DESPOLITIZAÇÃO DOS MECANISMOS JURÍDICOS NA TUTELA INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS: UMA ANÁLISE DO SISTEMA DE MONITORAMENTO DAS NAÇÕES UNIDAS

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1 DESPOLITIZAÇÃO DOS MECANISMOS JURÍDICOS NA TUTELA INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS: UMA ANÁLISE DO SISTEMA DE MONITORAMENTO DAS NAÇÕES UNIDAS DEPOLITIZATION OF THE LEGAL MECHANISMS IN INTERNATIONAL HUMAN RIGHTS PROTECTION: AN ANALYSIS OF THE UNITED NATIONS MONITORING SYSTEM Rafael Barreto Souza RESUMO O artigo visa estudar o Sistema de Monitoramento de Direitos Humanos das Nações Unidas dentro de seus delineamentos atuais, particularmente a reforma realizada pela Assembleia Geral em 2006 a respeito do novo estatuto jurídico do Conselho de Direitos Humanos, além das especificidades dos Órgãos dos Tratados. O desenvolvimento do trabalho se dá através de um levantamento das bases conceituais de direitos humanos, da efetividade do ordenamento do Direito Internacional no que tange à matéria e de uma análise crítica de seus limites e possibilidades em termos políticos e jurídicos. PALAVRAS-CHAVES: DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS. EFETIVIDADE. CONSELHO DE DIREITOS HUMANOS. ÓRGÃOS DE TRATADOS DAS NAÇÕES UNIDAS. ABSTRACT The paper aims to study the United Nations Human Rights Monitoring System, within its present framework, particularly the reform undertaken by the General Assembly in 2006 concerning the new legal statute of the Human Rights Council and the peculiarities of the UN Treaty Bodies. The paper's development is carried out through an analysis of the conceptual bases of human rights, of the effectiveness of the international legal system involving the subject and a critical analysis of its limits and possibilities in political and juridical terms. KEYWORDS: INTERNATIONAL LAW OF HUMAN RIGHTS. EFFECTIVENESS. HUMAN RIGHTS COUNCIL. UNITED NATIONS TREATY BODIES. 1. Introdução Direitos Humanos estão protegidos internacionalmente. Haveria alguma verdade nesta afirmação? Tal questão surgiu a pouco mais de 60 anos e que, apesar de grandes esforços para lhe dar uma resposta afirmativa, para muitos ainda permanece uma incógnita ou mesmo uma negativa. O presente trabalho busca ilustrar o sistema de proteção internacional aos Direitos Humanos no âmbito das Nações Unidas e a maneira como esta organização tem tentado lidar com as sistemáticas violações perpetradas nos mais diversos Estados. Interessa saber como o atual sistema de proteção de direitos humanos no âmbito das Nações Unidas se efetiva e quais suas perspectivas futuras. A construção de um sistema de tutela composto por Estados implica em uma série de limitações, dificultando a visualização de uma estruturação da comunidade internacional em moldes estatais. Internamente, os Estados têm adotado a clássica divisão em três poderes executivo, legislativo e judiciário independentes, harmônicos e que atuam como agentes de controle um dos outros. Este sistema funciona com eficácia, impondo-se como premissa crucial para as democracias modernas, está, entretanto, plenamente adstrito aos limites do Estado. Sob um viés analógico pode-se perceber certa correlação entre a instituição de organizações internacionais e as ordinárias formações estatais, posto que as primeiras empreendem esforços no sentido de exercer atividades legiferantes (por meio de tratados, acordos, recomendações e resoluções), executivas (através de programas de ajuda humanitária, desenvolvimento econômico, educação etc) e até militares (com tropas de manutenção de paz). Contudo, a prestação jurisdicional em moldes estato-centrados ainda se mostra uma realidade longínqua. A atuação do Poder Judiciário nos ordenamentos nacionais se dá pela observância de princípios constitucionais na aplicação da legislação ordinária ou através do emprego de uma firme jurisprudência, sobretudo nos sistemas do common law. Semelhante dinâmica não é vista no seio da ONU. Não obstante haver uma rica atividade legiferante e um nível considerável de ratificação de tais instrumentos, não existe uma Justiça mundial que julgue as ações estatais e aplique imparcialmente os princípios e a legislação de Direito Internacional de Direitos Humanos em desfavor dos Estados. Com competência em matérias de Direito Internacional Público, salienta-se o papel desempenhado pela Corte Internacional de Justiça, que arbitra litígios interestatais acerca de tratados bi e multilaterais. Há igualmente o Tribunal Penal Internacional e os Tribunais para a ex-iugoslávia e para Ruanda com competência para julgar pessoas que cometam crimes contra a humanidade, de guerra, de agressão e de genocídio[1], mas nenhuma dessas cortes atua no sentido de conhecer de causas em que os Estados figurem no polo passivo, por suposto descumprimento de tratados internacionais de Direitos Humanos, contra indivíduos e comunidades. Desta sorte, a ausência de um organismo jurisdicional que forneça efetividade às premissas jurídicas internacionais prejudica sensivelmente a credibilidade e a aplicabilidade à promoção e proteção dos direitos humanos. * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

2 Apesar de tal carência, outros mecanismos estão à disposição para garantir algum controle sobre a implementação dos referidos tratados. Trata-se do Sistema de Monitoramento de Direitos Humanos das Nações Unidas, que existe de modo quase concomitante à própria ONU, composto atualmente pelo Conselho de Direitos Humanos e pelos vários Órgãos de Tratados. Em relação a esta estrutura normativa e fiscalizatória de direitos humanos cabe questionar a sua natureza. Tratar-se-ia de um ordenamento jurídico internacional, apesar da ausência de poder jurisdicional e com um longo histórico de inobservância a seus preceitos? Ainda que positiva a resposta, seria este efetivo? Inicialmente, se faz necessária uma introdução filosófico-histórica acerca da concepção de Direitos Humanos sob a óptica da doutrina ocidental, segundo a qual se construiu o Sistema. Em seguida, é relevante apresentar alguns entendimentos a respeito da formação de um ordenamento jurídico, para que se possa adentrar na essência do presente estudo, ou seja, a criação, a composição, o substrato legal fundante, o funcionamento e a expressão real das atividades de monitoramento internacionais. Por fim, devem-se analisar criticamente as reformas e a estrutura do Sistema de Direitos Humanos das Nações Unidas na contemporaneidade, ressaltando-se a ilimitada dimensão que estes direitos assumem, no sentido em que estão em contínua construção e transformação em meio às complexas relações sociais intra e interestatais. 