UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI ARILSON PEREIRA VILAS BOAS

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1 UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI ARILSON PEREIRA VILAS BOAS A FELICIDADE NÃO SE COMPRA E WALL STREET 2: UMA ANÁLISE DA REPRESENTAÇÃO DAS CRISES ECONÔMICAS DE 1929 E 2008 SÃO PAULO 2012

2 ARILSON PEREIRA VILAS BOAS A FELICIDADE NÃO SE COMPRA E WALL STREET 2: UMA ANÁLISE DA REPRESENTAÇÃO DAS CRISES ECONÔMICAS DE 1929 E 2008 Dissertação apresentada a Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de Mestre do Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi de São Paulo, sob a orientação da Profa. Dra. Laura Loguercio Cánepa. SÃO PAULO 2012

3 ARILSON PEREIRA VILAS BOAS A FELICIDADE NÃO SE COMPRA E WALL STREET 2: UMA ANÁLISE DA REPRESENTAÇÃO DAS CRISES ECONÔMICAS DE 1929 E 2008 Dissertação apresentada a Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de Mestre do Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi de São Paulo, sob a orientação da Profa. Dra. Laura Loguercio Cánepa. Aprovado em / / Profa. Dra. Laura Loguercio Cánepa Prof. Dr. Vander Casaqui Prof. Dr. Rogério Ferraraz

4 Resumo A pesquisa analisa a representação da cultura do dinheiro da classe média e alta dos EUA, nas duas grandes crises que abalaram a economia: a Crise de 1929 a Grande Depressão - e a Crise de 2008 a Bolha imobiliária, vistas a partir de dois filmes: A felicidade não se compra (Frank Capra, 1946, EUA) e Wall Street II: o dinheiro nunca dorme (Oliver Stone, 2010, EUA). A metodologia utilizada compreendeu pesquisa teórica, visualização de filmes ligados ao universo do dinheiro e, especialmente, a análise fílmica de A felicidade não se compra (Frank Capra, 1946, EUA) e Wall Street II: o dinheiro nunca dorme (Oliver Stone, 2010, EUA) focando os personagens representantes das classes média e alta, nos momentos de desespero causados pela falta de dinheiro, sua postura ética e moral perante os negócios e seu comportamento perante a comunidade que os cerca. A análise evidenciou que nos filmes há um esforço para a necessidade de aprender a lidar com o dinheiro e a importância de se proteger contra os especuladores do mercado financeiro. Através da pesquisa e com olhos na cultura do dinheiro, observou-se que a sociedade americana, tanto na ficção como na vida real, ainda não está tão preparada quando o assunto é dinheiro. Palavras-chave 1. Representação. 2. Crises econômicas. 3. Análise Fílmica. 4. Hollywood. Abstract This thesis discusses the representation of the money culture of middle and upper class in movies representing the two major crises that shook the Western economy: the 1929 crisis (the Great Depression) and the 2008 crisis (the Bubble), viewed through the lenses of two films: It s a Wonderful Life (Frank Capra, 1946, USA) and Wall Street II: Money Never Sleeps (Oliver Stone, 2010, USA).The methodology was applied by means of theoretical research and review of such two movies related to the money universe, particularly focusing on characters representative of middle and upper classes, in their moments of despair caused by the lack of money, their moral and ethical stance towards business and their behavior in the community around them. The review revealed the "effort" attempted by these Hollywood movies originating in the need to learn how to deal with money and the importance of protecting oneself against financial market speculators. Through research and with eyes gazing the money culture, it was noted that the American society, both in fiction and real life, is not yet prepared as far as money is concerned. Keywords 1. Representation. 2. Economic crises. 3. Movie review. 4. Hollywood.

