AÇÃO CIVIL PÚBLICA com PEDIDO DE MEDIDA LIMINAR

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1 MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL Procuradoria da República no Estado da Bahia EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ FEDERAL DA VARA DA SEÇÃO JUDICIÁRIA DO ESTADO DA BAHIA O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, por intermédio dos Procuradores da República infrafirmados, no uso de suas atribuições constitucionais e legais, legitimado nos artigos 127, caput, e 129, III, da Constituição da República, na Lei Complementar nº 75/93 e na Lei nº 7.347/85, vem propor AÇÃO CIVIL PÚBLICA com PEDIDO DE MEDIDA LIMINAR em face de EDIR MACEDO BEZERRA, membro da Igreja Universal do Reino de Deus, CPF , com endereço na Rua dos Missionários nº 139, 6º andar, Santo Amaro, São Paulo; da EDITORA GRÁFICA UNIVERSAL LTDA., situada na Estrada Adhemar Bebiano, nº 3.610, Inhaúma, Rio de Janeiro/RJ e da IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS, sito na Av. Antônio Carlos Magalhães, nº 4278, Caminho das Árvores, Salvador/BA, CNPJ nº / , representada por Cláudio Rodrigues da Silva, CI nº , CPF nº , em razão dos fatos e fundamentos que a seguir aduz.

2 2 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS No âmbito da Procuradoria da República no Estado da Bahia foi instaurado o Procedimento Administrativo nº / , com o escopo de apurar a prática de intolerância religiosa perpetrada por pastores de igrejas evangélicas pentecostais em desfavor de religiões de matriz africana. Mais precisamente, submeteu-se à apreciação deste Ministério Público o conteúdo da obra intitulada Orixás, Caboclos e Guias, deuses ou demônios?, de autoria do primeiro réu, Edir Macedo, publicada pela Editora Gráfica Universal Ltda., de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus, segundo e terceiros réus, respectivamente. Da leitura acurada de referida obra percebe-se, de plano, o quão encontra-se impregnada de afirmativas preconceituosas e discriminatórias desferidas contra outras formas de manifestações religiosas e credos, em especial aos cultos afro-brasileiros, tão disseminado em nosso país alcançando, também diretamente, os seus seguidores. Tal conduta que, per se, já se caracterizaria como um ilícito penal, à luz das disposições contidas no artigo 20 da Lei 7.716/89, diploma que define os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor, faz semear entre os leitores do aludido texto a prática de intolerância, especificamente da intolerância religiosa, em verdadeira afronta à liberdade de credo e religião assegurada a todos os brasileiros. Vejamos: 2. DA OBRA ORIXÁS CABOCLOS E GUIAS, DEUSES OU DEMÔNIOS? Na obra Orixás Caboclos e Guias, Deuses ou Demônios?, o réu Edir Macedo dedica quase que a totalidade de suas páginas a promover ofensas às religiões afro-brasileiras, sempre a elas se referindo com menosprezo, discriminação e preconceito.

