UNIVERSIDADE LUSÍADA DO PORTO

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3 UNIVERSIDADE LUSÍADA DO PORTO RECONFIGURAÇÕES URBANAS Através de uma Estratégia Recombinante Sara Melissa Castro Marques Dissertação para obtenção de Grau de Mestre em Arquitetura PORTO, 2014

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5 UNIVERSIDADE LUSÍADA DO PORTO RECONFIGURAÇÕES URBANAS Através de uma Estratégia Recombinante Sara Melissa Castro Marques Orientador: Professor Doutor Francisco Peixoto Alves Assistente de Orientação: Assistente Mestre Ricardo Vieira de Melo Dissertação para obtenção de Grau de Mestre em Arquitetura PORTO, 2014

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7 Aos meus pais.

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9 A G R A D E C I M E N T O S Dirijo os meus agradecimentos ao Professor Doutor Francisco Peixoto Alves e ao Mestre Ricardo Vieira de Melo, orientadores e conselheiros ao longo deste percurso. A eles digo, tal como escreveu Rimbaud, que acabei por achar sagrada a desordem do meu espírito. À professora Fátima Rodrigues, pela inquietude a que as suas aulas conduziram e pelo pronto auxílio na recolha bibliográfica. À Elisa, colega de profissão e amiga de todas as horas, por toda a contribuição e incentivo. Ao Nuno. A todos os que de alguma forma contribuiram para o desenvolvimento desta dissertação, o meu sincero obrigada.

10 IV

11 Í n d i c e ÍNDICE DE FIGURAS VI LISTA DE ABREVIATURAS XII RESUMO XV ABSTRACT XVII INTRODUÇÃO 1 01 SOBRE OS FATORES QUE CONDUZEM À RECOMBINAÇÃO NA ARQUITETURA 01.1 As recentes necessidades dos atores urbanos As Tecnologias da Informação e Comunicação e as mutações nas combinações funcionais urbanas 01.3 A Cidade Contemporânea DA RECOMBINAÇÃO À ARQUITETURA 02.1 Introdução ao Conceito A Recombinação como Estratégia para a Reconfiguração da Urbanidade Configurações de um conceito Recombinante Casos de Estudo Tate Modern Bilbao Metro do Porto a urbanidade recombinada de Matosinhos Sul A urbanidade recombinada de Matosinhos ENSAIO PROJETUAL Enquadramento e memória da cidade de Aveiro A Recombinação como Estratégia A Malha Urbana O Hotel de Negócios CONCLUSÃO 155 BIBLIOGRAFIA 158 V

12 Í n d i c e d e F i g u r a s F i g. 1 S h a n g a i. E x e m p l o d e C i d a d e D u a l. 8 SONG, Aly Disponível na internet em: <http://blogs.reuters.com/ianbremmer/2012/12/24/china-is-the-elephant-in-the-situation-room/>. [acedido em NOV 2013] Fig. 2 S o n y C e n t e r. B e r l i m. 10 ARDILES-ARCE, Jaime Disponível na internet em: <http://en.wikipedia. org/w/ index. php?title=file:berlin-sony_center-1.jpg>. [acedido em NOV 2013]. F i g. 3 T i m e s S q u a r e. N o v a I o r q u e. 14 Autor Desconhecido. Disponível na internet em: <http://sonhandoacordada.com/wp-content/uploads/2013/06/new-york-time-square.jpg>. [acedido em NOV 2013]. F i g. 4 D e s i r e o f C o d e s. 18 SEIKO, Mikami Seiko Mikami Art Works. Fotografia nº1. Disponível na internet em: <http://www.idd.tamabi.ac.jp/~mikami/artworks/high_ resolution.html> [acedido em JAN 2014]. F i g. 5 A C i d a d e I n f o r m a c i o n a l d e C a s t e l l s. 20 FIRMINO, José Rodrigo A Simbiose do Espaço: Cidades Virtuais, Arquitectura Recombinante e a Actualização do Espaço Urbano. Publicação em: LEMOS, André (Org.). Cibercidades II. Ciberurbe. A cidade na sociedade da informação. Rio de Janeiro: E-Papers. Disponível na internet em: <http://www.iau.usp.br/pesquisa/grupos/e-urb/producao/rodrigo/urbaniza caosimbiotica.pdf. >[acedido em JAN 2014]. Página 8. F i g. 6 I m a g e m C o n c e p t u a l d o d i s t r i t o d e C a n a r y W h a r f. 22 BLACK, Richard Concept Images. Disponível na internete em: <http://richp black.blogspot.pt/2012_07_01_archive.html> [acedido em FEV 2014]. F i g. 7 P l u g - i n C i t y, A r c h i g r a m. 23 ARCHIGRAM. COOK, Peter In: FEMINO, Fabio RETROFUTURE 13. Disponível na internet em: <http://www.fabiofeminofantascience.org/ RETROFUTURE /RETROFUTURE13.html> [acedido em OUT 2013]. F i g. 8 I m a g e m C o n c e p t u a l d o c o n c e i t o d e n e t - w o r k i n g. 30 JIANWEIE Disponível na internet em: <http://www.taopic.com /tuku/201203/ html> [acedido em JUL 2014] F i g. 9 O H o m e m c o m o P a l á c i o I n d u s t r i a l. 42 KAHN, Fritz In: POPOVA, Maria Fritz Kahn: The Little-Known Godfather of Infographics. Disponível na internet em: <http://www.brain pickings.org/index.php/2013/11/20/fritz-kahn-taschen/> [acedido NOV 2013]. F i g. 10 R e p r e s e n t a ç ã o g r á f i c a d e u m a e s t r u t u r a d e A D N 44 Autor desconhecido. Disponível na internet em: <http://danblackonleader ship.info/wp-content/uploads/2013/07/3d-dna-strand.jpg> [acedido a NOV 2012] F i g. 11 U r b a n D N A 48 MARTINEZ, Lionel Disponível na internet em: <https://www.flickr.com /photos/zinetv/ /> [acedido em DEZ 2013]. F i g. 12 P a v i l h ã o Á g u a 50 NOX HtwoOexpo. Disponível na internet em: <http://www.nox-artarchitecture.com/> [acedido a NOV 2012] F i g. 13 D - T o w e r 50 NOX D-Tower. Disponível na internet em: <http://www.nox-artarchitecture.co m/> [acedido a NOV 2012] VI

13 F i g. 14 V i s t a a é r e a d o t e r r i t ó r i o a n t e s d a i n t e r v e n ç ã o 58 Autor Desconhecido. Em: FONSECA,Joao; DINIZ,Isabel; MONTEIRO, Nuno; LABASTIDA, Marta; FÀBREGAS, J.Xavier; ESTRELLA, J.Ignacio Passeio Atlântico. Disponível na internet em: <http://www.publicspace.org/ en/works/c142-passeio-atlantico>[acedido em FEV 2014]. F i g. 15 P l a n t a d e i m p l a n t a ç ã o 58 Desenho de SOLÀ-MORALES.In: FONSECA,Joao; DINIZ,Isabel; MONTEIRO, Nuno; LABASTIDA, Marta; FÀBREGAS, J.Xavier; ESTRELLA, J.Ignacio Passeio Atlântico. Disponível na internet em: <http://www.publicspace.org/en/works/ c142-passeio-atlan tico> [acedido em FEV 2014] F i g. 16 V i s t a d e u m a d a s l i g a ç õ e s d o P a r q u e à P r a i a 58 GODIN Disponível na internet em: < /showthread.php?t=443401&page=4> [acedido em FEV 2014]. F i g. 17 V i s t a d o j a r d i m d e l i g a ç ã o a o E d i f í c i o T r a n s p a r e n t e 58 Idem; Ibidem. F i g. 18 V i s t a d o M i r a d o u r o n o E d i f í c i o T r a n s p a r e n t e 58 Idem; Ibidem F i g. 19 P r a ç a d e S a n t a A p o l ó n i a 60 ALBUQUERQUE, João; GALVÃO, Nuno STA APOLÓNIA SQUARE. Disponível na internet em: <http://jnpalbuquerque.blogspot.pt/2010 /07/staapolonia-square.html> [acedido em NOV 2012]. F i g. 20 P l a n t a s d e I m p l a n t a ç ã o 60 Idem;Ibidem. F i g D s d a p r o p o s t a 60 Idem; Ibidem. F i g. 22 V i s t a a é r e a A v. d o s A l i a d o s d e B a r r y P a r k e r 62 DOMINGUES, Alvão. In: Jardins da Avenida dos Aliados. Disponível na internet em: <http://monumentosdesaparecidos.blog spot.pt/2012/05/jardinsda-avenida-dos-aliados-porto.html> [acedido em MAR -2014]. F i g. 23 V i s t a a é r e a d a A v. d o s A l i a d o s d e S i z a V i e i r a 62 F. PIQUEIRO. Ortofotomapa da Avenida dos Aliados. Em: SOUSA, João Pereira de Avenida dos Aliados. Disponível em: <http://palavras-arquitectura. com/2007/01/23/avenida-dos-aliados/>[acedido MAR 2014]. F i g. 24 A v e n i d a d o s A l i a d o s n o s A n o s DOMINGUES, Alvão. (Original). In: Jardins da Avenida dos Aliados Disponível na internet em: <http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/ 2012/05/jardins-da-avenida-dos-aliados-porto.html> [acedido em MAR -2014]. F i g. 25 A v e n i d a d o s A l i a d o s a t u a l m e n t e. 64 OLIVEIRA, Francisco Disponível na internet em: <https://www.flickr. com/photos/francisco_oliveira_portugal/> [acedido em MAR -2014] F i g. 26 F o t o g r a f i a d a u t i l i z a ç ã o d a a t u a l c o b e r t u r a 66 Produção Própria. F i g. 27 P r a ç a L i s b o a a n t e s d a i n t e r v e n ç ã o 66 PAIVA, Filipe In: COSTA, Rosário Praça Lisboa inspira debate sobre reabilitação da cidade. Dispinível na internet em: <http://jpn.c2com.up. pt/2011/04/13/praca_de_lisboa_inspira_debate_sobre_reabilitacao_da_cidade.html> [acedido a MAR 2014]. F i g. 28 P l a n t a d e C o b e r t u r a 66 Desenho de Balonas e Menano, SA. In: HUDSON, Danny Designboom. Balonas and Menano architecs design an urban garden. Disponível na internet em:<http://www.designboom.com/architecture/balonas-and-menano-architect s-design-an-urban-garden/> [acedido MAR 2014] VII

14 F i g C e n t r a l E l é t r i c a d e M e d i o d í a a n t e s d a r e c o n v e r s ã o 68 HERZOG&deMEURON. Disponível na internet em: <http://www.arcspace.com/ features/herzog--de-meuron/caixa-forum/>[acedido MAR 2014] F i g. 31 F o t o g r a f i a s d a m a q u e t e d o p r o j e t o HERZOG&deMEURON. Disponível na internet em: <http://www.arcspace.com /features/herzog--de-meuron/caixa-forum/>[acedido MAR 2014] F i g. 33 C a i x a F ó r u m M a d r i d. 68 Elisa Diogo F i g. 34 T A T E M o d e r n ( S e p a r a d o r ). 74 Produção Própria Londres. F i g. 35 L o c a l i z a ç ã o g e o g r á f i c a d a c i d a d e d e L o n d r e s 76 Bing Maps. Capturada em Edição própria. F i g. 36 E v o l u ç ã o d o t e r r i t ó r i o d e s d e STIRK, Graham. Lecture: NEO Bankside, from Concept to Construction. Disponível na internet em: <http://www.richardrogers.co.uk/news/news_list /NEO_Bankside_from_Concept_to_Construction>. Minuto 02:57. [acedida em JUN 2013]. F i g. 37 L o c a l d e i m p l a n t a ç ã o d a o b r a. 76 Bing Maps. Capturada em Edição Própria. F i g. 38 B a n k s i d e P o w e r S t a t i o n 78 ANORAK Mud, Flood And Blood: Photos of London s River Thames Disponível na internet em: < [acedido FEV 2014] F i g. 39 V i s t a p a r a S t. P a u l s C a t h e d r a l 78 Idem; Ibidem. F i g. 40 V i s t a n o i n t e r i o r d o m u s e u p a r a a E n t r a d a P r i n c i p a l. 80 Produção Própria Londres. F i g. 41 T A T E M o d e r n v i s t o a p a r t i r d a M i l l e n i u m B r i d g e. 82 Produção Própria Londres. F i g. 42 S t. P a u l s C a t h e d r a l v i s t a a p a r t i r d a M i l l e n i u m 82 B r i d g e. Produção Própria Londres. F i g. 43 M u s e u G u g g e n h e i m d e B i l b a o. ( S e p a r a d o r ). 84 NEWLANDS, Pedro Disponível em: <https://www.flickr.com/photos/ pedronw/ />. [acedido a 30 JUL 2014]. F i g. 44 F r e n t e d e á g u a d e A b a n d o i b a r r a, B i l b a o. 88 Produção Própria Bilbao. F i g. 45 I b e r d r o l a T o w e r e R í a d e B i l b a o H o u s i n g 88 B u i l d i n g. Produção Própria Bilbao. F i g. 46 F o t o g r a f i a n o i n t e r i o r d e L a A l h o n d i g a. 88 Produção Própria Bilbao. F i g. 47 M u s e u G u g g e n h e i m B i l b a o e I b e r d r o l a T o w e r. 90 Produção Própria Bilbao. F i g. 48 M u s e u G u g g e n h e i m B i l b a o. 92 Produção Própria Bilbao. F i g. 49 M e t r o d o P o r t o, S A. 96 Metro do Porto, SA. Disponível na internet em: <http://www.metrodoporto.pt/pagegen.aspx> [acedido em ABR 2014] VIII

15 F i g. 50 C o r r e d o r e s v e r d e s d a a u t o r i a d e L a u r a C o s t a 100 COSTA, Laura Roldão METRO DO PORTO - MATOSINHOS (SR. MATOSINHOS - AV. FABRIL NORTE - CUSTÓIAS). Disponível na internet em: <http://www.lauraroldaocosta.com/projetos/infraestruturas/2149c/projeto.hm l> [acedido em ABR 2014] F i g. 51 L o c a l i z a ç ã o d a s E s t a ç õ e s P e d r o H i s p a n o e 100 P a r q u e R e a l Bing Maps. Capturada em Edição Própria. F i g. 52 C o n d i ç ã o d a z o n a d a e s t a ç ã o P e d r o H i s p a n o 100 a n t e s d a i n t r o d u ç ã o d o M e t r o d o P o r t o. Infometro. Edição Especial de 7 de Dezembro Uma Renovação chamada Metro. Metro do Porto, SA. Pág.6. F i g. 53 T r a t a m e n t o p a i s a g í s t i c o d o c a n a l d o m e t r o. 100 COSTA, Laura Roldão METRO DO PORTO - MATOSINHOS (SR. MATOSINHOS - AV. FABRIL NORTE - CUSTÓIAS). Disponível na internet em: <http://www.lauraroldaocosta.com/projetos/infraestruturas/2149c/projeto.hm l> [acedido em ABR 2014]. F i g. 54 R a m a l d e M a t o s i n h o s 104 In: Diário do Governo. Portaria n.º 180/70 (Ministérios das Finanças e das Comunicações), Diário do Governo, I Série Número 82, de 8 de Abril de Página 449. Disponível na internet em: <http://www.dre.pt/pdf1s/1970/04/082 00/ pdf> [acedido em ABR 2014]. F i g. 55 R u a B r i t o C a p e l o e m Autor desconhecido Detalhe de um postal da Coleção Ernst Kers. In: A Construtora dois eixos e atrelados bogies. Disponível na internet em: <http://tram-porto.ernstkers.nl/ceconstructora.html> [acedido em ABR 2014] F i g. 56 P o s t a l i l u s t r a d o d a R u a J u n c a l d e C i m a. 104 FERREIRA, Alberto. Série de postais ilustrados da 1ª década do séc.xx, nº 34. In: FREITAS, Américo de Castro Rua Brito Capelo 2. Disponível na internet em: <http://matosinhosantigo.blogspot.pt/2009/09/rua-brito-capelo-2.html> [acedido em ABR 2014] F i g. 57 C i r c u l a ç ã o d o e l é t r i c o e d e a u t o m ó v e i s 104 Autor Desconhecido. In: ALBERTO, Carlos Como foi a Rua Brito Capelo. Disponível na internet em: < como-foi-rua-brito-capelo.html> [acedido em ABR 2014]. F i g. 58 L o c a l i z a ç ã o d a R u a d e B r i t o C a p e l o. 106 Bing Maps. Capturada em Edição Própria. F i g. 59 M e t r o p o l i t a n o l i g e i r o d e s u p e r f í c i e e m c i r c u l a ç ã o n a R u a B r i t o C a p e l o. 106 KERS, ERNST Disponível na internet em: <https://www.flickr.com/ [acedido em MAI 2014]. Edição Própria. F i g. 60 M e t r o p o l i t a n o l i g e i r o d e s u p e r f í c i e e m 106 c i r c u l a ç ã o n a R u a B r i t o C a p e l o. Produção Própria Matosinhos. F i g. 61 E s t a ç ã o d e m e t r o d e A l c i n o S o u t i n h o 106 Produção Própria Matosinhos. F i g. 62 P o n t o d e p a r a g e m n a R u a B r i t o C a p e l o. 106 KERS, Ernst Disponível na internet em: <https://www.flickr.com/photos /ernstkers/ /in/pool-metrodoporto> [acedido em ABR 2014]. Edição própria. F i g. 63 D i v e r s o s e s q u i ç o s d o E n s a i o P r o j e t u a l 110 Produção Própria IX

16 F i g. 64 L o c a l i z a ç ã o g e o g r á f i c a d e A v e i r o e a s p r i n c i p a i s v i a s d e l i g a ç ã o a o r e s t o d o p a í s. 114 Produção Própria F i g. 65 R e c o n s t i t u i ç ã o d o l i t o r a l j u n t o d a f o z d o V o u g a n a é p o c a p r o t o - h i s t ó r i c a ; D e s e n h o d a R i a e m m a p a s a n t i g o s ; C o n f i g u r a ç ã o a t u a l. 114 GIRÃO, Amorim Geografia de Portugal. Fases da formação da Ria de Aveiro. Pág.104. F i g. 66 E s t u d o P r é v i o d o a r r a n j o u r b a n í s t i c o d a A v. D r. L o u r e n ç o P e i x i n h o. 116 AUZELLE, Robert Plano Diretor de Aveiro de Pl. 80. F i g. 67 A n t e p l a n o d e U r b a n i z a ç ã o Arquivo da Câmara Municipal de Aveiro (CMA). F i g. 68 P l a n o D i r e t o r d a C i d a d e d e A v e i r o AUZELLE, Robert Plano Diretor de Aveiro de Pl. 81. Arquivo da CMA F i g. 69 E s t u d o P r é v i o d o P l a n o p a r a o C e n t r o d a C i d a d e, c o m a c o l a b o r a ç ã o d o A r q. F e r n a n d o T á v o r a. 116 AUZELLE, Robert Plano Diretor de Aveiro de Pl. 68. Arquivo da CMA F i g. 70 P l a n o G e r a l d e U r b a n i z a ç ã o ( ). 118 Arquivo da Câmara Municipal de Aveiro. F i g. 71 P r o g r a m a P O L I S. 118 FONSECA, Ana Trindade Aveiro: Cidade Universidade. Coimbra. 197 p. Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Página 110. F i g. 72 C é r c e a s d o M o d e l o T e r r i t o r i a l d o S é c u l o X X I. 120 Grupos de Trabalho da Turma. F i g. 73 O c u p a ç ã o F u n c i o n a l M o d e l o T e r r i t o r i a l d o S é c u l o X X I. 120 Grupos de Trabalho da Turma. F i g. 74 E s t a d o s d e C o n s e r v a ç ã o d o M o d e l o T e r r i t o r i a l d o S é c u l o X X I 122 Grupos de Trabalho da Turma. F i g. 75 O c u p a ç õ e s d e R e f e r ê n c i a d o M o d e l o T e r r i t o r i a l d o S é c u l o X X I 122 Grupos de Trabalho da Turma. F i g. 76 L o c a l i z a ç ã o d o T e r r i t ó r i o d e I n t e r v e n ç ã o 124 Produção Própria F i g. 77 A n á l i s e S W O T. 124 Grupos de Trabalho da Turma. F i g. 78 L i g a ç ã o à E s t a ç ã o a t é à a b e r t u r a d a A v e n i d a 126 CRUZ, Sara Ventura Página 27. F i g. 79 A a n t i g a e a n o v a e s t a ç ã o d e c o m b o i o s d e A v e i r o. 126 FINOTTI, Leonardo. Disponível na internet em: <http://www.leonardo finotti.com/projects/train-station/image/ d> [acedida a JUN 2014] F i g. 80 P l a n t a d e I m p l a n t a ç ã o d a N o v a E s t a ç ã o d e 128 C o m b o i o s d e A v e i r o. LOPES, João Lúcio Nova Estação Ferroviária Aveiro. Disponível na internet em: <http://www.jlla.pt/#go=go_projview&proj=a45-01_nova_ estacao _ferroviaria_de_aveiro> [acedido em JUN 2014] X

17 F i g. 81 F o t o g r a f i a d a n o v a e s t a ç ã o d e c o m b o i o s 128 FINOTTI, Leonardo. Disponível na internet em: <http://www.leonardofinotti.c om/projects/train-station/image/ d> [acedido a JUN -2014] F i g. 82 V i s t a d a A v e n i d a D r. L o u r e n ç o P e i x i n h o p a r a a 132 E s t a ç ã o d e C o m b o i o s. Google Earth. Capturada em F i g. 83 V i s t a d a E n t r a d a O e s t e d a E s t a ç ã o d e C o m b o i o s 132 p a r a a A v e n i d a D r. L o u r e n ç o P e i x i n h o. Google Earth. Capturada em F i g. 84 V i s t a p a r a a E n t r a d a E s t e a e s t a ç ã o a p a r t i r d o 132 t é r m i n o n o n o v o t ú n e l. Google Earth. Capturada em F i g. 85 V i s t a d a E n t r a d a E s t e d a e s t a ç ã o p a r a o ú n i c o 132 e d i f í c i o c o n s t r u í d o n o l o c a l, a M o v e A v e i r o. Google Earth. Capturada em F i g. 86 P r o p o s t a d a o c u p a ç ã o d o t e r r e n o d e i n t e r v e n ç ã o 134 d a C M A n o â m b i t o d o p r o g r a m a P O L I S. Ficheiro DWG cedido pela Câmara Municipal de Aveiro F i g. 87 P r o p o s t a d e o c u p a ç ã o d o t e r r e n o d o E n s a i o 135 P r o j e t u a l. Produção própria F i g. 88 P r o p o s t a d e o c u p a ç ã o d o t e r r i t ó r i o d o E n s a i o 138 P r o j e t u a l. Produção própria F i g. 89 I n t e n ç ã o P r o g r a m á t i c a 139 Produção própria F i g. 9 0 P o r m e n o r d a p r a ç a d e a p o i o à e s t a ç ã o d e 142 c o m b o i o s. Produção própria F i g P r o j e t o d e R e f e r ê n c i a : F o r d e R a d h u s K u a r t e r. B j ä r k e I n g e l s G r o u p. Bjärke Ingels Group Render. Disponível na internet em: <http://www.big. dk/#projects-for> [acedido em FEV 2013] F i g. 9 4 F o t o g r a f i a d a M a q u e t e 144 Produção própria F i g. 9 5 I n s e r ç ã o U r b a n a d o H o t e l d e N e g ó c i o s 146 Produção própria F i g. 9 6 P l a n t a s d o H o t e l. E s c a l a Produção própria F i g. 97 T h e S h a r d. R e n z o P i a n o, L o n d r e s. 148 Renzo Piano, In: GRIECO, Lauren Renzo Piano: The Shard in London opens to public. Disponível em: < renzo-piano-the-shard-in-london-now-complete/> [acedido em FEV 2013]. F i g. 98 L a k e S h o r e D r i v e A p a r t m e n t s. M i e s V a n D e r 148 R o h e, SCHERSCHEL, Frank. LIFE Magazine Disponível na internet em: <http://archimodels.info/post/ /c-frank-scherschel-life-magazinemies-van-der> [acedido a MAR 2013]. F i g. 99 P l a n t a s d o s P i s o s T i p o. E s c a l a Produção própria XI

18 XII

19 L i s t a d e A b r e v i a t u r a s A D N A M P C M A C M C M I T P O L I S P U C A S R U S T C P S W O T T I C Ácido Desoxirribonucleico Área Metropolitana do Porto Câmara Municipal de Aveiro Comunicação Mediada por Computadores Massachussets Institute of Technology Programa de Requalificação Urbana e Valorização Ambiental de Cidades Plano de Urbanização da Cidade de Aveiro Sociedade de Reabilitação Urbana Sociedade dos Transportes Coletivos do Porto Strenghts, Weaknesses, Opportunities and Threats Tecnologias da Informação e da Comunicação XIII

20 XIV

21 R e s u m o Face à crescente efervescência e metamorfose das cidades contemporâneas, o tecido urbano atual enfrenta hoje um contexto tecnológico que veio transformar os valores posicionais do espaço. Perante a desadequação das combinações funcionais originais dos territórios à contemporaneidade, inicia-se o estudo da problemática a partir da análise da relevância dos variados atores que compõem o palco ativo da vida urbana, identificando um trinómio: recentes necessidades dos atores urbanos tecnologias da informação e da comunicação (TIC) cidade contemporânea. Entendendo que todos os pontos de análise encerram tensões e questões indissolúveis entre si, reconheceu-se como pertinente explorar uma nova configuração instrumental do domínio da Arquitetura que venha responder aos desafios colocados pela emergência das novas tecnologias, importando assim o conceito da Recombinação Genética para a área de conhecimento da Arquitetura. A noção de uma arquitetura recombinante tem como objetivo compreender um mecanismo que, mesmo oriundo de outro saber que não o da arquitetura, se tratado nesta área de conhecimento, pode transformar-se num contributo à sua inovação e habilitação na formação de novas ferramentas. Reconfigurar o espaço urbano através de uma estratégia recombinante exige um reposicionamento do pensamento estratégico do arquiteto, sobretudo no que concerne à leitura, gestão e desenho do solo urbanizado. Investiga-se uma abordagem sistémica e estratégica que habilite o território com ferramentas que o tornem capaz de, continuamente, se adaptar ao contexto evolutivo e multipertencente; e propõe-se a construção de um novo olhar sobre o domínio estratégico do exercício conceptual da Arquitetura. Palavras-chave: Arquitetura, Tecnologias da Informação e Comunicação, Sociedade, Cidade, Recombinação, Reconfiguração, Urbanismo. XV

22 XVI

23 A b s t r a c t Faced with the increasing effervescence and metamorphosis of contemporary cities, the current urban space faces today a technological context that has transformed the positional values of space. Given the inadequacy of the original functional combinations of the contemporary territories, we begin the study of the problem through the analysis of the relevance of the various actors in the active stage of urban life, identifying a trinomial: recent needs of urban actors - information and communication technologies (ICT) - contemporary city. Understanding that all points of analysis contain tensions and inter-related issues among themselves, we recognized as relevant to explore a new field of instrumental configuration for architecture that expects to meet the challenges posed by the emergence of new technologies, by importing the concept of Genetic Recombination for the knowledge area of Architecture. The notion of recombinant architecture aims at understanding a mechanism that, even come from other knowledge area that not architecture, when addressed in this area of knowledge can become a contribution to innovation and enable the formation of new tools. Reconfigure urban space through a recombinant strategy requires a repositioning of the strategic thinking of the architect, especially with regard to reading, management and design of the urban space. We investigate a systemic and strategic approach, one that may enable the territory with tools that make it able to continually adapt to the evolving context; and proposes the construction of a new look at the strategic field of conceptual exercise of Architecture. Keywords: Architecture, Technologies of Information and Communication (ICT), Company, City, Recombination, Reconfiguration, Urbanism. XVII