5 Agradecimentos A Deus, Senhor do universo, que é o Maior de todos; Aos meus pais, Valdomiro de Bastos Pereira e Iromar de Oliveira Vilas-Bôas Pereira, meu exemplo para a vida toda; Ao Guibor, que apacentou meu coração e me ensinou a paciência; À profa. Bernadette Lyra, que me acordou para essa jornada; A todos os professores, colaboradores e colegas do Mestrado em Comunicação da UAM que me ajudaram, com especial agradecimento para os professores Gelson Santana e Rogério Ferraraz; À amiga Celina Maria Silva de Castro Paiva pela amizade, doçura e motivação. Aos professores Luiz Antônio Vadico e Vander Casaqui que abriram a minha mente; Às pessoas especiais que me iluminaram, tranquilizaram e torceram por mim; À Universidade Anhembi Morumbi que me proporcionou essa incursão maravilhosa no universo da comunicação; Por fim, à minha orientadora professora. Laura Loguercio Cánepa, a quem dedico minha eterna gratidão, carinho, consideração e respeito. Mestres, obrigado!

6 Lista de imagens Fig.1 - Dorothea Lange e a Depressão Americana dos Anos pág.15 Fig.2 - Família Joad em As vinhas da Ira... pág.16 Fig.3 - Deany (Natalie Wood) e Bud Stamper (Warren Beatty)... pág.17 Fig.4 - Personagens Bud e Gekko em Wall Street: Poder e cobiça... pág.20 Fig. 5 - Personagens Mitch e Avery Tolar em A firma... pág.21 Fig. 6 - Personagem Ryan em Amor sem escalas... pág.23 Fig.7 - Cartaz do filme A felicidade não se compra... pág.24 Fig.8 - Cooperativa de crédito imobiliário Bailey..... pág.29 Fig.9 - Reunião da Cooperativa Bailey para tratar da sucessão empresarial... pág.29 Fig.10 - George Bailey tentando acalmar o estouro da manada... pág.31 Fig.11 - Cena inaugural de A felicidade não se compra... pág.32 Fig.12 - George Bailey entra em casa e encontra família decorando árvore de Natal... pág.33 Fig.13 - Personagem Tio Billy com barbante no dedo... pág.34 Fig.14 - Mãos de Tio Billy, o financeiro da Cooperativa Bailey... pág.35 Fig.15 - Bailey, atendende de farmácia, e o painel da Coca-cola ao fundo... pág.35 Fig.16 - Bailey, Tio Billy, empregado e a recepcionista/secretária... pág.36 Fig.17 - Família americana Bailey... pág.38 Fig.18 - Personagem Clarence (Henry Travers)... pág.39 Fig.19 - Cartaz de Wall Street II: O dinheiro nunca dorme... pág.41 Fig.20 - Cena mostrando aparelho celular dos anos pág.47 Fig.21 Personagem Gekko em Wall Street II... pág.48 Fig.22 - Cena mostrando prédios compondo índice Dow Jones... pág.50 Fig.23 - Cena mostrando personagem Zabel se suicidando... pág.52 Fig.24 - Cena mostrando socialites e suas joias... pág.53 Fig.25 - Personagens Ma Joad (Jane Darwell) e Tom Joad (Henry Fonda)... pág.54 Fig.26 - Personagem Bud Fox (Charlie Sheen) e Gekko.... pág.55 Fig.27 Personagem Jake Moore (Shia LaBeouf)... pág.56 Fig.28 - Cena em que Gekko palestra para universitários... pág.57

7 A narrativa, por Luis Fernando Veríssimo Fizeram um filme sobre um dia na vida de um jovem financista, um dos mestres do universo, que comanda seus negócios internacionais de dentro de uma limusine impermeável enquanto lá fora o mundo ou pelo menos Nova York desmorona. No filme há uma fala que define tanto o poder do jovem protagonista, que pode arruinar nações inteiras com um toque no seu celular, quanto o caos que o cerca. Toda riqueza se transformou em riqueza apenas pela riqueza, e o dinheiro, tendo perdido sua qualidade de narrativa, passou a só falar com ele mesmo. Perfeito. O dinheiro perdeu seu papel na grande narrativa do capitalismo que vem da acumulação primitiva de capital e chegou à globalização, e hoje é apenas um interlocutor de si próprio. A narrativa acabou, a riqueza se acumula entre poucos e beneficia ainda menos e o dinheiro, desobrigado de fazer sentido e de seguir qualquer espécie de roteiro, só produz monstros como o jovem financista do filme. O capital financeiro dita a história econômica do mundo e inventou uma nova categoria literária: o diálogo de um só. Gostei de saber que um grupo de economistas de várias partes do mundo lançou um manifesto criticando o que parecia ser uma quase unanimidade as exceções eram Paul Krugman e três ou quatro outros a favor das medidas de austeridade e sacrifício de gastos sociais para combater a atual crise econômica global provocada pelo capital financeiro. O grupo reage à ortodoxia monetarista que faz a vítima pagar pelos desmandos do vilão e tenta interromper o autodiálogo do dinheiro endossado por tantos economistas. Felizmente, não por todos. A grande narrativa do capitalismo foi excitante, enquanto durou. Revolucionou a vida humana e, junto com suas barbaridades, fez coisas admiráveis. Tudo que era sólido se desmanchava no ar, para ser recriado no ciclo seguinte. Mas nem Marx previu que seu fim seria este: no meio de um mundo em decomposição, o dinheiro falando sozinho.