3 3 Com efeito, são inúmeras as passagens do seu texto, adiante transcritos, que revelam, manifestamente, o tratamento preconceituoso e discriminatório dispensado pelo seu autor às religiões afro-brasileiras, notadamente o Candomblé, a Umbanda e a Quimbanda culminando por atingir inevitavelmente, como já dito, os seus seguidores. Ao longo da obra, recorrentemente, as religiões de origem africana são apresentadas como seitas demoníacas, modo pelo qual o demônio age na face da Terra, canais de atuação dos demônios, dentre outras expressões que objetivam retratá-las como uma facção do mal, associando-as sempre ao diabo. Chega-se ao ponto de responsabilizar a Umbanda, o Candomblé e a Quimbanda pela destruição do ser humano, ad litteris: Houve com o decorrer dos séculos um sincretismo religioso, ou seja, uma mistura curiosa e diabólica de mitologia africana, indígena brasileira, espiritismo e cristianismo, que criou ou favoreceu o desenvolvimento de cultos fetichistas como a Umbanda, a Quimbanda e o Candomblé. (fl. 23). O diabo, organizador de tudo isso, dessa maneira engana a humanidade. Com rituais, danças e oferendas induz o ser humano a abrir sua vida às forças do inferno, de sorte que fica escravo dos espíritos, pagando um preço incrivelmente alto pelos pequenos favores recebidos, os quais o mantém enganado. (fl. 25). Os orixás, caboclos e guias na realidade nunca fazem bem em favor de seu cavalo. Exigem obediência irrestrita e ameaçam de punição aquele que não estiver andando na linha. Vivem sempre castigando seus seguidores e não têm benção alguma para dar. (fl. 25). A alma da mãe de santo, por exemplo, é vendida ao orixá. Há uma chantagem diabólica nesse meio que obriga a pessoa que faz santo a renunciar, enquanto vive, a todas as coisas, inclusive a própria salvação. Ameaças são feitas de tal maneira que há um temor imenso entre os praticantes dessas seitas em deixá-las. (fl. 25). Umbanda, Quimbanda, Candomblé, Kardecismo, Bezerra de Menezes, Esoterismo, etc., são apenas nomes de seitas e filosofias usadas pelos demônios para se apoderarem das pessoas que a eles recorrem. (fl. 44).

4 4 Muitas pessoas estão hoje nas mãos dos espíritos demoníacos devido a impaciência. Deixaram de esperar em Deus a solução para seus problemas e acabaram sendo dominados por exus, caboclos, pretos-velhos, etc. [...] É aí que entra a Umbanda, Quimbanda, Candomblé e as religiões e práticas espíritas de um modo geral, que são os principais canais de atuação dos demônios, principalmente em nossa pátria. (fls. 101/102). (grifos nossos). Afirma-se também textualmente que os deuses cultuados pelas religiões afro-brasileiras representam anjos decaídos, demônios e a personificação do mal : No Brasil, em seitas como o Vodu, Macumba, Quimbanda, Candomblé ou Umbanda, os demônios são adorados, agradados ou servidos como verdadeiros deuses. No espiritismo mais sofisticado, eles se manifestam mentindo, afirmando serem espíritos de pessoas que já morreram (médicos, poetas, escritores, pintores, sábios, etc.). (fl. 24). No Candomblé, Oxum, Iemanjá, Ogum e outros demônios são verdadeiros deuses a quem o adepto oferece trabalhos de sangue para agradar, quando alguma coisa não está indo bem ou quando deseja receber algo especial. (fl. 24). Muitas pessoas têm procurado os demônios e abrem a vida para eles, porque pensam que são anjos de luz. Com nomes bonitos e cheio de aparatos, os demônios vêm enganando às pessoas com doutrinas diabólicas. Chamamse: orixás, caboclos, pretos-velhos, guias, espíritos familiares, espíritos de luz, etc. Dizem ser exus, erês, espíritos de crianças, médicos famoso, poetas famosos etc., mas na verdade são anjos decaídos, na diabólica missão de afastar o homem de deus e destruílo, sendo que enquanto não fazem isso, se aproveitam dele. (fl. 33). O homem tem toda a liberdade para escolher entre servir a Deus e servir ao diabo. Ele pode ser templo do Espírito Santo ou cavalo, burrinho, aparelho, porteira de um exu, um caboclo ou demônios semelhantes. (fl. 38). Na Umbanda há uma preferência muito grande por sangue, no Candomblé as ervas ocupam a preferência dos demônios. (fl. 106). (grifos nossos).

