Só um homem caminha apenas, já não tem energia para correr ou já não corre atrás de foguetes ou a suspeita e a ansiedade tolheulhe o passo.

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1 1 FERMENTELOS, Vila! A mulher caminha, apressada. Segura mas apressada, tão apressada quanto lho permite o enorme molho de erva à cabeça. Não é já muito jovem, estará na meia idade, mas parece forte. É lusco-fusco, quase noite e a mulher apressa-se. Vem da Quinta do Rei e mora no Lugar. Ainda vai dar de comer ao gado antes de entrar na cozinha e preparar a janta. Passa no Cruzeiro quando se cruza com uma amiga. Vem do Berçal e pára o carro das vacas carregado de espigas de milho. E ali ficam as duas ( e a vaca ) a saber das novidades. Encompridam a conversa até que finalmente passa alguém que lhe grita - «ainda aí estás, Maria?». Queixa-se da dureza da vida e do peso excessivo do molho de erva, que manteve à cabeça, e despedem-se, mais apressadas ainda, em direcção a casa. Passou mais de uma hora. É o alarido dos sinos a tocar, o alarme e o alarme dos sinos a tocar a fogo ( como também conta Manuel Alegre, em O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua ), a tocar a rebate. E ouvem-se os gritos há fogo, há fogo! Toda a gente passa a correr. Homens, mulheres, garotos, até velhos. A ninguém importa saber quem corre perigo alguém corre perigo e é o que importa. Todos correm, todos acodem. Baldes, água, ramos de pinheiro ou de eucalipto. O que houver à mão.

2 2 Só um homem caminha apenas, já não tem energia para correr ou já não corre atrás de foguetes ou a suspeita e a ansiedade tolheulhe o passo. Não corre. Sofre. «Eh ti João, olhe que é em sua casa, homem!». E responde, aceitando o infortúnio: «nunca há-de arder tudo». Não ardeu. Quando chegou a casa já o fogo estava apagado e cada um regressava satisfeito com o dever cumprido. A Mãe estava super-feliz. Era o seu rapaz, o seu primeiro filho. Não aguentou tanta felicidade sozinha, queria partilhá-la com o mundo. Chamou as vizinhas talvez a ti Deolinda ou a ti Maria José e gritou aos quatro ventos: nasceu o meu Joanito! Era a sua primeira filha e era tão bonita! Disseram-lhe: é uma Florzinha. Nunca mais a menina foi Gabriela, como a Mãe. Sempre Florzinha. Uns anos mais tarde, muitos anos mais tarde o rapaz entrava no seu gabinete de Juiz no Tribunal de Águeda. Respeitosamente, uma mulher levantou-se do banco onde estava sentada, deu os bons dias e perguntou: você é que é o Dr. Joanito? O rapaz crescera e disse: eu já fui o Joanito, agora já não sou! Não é verdade. Ainda é o convite que recebeu, via internet, do seu amigo Presidente da Junta, para esta sessão começava assim: Meu caro Juanito. Com u, à maneira da Venezuela!

3 3 25 de Agosto. São quase seis da madrugada e ele mal dormiu. Está já à borda da Pateira, dentro do barco. E como ele dezenas de outros homens. Os sinos tocam. Não os sinos de baptizado, casamento, trindades, defuntos. Cada um com o seu tom, cada um com o seu ritmo. O júbilo, a dolência, o luto de novo Manuel Alegre. Estes sinos são a abertura da Pateira. E os homens correm. As terras são muitas e o moliço é pouco. Há que ganhar o pão de cada dia resgatando do fundo da lagoa o estrume com que se alimentam os campos. Cada um quer sair vencedor desta jornada. Um deles se adianta. Finca a vara bem no lodo e força o andamento da bateira. Força mais um pouco, até aos limites do seu porte franzino e ganha algum avanço. Sente-se na frente, olha para trás e, com alguma vaidade, grita: isto até corta mar! E ficou Cortamar! Teso, o homem. Duro. Capaz de bem defender aquilo que é seu. Pouco lhe importa que sejam as Maias. Havemos de ver se alguém é capaz de lhe levar de casa seja o que for. Nem que tenha de ficar a pé toda a noite. Daqui não levam nada. E fica. Por mais que a mulher lhe diga oh homem, vem te deitar!, ele insiste. Não vai para a cama. Fica no casarão e encosta-se no carro de bois. Quem passa, pelas matinas do dia seguinte, encontra-o a dormir a sono solto, na carroça estacionada no Cruzeiro. Quando acorda tem a rodeá-lo uma infinidade de olhos curiosos.