8 SUMÁRIO 1. Introdução... pág Hollywood e as crises econômicas... pág A crise de 1929 no cinema... pág A crise de 2008, seus antecedentes e o cinema... pág Uma fábula sobre o dinheiro: A felicidade não se compra... pág Tema e sinopse... pág Contextualização... pág Comentando o enredo e os elementos da narrativa... pág Uma análise do protagonista... pág Uma análise do mentor... pág A ambição e a Bolha: Wall Street 2... pág Tema e sinopse... pág Contextualização... pág Comentando o enredo e os elementos da narrativa... pág Analisando o protagonista... pág Analisando o mentor... pág Considerações finais... pág Referências bibliográficas... pág.66

9 9 1. Introdução Faz tempo que, na condição de cidadão e homo economicus 1, tenho interesse pelo estudo do que Jameson (2001) chama de cultura do dinheiro 2 " e da relação que a sociedade ocidental, economicamente representada pelas expressões mercado e globalização, teve com as crises econômicas, em particular as de 1929 e Economistas e historiadores afirmam que essas duas crises abalaram o mundo ocidental (delimitado nesta pesquisa no universo da sociedade norteamericana) e mexeram com o dinheiro fazendo com que ele mudasse de mãos. As crises de 1929 e 2008 colocaram em xeque certas teorias micro e macroeconômicas e trouxeram sofrimento para os povos, na forma do desemprego, da fome para os mais pobres e de toda espécie de humilhação que as famílias podiam sofrer pela carência do dinheiro e dos postos de trabalho. Enquanto a Crise de 1929 se concentrou mais nos povos das Américas, especialmente nos EUA, a Crise de 2008 teve um alcance bem maior em função da globalização da economia. Em minha época de estudante das Ciências Econômicas, mais precisamente da Política Econômica, aprendi com meus professores economistas que a cultura do dinheiro é importante para a sociedade, e acreditando nessa teoria, como pesquisador da comunicação, indago: a sociedade dedica esforço para essa chamada cultura do dinheiro? Deveria o homem ocidental aprender a lidar com o dinheiro? Grandes nomes da Economia e da História falaram sobre o dinheiro e o comportamento das pessoas no trato e na falta deste. É fato que o assunto, de forma geral, agrada principalmente àqueles que gostam do dinheiro e de ter dinheiro. No século XVI, Maquiavel (2007, p. 69), em O Príncipe, já dizia que os homens se esquecem mais facilmente da morte do pai do que da perda do patrimônio. Já Max Weber, no começo do século XX, em A ética do protestantismo 1 Homem econômico: racional, informado e centrado em si próprio. Tem a capacidade de decidir a forma a atingir seus objetivos com relação ao dinheiro. (n.d.a.). 2 JAMESON (2001), em sua obra A cultura do dinheiro: ensaios sobre a globalização, afirma que a globalização trouxe conceitos tais como: sociedade de consumo, capital financeiro, pós-modernismo e cultura de massas, e para o entendimento dos fenômenos sociais, culturais e econômicos é preciso recorrer a um exercício de periodização do capitalismo e reconhecer seus diferentes estágios.