5 5 Dando continuidade às manifestações de cunho preconceituoso, discriminatório e pejorativo, presentes em praticamente toda a obra, o réu Edir Macedo acrescenta que os adeptos das religiões afro-brasileiras, ao cultuar os seus deuses, o fazem com o objetivo de buscar algo ilícito ou imoral: Na Quimbanda, os deuses são os exus, os quais são adorados e servidos no intuito de se alcançar alguma vantagem sobre um inimigo ou alguma coisa imoral, como conquistar a mulher ou o marido de alguém, obter favores por meios ilícitos, etc. (fl. 24). A pomba-gira causa em muitas mulheres o câncer de útero, ovário, frigidez sexual e outras doenças. À sua atuação atribui-se comportamentos ligados à práticas sexuais ilícitas e outras situações ligadas à sensualidade pecaminosa. (fl. 36, figura). (grifos nossos). Partindo de uma visão depreciativa, o livro, como descrito adiante, busca passar aos leitores a idéia de que os entes cultuados pelas religiões afro-brasileiras como os caboclos, pretos-velhos e exus são espíritos malignos sem corpo: Na realidade, orixás, caboclos e guias, seja lá quem foram, tenham lá o nome mais bonito, não são deuses. Os exus, os pretos-velhos, os espíritos de criança, os caboclos ou os santos são espíritos malignos sem corpo, que anseiam achar um meio para se expressarem nesse mundo, mas não o podem antes de possuírem um corpo. Por isso procuram o corpo humano. (fl. 25). (grifos nossos). O primeiro réu narra, também, supostos episódios grotescos dos quais supostamente participam ex-pais ou mães-de-santo, representantes de seitas como o Candomblé, buscando retratar e induzir o leitor que aqueles só alcançaram a salvação, livrandose dos demônios, que nada mais eram que os seus guias espirituais, após tornaram-se adeptos da Igreja Universal. Com fulcro nestas falsas e deturpadas premissas, criadas pelo próprio Edir Macedo, busca-se incitar os fiéis das religiões de matriz africana a abandonarem suas crenças, sob a alegação de que

6 6 apenas a devoção às pregações por ele transmitidas podem salvar e conduzir a Deus. A propósito, vejamos alguns trechos: Na nossa igreja temos centenas de ex-pais-de-santo e ex-mães-de-santo, os quais foram enganados pelos espíritos malignos durante anos a fio. (fl. 25). Decepcionaram-se ao constatar que os mais fortes protetores com quem contavam não passavam de demônios. Impressionaram-se ao ouvir os próprios orixás e caboclos confessarem diante da multidão que não passavam de demônios, cuja missão é enganar, arrasar e destruir os seus cavalos. (fl. 26). A maioria desses irmãos e irmãs trabalham na igreja como obreiros. Querem que todas as pessoas conheçam a verdade dessa falsidade chamada espiritismo. (fl. 26). Se você, meu amigo leitor, crê em Deus e em Jesus Cristo e pratica qualquer forma de consulta aos mortos ou adoração a deuses com nome de orixás, caboclos, pretos-velhos e guias; se você presta culto ou oferece sangue e sacrifício a entidades, atenda a voz de Deus e nunca mais pratique esses coisas [...] participe de uma reunião de libertação em nossas igrejas e o Senhor Jesus Cristo o libertará dessas práticas condenadas por Deus, as quais nada tem de religião. (fl. 27). Milhares de pais-de-santo e mães-de-santo que chegaram até nós ficaram surpreendidos ao verificarem que o encosto que possuíam era o mesmo guia-de-frente que dava conselhos, consultas e parecia bonzinho. (fl. 64). Muitas pessoas que têm chegado doentes às nossas reuniões saem curadas após terem expulsado de suas vidas os exus, caboclos, orixás e todo tipo de demônios que habitavam nelas. [...] Os demônios só não levam todos os seus seguidores à loucura porque não haveria quem espalhasse as suas doutrinas infernais. Caso não houvesse essa necessidade, todos os que praticam o espiritismo seriam irremediavelmente débeis mentais. (fl. 90). Há pessoas que fazem pacto com o diabo. Oferecem manjares às entidades nas encruzilhadas, cemitérios, matas, pedreiras, cachoeiras; acendem velas para as almas ; vivem se orientando por horóscopos; consultam búzios, se relacionam com os orixás, os exus e os guias mais diversos, entretanto, ao chegarem em nossas igrejas, são completamente libertadas daqueles espíritos opressores. (fl. 122). (grifos nossos).