4 4 Durante alguns dias o homem não sai de casa. Não consegue encarar a luz do dia. Tem vergonha. Depois, olha para dentro de si próprio, ri-se de si mesmo. E sai à rua. Cumpriram-se as Maias! Repicam os sinos. Desta vez o som e o ritmo são de júbilo, são de festa. É a festa da Senhora da Saúde. A banda está na rua capitaneada pelo Senhor Artur Cadete. Este ano é a Nova e ele é Pinha, sempre foi, desde a Fundação pelo maestro Jeremias Pires, o tio Jeremias. Mas ele sabe que a festa não é para ele, como não é também nunca a festa de Santo António, sempre da Pinha. Ela é Rambóia e em dia de festa da Pinha ela amua. Fecha-se em casa e não cozinha e ele não sabe cozinhar. Diz a Igreja que é preciso jejuar e ela fá-lo jejuar! Já tocam de novo os sinos. É de novo a Senhora da Saúde, agora da Banda Velha, que já está na Rua com o senhor António Lemos, garboso no seu papel de maestro. Mas podia ser o Sagrado Coração de Jesus, sempre da Velha, a Rambóia. E ele sabe que a festa não é para ele. Podia lá ela deixar de acompanhar a música. Ela sai de casa aos primeiros foguetes e só volta ao último acorde musical. Ninguém comeu naquela casa nesse dia. Sempre as partidas foram de madrugada e a noite assustame. Ou talvez não. Talvez seja engano meu e a partida foi no correio da noite, apanhado em Oiã ou em Aveiro, lá pela uma da manhã, a caminho do navio que se apanhava em Lisboa. Mas é sempre a tristeza da noite que me fica, este vazio de não encontrar amanhã ou de não voltar a encontrar durante muito tempo ou de não voltar a encontrar nunca alguém que ainda hoje me abraçou.

5 5 É sempre pela noite que eles partem. Fazem-se de fortes e não choram. Um homem não chora e há que procurar os caminhos da vida por outros mares nunca dantes navegados. Não choram à vista das mães ou das mulheres ou dos filhos pequeninos e dizem que seguramente vão voltar. Mais fortes e mais ricos. Ou que vão mandar a carta de chamada para os seus. Mas vão de coração apertado e perguntam para dentro de si mesmos será que vou voltar a vê-la, minha Mãe? Voltarei a abraçar-te, minha ainda? Verei crescer-te ainda, meu filho? Partem. E uma ténue lamparina de azeite, aos pés da Senhora da Saúde ou da Senhora de Fátima, é o último porto de abrigo dos que ficam. Que rezam e um dia cumprirão a promessa que fizeram. Eles voltam, se voltarem. Se foram vencedores. Não voltarão vencidos. Há um murmúrio de vozes pela noite e velas nas mãos de quem caminha. E podem ser as endoenças e o aumentar às almas numa noite fria ou pode ser a procissão das velas numa noite de Agosto e de Senhora da Saúde. E um padre pregador que bem pode ser o senhor Padre Áureo a incendiar de fé o coração dos fiéis. Mas quero agora que seja aquela noite mágica em que a Senhora de Fátima, cuja imagem peregrinava no país, atravessou a Pateira. Na noite escura como breu, nós fomos acompanhar a Senhora ao Porto de Asna e ela atravessou a Pateira apenas iluminada pelo fogo aquático que deitámos à sua passagem a testemunhar-lhe o nosso grande amor assim escrevi eu numa redacção escolar que datei de 22 de Junho de 1955.

6 6 E o que fica na memória de um miúdo de oito anos - que hoje vos fala quase 55 anos depois! - são os milhares de velas nas mãos de quem rezava nas margens da Pateira e as centenas de velas que nas bateiras e nos barcos se deslocavam lenta e serenamente pelas águas, acompanhando a Senhora. E fica também o silêncio na noite e, em contraponto, a lengalenga de uma religiosidade sem limites: Nossa Senhora, Mãe de Jesus Dá-nos a graça da Tua Luz Nossa Senhora, Divina Flor Dá-nos a Graça do Teu Amor. E fica é estranho, mas é verdade a memória do cheiro, um misto de cheiro das velas derretidas e do intenso perfume das algas da Pateira. O rapazinho é agora Juiz em Águeda ( para grande alegria de seu Pai alguém de Fermentelos a ser alguém em Águeda! ) e não tem processos de Fermentelos porque as gentes da terra são avessas a tribunais e porque procura não tê-los, não vá ter a alma eventualmente dividida pela obrigação de decidir. Um ou outro escapa, porém. Hoje a testemunha é de Fermentelos e o Juiz insiste em apurar se assistiu à cena, se viu realmente o que se passou. O Juiz insiste e a testemunha confirma: claro que vi, Sr. Dr. Juiz, eu estava cem metros do local onde tudo se passou. O Juiz procura apurar da veracidade do testemunho e pergunta mas a cem metros como? Como daqui ao fundo da sala? Estava cem metros Sr. Dr. Juiz.