10 10 e o espírito do capitalismo no qual aborda o protestantismo, movimento que contestou os dogmas e a organização da Igreja Católica, no século XVI acerca de mercado, afirma sobre os especuladores do século 19: (...) tem havido especuladores das oportunidades de ganho monetário de todos os tipos. Este tipo de empreendedor, o aventureiro capitalista, existiu em toda parte. Suas atividades, à exceção do comércio e do crédito, assim como das transações bancárias, eram de caráter predominantemente irracional e especulativo, ou direcionado para a aquisição pela força, (...) tanto na guerra como na exploração fiscal contínua das pessoas a eles sujeitas. (WEBER, 2003.p.28) Talvez, por isso, o autor tenha afirmado, na epígrafe do capítulo 4 (que para alguns estudiosos, trata-se da síntese de seu livro) que a igreja católica deixou o mosteiro e foi para o mercado da vida: O ascetismo cristão, que de início se retirava do mundo para a solidão, já tinha regrado o mundo ao qual renunciara a partir do mosteiro e por meio da igreja. Mas no geral, tinha deixado intacto o caráter naturalmente espontâneo da vida laica no mundo. Agora avançava para o mercado da vida, fechando atrás de si a vida do mosteiro;... (Id Ibid, p.116) O economista Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia no ano de 1998 e um dos idealizadores do IDH (o índice criado pelas Nações Unidas, para comparar o grau de desenvolvimento humano dos países) apresenta um homem que espera uma porção de Justiça. A justiça a que o autor citado se refere tem uma abordagem humanística e, a respeito dela, SILVA (2007) comenta: Sen propõe [a respeito da teoria da justiça...], uma abordagem para o problema da justiça calcada nos conceitos e funções ou funcionamentos e capacitações (...). Seu critério para a avaliação e ordenamento de estados de mundo diferentes utiliza o conceito de capacitações. Por terem acesso a produtos, bens ou serviços, os agentes podem adquirir várias funções mentais e físicas que podem promover uma melhoria em suas condições de vida e no bem estar. (...) Centra o problema da justiça no acesso à renda e bens, enquanto o utilitarismo se funda na busca, por parte dos agentes, de prazer ou felicidade. (SILVA, 2007, p.173). Ainda segundo Sen, o homem em sua história batalha com a dubiedade entre o desejo de ser feliz e o de ter renda e dinheiro guardado no banco. Para complicar ainda mais o dilema, esse dinheiro a ser guardado deve ser investido em imóveis, em produção nacional ou agressivamente aplicado e especulado no mercado de ações?

11 11 E as perguntas continuam: Qual a importância da cultura do dinheiro para a sociedade das Américas e, especialmente, para o povo dos EUA? A sociedade como um todo, inclua-se aí o planeta globalizado, tem consciência da cultura do dinheiro? Diante deste contexto, considero relevante examinar o trato dessas questões em um dos principais produtos culturais de exportação dos EUA o cinema buscando, em filmes de Hollywood, a forma como retratam as principais crises econômicas dos últimos cem anos, que revelaram de maneira intensa a relação das pessoas com o dinheiro e com a falta dele. Para examinar a representação da crise de 1929 em Hollywood, optei pelo filme A felicidade não se compra, dirigido por Frank Capra, em O motivo dessa escolha deveu-se, sobretudo, ao caráter de fábula expressamente pretendido no filme, o que reforça seu objetivo pedagógico. Também a fama que esse filme preserva até os dias de hoje como um dos mais emblemáticos filmes inspiracionais de Hollywood faz dele um exemplo importante para o tipo de análise que se pretende aqui. Já para refletir sobre a representação da crise de 2008, escolhi Wall Street II: O dinheiro nunca dorme (2010), de Oliver Stone. Esse filme, por ser a continuação de uma obra emblemática dos anos 1980, Wall Street Poder e Cobiça (1987), acaba por apresentar uma reflexão mais complexa sobre o mundo das finanças e da ambição, em função da retomada de personagens que se tornaram símbolos do capital especulativo, em particular o sedutor vilão Gordon Gekko, interpretado nas duas ocasiões por Michael Douglas. A partir da análise desses dois filmes, o trabalho tentará responder a algumas questões: De maneira geral, como o cinema de Hollywood tem tratado as crises econômicas? Como a crise de 1929 foi encarada como oportunidade de aprendizado sobre os valores humanos no filme de Frank Capra? Como o cinema americano mostrou o estouro da grande bolha de 2008, cujas consequências ainda podem ser percebidas ao redor do mundo, e cujos responsáveis ainda não foram punidos? Esses fatos marcantes tiveram e ainda têm muitas repercussões sociais, históricas e econômicas, junto às diversas camadas sociais, sendo representados no cinema americano, lugar de onde essas crises tiveram origem. Então, este trabalho também tem a proposta de analisar, através de filmes emblemáticos, de que maneira o cinema de Hollywood deu forma a ideias significativas como a da cultura