2. Direitos Humanos sob uma visão filosófico-histórica O homem é um fim em si mesmo (KANT, 1788 apud QUEIROZ, 2005). Este brocardo acima talvez seja a melhor expressão da dimensão do Direito. A pessoa humana não é um meio para se atingir nenhum fim e não é um mero objeto de relações jurídicas, ela é, antes de tudo, sujeito. Ser sujeito significa poder viver a totalidade de oportunidades e potencialidades disponíveis à pessoa humana e exercer o direito de ser mais (SOUZA, 2001, p. 83). A concepção das infinitas possibilidades de realização do ser humano visa a efetivar a magnitude das potencialidades humanas por meio da ação cognoscente e do olhar crítico sobre seu contexto social. Assim, pensar o ser humano em termos sempre crescentes é garantir que a busca de sua realização e felicidade não terá obstáculos. Entretanto, estão precisamente neste ponto as incongruências oriundas do convívio em sociedade, que gera conflitos e que demanda uma normatividade coletiva. O direito sobrevém à humanidade face às relações sociais entre seus membros. A noção de ter direito a algo não foi originalmente pensada em termos teóricos e abstratos, ela foi percebida, antes de tudo, como aquilo que era essencial e indispensável. Segundo Charles Malik[2] (MELLO, 2004, p. 813), a expressão direitos só pode designar aquilo que pertence à essência do homem, que não é puramente acidental, que não surge e desaparece com a mudança dos tempos, da moda, do estilo ou do sistema: deve ser algo que pertence ao homem como tal. Torna-se importantíssima a convicção de titularidade de direitos como fruto da essência humana, entretanto considerá-la estática causa sérios entraves, uma vez que a busca por ser mais naturalmente altera o ser humano no que lhe é imprescindível, ou seja, seus direitos se modificam e crescem. A justiça, por sua vez, varia enormemente de acordo com os valores culturais, religiosos, sociológicos e históricos e confronta o viés universalista que se tenta atribuir a este entendimento jurídico-filosófico. O caráter mutável dos Direitos Humanos é basilar para compreender a construção dos Direitos Humanos, como resultado de reivindicações políticas que, no consenso contemporâneo, todo ser humano tem o dever de ter perante sua sociedade ou governo, conforme o posicionamento de Louis Henkin citado por Mello (2004, p. 813). Enxergar o direito sob o escopo da justiça provocou imensuráveis embates entre os juristas por décadas. Os valores morais daquilo que era ou, deveria ser, justo ia de encontro à prática jurisdicional, de maneira que a justiça e Direito começaram a parecer imiscíveis. Destarte, atribui-se a Hans Kelsen o mérito de ter sido o primeiro a considerar as problemáticas como distintas (BOBBIO, 2008, p. 236) e a estudar o direito de forma independente de tais valores morais. O pensamento jurídico que se seguiu focou-se nos sistemas normativos, no poder coercitivo do Estado e na eficácia das normas postas. Desenvolveu-se nessa época a crença em um positivismo inflexível, que sacralizava a lei escrita e em vigor, independente de seu conteúdo. Entretanto, esta concepção teve seriíssimas consequências humanitárias, posto que, usando-lhe como retórica protetora, promoveu-se o Holocausto e as atrocidades da II Guerra Mundial. Albergados pela legislação nacional, líderes germânicos praticaram atos de discriminação, exclusão de minorias, perseguição política, supressão de liberdades individuais e um genocídio de dimensões continentais. Estes acontecimentos repercutiram intensamente na reestruturação da ciência jurídica e proporcionaram a fundação de sólidos alicerces para o crescimento do Direito Internacional e dos Direitos Humanos. Buscou-se, na ocasião, uma definição legal para um mínimo existencial que refletisse uma edificação de parâmetros mínimos para a garantia da dignidade das pessoas. Neste sentido, afirma Piovesan (2006, p ) que no momento em que os seres humanos se tornam supérfluos e descartáveis, no momento em que vige a lógica da destruição, em que é cruelmente abolido o valor da pessoa humana, torna-se necessária a reconstrução dos Direitos Humanos, como paradigma ético capaz de restaurar a lógica do razoável. Dentro desta perspectiva, enraizado na doutrina jusnaturalista, foi possível conceber a elaboração de * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

3 convenções internacionais que garantissem direitos e a posterior formulação de um sistema de monitoramento da implementação de tais tratados de direitos humanos pelos Estados. A conceituação e fundamentação do caráter dos Direitos Humanos é um debate relevante, mas na conjuntura atual, em que se dispõe de rico substrato normativo e de mecanismos concretos de proteção, importa buscar um viés de praticidade sobre o estudo da matéria. Assim, não obstante a importância do debate a respeito do fundamento dos direitos humanos, o maior problema dos direitos humanos hoje é 'não mais o de fundamentá-los, e sim o de protegê-los' (BOBBIO, 1992, p. 25 apud PIOVESAN, 2007, p. 110). 3. Efetividade do Direito Internacional dos Direitos Humanos A soberania sempre permeou fortemente as relações internacionais e sua origem se cunha na formação das identidades estatais. A independência política, econômica e jurídica acompanhou a aproximação entre os Estados, e hoje é relativizada em face às mudanças conjunturais. Há, assim, espaço para se construir um ordenamento internacional conectado com as ordens jurídicas internas e que permita a observância de normas comuns. O Direito Internacional surgiu no contexto da intensificação das relações multilaterais, embora incessantes esforços tenham sido empreendidos para que esse lograsse êxito, os tratados e convenções internacionais costumavam esbarrar na impermeabilidade da afamada soberania nacional. Talvez por esta razão, muitos fomentaram um descrédito a tal ramo jurídico e questionam seriamente a sua real efetividade. O ordenamento internacional, após décadas de intensa atividade legiferante dos órgãos interestatais, é hoje uma realidade inegável, incluindo sólidas instituições jurisdicionais como a Corte Internacional de Justiça e os Tribunal Penais Internacionais, além das Cortes de competência regional. Muitos ainda alegam que a ineficácia das normas internacionais