7 7 Mas de novo o Juiz como daqui à papelaria do Euclides? Como daqui ao fundo da rua? Estava a cem metros, Sr. Dr. Juiz há já uma nítida irritação na voz da testemunha. O Juiz continua a irritação puxa irritação. Oh homem, diga lá qual é a sua ideia de cem metros. Pode a sua ser uma e a minha ser outra. Eu posso pensar que é desta sala à Igreja e o senhor pensar que é daqui ao rio. Afinal a que distância estava o senhor? O homem reergueu a cabeça, enfrentou a expressão dura do Juiz, e respondeu. Convicto: Oh Sr. Dr. Juiz. Eu estava a cem metros e não conheço medida mais exacta que o metro. Esta testemunha era ou não era o Manuel Cardoso. Esta estória é minha? Ou foi-me contada por meu Pai, era eu ainda um jovem estudante de direito? Esta história é nossa. De Fermentelos. Esta história é nossa. Reflecte um traço da nossa identidade enquanto povo, enquanto comunidade. Como todas as outras estórias que contei. E que aqui chamei à comemoração dos nossos 82 anos como Vila. Porque nós somos assim. Nós somos o que somos e não admitimos que alguém ponha em dúvida que aquilo que nós somos é aquilo que nós afirmamos ser. E porque nós próprios não deixamos aos outros a afirmação do nosso próprio querer, do nosso próprio ser. O Decreto nº15456, de 5 de Maio de 1928, publicado no Diário do Governo de 11 de Maio seguinte considera as razões da elevação

8 8 da povoação de Fermentelos, no concelho de Águeda, à categoria de vila e explicita-as considerando que a povoação referida, uma das mais ricas e belas da região do Vouga, pelo que é frequentemente visitada por nacionais e estrangeiros, possui já hoje 3000 habitantes; Considerando que pelo desenvolvimento da sua indústria fundições e fábricas de serração é já hoje uma povoação com largos recurso comerciais. Mas nós não deixámos ao Governo a definição disto mesmo. Ao Governo deixámos apenas a urgência do reconhecimento disto mesmo. Mas fomos nós, a nossa Junta de Freguesia que em sessão de 1 de Abril desse mesmo ano, como consta da respectiva acta, por proposta do então Presidente João Figueiredo Urbano, deliberámos representar ao Exmo Ministro do Interior pedindo para que Fermentelos seja elevada à categoria de Vila. E por quê? Quais as razões? Pela sua grande população, pelas suas belezas naturais, pela sua indústria e pelas visitas que tem de nacionais e estrangeiros que vêm à sua Pateira! O Governo governa(va), e decretou; mas quem disse o que nós somos, e das nossas razões, não foi o Governo, fomos nós! Às vezes, quando era miúdo e mesmo adolescente, punhame a tentar descobrir o sentido da expressão, tantas vezes ouvida em tom jocoso, de que Fermentelos é a terra dos doutores. E contava um a um os doutores da terra à procura do sentido que não via.

9 9 Não eram muitos, naquele tempo os doutores: dois ou três médicos, alguns engenheiros, alguns professores, alguns padres sempre alguns padres! algum advogado ou juiz, pergunto-me mesmo E de tão poucos a frase ficava sem sentido e sem razão. Só os recuperou, confesso-vos, quando no tribunal de Águeda vivi a estória que acabei de vos contar. É esta nossa maneira especial de ser, afirmativa - assertiva, como se diz agora que não deixa aos outros a afirmação do que somos e da nossa verdade, que transmite essa ideia, tantas vezes falsa, de que queremos parecer aquilo que não somos. Porque não é gratuita esta atitude. Ela não nasce por acaso ou devaneio, por presunção ou por vaidade. Ela nasce de um apegado amor ao trabalho, de um combate persistente pela melhoria das condições de vida, da labuta diária por uma vida melhor onde as condições sócio-económicas permitam uma mais forte afirmação de cada qual. Da luta, da capacidade de luta e de trabalho que transparece na mulher que ao fim do dia transporta o pesadíssimo molho de erva à cabeça, para governar a casa apenas com o que ela própria produz e poupar por inteiro aquilo que o marido ( ou o pai ou o filho ) foi procurar, na madrugada de um incerto dia, num país distante que não conhece, de que não conhece nem as pessoas, nem a língua, nem a geografia e do qual só voltará ( voltará? ) se a vida lhe sorrir e puder expressar, na sua terra, o fruto da sua ousadia e do seu trabalho. Ou vai buscar na labuta dos campos ou das águas da Pateira para onde parte antes do sol nascer e donde só regressa depois das trindades. Claro que estou a falar de um tempo que já não existe. Estou a falar de uma agricultura que já não existe ( e que hoje quase se reduz á