12 12 do dinheiro, procurando observar como vão sendo construídas as imagens, diálogos e ideias de riqueza, felicidade, bem estar ou de crise. Para tanto, o caminho percorrido compreendeu conversas com professores e pesquisadores, pesquisa teórica, visualização de filmes ligados à questão econômico-financeira e análise de alguns aspectos narrativos dos filmes em questão, buscando apontar a forma como representam a cultura do dinheiro. O trabalho está dividido em três capítulos. No primeiro, Hollywood e as crises econômicas, procurou-se discutir o problema da cultura do dinheiro e da representação das crises econômicas no cinema de Hollywood, mencionando-se outros filmes importantes além dos que são objetos de análise neste trabalho. No segundo capítulo, Uma fábula sobre o dinheiro A felicidade não se compra, propõe-se análise do filme de Capra, buscando-se compreender como as questões relativas à cultura do dinheiro e da reação às crises foram tratadas. No terceiro capítulo, A ambição e a Bolha Wall Street 2, analisa-se como a crise de 2008 e seus agentes foram representados em Wall Street 2 O dinheiro nunca dorme. Com isso, pretende-se realizar uma aproximação entre as discussões do cinema e da teoria econômica, que poderá abrir espaço para outras análises, mais amplas e/ou mais aprofundadas, em trabalhos posteriores.

13 13 2. Hollywood e as crises econômicas O cinema pode levar a diversas experiências de reflexão sobre atitudes, convenções e comportamentos, mesmo para os espectadores que, prazerosamente e apaixonadamente, frequentam as sessões dos filmes que tratam de negócios. O objeto desta pesquisa está centrado justamente nisso: em filmes que tratam do tema dos negócios, e em particular da cultura do dinheiro, e foram feitos para o grande público assistir nas salas de cinema. Eles também têm em comum o fato de tratarem do tema das crises econômicas. Trata-se das obras A felicidade não se compra (1946, EUA) de Frank Capra, que trata de eventos imediatamente anteriores à Crise de 1929; e Wall Street II: o dinheiro nunca dorme (2010, EUA) de Oliver Stone, que trata da crise econômica internacional de Para introduzir a discussão desses filmes, será necessário contextualizá-los no ambiente social, econômico e cinematográfico em que surgiram que é o objetivo deste capítulo A crise de 1929 no cinema Durante longo período (do século XVIII ao início do século XX), o pensamento econômico sobre o capitalismo seguiu o pensamento dos economistas clássicos, dentre eles, Adam Smith 3, que acreditava na mão invisível do mercado regulando as relações econômicas nesse sistema. De acordo com Marco Antonio Vasconcellos e Manuel Enriquez Garcia: Adam Smith advogava a ideia de que todos os agentes 4, em sua busca de lucrar o máximo, acabam promovendo o bem-estar de toda a comunidade. É como se uma mão invisível orientasse todas as decisões da economia, sem necessidade da atuação do Estado, ou seja, no não intervencionismo do Estado nos assuntos de ordem econômica e financeira. (VASCONCELLOS; GARCIA, 2008, p.18) 3 Adam Smith ( ) foi considerado o precursor da moderna teoria econômica, colocada como conjunto científico sistematizado, com um corpo teórico próprio. Smith era um renomado professor quando publicou sua obra A riqueza das nações, em O livro é um tratado muito abrangente sobre questões econômicas que vão desde as leis de mercado e aspectos monetários até a distribuição de rendimento da terra, concluindo com um conjunto de recomendações políticas. Seus argumentos baseavam-se na livre iniciativa, no laissez-faire. (VASCONCELLOS & GARCIA, 2008, p.19). 4 Os indivíduos, famílias, empresas e governo. (n.d.a).