se dá devido à faculdade de o Estado poder aceitar ou não obedecê-las, fator que lhes inibe a executoriedade. Sucede que atualmente a imagem que os Estados transpõem para o mundo influi diretamente no âmbito interno, visto que a concessão de financiamentos, a participação em fóruns econômicos e mesmo o turismo estrangeiro são comumente influenciados pela observância à legislação internacional e pela confiabilidade demonstrada pelo país, com especial destaque para o livre gozo dos Direitos Humanos. Transita-se de uma concepção hobbesiana de soberania, centrada no Estado, para uma concepção mais próxima de Kant centrada na ideia de cidadania universal (PIOVESAN, 2006, p. 12). Bobbio (2008, p. 32) entende que sequer seria necessário que o ordenamento fosse de fato cumprido por todos, pois aquilo que caracteriza a validade empírica de um ordenamento não é a sua observância, mas o agir orientado em sua direção, e não há dúvida que também quem o viola age orientando sua ação no sentido daquela norma, cuja presença tem em conta ao descumpri-la. Ainda que se questionem estes argumentos, os princípios e direitos adotados internacionalmente atuam como preceitos positivados que afirmam ideais de condutas sociais e governamentais que permeiam o seio das mais diversas sociedades e culturas. Servem, igualmente, como modelo para inúmeras Constituições, leis ordinárias e entendimentos jurisprudenciais em todos os continentes. Nota-se que muitos modelos constitucionais tiveram suas bases, em especial em relação ao rol de direitos e garantias fundamentais, em documentos internacionais protetivos. Assim, o Direito Internacional se apodera de uma parte do Direito Constitucional que não é mais exclusividade das ordens internas. Verifica-se, desde meados do século passado, uma continuidade principiológica do Direito Internacional, ou seja, os Direitos Humanos têm sido o constante alicerce para o desenvolvimento dos tratados internacionais que tutelam direitos específicos, além de perpassarem as negociações nas esferas comerciais, ambientais, humanitárias e de propriedade intelectual. A tendência contemporânea, mantendo tais bases jurídicas, é o crescimento de direitos, aumentando seu escopo, tratando-se do chamado efeito de Cliquet, que é uma expressão do alpinismo em que o alpinista somente pode ir para cima (COUTO, apud MELLO, op.cit., p. 813). No mesmo sentido defende Max Weber, citado por Bobbio (2008, p. 228): Eficácia contínua é o que garante o estabelecimento de um ordenamento jurídico, ou seja, normas impostas sem permanência não caracterizam um ordenamento, tendo em vista sua efemeridade. O plano do dever ser se diferencia sensivelmente do plano do ser, mas tal fato não retira sua importância para influenciar, ou mesmo ditar, o plano do ser futuro e de construir o ideal de sociedade almejado. 4. Sistema de Monitoramento dos Direitos Humanos das Nações Unidas 4.1. A antiga Comissão de Direitos Humanos A partir do contexto da exposição midiática dos acontecimentos do holocausto, houve a criação das Nações Unidas sobre os alicerces fundamentais da paz, legalidade, desenvolvimento social e, particularmente, dos Direitos Humanos. De modo que as consequências do fim da II Guerra Mundial foram decisivas para a iniciativa internacional de proteger os aludidos direitos e de criar instrumentos que lhe garantissem juridicamente. A Carta das Nações Unidas foi o primeiro documento internacional que, além de instituir a ONU, trouxe em seu preâmbulo os objetivos de reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

4 e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla. Percebe-se, desta maneira, que desde a criação da Organização há um direcionamento à defesa de direitos essenciais. A obrigatoriedade do cumprimento dos princípios do preâmbulo e da inteireza do documento em si provoca prolongada discussão doutrinária. Árduos defensores apontam que a execução destes direitos essenciais faria parte indissociável das finalidades das Nações Unidas e os Estados, compondo-a, não poderiam negligenciar tais direitos (MELLO, op.cit., p. 869). Não obstante as aludidas opiniões, os Direitos Humanos se fortaleceram mais concretamente na esfera internacional com o estabelecimento da Comissão de Direitos Humanos, que se reuniu pela primeira vez em 1947, com o objetivo maior de redigir um instrumento de repercussão mundial que elencasse claramente direitos essenciais à humanidade, sendo assim produzida a Declaração Universal de Direitos Humanos. Após um árduo ano de trabalhos e debates, a proposta de Declaração ficou pronta e foi adotada pela Assembleia Geral (AG) da ONU em 10 de dezembro de 1948, ficando tal data reconhecida como o dia internacional dos Direitos Humanos. A Comissão de Direitos Humanos nasceu como o mais importante órgão legiferante de normas internacionais sobre este tema no globo, sendo sediado em Genebra, na Suíça, e seguiu este escopo pelos vinte anos posteriores, com inédita competência para investigar violações aos Direitos Humanos, formar Grupos de Trabalho e realizar visitas in loco aos países monitorados, independente de seu grau de desenvolvimento ou de poder econômico. Este organismo esteve vinculado ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), o qual era responsável pela eleição de seus 53 (cinquenta e três) membros para mandatos de dois anos, sendo nenhum deles permanente. Durante o seu período de funcionamento houve uma notável abertura à participação da sociedade civil, acompanhando suas deliberações cerca de 300 organizações não-governamentais, como aponta Martinetti (2006, par. 2), o que teve um papel importante, de sorte que ao tempo em que esteve próxima do órgão, pôde observar suas falhas, propor mudanças e exercer um efetivo controle social. Procedimento de salutar importância instituído em 1970 foi o método de denúncias individuais. A Resolução 1503 do Conselho Econômico e Social serviu como base de trabalho para a Comissão e salvaguardou um procedimento de denúncia imparcial, objetivo, eficiente e orientado às vítimas. Instituindo-se o processamento da demanda individual contra algum Estado determinado em caráter confidencial, para fins de maior cooperação do Estado em questão[3]. Sua principal atuação se dava quanto à elaboração de recomendações para a resolução e reparação da situação de violação. Dentro do universo sob sua competência, esta Comissão obteve alguns sucessos memoráveis através da atuação de Relatores Especiais que denunciaram