7 7 Mas não é só. No decorrer de tantas e tantas páginas, o sermão pregado pelo primeiro réu exsurge, cada vez mais, impregnado de preconceito e discriminação. Não se contentando com as afirmações proferidas em desrespeito aos cultos africanos, o primeiro réu estimula os leitores a combater (!) estas formas de manifestações religiosas fazendo referência, desta feita, também ao espiritismo e às religiões orientais, a fim expulsar os exus e Cia. ilimitada das vidas das pessoas. Confira-se: Você entenderá então porque combatemos o espiritismo e suas ramificações com todas as nossas forças. Essa religião tão popular no Brasil é uma fábrica de loucos e uma agência onde se tira o passaporte para morte e uma viagem para o inferno. (fl. 79). Vivemos em plena era do demonismo. O espiritismo está, sob as suas mais diversas ramificações, dominado a mente das pessoas. As religiões orientais, regadas a demônios, estão, sob capa cristã ou não, invadindo o mundo, entrando nos salões e coabitando nos casebres da favelas. Com vasta distribuição de literatura e pregação disfarçada, se apresentam por toda a parte, disseminado a prática do demonismo. A igreja tem de agir. (fl. 119). Não há exu, caboclo, orixá, preto-velho, omolu, erê, nem qualquer força do inferno que possas resistir à nossa ordem quando dada em nome de Jesus. O diabo sabe disso e treme quando este nome é pronunciado com autoridade. [...] os demônios caem de joelhos, os exus e Cia. rolam no chão e andam de joelhos se ordenarmos isso a eles. Amigo leitor, comece hoje mesmo a exercer a autoridade que Jesus lhe confere. Não abra mão de seus direitos; não deixe de lado o que o Senhor lhe concedeu; agarrese com unhas e dentes às benções de Jesus e pise na cabeça dos exus e Cia. ilimitada! (fl. 126). Alguém que deseja exercer autoridade do nome de Jesus precisa primeiramente crer que Jesus é o Senhor e que não há outro nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos. Tendo esta certeza e convicção, pode partir para cima dos exus, caboclos e expulsá-los das vidas das pessoas. (fl. 128). Não esqueça que quase todos os macumbeiros são sinceros e vivem no erro por ignorância espiritual. Fale com eles com muito amor e compaixão; jamais discute ou

8 8 tente impor pela força o conhecimento e a fé que você adquiriu em Jesus Cristo, mas, não os iluda, eles precisam saber que se não abandonarem seus ritos diabólicos serão condenados por Deus. (fl. 144). (grifos nossos). Percebe-se, pois, que o primeiro réu age com o claro propósito de menosprezar e afastar os adeptos e os simpatizantes das religiões afro de suas crenças, sustentando que os deuses por eles cultuados não passam de espíritos do mal. Ao mesmo tempo, procura instigar os seguidores da Igreja Universal a discriminarem os cultos afro, utilizando-se de expressões como a igreja tem que agir, parta para cima dos exus, caboclos, pise na cabeça dos exus e Cia limitada. Não fosse o bastante, o réu Edir Macedo associa as religiões afro-brasileiras à idéia de pecado mortal, isto é, aquilo que, na doutrina cristã, viola as leis de Deus e traz tormento à alma. Para atingir o seu desiderato, chega a afirmar de forma categórica com base supostamente no texto bíblico, não condizentes com a realidade que tais religiões são condenadas por Deus e proibidas no aprendizado dos escritos da Bíblia: A Bíblia condena todas as práticas da Umbanda, do Candomblé e do espiritismo de um modo geral [...] mostrando a desaprovação de Deus a essas práticas enganosas e diabólicas. (fl. 26). Existem pessoas que freqüentam os terreiros de Umbanda, Quimbanda, Candomblé e similares, e acreditam que estão servindo a Deus. É impossível considerar tal coisa, pois a feitiçaria e todas as suas práticas, como consulta aos mortos, mediunismo, intercessão através de guias, outros deuses como os orixás e os caboclos são pecados contra Deus. (fl. 40). [...] participe de uma reunião de libertação em nossas igrejas e o Senhor Jesus Cristo o libertará dessas práticas condenadas por Deus, as quais nada tem de religião. (fl. 27). (grifos nossos). A intolerância religiosa propalada na obra em referência chega ao ponto de Edir Macedo também dirigir seus comentários a determinados alimentos apreciados pelos adeptos dos cultos afro hoje, advirta-se,