14 14 Segundo Bremmer, temos: Os defensores do capitalismo puro insistem que se deve permitir que a mão invisível opere a sua mágica e que qualquer esforço do governo no sentido de orientar suas ações pode acabar onerando os mercados e distorcendo o funcionamento natural destes. Outros alegam que os escritos de Smith sobre a moralidade e a empatia natural sugerem que o autor rejeitaria grande parte do dogma libertário justificado em seu nome. (BREMMER, 2011, p. 36). No início do século XX, surgia uma nova teoria, a Keynesiana (de John Maynard Keynes 5 ), que via como fundamental para o bom funcionamento do mercado a intervenção do Estado, com o seu poder de regulador. Durante a trajetória desta pesquisa, pode-se afirmar que tanto Smith como Keynes foram influentes tanto na compreensão da economia quanto nas políticas econômicas implementadas pelos governos norte-americanos para lidar com suas crises. De acordo com Cáceres, o capitalismo americano, após o término da Primeira Guerra Mundial, ao contrário do capitalismo europeu, trepidava ululante em meio a uma agressividade típica dos campeões (1949-p. 140). Fortemente enriquecidos, enquanto as potências europeias lutavam para se recuperar, os Estados Unidos lhes vendiam manufaturas de toda espécie e emprestavam dinheiro. O comércio americano crescera muito no período da Guerra. Mas, com a chegada da Grande Depressão em 1929, tudo mudou, levando a intensos debates sobre o problema da especulação, da autorregulação do mercado e da necessidade ou não da participação do Estado na proteção econômica dos cidadãos. Seria apenas com o começo da II Guerra Mundial, em 1939, que os Estados Unidos dariam um novo salto econômico em função das entradas de dinheiro no país com a continuidade da comercialização de matéria-prima e materiais bélicos para países em guerra. Segundo Steven Jay Schneider, o cinema de Hollywood muito pouco se manifestou com relação ao sofrimento e aos transtornos provocados pela Crise de 1929, na própria época. Para ele, Hollywood, em sua grande maioria, deixou que outras mídias, como o teatro, a literatura e a fotografia documentassem o desastre nacional (2008, p.162). De fato, é sabido que Hollywood, particularmente no período 5 John Maynard Keynes ( ) ocupou a cátedra que havia sido de Alfred Mashall na Universidade de Cambridge. Acadêmico respeitado, Keynes tinha também preocupações com as implicações práticas da teoria econômica. (VASCONCELLOS & GARCIA, 2008, p.23).

15 15 da Grande Depressão, optou por um tipo de entretenimento mais escapista, priorizando os musicais alegres, os filmes policiais, os romances e os épicos. Nesse contexto em que o cinema deixou, pelo menos em um primeiro momento, o trabalho da representação histórica da crise para outras artes, algumas obras importantes surgiram. Entre elas, a fotografia tornou-se uma das expressões mais importantes, transformando-se em referência para os filmes sobre o tema feitos na década seguinte. A foto clássica de Dorothea Langer (Figura 1, na página a seguir), mostrando uma mãe imigrante e seus dois filhos numa situação de desolação, mostra uma situação típica dos retirantes que seriam representados, posteriormente, no filme As vinhas da ira (The Grapes of Wrath, 1940, EUA), de John Ford (Figura 2, na página a seguir), um dos maiores clássicos do cinema hollywoodiano em torno do trauma da depressão econômica, inspirado no livro homônimo lançado no ano anterior, 1939, por John Steinbeck, que receberia o Prêmio Nobel de Literatura por esta obra, em Figura 1: Dorothea Lange e a Grande Depressão Americana dos Anos 30.