10 10 subsistência ) e de uma emigração que já não existe ou que mudou de destino nem Brasil, nem Venezuela, nem Estados Unidos, mas França ou Espanha ou Inglaterra ou outros Portugais. Ou mesmo de uma emigração que mudou rigorosamente de sentido ( já temos os nossos doutorados em universidades estrangeiros e mesmo inteligência nossa exportada ). Já não existem pois não? - as fundições e as fábricas de serração de que falava o Decreto de Nem talvez as camisarias que noutro tempo foram rumo. E a Pateira já não é o estrume ou o moliço disputado barco a barco para adubar as terras. Hoje a abertura da Pateira é bem mais tarde na manhã e centra-se, no máximo, num pescaria que sirva de pretexto ao reencontro e forneça o petisco do almoço. Os barcos e as alfaias resguardam-se na Fundação Tomás Nunes, do meu irmão Rolando e da sua unidade familiar. Mas a filosofia é a mesma noutras áreas, noutros mundos, por outras formas, o combate é o mesmo e o respeito por nós e pelos que nos antecederam é igualmente o mesmo, com cada um a lutar pela melhor vida possível para não se deixar ficar mal nem a si nem aos seus. Sem que com isto se proscreva, se ponha de lado, o sentido da solidariedade que se quer ver na pequena estória dos sinos e do acudir ao fogo. Em momentos de dificuldade, de crise, nós somos solidários. Estamos lá, uns com os outros, ajudando muitas vezes sem perguntar quem precisa de ajuda ou esquecendo guerras antigas para estarmos todos do mesmo lado. Mesmo às vezes é preciso dizê-lo quando o sentido da solidariedade é negativo.

11 11 Porque tanto corremos todos para acudir ao fogo como podemos correr todos para destelhar uma casa e devolver à procedência alguém que veio casar à nossa terra e não trata a nossa conterrânea com o carinho e o respeito com que deve ser tratada uma mulher. Claro que isto também resulta de uma certa dificuldade nossa de aceitar o que é estranho, o que vem de fora. O que resulta aliás da nossa especial configuração geográfica ninguém passa em Fermentelos, ninguém precisa de passar em Fermentelos, só vem a Fermentelos quem quer vir e noutros tempos ao menos noutros tempos éramos conduzidos a pensar que só vem a Fermentelos quem nós queremos. E por isso é que somos tão criteriosos a aceitar as pessoas que nos procuram. No nosso universo, no nosso mundo, entra só aquilo que é bom. E aí somos insuperáveis a receber quem nos merece. Por mim falo, e pela forma como minha Mãe entrou na vida e no coração de Fermentelos. E é isso que eu vejo também hoje basta pensar, ao correr da pena, no Comendador Augusto Gonçalves, que sendo de fora é o Presidente da Assembleia Geral da Banda Nova, no meu primo Vítor Santos, que é quase de cá e é o actual Presidente da Direcção, e no anterior Presidente, Sr. José Lopes, que é de fora e parece de cá e, na Banda Velha, no ilustríssimo Advogado Dr. Jorge Mendonça, até há pouco Presidente da Direcção, e no Engenheiro Celestino de Almeida, Presidente da Assembleia Geral. Um de Oliveira do Bairro, outro de Águeda, vejam lá. O que é verdade é que, passe a expressão, importamos apenas os melhores.