violações graves cometidas por ditaduras latino-americanas e em conflitos étnicos no continente africano. Uma de suas principais conquistas foi a elaboração, em 1966, o Pacto de Direitos Civis e Políticos e o Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais que pontuaram, pela primeira vez na História, direitos às pessoas em seu convívio social e em sua relação com o Estado. Os pactos se diferenciam, de acordo com Mello (2004, passim.), tendo em vista que nos direitos civis e políticos o Estado necessita se abster de modo a não interferir nas liberdades individuais, já quanto aos direitos econômicos, sociais e culturais o Estado precisa agir para promover políticas sociais como saúde, educação e direitos trabalhistas, sempre de modo progressivo e crescente. A diversidade de direitos tutelados exigiu a divisão do rol de direitos em dois documentos distintos, seguindo a dicotomia ideológica latente na organização. Destarte, o bloco de Estados capitalistas ocidentais desejavam a prevalência das liberdades individuais, enquanto que as nações socialistas se colocam ao lado dos direitos sociais ligados à forte atuação estatal. Apesar da divisão dos instrumentos, a assinatura dos documentos se deu massivamente pelos Estados-membros e houve naturalmente a valorização de valores novos nos textos internacionais, pelo menos formalmente. Nos anos posteriores, uma atmosfera excessivamente politizada dominou as atividades da Comissão, o contexto da Guerra Fria nas relações internacionais não deixava grandes brechas para o desenvolvimento de uma dinâmica de monitoramento fático-jurídico do cumprimento dos tratados internacionais. Desta maneira, a Comissão se viu, em muitos aspectos, estruturalmente impedida de atingir o objetivo para o qual ela havia concebida. A diplomacia interestatal, a prevalência dos interesses nacionais e a continuidade dos jogos políticos de alianças multilaterais prejudicaram sobremaneira as atividades de fiscalização, denúncia e recomendação. Não se tratava de um organismo com analistas independentes e imparciais, desvinculados de governos específicos, mas de representantes nacionais que punham em evidência os posicionamentos típicos de suas relações exteriores. Logo, tornou-se claro que o espaço da Comissão se tornou mais um ambiente de discussão políticoideológica, distante de seu papel como monitorador de fatos, analista de violações e formulador de recomendações. Assim, o diretor executivo da Human Rights Watch chegou a afirmar que a Comissão seria um júri formado por assassinos e estupradores, ou uma força policial comandada em grande parte por suspeitos de assassinato e estupro, determinados a impedir a investigação dos seus crimes (SHORT, pg. 174). Críticas de tão severo tom não eram incomuns nas últimas décadas de existência da Comissão, especialmente os eventos de 1989 e 1991, quando as disparidades capitalismo/socialismo deixaram de existir. Anteriormente se possuía pouca fé quanto às tentativas de tutela de direitos humanos internacionalmente, uma * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

5 vez que a realidade geopolítica do globo não se mostrava de nenhuma maneira favorável à cooperação, ao diálogo franco e a interesses comuns. No entanto, após a dissolução soviética não haveria mais razão para que o direito internacional dos direitos humanos não se desenvolvesse em sua plenitude, porém isso não se evidenciou devido à manutenção de uma estrutura arcaica e ao débil ânimo dos Estados para metamorfosear o quadro existente. Reformas eram imperativas na estrutura da ONU como um todo e particularmente no que tangia à Comissão para não perdessem sua credibilidade face às complexas relações atuais A reforma de 2006 e a instituição do Conselho de Direitos Humanos Com a chegada do século XXI, várias estratégias foram reformuladas nas Nações Unidas acerca da efetivação dos Direitos Humanos. Ainda que o ordenamento internacional detivesse rico substrato normativo e que houvesse esforços para o monitoramento global destes direitos, poucos avanços estavam ocorrendo ou ocorrendo a passos lentos. Assim, em 2000, a Assembleia Geral da ONU se reuniu em Nova Iorque e adotou os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, mais conhecidos por sua sigla inglesa MDGs (Millenium Development Goals) (NAÇÕES UNIDAS, 2000). São propostas bastante ousadas posto que colocam o ano de 2015 como data limite para o fim da pobreza, para a universalização da educação primária, para a igualdade de gênero, para o fim da mortalidade infantil e materna, para o combate ao HIV/AIDS, para a manutenção de um meio ambiente sustentável e para a criação de uma rede de parcerias global. A preocupação com os rumos dos indicadores sociais, econômicos e ambientais não são injustificadas, uma vez que nos últimos anos se observou o aprofundamento das enfermidades epidêmicas e da exclusão de minorias, ao contrário do que se esperava que ocorresse ao longo do século XX. Esta análise se agravou ao se notar que instrumentos de proteção existentes pouco contribuíram para alterar tal quadro. Destarte, o esforço mundial para atingir os MDGs reflete o reconhecimento por parte dos governos, dos agentes econômicos e da sociedade civil acerca do valor dos Direitos Humanos para a consecução da possibilidade de os sujeitos serem mais. O Relatório sobre os Millenium Development Goals de 2008 possibilitou aferir alguns avanços e alguns retrocessos. Houve redução na pobreza mundial com um todo, as matrículas na escola primária chegam a 90% em quase todas as regiões e os números de mortes e novas contaminações pelo HIV/AIDS têm caído. Por outro lado, 113 (cento e treze) países não conseguiram alcançar a igualdade de gênero na educação fundamental e média, meio milhão de mães ainda morre devido a complicações no parto, as emissões de dióxido de carbono continuam aumentando e um terço das populações de nações em desenvolvimento habita em submoradias[4]. O ímpeto de combater este cenário crítico do começo de século, somado às enormes falhas existentes no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da ONU, pressionaram os governos à reforma do Sistema de Monitoramento de Direitos Humanos, que necessitava se adequar à nova realidade mundial e buscar maior inserção social, transparência e democracia. Desta feita, em 2006, em face às demandas da comunidade internacional, a Assembleia Geral da ONU, através de Resolução 60/251, extinguiu a Comissão de Direitos Humanos[5], e