9 9 pratos tipicamente brasileiros -, os quais, segundo o primeiro réu, podem causar doenças e vômitos : Todas as pessoas que se alimentam dos pratos vendidos pelas famosas baianas estão sujeitas mais cedo ou mais tarde a sofrer do estômago. Quase todas essas baianas são filhas-de-santo ou mães-de-santo que trabalham a comida para terem boa venda. Algumas pessoas chegam a vomitar as coisas que comeram. (fl. 48). (grifos nossos). Derradeiramente, de forma despropositada, compara os rituais das religiões afro-brasileiras com a iniciação no uso de entorpecentes: No espiritismo, de modo geral, é assim. A pessoa vai descendo sempre. A tendência é se atolar mais e mais no lamaçal do diabo; tudo sorrateiramente. Começa-se no alto, faz-se limpeza, caridade, vai-se aprofundando. Depois diz-se que a pessoa já está bastante evoluída e pode prestar caridade aos espíritos atrasados e aí, sem que perceba, muitas vezes pensando estar fazendo algo bom, começa o envolvimento direto ou indireto com as piores classes de demônios. É semelhante à iniciação no mundo das drogas: experimentação, uso e tráfico. (fl. 85). (grifos nossos). Note-se, ainda, que o réu Edir Macedo atribui o subdesenvolvimento do Brasil ao culto às religiões afrobrasileiras: Se o povo brasileiro tivesse os olhos bem abertos contra a feitiçaria, a bruxaria e a magia, oficializadas pela Umbanda, Quimbanda, Candomblé, Kardecismo e outros nomes, que vivem destruindo as vidas e os lares, certamente seríamos um país bem mais desenvolvido. (fl. 67). (grifos nossos). Enfim, da leitura atenta dos inúmeros fragmentos transcritos, percebe-se, claramente, que o primeiro réu, de forma direta e incisiva, buscar induzir e incitar, por meio de publicação literária, patrocinada pelos segundo e terceiros réus, a discriminação e o preconceito em desfavor do Candomblé, da Quimbanda, e da Umbanda, além de outras formas de manifestações religiosas, em flagrante violação ao princípio da liberdade religiosa, consagrado pela Constituição Federal.

10 A RELIGIÃO AFRO-BRASILEIRA COMO MANIFESTAÇÃO CULTURAL Importante advertir, desde já, que não se pretende aqui fazer apologia a qualquer das religiões hoje professadas em nosso país, mas sim demonstrar que a diversidade religiosa deve ser, além de respeitada, acolhida e prestigiada, levando-se em consideração a sua influência na formação cultural do povo brasileiro. E aceitar uma convivência respeitosa e tolerante não significa passar a professar ou compartilhar a crença em questão, mas garantir o espaço necessário para que aqueles que o quiserem o façam e sintam-se confortáveis, respeitados nesta escolha. Sem dúvida que as religiões afro-brasileiras estão incorporadas à nossa cultura, valendo inclusive destacar que quando estas começaram a aparecer, o conceito de nação ganhou nova força e significado, em parte como um símbolo de transmissão de tradições religiosas e locais, e em parte como uma marca da identidade étnica. 1 Portanto, muito mais que assegurar o direito de determinada minoria hoje representativa de uma parcela significativa da nossa população -, é indispensável reconhecermos também o seu valor histórico-cultural, buscando impedir que importantes tradições, culturas e hábitos delas oriundos esvaiamse do cenário brasileiro. Anteriormente caracterizadas como religiões africanas, hoje recebem a nomenclatura de religiões afro-brasileiras, haja vista o sincretismo com a cultura local e a absorção de suas raízes pela sociedade pátria. Ou seja, no Brasil, as misturas se acentuaram, resultando em tradições, crenças e costumes que se incorporaram ao modo de vida nacional, se revelando hoje, inequivocamente, indissociáveis da cultura brasileira como um todo. Qualquer manobra tendente a discriminar essas religiões, além da ofensa ao direito de liberdade de escolha da crença, implica manifesta afronta à cidadania, á dignidade da pessoa humana e, no caso, à própria memória cultural e ao patrimônio histórico do país. 1 JENSEN, Tina Gudrun. Discursos sobre as religiões afro-brasileiras: Da desafricanização para a reafricanização. Revista de Estudos da Religião, São Paulo, n. 1; p. 1-21, 2001.