24 XVIII

25 I n t r o d u ç ã o O presente estudo, a ser apresentado para a prova de dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada do Porto, tem como objetivo apontar um conjunto de problemas que se julgam de inteira atualidade e explorar uma possível estratégia de atuação do arquiteto perante tais questões. O tecido urbano atual enfrenta hoje uma invasão tecnológica que veio provocar extensas transformações no ritmo de crescimento das cidades, questionando direta e abertamente os valores posicionais do espaço. Perante o novo contexto tecnológico, alteraram-se os paradigmas que definiam o quotidiano dos atores urbanos e, porque todo o homem cria formas e circunstância, condicionadas e condicionantes, a sua influência e as suas novas reinvidicações são indissociáveis dos aspetos gerais da organização do espaço. Quando o espaço deixou de ser meramente físico para ser diluído por novas tecnologias em formato global, as combinações funcionais do espaço deram sinais de colapso, urgindo uma inquietação de explorar novas configurações instrumentais que venham responder aos desafios contemporâneos colocados pela efervescência das novas tecnologias. Sobre este pressuposto, o trabalho é iniciado pela identificação de um trinómio que se considera elementar para a caraterização da atualidade, como forma de contextualização: recentes necessidades dos atores urbanos, tecnologias da informação e da comunicação (TIC) e as mutações das combinações funcionais urbanas e, por fim, cidade contemporânea. Considera-se que, limitado aos objetivos deste estudo, a relação entre estas principais esferas de influência é a capital responsável pela desarticulação e obsolescência dos territórios urbanos. Todavia, espera-se que um entendimento progressivo dos seus valores espaciais, culturais, urbanísticos e sociais venha a ser um contributo no que diz respeito à formulação de uma nova estratégia de construção dos tecidos urbanos. Ponderando as condições de utilização e transformação da cidade existente, o presente estudo segue pela exploração de novas configurações instrumentais, importando o conceito da Recombinação Genética para a área de conhecimento da Arquitetura. O conceito de recombinação assenta na identificação de um mecanismo de mutação da 1

26 estrutura do composto orgânico de ADN: uma sequência, hereditária, codificada e alterável que, se alterada, transforma a estrutura do organismo. Investiga-se a possibilidade de formulação de um instrumento, com configurações determinadas e, nesse âmbito, estabelece-se um paralelismo entre a estrutura de ADN e as combinações funcionais urbanas. Para a realização desta dissertação, utilizam-se três Casos de Estudo que pretendem dar crédito a esta nova forma de ler e aplicar estratégias de intervenção no território urbano, e recorre-se à técnica da elaboração de um Ensaio Projetual na cidade de Aveiro. Daqui resulta um trabalho com uma estrutura que pretende, passo a passo, construir testando um novo olhar sobre o domínio estratégico do exercício conceptual da Arquitetura. Não se duvida de que a experiência e o conhecimento são ainda parcos para tratar assunto de tal envergadura, no entanto, o atrevimento de o abordar nasce apenas pela consciência de que a atualidade trata do processo de desenhar sobre o desenhado, e que isso pode ser um exercício controverso, sobretudo pela aceleração permanente das atividades dos atores urbanos. Receia-se que a organização do território por acumulação de intervenções e sobreposição de contributos pontuais tenha originado um estado de obsolescência dos espaços urbanos, e que por essa razão necessita de uma abordagem sistémica que encerre uma compreensão da evolução do contexto atual, para que o tecido urbano possa ser reabilitado. O interesse que o trabalho possa ter está, cremos, no sistema de relações que procuramos estabelecer, na leitura de combinações e estratégias de recombinação das mesmas e, sobretudo, perante a possibilidade de criar uma estratégia de reconfiguração do espaço urbano. 2

27 01 SOBRE OS FATORES QUE CONDUZEM À RECOMBINAÇÃO NA ARQUITETURA 3

28 4

29 01.1 AS RECENTES NECESSIDADES DOS ATORES URBANOS A cultura pós-moderna representa o pólo superestrutural de uma sociedade que sai de um tipo de organização uniforme, dirigista, e que, para o fazer, mistura os últimos valores modernos, reabilita o passado e a tradição, revaloriza o local e a vida simples, dissolve a preeminência da centralidade, dissemina os critérios da verdade e da arte, legitima a afirmação da identidade pessoal de acordo com os valores de uma sociedade personalizada onde o que importa é o que o indivíduo seja ele próprio, e onde tudo e todos têm, portanto, direito de cidade e a serem socialmente reconhecidos, sendo que nada deve doravante impor-se imperativa e duradouramente, e todas as opções, todos os níveis, podem coabitar sem contracção nem relegação. A cultura pós-moderna é descentrada e heteróclita, materialista e psi, porno e discreta, inovadora e retro, consumista e ecologista, sofisticada e espontânea, espectacular e criativa; e o futuro não terá, sem dúvida, que decidir e favor de uma destas tendências, mas, pelo contrário, desenvolverá as lógicas duais, a co-presença flexível das antinomias (LIPOVETSKY, 1983:12). A satisfação dos atores urbanos através de mudanças físicas na organização das cidades não é um objeto de estudo recente, mas a tendência é que se continue a afirmar e a evoluir. Manifesta-se necessário fazê-lo num contexto atual, mergulhando num diagnóstico do que carateriza os atores urbanos da contemporaneidade, da sociedade em que se inserem e da influência que têm na construção das urbanidades. Esta análise existe pela relevância da sua condição enquanto cidadãos para quem, através do desenho e da gestão urbana, se procuram soluções que contribuam para uma melhoria do quotidiano e do futuro de um coletivo 1. O estudo das cidades e dos seus atores do ponto de vista sociológico e 1 O Grupo de Trabalho Urbanismo, da Associação dos Arquitetos Portugueses, redigiu em 1997 um texto introdutório à publicação Desenhar a Cidade Anos 90 (2001), onde exemplificam a responsabilidade dos atores urbanos, afirmando que enquanto os mecanismos financeiros de produção de solo urbanizado se sobrepuserem incondicionalmente aos critérios sociais de construção da cidade, enquanto o cidadão não se assumir como tal, influenciando o desenho e a gestão da cidade, estaremos a caminhar inexoravelmente para a degradação do habitat urbano. A preocupação reside na cidade enquanto lugar de produção que induz vivências de total desproporção entre a possível humanização da cidade e a abrengência territorial e funcional que os seus utentes terão de percorrer para nela sobreviverem (página 7). Consequentemente, a qualificação do ambiente urbano passará por uma revisão de padrões, critérios e tipologias para que se tornem mais adequadas às novas formas de vivência urbana. Pág.7. 5

30 urbanístico é, no entanto, incontornável por oferecer uma contextualização necessária da interdependência entre a cidade e a sociedade, e realiza-se através do estabelecimento de paralelismos que ajudem à tradução desta inércia. Muitos têm sido os fatores responsáveis pela introdução de novos elementos transformadores do espaço que são parte inerente das cidades que, historicamente formadas pela sobreposição de camadas diferentes, são representativas de várias épocas. Na publicação que denominou como Breve História do Urbanismo, Fernando Chueca Goitia (2010) traz-nos uma reflexão do ponto de vista dos processos de transformação da cidade: a mobilidade de uma urbe, razão da sua vida e do seu ser histórico, faz com que as suas tranformações sejam simultaneamente físicas e sociais. É frequente as estruturas sociais começarem a modificar-se antes de isso acontecer com as estruturas físicas (GOITIA, 2010:191). Entende-se que um dos principais responsáveis pela introdução de elementos transformadores na cidade é a sociedade, e mencionar sociedade implica, atualmente, falar de mudança num mundo globalizado e em contínua transformação, que ambiciona responder às suas múltiplas necessidades. Abordemos para já a questão das transformações da urbe serem simultaneamente físicas e sociais; assumindo a perspetiva de Goitia sobre a frequência com que a modificação das estruturas sociais acontece antes das modificações das estruturas físicas, e pressupondo que umas conduzem às outras. De acordo com Bernardo Secchi (2012), os territórios e as cidades são o reflexo de um longo processo de seleção cumulativo, ainda agora em curso. Secchi vê nos estudos históricos a evidência de como, desde a construção e transformação da cidade medieval, do vilarejo ou do território da periferia, as mudanças são determinadas por um conjunto de normas e regras; normas e regras essas que são o resultado de intenções e decisões, nem sempre coordenadas entre si, de uma sociedade inteira, assumidas com base em regras ditadas por crenças e imaginários incorporados na tradição; enquanto outras ( ) são o resultado de decisões e intenções de uma só pessoa, de uma casta ou de um grupo e, eventualmente, de especialistas, que mobilizaram imagens e argumentos que aspiravam ser compartilhados e indiscutíveis (SECCHI, 2012:17). O que deseja afirmar é que as ações urbanísticas foram ora um projeto que procurou descrever antecipadamente um possível estado de coisas de futuro, ora o resultado de uma sucessão de iniciativas por meio das quais se procurou responder a um conjunto disperso de exigências contingentes da 6

31 sociedade, que se modificavam com o tempo. Não é o único que defende este ponto de vista, também François Ascher (2010) explica que as formas das cidades quer tenham sido pensadas de raiz quer sejam o resultado mais ou menos espontâneo de diversas dinâmicas cristalizam e refletem as lógicas das sociedades que acolhem. Assim, a conceção das cidades antigas expressava os preceitos religiosos e militares que constituíram as justificações primordiais das cidades e dos grupos sociais que as habitavam. Mais tarde, o desenvolvimento das sociedades modernas foi progressivamente imprimindo novas lógicas à conceção e ao funcionamento das cidades. O autor afirma ainda que agir hoje no campo do urbanismo requer uma compreensão fina das lógicas em jogo na sociedade contemporânea (ASCHER, 2010:22-23). As exigências contingentes da sociedade e o seu reflexo nas cidades não passou despercebida à visão sociológica, que não esqueceu a sua vocação crítica, orientada para o desmascaramento da superestrutura capitalista. Este papel da sociologia urbana adquiriu um crescente protagonismo diante de várias décadas de globalização que propagaram desigualdades sociais desconhecidas no Ocidente desde o final da 2ª Grande Guerra (VÁZQUEZ, 2004:68). A sociologia ocupou-se de apelidar as dinâmicas da cidade contemporânea de variadas formas, sendo que a Cidade Dual 2, estudada por Manuel Castells 3 e Saskia Sassen 4, bem como a Cidade Espetáculo, ambas aqui abordadas sob a perspetiva de Carlos Garcia Vázquez (Idem:56-97); constituem a possibilidade de se estabelecer um paralelismo entre aquilo que lhes deu origem e continuidade, com a forma como a evolução de uma estrutura social pode ter efeitos na estrutura física da cidade, assumindo-se como o palco em que a sociedade se desenvolve e intervém. A Cidade Dual é descrita como um espaço para a desigualdade, a segregação e o conflito; bem como espaço de aparências deslumbrantes, globalização e sinónimo de progresso (Fig. 1). Esta condição bipolar da Cidade Dual é muito evidente nos centros urbanos norte-americanos, que nos finais da década de 60, tinham sido abandonados pela classe média no pós-guerra, e eram então habitados fundamentalmente por setores sociais de reduzido poder aquisitivo, como operários, imigrantes e marginais. Em 1961 surge uma 2 A Cidade Dual é um conceito desenvolvido por vários autores, entre os quais Manuel Castells, e refere-se à manifestação contemporânea de uma estrutura urbana social e economicamente polarizada. 3 CASTELLS, Manuel La ciudad informacional. Madrid, Alianza Editorial. 4 SASSEN, Saskia Cities in a world economy. London, Pine Forge Press. 7

32 Figura 1 Shangai. Exemplo de Cidade Dual. Imagem: Aly Song,

33 publicação de Jane Jacobs, Morte e Vida das Grandes Cidades, que na defesa dos valores da cidade tradicional causa um enorme impacto nas políticas das grandes cidades. As grandes capitais investem então num processo inverso de implementação de fórmulas para reabilitarzonas declaradas históricas (Idem:69). Esta cadeia de atuações converteu a reabilitação dos centros históricos num negócio potencial que atraiu a iniciativa privada. Na década de 80 já eram numerosos os locais de ócio, cultura e consumo que se haviam instalado nessas zonas. Os centros urbanos começaram então a renascer, a perceber-se como áreas renovadas e atrativas que, em muitos aspetos, ofereciam uma qualidade de vida superior ao dos longínquos subúrbios. A classe média começou então a contemplar a possibilidade de voltar para eles (Idem:Ibidem). A reabilitação foi acompanhada de massivas deslocações de população. Os pioneiros a voltar a residir nos centros históricos foram os yuppies, jovens profissionais que trabalhavam nos distritos financeiros próximos. Estas personagens tipicamente pós-modernas, sofisticadas, cosmopolitas e com pretensões culturais, encontraram, nos seus velhos edifícios originais, residências que os diferenciavam dos outros. A sua chegada desencadeou uma espiral imparável do aumento dos preços das vivendas que, paradoxalmente, acabou na conversão do centro urbano num espaço residencial de luxo, inacessível às classes operárias, as únicas que tinham permanecido nele entre os anos 50 e 60. Os antigos residentes, pobres e de idade avançada, assim como os comércios tradicionais foram substituídos por jovens enriquecidos e lojas da moda. Este processo de expulsão dos mais pobres e substituição pelos mais ricos foi denominado de gentrificação (Idem:70). O facto é que, se este fenómeno teve início nos centros urbanos norte-americanos, depois proliferou-se para grandes cidades europeias, como Londres, Paris e Berlim 5, tornando-se assim num fenómeno global e caracterizando-se, sobretudo, por uma luta de território entre classes sociais, onde as classes média e alta enfrentam os setores marginais que resistem a abandonar os lugares aos quais foram confinados 6. Esta luta deu origem a uma espécie de fortificação da cidade, pela necessidade que as classes mais altas tiveram de uma sensação de segurança e controlo; originando modelos de urbanização como os condomínios privados para habitação e a manipulação da vida urbana e do espaço público 5 Reabilitação dos centros históricos de Notting Hill, em Londres; Marais, em Paris; e Kreuzberg, em Berlim. 6 A título de exemplo, e em menor escala, temos em Portugal o Parque das Nações, em Lisboa, que originou um tipo semelhante de segregação social; a par da existência de núcleos sociais mais problemáticos, como a Cova da Moura. 9

34 Figura 2 Sony Center. Berlim. Imagem: Jaime Ardiles-Arse

35 para lugares controlados, como os centros comerciais (Fig.2) 7. A Cidade Dual e as dinâmicas que originou, a par de consequências do foro social de difícil gestão, são um exemplo claro de como as alterações das estruras sociais têm um grande impacto no desenho, evolução e construção das cidades, e de como essas mutações geram políticas urbanas que deixam de ser locais para serem mundiais. No entanto, como anteriormente referido, a Cidade Dual não é o único exemplo de manifestação desta influência que a sociedade tem nas cidades, e passar-se-á a um breve apontamento sobre a Cidade Espetáculo. Vázquez fala-nos do modelo das Cidades Espetáculo, e de como também este modelo é o reflexo da procura da satisfação dos atores urbanos: na década de 80 assiste-se ao imparável crescimento da indústria do ócio. Os sociólogos relacionaram-na com a chegada à maturidade da geração X, os filhos da classe média nascidos do baby boom da década de 60. Esta geração, que crescera alheia às dificuldades do pós-guerra, havia incluído o ócio entre as atividades quotidianas, junto ao trabalho, a cultura e o consumo. Isto exigia formas de entretenimento urbanas, acessíveis no dia a dia. Exigia também uma crescente sofisticação tecnológica que correspondesse às suas expectativas de sensações fortes e hiperreais (VÁZQUEZ, 2004:80). Desta necessidade de contentamento a esta geração, surge o paradigma do império de simulação que domina a cultura pós-guerra. Walt Disney e os parques temáticos da década de 90 consagram o êxito da tática de simular os factos urbanos de uma maneira hiperreal. A fórmula de tematizar um recinto colocando as tecnologias mais avançadas ao serviço da simulação, para propiciar uma exploração da cultura do consumo e da forma urbana pelos atores, faz com que cidades como, por exemplo, Los Angeles, Paris, Tóquio, e Hong Kong, comecem também um processo que Vázquez apelida como disneylandização. Quando este fenómeno se expande para o espaço urbano nasce uma cidade do espectáculo, onde o real deixou lugar ao hiper-real, à pura materialidade, à fria superficialidade. Daí a sua vivacidade cromática e luminosa, um esplendor radiante 7 Cidade Dual: Os sistemas de controlo não se limitaram aos túneis e passagens, também os centros comerciais souberam explorar a contemporânea obsessão pela segurança com um fim bem claro: canalizar para o seu interior a vida urbana que anteriormente se desenvolvia no espaço público. Exemplo: Berlim no Potsdamer. Os verdadeiros protagonistas do seu espaço público não são nem as alamedas nem as praças, nem as ruas, mas sim Arkaden o fórum Sony. O Arkaden é uma passagem comercial que atravessa a zona na direção norte sul; uma rua de lojas, cafés, esplanadas, jardins, escas rolantes; uma cobertura de vidro protege este espaço público do duro clima de Berlim e uma legião de câmaras, sensores e alarmes de outras ameaças que o rodeiam. O Fórum Sony é um enorme espaço público pedonal e interior de m2; o seu desenho da responsabilidade de Helmut Jahn, também incide nas características mais intrínsecas dos factos urbanos: densidade, multiplicidade, espontaneidade etc., para conformar um cenário sugestivamente iluminado e repleto de árvores, bancos, cabina s telefónicas e outro mobiliário urbano (VÁZQUEZ, 2004:73-74). 11

36 e intenso que pode chegar a ser alucinante e desembocar no que Fredric Jameson denominou a euforia pós-moderna. Na cidade espectáculo tudo é táctil, visível, mas foi esvaziado de qualquer significado profundo o que interessa são as formas e não os conteúdos -. Desactivam-se assim os grandes temas que acompanham o pensamento negativo característico da visão sociológica: a segregação, a injustiça, a rebelião, etc.. O habitante da cidade do espectáculo só está interessado em absorver através dos sentidos sem questionar-se criticamente a sua situação no mundo (VÁZQUEZ, 2004:80). A cidade, neste contexto, assume-se como protagonista do seu desenvolvimento, entrando em paradoxos de lógicas de competitividade e, simultaneamente, de consciência. A urbe contemporânea tenta emergir como agente ativa na prossecução de estratégias alternativas de minimização dos impactos do processo de globalização, não lhe sendo, no entanto, permitido esquecer a competição no cenário da visibilidade global. Esta visibilidade está inerente a todos os aspetos da vida social produzida pelos meios de comunicação e a consequente divulgação à esfera global, numa cidade e sociedade aberta e marcada pelo crescimento dos fluxos de informação, tornando-as suspceptíveis a algo de novo e crucial à sua própria sobrevivência. Reconhece-se que o passado e a memória colectiva ganharam, nos nossos tempos, uma relevância inusitada. Paradoxalmente tal deve-se ao facto de vivermos hoje sob uma configuração cultural em que se privilegia o tempo instantâneo e a busca da gratificação imediata. Perante a superficialização ou eventual perda das suas raízes identitárias, os indivíduos procuram no passado e na memória da cidade compensação para a correspondente e desconcertante ambivalência de valores. Tal impõe à cidade o ónus da contínua valorização estética do seu património histórico e monumental, ainda que, segundo modulações diversas (FORTUNA, 1997:3). Tendo em conta a sobrevivência da cidade contemporânea e tudo o que nela influi, entende-se que a destradicionalização não significa eliminar tudo o que seja passado, tradição, memória e história da cidade. ( ) a destradicionalização refere-se à recodificação da tradição e ao seu entendimento como recurso de desenvolvimento. Aquilo que está em causa é a adaptação funcional e a reconversão de sentido de alguns recursos da cidade (Idem:4). A Cidade Espetáculo levanta então a questão de como articular passado, presente, 12

37 e satisfação das múltiplas necessidades dos atores urbanos contemporâneos. O estudo desta articulação, mas mais ainda, a questão da recodificação como recurso de desenvolvimento, é o tema que merece maior atenção neste ponto: se os fenómenos de investimento e a consequente gentrificação ordenaram as dinâmicas urbanísticas da Cidade Dual, se a geração baby boom reclamou uma Cidade Espetáculo, é incontornável o estudo sobre os atores urbanos da contemporaneidade para entendermos quais as suas exigências relativamente ao espaço que habitam. Precisamos de um meio ambiente que não seja simplesmente bem organizado, mas também poético e simbólico. Deve falar dos indivíduos e da sua sociedade complicada, das suas aspirações e tradições históricas, do conjunto natural e das funções e movimentos complicados do mundo citadino. ( ) Um tal sentido de lugar reforça todas as actividades humanas aí desenvolvidas, encoraja a retenção na memória deste traço particular. Devido à intensidade nela vivida, à reunião de gente tão díspar, a cidade é um local romântico, rico em pormenores simbólicos. Para nós, a paisagem das nossas confusões é tão esplêndida como aterradora, como diz Flanagan. Se fosse legível, verdadeiramente visível, então o medo e a confusão poderiam ser substituídos pelo deleite, na riqueza e no poder do cenário (LYNCH, 2008:122). Atualmente, a multiplicidade de escolhas com que os indivíduos se confrontam é variável conforme os seus meios, dá origem a perfis de vida e de consumo cada vez mais diferenciados tornando cada vez menos percetível a eventual presença a grupos sociais, apesar do peso sempre grande das determinações económicas e socioprofissionais (ASCHER, 2010:40). Isto origina uma diferenciação social que se opera também pela diversificação das histórias de vida: os ciclos de vida, outrora marcados por algumas grandes fases mais ou menos idênticas para todos, conhecem hoje episódios cada vez mais variados, onde os indivíduos surgem como socialmente multipertencentes e socialmente plurais. As suas práticas, os seus sistemas de valores, as suas escolhas individuais resultam de socializações e de circunstâncias diversificadas (ASCHER, 2010:42-43).A vida quotidiana contemporânea, inundada de insignificantes acontecimentos casuais afasta o homem do que poderia ser uma rotina diária introduzindo na cidade um novo conceito: o da flexibilidade. A cidade tenta adaptar-se a esta necessidade de variados lugares ao ritmo das horas, num contexto 13

38 Figura 3 Times Square. Nova Iorque. Imagem: autor desconhecido. 14

39 cada vez mais variado e de circunstâncias menos previsíveis; assumindo que os laços sociais não se dissolveram, apenas mudaram de natureza e de suporte.respiramos, então, tempos de profundas alterações nos hábitos, nos consumos, nos pensamentos, nas consciências. Os indivíduos tornaram-se mais exigentes, com acesso muito facilitado à informação, e que por essa razão tomam decisões de forma mais racional e planeada. Com o excesso de oferta, o princípio da seleção natural é ainda mais evidente: sobrevivem os mais ágeis, os que melhor conseguem observar e identificar as novas tendências e que lhes reagem com maior dinamismo, antecipando-se às mudanças com maior rapidez, transformando inteligência em estratégia e informação em conhecimento. No mundo do trabalho, a título de exemplo, é essencial um olhar atento e imparcial sobre a mudança e é necessário exercitar a resiliência a capacidade de adaptação a ambientes complexos ou caóticos com ponderação e equilíbrio, de forma a saírem mais fortalecidos perante as adversidades (FELGUEIRAS, 2012:1). O resultado é um mecanismo evolutivo no qual se insere esta sociedade da cidade contemporânea, citando Darwin: Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças (DARWIN, 1859) 8. Bourdin (2010) questiona como se pode associar completamente cidade e inovação, assegurando que nem a cidade, nem o urbanismo são, na verdade, portadores de inovação, mas sim agentes que a ação urbanística pode ajudar ou mesmo atrair. A adaptabilidade que a própria sociedade exige aos atores urbanos fá-los reinvindicar o mesmo dos responsáveis pela estruturação do espaço que habitam e a atratividade urbana fica, assim, à mercê de variáveis em permanente construção e evolução, que determinam escolhas residenciais e profissionais dos estratos sociais qualificados, dos agora jovens criativos em particular, uma vez que estes criativos são atraídos, evidentemente, pela presença de certas atividades económicas que os podem empregar, pela qualidade de vida urbana, pela dimensão e variedade do mercado de emprego, pela presença de equipamentos coletivos públicos ou privados de alto nível e pela imagem dos territórios que habitam e frequentam (ASCHER, 2010:116). 8 DARWIN, Charles On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Londres. Publicação John Murray. In: FELGUEIRAS, Sónia Excerto mencionado na Edição 11 do Jornal CS Coelho da Silva. Pág.1. 15

40 A sociedade contemporânea é fortemente trabalhada por processos de individualização, e tem-se espalhado uma crença inquietante para muitos urbanistas nos últimos anos, de que existe um grande grupo portador da inovação que é o ponto nevrálgico do sucesso urbano e de que a aposta do urbanismo consiste em favorecer o desabrochar deste grupo, criando um ambiente de inovação à escala da cidade (BOURDIN, 2010:45). Este grupo social é aquele que Richard Florida denominou como classe criativa, onde associa cientistas, engenheiros, professores universitários, romancistas, artistas, gente do mundo do espetáculo, atores, designers, arquitetos, grandes pensadores da sociedade contemporânea e profissionais dos setores com uma forte intensidade de saberes: novas tecnologias, finanças, conselho jurídico, etc.; e aqui reconhece a força portadora da inovação, por o entender como um grupo social efeverscente. A classe criativa representa uma parte minoritária do emprego, que faz do conhecimento e da inovação chavões da contemporaneidade, assumindo-os como elementos importantes que funcionam como instigadores da pesquisa e da criatividade, conferindo um papel-chave aos trabalhadores altamente qualificados capazes de sair das rotinas, de identificar os desafios, de se adaptar a situações específicas, de formalizar as questões, de encontrar soluções novas, de transferir tecnologias (ASCHER, 2010:116). Esta classe criativa é tida como um grupo de trendsetters que contribuem, com as suas escolhas, para uma animação das dinâmicas urbanas e que por isso se transformam num recurso-chave do desenvolvimento. Interrogamo-nos se esta classe criativa não se assemelhará ao grupo anteriormente mencionado, os yuppies, e quais as disparidades que farão urbanistas evitar consequências como a gentrificação. A realidade é que, mesmo depois dos exemplos da Cidade Dual e Espetáculo, o grupo contemporâneo identificado por Florida como a classe criativa continua a assumir-se como um dos pontos nevrálgicos dos quais depende a sobrevivência das cidades, uma espécie de motor que induz transformações e que reclama espaços adequados às suas necessidades. A consciência de que as intervenções urbanas devem tentar acompanhar a evolução não só de alguns grupos sociais, mas sim de todos que a habitam, conduz-nos à análise dos instrumentos que se popularizaram um pouco por todos os atores e na forma como estes influenciam a sua movimentação no espaço. Inevitavelmente, deparamo-nos com as Tecnologias da Informação e Comunicação. 16

41 Seduzir, enganar por meio do jogo das aparências o pensamento revolucionário, mesmo quando atento ao novo, continuava a ter que localizar uma sedução negativa para levar a cabo a sua inversão: tributária do tempo revolucionário-disciplinar, a teoria do espectáculo reconduzia a versão eterna de sedução, a astúcia, a mistificação e a alienação das consciências. Sem dúvida, temos que partir do mundo do consumo. Com a profusão luxuriante dos seus produtos, imagens e serviços, com o hedonismo que induz, com o seu clima eufórico de tentação e proximidade, a sociedade de consumo revela até à evidência a amplitude da estratégia da sedução. Esta não se reduz, no entanto, ao espectáculo da acumulação; mais exactamente, identifica-se com a ultrasimplifcação das opções que a abundância torna possíveis, com a latitude dos indivíduos mergulhados num universo transparente, aberto, oferecendo um número cada vez maior de escolhas e combinações por medida, permitindo uma circulação e uma selecção livres. E estamos apenas no começo, esta lógica alargar-se-á inelutavelmente à medida que as tecnologias e o mercado puserem à disposição do público numa diversificação cada vez mais vasta de bens e serviços (LIPOVETSKY, 1983; 18). 17

42 Figura 4 Desire of Codes. Imagem: Mikami Seiko

43 01.2 AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO E AS MUTAÇÕES NAS COMBINAÇÕES FUNCIONAIS URBANAS O indivíduo torna-se cinético, aspira ao ritmo, a uma participação de todo o corpo e de todos os sentidos. ( ) À personalização por medida da sociedade corresponde uma personalização do indivíduo, que se traduz no desejo de sentir mais, de planar, de vibrar em directo, de experimentar sensações imediatas, de ser posto integralmente em movimento numa espécie de trip sensorial e pulsional. ( ) No centro do deserto social ergue-se o individuo soberano, informado, livre, prudente administrador da sua vida: ao volante, cada um aperta o seu próprio cinto de segurança. ( ) A sedução deixou de ser libertina (LIPOVETSKY, 1983:23). O que distingue a configuração do novo paradigma tecnológico é a sua capacidade de reconfiguração, um aspecto decisivo numa sociedade caracterizada por constante mudança e fluidez organizacional (CASTELLS, 2000:78). Quer nos queiramos debruçar sobre a cidade contemporânea, ou sobre o assunto desenvolvido acerca da sociedade atual, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) emergem como um tema inerente a ambos e dos quais as TIC se tornam manifestamente impossíveis de dissociar. Esta forte presença é-o desta forma, assumida, uma vez que as tecnologias, em toda a sua abrangência, vieram reformular todo um conceito de vida em sociedade e toda a base de sustentação em que esta apoia o seu desenvolvimento e as suas áreas de atividade. Como tal, se no ponto anterior se fez a associação entre espaço e sociedade, agora é tempo de entender as relações entre espaço e tecnologia, acreditando que mais importante que estabelecer um único nome ou conceito para a cidade contemporânea, é reconhecer que novos elementos e aspetos fazem parte da configuração do espaço urbano. 19