sua consequente vinculação ao ECOSOC, e a substituiu pelo Conselho de Direitos Humanos, órgão soberano com mesmo status institucional que o Conselho de Segurança, composto por 47 (quarenta e sete) membros rotativos com termos de três anos, que se reporta somente à Assembleia Geral. As inúmeras críticas formuladas ao longo dos anos foram levadas em conta quando da elaboração da Resolução 60/251, de modo que se criasse um sistema mais coerente com sua natureza. De maneira que algumas mudanças merecem destaque. O câmbio mais perceptível diz respeito ao número de Estados-membros do Conselho, que diminui de 53 para 47, tal disposição objetivou a estruturação de um grupo menor e mais conciso de países para realizar as atividades de monitoramento, de maneira que pudesse haver mais celeridade e dinamismo nas deliberações, não se abandonando obviamente o princípio de distribuição geográfica equitativa. Na perspectiva temporal, pode-se verificar que o tempo de mandato dos membros aumentou de dois para três anos para permitir uma continuidade e fluidez nos trabalhos, além de que a frequência de sessões deixou de ser uma vez por ano para se realizar em três períodos no mesmo ano, o que alargou significativamente a capacidade de monitoramento. Quanto às mudanças de cunho material, princípios fundamentais foram erigidos para nortear o Conselho, vg. universalidade, imparcialidade, objetividade, não seletividade, diálogo internacional construtivo e cooperação universal. A aludida lista principiológica teve aplicações concretas na determinação de critérios de elegibilidade para a composição do organismo, de modo que a cláusula 9 da dita resolução prevê: A Assembleia Geral: (...) 9. Decide também que membros eleitos para o Conselho devem gozar dos mais altos padrões na promoção e proteção de direitos humanos, devem cooperar plenamente com o Conselho e serem revisados sob o mecanismo da revisão periódica universal durante os seus mandatos. (NAÇÕES UNIDAS, Resolução AG 60/251, 2006) Assim, duas grandes deficiências foram atacadas. Primeiramente, estabeleceu-se como parâmetros de elegibilidade o gozo de elevado padrão de tutela em matéria de direitos humanos e a cooperação com as recomendação do órgão, colocando então uma restrição aos reincidentes violadores estatais. Em segundo lugar, * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

6 tomou-se o preceito da moralidade ao estabelecer que os Estados fiscalizadores devam ser prioritariamente analisados durante seus termos enquanto membros do Conselho. Responde-se assim de antemão às alegações de escolha arbitrária de quais Estados devam monitorados primeiramente, sob a escusa de interesses estatais ilegítimos, uma vez que os próprios analisadores já devem ter sido objeto de denúncias e recomendações preliminarmente. Outra alteração de profundo impacto foi instituição do escrutínio secreto na eleição dos membros do Conselho, posto que as urnas secretas permitem que os Estados votem honestamente, sem o temor da repercussão em outras áreas de suas relações internacionais (SHORT, p. 183). Logo, consoante à boa-fé dos votantes, poderá haver uma real observância das premissas de elegibilidade sem eventuais contradições em relação às políticas externas. Objetivamente, torna-se mais dificultosa a entrada de Estados historicamente violadores de direitos, mas o segredo no voto não a obsta completamente, uma vez que a votação não deixa de ser uma manifestação de ordem política e devendo-se respeitar o resultado do processo eletivo. Importante salientar que o procedimento de denúncias individuais não sofreu supressão na reforma. Atualmente se encontra albergado pela Resolução 5/1 do Conselho que determina os critérios admissibilidade e os legitimados para apresentar petições frente ao órgão. Conforme a cláusula 87 desta resolução, os critérios de admissibilidade são os seguintes: a) Não tenha motivações manifestamente políticas e que seja compatível com os instrumentos internacionais de tutela de direitos humanos. b) Contenha descrição fática das alegadas violações e os direitos supostamente violados. c) A linguagem utilizada não deva ser insultante. Não obstante, a comunicação poderá ser examinada se cumpridos os demais critérios de admissibilidade e uma vez suprimidas as expressões insultantes. d) Seja apresentada por uma pessoa ou um grupo de pessoas que afirmem ser vítimas de violações de direitos humanos e liberdades fundamentais, ou uma pessoa ou grupo de pessoas, incluídas ONGs, que atuem de boa-fé em conformidade com os princípios de direitos humanos, não tenham posturas politicamente motivadas contrárias ao disposto na Carta das Nações Unidas e que afirmem ter conhecimento direto e fidedigno dessas violações. Não obstante, as comunicações que estejam devidamente fundamentadas não serão inadmissíveis somente porque a informação dos autores individuais seja de segunda mão, à condição de que se acompanhem de provas claras. e) Não se baseie exclusivamente em informes difundidos pelos meios de comunicação. f) Não se refira a um caso que pareça revelar um quadro persistente de violações manifestas e suficientemente provadas dos direitos humanos do qual já esteja se ocupando em um procedimento especial, um órgão criado em virtude de um tratado ou outro procedimento de denúncia análogo, das Nações Unidas o regional, na esfera de direitos humanos. g) Tenham-se esgotado os recurso da jurisdição interna, salvo que pareça que estes recursos seriam ineficazes ou poderiam se prolongar injustificadamente. Em análise de legitimação ativa, resta demonstrada a abertura do Conselho para a participação ativa dos indivíduos e ONGs, enquanto sujeitos de Direito Internacional no que tange à intervenção processual junto a organismos mundiais de monitoramento de direitos humanos. Dando prosseguimento às mudanças sistêmicas, a resolução também estabeleceu um novo mecanismo de monitoramento efetivo dos Estados, denominado Revisão Periódica Universal, disposto na cláusula 5, e da Resolução estudada. Este processo permite a revisão de todos os 192 Estados-membros da ONU quadrienalmente e foca a sua análise em um Estado por vez, garantindo a esse a oportunidade de mostrar os esforços empreendidos na efetivação dos Direitos Humanos, finalmente culminando com a elaboração de recomendações ao Estado. Os Estados sob revisão são analisados por uma troika, ou seja, um grupo de três Estados-membros do Conselho que devem submeter à plenária relatório sobre o