16 16 Figura 2: Família Joad em As vinhas da Ira (John Ford, 1939). Sabemos que esse período importante na história do povo americano, causa estranhamento e ao mesmo tempo fascínio, e, conforme cita Bernard Gazier, a penúria absurda explica sem dúvida o fato de ainda termos por esse período verdadeira obsessão, consciente ou inconsciente. (2009, p.7). Ainda, conforme Schneider, o feito histórico e corajoso de Darryl Zanuck [um dos mais importantes produtores de Hollywood nos anos 1930/40], comprando os direitos da obra de John Steinbech para a 20th Century Fox [que produziu o filme de Ford], mesmo que contrário a controladores conservadores daquele estúdio (2008, p.162), foi de grande valia para a documentação histórica, econômica e social do povo americano daquela época, facilitando a compreensão de gerações futuras acerca do flagelo vivido por aquela gente. Como observa Cáceres, essa crise viera mudar a economia e o modo de vida americanos, que assim podia ser descrito no momento imediatamente anterior ao crash da Bolsa que deflagraria a Crise de 1929, encerrada definitivamente apenas com a eclosão da Segunda Guerra Mundial: [No final dos anos 1920] Era a época da abundância sem fim que havia chegado. Todos os estados estavam ligados por ferrovias e vias aéreas, milhões de automóveis estavam em circulação, dezenas de grandes cidades possuíam arranha-céus, 17 milhões de residências estavam ligadas à rede elétrica. Isso contagiou o americano comum. A riqueza parecia estar a espera de todos. Milhões de americanos especulavam na Bolsa de Valores e investiam acima de suas posses, pagando em prestações. Arriscavam as economias de toda uma vida e chegavam a hipotecar a própria casa para especular e aumentar o seu capital. Balconistas e

17 17 lavadeiras, depois de ganhar dinheiro especulando na Bolsa, compravam casacos de pele e iam para o trabalho em seu próprio automóvel. (CÁCERES, 1949, p.141) No filme Clamor do sexo (Splendor in the Grass, 1961, EUA), de Elia Kazan, por exemplo, há a representação em retrospecto desse período da economia americana aquecida e especulativa. Numa cena importante que se passa durante uma missa, a câmera, após exibir a torre da igreja e a chuva (símbolo universal da fertilidade e prosperidade), foca o padre no seu sermão dominical, que diz: - Sim. É um tempo de prosperidade para todos nós. Já na cena em que os pais da protagonista Wilma Dean Loomis (Natalie Wood), típicos representante da classe média americana da época, conversam e acompanham a alta dos papéis na Bolsa de New York pelo rádio e sonham com o retorno do montante de U$ , uma quantia que para o casal representa um mar de oportunidades; inclusive, a possibilidade de enviar a filha para cursar a faculdade no próximo ano, possibilidade essa restrita naquela época somente às famílias mais abastadas, como era o caso da família de Bud Stamper (Warren Beatty), seu par romântico. Figura 3: Deany (Natalie Wood) e Bud Stamper (Warren Beatty).

18 18 No mesmo filme, na cena do réveillon de 1929, no salão de festa da cidade, todos estão reunidos com tudo girando em torno dos Stamper s. Comemoração, clima de festa. A câmera dá um close em uma bexiga rosa com a inscrição 28 e todos no salão contam: - 1, 2, 3..., a bexiga estoura; e, numa panorâmica, essa mesma câmera mostra uma torre de petróleo em miniatura que jorra champagne e o diretor Elia Kazan mostra para o espectador: tempo de fartura, prosperidade e dinheiro. Embora o filme não discuta apenas a questão da crise econômica, estando também interessado em representar a cruel repressão sexual sofrida pelo casal em função das rígidas regras comportamentais da época, O Clamor do Sexo também exibe as consequências da crise de 1929 para cada uma das famílias. O filme representa a crise econômica de 1929 sob a ótica da classe média, tipicamente americana e metropolitana, representada por intermédio da família de Wilma Deany Loomy, e a classe alta, representada através da família de Bud Stamper. A família de classe média, representada por um casal de comerciantes e sua filha única, é um exemplo importante do perfil arrojado do investidor da classe média americana daquela época que apostava todas suas economias em ações e a família de classe alta, representada por um investidor do ramo petrolífero, empresário arrogante e autoritário, pai castrador que começa a fazer encanto para as grandes companhias orientais, representando assim, desde aquela época, uma sombra do mercado capitalista globalizado. Enfim, o cinema de Hollywood representou a Grande Depressão de 1929 sob várias óticas do cenário econômico e sob o olhar dos diretores acerca daquele período, sem desconsiderar a influência do cenário econômico da época em que os filmes foram produzidos. É comum entre todos os filmes o sofrimento que uma crise econômica causa nos agentes econômicos. Em As vinhas da ira (The Grapes of Wrath, 1940, EUA), realizado mais de dez anos após a crise, quem padece são os personagens meeiros representados pela família rural Joad, agricultores com suas terras hipotecadas, que são obrigados a migrar para a cidade grande juntamente com milhares de outras famílias, sem ter confirmadas suas esperanças de uma vida melhor. Se o filme de Kazan trazia, sobretudo, uma crítica geral às normas da sociedade da época, o filme de Ford tinha uma crítica social mais incisiva, discutindo