44 Figura 5 A Cidade Informacional de Castells. Imagem: Firmino,

45 Castells (2000) classifica a sociedade contemporânea como a sociedade da informação, e neste modelo identifica um conceito de paradigma tecnológico 9, a cidade informacional (Fig.5). Destaca cinco aspetos fundamentais que, conjuntamente, representam a base material da sociedade da informação e através dos quais crê ser mais fácil organizar a essência da transformação tecnológica atual à medida que ela interage com a economia, com a sociedade e, finalmente, com a cidade. A primeira característica é o entendimento da informação como matéria-prima, onde as tecnologias agem sobre a informação e não o contrário, como era o caso das revoluções tecnológicas do passado; a segunda alude à penetrabilidade dos efeitos das novas TIC, considerando que a informação é uma parte integral de toda a atividade humana, e que todos os processos da nossa existência individual e coletiva são diretamente moldados (embora, com certeza, não determinados) pelo novo meio tecnológico; a terceira refere-se à lógica de redes em qualquer sistema ou conjunto de relações, redes essas implementadas materialmente em todos os tipos de processos, para estruturar o não-estruturado preservando um cariz flexível; a quarta explora a flexibilidade deste sistema de redes, através do qual não apenas os processos são reversíveis, mas organizações e instituições podem ser fundamentalmente alteradas pela reorganização dos seus componentes, tendo presente que este aspeto depende dos poderes constituídos na medida em que a flexibilidade pode ser tão libertadora como repressiva; a quinta, e última, é a crescente convergência de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado: as telecomunicações são apenas uma forma de processamento da informação, as tecnologias de transmissão e conexão estão, simultaneamente, cada vez mais diversificadas e integradas na mesma rede operada por computadores (CASTELLS, 2000:78-79). É a partir do entendimento destes fatores que surge uma sociedade organizada em rede, determinando um território organizado em rede. A rede é aqui interpretada como um conjunto de nós interconectados, que pela sua flexibilidade e adaptabilidade pode explicar a complexidade das sociedades contemporâneas neste paradigma informacional, originando um espaço de fluxos (sejam eles mercadorias, capitais, informação, pessoas, etc.) onde o tempo é binário: não expressa sequência, conhece só dois estados, presença e ausência, tudo o que existe é agora (está na rede e é imediatamente acessível), tudo o que não existe 9 O modelo de paradigma tecnológico que Castells estuda foi, como refere o autor, originariamente elaborado por Carlota Perez, Christopher Freeman e Giovanni Dosi. 21

46 22 Figura 6 Imagem Conceptual do distrito de Canary Wharf (Londres) como exemplo de espaço inserido numa rede tecnologicamente conectada. Imagem: Richard Black

47 tem de ser introduzido do exterior (está fora da rede e é inacessível). O espaço dos fluxos dissolve o tempo, desordenando a sequência de eventos, tornando-os simultâneos, instalando assim a sociedade numa espécie de eterna efemeridade onde tudo pode acontecer em qualquer altura (CASTELLS, 2007). Pretende-se explorar a já difícil dissociação das TIC como uma dinâmica transformadora de espaço, que ocupa progressivamente uma posição genérica, ou seja, elas penetram em todos os setores económicos e em todas as esferas da vida social. Já não existe praticamente nenhuma indústria, ciência ou tecnologia cujo desenvolvimento não dependa do uso das TIC (ASCHER, 2010:55). São um veículo standart que permite a total customização da sociedade contemporânea e das cidades, uma espécie de paradoxo entre aquilo que é e o que propicia novos elementos. Mitchell (2012) é um dos autores que mais se dedica à investigação desta força transformadora e dos instrumentos que esta utilizou e continua a utilizar para imprimir mutações nas múltiplas esferas da vida humana. Passaremos a analisar os passos fundamentais de desenvolvimento destas tecnologias, que vieram marcar a aclamada era da informação no mundo atual, e que têm impacto direto na necessidade de recombinar a Arquitetura. Do ponto de vista de um arquiteto, as novas tecnologias frequentemente fornecem novas formas de acrescentar valor ao espaço arquitetónico. ( ) As tecnologias da sociedade em rede não são exceção. Em geral, elas produzem espaço de fusão espaço arquitetónico no qual as tecnologias digitais eletrónicas permitem novas e socialmente valorizáveis combinações de pessoas e atividades (MITCHELL, 2007:338). Se observarmos os meados dos anos 60, época que ainda não conhecia a Sociedade em Rede de Castells, encontramos uma emergência semelhante aos dias de hoje na procura de um formato de cidade que promovesse a satisfação à diversidade de expectativas e modos de vida, tendo já em vista a inclusão do avanço tecnológico. A teoria arquitetónica desse período produziu uma série de modelos que projetavam ideias sobre o futuro: dispositivos mecânicos, racionalistas e pré-fabricados que iriam propôr outras formas de viver. O grupo de arquitetos ingleses Archigram, constituído por Peter Cook, Ron Herron, David Greene, Michael Webb, Dennis Crompton e Warren Chalk, juntou-se para publicar uma revista que tratasse arquitetura e conseguiu inspirar uma nova geração de arquitetos. 23

48 Figura 7 Plug-in City. Peter Cook, Archigram Imagem: Archigram

49 A maioria, obviamente, impressionada com a sua sugestão radical para revelar os elementos da infraestrutura e reverter hierarquias tradicionais da construção do edifício e do espaço 10. Este grupo pôs em circulação vários modelos declaradamente utópicos, com uma abordagem infraestrutural, leve e high-tech, considerando que se a arquitetura mais avançada tecnologicamente se baseava no detalhe construtivo do conjunto, as megaestruturas significaram o delírio, a condição na qual o detalhe estrutural estava sempre presente e se multiplicava como uma malha no espaço (SPINA, 2009). Aquilo que nos interessa, sobretudo, é a problematização criada por este grupo na procura de soluções que se traduzissem formalmente fazendo face ao resultado da revolução económica e tecnológica da época, forçando a cidade a identificar-se como elemento mutável, vista como uma rede, como um lugar des-hierarquizado, para responder aos hábitos dos seus consumos e produção, adaptando-se à dinâmica programática que daí advinha. Entre 1960 e 1974, os Archigram criaram mais de 900 desenhos, entre eles o plano da Plug-in City de Peter Cook (Fig.7). Este projeto provocativo sugere uma cidade hipotética, contendo unidades residenciais modulares que se ligam a uma mega máquina que é a infraestrutura central. A Plug-in City é, de facto, uma megaestrutura em constante evolução que incorpora residências, transporte e outros serviços essenciais todos mobilizáveis por guindastes gigantes. Nesta fantasia de cidade, o relevante é a ideia de que as cidades precisam assumir formas para de adaptarem às mudanças que a evolução tecnológica e os demais fatores já enunciados provocam, no quotidiano e nas necessidades, assumindo que as unidades arquitetónicas são criadas para serem reprogramadas e reutilizadas. A noção de espaço já cruzou as fronteiras do território físico ao considerar o espaço como um produto social. Ademais, esta noção agora deve incorporar a complexidade das interacções virtuais, remotas distantes, assim como o próprio ciberespaço. Isto é o que conceitos como o de espaço recombinante tentam alcançar (FIRMINO, 2005:4). O espaço recombinante, no domínio da relação entre o suporte físico e a tecnologia, não se resume a uma tese tecnológica-determinista de reposição e substituição física como se os ambientes, espaços e transações virtuais, e comunicações remotas, estivessem a 10 Eminente numa das suas obras mais emblemáticas, o Centro Pompidou, por Richard Rogers e Renzo Piano, cujas visões continuam a ser invocadas no pensamento arquitetónico dos dias de hoje. 25

50 substituir as interações face-a-face e os locais públicos físicos. Apenas pretende expor uma das faces do conceito da recombinação como um termo utilizado para reforçar a ideia de que um espaço já existente pode ser conceitualmente diluído por novos paradigmas. Firmino acredita que as cidades e o mundo contemporâneo têm sido inundados por tecnologias novas e miniaturizadas, que têm mudado as nossas vidas nas últimas duas ou três décadas. Acima de tudo, estas tecnologias têm-se combinado com elementos velhos e tradicionais do espaço urbano e de nossa vida quotidiana, para formar seres, cidades, objetos e espaços robóticos e cibernéticos (Idem:7). Perguntamo-nos, então, que instrumentos é que estão tão intimamente conectados com a sociedade da cidade contemporânea, e de que forma é que transformam o espaço num campo aumentado das experiências vivenciais e do conhecimento? Concordando com Firmino, o espaço não é tão-somente um recipiente vazio onde as tecnologias são instrumentos de contaminação. As tecnologias são parte dos processos de construção social do espaço e, segundo esta estrutura, a cidade é o resultado de uma coexistência dialética de pessoas, objetos, território, instituições e fluxos oriundos de eras diferentes da história urbana (Idem;ibidem). Segundo Mitchell (2007), as inovações tecnológicas provam a sua importância, num somatório de introdução de novas capacidades que vão de encontro a reais necessidades humanas num contexto tecnológico previamente estabelecido pelas inovações anteriores e num contexto social em evolução (Idem:337). Para fundamentar esta posição, utiliza a lista de 2005 de Lemelson 11 MIT (Massachusetts Institute of Technology) do top 25 de inovação tecnológica dos últimos 25 anos, enfatizando, sobretudo, as interdependências mútuas dos equipamentos (a Internet precisa do computador pessoal, e o computador pessoal precisa de Internet; o correio eletrónico precisa de ambos). Esta lista está datada de 2005 e, atualmente, acusa sinais evidentes de envelhecimento. Esta nomenclatura associada aos momentos high-tech da evolução é já linguagem conhecida, reconhecida e recorrente da maior parte das comunidades um pouco por todo o planeta. Dos pontos acima referidos, podemos ver como os dispositivos de inovação tecnológica já foram, e continuam a ser, recombinados. Hoje podemos encontrar a maior parte destes 11 A lista é, pela respetiva ordem, a seguinte: Internet; telemóvel; computador pessoal; Fibra ótica; Correio eletrónico; GPS comercial; Computadores portáteis; Discos de memória portáteis; Câmaras digitais familiares; RFID (identificação por frequência de rádio); MEMS (Sistemas Mecânicos Micro-elétricos); Impressões digitais de ADN; Air Bags; Caixas Multibanco; Baterias avançadas; Carros híbridos; OLEDs (papel eletrónico); Monitores; Televisão de Alta Definição; Space Shuttle; Nanotecnologia; Memória flash; Voic (gravador de chamadas); Auxiliares modernos de audição; Frequência de rádio de curto alcance. 26

51 mesmos pontos identificados reunidos num produto só, assim como somos notificados pelo constante crescimento dos restantes. Com base nas interdependências, que pressupõem um funcionamento sempre em conexão, entende-se que as TIC não mudam de forma autónoma a sociedade, mas, agarradas e aproveitadas pelos atores económicos e pelos indivíduos consumidores, podem contribuir para lhe dar novas formas. E estas tecnologias estão longe de ter esgotado as suas potencialidades (ASCHER, 2010:55). As mais diversas atividades migraram dos espaços clássicos, concebidos para um único objetivo num determinado local, para espaços móveis e que fundem várias energias. Em bibliotecas de investigação, as anteriores funções do compartimento para consulta e a cabine telefónica fundiram-se. Pode-se, frequentemente, encontrar os jovens investigadores com os seus computadores portáteis abertos, rodeados de livros e jornais, a falar nos seus telemóveis. Se espreitar e tentar ouvir a conversa, vai descobrir que não estão só na conversa, mas a receber indicações dos seus orientadores ou a articular trabalho com colaboradores à distância. E então, quando encontram alguma coisa que lhes interessa, páginas de texto ou imagens, eles simplesmente tiram fotografias com as câmaras dos seus telemóveis. Os bibliotecários eram contra todas estas práticas no início. ( ) Depois começaram a perceber que era uma nova prática intelectual importante e começaram a exigir espaços apropriados para acolher estas práticas (MITCHELL, 2007:338). A conectividade sem fios (wireless) é outra característica das TIC que veio modificar forte e vigorosamente estas dinâmicas de fusão do espaço. Com wireless, a procura dos espaços especializados diminui, e aumenta a procura de espaços pouco definidos que permitem que os indivíduos se apropriem de formas versáteis e com diferentes objetivos, desde que estejam eletronicamente munidos e ligados. Mais uma vez, Mitchell exemplifica: com um portátil equipado com tecnologia wireless podemos trabalhar tão bem num banco de jardim, à sombra de uma árvore, como num cubículo de uma torre de escritórios (Idem:342). Continua ainda a expôr os adicionais efeitos espaciais que estas redes sem fios trazem e afirma que, dependendo do grau de miniaturização dos serviços wireless, estes podem substituir, simplesmente, a infraestrutura de cabos em zonas em que o terreno é mau; podem fornecer conectividade móvel em veículos permitindo a orientação de táxis, 27

52 de forma flexível e eficiente, assim como de veículos de emergência; podem libertar a informação sedentária tanto de trabalho como de entretenimento de espaço fixos, valorizando os espaços onde nos podemos sentar com o portátil a trabalhar; e, por fim, fornecer conectividade móvel para quem se desloca a pé (Idem; ibidem). O mesmo autor defende que, espacialmente, o paradoxo que emerge da conectividade portátil que permite o wireless, é que ela não produz espaços que têm um aspeto high tech. Quanto mais pequena e ligada sem fios for a tecnologia, menos obstrutiva se torna; desaparece no nosso bolso e dentro das estruturas de um edifício (Idem; ibidem). Dessa forma, pode fundir-se com a arquitetura sem sacrificar a funcionalidade. Poder-se-á pensar a arquitetura considerando, à partida, uma fusão do espaço com a via eletrónica, relacionando as novas oportunidades tecnológicas com um contexto de lugar e a sua tradição urbanística, sem que uma diminua a importância da outra. A existência destes processos está patente em tipos de edifícios tradicionais e em padrões urbanos atuais. Mais evidente talvez, se considerarmos que a tecnologia veio reconfigurar tudo desde o módulo de habitação até ao espaço urbano: anexando agora o exemplo dos jovens investigadores anteriormente mencionados, vemos alterações nos conceitos de relação entre lar e local de trabalho. Hoje, a casa, o lar, podem ser duplicados como um local de trabalho eletronicamente ligado. ( ) Para muitos, significa que o tempo de trabalho e de deslocações se torna muito mais flexível, e que a casa deverá agora permitir a existência de um escritório. E, em alguns contextos, permite que casas, lares, e locais de trabalho se recombinem em novas aglomerações urbanas, com populações que as habitam 24 horas, compostas por combinações casa/trabalho. Em algumas cidades, o desenvolvimento de aglomerados eletrónicos vida/trabalho tornaram-se uma opção atraente para a reabilitação de edifícios históricos abandonados (Idem:341). Convém, no entanto, realçar que embora trabalhar em casa pareça estar a tornar-se um futuro modo de atividade profissional, essa modalidade desenvolve-se a partir do surgimento da empresa integrada em rede e do processo de trabalho flexível, ( ) e não como consequência direta da tecnologia disponível (CASTELLS, 2000:404). Persiste ainda a necessidade de compreender uma escala mais ampliada, urbana, deste sistema veloz de trocas de produtos ou informação. Ao considerar os diferentes relacionamentos entre espaços urbanos, Mitchell deparou com a urgência de repensar 28

53 adjacência, proximidade e padrões de espaço urbano. Mas o levantamento desta questão não é inocente: Mitchell parte do estudo realizado por Castells, onde este defende que o desenvolvimento da comunicação eletrónica e dos sistemas de informação propicia uma crescente dissociação entre a proximidade espacial e o desempenho das funções rotineiras: trabalho, compras, entretenimento, assistência à saúde, educação, serviços públicos, governo e assim por diante. Por isso os futurologistas frequentemente predizem o fim da cidade, ou pelo menos das cidades como as conhecemos até agora, visto que estão destituídas da sua necessidade funcional. Como mostra a história, os processos de transformação espacial são, é claro, muito mais complicado (CASTELLS, 2000:419). Com base nesta apreciação pode alimentar-se o desafio colocado por Mitchell: as cidades estão inseridas em redes globais de transportes, contando que, a uma larga escala, o seu parque construído de edifícios especializados está ligado através de uma rede de transporte e de trocas. As telecomunicações digitais alteraram os padrões espaciais das atividades, mas não produzem, no entanto, a morte das distâncias, pela simples substituição dos transportes por telecomunicações, onde se dá o aval de que tudo se passe, a qualquer momento. Existe, no entanto e a propósito da questão da substituição dos transportes por telecomunicações e da possibilidade da consequente, uma explicação mais inteligível. Ascher apropria-se do assunto, aclarando que o face a face, os contactos diretos, continuam a ser meios de comunicação privilegiados; a acessibilidade física, a possibilidade de encontro, são mais do que nunca a principal riqueza dos lugares urbanos. ( ) De certa maneira, assiste-se mesmo a um paradoxo: o desenvolvimento das telecomunicações banaliza e acaba por desvalorizar tudo o que é audiovisual que se mediatiza e se armazena facilmente e valoriza económica e simbolicamente aquilo que não se telecomunica (ainda?), o direto, as sensações tácteis, olfativas, gustativas, os acontecimentos ( ) são outros tantos índices da importância renovada do face a face e da experiência direta na vida urbana (ASCHER, 2010:65). É relevante explorar um pouco mais a questão do face-a-face. Tenhamos como exemplo o aparecimento do modelo de homebanking: nos anos 80 as entidades do setor bancário procuraram oferecer aos seus clientes serviços processados com a ajuda de meios eletrónicos. Assim que a Internet penetrou neste setor, as atividades inter-bancárias passaram a realizar-se através da mesma e introduziram o conceito de banco em qualquer lado, ou e-banking. As estruturas físicas dos bancos, nomeadamente os grandes edifícios nos centros de serviços das cidades, que implicavam o deslocamento das pessoas até lá e nem sempre eram acessíveis a todos, tiveram esta questão da acessibilidade mais ou menos 29

54 Figura 8 Imagem conceptual do conceito de net-working. Imagem: Autor desconhecido. 30

55 resolvida através da evolução tecnológica do seu tempo, podendo ainda alcançar mais pessoas. No entanto, dada a relevância do face-a-face numa série de conexões que as entidades bancárias necessitam para manterem os seus clientes, foi repensada a sua relação de proximidade física e adjacência, e nos dias de hoje vemos inúmeras sucursais espalhadas por diversos pontos das cidades, cujo objetivo é a formação de uma rede que não pára de se multiplicar para alcançar um número máximo de concentrações populacionais e assim solidificar a sua existência. Neste sentido, concorda-se com Castells que afirma que a Comunicação Mediada por Computadores (CMC) não substitui outros meios de comunicação nem cria novas redes: reforça padrões sociais já existentes. Portanto, as redes de CMC acabam por criar um novo paradigma, contrariamente ao que era esperado, e afirmam com grande determinação a necessidade de comunicação pessoal e o aperfeiçoamento da informação. Castells considera que as redes eletrónicas em geral, tendem a reforçar o cosmopolitismo das novas classes profissionais e empresariais que simbolicamente moram numa estrutura de referência global, ao contrário da maioria da população de qualquer país; nesse molde denuncia também a crescente concentração espacial da camada superior das atividades melhor sucedidas em centros nodais de alguns países. Tal concentração segue uma hierarquia entre camadas dos centros urbanos com as funções de nível mais alto, tanto em termos de poder quanto de qualificação, e está localizada em algumas importantes áreas metropolitanas. Daqui pode erigir-se uma versão comparativa que será o reverso da moeda do exemplo de homebanking: por um lado, a distribuição dos serviços numa organização territorial em rede permite uma espécie de hierarquia humana horizontal abrangente; por outro lado, se considerarmos o funcionamento de qualquer empresa que aja de acordo com uma hierarquia vertical evidencia-se que, numa troca de serviços, o face-a-face mencionado por Ascher é reservado aos constituintes mais altos de uma indústria ou comércio. A deslocação física e real destes indivíduos atribui imediatamente valor ao negócio, tal como a força, num debate, exercida por um argumento de autoridade. As simples tarefas, delegadas a trabalhadores secundariamente posicionados na hierarquia empresarial, passam a ser, na sua maioria, acordadas através de net-working ou pela elegância profissional de mensagens de correio eletrónico eficientes. Assim, as relações entre camadas, seja de empresas ou de centros urbanos, revelam meandros que alteram as dinâmicas espaciais que, num passado recente, os configuravam. 31

56 Podemos atribuir às tecnologias digitais a capacidade de acrescentar valor ao espaço direta e indiretamente; por um lado, produzindo uma fusão no espaço que potencie o conforto, a eficiência e a versatilidade do mesmo; por outro, aumentando a virtude da sua localização num sistema urbano em rede e múltiplo, através da acessibilidade que a conetividade lhe faculta. Afigura-se a reestruturação espacial através da desfragmentação e recombinação quando a cidade é pressionada a acomodar o impacto nas TIC nas lógicas de organização do solo. 32

57 01.3 A CIDADE CONTEMPORÂNEA A cidade contemporânea atinge assim uma forma dominadora, uma escala visual cujo domínio o homem não pode controlar, e domina e absorve no seu crescimento todo o espaço que a envolve, quer o espaço horizontal onde assenta, quer o espaço vertical que as possibilidades da técnica lhe permitem ocupar. E no seu crescimento incontrolado arrasa tudo, desde a paisagem natural até ao próprio homem que a cria ( ) e cresce, cresce sempre porque para a cidade parar é morrer (TÁVORA, 1982). Ainda que os ambientes urbanos estejam em contínua mudança, há uma certeza: o passado é fixo e o futuro está em aberto. A nova identidade urbana encontra-se atualmente mais definida pela relação espaço-tempo-informação e as causas que despoletam estas modificações dos espaços urbanos podem ser de múltiplas origens. A cidade era tradicionalmente um palco onde se cruzavam culturas, ideologias e conceções societais de diferentes contornos. O espaço era rico em matizes sociais e económicas não perdendo, no entanto, a unidade que integrava a diversidade. Atualmente, a complexidade urbana adensa-se e desgastam-se os alicerces da cidade moderna, é necessário formular novas hipóteses que tenham em vista soluções ativas, que venham adicionar algo à conjuntura atual (GUERRA, 2003:238). Definir a cidade contemporânea, as suas dinâmicas e as necessidades de quem nela vive, é uma tarefa crítica, que exige um reconhecimento expressivo das novas articulações da urbanidade em que nos movemos. A cidade afigura-se, hoje, como um organismo que abdicou da sua singularidade, acentuando o plural da diversidade, e que começa a erradicar dicotomias como o individual e o coletivo, o global e o local, o económico e o social, o espacial e o ambiental, etc., em detrimento da uniformidade ou da densidade dos seus assentamentos (Idem; Ibidem). A escolha do conceito mais adequado para caracterizar a complexidade do território não é consensual, dir-se-ia até que a cidade contemporânea parece opor uma firme resistência à descrição. 33

58 Existem diferentes formas de pensar e apelidar a nova cidade, onde os imparáveis avanços das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) desempenham um papel capital na configuração das exigências da sociedade que nela habitam. Este conceito vai variando em função dos autores: Saskia Sassen, Cidade Global; Francesco Indovina, Cidade Difusa; Rem Koolhaas, Cidade Genérica; William J. Mitchell, Cidade de Bites; Giuseppe Dematteis, Cidade em Rede; François Ascher, Metapolis; Thomas Sieverts, Paisagem Urbanizada; Charles Landry, Creative City; e, certamente, muitos outros. Estes autores analisam o conceito de cidade na contemporaneidade e propõem modelos conceptuais para aquilo que entendem ser os elementos reguladores da cidade atual. O âmbito deste ponto da investigação não é conceber uma análise exaustiva do novo conceito de cidade, mas enfatizar pontos relevantes nesta incessante mutação das novas dinâmicas urbanas que, por sua vez, atribuam à organização do espaço urbano características sociais e culturais, ou seja, que vão para além da referência de cidade apenas como entidade física. No decurso das últimas décadas, o urbanismo mundial fetichizou os conceitos vagos, geradores de crenças simplificadoras. O facto de isto ter tido alguma eficácia não impede que o conjunto do pensamento urbano dominante se encontre esterilizado e que não seja capaz de se interrogar e de construir enigmas sobre o assunto (BOURDIN, 2010:27). Segundo ASCHER (2010) o novo urbanismo, nos diversos modelos ocidentais, que decorre desde o final do século XX, caracteriza-se pela libertação do pensamento funcionalista, demasiado simplista, e pela introdução de novos conceitos como a reflexividade, incerteza, risco, autonomia espácio-temporal, flexibilidade, participação, gestão urbana estratégica e performancial. Este novo urbanismo começa por analisar as escolhas possíveis e por decantá-las em função do que o urbanismo começou a produzir, contrastando com a antiga prática de apenas beneficiar dos conhecimentos anteriores a determinadas ações. Esta abordagem de reflexão passa a ser um movimento contínuo, que conduz a circunstâncias de incerteza e risco que podem ser apuradas, visto que os riscos estão, cada vez mais, inerentes à vida do Homem e ao cerne do debate público num mundo que não os pode evitar, mas que pode tentar decidir aqueles que aceita e a que preço (Idem:38), erigidos socialmente e amparados na formalização de princípios específicos, questionando as suas pré-existências sem, no entanto, os desrespeitar. Na lógica da 34

59 Recombinação, destaca-se o tema da autonomia espácio-temporal, sob a perspetiva da deslocalização: o local já não é decisivo para a maior parte das práticas sociais nos diversos campos do trabalho, da família, dos lazeres, da política, da religião, entre outros. Evidentemente, isto não significa o desaparecimento destas relações tal como as conhecemos, todavia é essencial entender que os instrumentos de transporte e comunicação evoluíram ao ponto de abrir novas possibilidades de escolha, em que o local já não é herdado nem imposto, mas entra nas lógicas reflexivas, em decisões tanto mais complexas quanto mais as pessoas ou as organizações dispõem de meios para se deslocar e telecomunicar. Isto não deixa de apresentar problemas de coesão social, pois estas lógicas de relacionamento podem gerar novas formas de segregação (Idem:39). A vida quotidiana contemporânea, inundada de insignificantes acontecimentos casuais afasta o Homem do que poderia ser uma rotina diária, introduzindo na cidade o conceito da flexibilidade. A cidade tenta adaptar-se a esta necessidade de variados lugares ao ritmo das horas, e os laços sociais atuais, embora sejam mais débeis e menos estáveis são, no entanto, mais abundantes e mais variados. Esses laços pertencem a múltiplas redes sociais, correspondendo cada uma, a um campo social distinto, que normalmente não se sobrepõe, e aonde o indivíduo é o elemento comum, mas interagindo em cada um de forma diferenciada e autónoma. Num contexto cada vez mais variado e de circunstâncias menos previsíveis, as cidades padecem de uma dependência da participação dos atores urbanos e da emergência de um plano de gestão urbana estratégica, articulando de uma nova forma o longo e o curto prazo, através de múltiplos avanços e recuos, a grande e a pequena escala, os interesses mais gerais e os interesses mais particulares. É ao mesmo tempo estratégico, pragmático e oportunista (Idem:80). Este oportunismo aqui interpretado como a criação de oportunidades é palpável no sentido em que, ao almejarem ultrapassar os seus limites administrativos, as estratégias que regulam a urbe identificam-na como uma organização mutável com fins variados, um conjunto com muitas funções criado por muitos, de um modo relativamente rápido (LYNCH, 2008:95) e, assim sendo, multiplicam os seus centros, expandem a sua área de influência com novas redes de infraestruturas, especializam umas zonas e tornam outras mais tolerantes a diferentes apropriações, uma vez que uma especialização total, ou uma engrenagem perfeita, são efeitos improváveis e indesejáveis (Idem;Ibidem). 35