monitoramento realizado. Assim, em um ano são analisados 48 países e em apenas quatro anos todos os Estados das Nações Unidas terão sido averiguados quanto à observância dos direitos humanos tutelados universalmente. Desde 2008, as sessões do Conselho estão em pleno movimento, incluindo-se a Revisão Periódica Universal. Em pouco tempo, consoante o entendimento do atual secretário-geral da ONU, sem dúvida este mecanismo terá enorme potencial para promover e proteger direitos humanos nas esquinas mais sombrias do mundo (informação oral, tradução livre)[6]. O aspecto revolucionário deste mecanismo é que ele não está adstrito à ratificação nacional de nenhum tratado ou convenção internacional, mas, devido ao seu estabelecimento pela AG das Nações Unidas, todos os Estados-membros da Organização estão submetidos às suas competências investigativas de forma equânime e indistinta, atuando mesmo sobre aqueles que não haviam se comprometido com tratados anteriores. Entretanto, as inovações precisavam levar em conta as substanciais diferenças sociais e orçamentárias dos países para que não se tornassem letra morta. Então, a noção de capacity-building needs, prevista na cláusula 5, c da resolução de 2006, se apresentou como um importante instrumento orientador na análise de implementação de direitos sociais, de maneira que deve ser levada em conta a capacidade infra-estrutural e orçamentária de cada Estado no momento do exame do cumprimento ou não das normas de direitos humanos. Ressalte-se que como será interpretado este paradoxo reserva do possível oposta à garantia de direitos fundamentais ficará a cargo da prática hermenêutica futura do Conselho, apenas a investigação dos casos concretos fornecerá substrato para se saber como o organismo encarará os limites materiais face à já alicerçada infungibilidade destes direitos. Contudo, este não é o único mecanismo existente no âmbito da ONU, anos antes da reforma de 2006 e mesmo depois, foram criados vários comitês com a atribuição de verificar o adimplemento de países em relação a tratados de direitos humanos específicos. * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

7 4.3. Órgãos dos Tratados de Direitos Humanos[7] Treaty bodies Paralelamente à ineficácia da antiga Comissão de Direitos Humanos nas últimas décadas do século XX, desenvolveram-se outros mecanismos de tutela em esfera global que se distanciavam da análise essencialmente interestatal promovida sobre toda a universalidade de direitos humanos e que detinham um foco em áreas determinadas conforme documentos elaborados com tal precisa finalidade. Trata-se dos Órgãos dos Tratados de Direitos Humanos ou Treaty Bodies pensados a partir dos pactos internacionais de 1966 e postos em prática devido às pressões das lutas sociais por direitos civis, dos movimentos contra a discriminação racial, do movimento feminista, dos movimentos de trabalhadores e da conquista de autodeterminação pelos povos africanos e asiáticos. A atuação dos aludidos movimentos ecoou no Direito Internacional, sendo sua pauta de lutas lançadas em Genebra almejando um reconhecimento jurídico mundial. Neste contexto, segmentos sociais historicamente excluídos passaram a ser tópicos de altíssima repercussão nas sessões de discussão. Durante este rico período de debates, a pressão de movimentos de diversas minorias como mulheres, vítimas de tortura e crianças e adolescente[8] promoveram a redação de convenções internacionais que vinculam inúmeros países do globo. Atualmente, há oito instrumentos jurídicos internacionais, os quais sejam: o Pacto de Direitos Civis e Políticos (1966), o Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1966), a Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (1979), a Convenção contra a Tortura e outro Tratamento Cruel, Desumano ou Degradante (1984), a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), Convenção sobre os Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros de suas Famílias (1990) e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2007). No ideário inicial do Sistema ONU de Direitos Humanos, todos os tratados internacionais, uma vez ratificados pelo número mínimo de Estados necessários, entravam em vigor em âmbito internacional e seriam supervisionados pela Comissão de Direitos Humanos hoje substituída pelo Conselho de Direito Humanos. Entretanto, a complexidade dos direitos analisados, o aumento de Estados ingressos na ONU e a especificidade das questões abordadas exigiram novas estruturas dentro do Sistema de Direitos Humanos das Nações Unidas. Neste sentido, em meados dos anos 1960, começam a ser instituídos organismos de monitoramento para cada Convenção, todos com a denominação de Comitê. Tal medida justificou-se na possibilidade de uma análise minuciosa da realidade dos Direitos Humanos nos Estados-partes e na elaboração de recomendações mais objetivas e específicas aos problemas locais segundo cada linha de direitos correlatos. Buscava-se, ainda, amenizar a expressão dos posicionamentos de política externa estatal nos trabalhos de monitoramento, ou seja, despolitizar a atividade fiscalizatória. Assim, surgem em caráter complementar às convenções de direitos específicos os comitês responsáveis pela implementação de casa uma dessas. Ilustradamente, vinculado do ao Pacto de Direitos Civis e Políticos criouse o Comitê de Direitos Humanos, vinculado ao Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais instituiu-se o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, vinculado à Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial fundou-se o Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial, e assim por diante. Diferentemente dos embates geopolíticos e da forte imposição de indicações político-estratégicas estatais no âmbito da anterior Comissão de Direitos Humanos, composta por delegados representando seus Estados de origem, os Comitês dos Tratados DDHH são compostos por especialistas internacionais independentes também chamados experts que atuam a título pessoal, não representando interesses alheios. Estas pessoas são escolhidas dentre ativistas e estudiosos da questão, que possuam intenso comprometimento com a proteção de direitos humanos. O critério de autonomia individual do analisador permite que haja maior imparcialidade, transparência, especificidade e qualidade técnica aos monitoramentos periódicos. Esta parece ser a solução mais adequada para uma efetiva despolitização dos mecanismos de monitoramento e