa essas entidades são constituídas, e a lei ou ato normativo, cuja inconstitucionalidade é arguida. Não basta, pois que demonstrem a existência de um interesse de agir, de índole subjetiva, mas uma vinculação das finalidades estatutárias com a lei ou ato normativo que almejam impugnar. Não podem, então, esses entes privados, perante o STF, alegar a inconstitucionalidade de toda e qualquer norma, mas somente, daquelas que lhe dizem respeito, das que tenham uma relação com os interesses das categorias ou classes representadas (cf. ADIns 77, 138, 159, 202, 305, 893, 913-3, ) Em seguida, o autor vai direto a um ponto que já foi mencionado por GILMAR MENDES e por CLEMERSON CLÈVE, ou seja, a inconstitucionalidade da limitação. Ensina: Sem dúvida, esta interpretação restritiva, um verdadeiro processo de filtragem 22, leva em conta que tais entes são privados, e a Suprema Corte, assoberbada, repleta de questões, num número fantástico, quase impossível 19 Idem, p Belém: CEJUP, 1999, p. 83 e segs. 21 Ob. cit. p Negrito e sublinhado nossos. 22 Veja-se, a propósito de filtragem IVO DANTAS, Novo Processo Constitucional Brasileiro. Curitiba: Juruá Editora, 2010, p

14 de, humanamente, dar conta, quer estabelecer critérios rígidos, para evitar o aumento imprevisível das ações diretas de inconstitucionalidade. 23 E prossegue: Do ponto de vista estritamente jurídico, no entanto, entendemos data vênia, que a exigência da mencionada relação de pertinência não encontra qualquer amparo na Constituição. Fere, inclusive, o princípio da igualdade, pois não se requer tal relação de pertinência a respeito de todos os órgãos ou pessoas legitimados pelo art O nosso controle abstrato de normas é um processo objetivo, sem contraditório, marcado pela impessoalidade, não sendo pertinente falar-se num interesse jurídico subjetivo e específico do autor. É incabível criar-se uma condição de ação, natural do processo comum, tanto mais quando a Carta Magna elencou os órgãos e pessoas legitimados para o controle direto, sem mencionar qualquer restrição ao direito de propositura conferida aos membros. Tais legitimados entes legitimados funcionam, antes, como defensores abstratos, advogados da Constituição. 24 Finalmente, no plano doutrinário, leia-se o que escreve ANDRÉ RAMOS TAVARES (Curso de Direito Constitucional 25 ) em item intitulado Interesse de agir: a solução da pertinência temática: 14 A construção feita pelo Supremo Tribunal quanto à demonstração, por alguns legitimados ativos do art. 103 da Constituição Federal da existência de uma relação de pertinência temática não está bem inserida no contexto dos processos objetivos. Dúvida não pode haver de que a pertinência temática é um sucedâneo do interesse de agir no processo subjetivo. Ora, essa mescla é extremamente prejudicial à clara compreensão do processo de índole objetiva. Significa, em última análise, que o Supremo Tribunal acaba por aplicar regras processuais impróprias ao processo objetivo. De qualquer sorte, por desenvolverse consoante determinado processo, poder-se-ia admitir que determinado ordenamento positivo consagrasse essas diversificações e aproximações com o processo comum, como aquela acima indicada 26 pelo Supremo Idem, p. 84. Ibidem, p São Paulo: Editora Saraiva, 9ª edição revista e atualizada, 2011, p O autor estuda a Legitimidade ad causam.

15 Tribunal. Contudo, ainda que se admitisse esses desvirtuamento parcial, são necessárias novas expressas nesse sentido, já que contrariam a natureza própria do processo constitucional objetivo. A pertinência temática refere-se à necessidade de demonstração, por alguns legitimados, como as entidades de classe e as confederações sindicais, de que o objeto da instituição guarda relação (pertinência) com o pedido da ação direta proposta por referida entidade. Vale recordar aqui, a título de peroração de tudo o que foi dito, a decisão proferida na ADI MC-AgR, Rel. Min. CELSO DE MELLO (julgamento em , Dj de ): Não se discutem situações individuais no âmbito do controle abstrato de normas, precisamente em face do caráter objetivo de que se reveste o caráter de fiscalização concentrado de constitucionalidade. Permitam-me sublinhar dois pontos que são destacados pelos citados doutrinadores e pelo Decano do STF, Min. CELSO DE MELLO: a) o processo de controle centralizado tem um caráter objetivo nunca subjetivo o que acontece em outro horizonte. Por tal motivo a pertinência temática descabe no controle concentrado, por ser este feito através de um processo objetivo; b) embora não esteja prevista a exigência de limitação, no texto da CF, o STF, ao lado da pertinência temática inclui mais uma exigência, ou seja, a necessidade de uma existência geograficamente situada (9 estados). Exatamente coincidentes, nestes pontos, a posição dos ilustres constitucionalistas (o primeiro deles, Ministro do STF), isto porque, se trata mais uma vez, de estarmos frente a um conceito indeterminado, tal como ocorre em vários instantes de nosso ordenamento jurídico. Nestas hipóteses, temos defendido uma interpretação ampla do conceito, sobretudo, quando estiver em jogo a defesa da Supremacia Constitucional, como elemento definidor do atual Estado Constitucional. Vale lembrar e o dissemos acima - que esta defesa encontra-se garantida 15

16 pelo instituto da Supralegalidade, exatamente, para que a Supremacia não seja mera palavra decorativa, mas que se concretiza através dos diversos tipos de Controle de Constitucionalidade. Ademais, em nosso entender, é menos gravoso errar reconhecendo a legitimidade das entidades de classe de âmbito nacional e das confederações sindicais, para provocar o pronunciamento de mérito do STF sobre de determinada matéria entendida como inconstitucional, do que ferir-se de morte a possível apreciação e reconhecimento de inconstitucionalidade do objeto da Ação. Em outras palavras: quanto maior o número de advogados da Constituição (ZENO VELOSO), MELHOR. Com este procedimento limitatório e sem amparo no texto da Lex Magna, toda a intenção do constituinte no sentido de democratizar a iniciativa do controle, perde-se no vazio, quase que se identificando ao tempo, condenado sob todos os pontos de vista, em que encaminhar a representação era prerrogativa exclusiva do Procurador da República. Neste sentido, O Min. LUIZ FUX traz à discussão o conceito de sociedade aberta e escreve nos autos da ADI 4.029, em que foi Relator, julgamento em , Plenário, DJE de : 16 Ação direta de inconstitucionalidade. Lei federal /2007. Criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Legitimidade da Associação Nacional dos Servidores do Ibama. (...) A democracia participativa delineada pela Carta de 1988 se baseia na generalização e profusão das vias de participação dos cidadãos nos provimentos estatais, por isso que é de se conjurar uma exegese demasiadamente restritiva do conceito de entidade de classe de âmbito nacional previsto no art. 103, IX, da CRFB. A participação da sociedade civil organizada nos processos de controle abstrato de constitucionalidade deve ser estimulada, como consectário de uma sociedade aberta dos intérpretes da Constituição, na percepção doutrinária de Peter Häberle, mercê de o incremento do rol dos legitimados à fiscalização abstrata das leis indicar esse novel sentimento constitucional. In casu, a entidade proponente da ação sub judice possuir

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