PARECER CONSULTA Nº 009/2012 CRM/PA PROCESSO CONSULTA Nº 437/2012 PROTOCOLOS N 3236/2012 E 3612/2012 INTERESSADOS: F.G.M.B./A.C.J.

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1 PARECER CONSULTA Nº 009/2012 CRM/PA PROCESSO CONSULTA Nº 437/2012 PROTOCOLOS N 3236/2012 E 3612/2012 INTERESSADOS: F.G.M.B./A.C.J.B. PARECERISTA: CONSELHEIRO ARTHUR DA COSTA SANTOS. Ementa: Número de pacientes a ser atendidos na jornada de trabalho do médico. Inexistência de normatização sobre o assunto. I - PARTE EXPOSITIVA Tratam-se de consultas encaminhadas ao Conselho Regional de Medicina do Estado Pará pelos médicos F.G.M.B./A.C.J.B., nas quais questiona-se sobre o número de pacientes que os profissionais devem atender durante sua jornada de trabalho em postos de saúde, ambulatórios do SUS (seja SESPA ou SESMA) e se no interior a quantidade é a mesma. II DO PARECER A princípio, faz-se necessário expor algumas resoluções dos demais Regionais, que cuidam sobre o assunto em questão: RESOLUÇÃO CREMERS Nº 007/2011: (...) Art. 2º - No atendimento de pacientes com BAIXO RISCO DE MORTE, que necessitam avaliação diagnóstica e tratamento medicamentoso, deverá ser observada a relação de um médico para o atendimento máximo de até 14 (quatorze) pacientes por turno de quatro horas.

2 RESOLUÇÃO CREMERJ Nº 17/1987 (...) Art. 13 Recomendar que na assistência ambulatorial devam ser atendidos 12 (doze) pacientes no máximo, em jornada de 4 (quatro) horas, respeitadas as limitações em números menores, conforme as especialidades. Resolução CREMEPE n.º 01/2005 (...) Art. 1º (...). I Para consultas ambulatoriais o limite referido no caput deste artigo, é o de até 14 pacientes, atendidos por médico, em 4(quatro) horas de jornada de trabalho, respeitando-se a decisão do médico de ultrapassar ocasionalmente este número de acordo com sua capacidade de trabalho, mas dentro dos ditames de padrões éticos. Em pesquisa realizada pela administradora de empresas Cristiane Sonia Arroyo, nas instituições públicas, o tempo de consulta médio variou entre 08 e 52 minutos, enquanto nos serviços privados, as médias oscilaram entre 13 e 26 minutos. A pesquisa faz parte da tese de doutorado de Cristiane, defendida Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. na Faculdade de O Conselho Federal de Medicina em seus Pareceres Consulta nº 30/1990 e 001/2010 já havia normatizado que nenhum órgão ou instituição tem competência para determinar o período de avaliação médica ou estabelecer o número de atendimentos para qualquer carga horária ou atividade médica. Com a entrada em vigor do Código de Ética Médica de 1988 e, mais recentemente, com o Código de Ética Médica de 2009, pode-se verificar que a predeterminação de um lapso de tempo tomado por

3 ideal pela Administração Pública (ainda que no âmbito do SUS e mesmo dentro de programas de saúde), para a realização de consulta médica acarreta confronto direto com Princípios Fundamentais da Medicina inseridos nos códigos retro mencionados, mais precisamente o qual dispõe que o médico não pode, em nenhuma circunstância ou sob nenhum pretexto, renunciar à sua liberdade profissional, nem permitir quaisquer restrições ou imposições que possam prejudicar a eficiência e a correção de seu trabalho. Em se subordinando a um tempo predeterminado de consulta (mínimo ou máximo), por óbvio que o profissional renuncia à sua liberdade de investigar amplamente a condição do indivíduo a si submetido, bem como de abarcar devidamente, e segundo a SUA EXCLUSIVA CONSCIÊNCIA, a doença naquele organismo. Ademais, estipular-se um tempo máximo de duração da consulta, como praticado correntemente no âmbito do sistema público de atenção à saúde, vai de encontro ao Princípio Fundamental XVI e aos Art. 20 e 32 do atual Código de Ética Médica, os quais dispõem: XVI - Nenhuma disposição estatutária ou regimental de hospital ou de instituição, pública ou privada, limitará a escolha, pelo médico, dos meios cientificamente reconhecidos a serem praticados para o estabelecimento do diagnóstico e da execução do tratamento, salvo quando em benefício do paciente. Art. 20. Permitir que interesses pecuniários, políticos, religiosos ou de quaisquer outras ordens, do seu empregador ou superior hierárquico ou do financiador público ou privado da assistência à saúde interfiram na escolha dos melhores meios de prevenção, diagnóstico ou tratamento disponíveis e