60 Pressupõe-se que, assim, as cidades venham gerar um crescimento (voluntária e incontornavelmente) manifesto em redistribuições, em alterações de intensidades que, por sua vez, originem profundas mutações. A hábil maneira das mutações penetrarem nestas estratégias não significa, em boa verdade, uma perda de equilíbrio, reconhecendo-se que a forma tem, de certo modo, que não ser comprometedora, mas ligeiramente moldável aos propósitos e às perceções dos cidadãos (Idem; Ibidem). A cidade contemporânea procura atingir, então, uma performance que lhe permita explorar os acontecimentos e as forças mais diversas de forma positiva em relação com os seus objetivos estratégicos, para incluir diferentes formas sociais e urbanísticas que mais convenham aos citadinos para viver, crescer e mudar (PORTAS, 2010:13). De acordo com LYNCH (2008), prevê-se que essa performance utilize a estrutura de cariz complexo da cidade, que embora seja contínua como um todo, permanece intrincada e móvel: maleável aos hábitos de milhares de cidadãos, aberta a mudanças de função e significado, recetiva à criação de novas imagens, a cidade deve convidar aqueles que nela vivem e os que a visitam. Entende-se que a cidade contemporânea é rica na sua indissociabilidade a episódios de variada natureza e que, por essa razão, os indivíduos que a habitam que também a constroem encerram em si uma complexidade social que se manifesta como plural e multipertencente, e cuja diversidade de esferas de atividade gera, inversamente, formas de cidade. Anuindo com a descrição de Secchi, a cidade contemporânea é o lugar de contínua e tendencial destruição de valores posicionais, de progressiva uniformização e democratização do espaço urbano; de destruição de consolidados sistemas de valores simbólicos e monetários, de contínua formação de novos itenerários priveligiados, de novos lugares de comércio, de lazer, de comunicação e de interação social, de uma nova geografia de centralidades, de novos sistemas de intolerância, de compatibilidade e incompatibilidade (SECCHI, 2012:93). Compreende-se que a urbe contém várias formas de evolução e de expansão que são impulsionadas por dinâmicas divergentes, que crescem para além dos antigos limites administrativos, multiplicam os seus centros, especializam algumas zonas e expandem a sua área de influência com novas redes de infraestrutura, incluindo agora a lógica espacial dos fluxos que alterou fundamentalmente a expressão das relações de vizinhança e hierarquia na organização do solo. Tem-se demonstrado como um fenómeno em constante 36

61 transformação quer pela sua escala quer pela sua combinação funcional, padecendo, de certa forma, de alguma instabilidade. Deste modo, a cidade contemporânea tem sofrido ora por caracterizações especulativas, ora por intervenções urbanísticas de natureza fragmentária, nas quais as entidades e profissionais responsáveis se conduzem por uma espécie de atitude remendatária. O desenvolvimento urbano, particularmente nos grandes centros urbanos, é um fator essencial; sendo que na maior parte das vezes a expansão desordenada das cidades foge ao planeamento dos órgãos competentes, resultando num somatório de ocupações e utilizações desordenadas do solo, à expansão da malha urbana das cidades sem o acompanhamento apropriado. À luz deste entendimento, pretende-se apresentar uma estratégia de abordagem sistémica, oriunda do conceito da Recombinação, na procura de um contributo não de uma cura da àrea do conhecimento da Arquitetura, às formas de re- estruturação das cidades quando as suas combinações, herdadas por uma determinada época ou lugar, são sujeitas a pressões para crescer ou acomodar novas necessidades. A cidade não é uma obra de arte um artefacto, mas sim qualquer coisa que constantemente se está fazendo e desfazendo. É, por consequência, um processo vivo. A cidade constrói-se dia a dia, mas não esqueçamos que toda a construção se processa a par de uma destruição, e que tudo na vida, segundo um destino inelutável, tem como pano de fundo uma morte. Uma cidade que se constrói é, ao mesmo tempo, uma cidade que se destrói; e é precisamente na maneira de articular esta dupla operação de construção-destruição que reside a possibilidade de as cidades se desenvolverem harmoniosamente, visto que o ideal é a construção se faça com o mínimo de destruição possível e, sobretudo, que essa destruição não seja senão uma readaptação inteligente às novas exigências. Se uma cidade em fase de desenvolvimento acelerado consegue que as velhas e as novas estruturas se acompanhem, tanto melhor (GOITIA, 2010:189). 37

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63 02 DA RECOMBINAÇÃO À ARQUITETURA 39

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65 02.1 INTRODUÇÃO AO CONCEITO Cada época tem um momento no tempo e esse momento tem requisitos próprios que, com a evolução de variados fatores como as dinâmicas económicas, as redes de comunicação e as suas combinações funcionais caracterizam uma forma de espaço urbano em rápida mudança. Essa mudança, originada pelos fruidores, gera novas ordens físicas e sociais, e produz, sobretudo, novas reinvindicações do ponto de vista de satisfação das suas necessidades. É um mecanismo cíclico, mais ou menos afetado por caraterísticas geracionais, que existe ao longo do tempo. Assim, os projetos urbanísticos procuram organizar o espaço tendo em consideração as necessidades atuais e futuras da sua sociedade, a fim de melhorar e integrar os seus cidadãos. Resultante das diversas transformações da sociedade e da sua apropriação do solo urbano emerge a necessidade de reorganizar e reabilitar a urbanidade, colmatando as suas carências e anunciando renovadas soluções. Na publicação intitulada como Primeira Lição de Urbanismo (2012), Bernardo Secchi classifica a cidade contemporânea como um lugar de mescla e diversificação, ( ) por natureza instável (Idem: 91). Explica que a instabilidade da cidade contemporânea, o contínuo deslocamento e reorganização das diversas atividades, a obsolescência e desativação, os fenómenos de degradação e filtering-down aos quais dão origem, as ações de reutilização, recuperação e o upgrading que a eles eventualmente se seguem ( ) são, ao mesmo tempo, a causa e a expressão de uma contínua destruição-democratizaçãoreconstrução dos valores posicionais e dos horizontes de sentido que se apresentam a nós sob a aparência do caos (Idem: 92). O autor critica a posição de muitos urbanistas afirmando que o urbanista, frequentemente, quis representar-se a si mesmo numa dimensão mítica, como uma espécie de S.Jorge que mata o dragão, este representado como aquilo que se opõe à salvação da cidade: o poder das tradições, de uma classe, da renda, da má administração (Idem:21); e não é o único, também Rem Koolhaas (2010) fala de projetos em escritórios de arquitetura, de que nunca ninguém ouviu falar, todos vibrantes de uma inspiração inovadora. Supostamente mais modestos que os seus colegas mais conhecidos, ( ) estão ligados por uma consciência coletiva de que algo vai mal na arquitetura e que só pode ser corrigido mediante os seus esforços (Idem:57). Reconhece-se que a complexidade 41

66 Figura 9 O Homem como Palácio Industrial. Imagem: Fritz Kahn

67 da cidade e sociedade contemporânea necessita de um novo projeto, um que não caia na ilusão de que pode existir uma iniciativa capaz de dar xeque-mate ao rei, ingénuo e evasivo ao pensar em substituir o complexo de instrumentos aperfeiçoados de experiências plurisseculares por um único modo de construção do projeto da cidade (SECCHI, 2012:176). Assim, entende-se que a aceleração da passagem do tempo na contemporaneidade implica uma espécie de estratégia 12 de refreamento, implica que as diversas formas de projeto sejam compostas segundo cenários que as coloquem ao longo do eixo do tempo. Cenários e estratégias constroem um intervalo no qual são colocados o projeto da cidade, o plano e as políticas urbanas. Por isso, a construção de cenários e de mapas estratégicos tornou-se fundamental (Idem;Ibidem). O autor encara a prática do urbanismo como algo que sempre adquiriu sentido através de uma narrativa, que se apresenta através de processos de agravamento e de melhoramento, respetivamente: o primeiro, como doença, que se distancia das condições originárias e felizes, sem ordem nem medida, com um empobrecimento geral progressivo; o segundo, como salvação, através da obtenção de uma situação salubre, confortável e segura; sendo que o caminho entre os dois é a identificação dos obstáculos a ser eliminados e dos meios que possam apresentar uma melhoria (idem:21). Esta categorização entre doença e salvação é em muito semelhante à analogia entre o corpo humano e o funcionamento do corpo da cidade como organismo vivo, e à importação de termos do domínio do saber médico, presente nos mais antigos trabalhos e teorias sobre o espaço urbano Uma estratégia é um modo de coordenar e organizar, no espaço e no tempo, um conjunto de ações conduzidas por uma pluralidade de atores movidos por interesses específicos e dotados de competências específicas, cada um dos quais age em completa autonomia ou sob fracos níveis de coordenação. Por isso, uma estratégia necessita de consenso, deve configurar-se como projeto, mecanismo e conjunto de políticas com a finalidade de realizar situações futuras, que possam ser reconhecidas por todos como sendo melhores que as atuais e para as quais valha a pena mobilizar recursos humanos, físicos e financeiros. ( ) O mundo contemporâneo não é marcado pela falta de um princípio de racionalidade, mas pelo surgimento de múltiplas racionalidades afirmadas, de modo irredutível, pelos respetivos protagonistas; racionalidades que frequentemente não se encontram sobre o mesmo terreno e, ao mesmo tempo, que investem não só em metas mensuráveis em termos aquisitivos, mas também em valores consolidados pela tradição ou pela pesquisa de novas formas de afetividade (SECCHI, 2012:178). 13 Ildefonso Cerdá, considerado o primeiro teórico do urbanismo, na Teoria General de la Urbanisation (1859), serve-se de uma abordagem biológica e de uma metodologia própria dos seres vivos, recorrendo à Anatomia e à Fisiologia, com o objetivo de cientifizar sua teoria. Para a filósofa francesa Françoise Choay (1985), a redução do urbano ao biológico visa à medicalização da cidade doente. O desfuncionamento do espaço é o sintoma mais visível da doença social (COSTA, 2002:62). Outros exemplos da repercussão do discurso médico na ordem urbana são encontrados, principalmente entre os pré-urbanistas e os urbanistas progressistas dos séculos XIX e XX, onde se destacam algumas propostas de cidades utópicas cujo objetivo comum era mais a salubridade dos espaços por oposição a um paralelismo linear com o corpo humano, mas que mesmo assim merecem a referência: Owen e sua experiência em New Lamark (1816); Fourier propõe o Falanstério (1822); Cabet elabora o projeto de Ícara (1840); o médico inglês Richardson propõe Higéi a (1876); J.B. Godin, constrói o familistério de Guise (1874); Jules Verne escreve sobre Franceville (1879); Tony Garnier pensa sobre a cidade industrial (1917); Georges Benoit-Levy (1904) trata da cidade jardim francesa (diferente da cidade jardim inglesa de Howard); e Le Corbusier discorre sobre a cidade radiosa (1932) (baseado em COSTA, 2002:62 apud CHOAY, 1997). 43

68 Figura 10 Representação gráfica de uma estrutura de ADN. Imagem: Autor desconhecido. 44

69 Expressão de grande complexidade, embora frequentemente entendida de uma maneira muito redutiva, a figura do corpo, possuindo características, ao mesmo tempo, sistemáticas e diagnósticas, permite, em sua acepção principal, enfrentar e resolver, seja no nível da organização prévia de aparatos conceituais adequados, seja no desenho de formas físicas, um conjunto de questões atinentes à articulação e à integração, à forma e à dimensão, à localização e à conexão, à função e ao papel dos diversos elementos que compõem a cidade como partes de um corpo. A cidade será então como o corpo humano: um todo composto por partes distintas em função de suas propriedades intrínsecas, mas indissoluvelmente ligadas entre si ao longo dos eixos da hierarquia e da integração; partes em relação às quais poderemos, sem construir nexos determinantemente causais, julgar a correção da posição, da dimensão e da forma, referindo-as às funções e ao papel que podem e que são chamadas a realizar (SECCHI, 2012:37). Compreende-se que uma das principais e mais antigas estratégias de representação do equilíbrio elemento importante numa estratégia de refreamento foi a de recorrer à figura do corpo humano. O que importa retirar do excerto acima apresentado é que a natureza e, nomeadamente, o corpo humano, já foram antes considerados como elementos de inspiração; mas a noção de que o corpo humano funciona de forma sistémica, que articula partes em função de um todo e, sobretudo, que essas partes têm efeitos causais na correção da posição, dimensão, localização e conexão em que se pode estabelecer o paralelismo com as dinâmicas das cidades é a perspetiva que aqui interessa destacar, uma vez que se pretende importar o estudo do conceito da Recombinação Genética para a conceção de estratégias na abordagem à Arquitetura. Qualquer discussão que incorpore o termo Recombinação deve fazer referência à sua origem, que nasceu com Francis Crick, James Watson e Maurice Wilkins. Nos seus ensaios sobre genética, especificamente de ADN 14, em 1953, observaram a estrura deste composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o funcionamento de todos os seres vivos, e identificaram um mecanismo de mutação das células: uma sequência, hereditária, codificada e alterável, de aminoácidos que, se alterada, transforma a estrutura do organismo. Apelidaram esse mecanismo de mutação como recombinação. Por outras palavras, pode dizer-se que é o processo de crossing-over de 14 ADN, em português: ácido desoxirribonucleico; ou DNA, em inglês: deoxyribonucleic acid. 45

70 novas combinações de genes, que permite a mudança de atores e, consequentemente, das respostas dos mesmos às circunstâncias alteradas; como, por exemplo, a mutação de características de uma geração para outra 15. Se estabelecermos um paralelismo entre a estrutura do ADN e a estrutura da urbe, torna-se possível equiparar a sequência hereditária, codificada e alterável do ADN com os packages funcionais herdados das cidades. São estes que ditam funcões e organizações espaciais, e cujos componentes podem ser alterados reconhecendo a contemporaneidade do seu contexto e a necessidade contínua de resposta. O package funcional que até à Era da inovação tecnológica pressupunha uma combinação de componentes urbanos, agora enfrenta um contexto tecnologicamente inovador, mais complexo e também, mais completo, que começa a denunciar o enfraquecimento da combinação herdada através dos espaços obsolescentes nas cidades, uma vez que os termos da atividade urbana foram fundamentalmente alterados pela aceleração das redes de comunicação e do feedback da informação nos cidadãos, governos e empresas a uma escala global. A finalidade desta importação de um conceito não é a obtenção de uma resolução de cariz milagroso para fornecer uma solução dogmática aos espaços obsolescentes das cidades ao importar linguagens de outra área científica, mas tem sim o objetivo de 15 Por esta descoberta, Crick, Watson e Wilkins receberam o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina em Mais tarde, em 1990, James Watson coordenou um programa em que reuniu alguns dos mais avançados grupos de pesquisa em microbiologia para mapear o genoma humano, isto é, para identificar e catalogar entre 60 mil e 80 mil genes que compõem o alfabeto da espécie humana. Mediante esse e outros esforços, um fluxo contínuo de genes humanos relacionados a várias doenças estão a ser identificados, de modo que 7% dos genes humanos foram determinados em meados da década de 90 com o entendimento correto das suas funções. Com certeza, isso cria a possibilidade de ação nesses genes e nos outros que serão identificados no futuro, tornando a espécie humana capaz não a penas de controlar algumas doenças, mas de identificar predisposições biológicas e nelas intervir, portanto alterando potencialmente o destino genético (CASTELLS, 2000:66). 46

71 02.2 A RECOMBINAÇÃO COMO ESTRATÉGIA PARA A RECONFIGURAÇÃO DA URBANIDADE A expressão arquitetura recombinante surgiu pela primeira vez no já clássico City of Bits por Mitchell (1995), uma das primeiras obras a tratar de uma nova arquitetura para os espaços das tecnologias telemáticas. Mitchell chama nossa atenção para as oportunidades e possibilidades de se trabalhar com os espaços simbióticos. Embora o seu discurso seja marcado, em algumas passagens, por certo determinismo tecnológico, o seu trabalho representa um avanço na maneira como interpretamos as interações espaciais, sociais e culturais entre o físico e o virtual (FIRMINO, 2005:13). Embora Manuel Castells seja o percursor desta teoria, e as publicações de William Mitchell e de Rodrigo José Firmino que o seguiram sejam incontornáveis para uma melhor compreensão da articulação de sociedade, cidade e tecnologias; David Grahame Shane foi um dos teóricos que mais recentemente tentou aprofundar a relação entre este trinómio com a arquitetura, publicando em 2005 o livro Urbanismo Recombinante. Nesta obra, revela-se assombrado pela ideia de que pode haver um aparelho de sequenciamento urbano análogo à espiral biológica de código de ADN, e depara-se com o mistério de como os atores urbanos se relacionam com esta. Lança então a problemática da análise afirmando que mesmo para além da diferença de escala completa, há limites para as analogias que podem ser traçadas entre os dois campos, uma vez que o projeto deliberado das cidades é claramente diferente do fluxo de energia através de processos biológicos da mudança, e o fluxo de energia através de uma célula biológica é claramente diferente da do fluxo de energia através de uma cidade. No entanto, persiste a ideia de que os atores urbanos, compartilhado algum tipo de ADN urbano, fornecem uma inspiração que conduziu o autor à seguinte questão: quais foram esses padrões comuns e de que forma é que eles foram transmitidos de uma geração para outra? (SHANE, 2005:6). Sugere ainda que o processo de mutação genética pode ser visto nos padrões de desenvolvimento que reconhecemos como urbanos. Numa busca de maior eficiência, lucro, ou prazer, os atores urbanos juntam estruturas urbanas; estruturas essas que lidam com fluxos, e assim produzem novas configurações para as suas atividades ou reutilizam configurações antigas considerando a 47

72 Figura 11 Urban DNA. Imagem: Lionel Martinez,

73 alteração das circunstâncias e do contexto onde se inserem. De forma análoga à recombinação genética, Shane induz o conceito de Urban Splicing, um processo que envolve triagem, camadas, sobreposição e, finalmente, combinação de elementos díspares para criar novas combinações. A produção de formas mutantes ou híbridas podem trazer vantagens à cidade na medida em que o seu objetivo é permitir que os atores cresçam e mudem sem um futuro já prescrito, envolvendo-os neste processo da criação de espaços para as várias esferas das suas atividades nas camadas da matriz espacial das cidades (idem; ibidem). Há um grupo consistente de teorias das quais podemos desenvolver a difícil tarefa de reinterpretar o espaço e de redefinir a nossa maneira de intervir nas cidades. Fazem parte destas ideias, as noções de arquitectura recombinante, e de um espaço simbiótico e cibernético que mistura elementos físicos e virtuais, reais e irreais, na caracterização das actividades contemporâneas da sociedade urbana. É importante ressaltar que estas novas características não vêm substituir os elementos tradicionais do espaço, mas adicionar novas dimensões de interações físicas e virtuais, e complementar as esferas de relações sociais, culturais, políticas, económicas e territoriais na sociedade contemporânea. ( ) Neste sentido, parece ser uma tendência aceitável e uma necessidade do ponto de vista do planeamento e da arquitectura, que desenvolvamos e valorizemos conceitos e métodos que priorizem uma integração entre o desenvolvimento urbano-tecnológico (FIRMINO, 2005:17). A propósito desta integração do desenvolvimento urbano-tecnologico e voltando a José Rodrigo Firmino que publica, em 2005, A Simbiose do Espaço: Cidades Virtuais, Arquitectura Recombinante e a Atualização do Espaço Urbano; o termo recombinante é interpretado como um conceito onde estão presentes espaços urbanos híbridos, simbióticos e cibernéticos, que é a mesma corrente que Shane tenta explorar. Firmino explica que a cidade tem uma nova dimensão a considerar e a incluir nas intervenções arquitetónicas: para além dos elementos tradicionais, é também uma cidade virtual. Esta faceta virtual de cidade é lida como o espaço onde a era da informação deixa a sua marca pela utilização de instrumentos potencializados pelas TIC, que por sua vez se assumem como elementos transformadores do espaço. O que propõe é uma visão integrada que considere as tecnologias como parte dos processos de construção social, e que reconheça que uma urbe estruturada compreende uma coexistência de dialética de pessoas, objetos, território, 49

74 Figura 12 Pavilhão Água. Imagem: Atelier NOX, Figura 13 D-Tower. Imagem: Atelier NOX

75 instituições e fluxos oriundos de eras diferentes da história urbana (Idem:7). Firmino pensa que, se formos capazes de reconhecer os fenómenos que fazem parte das cidades virtuais com a mesma profundidade que entendemos vários dos aspetos urbanos tradicionais, estaremos a compreender um importante elemento da cidade na era da informação, ou um dos elementos da cidade informacional de Castells (Idem:8). Numa tentativa de aproximação à formalização, procura traduções daquilo que podem ser exemplos de arte ou arquitetura que sigam a sua noção do que é um padrão recombinante. Encontra apoio nos conceitos de transarquitetura e arquitetura líquida de Marcos Novak 16 (Idem:4), e seguindo uma espécie de apropriação que faz o conceito de recombinação parecer quase parasitário (no sentido de ganhar vida à custa de uma filosofia já existente na mesma área de conhecimento), menciona trabalhos do arquiteto holandês Lars Spuybroek, como o Pavilhão Água e a D-Tower (Figs ). O atelier de arquitetura NOX, liderado por Lars Spuybroek, defende a produção de arte e arquitetura em simultâneo, sendo que a sua característica fundamental é a procura da construção de elementos que sejam consumados do ponto de vista digital. Entre 1994 e 1997, conquista atenção pela construção daquele que foi considerado como o primeiro edifício inteiramente interativo, com uma geometria gerada digitalmente, o aclamado Pavilhão Água (ou HtwoOexpo, como também é conhecido). Nesta obra, adota a ideia de que arquitetura, espaço e corpo estão a tornar-se cada vez mais próximos. Para isso, o espaço foi criado para que as experiências fossem diretamente controladas pelos visitantes, cujos passos acionavam programas que geravam o uso coordenado de luzes, imagens, água e sons para produzir uma combinação de sensações relacionadas com a água. Por sua vez, o projeto D-Tower é uma instalação para a cidade de Doetinchem, na Holanda, que entre 1999 e 2004 se serviu de uma tecnologia que, através de um website, coletava mensalmente informações sobre a emoção dos participantes, para as transformar numa projeção instável de luzes e cores na praça pública. Desta maneira, os trausentes poderiam notar o que se supunha ser o humor da cidade (Idem:14). 16 O arquiteto Marcos Novak oferece uma maneira para considerar estes assuntos [as relações entre o virtual e o físico] nos seus projetos criando, primeiro, uma arquitetura líquida do ciberespaço, que oferece um espaço aumentado, isto é pensando como os mundos de informações devem ser configurados, e, segundo, uma transarquitetura de suas interseções com o mundo material [...] Novak sugere que ambos significam redefinir o campo urbano, desafiando três suposições profundamente incorporadas aos estudos urbanos. Primeiro, que o espaço é tridimensional e compartilhado por seus atores. Segundo, que o espaço é ou sólido ou vazio. E terceiro, que não podemos estar em mais de um lugar ao mesmo tempo (FIRMINO, 2005:4 apud Crang, 2000:306-7). 51

76 Interessa-nos, no entanto, remeter a lógica da recombinação a um contexto formal mais tradicional de arquitetura e do urbanismo. Se voltarmos ao paralelismo antes referido entre a estrutura de ADN e a estrutura da urbe, e se procurarmos um exemplo de package funcional que tenha sido recombinado para se integrar numa contemporaneidade tecnologicamente inovadora, temos o modelo da evolução dos layouts de agências bancárias no território (já aqui mencionados no ponto 1.2. do Capítulo I) como um exemplo clássico de arquitetura recombinante, uma vez que o desenvolvimento tecnológico, nomeadamente o aparecimento de caixas eletrónicas e do homebanking, veio redefinir os espaços físicos que estas instituições bancárias ocupam na cidade, manifestando dramáticas mudanças no tamanho e na distribuição das suas sucursais (Idem:15). Através do estudo daquilo que pode ser uma estratégia recombinante, pretende-se atingir uma perceção mais objetiva sobre os problemas de reorganização dos espaços, visando atrair intervenções que venham a gerar novas questões programáticas que se traduzirão, por sua vez, em novos valores formais. Entende-se que a recombinação pode ser uma atitude de impulso na arquitetura, como conceito e/ou estratégia de intervenção, que utiliza vários instrumentos que têm como objetivo, por sua vez, revigorar o espaço urbano ou objeto arquitetónico que se encontre obsoleto. É uma estratégia que articula instrumentos da arquitetura que na verdade já existem, dando-lhes uma expressão de conjunto e agregando-os a um novo conceito de intervenção no território para uma mudança na configuração e leitura do espaço que se propuserem solucionar. Para que o conceito de recombinação, na sua forma de estratégia-sonho, tenha um funcionamento similar ao de uma máquina bem oleada, é preciso, antes de mais, reconhecer que enquanto teoria assume a existência e a importância de pré-existências assume-se que estas pré-existências são multidimensionais, albergando vários formatos: sociais, físicos, paisagísticos, formais, entre outros e que atua, sobretudo, em áreas consolidadas. Manifesta-se como instrumento regulável, admitindo, desde a origem do seu termo, que se a sequência for alterada, a estrutura do organismo muda; ou seja, há que optar, em cada local, pela ferramenta mais adequada, tendo como objetivo final construir uma plataforma de desenvolvimento na cidade, que incentive à evolução, através da recombinação funcional, sustentável (no sentido de durabilidade do projeto), das práticas sociais e da 52

77 reinterpretação das principais características da identidade e dos motores que impulsionam a cidade, desafiando-os a crescer. Espera-se que a recombinação opere como um agente transformador da cidade na medida em que, perante qualquer lugar, aprenda a ler e investigar a combinação do mecanismo que originou um estado de fragmentação e de desarticulação, para posteriormente se permitir a apresentar uma mutação nos fatores existentes, uma nova articulação, sempre apoiada numa abordagem sistémica (por oposição às estratégias fragmentárias, em falência), recombinando o espaço como forma de voltar a conferir-lhe habilitações que o reintegrem no tempo, na sociedade, e no lugar onde se insere. Desta forma, o conceito opera uma transformação de cariz reconfigurativo, apoiado no entendimento de uma pré-existência multidimensional, em que as configurações prévias acabam por ceder em favor das novas. Assim sendo, aquando de um estado de decomposição da urbanidade, a recombinação pode adotar uma abordagem dividida em duas fases fundamentais: a primeira, onde se recuperam os espaços ou objetos que, apesar da sua débil condição, estabelecem ainda com algum vigor uma ligação à memória e a identidade do local em que se situam; a segunda, fazendo as ligações necessárias do espaço em análise à contemporaneidade através do projeto de novas formas de edificado, tendo presente que, atualmente, as cidades não precisam de mais expansão, mas sim de reanimar as zonas já existentes. A primeira fase traz imediatamente a questão da memória e identidade do local, à qual se dá especial atenção pela relação quase visceral que assume com os atores urbanos e pelos instrumentos que instiga à arquitetura utilizar. A identidade coloca qualquer interveniente num impasse relativamente à escolha de qual será o melhor investimento para a resolução dos problemas de uma cidade em estudo, porque articular passado, memória e contemporaneidade, é um trabalho de interpretação adverso e, geralmente, pouco consensual. A título de exemplo desta falta de consensualidade introduz-se aqui a referência a um texto que Rem Koolhaas (2010) publicou, em 1994, intitulado Cidade Genérica. Nesta caricatura da cidade contemporânea, Koolhaas expõe argumentos aguçados, e um deles é precisamente a perspetiva de que a convergência do passado com o futuro é apenas possível à custa do despojamento da identidade. Explica que este ato é geralmente visto como uma perda e que, à escala em que acontece, tem de significar algo, de ter um forte propósito 53

78 (KOOLHAAS, 2010:31). A questão que levanta é: quais são as desvantagens da identidade e, inversamente, quais as vantagens da vacuidade? Na medida em que a identidade deriva da substância física, do histórico, do contexto e do real, de certo modo não conseguimos imaginar que algo contemporâneo feito por nós contribua para ela. Mas o facto do crescimento humano ser exponencial implica que o passado se tornará em dado momento demasiado «pequeno» para ser habitado e partilhado por aqueles que estão vivos. Nós mesmos o esgotamos. ( ) A identidade concebida como forma de partilhar o passado é uma proposta perdedora: não só existe num modelo estável de expansão contínua da população proporcionalmente cada vez menos o que partilhar, mas a história tem uma ingrata meia-vida quanto mais se abusa dela, menos significativa se torna até chegar o momento em que as suas decrescentes dádivas se tornam insultuosas (KOOLHAS, 2010:31-32). Koolhaas parece aceitar a falência da identidade. No entanto, crê-se que devido à relação indissociável que a identidade assume com a memória dos atores urbanos, se deve compreender um equilíbrio entre o que se deve ou não manter e fundamentalmente porquê. As zonas e edifícios devolutos tiveram, em tempo útil, uma relação de causa e efeito na cidade a que não se aspira reconstruir na atualidade, porque o mais certo é que essa escolha fosse desprovida de sentido. Como diria Távora, o tempo joga como fator fundamental na dimensão da obra arquitetónica porque qualquer edifício tem uma vida, vida essa agitada uma vez que o cumprimento de determinadas funções concretas obrigam a uma atualização ou a um abandono que o alteram como espaço organizado (TÁVORA, 2006:16). O espaço é contínuo porque o tempo é uma das suas dimensões, e isso pressupõe uma irreversibilidade da sua organização: o espaço organizado nunca pode vir a ser o que já foi, está em permanente devir, e é uma falácia cair na utopia de supor que aquilo que já foi pode de novo vir a ser, esquecendo-se que a irreversibilidade do espaço não permite aceitar tal hipótese (Idem:19). Portanto, o que se pretende numa primeira fase é uma adaptação de certas estruturas ou das combinações iniciais de forma a que esses espaços sejam reintegrados na cidade, respondendo à evolução da contemporaneidade e às necessidades dos atores urbanos. Para que tal se torne possível, uma estratégia de recombinação é configurada pela 54