12 12 Vem a propósito falar das bandas, no que foram e são as bandas nesta Vila. Porque elas são o rosto visível de um gosto especial pela cultura. Porque há as bandas, e há as contradanças, e há os ranchos folclóricos, e há as récitas, e há os entremezes. As mais das vezes, diga-se, em duplicado. Esta também uma das características da nossa terra se há uma banda vai nascer outra banda, se há uma contradança vai surgir outra contradança, se há um rancho vamos arranjar outro rancho, se há uma fogueira na tua rua, na minha rua há-de haver uma melhor que na tua. Por emulação, porque cada um quer fazer melhor do que o outro e, fazendo ambos bem, a Terra necessariamente vai beneficiar. Assim foi sempre, ao menos na minha memória ou na minha imaginação. Que me lembre apenas o futebol deu um único clube, mas um clube que ao que julgo está a abrir horizontes mais vastos aos jovens que o procuram. Mas as bandas, as bandas, e os maestros das bandas! A música e a disciplina trazida pela música! Não havia garoto que andasse na música e pudesse faltar a um ensaio, o ensaio era sagrado. E os maestros das bandas eram respeitosamente tratados por senhores do meu tio Jeremias já falei, do Senhor Artur Cadete e do Senhor António Lemos já falei, mas gostava de deixar ficar aqui o nome do meu Tio Daniel. E depois os novos maestros. Todos tão novos e tão respeitados. A começar nos maestros António Neves e João Neves.

13 13 Que eu penso, aliás, serem os pioneiros, os promotores, de uma mudança cultural determinante na nossa Terra. De um tempo em que a música começava e acabava dentro de portas e era apenas um exercício recreativo e cultural, passou-se a banda como o caminho de uma formação profissional que se procura nos Conservatórios mas que se não divorcia das origens. E tanta gente hoje, de Fermentelos, vive ou estuda a música, com a profissão. E tanta gente deixa vincado nessa arte o bom nome de Fermentelos. Nem preciso de sair da minha família o meu sobrinho Hélder é professor de música e Director da Escola EB2/3 de Oiã, a minha sobrinha-neta Mariana, já agora uma violoncelista exímia, estuda música na Universidade do Minho, em Braga. E é curioso pensar como este caminho da busca da formação e da qualidade nesta arte conduziu a que a estória que acima contei verdadeira tanto quanto é verdadeira a minha verdade é hoje perfeitamente impensável: as duas bandas tocam juntas onde estás, meu amigo Ulisses? o Helder tocou na Velha, a Mariana tocou como convidada na Nova. E uma ou outra, ou as duas, estarão sempre nas festas ou nas cerimónias desta Terra que tem na sua genética um traço intenso de religiosidade, aliado a um respeito muito sentido pelos mortos. Escolhi a Senhora de Fátima Peregrina para ilustrar essa faceta da nossa personalidade enquanto povo. Mas basta qualquer cerimónia religiosa de hoje ou uma qualquer romagem ao cemitério para perceber-se do que falo quando falo do respeito e do silêncio.

14 14 É possível ouvir uma das bandas ou o coral de qualquer delas, ou ouvir o doloroso solo de um saxofone onde estás, meu amigo TóZé?! contra o silêncio absoluto da multidão que enche o cemitério. É tempo de terminar. Falta apenas referir o gosto pela conversa e o toque de humor que sempre nos acompanha a nós, Fermentelenses, pela vida fora. A mulher ficou mais de uma hora com o grandíssimo molho de erva à cabeça conversando com aquela amiga. E a minha experiência diz-me que quando dois fermentelenses conversam aparece sempre pelo menos um terceiro a entrar na conversa. Quando o Senhor Presidente da Junta falava comigo sobre esta sessão, na Praça Marquês de Pombal, logo passou o Virgílio a cumprimentar-nos. O Homem que se pensava duro e teso - e inexpugnável a sua propriedade - acabou a acordar, em cima do carro de bois, no largo do Cruzeiro. E o humor às vezes ácido, outras vezes injusto, as mais das vezes elegante, certeiro e carinhoso, sem ofensa passa também nesse gosto ímpar daquilo a que chamamos os apelidos. Que muitas vezes ( só ) a elevação sócio-cultural consegue eliminar, ainda que tardiamente e já aqui falámos de pessoas que venceram o nome porque construíram uma personalidade marcante mas muitas mais permanece indefinidamente nos muros desta Terra. E é por isso que eu vou guardar o convite do meu amigo Carlos Nolasco como prova provada que sou de Fermentelos e vou dizer à minha irmã, que não pôde estar aqui presente, que toda a gente me perguntou muito pela Florzinha. É tudo.

15 15 João Pires da Rosa Fermentelos Junta de Freguesia 5 de Maio de 2010

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