uma aplicação mais jurídica das referidas normas. Em cada comitê varia entre 10 (dez)[9] e 23 (vinte e três)[10] o número de experts nos comitês e esses normalmente têm especialidades concentradas em áreas muito delimitadas, de maneira que todos os aspectos intrínsecos ao material em análise possam ser profundamente considerados. A título exemplificativa levanta-se que o Comitê contra Todas as Formas de Discriminação Racial poderá dispor de especialistas nas áreas de discriminação racial no trabalho, na educação, ou mesmo em relação ao racismo contra crianças de uma certa minoria étnica. Tamanha especialidade fornece uma qualidade técnica muito mais profunda e proporciona recomendações bem mais viáveis e interessantes. O processo de revisão estatal se dá periodicamente e de maneira bastante aberta e transparente. Inicialmente, requer-se do Estado a ser revisado um relatório completo explicitando como está o estágio de efetivação dos direitos preconizados no tratado em questão naquele momento, esclarecendo-se a situação daqueles sujeitos de direitos presentes em seu território, quais são as políticas públicas adotadas e os avanços percebidos. Após o recebimento do relatório estatal, o grupo de especialistas recebe relatórios de organizações não-governamentais, nacionais e internacionais, e relatórios das agências especializadas da ONU, todos com foco nos direitos protegidos pela convenção específica. * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

8 Durante as sessões dos Comitês ocorre o chamado Diálogo Construtivo entre os representantes do Estado e os especialistas. Nesta ocasião são formulados questionamentos precisos sobre imprecisões, incongruências, obscuridades ou dúvidas materiais acerca de denúncias evidenciadas nos relatórios apresentados. Sistematicamente, desenvolvem-se rodadas de perguntas, respostas e comentários que culminarão, ao fim da sessão, na formulação de Comentários Gerais ou Recomendações Gerais para o Estado-parte. Trata-se, desta forma, de órgãos quasi judiciais em que os especialistas atuam simultaneamente denunciadores e recomendadores de políticas públicas. Outrossim, abre-se a possibilidade para apresentação de denúncias específicas por indivíduos, grupos de indivíduos ou mesmo por outros Estados. O procedimento assemelha-se ao das revisões periódicas, podendo-se adotar o mecanismo de audiência das partes através de Diálogos Interativos, exceto que a análise e as recomendações nestas circunstâncias acontecerão de forma mais restrita, no âmbito do caso denunciado e podendo eventualmente ser preservada a confidencialidade. Quanto aos critérios eletivos, se preza pela distribuição geográfica equitativa e por outros parâmetros isonômicos, sendo a escolha dos especialistas por meio de eleição direta em reunião ordinária com a presença de todos os Estados que ratificaram o tratado respectivo. 5. Conclusão Os Direitos Humanos enraizados em um profundo senso de justiça se projetam na esfera internacional, não como efêmeros enunciados declaratórios, mas através de um estruturado sistema de monitoramento autônomo que recomenda ações estatais e exige reparações em casos de violações. A efetividade deste sistema esbarra indubitavelmente em obstáculos políticos firmemente opostos pelos Estados-partes, contudo mudanças de ordem constitutiva na estrutura, funcionamento, além dos meios e dos prérequisitos para a eleição dos membros fiscalizadores têm permitido uma moralização das atividades realizadas e um amento de credibilidade quanto às análises empreendidas. A reforma de 2006 operada no seio do Conselho de Direitos Humanos permitiu uma sensível despolitização das atividades do órgão e ao instituir a Revisão Periódica Universal criou um dispositivo que proporciona um acompanhamento célere e efetivo de todos os Estados-membros das Nações Unidas em um interregno de apenas quatro anos, o que promete dar uma nova feição ao Conselho. Ademais, segundo previsão na cláusula 16 da Resolução 60/251 da AG o Conselho deverá revisar seu trabalho e seu funcionamento no prazo de cinco anos após sua instituição, devendo reportar-se à Assembleia Geral, o que acontecerá em Assim, no próximo ano poder-se-á ter uma dimensão do impacto das modificações impetradas, segundo as avaliações do próprio órgão. Por outro lado, os Órgãos dos Tratados apresentam um bom desempenho nos últimos anos. A participação da sociedade civil tem sido uma constante em seu trabalho, a cooperação por parte também tem sido considerável no que tange ao envolvimento nos Diálogos Interativos e apresentação fundamentada de seus relatórios. Talvez por se tratarem de direitos específicos, abordados singular e pormenorizadamente em cada Convenção, torna-se a análise de sua observância mais clara e objetiva, deixando margem interpretativa mais estreita e menos abertura para inserções de ordem política nacional. Ressalta-se que o conjunto do Sistema ONU de Monitoramento de Direitos Humanos atua consoante a procedimentos que garantem os princípios gerais do devido processo. De modo que efetua ações de fiscalização salvaguardando o direito ao contraditório, posto que os representantes dos Estados podem contra-argumentar as alegações feitas, além de proporcionarem o aporte do amicus curiae[11], por meio do qual organismos nãogovernamentais e agências internacionais especializadas intervêm. Ademais, outros princípios são observados como da publicidade dos procedimentos e da cooperação com os órgãos monitores. Trata-se, desta maneira, de um sistema formado por organismos de natureza quasi judicial. De modo geral, pode-se dizer que a criação do Sistema de Monitoramento trouxe concretamente como principal contribuição para a luta em defesa de direitos humanos o estabelecimento de padrões internacionais comuns para o tratamento de seres humanos em todo o mundo (BAEHR; GORDENKER, 1999, p. 117). Estes critérios mínimos aplicam-se a todo o planeta e atuam sobre os ordenamentos jurídicos internos na medida em que estes ao ratificarem e incorporarem as normas internacionais, transformam-nas em legislação nacional, que pode então ser adotada para a tutela de direitos resguardados pela prestação jurisdicional ordinária e ser utilizada como fundamento jurídico pelos cidadãos. Baehr e Gordenker (1999, p.119, tradução nossa) defendem que o ordenamento internacional, no que tange à sua produção legislativa, desenvolver-se-ia como a Declaração de Independência dos Estados Unidos e Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão na França, esclarecendo que: Elas amadureceram ao longo de décadas, vagarosamente adentrando o Direito e a prática, e eventualmente se tornaram o efetivo limite para o comportamento dos governos. As normas de direitos humanos se desenvolveram dentro da armação das Nações Unidas podendo certamente estar em caminho semelhante. Do ponto de vista de luta por direitos, tais padrões e sobretudo as avaliações periódicas servem de subsídio para as reivindicações e denúncias realizadas por movimentos sociais e ONGs, que quotidianamente se baseiam em tais dados oficiais para consubstanciar os argumentos levantados e denunciar a realidade fática por * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