79 utilização de vários instrumentos já conhecidos no domínio da arquitetura, sendo eles: regeneração, reinterpretação, revitalização, reconversão, recuperação, reprogramação, reabilitação, entre outros. É relevante compreender que estas ferramentas, embora aplicadas num referencial de submissão à recombinação a sua função pode ser interpretada como servinte para definir opções ou parâmetros de intervenção são elementos-chave para a aplicação deste conceito. A razão que os classifica como elementos- -chave é que estas variáveis são proprietárias de características que as distinguem, mas têm, no entanto, uma em comum: o objetivo de operar uma mudança na configuração do espaço e de revigorá-lo, considerando o processo de impacto social, as políticas urbanas e os novos elementos programáticos. Sob pena da construção do texto parecer demasiado idealista, faz-se a seguinte salvaguarda: a recombinação é um conceito cuja aplicabilidade se manifesta através da impulsão, da inovação, da transformação, é especialmente aqui entendida como um contributo do domínio da Arquitetura para uma melhor gestão e construção dos territórios; mas convém também que se guarde em consciência a sua forma de contributo uma vez que, como muitas outras iniciativas, depende do empenho e comprometimento das entidades responsáveis do local para a sua promoção e crescimento 17. Para exercer recombinação sobre uma urbanidade é necessário entender a sua realidade, identificando quais as suas mais-valias, os seus valores, e os seus pontos fracos, as combinações iniciais e as funções de que estas combinações se responsabilizavam, procuravam responder e de que forma tiveram sucesso ou fracassaram. Na leitura de um espaço a intervir, a possibilidade de não haver nenhum objeto que mereça reabilitação também existe e, portanto, deparar-nos-emos com espaços de cidade obsoletos, desqualificados, degradados e que resultam numa indefinição ou rutura urbana. É nestes espaços que se assume a segunda fase de uma estratégia recombinante, fazendo as ligações necessárias do espaço em análise à contemporaneidade através do projeto de novas formas de qualificação urbana, seja pelo redesenho e requalificação do espaço público ou pela inserção de novas formas de edificado. Esta abordagem vem, por sua vez, recombinar muito daquilo que está à volta destes espaços, colmatando carências existentes; quer seja relativamente a um novo uso, forma, ou função. 17 Vejamos o exemplo da Casa das Artes do Porto, da autoria do Arq. Eduardo Souto de Moura. Projetada em 1 981, é construída entre 1988 e 1991 como Centro Cultural para a Secretaria de Estado da Cultura. Hoje, encontra -se abandonada e degradada. 55

80 56

81 02.3 CONFIGURAÇÕES DE UM CONCEITO RECOMBINANTE A regeneração, a reinterpretação, a reabilitação, a reconversão, e outros instrumentos semelhantes, atuando independentemente, são iniciativas que podem originar uma recombinação do espaço, mas que geralmente não são suficientes para dar o estímulo necessário a obsolescências que se marasmam há décadas e que apodrecem alicerces que outrora eram inabaláveis. A utilização destes instrumentos de forma pontual e fragmentária entrou em falência e, portanto, é necessário agregá-los ao conceito de recombinação, para que sejam aproveitados em função de uma abordagem sistémica, numa expressão de conjunto, que permita reabilitar as estruturas urbanas para que possam dar resposta aos requisitos que a contemporaneidade exige. Antes de mais, é necessário entender quais os contornos que definem estes instrumentos. Os termos que os intitulam inserem-nos numa comum categoria de res, o que significa que muitas vezes estes instrumentos partilham características basilares e podem fundir-se e confundir-se uns nos outros e uns com os outros. Por essa razão, tentar-se-á transmitir uma construção do que se entende como definição de cada um destes instrumentos, e seguindo a sua essência, fundir-se-ão uns e separar-se-ão outros, tendo como enfoque a importâcia que a sua constituição pode assumir agora que é agregada a um novo conceito. Por regeneração, em sentido lato, entende-se uma reconstituição parcial ou total de um tecido ou orgão destruído ou obsoleto. Através da regeneração, ou renovação, os tecidos urbanos passam por um processo de substituição das estruturas existentes, quer estejamos a tratar do desenho do espaço urbano público ou das formas de edificado que definem a malha urbana do solo a transformar. Este procedimento envolve, geralmente, a demolição de alguns edifícios e a construção de outros novos, quer por grandes operações de infraestrutura e emparcelamento, quer lote a lote para aumento de volume de construção; e uma total restruturação e redesenho de espaços urbanos (TAVARES, 2008:11). Esta operação pode ser pontual ou total, tratando-se de uma operação de planeamento (ou não) sobre a área a intervir. A associação deste instrumento à recombinação reside na leitura do entendimento histórico e socio-cultural, na gestão do seu impacto quando, ao operar uma transformação, tem como base uma planificação e uma ação de recuperação 57

82 Figura 14 Vista aérea do território antes da intervenção. Imagem: Autor desconhecido. Figura 15 Planta de implantação. Imagem: Solà-Morales. Figura 16 Vista de uma das ligações do Parque à Praia; Figura 17 Vista do jardim de ligação ao Edifício Transparente, 58 em pano de fundo; Figura 18 Vista do Miradouro no Edifício Transparente, agora fechado. Imagens: Godin

83 física do espaço urbano sabendo que esta recuperação vem, por sua vez, gerar novos elementos programáticos que vão dar uma nova combinação aos tecidos urbanos promotores de uma integração e coesão com o espaço, sociedade, e contexto em que se insere. Vejamos o exemplo da intervenção do Arq. Manuel de Solà-Morales para o Passeio Atlântico, no Porto. A regeneração da Frente Marítima da Cidade do Porto foi um projeto executado no âmbito da intervenção urbana associada ao evento PORTO 2001 Capital Europeia da Cultura, que representou a oportunidade de proporcionar aos portuenses um novo espaço urbano de excelência 18. Embora seja um projeto que tinha como palavras-chave a regeneração ou a requalificação, hoje podemos trazê-lo para o conceito da recombinação porque a estratégia que guiou esta intervenção dá crédito a esta nova leitura. O projeto de Solà-Morales deu origem a um melhoramento significativo do espaço público, criando diversas continuidades urbanas que careciavam de uma estrutura urbana que lhes atribuísse uma expressão de conjunto: na sua génese está a intenção de estreitar a relação entre dois elementos caracterizadores da cidade que se encontravam descontinuados, o Parque da Cidade e o Oceano Atlântico (Figs ). No mesmo seguimento de leitura do contexto multipertencente do espaço, surge a reinterpretação. O ato de re-interpretar é fundamental para a recombinação, visto que existem inúmeros espaços que apesar de fortemente consolidados na cidade não conseguem integrar de forma pacífica as necessidades da sua contemporaneidade. Como 18 Este projeto localiza-se na Frente Marítima da cidade do Porto, que se encontra em contacto com Matosinhos. Redefine o Parque da Cidade do Porto e a sua relação com o sistema de praias costeiras, os jardins Montevideu e o passeio ao longo da Avenida Montevideu. No projeto do arquiteto Solà -Morales estão definidas as seguintes ações: modelação de toda a área no sentido de reconstituir a Praia Internacional e restabelecer a ligação direta ao Parque da Cidade, seguindo-se o prolongamento do espaço verde até à costa; redesenho da Avenida Marginal, implantando -a a nascente do actual traçado, mantendo por ela a ligação entre as praças Cidade do Salvador e Gonçalves Zarco. A nova Avenida Marginal inclui um viaduto em betão branco sob o qual se estabelece a ligação direta entre a praia e o parque; construção de um edifício de lazer, também em betão branco, em frente ao mar, denominado Edifício Transparente, projeto que inclui um grande miradouro ao ar livre, coberto, ligado ao parque por uma rampa; requalificação do edifício da antiga subestação do Castelo do Queijo adquirido recentemente pela PORTO 2001 à Sociedade de Transportes Colectivos do Porto STCP, permitindo uma nova vocação ligada às atividades de hotelaria e lazer e ao apoio à utilização da praia; construção de um parque de estacionamento subterrâneo sob a Praça Gonçalves Zarco, com capacidade para 280 lugares. O parque de estacionamento tem ligações diretas à praia e ao Parque da Cidade, bem como a diversos pontos da Praça Gonçalves Zarco (Av. Montevideu e Av. da Boavista); redesenho da praça Gonçalves Zarco, incluindo o seu espaço envolvente, nomeadamente junto ao Castelo do Queijo. Assim sendo, o arquiteto redesenhou a Avenida Marginal, implantando-a a nascente do traçado original, mantendo por ela a ligação entre as praças Cidade do Salvador e Gonçalves Zarco; evidenciou uma leitura de território removendo o aterro que existia e repondo parte da topografia original do terreno, permitindo com isto, a partir do projeto, reinventar novas formas de continuidade ligadas à estrutura ecológica urbana. Há ainda uma adaptação do talude existente entre os níveis da avenida e da praia, incorporando elementos de comunicação e acesso entre eles (CAPELÃO; 2012:21). A intervenção foi alargada se considerarmos todo o caminho litoral entre a plataforma dos jardins e a margem rochosa da costa. Toda a conceção desta intervenção teve em linha de conta a necessidade de conciliá-la com outros projetos já executados ou planeados, designadamente o do próprio Parque da Cidade, criado pelo arquiteto Sidónio Pardal, das frentes urbanas viradas para a Av. da Boavista e para a Circunvalação, elaborados pelo arquiteto João Paciência, e da requalificação da linha marítima de Matosinhos, da autoria do arquiteto Eduardo Souto de Moura. 59

84 Figura 19 Praça de Santa Apolónia. Imagem: João Albuquerque Arquitetos Figura 20 Plantas de Implantação. Imagem: João Albuquerque Arquitetos Figura 21 3D s da proposta. Imagem: João Albuquerque Arquitetos

85 consequência, esses lugares tornam-se descontextualizados, pouco eficientes, e podem até gerar algum conflito na sua utilização. O conceito de recombinação utiliza a ferramenta da reinterpretação no sentido em que tenta entender qual a sua combinação funcional prévia para depois propor uma nova leitura do espaço que venha a reinseri-lo e a reabilitá- -lo. Vejamos o exemplo da proposta dos arquitetos João Albuquerque e Nuno Galvão para a Praça de Santa Apolónia, em Lisboa, ao abrigo da Trienal de Arquitetura de Lisboa De seu título Reinterpretação da Praça de Santa Apolónia, o exercício de design urbano assumese na vertente de clarificar zonas estáticas e dinâmicas de um espaço incontornável da cidade, e para isso parte de um pressuposto teórico forte: dramatizar as tensões e os fluxos da praça para com eles formalizar torções espaciais 19. Nasce assim a modelação de uma plataforma, que por sua vez pretende atribuir um estatuto urbano ao edifício da estação Santa Apolónia como interface de comboio, metro, autocarro, táxi, viatura particular e trânsito pedonal. O resultado é uma proposta onde existe uma convivência de diversas camadas de circulação que tentam desbloquear os conflitos que ainda hoje caracterizam o espaço, articulando de forma mais eficiente os atravessamentos, provendo o local de estacionamento e reabilitando-o enquanto interface da mobilidade urbana (Figs ). Entende-se que o termo reabilitação deve ser aqui entendido como a atitude de voltar a habilitar os elementos que compõem a urbanidade, ou seja, um método utilizado que tem como finalidade prover os componentes urbanos com aquilo que hoje é necessário para que possam ter uma nova vida, instrumento que se pode juntar às noções de requalificação e recuperação, de certa forma. A requalificação de edifícios e espaços públicos das cidades contribui para uma melhoria do ambiente urbano, muitas vezes do património urbano e da qualidade de vida da população; pretende-se que ao abrigo da reabilitação, e posteriormente, da recombinação, aja como intervenção integrada, abrangendo várias componentes da vida urbana. A recuperação aparece como um sujeito menor, por vezes associada ao restauro, mas relevante pelo apontamento de que a 19 Ao mesmo tempo que imaginávamos as possibilidades contidas numa praça como esta éramos forçados a reconhecer as limitações presentes em qualquer projeto os limites da intervenção. Neste ponto decidimos investir apenas no retângulo que define a praça conscientes de que uma intervenção como esta implicaria um investimento sustentado no tecido envolvente. Exemplos disso são o arranjo dos passeios que ligam à praça e um projeto que usasse o edifício da estação de Santa Apolónia como um interface de comboio, metro, autocarro, táxi, viatura particular e trânsito pedonal. Neste último seria evidente uma ligação subterrânea entre o estacionamento e a estação. É a partir destes limites que traçámos uma grelha que marca a praça. Esta mesma grelha, conceptualmente, é deformada pelos fluxos e pelos pontos de torção situados nas arestas de conflito entre os dois edifícios principais aí existentes, Santa Apolónia e o Colégio Militar. É sobre esta mesma grelha deformada e informada (pelas contingências locais) que a evolução projetual decorre, definindo circulações e vivências a estrutura e estereotomia do seu revestimento. Texto explicativo da proposta de João Albuquerque e Nuno Galvão, disponível em: [acedido a 14 MAR 2014]. 61

86 Figura 22 Vista aérea da Avenida dos Aliados de Barry Parker. Imagem: Autor desconhecido. Figura 23 Vista aérea da Avenida 62 dos Aliados de Siza Vieira. Imagem: F. Piqueiro

87 recuperação de edifícios antigos começou a ser tomada como alternativa à construção nova, o que não só permitiu a recuperação do património edificado e a reutilização de materiais, como a redução do consumo de energia e uma menor utilização do solo (TAVARES, 2008:11). Se nos colocarmos no referencial da recombinação, o próprio termo reabilitação urbana sugere uma intervenção mais ampla que a simples recuperação uma vez que da recuperação dos espaços à reabilitação dos tecidos há uma evolução de escala que nos conecta com a necessidade de agregar este instrumento a uma estratégia: trata-se de reabilitar a própria qualidade urbana, ou seja, de promover uma mudança de condição urbana, abrangendo aspetos tão diversos como os sociais, culturais e ambientais (idem:ibidem). Pode afirmar-se que a reabilitação urbana se tem revelado como uma excelente forma de revitalizar os centros históricos, tornando as cidades mais atrativas e mais competitivas, o que atualmente é muito importante para o desenvolvimento económico de cada região. Observando a obra do Arq. Álvaro Siza Vieira em parceria com o Arq. Eduardo Souto de Moura (responsável pelas estações de metro), para a Avenida da Liberdade e para a Praça dos Aliados da cidade do Porto (o conjunto vulgarmente conhecido como Avenida dos Aliados), deparamo-nos com uma iniciativa de reabilitação amplamente controversa. A Avenida dos Aliados existente era a traçada pela mão do arquiteto inglês Barry Parker nos inícios do século XIX (Fig.22) e edificada segundo o arquiteto portuense Marques da Silva, cujo ambiente se caracterizava pelo pavimento em basalto com desenhos alusivos aos descobrimentos e à colonização, carregado de jardins e árvores que a enriqueciam e que se enraizaram na memória e identidade da população local. Dois séculos depois, a avenida passou a ser cada vez mais atravessada por pessoas, carros e autocarros. Os passeios agora desnivelados, pedras que já não existiam, jardins pouco cuidados. Uma faixa central pouco convidativa à deslocação de pessoas, usada maioritariamente para repousar entre o caos de táxis, autocarros e carros em constante passagem. Uma avenida que em dias de festa ( ) não conseguia conter o enorme fluxo de pessoas que aí se deslocavam, mesmo com as suas enormes dimensões (SOUSA, 2007). Compreendeu-se que o perfil funcional da avenida já não conseguia dar resposta às mudanças que o tempo trouxe e que enfrentava agora também um novo paradigma, a necessidade de construir três estações do Metro do Porto e a recuperada circulação de elétricos, que vieram envolver outros perfis de residentes e consumidores, assim como uma nova mentalidade urbana (Fig.23). 63

88 Figura 24 Avenida dos Aliados nos Anos 40. Imagem: Alvão Domingues. Figura 25 Avenida dos Aliados atualmente. Imagem: Francisco Oliveira

89 O que se percepciona hoje em dia é uma avenida notoriamente urbana, bem regrada, feita para as pessoas, para os automóveis e para o metro, permitindo de uma forma absolutamente nova visualizar toda a riqueza arquitetural dos edifícios que formam a fachada da avenida e que até então nunca tínhamos tido a percepção. Transpondo esta ideia para o que se tem feito a nível europeu, existe um enorme interesse na remodelação de uma avenida como esta e com as dimensões que esta tem. O facto de a faixa central estar livre permite que as pessoas não andem só pelos passeios laterais, mas que façam o seu percurso pela faixa central. Ao descer a avenida tem-se a percepção da Sé do Porto que se lança no céu, tem-se os enfiamentos das ruas transversais à avenida que mantêm a sua riqueza arquitetural, tem-se a noção de se estar num espaço urbano, rico em história e que privilegia o fluxo de pessoas permitindo que o tráfego de automóveis siga de forma contida e regrada. A nova Avenida dos Aliados torna-se assim num espaço não só funcional, mas de criação. Torna-se num espaço de expressão artística, social e cultural, num espaço urbano no verdadeiro sentido do termo. A nova configuração da avenida permite, de uma forma nova, albergar toda a variedade de acontecimentos que acontecem regularmente e que não podem passar despercebidos, pois fazem parte da cultura urbana do Porto (SOUSA, 2007). Sob a lógica do tema em estudo, este é um exemplo claro de uma intervenção urbana que, embora não tenha sido executada segundo este conceito, se vista como um instrumento a ser utilizado, e com o devido distanciamento, lhe confere credibilidade. Em boa verdade, a reabilitação da Avenida dos Aliados passou exatamente pelo processo que aqui se tenta demonstrar: foi feito um estudo da combinação herdada e operou-se uma transformação considerando os paradigmas da atualidade. Depois de inúmeras críticas pela substituição dos jardins por um pavimento cinzento, a avenida tornou-se hoje num espaço público central, de referência e, sobretudo, originador de dinâmica urbana na medida em que aproveita a ausência total de vegetação rasteira para tirar partido de um espaço livre de barreiras físicas, acolhendo diversos acontecimentos sociais e culturais que incitam a uma interação social mais rica e evidenciam a vitalidade da cidade. 65

90 Figura 26 Fotografia da utilização atual da cobertura do edifício. Imagem: Produção Própria. Figura 27 Praça Lisboa antes da intervenção. Imagem: Filipe Paiva Figura 28 Planta de cobertura. Imagem: Balonas e Menano.

91 O facto de a nova avenida servir para muitas coisas é prova de que presta um serviço. Essa é a função de uma praça. Por outro lado, alguns dos aspectos que foram muito criticados na requalificação dos Aliados estão a revelar-se agora importantes para a realização de uma série de eventos (SCHRECK apud SIZA, 2010). Depois da reabilitação vem o termo revitalização, que vai ainda mais longe do que a reabilitação física e os efeitos sociais e económicos a ela associados. O cerne da revitalização é a referência à vida, o que evoca a uma ação de revigoramento a um tecido esgotado. Os projetos de revitalização pretendem introduzir ou restaurar o equilíbrio num sistema urbano degradado, sobretudo através de novos elementos programáticos que visam desencadear atividades que, por sua vez, criam dinâmicas que tornam o espaço mais atrativo e que lhe conferem um sentido de vitalidade no tempo. Encontramos como exemplo de um projeto de revitalização a proposta vencedora para o concurso público para concessão de direito de superfície 20 No Rules, Great Spot, lançado em 2007 ao abrigo da iniciativa Porto Vivo SRU. O concurso procurava ideias para a ocupação da Praça de Lisboa (ex-mercado do Anjo 21 e ex-clérigos Shopping 22 ); descrevia a praça como um espaço fundamental da cidade do Porto, situado na transição entre a pequena escala da cidade medieval e a grande escala dos projetos públicos da cidade burguesa do século XVIII/XIX 23. Via-se uma potencialidade de tranformação deste terrain-vague 24 num ponto de encontro essencial da cidade, não só pelos edifícios e diferentes áreas que podia relacionar, mas também pelos distintos públicos se pretendia que reunisse (estudantes, trabalhadores, turistas, reformados), bem como pelo permanente movimento de pessoas que cada vez mais ia articulando, quer durante o dia, quer durante noite. A proposta vencedora foi do atelier Balonas e Menano 25, que expôs uma 20 Nos termos do artigo 1524º do Código Civil, o direito de superfície consiste na faculdade de construir ou manter, perpétua ou temporariamente, uma obra em terreno alheio, ou de nele fazer ou manter plantações. 21 Uma vez terminado o Cerco do Porto, o recolhimento deu lugar a um mercado o Mercado do Anjo -, mandado erigir em 1837 e inaugurado a 9 de julho de 1839 para comemorar a entrada do exército de D. Pedro no Porto. Este mercado manteve-se em funcionamento até Por esta altura, a praça recebeu a designação de Praça de Lisboa. 22 O Clérigos Shopping, inaugurado em 1991, encerrou definitivamente em 2006 (quando o último resistente, o Café na Praça, fechou portas). Rapidamente, e, confirmando uma tendência já anunciada, o espaço tornou -se num centro de segregação e degradação da cidade. 23 Como a Torre dos Clérigos, a Cadeia da Relação, a Reitoria da Universidade do Porto e os edifícios do arquiteto Marques da Silva. 24 O conceito de terrain-vague: São lugares aparentemente esquecidos onde parece predominar a memória do passado sobre o presente. São lugares obsoletos nos quais apenas certos valores residuais parecem manter-se apesar da sua completa desafetação da atividade da cidade. (...) Em definitivo, lugares estranhos ao sistema urbano, exteriores mentais no interior físico da cidade que aparecem como contra-imagem da mesma, tanto no sentido da crítica como no sentido da sua possível alternativa (SOLÀ-MORALES, 2002). 25 O projeto foi a resultante de uma coordenação dos arquitetos Pedro Balonas e Simão Silva com Pedro Almeida e Pedro Pimentel. 67

92 Figura 29 e 30 Central Elétrica de Mediodía antes da reconversão. Imagens: Herzog & de Meuron. Figura 31 e 32 Fotografias da maquete do projeto. Imagens: Herzog & de Meuron. 68 Figura 33 Caixa Fórum Madrid. Imagem: Elisa Diogo

93 solução arquitetónica 26 que pretendia ser capaz de estabelecer um diálogo com uma envolvente de importante cariz patrimonial. O projeto trouxe um conceito inovador no comércio de rua da Baixa do Porto, recombinando as necessidades de exposição do comércio e restauração existentes e a necessidade de preservar e valorizar o património envolvente, revitalizando não só o espaço a que se propôs mas também a sua envolvente (Figs ). Por último, reconhece-se o conceito da reconversão. A reconversão é o instrumento da Arquitetura que permite ao passado, à memória e identidade de um lugar ou objeto arquitetónico, continuar a viver por via de uma transformação que o adapte às novas condições consequentes do progresso. A reconversão é, muitas vezes, a ferrementa mais chamativa não só do ponto de vista do impacto que tem na comunidade onde se insere, mas também pelo apelo que faz à criatividade o fascínio de poder de operar uma transformação considerando o que o passado registou e as infinitas possiblidades do que o futuro pode vir a ser. Nos últimos anos, face à expansão desmedida das cidades e aos efeitos negativos dessa opção, a atenção tornou a voltar-se para os núcleos urbanos e para a necessidade de requalificá-los, pelo que a reconversão passou a ser uma ferramenta eficaz. A obra elegida, mais do que um exímio exemplo de reconversão de objeto urbano, é aqui assinalada por ter extrapolado esse desígnio e ter tido um efeito direto na recombinação do espaço público que passou a representar. Fala-se do projeto CaixaFórum Madrid ( ), da dupla de arquitetos Herzog & de Meuron 27 para a reconversão da Central Elétrica de Mediodía (1899) 28. Encomendado pela Fundação La Caixa, o projeto contemplava um espaço urbano degradado, porém implantado numa zona de uma grande oferta cultural, no confronto com o Paseo del Prado e o Royal Botanical Garden, e numa área entre três museus importantes de arte em Madrid: Raina Sofia, Thussen-Bornemisza e Prado. Face a esta envolvente, o foco da intervenção que era originalmente a antiga central elétrica de Mediodía passou a contemplar uma área mais ampla, 26 A implantação da nova Praça de Lisboa aproveita a topografia do local, dividindo o volume edificado proposto em três camadas programáticas: no nível da cobertura, em memória do antigo Campo do Olival, fica agora novo Jardim do Olival, um jardim suspenso acessível pontuado com cerca de cinquenta Oliveiras; o nível médio alberga espaços comerciais, bem como uma das características mais importantes deste projeto: a criação de um novo arruamento pedonal que passou a fazer parte integrante do percurso ligando dois ícones da cidade, a Torre dos Clérigos e a Livraria Lello; o nível inferior caracteriza-se por um melhoramento das áreas pedonais bem como do estacionamento existente. 27 Em colaboração com o arquiteto Harry Gugger. 28 A Central Elétrica de Mediodía, projetada e edificada entre 1899 e 1902 pelo arquiteto Jesús Carrasco e pelo engenheiro José María Hernández é um dos poucos exemplos de arquitetura industrial do século XIX que persistem na cidade velha de Madrid. 69

94 albergando também o posto de gasolina frente ao edifício, e evoluiu o carácter de reconversão pontual para reconversão de objeto e urbana. Se o edifício era um desafio do ponto de vista estrutural e programático e se a fachada de tijolos da Central exigia preservação, por outro lado, a demolição do posto de gasolina era uma ótima oportunidade de abrir, no quarteirão denso, o espaço de uma pequena praça, criando uma franca ligação entre o Paseo del Prado e o edifício. A antiga central foi então transformada em CaixaFórum, um íman urbano, conciliando a atratividade programática como Centro de Artes com a do próprio edifício. Iconicamente reconhecido pela demolição dos muros que constituíam o piso térreo, e pela caixa em aço Cor- -Ten perfurada que lhe foi acrescentada, o edifício parece provocar leis da gravidade levitando sob uma nova praça pública coberta. A gestão de escala do volume é conseguida pela nova altimetria em linha com a sua envolvente imediata, e a relação do edifício com o espaço público é a perspetiva a sublinhar: não só cria um novo espaço urbano coberto, como lhe dá continuidade a céu aberto pela praça resultante da demolição do posto de gasolina, e dissimula a empena do edifício adjacente colmatando toda a riqueza de contrastes do local com o muro vegetal do botânico francês Patrick Blanc (Figs ). The only material of the old power station that we could use was the classified brick shell. In order to conceive and insert the new architectural components of the CaixaForum, we began with a surgical operation, separating and removing the base and the parts of the building no longer needed. This opened a completely novel and spectacular perspective that simultaneously solved a number of problems posed by the site. The removal of the base of the building left a covered plaza under the brick shell, which now appears to float above the street level. This sheltered space under the CaixaForum offers shade to visitors who want to spend time or meet outside, and at the same time, it is the entrance to the Forum itself. Problems such as the narrowness of the surrounding streets, the placement of the main entrance, and the architectural identity of this contemporary art institution are addressed and solved in a single urban and sculptural gesture (HERZOG&deMEURON, 2008) 29. O caráter icónico desta reconversão, alcançado através da abordagem arquitetónica abrangente de que foi alvo, recuperou na totalidade um espaço urbano degradado, reclamou um lugar nas políticas culturais, turísticas e económicas da cidade de Madrid, e 29 HERZOG&deMEURON Caixa Fórum. Disponível em: e-works/ /201-caixaforum-madrid.html201 [acedido a 30 - MAR 2014]. 70