4 cientificamente reconhecidos no interesse saúde do paciente ou da sociedade. Art. 32. Deixar de usar todos os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento, cientificamente reconhecidos e a seu alcance, em favor do paciente. É desaconselhável ao profissional que se sujeite a uma predeterminação de tempo de duração da consulta, assim como a um excesso de consultas dentro de uma mesma jornada de trabalho. Exemplo disso pode ser destacado no Parecer CFM Processo/Consulta n 3.236/89 (PC/CFM/N 30/1990, aprovada na Sessão Plenária de 14/09/2004), da lavra do Conselheiro Federal Dr. Sérgio Ibiapina Ferreira Costa, já mencionado acima e o qual assevera com propriedade que limitação temporal, via de regra, aleatoriamente imposta, atenta contra a boa prática médica, ignora a impossibilidade de se planificar, aprazar e modelar o atendimento médico e, com frequência, torna-se absurda, relegando fatores determinantes do tempo mínimo ideal para assistência do paciente, tais como as peculiaridades e destinação de cada serviço e as condições e necessidades do assistido. A alegação é corroborada no Parecer proferido pelo CRMSP mediante consulta n /97 (Aprovada na RP em ), da lavra do Conselheiro Regional Dr. José Marques Filho, quando o mesmo afirma que a duração da consulta para dois pacientes com uma mesma doença poderá ter variações enormes na prática diária, dependendo de uma série de fatores. No âmbito do sistema público de atendimento à saúde, a questão obteve específico posicionamento no Parecer proferido pelo CRMSP mediante consulta n /97 (Aprovada na 2.068ª em 06/02/1998), da lavra do Conselheiro Regional Dr. Pedro Henrique Silveira, afirmando o mesmo que os responsáveis pelo atendimento médico da

5 população deverão sempre levar em conta a qualidade e não a quantidade dos serviços efetivamente prestados aos munícipes. Em parecer proferido pelo CRMCE n 24/2002 (PC n 2917/2002), da lavra do Conselheiro Regional Dr. Rafael Dias Marques Nogueira, restou assim ementado: EMENTA. O tempo necessário para uma consulta médica é o ideal para o médico realizar anamnese, exame físico, diagnóstico e tratamento. Nenhum órgão ou entidade tem competência para definir este tempo.(...) O médico deve utilizar o tempo efetivamente necessário ao bom relacionamento médicopaciente e à perfeita execução do profissional, em todas as modalidades de atendimento. Como bem ressaltado pelo Conselheiro Dr. Rafael em suas razões de decidir, sequer a OMS Organização Mundial de Saúde - ousou arbitrar no campo da consulta médica, do que se pronunciou sobre o tema afirmando que não existe, ainda, orientação sobre a duração ideal das consultas médicas ou um número desejável de pacientes atendidos por hora. Em que pese os argumentos acima delineados, os quais já seriam suficientes a determinar as conclusões inseridas no presente parecer, é indispensável adequar o caso ao âmbito do SUS Sistema Único de Saúde. A Constituição Federal em 1988 em seus arts. 196 e seguintes dispõe que a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Em complementação à regra constitucional hierarquicamente superior, foi editada, em 1990, a Lei n 8.080, a chamada LOS

6 Lei Orgânica da Saúde, a qual afirma que a predeterminação de tempo ou número de atendimentos atenta frontalmente à própria concepção constitucional legal do sistema, sendo de todo inadequada e, até mesmo, inválida, não podendo gerar qualquer obrigação do médico. Por fim, seguem algumas considerações sobre o exercício da jornada de trabalho médica, cabendo ressaltar dois aspectos genéricos, quais sejam: se a relação do médico com o Posto de Saúde for implementada com assinatura da CTPS, recolhimento de FGTS e demais características da relação trabalhista, aplicam-se à espécie os dispositivos previstos na Lei n 3.999/61, dos quais destacamos o art. 8, alínea a e Parágrafo 1, a saber: A duração normal do trabalho será: a) para médicos, no mínimo de duas horas e no máximo de quatro horas diárias; b) para os auxiliares será de quatro horas diárias. Entretanto, se a relação do médico perante o Posto de Saúde for implementada na qualidade de funcionário público municipal ou estadual, com ingresso mediante realização de concurso público, estabilidade e demais vantagens próprias, a regra aplicável à espécie não é a da Lei n 3.999/61, mas sim a das Leis Municipal/Estadual, com regras próprias e específicas que fixam horário e condições de trabalho dos servidores nessa condição, posto que o médico atua não como empregado, mas sim, como servidor público, sendo regido por sistema legal próprio. Ainda nesse último caso, cabe reafirmar que o Poder Público não pode, sobremaneira, implementar a fixação de um tempo para a consulta, tão pouco de um número mínimo de pacientes por dia, por incompatível com legislação superior e com a realidade prestação médica. Com base nas considerações acima alinhavadas, podemos concluir que não deve ser da competência de nenhum órgão ou entidade a determinação do número de atendimentos médicos para qualquer carga da

7 horária em qualquer especialidade. O tempo de duração de cada consulta não pode ser determinado por instruções, mas pelas circunstâncias que cada caso clínico requerer. É o parecer, salvo melhor juízo. Belém, 11 de junho de DR. ARTHUR DA COSTA SANTOS CONSELHEIRO CRM/PA

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