9 ventura ignorada pelo Poder Público. Importante salientar que o desenvolvimento destes aparatos supraestatais se deu devido a reivindicações destes referidos movimentos sociais e atores não estatais em todo o mundo, e que tais organismos irão se reinventar constantemente, moldando-se à realidade do momento histórico e às demandas sociais. Advém disso a importância das revisões estatais periódicas e dos casos individuais apresentados, uma vez que obrigam a uma reanálise e uma reinterpretação conforme ao momento histórico vivenciado, proporcionando a contínua reinvenção dos direitos humanos previstos nas normas internacionais, conforme os limites da hermenêutica humana. De tal sorte, a construção social dos Direitos Humanos impede que se lhe façam fórmulas prontas e acabadas, devendo-se respeitar seu crescimento e o acolhimento de novos direitos construídos e/ou reconhecidos. Neste sentido, é de fundamental importância vislumbrar o caráter multicultural das sociedades e dar abertura para a consecução de meios de se garantir a dignidade humana. O direito, para ser justo, deve ser essencialmente mutável, reformável e adaptável. Dentro da desigualdade, da discriminação e da violência crescente, torna-se imperativo buscar novos meios ascensão social e fortalecer os existentes, para que os sujeitos exerçam seu direito de ser mais e gozem da plena dignidade da pessoa humana. 6. Referências BAEHR, Peter R.; GORDENKER, Leon. The United Nations at the end of the 1990s. - 3 rd. ed. New York: St. Martin's Press BOBBIO, Noberto. A era dos direitos. p. 25. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Campus, 1992 apud PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o direito constitucional internacional. - 8a ed. Rev. Ampl. Atual. - São Paulo: Saraiva, p 110. BOBBIO, Noberto. Direito e Poder. São Paulo: Editora UNESP, p.,,, 226. KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. 1788, apud MARQUES, Ramiro. A ética de Kant. Disponível em: Consultado em 09 de abril de LIMA, Renata Mantovani de. Coleção para entender: O Tribunal Penal Internacional. Belo Horizonte: Del Rey, MARTINETTI, I. The Human Rights Council. A Butterfly or a Caterpillar in Lipstick?. UN Reform Watches, Centre for UN Reform, v. 14, 2006, par. 2. MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de Direito Internacional Público. 15. ed. ver. e aum. vol I. Rio de Janeiro: Renovar, p NAÇÕES UNIDAS. Brief historic overview of Commission. Disponível em: Consultado em 09 de marco de Comitê para a Eliminação da Discriminação contra Mulheres, 37a sessão. Ways and means of expediting the work of the Committee on the Elimination of Discrimination against Women - Overview of the working methods of the Committee on the Elimination of Discrimination against Women. Genebra: UN Press, Committee Against Torture - Membership. Disponível em: Consultado em 09 de abril de 2010; Working Methods. Disponível em: Consultado em 09 de abril de Committee on the Elimination of Discrimination against Women - Membership. Disponível em: Consultado em 09 de abril de Escritório Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos. Brief historic overview of Commission. Disponível em: Consultado em 09 de marco de Escritório Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos. Universal Periodic Review. Disponível em: Consultado em 11 de março de Resolução da Assembleia Geral 55/2: Declaração do Milênio das Nações Unidas, 18 de setembro de Resolução da Assembleia Geral 60/251, 15 de março de Resolução do Conselho de Direitos Humanos 5/1, 18 de junho de Resolução do Conselho Econômico e Social 1503 (XLVIII), 27 de maio de United Nations Development Goals Report Disponível em: * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

10 Consultado em 11 de março de PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e Justiça Internacional: um estudo comparativo dos sistemas europeu, interamericano e africano. São Paulo: Saraiva, SHORT, Katherine. Da Comissão ao Conselho: A Organização das Nações Unidas Conseguiu ou não Criar um Organismo de Direitos Humanos Confiável?. SUR Revista Internacional de Direitos Humanos. Ano 5. Núm. 9. São Paulo, SOUZA, Ana Inês. org. Paulo Freire: Vida e Obra. São Paulo: Expressão Popular, [1] Competência ratione materiae do Tribunal Penal Internacional, elencado por Lima (2006, p. 111) [2] Relator e representante do Líbano na Comissão de Direitos Humanos (CES ONU) em [3] NAÇÕES UNIDAS. Resolução do Conselho de Direitos Humanos 5/1, 2007, cláusula 86. [4] United Nations Development Goals Report Disponível em: Consultado em 11 de março de [5] Resolução da Assembleia Geral 60/251 Cláusula 1ª [6] Discurso proferido pelo Secretário-geral da ONU Ban Ki-moon na abertura da 4ª sessão do Conselho de Direitos Humanos, em 12 de março de [7] Para este artigo, adotei a nomenclatura derivada da tradução para a espanhol disposta nos dispositivos oficiais das Nações Unidas. [8] A despeito da distinção feita por alguns ordenamentos internos entre crianças e adolescentes, internacionalmente se consideram crianças todas as pessoas com menos de 18 anos, exceto com a maioridade for em idade menor segundo a legislação nacional. [9] Número de especialistas no Comitê contra a Tortura, que dispõe do menor número de especialistas entre os órgãos de tratados. [10] Número de especialistas no Comitê para Direitos das Mulheres, que contrariamente dispõe do maior número de especialistas entre os órgãos de tratados. [11] Utilizo o instituto do amicus curiae (latim: amigo da corte) em caráter analógico no que tange aos atores processuais em ações judiciais frente aos tribunais internos. * Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de

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