95 acabou por conferir uma nova combinação ao local de implantação, de uma forma duradoura e, por isso, sustentável. Numa tentativa de clarificar em que consistem estas configurações de recombinação foram escolhidos exemplos de intervenções arquitetónicas, cada uma com o seu cariz, que tivessem em comum o objetivo de operar uma mudança nas dinâmicas do espaço onde se inserem. Como mencinado no início deste ponto da dissertação, a utilização destes instrumentos de forma pontual é, sim, importante, porém o que se pretende demonstrar é a força dos mesmos quando aproveitados em função de uma abordagem sistémica e ao abrigo do conceito da recombinação. Acredita-se que existem territórios intervencionados pela arquitetura que vieram dar resposta às alterações provocadas pela evolução do modo de vida da sociedade e que foram, portanto, recombinados sem serem apelidados sob esta denominação. Passar-se-á, então, ao estudo destes casos. 71

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97 02.4 CASOS DE ESTUDO A recombinação é um conceito recente na área da investigação da arquitetura, e o seu estudo resulta de um confronto de situações que não são imediatamente analisáveis pela necessidade de identificar variáveis importantes na leitura do seu conjunto. Como anteriormente referido, crê-se na aplicabilidade deste conceito e na existência de exemplos de estratégias arquitetónicas que o exploraram sem, no entanto, terem sido reconhecidas como recombinantes. Como tal, procuraram-se interações entre fatores que ajudassem a compreender este conceito e formularam-se três casos de estudo. Os casos de estudo escolhidos foram: a reconversão programática por via da reabilitação do edifício Tate Modern, em Londres; a estratégia urbana de requalificação de Bilbao e a regeneração urbana de Matosinhos pelo Metro do Porto. O processo de investigação pautou-se, numa primeira fase, pela leitura da combinação pré-existente, ou inicial, destes lugares pretendendo alcançar o entendimento da forma como a sua combinação configurava a estrutura arquitetónica da sua época, tendo em conta a sequência hereditária, o ADN, e a sua condição antes da transformação naquilo em que são atualmente; numa segunda fase, pelo estudo de como estes projetos de intervenção vieram reabilitar fatores incontornáveis da pré-existentência, alterando-os e transformando a estrutura do seu organismo que veio, por sua vez, gerar uma nova combinação. A apresentação destes casos pretende atingir um grau de particularização do assunto que auxilie na comprovação de que o conceito da recombinação aplicado à arquitetura é um fenómeno de interesse que merece ser investigado, realçando o que nele existe de mais essencial e caraterístico para que, desse modo, se possa tornar numa ferramenta de contributo a esta área de conhecimento. 73

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100 Figura 35 Localização geográfica da cidade de Londres. Imagem: Bing Maps Figura 36 Evolução da ocupação do território desde Imagem: Graham Stirck. 76 Figura 37 Local de implantação da obra. Imagem: Bing Maps

101 TATE MODERN O Tate Modern (Londres) é um projeto de reconversão da autoria da dupla de arquitetos Herzog & de Meuron 30. A reconversão deste edifício colocou-o como marco referencial na malha da sua cidade e, fundamentalmente, numa posição de impacto relevante na condução à revitalização da margem sul do rio Tamisa nas áreas urbanas de Southwark e Bankside, atribuindo à cidade de Londres mais um ponto de renovada dinâmica. Esta obra foi escolhida como caso de estudo uma vez que ilustra identidade e finalidade, um bom personificador de Recombinação Urbana. A reconversão é programática assume-se como instrumento principal da reabilitação do edifício que, por sua vez, conduziu à recombinação das dinâmicas envolventes, sendo muito evidente um dialeto fluído entre o passado e a contemporaneidade. It is exciting for us to deal with existing structures because the attendant constraints demand a very different kind of creative energy. In the future this will be an increasingly important issue in European cities. You cannot always start from scratch. ( ) And when you don t start from scratch, you need specific architectural strategies that are not primarily motivated by taste or stylistic preferences. Such preferences tend to exclude rather than include something. ( )This is a kind of Aikido strategy where you use your enemy s energy for your own purposes. Instead of fighting it you take all the energy and shape it in an unexpected and new way 31 (HERZOG&MEURON, 2000). Situado no coração de Londres (Fig.37), na margem sul do rio Tamisa, o edifício do Tate Modern albergava a Bankside Power Station, uma central elétrica, projetada pelo arquiteto inglês Sir Giles Gilbert Scott e construída em duas fases, entre 1947 e O edifício, constituído por uma estrutura de aço e com tijolo à vista (material muito utilizado 30 Herzog & de Meuron é a dupla formada pelos arquitetos suíços Jacques Herzog (1950) e Pierre de Meuron (1950), com atelier fundado em Basel, na Suiça, desde 1978; e vencedores do prémio Pritzker em Tradução livre: É emocionante para nós lidar com estruturas existentes, porque as restrições inerentes exigem um tipo muito diferente de energia criativa. No futuro, esta será uma questão cada vez mais importante nas cidades europeias. Não podemos começar sempre do zero. ( ) E quando não começamos do zero, precisamos de estratégias arquitetónicas específicas que não são principalmente motivadas pelo gosto ou pelas preferências estilísticas. Tais preferências tendem a excluir, em vez de incluir algo. ( ) Este é um tipo de estratégia Aikido onde usamos a energia do inimigo para os nossos próprios fins. Em vez de combatê-la, podemos apoderar-nos de toda a energia e moldá-la de uma forma nova e inesperada. 77

102 Figura 38 Bankside Power Station na altura do seu funcionamento enquanto central elétrica da cidade de Londres, Imagem: Anorak. Figura 39 Vista da Bankside Power Station para St. Paul s Cathedral, Imagem: Anorak. 78

103 na construção da cidade) é sobretudo conhecido por ser um projeto monumental com uma única chaminé central (Fig.38), característica que o levou a ser referido como a catedral do poder industrial 32 (GLOVER, 1994). Murray (2010) defende que os fatores económicos foram a principal razão para o declínio desta central. O aumento dos preços do petróleo em , como resultado da crise política no Médio Oriente, fez com que as centrais assim movidas se tornassem dispendiosas em comparação com as centrais que utilizavam carvão. No final da década de 70, a Bankside Power Station já só era utilizada nas alturas de maior necessidade, nomeadamente no inverno. A questão da poluição do ar e da água estava também a tornar inaceitável a sua permanência na área urbana. Enquanto isso, os avanços na tecnologia da época associada à engenharia elétrica trouxeram a grande rede de cabos de alta tensão, que permitiram a tranferência de grandes volumes de energia, tornando desnecessária a construção e permanência destas centrais junto dos grandes consumidores urbanos, facto este que ditou o fim da produção de energia na Bankside Power Station em outubro de Desta breve contextualização histórica do edifício conseguimos observar como a evolução tecnológica da época e os avanços do conhecimento na procura de salubridade deitaram por terra não só a função da central elétrica como os seus valores posicionais. Com essa desativação, também toda a estrutura e vida urbana que girava à sua volta pereceu. Vejamos que, entre 1947 e 1963, altura da construção original da Bankside Power Station, não havia interesse em ligar este fragmento da cidade à outra margem, a cativa pela referência da St. Paul s Cathedral e de uma vivência realmente distinta: interessava afastá-la, manter o seu cariz industrial e os seus problemas dissociados do quotidiano dos atores urbanos. Da mesma forma, o formato de ocupação física do território era facilmente identificável como pequeno núcleo industrial, com habitação para os operários e serviços locais que correspondessem às necessidades tanto da indústria como da classe operária. Aquando da desativação desta indústria, o local e toda a estrutura urbana envolvente tornaram-se manifestamente esquecidos. Com o passar do tempo, o futuro do edifício da 32 Segundo Murray (2010), as centrais elétricas têm sido uma característica da paisagem urbana desde o final do século XIX. A decisão de desenvolver Bankside, a última estação a ser construída na zona centra l de Londres, envolveu uma interação de fatores sociais, políticos, económicos, tecnológicos e ambientais. O processo de planeamento ficou caracterizado por uma tensão entre as necessidades de energia elétrica e a aceitação da implantação da estação, e o projeto acabou por ser impulsionado como resposta aos problemas nacionais de abastecimento de combustível de O consentimento para a construção da Bankside Power Station estava sujeito a condições que impunham a minimização do impacto físico e ambiental nos seus arredores, no entanto a eficiência das medidas tomadas foi questionável no decorrer da sua vida operacional. Questões económicas e ambientais conduziram ao seu encerramento em 1981, e a partir dessa década entraram em vigor projetos de recolocação dos edifícios industriais para fora dos núcleos urbanos. 79

104 Figura 40 Vista no interior do Tate Modern para a entrada principal. Imagem: Produção própria,

105 antiga central elétrica ficou incerto, uma vez que Bankside foi considerado inapto para entrar na lista oficial dos edifícios de importância arquitetónica ou histórica decidida em 1988 pelo Departamento do Meio Ambiente. Entretanto, surgiram campanhas para que o edifício fosse protegido como exemplar da mudança de atitude na arquitetura industrial que ocorria desde 1940 e, após uma década de inseguranças, em 1994 a Tate Gallery adquiriu o edifício para abrigar uma coleção de arte contemporânea. A dupla de arquitetos que venceu o concurso 33 para realização de obra neste terreno, Herzog & de Meuron, escolheu manter as caraterísticas marcantes da construção original de Sir Giles Gilbert Scott, implantando o novo programa nas antigas instalações. As alterações que se verificam exteriormente prendem-se apenas na criação de quatro pontos de entrada e na adição de uma estrutura vítrea de dois pisos em toda a extenção do volume, ultrapassando em altura a fachada da pré-existência. Segundo os autores, pretende-se que o local funcione como um ponto de encontro devido a uma estratégia arquitetónica de não tratar o complexo como algo gigantesco, como uma concha fechada (que era a intenção prévia), mas em vez disso, como uma paisagem com diferentes topografias de que os visitantes se podem aproximar e usar a partir de quatro direções definidas pela sua inserção urbana (HERZOG&MEURON, 2000). A estrutura vítrea é iluminada durante a noite, assinalando a sua presença na cidade e funcionando simultaneamente como um outdoor, onde são publicitados os eventos do museu. Os Herzog & de Meuron (2011) defendem, dez anos passados, que o Tate Modern mudou Londres desde o ano 2000, o que os leva a uma nova fase da obra, a contrução de uma torre anexada ao antigo edifício, que pretende reafirmar a sua leitura simbólica na paisagem urbana de Londres. Afirmam também que o impacto que a obra teve sobre o desenho urbano e sobre o desenvolvimento de Southwark, tem sido tão substancial quanto a sua influência na vida artística, cultural e social da cidade. O Tate Modern é agora um dos museus mais visitados do mundo da arte moderna, que integra plenamente as funções de exibição e de museu enquanto elemento social e de aprendizagem, reforçando o elo que liga o museu, a sua localidade e a cidade. A aquisição do antigo edifício industrial pela Tate Gallery, bem como a decisão de o reconverter por oposição a demoli-lo, veio ditar uma renovação ampla no pensamento 33 O concurso internacional para a seleção de um arquiteto para a reformulação do edifício da Bankside Power Station foi lançado em 1994 e, em novembro do mesmo ano, o número de participantes foi reduzido de 148 para 6. Desta lista constavam as propostas de David Chipperfield (David Chipperfield Architects), Rem Koolhaas (OMA Office for Metropolitan Architecture), Renzo Piano (Renzo Piano Building Workshop), Tadao Ando (Tadao Ando Architect and Associates), Herzog & de Meuron e, por fim, Jose Rafael Moneo. 81

106 Figura 41 Tate Modern visto a partir da Millennium Bridge. Imagem: Produção própria Figura 42 St.Paul s Cathedral a partir da Millenium Bridge. Imagem: Produção própria

107 arquitetónico urbano que marcou a viragem do século: a possiblidade de re-habilitar. O edifício que assistiu à falência da sua combinação urbana original, tinha agora uma hipótese de alcançar uma mutação das combinações funcionais que o caraterizavam, de reestabelecer ligações perdidas e de gerar novas dinâmicas. Note-se que uma das primeiras e mais evidentes alterações que o projeto de reconversão Tate Modern originou foi a ligação entre as duas margens do rio Tamisa neste ponto: em 2000 assiste-se à construção da Millenium Bridge, de Norman Foster, que agora liga fisicamente e com franco alinhamento, a antiga central elétrica a St. Paul s Cathedral, tornando Bankside num espaço público acessível a todas as pessoas da cidade (Fig.38). Não se pode, no entanto, ignorar que o cariz programático da reconversão assumiu grande relevância como instrumento principal da reabilitação do edifício e, sobretudo, da sua envolvente. A regeneração urbana por via da cultura tem desenvolvido cidades pela promoção de artes e indústrias criativas, considerando que a cultura é um instrumento que tem o potencial de regenerar áreas degradadas ao desenvolver a economia e assim contribuir para o aumento do emprego, para a melhoria da imagem da cidade e da sua qualidade de vida. Estes elementos atraem o investimento, o turismo, tornam as cidades culturalmente mais competitivas e tudo isto impulsiona uma regeneração económica, resultando numa mudança de atitude mais voltada para o progresso. Na área em estudo, verifica-se a atenção voltada para Southwark pelos projetos também já de referência implantados no local, como o More London Master Plan, do atelier de Norman Foster, que entre 1998 e 2003 reformulou uma área urbana e aí projetou um núcleo empresarial, incluindo a City Hall; e os NEO Apartments, projeto habitacional de luxo da autoria do atelier de Richard Rogers, construído entre 2006 e 2012, cujo local de implantação está imediatamente anexado ao Tate Modern. Embora o projeto Tate Modern não tenha partido do pressuposto da recombinação, acredita-se que devido à influência abrangente da sua concretização e dos resultados que obteve, é um exemplo que credita a utilização de uma das configurações ao serviço do conceito recombinante. O aproveitamento da Bankside Power Station foi fulcral para revitalizar Southwark, uma área subdesenvolvida de Londres, partindo de pressupostos válidos a qualquer estratégia, como o respeito pelo lugar e pela memória do edifício, que resultaram numa reativação de toda a sua infraestrutura. 83

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110 BILBAO Bilbao 34, capital da província de Biscaia do País Basco, Espanha, constituída por vários municípios ao longo do rio Nervión e terminando na sua foz, é uma das histórias incontornáveis no que refere ao grande sucesso da arquitetura contemporânea na regeneração urbana e crescimento económico de uma cidade, na sua criação como marca largamente associada ao seu ícone mundial, o Museu Guggenheim de Bilbao e no impulso à sua competitividade. O caso de Bilbao não pode ser simplesmente representado como sucesso de uma única intervenção, é necessária a compreensão de um processo mais vasto de transformação urbana, a fim de avaliar a real importância das estratégias subjacentes e do seu culminar evidente no museu. Se considerarmos a segunda metade do século XIX, encontramos a sua antiga combinação. Neste período, assiste-se à materialização de Bilbao enquanto cidade industrial, com base na exploração minéria de ferro das proximidades. O carvão era transportado por mar ao longo da costa da região das Astúrias para abastecer a revolução industrial, e a evolução dos sectores comerciais e financeiros floresce e desenvolve-se rapidamente, sustentado numa forte indústria de ferro, aço e construção naval, e no cariz portuário da cidade. As margens do rio Nervión são destemidamente ocupadas por fábricas e pelo alojamento dos seus operários (PLÖGER, 2007). No entanto, a década de 1980 traz a crise da produção industrial que vem afectar largamente grande parte dos municípios metropolitanos de Bilbao. Sendo uma cidade portuária, sofre um colapso urbano grave devido ao bloqueio generalizado de produção das fábricas de aço e do sector da construção naval, provocando altas taxas de desemprego, e a consequente perda da população e abandono dos terrenos poluídos (Idem). Perante esta agitação, acreditou-se que o futuro de Bilbao residia agora na elaboração de uma estratégia capaz de imaginar e articular 34 A área metropolitana de Bilbao é uma urbanidade contínua distribuída por 26 municípios, numa extensão de 370 kms 2 e com cerca de habitantes; cuja característica estruturante é a falta de terreno urbano para novos desenvolvimentos. 86

111 mecanismos eficientes para uma total transformação e recombinação da estrutura e vida da cidade, procurando manter os seus elementos identitários, tirando partido das suas qualidades e, simultaneamente, alterar a sua imagem externa mal-conotada de cidade industrial para pós-industrial, atual, em voga, atraindo eventos marcantes (como os Jogos Olímpicos), promovendo o turismo e as práticas culturais. Num registo de do or die, foi elaborado um plano estratégico para a cidade, com quatro campos fundamentais de acção: formação de um setor de alto conhecimento high-tech; renovação urbana, especialmente através da revitalização do centro histórico; intervenção ambiental, com a limpeza do rio e a reciclagem dos terrenos industriais, implantando premissas da Agenda ; e o fortalecimento da identidade cultural através da regeneração da cultura como elemento líder. A gestão do plano estratégico para Bilbao, para além da regeneração dos tecidos urbanos e do meio ambiente, e da sua transformação em centralidade cultural, assenta também no investimento de recursos humanos, na aposta de uma metrópole de serviço numa região industrial moderna, na mobilidade e acessibilidade, na gestão coordenada entre a administração pública e o sector privado e, por fim, na acção social (AURTENETXE, 2012). Entre 1980 e 2010 a cidade entrou num ritmo frenético de construção 36, mantendo sempre, no entanto, uma expressão articulada de conjunto. Vejamos os elementos de transformação: procurando resposta às questões de acessibilidade e mobilidade exterior e interior, desde a escala da cidade para o mundo até à escala para os seus cidadãos, o Porto de Bilbao foi alargado e, simultaneamente, foi entregue a Santiago Calatrava o desafio de projectar o novo Aeroporto. As portas da cidade ficaram assim consolidadas para o exterior, restando garantir a mobilidade no interior e, com esse propósito, foram definidas novas linhas e estações, atribuídas a Norman Foster de metro e de eléctrico, às quais foi associado um processo regeneração urbana através do desenho de novos caminhos e passeios. A qualidade urbana e do meio ambiental foi particularmente relevante se considerarmos que na Bilbao antiga a industrial o rio Nervión era a principal artéria para 35 A Agenda 21 foi um dos principais resultados da conferência Eco-92 ou Rio-92, ocorrida no Rio de Janeiro, Brasil, em É um documento que estabeleceu a importância de cada país a se comprometer a refletir, global e localmente, sobre a forma pela qual governos, empresas, organizações não-governamentais e todos os setores da sociedade poderiam cooperar no estudo de soluções para os problemas soci oambientais. 36 Foram executados mais de 150 projetos num espaço de 20 anos, expondo-se alguns dos mais mediáticos: Plan Saneamiento Integral de la Ría ( ); Plan General de Ordenación Urbana de Bilbao (1987); Bilbao-Ría 2000 (1991); Master Plan para Abandoibarra ( ); Metro de Bilbao, N. Foster (1994); Aeroporto de Bilbao, Santiago Calatrava (1996); Museu Guggenheim Bilbao, F. Gehry (1997); Palacio Euskalduna Concert Hall, F. Soriano e Palacios (1999); Bilbao Exhibition Center (2004); Alhondiga Building, P. Stark (2010); Garellano Master Plan, R. Rogers (2011); Iberdrola Tower, C.Pelli (2012). 87

112 Figura 44 Frente de água da zona de Abandoibarra, Bilbao. Imagem: Produção Própria Figura 45 Iberdrola Tower e Ría de Bilbao Housing Building. Imagem: Produção Própria Figura 46 Fotografia no interior de La Alhondiga. Imagem: Produção própria

113 a atividade económica da cidade, e esta função personificava uma barreira às áreas residenciais. Com o tratamento das águas do rio e subsequente qualificação das margens, desaparecem os vestígios das antigas fábricas em ruína e entram as linhas pedonais e os edifícios singulares que constituem uma frente de água consolidada, estimulando a utilização de meios de transporte mais ecológicos. A recente atitude de proximidade da cidade ao seu mais característico elemento, a água, influenciou significativamente a arquitetura da nova Bilbao. De acordo com Plöger, o projeto Bilbao Ría 2000 designou áreas de oportunidade 37, sendo que a região de Abandoibarra é o exemplo mais consolidado de uma estratégia de urbanismo assente no modelo de Recombinação que se pretende explorar neste documento, uma vez que aplica diversos fatores ao serviço de um resultado coeso. Tenhamos como referência o plano diretor elaborado pela designer urbanística Diana Balmori em conjunto com os arquitetos César Pelli e Eugénio Aguinaga, que perante um local industrial e fechado à população geral, pensaram um plano urbanístivo que transformou Abandoibarra no ponto nevrálgico de Bilbao. A mudança albergou não só o redesenho da estrutura viária, como incluiu um forte projeto paisagístico, estimulou a apropriação do espaço para novas funções garantiu a inclusão de diferentes transportes públicos, com alcance local e regional. Estabeleceram-se tentáculos de conexão locais e globais, com objetivos dinamizadores e de permanência, dos quais se salientam as pontes 38 que constituem as novas ligações entre margens do rio e a consolidação da reconversão urbanística 39 nesta região; a construção de cariz residencial 40, comercial 41, empresarial 42 e a introdução edifícios de serviços de apoio à cultura 43 ; 37 As áreas de oportunidade referidas são: Abandoibarra, região anteriormente ocupada na ribeirinha pelo porto de trocas comerciais e no centro por infraestruturas ferroviárias, cujo projeto envolvia a criação de um novo centro urbano; Zorrozaure, uma península contaminada por uma ocupação mista de baixo valor, de porto industrial, e de alguns edifícios residenciais com atividades complementares a este uso, sendo o objetivo do projeto reestruturar funções e albergar a extenção de Abandoibarra; Ametzola/Eskurtze, área a sul do centro de Bilbao dominada por uma densa construção de cariz residencial, cujo projeto almejava a superação no tratamento das divisões físicas originadas pelos cortes nas linhas ferroviárias; e, por fim, Miribilla e Morro, áreas mineiras abandonadas nas encostas montanhosas a sudeste do centro, que levou a uma estratégia de recuperação dessa zona através da construção de novas áreas residenciais. 38 Exemplifica-se a Ponte Euskalduna, de Javier Manterola; a Ponte Pedonal Pedro Arrupe, de José António Fernández Ordoñez; e a Ponte Zubi Zuri, de Santiago Calatrava. 39 Reforçada pela inserção da Praça Euskadi, de Diana Balmori. 40 O projeto residencial, Ría de Bilbao Housing Building, é da responsabilidade dos arquitetos Luis Dominguez, Xavier Martí Galí, Carlos Ferrater. Junto à Iberdrola Tower, de César Pelli, estes edifícios de habitação adquirem protagonismo pelo respeito pelos critérios historicistas sobre a delimitação da praça elíptica do século XIX, produzindo blocos individuais de oito pisos. 41 A aposta comercial mencionada tem como apogeu a construção do Zubiarte Shopping Centre, de Robert Stern. 42 A afirmação de Bilbao também como centro de atractividade empresarial é personificado por outro ícone da cidade, a Iberdrola Tower, da autoria de César Pelli. 43 Como a Biblioteca da Universidade de Deusto, de Rafael Moneo; e a obra resultante da parceria entre Álvaro Siza Vieira e Rámon Losada, a Bilbao Biskaia Kutxa, Reitoria da Universidade de Bilbao em Abandoibarra. 89

114 Figura 47 Museu Guggenheim Bilbao e Iberdrola Tower. Imagem: Produção Própria

115 considerando que o que catapultou Bilbao para a esfera global foi a aposta na construção de edifícios excecionais, tendo o exemplo do museu Euskalduna Palace e do Museu Guggenheim, sendo o último o mais emblemático e o maior impulsionador da cidade. A atividade inerente a esta forte inserção cultural teve repercurssões diretas e indiretas, não só na economia de Bilbao, mas em todo o País Basco. Ambos instigaram uma atividade secundária à sua volta, através do investimento nos recursos humanos e na inovação tecnológica, da alimentação de uma indústria competitiva e favorável ao seu meio envolvente, numa linha de alta produtividade à qual se agrega o valor humano de novos trabalhadores qualificados. O termo O efeito Bilbao tornou-se popular após a inauguração do Museu Guggenheim Bilbao (PONZINI,2010), mencionado por diversos autores 44, responsabilizando a espetacular obra de Frank Gehry pelo desenvolvimento da cidade. Esta ideia conduziu várias cidades à contratação de famigerados arquitetos contemporâneos na esperança que edifícios com o mesmo carácter espetacular originassem a repetição da fórmula de sucesso 45, adaptando esta narração a diversos contextos. Beatriz Plaza (1999) 46, uma das maiores investigadoras sobre o efeito do museu na cidade, considera que qualquer estudo sobre Bilbao deve questionar quanta influência é que o Museu Guggenheim Bilbao tem na escolha da cidade enquanto destino e conclui que a caraterização do museu enquanto edifício de vanguarda está a ter um impacto positivo e significativo, devido à sua capacidade em atrair turistas bem como no melhoramento da imagem da cidade. Alega que desde a sua abertura, a cidade tem demonstrado grandes atitudes de salto para o futuro, 44 Destacam-se as publicações de RODRIGUEZ A., MARTINEZ, E. e GUENAGA, G Uneven redevelopment: new urban policies and socio-spatial fragmentation in metropolitan Bilbao. European Urban and Regional Studies 8, ; RODRIGUEZ A., MARTINEZ, E Del declive a la revitalizacin: Oportunidades y limites de las nuevas políticas urbanas en Bilbao. Ciudad y Territorio/Estudios Territoriales, 129, ; GONZALES, S Scalar narratives in Bilbao. A cultural politics of scales approach to the study of urban policy. International Journal of Urban and Regional Research, 30.4, ; e PLAZA, Beatriz, nas suas várias publicações sobre o efeito do Museu Guggenheim Bilbao na cidade. 45 Ponzini(2010) enumera vários exemplos destas mesmas tentativas, a saber: nos Estados Unidos da América, refere às adições pretendidas ao St. Louis Art Museum, do Cincinnati Art Museum e do Columbus Museum of Art que foram recentemente adiadas, assim como os projetos de expanção abandonados da Albright-Knox Art Gallery em Buffalo, do University of California Berkeley Art Museum e do Pacific Film Archive; na Europa, aponta para uma grande quantidade de museus que estão a ser inseridos e discutidos como meios de regeneração do edificado e das áreas urbanas, visando impulsionar o desenvolvimento, a atração turística e o reforço da identidade local e nacional de algumas cidades, como o Guggenheim Hermitage Museum, em Vilnius, desenhado por Zaha Hadid, o Museu de Arte Contemporânea em Riga, da autoria de Rem Koolhaas, o Muzej Muzej Suvremene Umjetnosti em Zagreb, MNAC em Bucareste, KUMU em Talim (Estónia), o Museu de Arte Moderna de Varsóvia, Lumu em Budapeste e outros. 46 Though often dubbed a provocateur, Frank Gehry is known for designing seemingly impossible sculptural buildings like the Guggenheim-Museum Bilbao. The avant garde image of this monumental cubist sculpture of a ship (The Economist,1997) is having a significant positive impact on Bilbao due to museum s capacity for attracting tourists and for improving Bilbao s image. From the opening of the Guggenheim-Bilbao Museum, the city is exercising a great leap forward. Image externalities, derived from Frank Gehry s building, are not still. On the contrary, positive externalities are growing for the reasons analysed above. As a result, elasticity of substitution in demand is becoming smaller in the short run and, consequently, the impact on the number of visitors to the Guggenheim is relevantly higher (PLAZA, 1999) 91