19 19 claramente os problemas da distribuição de renda e da cidadania (ou da falta dela) através do acesso (ou não) à sobrevivência e aos bens de consumo. Já em A felicidade não se compra, tem-se a representação da classe média urbana, a classe das donas de casa, dos trabalhadores das indústrias que já sonham com a casa própria. O filme, como veremos mais adiante, retoma de maneira fantasiosa fatos dramáticos que remetem facilmente à crise, mas destaca a capacidade de superação das comunidades através da solidariedade A crise de 2008, seus antecedentes e o cinema Com a vitória em 1945 na II Guerra Mundial e a ajuda financeira a vários países, os EUA conheceram, entre 1950 a 1990, a continuidade no processo industrial com a consolidação das grandes corporações e o poderio econômicomilitar ajudado pela chamada Guerra Fria. Nos anos 1980, Ronald Reagan, ex-ator de Hollywood e filiado ao Partido Republicano, foi eleito e reeleito Presidente dos Estados Unidos (em dois mandatos que, em conjunto, foram de 20/01/1981 a 20/01/1989) e estabeleceu um marco na administração do capital financeiro do planeta, promovendo junto com Margareth Thatcher, primeira-ministra britânica por onze anos (de 04/05/1979 a 22/11/1990), uma política neoliberal de inspiração clássica (ou seja, que pregava a liberdade total do mercado) caracterizada, entre outras coisas, pela financeirização da economia, fenômeno do campo macroeconômico que tem como principal característica a apropriação dos ativos da economia pelo mercado financeiro. No campo macroeconômico e na boca dos capitalistas, a expressão alavancagem financeira era constante: o dinheiro gerando dinheiro, auge do capitalismo, um cenário em que os mais ricos ficavam cada vez mais ricos. Para a juventude dessa época, recém-saída das universidades, a possibilidade de ascensão social e a conquista de um cargo de destaque no cenário corporativo, promovendo a melhora do padrão de vida e consumo, possibilitando residir em apartamento ou flat situado em bairros sofisticados e a busca incessante de prestígio tornam-se constantes. Surge, então, a figura do yuppie YUP (Young urban professional), representado nos filmes Negócio arriscado (Paul Brickman, 1983, EUA), Wall Street: poder e cobiça (Oliver Stone, 1987, EUA), O Segredo do meu sucesso (Herbert Ross, 1987, EUA) e Psicopata Americano (Mary Harron, 2000, EUA).

20 20 No filme Wall Street: Poder e cobiça (1987, EUA), de Oliver Stone, a representação desse processo aconteceu de maneira emblemática através do personagem Bud, interpretado pelo ator Charlie Sheen, jovem ambicioso que sonha em conhecer o seu ídolo do mundo dos negócios: o personagem Gekko, interpretado pelo ator Michael Douglas, no filme (Figura 4). Figura 4: Personagens Bud e Gekko em Wall Street: Poder e cobiça (Oliver Stone, 1987). Bud queria status e ascensão social a qualquer preço e para tanto furava cercos, facilitava o vazamento de informações, corria atrás do dinheiro, até que se dá mal e vê um fim para essa ganância sequiosa. Nesse momento, Hollywood mostra para a sociedade que a ascensão meteórica tem sempre um preço. Nesse mesmo filme, Oliver Stone, crítico do capitalismo e filho de um operador da Bolsa de Valores de Nova York, nos apresenta o mentor de Bud, Gekko, um milionário ganancioso e frio, típica representação de grande parte dos executivos daquela época, que contratavam novos talentos num piscar de olhos, ofereciam fortunas, sonhos e depois trituravam, pisavam, demitiam sem maiores preocupações e escrúpulos. A partir de 1990, com a queda da URSS e o fim da Guerra Fria, dá-se a completude do que se entende por globalização do planeta, o desenvolvimento

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