116 Figura 48 Museu Guggenheim Bilbao. Imagem: Produção própria

117 uma consequência da sua popularidade refletida no crescente número de visitantes. Herbert Muschamp, colonista no New York Times, traz-nos uma perspetiva sensacionalista: The word is out that miracles still occur, and that a major one has happened here. The city s new Guggenheim Museum, a satellite of the Solomon R; Guggenheim Foundation in New York opens on Oct. 19. But people have been flocking to Bilbao for nearly two years, just to watch the building s skeleton shape. Have you been to Bilbao? In architectural circles, that question has acquired the status of a shibboleth. Have you seen the light? Have you seen the future? Does it work? Does it play? (MUSCHAMP, 1997:2). Muschamp classifica Bilbao como herdeira de uma ribeirinha industrial decadente, cidade de pontes e viadutos, marcada fortemente pela projecção do poder industrial do século XIX, onde a população ainda vive uma História pontuada periodicamente pela violência. Entende que esta visão é a fonte de inspiração de Frank Gehry, que o seu edifício é uma projecção de idealismos que consistem em transformar a metrópole industrial num centro urbano pós-industrial, lugar onde se espera que o turismo cultural e empresarial venha preencher o vazio deixado pela exportação da produção fabril para o terceiro mundo, substituindo os operários por trabalhadores mais criativos. A realidade é que o Museu Guggenheim de Bilbao 47 é talvez uma das obras mais estruturadas da carreira de Frank Gehry, é uma obra que parte de um núcleo cenográfico central e distribui as salas como pétalas em volta desse mesmo núcleo. A distribuição não é muito diferente do Museu Guggenheim de Nova Iorque, de Frank Lloyd Wright. O que muda entre ambos é a formalização, porque a estruturação espacial é similar. 47 A primeira ideia da Fundação Guggenheim para a implantação de um museu em Bilbao consistia na reconversão de um antigo armazém de vinho, e em 1991 confrontam Frank Gehry com essa intenção que, após a viagem a Bilbao, aconselha tranferir a sua localização para junto do rio. Foi então aberto um concurso para o qual foram con vidadas três equipas: uma europeia, a vienense Coop Himmelblau, uma americana, coordenada por Frank Gehry e uma asiática, liderada pelo japonês Arata Isozaki. A intenção fundamental da Fundação era que este edifício transmitisse uma forte identidade icónica por forma a atrair, pelas suas qualidades arquitetónicas, um público específico. O júri escolheu a proposta de Frank Gehry, caracterizada pela caprichosa forma escultórica, por materiais de revestimento brilhantes e pela orgânica integração da ponte vizinha e da frente urbana com a plataforma ribeirinha que estava numa cota inferior. A solução de Gehry apresentava uma longa forma orgânica dinamizada por um conjunto de lanternins com imagem de velas que reproduzem o efeito dum casco de barco. A densa sobreposição e interseção de formas com contornos curvos é acentuada pelo revestimento com um material reluzente e raro, bastante utilizado na indústria aeronáutica, o titânio. Esta pele em escamas alterna com placagem de pedra que se prolonga para os espaços interiores. O corpo central onde convergem todos os volumes, inicialmente em forma de flor, transformou-se numa torre de luz e de distribuição espacial que, pela sua verticalidade se opunha à grande sala de exposição que continha longos lanternins para entrada de luz zenital. Para além das longas salas de exposição do piso térreo, o museu possui um núcleo de galerias de exposição em solução clássica. Museu Guggenheim de Bilbau. 93

118 O carácter icónico do Museu Guggenheim em Bilbao (e também do Tate Modern London, apresentado anteriormente) e a responsabilidade que se atribui à sua presença conduz ao questionamento do príncipio da aposta cultural nas cidades e da atratividade das grandes obras arquitetónicas para a fixação de outros setores dinamizadores de cidade. Montaner e Muxí (2011) apresentam uma abordagem a esta questão em que considera o turismo como algo que se constitui dialeticamente como um sistema de atividades que se sobrepõe às estruturas existentes: explica que o sistema de turismo pode esgotar, empobrecer e destruir os sistemas naturais, sociais e urbanos; mas também, a energia e riqueza que produzem podem aproveitar-se de forma positiva como oportunidade para reconstruir e enriquecer os tecidos sociais, produtivos, urbanos e paisagísticos, que sozinhos não têm meios próprios suficientes para obter este resultado. Reforça ainda que o investimento neste setor pode servir para outorgar motivos de satisfação e orgulho para um grupo, cidade ou sociedade, e este é um ponto fulcral na relação emocional e identitária que as mutações estabelecem com a população que servem (MONTANER, MUXÍ, 2011:144). Un barrio con turistas no crea lazos sociales, no reivindica equipamientos ni elabora una conciencia política. Y no solo pierden las personas, sino también los barrios: el turista ni se compromete, ni cuida el barrio, ni reivindica equipamientos y espacios públicos, ni se solidariza, ni usa las papeleras, ni recicla, ni ahorra agua. No aporta nada a la ciudad donde reside ocasionalmente y, sin embargo, ocupa el lugar de un vecino real. Solo quiere que la ciudad esté a sus pies y a su capricho. Un debilitado deseo humano de utopía habría quedado por la seudoutopía posible y consumible de ver, distraída y ociosamente, cómo viven los otros, experimentando en una especie de panorámico parque temático global (MONTANER, MUXÍ, 2011: ) 48. arquitetónicas 49 Reconhece-se que a aposta cultural de Bilbao tem uma longa lista de intervenções que colocam a cidade como forte indicadora de transformação, de 48 Tradução livre: Um bairro com turistas não cria laços sociais, não reclama equipamentos nem desenvolve uma consciência política. E perdem não só as pessoas, mas também os bairros: o turista não se compromete, nem cuida do bairro, nem reinvidica instalações e espaços públicos, não é solidário, não usa caixotes do lixo ou recicla, nem economiza água. Não acrescenta nada para a cidade onde vive e, no entanto, de vez em quando toma o lugar de um vizinho real. O turista só quer a cidade a seus pés e a seu capri cho. Um enfraquecido desejo humano de utopia teria ficado por uma seudotopia possível e consumível de ver, distraída e ociosamente, como vivem os outros, experimentando uma espécie de parque temático panorâmico global. 49 Destacam-se 15 intervenções fulcrais: o Metro de Bilbao, de Norman Foster (1995); o Museu Guggenheim Bilbao, de Frank Gehry (1997); a Ponte Zubizuri, de Santiago Calatrava (1997); o Euskalduna Palace, de Soriano e Palacios (1999); o Aeroporto de Bilbao, de Santiago Calatrava (2000); o Domine Hotel, de Mariscal (2002); o Meliá Hotel, de Ricardo 94

119 inteligência na articulação da complementaridade entre fatores, mas, sobretudo, conclui-se que o sucesso desta operação urbana, na lógica da Recombinação, se deve ao caráter multidisciplinar da realização da estratégia, onde reside o segredo da sua eficiência. A cidade ultrapassou a sua antiga combinação de um package funcional enfraquecido e estabelecido em componentes obsoletos, reconheceu um contexto contemporâneo tecnologicamente inovador, mais complexo e também, mais completo, e a partir daí soube estruturar uma mutação que veio formalizar e suportar fisicamente a recombinação das suas relações locais e globais, amparadas por estratégias inteligentes que conduziram à tranformação de Bilbao nesta versão melhorada e equipada com uma multiplicidade de ferramentas que lhe asseguram um suporte para a sua permanente evolução. Legorreta (2004); Isozaki Atea de Arata Isozaki (2006); Public Library, de Iriarte, Múgica e Brena (2007); o Health Public Service, de Juan Coll-Barreu (2008); a Library of Deusto University Rafael Moneo (2009); o La Alhondiga, de Philipe Stark (2010); Public University, de Álvaro Siza Vieira (2010); a Iberdrola Tower, de César Pelli (2010); e um último projeto para o futuro: a reconversão da península de Zorrozaurre, entregue à autoria de Zaha Hadid. 95

120 96

121 Figura 13 97

122 METRO DO PORTO A URBANIDADE RECOMBINADA DE MATOSINHOS SUL As cidades não mudam por vontade própria ou por decretos políticos, mas sim pelo aparecimento de sistemas necessários à sua sobrevivência e desenvolvimento [ ] foi assim com os romanos, quando, sobre dois atalhos que se cruzaram construíram o Cardus e Decomanus, e no centro ficou o Fórum; foi assim na Idade Média, quando no Fórum apareceu a Praça da Catedral, construída pelas pedras do templo demolido; foi assim no Barroco com a criação dos eixos radiocêntricos, que uniram essa catedral às portas da muralha; foi assim no período neoclássico, quando as portas foram derrubadas ou redesenhadas, e os passeios que recebiam as estradas se converteram em praças bordadas por conventos; foi assim no século XIX, com o caminho-de-ferro, quando alguns conventos, como o de São Bento, se transformaram em estações; foi assim no século XX, com o metro ligeiro de superfície entre Matosinhos e a Trindade. Eduardo Souto de Moura O excerto da autoria do Arq. Eduardo Souto Moura parece algo inusitado, pela carga histórica e escala dos elementos a que se refere comparativamente ao conjunto de obras que constitui o Metro do Porto. Porém, da mesma paulatina forma como os enunciou, daremos seguimento a esta ideia de que o metro ligeiro de superfície é um sistema de mobilidade cuja implantação no território teve um impacto indissociável da requalificação urbana nos locais que serve, representando um meio de mudança e de condução à sobrevivência e desenvolvimento das áreas urbanas envolvidas, bem como da recombinação de uma zona particular de Matosinhos que posteriormente abordaremos. A ideia do Metro do Porto nasceu em Setembro de 1989, através de um estudo realizado pela Sociedade dos Transportes Coletivos do Porto (STCP) denominado de Transporte Coletivo em Sítio Próprio, que propunha um metropolitano como solução para os problemas de mobilidade da cidade. Depois de alguns anos de negociações políticas sobre que áreas é que o metropolitano deveria servir, a 21 de Dezembro de 1994 é lançado o concurso público para a conceção, construção, equipamento e operação do Sistema de 98

123 Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto 50, sendo que só a 25 de Novembro de 1997 é adjudicado ao consórcio Normetro, ficando a Transdev (empresa integrada no consórcio Normetro) a operadora deste novo transporte público. Após um complicado e extenso processo de financiamento, que considerou fatores que vieram alterar a distribuição original da rede do metropolitano (como o Campeonato Europeu de Futebol a realizar em 2004) e mais de dois anos depois da adjudicação, é aberta a primeira frente de obra, em Campanhã. O teor arquitetónico de toda a obra Metro do Porto foi encomendado ao Arq. Eduardo Souto Moura, que mais tarde veio definir uma equipa de famigerados arquitetos a quem entregou o projeto de várias estações e consequentes requalificações de espaço urbano 51. A influência de Eduardo Souto Moura no projeto do Metro do Porto foi determinante, já que percebeu desde o início que um projeto como o metropolitano podia servir de pretexto para requalificar a cidade. E assim foi. Da mesma forma que Le Corbusier defendeu que a linha ferroviária devia ser o eixo estruturador da cidade linear, Eduardo Souto Moura sustentou que a linha do metropolitano devia ser o eixo estruturador de uma requalificação urbana na cidade. ( ) Isso levou a que este projeto não fosse apenas uma implantação da linha férrea, mas sim uma integração da linha e consequente espaço público. Falamos das zonas pedonais, dos espaços verdes, das praças, das faixas rodoviárias, iluminação pública, entre outros (TAVARES, 2010:50). 50 A Área Metropolitana do Porto (AMP) é uma grande área metropolitana portuguesa, cuja sede se localiza na cidade do Porto, atualmente com 17 municípios. Em 2011, agrupava 16 municípios com um total de habitantes em 2089 km 2 de área, resultando numa densidade populacional próxima de 1098 hab./km 2. O Porto e a Área Metropolitana do Porto representam o núcleo estrutural da Região Norte do país, sendo que a AMP é constituída pelos seguintes concelhos: Arouca, Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Ol iveira de Azeméis, Paredes, Porto, Póvoa de Varzim, Santa Maria da Feira, Santo Tirso, São João da Madeira, Trofa, Vale de Cambra, Valongo, Vila do Conde e Vila Nova de Gaia. 51 Eis a listagem dos arquitetos e das estações por que ficaram responsáveis: Eduardo Souto de Moura Aliados, Bolhão, Campo 24 de Agosto, Carolina Michäelis, Casa da Música, Combatentes, Faria Guimarães, Fórum Maia, Heroísmo, Lapa, Marquês, Salgueiros e Trindade; Adalberto Dias Hospital São João, IPO, Pólo Universitário; Alcino Soutinho Brito Capelo, Câmara de Matosinhos, Matosinhos Sul, Mercado e Senhor de Matosinhos; Álvaro Siza Vieira São Bento; Bernardo Távora Araújo, Botica, Cândido dos Reis, Custió, Custóias, Esposade, Estádio do Mar, Fonte do Cuco, Francos, Parque Real, Pedro Hispano, Pias, Ramalde, Senhora da Hora, Sete Bicas, Vasco da Gama, Verdes e Viso; João Álvaro Rocha Castêlo da Maia, Crestins, ISMAI, Lidador, Mandim, Parque Maia; João Leal Aeroporto Sá Carneiro; José Gigante Alto de Pêga, Árvore, Azurara, Espaço Natureza, Mindelo, Modivas Centro, Modivas Sul, Portas Fronhas, Póvoa de Varzim, Santa Clara, São Brás, Varziela, Vila do Conde, Vilar do Pinheiro; Manuel Salgado Estádio do Dragão; Paulo Castro Calapez Campanhã; Rogério Cavaca Câmara de Gaia, D.João II, General Torres, Jardim do Morro e João de Deus. 99

124 Figura 50 Corredores verdes da autoria da arquiteta paisagista Laura Roldão Costa em pareceria com os arquitetos responsáveis pela inserção da linha do metropolitano de superfície na zona de Matosinhos, Bernardo Távora e Alcino Soutinho. Imagem: Laura Roldão Costa. Figura 51 Estações de Pedro Hispano e Parque Real assinaladas na imagem a vermelho. Imagem: BingMaps. Edição Própria Figura 52 Condição da zona da estação de Pedro Hispano antes da introdução do Metro do Porto. Imagem: Infometro nº7. Figura 53 Tratamento paisagístico 100 do canal independente do metro em Matosinhos. Imagem: Laura Roldão Costa.

125 O Metro do Porto é um sistema de transporte público assente nos grandes corredores de circulação da Área Metropolitana do Porto. Atualmente, consiste numa rede ferroviária eletrificada 52 subterrânea no centro do Porto e à superfície na periferia, circulando em canal próprio numa rede repartida em seis linhas de metropolitano 53 espalhadas por sete concelhos: Porto, Maia, Matosinhos, Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Vila Nova de Gaia e Gondomar e uma linha de funicular, o Funicular dos Guindais. É um meio de transporte ecológico, silencioso, confortável, flexível e, enfatizamos que circula sobre um canal próprio. Esta independência relativamente às restantes formas de circulação é uma das características que mais distingue o metro ligeiro dos outros meios de transporte ferroviários urbanos, uma vez que exige um espaço físico próprio no desenho da cidade. O que nos interessa abordar não são as várias estações de autor propriamente ditas, mesmo que constituam grande parte do valor arquitetónico do total da obra, mas sim a inserção do metropolitano à superfície nos novos centros urbanos que criou, pois constatamos que esta inserção aproveita claramente para valorizar a envolvente. Ao mesmo tempo que ocupa grande parte da via urbana (reduzindo o espaço destinado a circulação automóvel e parqueamento), obriga a repensar o ordenamento do trânsito rodiviário, repavimenta ruas, reperfila arruamentos na medida em que considera atravessamentos de nível e introduz elementos naturais (corredores verdes, árvores), sendo que todas essas decisões são criteriosamente debatidas e planeadas por equipas multidisciplinares e autoridades municipais 54. Os espaços das estações de Pedro Hispano e Parque Real constituem um dos exemplos melhor conseguidos deste trabalho de inserção. Os portuenses estão a assistir a uma transformação no tratamento das vias. Esta constitui a prova cabal de que a entrada de um novo meio de transporte pode modificar o rosto das ruas e também das arquiteturas que ladeiam as linhas, criando uma imagem urbana mais interessante (SOUTINHO, Alcino; 2002:4). 52 Possui um total de 81 estações distribuídas por 67 km de linhas comerciais duplicadas, maioritariamente à superfície, com 7,7 km da rede enterrada em cinco túneis. Dispõe de 32 parques de estacionamento que somam um total de 3400 lugares disponíveis para os seus utilizadores. A sua frota é constituída por 102 veículos, que transportam cerca de 9000 pessoas por hora em cada linha a uma velocidade média de 28 km/h. Abrange a utilização por várias faixas etárias, sendo que a média de idades fica nos 33,2 anos e que este grupo representa 62,2% dos clientes do Metro do Porto. In 53 Linha A (azul): Estádio do Dragão Senhor de Matosinhos; Linha B (Vermelha): Estádio do Dragão Póvoa de Varzim; Linha C (Verde): Campanhã ISMAI; Linha D (amarela): Hospital S. João Santo Ovídio; Linha E (roxa) Estádio do Dragão Aeroporto; Linha F (Laranja): Senhora da Hora Fânzeres. 54 Baseado da informação disponibilizada pela publicação Infometro. Edição Especial de 7 de Dezembro Uma Renovação chamada Metro. Metro do Porto, SA. Pág

126 O projeto do metro ligeiro de superfície do Porto assume um cariz muito mais envolvente do que inicialmente se pensava, uma vez que, como anteriormente referido, ultrapassa a mera implantação de uma linha férrea no território. Em vez disso, transforma-se num pretexto para agir sobre ele. Assiste-se ao desenvolvimento do principal potencial deste projeto: ser um catalisador do desenvolvimento pela sua capacidade de englobar políticas urbanas de renovação e, sob a nossa perspetiva, de recombinação. Renovação, porque trabalha a imagem dos locais onde se insere, e o tratamento da imagem urbana é fulcral para o desenvolvimento dos lugares. A renovação urbana em que aqui se acredita traduz-se numa transformação quase integral do perfil urbano, que por sua vez conduz a uma mudança de índole estrutural implicando três dimensões principais: a dimensão morfológica (forma da cidade e da paisagem), a dimensão funcional (base económica e das funções a ela associadas) e a dimensão social (esfera sociológica, onde geralmente se substitui residentes ou visitantes por outros com níveis de rendimento, instrução e estilo de vida diferentes) 55. Recombinação, porque estrategicamente reconhece, mantém e introduz valores de forma cumulativa e sinergética. A implantação do metro ligeiro de superfície veio, nuns locais de forma mais evidente do que noutros, intervir a médio e longo prazo, de forma relacional, promovendo e combinando vínculos entre territórios, atividades e pessoas, na medida em que operou com objetivos de sustentabilidade económica, física, ambiental, e de coesão social e cultural. A pergunta que se coloca é: de que forma? Analisemos por partes: o metropolitano de superfície veio atender às questões de acessibilidade e mobilidade, na ligação de quase toda a Área Metropolitana do Porto por um transporte de maior qualidade do que qualquer outro do sistema de transportes coletivo nesta área geográfica existente até então; com isso, captou utentes que antes utilizavam o seu veículo privado e, deste modo, as praças e ruas dos centros urbanos, zonas comerciais e de lazer, deixaram de ter um caráter predominantemente rodoviário; pela alteração da estrutura das vias urbanas, reduziu os níveis de congestionamento do tráfego automóvel e, consequentemente, de poluição ambiental; promoveu a valorização do espaço público e incentivou a construção e recuperação de equipamentos e infraestruturas; e, de uma forma geral, induziu confiança nos setores do comércio, indústria e promoção imobiliária para que pudessem investir nestas novas áreas urbanas geradas e servidas pelo Metro do Porto. Em suma, o projeto do metropolitano ligeiro de superfície melhorou a qualidade de vida não só 55 Discurso baseado na definição de renovação dada por BARRETA, João; 2012:

127 dos seus utilizadores como dos espaços onde circula, porque reintroduziu qualidades urbanas de acessibilidade e centralidade, visando a mudança do valor das localidades a nível económico (dinamizando a vida urbana e, consequentemente, o comércio de proximidade), cultural, paisagístico e social A URBANIDADE RECOMBINADA DE MATOSINHOS Após o enquadramento geral do que julgamos ser a abrangência do impacto da inserção do metropolitano a nível urbano, passamos à particularização da leitura do tema através da eleição de uma área de intervenção que achamos ser a que melhor exemplifica o conceito recombinante: a zona de Matosinhos Sul e, mais especificamente ainda, a Rua de Brito Capelo. Recuando no tempo, sob força de compreender a sua evolução histórica e a sua combinação inicial, descobrimos que não é a primeira vez que a zona de Matosinhos Sul convive com uma rede ferroviária de superfície. Com efeito, a cidade de Matosinhos já teve comboios que terminavam a sua marcha em frente à praia, e que percorriam o afamado Ramal de Matosinhos 56 (Fig.54). Para além do transporte de passageiros num percurso que contemplava Matosinhos/Senhora da Hora/Porto-Trindade, o Ramal de Matosinhos foi, até à inauguração da Linha de Leixões 57 em 1938, muito importante no transporte de mercadorias, ficando conhecido pelo transporte de peixe fresco (em carrugem própria) para o Porto e para o Minho. Ao contrário do que seria expectável esta linha ferroviária alcançou o expoente da sua utilização não pelo cariz peculiar da mercadoria que transportava, mas sim ao serviço da contrução do Porto de Leixões. A linha fazia também ligação às pedreiras localizadas em São Gens, facto que na verdade acabou por ditar o seu fim: após o término da construção dos principais molhes de atracagem passou a ter um movimento 56 O Ramal de Matosinhos, originalmente conhecido como Ramal de Leixões, foi um troço ferroviário aberto em 1893 que ligava a Estação Ferroviária de Senhora da Hora, na Linha do Porto à Póvoa e Famalicão, ao Porto de Leixões, em Portugal; sucedia à Linha de São Gens, construída em 1884, que ligava as Pedreiras de São Gens ao Porto de Leixões (TORRES, Carlos Manitto; 1958: ). 57 A Linha de Leixões, também conhecida como Linha de Cintura do Porto, Linha de Circunvalação do Porto, ou Linha de Circunvalação de Leixões, é uma ligação ferroviária entre as Estações de Contumil, na Linha do Minho, e Leixões, no concelho de Matosinhos, em Portugal. Esta linha, com 18 quilómetros de extensão, é utilizada para tráfego de mercadorias, tendo havido serviço de passageiros até 1987 e entre maio de 2009 e Janeiro de Entre as estações de Contumil e São Gemil, tem uma das pendentes mais acentuadas da rede portuguesa. 103

128 Figura 54 Ramal de Matosinhos. Imagem: Diário do Governo, Portaria nº180/70, Série I Número 82. Página 449. Figura 55 Rua Brito Capelo em Imagem: Ernst Kers. Figura 56 Postal ilustrado da Rua Juncal de Cima. Imagem: Série de Alberto Ferreira, nº Figura 57 Circulação do elétrico e de automóveis em simultâneo. Imagem: Autor desconhecido.

129 cada vez mais reduzido, e o Ramal de Matosinhos foi encerrado a No entanto, por falta de condições de acessibilidade do local, a população residente mobilizou-se na exigência pela continuação do aproveitamento da linha para serviço público de transporte de passageiros e mercadorias. Como resposta, foi continuada a circulação da Linha nº19 58 do elétrico, cujo início de funcionamento datava de 1934 e que, embora com períodos de encerramento, cumpriu funções até Depois de encerrada, desta via férrea passaram a existir escassos vestígios: os terrenos passaram para a posse da Câmara Municipal de Matosinhos e foram, na sua maioria, urbanizados. A exceção a este processo de urbanização foi a zona de Matosinhos Sul, onde se podia ver, até à ocupação pelo Metro do Porto, parte do canal da antiga linha que atravessava as ruas de Roberto Ivens, Brito Capelo, Brito e Cunha, D.João I e Dr. Afonso Cordeiro. A re-ocupação da linha férrea pelo metropolitanto ligeiro de superfície, sobretudo na Rua Brito Capelo 59, veio recombinar uma série de fatores identitários que na verdade estavam apenas obsoletos. Esta rua era um dos eixos comerciais estruturantes de Matosinhos, relacionando a Praça da Cidade de Salvador 60 com o Porto de Leixões, numa extensão de cerca de quilómetro e meio. Na Fig.55, um postal de 1900, podemos observar a presença da linha ferroviária que teria servido o elétrico e a ausência do cariz rodoviário, o que mais tarde se veio a alterar, como se pode ver na figura 56. Em 1993, o trânsito automóvel tornou-se num elemento desqualificante, uma vez que o estacionamento mal efetuado provocava grandes congestionamentos à circulação nesta via. Não só o automóvel como meio de transporte pessoal se tinha tornado num inimigo neste caso particular, como a linha do elétrico teria sido duplicada, e a proximidade às fachadas deste tipo de transporte provocou um estrangulamento do espaço pedonal, o que prejudicou severamente a qualidade deste tipo de circulação, tão importante à sobrevivência do comércio de proximidade. Em 2003, com o aparecimento do Metro do Porto, a rua foi alvo de um processo de restruturação. O projeto do metropolitano ligeiro de superfície indicava que, na Rua Brito Capelo, essa passagem fosse efetuada à superfície, logo, como anteriormente referido, viria a reclamar um espaço físico próprio de caráter independente. Entregue à responsabilidade do arquiteto Alcino Soutinho, o projeto reconheceu imediatamente o 58 A Linha nº19 (em funcionamento desde 1934) tinha um comprimento de 9.9 km até 1960; desta data até 1980 passou a servir apenas 8,5 km, reduzindo a sua circulação para uma abrangência de 6.6 km em 1991 e encerrando em A viagem tinha uma duração de cerca de 45 minutos e efetuava paragens na Praça da Liberdade, Carmo, Palácio, Boavista, Fonte da Moura, Castelo do Queijo, Matosinhos e Leixões. 59 A Rua Brito Capelo começou por se denominar Juncal de Cima, só adquirindo o nome atual em Vulgarmente conhecida como a Rotunda da Anémona pela escultura da norte-americana Janet Echelman. 105

130 Figura 58 Localização da Rua de Brito Capelo, Matosinhos. Imagem: BingMaps Figuras 59 e 60 Metropolitano ligeiro de superfície em circulação na Rua Brito Capelo. Imagem: 59 Ernst Kers ; 60 Produção própria Figura 61 Estação de metro de Alcino Soutinho. Imagem: Produção própria Figura 62 Ponto de paragem na Rua Brito Capelo. Imagem: Ernst Kers

131 peso histórico deste eixo e assim o grande objetivo foi devolver-lhe algumas mais valias da sua combinação inicial o seu caráter de eixo fundamentalmente pedonal e ferroviário, que servia um dos motores económicos deste local. Com efeito, o arquiteto executou uma renovação seguindo um princípio de valorização do espaço pedonal e de vivência urbana, e todas as opções tomadas tornam evidente essa intenção 61, sendo a opção de eliminar o trânsito rodoviário nesta via a mais manifesta, colocando a linha ferroviária na zona central do arruamento, afastando-a das fachadas e provocando um alargamento das zonas pedonais, junto aos estabelecimentos comerciais. Acredita-se que a transformação urbana patente neste exemplo reconheceu estrategicamente as dimensões morfológicas, funcionais e sociais deste espaço; que recuperou e introduziu valores no local numa expressão objetiva de conjunto para obter um resultado superior ao que possivelmete conseguiria se as respetivas dimensões fossem interpretadas como partes e trabalhadas individualmente. O projeto da Metro do Porto na Rua Brito Capelo como caso de estudo assume um formato de epílogo nesta dissertação, na demonstração do que pode ser uma intervenção com parâmetros recombinantes e cuja identificação almejou contornos de explicação mais transparentes. 61 Apesar da zona da linha apresentar um revestimento em cubo granítico e as áreas laterais em lajeado de granito, o piso não apresenta qualquer mudança de cota, obtendo-se assim uma uniformidade no espaço em toda a largura. Com o mesmo objetivo, as catenárias foram suspensas nas próprias fachadas do edificado, evitando a criação de elementos verticais que as suportassem e que interferissem na circulação pedonal. Por outro lado, a utilização de abrigos para definir a zona de entrada/saída das carruagens foi substituída pela construção de uma estação enquadrada no edificado envolvente. É um edifício com três pisos, que apresenta um rés-do-chão vazado, onde está colocada a bilheteira, uma instalação sanitária e a entrada para os dois escritórios que ocupam os restantes pisos. ( ) Para matizar esta zona de paragem, é colocada no lado oposto uma estrutura de ferro que sustém uma cobertura que indica o propósito do espaço. Além disso, o espaço que inclui a linha ferroviária sofre um desnivelamento de quarenta centímetros para, por um lado, facilitar a transação entre a carruagem e o cais, e por outro, reforçar a zona de paragem. Por fim, as sinalizações ferroviárias e os painéis informativos são posicionados, ora nas fachadas, ora junto destas, libertando os espaços p edonais laterais e qualificando a vivência do espaço público. De salientar que a iluminação pública foi colocada nos cabos das catenárias ( ) (TAVARES, 2010:102). 107

132 108

133 03 ENSAIO PROJETUAL 109

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135 No âmbito da Unidade Curricular de Projeto III, do 5º Ano, turma A, do Curso de Arquitetura da Universidade Lusíada do Porto do ano letivo de 2012/2013, os docentes da mesma escolheram a cidade de Aveiro como palco coletivo para o desafio lançado aos alunos: o de desenvolver um ensaio projetual ilustrativo do tema da Dissertação de Mestrado de cada um, cabendo ao aluno decidir qual o território, dentro dos limites da cidade, que mais se adequasse à sua temática. A tarefa inicial de realizar uma análise territorial geral da cidade de Aveiro pautou-se por duas fases: a primeira, na distribuição de temas por grupos de trabalho, sendo eles a Análise Histórica e Patrimonial, a Mobilidade, o Sistema Cultural, a Dinâmica Urbana, o Sistema Social e Demográfico, o Sistema de Modelo Territorial, a Análise Climática, Animal e Vegetal; a segunda, onde cada grupo utilizou o instrumento SWOT 62 como forma de análise para síntese dos dados adquiridos. Posteriormente, ficou a cada aluno incumbido o aproveitamento das análises que, consoante os temas de estudo individuais, tinham maior influência na sua leitura do território e sob as quais foi efetuada uma reflexão que se pretendia evidente nas opções projetuais. Para a escolha do território deste ensaio projetual procurou-se um local que reunisse um conjunto de caraterísticas onde o ensaio da solução tematizada tivesse mais hipóteses de ser testada. Idealmente, o território não seria apenas um espaço urbano visivelmente degradado, mas também um local que tivesse articulado relações entre elementos importantes ao funcionamento, memória e identidade do lugar e cuja combinação inicial tivesse perecido no tempo e no espaço por falta de esforços de adaptação 63. Procurava-se um território num conflito profundo de essência; para que se 62 O termo SWOT é uma sigla que designa uma ferrantenta de análise (Strenghts, Weaknesses, Opportunities and Threats) ou FFOA em português (Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças). Criada por Albert Humphrey no âmbito de uma pesquisa na Universidade de Stanford nas décadas de 1960 e 1970, pretendia ser um instrumento estrutural de base para a gestão e planeamento estratégico de corporações ou empresas. A técnica consistia na compreensão das forças e fraquezas como forma de identificar também as oportunidades a explorar e ameças a enfrentar, permitindo a elaboração de estratégias de atuação mais conscientes e competititvas. Dada a simplicidade do conceito, esta ferramenta passou a ser utilizada para qualquer tipo de análise de cenário, e no caso da Arquitetura, como ajuda nas leituras territoriais. 63 Tenhamos como apoio a previsão de Nuno Portas (2011) sobre as alterações nas cidades, fazendo com que a tradução de cidade passasse de um conjunto de partes para um conjunto de relações entre partes que evoluem no tempo e no espaço, para maior entendimento sobre o caráter de obsolescência procurado: ( ) a alteração será mais radical em função do sistema (urbano): manter-se-á a escola isolada no centro da residência ou articular-se-á com outros 111

136 pudesse compreender a sua história, o seu package funcional original, as mudanças que originaram a sua desativação e assim pensar uma reconfiguração do espaço através de uma estratégia recombinante. Seguindo as diretrizes do estudo efetuado sobre o tema, sabia-se que a intervenção a fazer teria de incidir, sobretudo, na escala urbana e, só numa fase tardia, à escala de um objeto. Tendo identificado todos estes pressupostos de procura, tornou-se possível a eleição de um local. Foi necessário reconhecer que a temática estudada apresenta um conceito de cariz estratégico, significando isto que a base do debate morfológico do terreno, traduzido sob a forma de desenho, teria de assentar sobre as premissas da Recombinação. Assim, depois de uma consciencialização do seu enquadramento (morfológico, histórico, social, cultural, ambiental, económico ) deu-se início à formulação de diversas propostas de desenho da ocupação territorial, seguido do estudo de um equipamento que ofereceria o remate final a uma operação reconfigurativa recombinante. equipamentos, de tempos livres, trabalho ou compras dos pais? Manter-se-á o comércio disseminado pela residência, zonado e mal articulado com os transportes locais e regionais que o podem vitalizar e com as motivações dos tempos livres? Manter-se-á a residência separada das atividades coletivas, presa a uma duvidosa relação com a natureza ou, por artificioso celularismo, a conceitos de vizinhança, em modificação? Manter-se-ão as estações de transportes separadas por géneros de rodados quando o homem é o mesmo, o habitante da nova cidade-região que pode conhecer outra mobilidade e outra vida de centro para lá da do seu subúrbio, se o sub-sistema de transportes tiver eficazes-comutadores em centros direccionais de alcance regional? E assim sucessivamente (PORTAS, 2011:128). A mutação nas relações entre partes que Nuno Portas apontou provocam hoje alterações nos territórios, e essas transformações frequentemente originam a obsolescência. 112

137 03.1 ENQUADRAMENTO E MEMÓRIA DA CIDADE DE AVEIRO Caminhar na cidade é operação simples, ver e constatar as suas caraterísticas continuamente cambiantes é operação mais complexa, fazer narrativas precisas e confiáveis, que impliquem um mínimo de mal-entendidos sobre os dados levantados, constitui operação de enorme dificuldade. Fazer levantamentos é educar o olhar, ver e fazer ver como a cidade é feita e interrogar-se sobre como poderia ser feita; é observar detalhadamente os lugares nos quais as práticas sociais se desenvolvem, observar os materiais urbanos com os quais elas entram em contacto e interagem, suas características métricas, materiais e tipológicas, seu estado de conservação, manutenção e degradação, sua adaptabilidade, a possibilidade de sua deformação e transformação. Ouvir é entrar em contacto com as práticas sociais tal qual são vividas e narradas pelos próprios protagonistas, apreender suas diferentes temporalidades, reconstruir micro-histórias, reconhecer imagens e mitos difusos, registar aquilo que para os diversos sujeitos parece um obstáculo para o completo desenvolvimento de seus projectos indiviudais e coletivos (SECCHI, 2012:148). Aveiro é uma cidade localizada no litoral do território português, na margem esquerda e foz do rio Vouga, encontrando-se limitada a oeste e a norte pelas salinas, Ria de Aveiro e IP5; a sul pelas freguesias de Aradas, S. Bernardo e pelo concelho de Ílhavo 64. É uma cidade de média dimensão cuja situação geográfica propiciou, desde muito cedo, a fixação de uma povoação apoiada na proximidade ao mar e à Ria. A Ria de Aveiro sofreu alterações com o passar do tempo, essencialmente provocadas pelas deslocações do cordão de terra do litoral, pelas modificações do rio Vouga e pelo estado em que se encontrava a barra (Fig.65). A povoação de Aveiro, situada num local de parcos recursos naturais, assentou em terrenos sedimentares pouco propícios à prática da agricultura, pois ao não reter água, a areia tornava o solo quente e seco, apenas melhorado com recurso ao moliço que permite a fixação da água no solo. O povoado soube, no entanto, potenciar a sua situação geográfica, 64 Como capital de distrito e sede de concelho, Aveiro encontra -se delimitada a norte pelo distrito do Porto e a sul pelo distrito de Coimbra. Encontra-se a 76 km da cidade do Porto e a 254 km da cidade de Lisboa. 113

138 Figura 64 Localização geográfica de Aveiro e as principais vias de ligação ao resto do país. Imagem: Produção Própria Figura 65 (da esquerda para a direita:) Reconstituição do litoral junto da foz do Vouga na época proto-histórica; Desenho da Ria em mapas antigos; Configuração atual. Imagem: Amorim Girão Geografia de Portugal. Pág.104.

139 nomeadamente a proximidade a locais de intensa atividade comercial e marítima, como a foz do rio Douro e a Figueira da Foz, e a existência de terrenos alagados foi aproveitada para a exploração das salinas, tendo sido a salinagem, as pescas e o comércio marítimo a base da sua atividade económica desde o Século X. O crescimento urbano da cidade deveu-se em muito à atividade comercial marítima e portuária, associada à pesca local e longínqua, à salicultura e à indústria de construção naval; no entanto, é a partir da criação em Portugal de um Ministério das Obras Públicas, em 1852, liderado por Fontes Pereira de Melo, que as dinâmicas da cidade passam a fazer parte de uma política governamental o designado Fontismo, que assentava primordialmente no desenvolvimento dos transportes e vias de comunicação como forma de desencadear a expansão das atividades económicas e as vias marítima e fluvial até então preponderantes na circulação de pessoas e bens são relegadas para segundo plano. Com efeito, são construídas nesta altura importantes rodovias de ligação de Aveiro ao exterior 65, sendo a criação da linha férrea 66, em 1864, a que mais impacto teve na construção morfologia da cidade. Com a construção da linha férrea do Norte associada às obras na barra, o processo de industrialização na cidade de Aveiro ganha um impulso definitivo nos finais do século XIX, emergindo na malha urbana diversas unidades fabris, sobretudo na zona do Cojo e ligadas ao setor da cerâmica e da construção naval, que agora viam facilitadas as suas relações com os mercados. A inauguração da linha ferroviária do Norte e consequente desenvolvimento industrial contribuem para a atração populacional, para a qual a cidade não estava preparada. As preocupações subjacentes à maioria das intervenções realizadas são de índole higienicista e de salubrização, e assim procede-se à abertura e alargamento de arruamentos, para possibilitar a circulação de veículos e pessoas, a circulação do ar e uma maior luminosidade para a cidade edificada. O aparecimento da linha férrea origina a abertura da estrada para a estação que a liga ao centro da cidade: a Rua da Estação, atual Rua Almirante 65 As rodovias estabelecem as seguintes ligações: Aveiro/Albergaria -a-velha (1854), que tinha por objectivo permitir o acesso à estrada nacional Lisboa/Porto; Aveiro/Barra (1855/1861); Aveiro/Penacova (1856); Aveiro/Águeda(1862); Aveiro/0liveirinha(1863); Aveiro/Mogofores (1864); Aveiro/Viseu (1865/1874); Aveiro/Ílhavo (1867); e Aveiro/ Mira (1867). Esta ligação da cidade ao exterior é reforçada, na segunda metade do século XIX, com as redes de telégrafo (1855) e postal. 66 A linha férrea do Norte chega a Aveiro em 1863, funcionando em pleno apenas a partir do ano de 1864, devido ao moroso aterro do vale do Cojo. Todavia, o traçado apresentado em 1856 pelo engenheiro Watier não passava por Aveiro, mas mais para leste, próximo de Angeja. Então, o parlamentar José Estêvão Coelho de Magalhães exigiu que a Administração Central e a empresa construtora estudassem um novo traçado que contemplasse Aveiro. Tal pretensão foi atendida e aprovada em 1857, iniciam-se os trabalhos em 1861, sob di reção do engenheiro francês Valentim de Mazade. A construção da linha férrea foi morosa e dispendiosa devido ao valor dos terrenos expropriados e às obras do viaduto de Esgueira e do aterro do aterro do vale do Cojo. 115

140 Figura 67 Anteplano de Urbanização Imagem: Arquivo da Câmara Municipal de Aveiro. Figura 66 Estudo prévio do arranjo urbanístico da Avenida Dr. Lourenço Peixinho. Imagem: Robert Auzelle no P.D de Aveiro. Figura 68 Plano Diretor da Cidade de Aveiro de Fonte: Robert Auzelle. Pl. 81. Figura 69 Estudo prévio do Plano para o Cento da Cidade, com a colaboração do Arq. Fernando Távora. Fonte: Idem. Pl

141 Cândido dos Reis, serve de suporte à construção do bairro da Estação, em conjunto com a atual Rua João de Moura; outro acesso era pelo Cojo, pela Rua do Americano, atualmente Rua do Comandante Rocha e Cunha. Mais tarde, durante a Primeira República, uma das intervenções com maior repercussão na expansão urbana é a abertura do novo arruamento que estabelece a ligação entre o centro da cidade e a estação de caminho de ferro, a Avenida Central, atual Avenida Dr. Lourenço Peixinho. Os estudos para esta avenida são realizados em 1907, onde se concebe uma avenida de trinta metros de largura e em linha reta (Fig.66). Com a abertura desta avenida, este lugar transformar-se-ia no centro comercial da urbe, incentivando a construção por parte de proprietários, comerciantes e particulares. É em 1918, com a chegada de Lourenço Simões Peixinho à Câmara Municipal, que são completados e atualizados os estudos efetuados em A construção da avenida prolonga-se pela década de vinte, e a sua abertura, tal como esperado, tornou-se fator determinante de desenvolvimento para a cidade, assumindo-se morfologicamente como um centro direcional 67, e para aqui migram as atividades terciárias no período do Estado Novo. Esta avenida tornou-se tão relevante para a cidade que, se antes o seu desenvolvimento se processava na direção norte/sul, principalmente junto ao centro e na ligação entre as duas margens do esteiro que a atravessava; depois da sua abertura a cidade passa a desenvolverse segundo a orientação oeste para este, partindo do centro e ao longo da Avenida (FERREIRA, 2003:30-35). Não podemos deixar de referenciar que o urbanismo em Portugal, que tinha sido regulamentado na segunda metade do século XIX, com a criação da figura do Plano Geral de Melhoramentos em 1865, adquire novo alento no Estado Novo com Duarte Pacheco e o Plano Geral de Urbanização (1934). É durante o Estado Novo que grande parte das cidades portuguesas começam a realizar planos com o intuito de prever e acautelar as intervenções urbanísticas que dêem resposta às ânsias, necessidades e problemas sentidos pelas suas populações. Aveiro não é exceção, e neste período elaboram-se os primeiros planos para a cidade: o Anteplano de Urbanização do casal de arquitetos David e Maria José Moreira da Silva ( )(Fig.67) e o Plano Diretor da Cidade da autoria do arquiteto e urbanista Robert Auzelle (1964)(Fig.68). Será o plano de Auzelle que vai marcar as grandes estratégias em termos de infraestruturas que vai definir o crescimento da cidade. É ainda realizado um 67 FERREIRA, 2003 apud OLIVEIRA, Rosa Maria O discurso da cidade Leituras da Avenida Lourenço Peixinho. Aveiro, Câmara Municipal de Aveiro. 117

142 Figura 70 Plano Geral de Urbanização ( ). Imagem: Arquivo da Câmara Municipal de Aveiro. 118 Figura 71 Programa POLIS. Imagem: FONSECA, Pág. 110.

143 Plano Parcial para a zona central de Aveiro, em 1967, pelo arquiteto Fernando Távora em colaboração com os arquitetos Alberto Neves e Joaquim Sampaio. Mais tarde, com o 25 de Abril de 1974, as condições económicas e políticas alteramse, e embora o Plano Diretor da Cidade continuasse a representar uma referência, vários fatores vão favorecer a decisão no sentido de dar início à elaboração de um novo plano, o Plano Geral de Urbanização ( ) (Fig.70). Estes fatores prendem-se no reconhecimento de que algumas previsões de ocupação do plano de Auzelle não tiveram seguimento: assistiu-se ao aparecimento de dois grandes projetos públicos a Universidade de Aveiro e o Bairro do Fundo de Fomento de Habitação, que não estando previstos provocam grandes alterações na morfologia da cidade; houve um abandono do Cojo por parte das indústrias, rude golpe nas previsões do plano; e não se concretizou a estrutura portuária pensada. Na verdade, não se conseguiu realizar a construção total da infraestrutura proposta, muito pela a ausência dos investimentos previstos para a exploração do turismo e a por uma revisão da legislação urbanística em 1971 (FERREIRA, 2003: ). Entre 2000 e 2005, Aveiro passou a ser uma das cidades portuguesas abrangidas pelo programa POLIS (Fig.71), e entrou em processo de requalificação. Atualmente, para o planeamento e ordenamento da cidade estão em vigor vários instrumentos de gestão territorial, divididos entre planos estratégicos 68, regionais 69, especiais 70, municipais 71 intermunicipais 72, e setoriais 73. Na verdade, foi com o apoio da informação presente no Plano de Urbanização da Cidade de Aveiro (PUCA) 74, que se conseguiu fazer uma breve leitura do território no contexto atual. Neste documento, a cidade de Aveiro é retratada como sendo essencialmente marcada por três territórios diferenciados e por uma significativa heterogeneidade (quanto à forma e qualificação urbanas; quanto às tipologias do construído, quanto às pressões de 68 PECA Estratégia e Plano de Ação. 69 Plano Regional de Ordenamento de Território PROT Centro. 70 Plano de Ordenamento da Orl a Costeira, e Plano de Ordenamento da Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto. 71 Plano Diretor Municipal, Plano de Urbanização do Programa POLIS, Plano de Urbanização da Cidade de Aveiro (PUCA), Plano Pormenor da Parte da Zona Industrial de Cacia, Plano Pormenor da Baixa de Santo António, Plano Pormenor de Rasos, Plano Pormenor do Centro, Plano Pormenor do Parque (Estádio Mário Duarte), e Plano Pormenor em SIG. 72 Plano Intermunicipal da Ria de Aveiro. 73 Plano Regional de Ordenamento Florestal Centro Litoral, e Plano da Bacia Hidrográfica do Vouga. 74 VENTURA DA CRUZ PLANEAMENTO. Plano de Urbanização da Cidade de Aveiro. Vol. II - Processos de Desenvolvimento da Cidade. Câmara Municipal de Aveiro,

144 Figura 72 Cérceas do Modelo Territorial do Século XXI. Imagem: Grupo de Trabalho da Turma de Sistema e Modelo Territorial Pisos 3 4 Pisos 5 6 Pisos 7 Pisos 120 Habitação Serviços Comércio Indústria Figura 73 Ocupação Funcional Modelo Territorial do Século XXI. Imagem: Grupo de Trabalho da Turma de Sistema e Modelo Territorial.2013.

145 ocupação e quanto à vivência quotidiana da sua população): a Cidade Existente 75 ; a Cidade Invisível (ou dos Vazios) 76 e a Cidade Nascente 77. A sua tradição está ligada ao mar não só pela sua proximidade a este, mas também devido à Ria de Aveiro que se estende com os seus canais por várias ruas da cidade, sendo este um forte elemento identitário e de ligação entre estas três cidades. No entanto, do ponto de vista urbanístico, continuam evidentes as fissuras na articulação entre os três territórios identificados. Com efeito, se as linhas de água e os vales orientaram o tipo de povoamento da cidade nascente, a estrutura fundiária e a dinâmica do promotor individual assumiram-se como responsáveis pelas formas urbanas. Baseando-nos ainda no PUCA, compreendemos que apesar de a cidade ter um historial de planos urbanísticos, ainda existem fraquezas evidentes no modelo urbano atual (Figs ). De uma forma geral, são caraterizadas por uma ausência de espaços públicos que propiciem formas de sociabilização fundamentais para a concretização de urbanidade; pelo predomínio do monofuncionalismo residencial que representa o exclusivismo de funções, nomeadamente residencial, destituída de equipamentos de apoio numa área de irradiação mínima; pela dificuldade de acesso à localização dos postos de trabalho, designadamente nos serviços, que obrigam a fortes movimentos pendulares diários; pela existência de unidades industriais em meio urbano, sendo que estas indústrias de dimensão 75 A Cidade Existente é no essencial a cidade consolidada, do construído. Aquela que é perceptível e real aos olhos dos seus habitantes e visitantes e palco dos seus quotidianos. Dos seus limites tradicionais destacam-se a Norte e a Poente, o salgado e a Sul e a Nascente, o caminho de ferro e a variante (EN-109). É nesta cidade que se encontram os principais elementos marcantes da imagem da cidade de Aveiro: os canais da Ria, os edifícios Arte Nova, a Capitania, a Av. Dr. Lourenço Peixinho, a Ponte de Praça, o Parque Urbano, o Museu, a Sé, o Centro de Cultura e de Congressos Jerónimo Pereira Campos, entre outros. São de facto alguns dos elementos mais facilmente memorizáveis para quem, num curto espaço de tempo, lê ou procura ler a cidade, porque se destacam e porque assumem, pelo seu significado, um valor simbólico e de referência na história da cidade. A contiguidade com o salgado e a presença dos canais da Ria, suscita na generalidade dos que se interessam pela cidade, a idealização de cenários da cidade futura (Idem:17). 76 A Cidade Invisível (dos Vazios) é constituída por um conjunto de espaços da cidade sem qualquer ocupação urbana, expectantes quanto ao uso e ao tempo de concretização de novos projetos urbanos. Foram espaços reservados ao longo do tempo e mantidos vazios por mecanismos especulativos (à espera da melhor oportunidade e da máxima rentabilização) e/ou por dificuldades de vencer conflitos de divisões cadastrais ou de propriedade ou ainda pela dificuldade em ultrapassar a barreira do Caminho de Ferro, que rotulava desprestigiantemente qualquer intervenção, a Nascente, como periférica. Por estas ou por outras razões menos evidentes, o facto é que Aveiro dispõe hoje de um significativo património de oportunidades para construir uma nova cidade. Agras Norte, o que resta de Sá Barrocas, a Zona Central, ao longo do canal do Cojo e até ao Centro de Cultura e de Congressos Jerónimo Pereira Campos, e toda o território da Forca Vouga, a envolvente da EN-109 constituem um território apetecido com capacidade de suporte de uma nova cidade (idem:18). 77 A Cidade Nascente corresponde ao território urbanizado a nascente da EN-109, envolvendo os territórios das freguesias de Santa Joana, S. Bernardo e Aradas. Na cidade Nascente revela-se um povoamento linear resultado de uma harmonia quase perfeita entre o território e a intervenção humana, onde as linhas de água sugeriram o melhor traçado para os arruamentos; estes foram sendo ocupados marginalmente deixando o vale livre para a prática da agricultura. A intensa pressão construtiva sobre o território Nascente veio acentuar as deficiências, insuficiências e impreparação dos lugares para atender, ordenadamente, ao acréscimo de pressão, evidente através das alterações de densidades e volumes. É também evidente a ausência de espaço público, o predomínio do monofuncionalismo residencial, a indústria em meio urbano e as rupturas de escala. O papel das linhas de água e respectivos vales sustentarão ainda a definição das formas de povoamento e de diferentes modelos de vida urbana. A água (planos e linhas) surge como elemento marcante em todo o território pelo contributo que assume no desenho das formas urbanas ou do tipo de povoamento ou ainda pela importância que revela ou revelou para as atividades que no território se instalaram (idem:19). 121

146 Bom Razoável Mau Devoluto Figura 74 Estados de Conservação do Modelo Territorial do Século XXI. Fonte: Grupo de Trabalho da Turma de Sistema e Modelo Territorial Habitacional Institucional Comercial Simbólico Espaços Verdes Ciclovias Parqueamento 122 de Bicicletas Figura 75 Ocupações de Referência do Modelo Territorial do Século XXI. Fonte: Grupo de Trabalho da Turma de Sistema e Modelo Territorial

147 significativa, disseminadas em meio urbano, causam um efeito de desproporcionalidade físico-territorial com claros impactes negativos no ambiente urbano e criam perturbações consideráveis à fluidez do tráfego pelo movimento de veículos pesados; por fim, o modelo urbano atual é ainda caraterizado pela tendência recente de alternância entre tipologias construtivas diversas e distribuídas no território de forma descontínua alternando elevados índices de densidades com vazios intersticiais, o que provoca ruturas de escala consubstanciadas num crescimento urbano, produzindo uma imagem de ilegibilidade (VENTURA, 2004:44). A competitividade das cidades exige, cada vez mais, que se aproveitem as oportunidades, para que possam evoluir. Nesta leitura do modelo urbano atual existe outra perspetiva que merece referência: da criação de novos serviços à reafirmação do campus universitário, a cidade cresceu e afirmou-se não só pelos elementos tradicionais que lhe deram forma, mas também ancorada ao poder do conhecimento do núcleo de investigação da Universidade de Aveiro. A instalação, consolidação e afirmação da Universidade, trouxe uma componente académica, científica e tecnológica que se tem vindo a entrosar positivamente na vida económica e empresarial local e, por outro lado, uma dinâmica sociocultural que tem contribuído para mudanças que se verificam na vida e no ambiente da cidade. A sua reputação deu um impulso generoso à consolidação da urbe fora de portas como um local com potencialidades atrativas na formação de recursos humanos 78. Crê-se que a massa crítica que a Universidade introduz na cidade irá continuar a representar um motor de desenvolvimento qualificado incontornável do ponto de vista cultural, social e económico com claros reflexos na produção do espaço urbano e na procura de novas tipologias de habitação. 78 Atualmente, o Concelho de Aveiro destaca-se positivamente no contexto regional, sendo um território com recursos humanos qualificados, fator indutor para a competitividade da base económica local, em que a população empregada com grau de ensino superior (35,9%) é significativamente superior à média nacional (23,5%), principalmente nas freguesias urbanas. A dinâmica empresarial assume uma forte tradição industrial, fruto do empreendedorismo das suas gentes. Caraterizado pela presença de unidades industriais de grande di mensão dispersas pelo território municipal torna evidente no concelho a tensão funcional existente entre estas e as funções adjacentes, na sua maioria residenciais e agrícolas. As atuais áreas industriais estão com a sua capacidade esgotada, sendo também d e referir a sua incapacidade de dar resposta a uma procura de espaços com dimensões e características distintas do simples lote industrial. O espaço urbano concelhio é, na maioria das freguesias, povoado de pequenas indústrias, cuja incompatibilidade com f unções residenciais é notória devido ao diferencial qualitativo na apropriação dos espaços. A densidade empresarial e a clara identificação de clusters potenciais no Concelho evidencia uma forte necessidade de espaços qualificados. Tem-se assistido a novas especializações, com destaque para o turismo e para as novas tecnologias. No que se refere à rede de apoio ao desenvolvimento económico local, as instituições, associações empresariais ou representativas de setores económicos presentes no Concelho e na Região têm sido impulsionadoras do desenvolvimento de um tecido económico regional coeso e estruturado numa lógica de clusters, evidenciando uma aposta concentrada na inovação. 123

148 Figura 76 Localização do Território de Intervenção (a vermelho) e pontos com que se pretende articular (a azul). Imagem: Produção Própria ANÁLISE SWOT FORÇAS FRAQUEZAS INTERNOS - Ria de Aveiro - Praia - Comércio - Boa Acessibilidade - Relação com a Água - Gastronomia - Inexistência de Espaços Verdes - Falta de Espaços Culturais - Organização da Cidade - Existência de habitação degradada - Vias públicas muito degradadas - Falta de conforto na cidade OPORTUNIDADES AMEAÇAS EXTERNOS - Potencialidades Turísticas - Oportunidades de Emprego associadas à dinamização turística do concelho - Vivência Urbana - Geografia do Território - Centralidade Figura 77 Análise SWOT. Imagens: Produção Própria Clima - Política - Falta de exploração da cultura local - Falta de apoio social - Pouca evolução da cidade - Falta de espaços para socialização entre habitantes 124

149 03.2 A RECOMBINAÇÃO COMO ESTRATÉGIA Da memória e enquadramento da cidade de Aveiro para a realização de um ensaio projetual mais consciente compreende-se, em primeiro lugar, que a diluição das fronteiras existentes na cidade é o ponto geral e de partida de uma nova intervenção. Em segundo lugar, entende-se que a cidade procura novas formulações de ocupação de território, associadas a uma adaptação da apropriação do espaço à contemporaneidade, transformando o imaginário coletivo acerca da periferia urbana devem procurar-se os locais fragmentados para que possam ser novamente articulados segundo um novo contexto. Apresentado o conceito de Recombinação e feito um diagnóstico do território de intervenção, inicia-se a comunicação da aplicação do conceito à parte projetual, identificando os elementos-chave e os objetivos da parte prática deste estudo. O conceito é aplicado desde a escala urbana ao equipamento, que se divide em duas partes principais: a Malha Urbana e o Hotel de Negócios. O território escolhido encontra-se a Este da Estação de Comboios de Aveiro (Fig.76). A sua combinação inicial nasceu com a implantação da estação, em 1864, e nessa altura, como anteriormente referido, esta implantação consigo trouxe o alinhamento e criação de arruamentos, nomeadamente a Rua Almirante Cândido dos Reis. Esta rua, antiga Rua da Estação, serviu também de suporte à construção do bairro da Estação, e é visível ainda hoje o seu alinhamento perpendicular à antiga Estação de Comboios de Aveiro. Na era do desenvolvimento industrial de Aveiro, largamente associado à nova presença ferroviária, e da escassa quantidade de transportes motorizados ou da possibilidade desses pertencerem a uma pessoa de qualquer estatuto social, a Estação de Comboios assumiu-se como a principal porta da cidade. O caminho-de-ferro promoveu as trocas comerciais com outros pontos do país, mas ainda eram necessários dois transbordos de mercadoria, um por via marítima até ao ilhote do Cojo e outro até à estação. Esta situação não servia os interesses comerciais, não explorava as potencialidades económicas para a exportação de sal e peixe, bem como de olarias, madeiras e de produtos agrícolas (CRUZ, 2005:27). Para isso ser possível, tinha de se estabelecer uma ligação com a Ria, e a ideia de uma avenida só é consolidada cerca de cinquenta anos depois. A antiga Rua da Estação deixa de conseguir 125

150 Figura 78 A castanho podemos ver a ligação criada pela antiga Rua da Estação aquando da inauguraçaão da estação de comboios em 1864, e que funcionou até à abertura da Avenida Dr. Lourenço Peixinho, indicada a laranja na imagem. Imagem: Sara Ventura da Cruz, pg.27. Figura 79 A antiga e a nova estação de comboios de Aveiro. A antiga estação, à data desta fotografia ainda 126 iluminada, hoje encontra-se encerrada. Imagem: Leonardo Finotti

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