11 11 Não é outro o entendimento da doutrina, capitaneado nas palavras de Manoel Jorge e Silva e Neto, que acentua que o credo afro se traduz em autêntico direito cultural de nossos tempos e, por isso, a sua fruição é tutelada pela Carta Magna, verbis: Desde os primórdios da colonização brasileira, os negros sempre foram cerceados no tocante ao exercício de sua fé religiosa, tanto que emblemático da situação o fenômeno do sincretismo, pelo qual os antigos escravos africanos vinculavam uma divindade da sua religião aos santos católicos. O tempo passou e a manifestação religiosa do povo africano deixou de configurar mera opção por credo para evidenciar autêntico direito cultural da nossa civilização. E, na condição de direito cultural, assegura-se no Texto Constitucional a sua fruição por todos, consoante enuncia o art. 215, caput. 2 O resultado da miscigenação de raças, credos e culturas, responsável por conferir identidade ao povo brasileiro, ocorreu, em grande parte, por força da contribuição prestada pelos negros africanos trazidos para o Brasil durante o período escravagista. No contexto do Brasil escravocrata, a religião foi uma das formas encontradas pelos negros para conservar a sua identidade e costumes. Sobre o tema, assinalamos as considerações do promotor de Justiça baiano Lindivaldo Raimundo Britto: A crença dos negros foi um fator decisivo de sobrevivência. A sua força interior foi crucial para o enfrentamento da realidade tão hostil e inóspita, razão pela qual souberam se unir em torno da fé. Malgrado a disposição do sistema estatal escravagista de separar os que aqui chegavam, a fim de impedir a formação de grupos étnicos, ainda assim puderam os negros preservar grande parte dos fundamentos de suas religiões, que tinham uma origem comum na Mãe África. Portanto, com as adaptações e simbioses entre as diversas culturas 2 NETO, Manoel Jorge e Silva. A Proteção Constitucional à Liberdade Religiosa. Brasília: Revista de Informação Legislativa, Brasília, ano 40, p. 120, 2003.

12 12 africanas e a própria cultura nacional, formaram-se as religiões afro-brasileiras. 3 Revela-se, pois, que a nacionalidade brasileira é fruto de uma miscigenação de raças, línguas e também religiões. Tal diversidade, por conseguinte, deve ser por todos respeitada, o que não se observa diante do conjunto de pregações discriminatórias, preconceituosas e injuriosas contidas no livro em referência, as quais são desferidas contra o legítimo direito à liberdade de religião, e, também, não se duvide, em desfavor do patrimônio histórico brasileiro. 4. A LIBERDADE RELIGIOSA NO TEXTO CONSTITUCIONAL E A LIBERDADE DE COMUNICAÇÃO DAS IDÉIAS RELIGIOSAS. A liberdade religiosa é expressamente consagrada na Constituição Federal de 1988, nos termos do artigo 5º, inciso VI: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. A proibição de qualquer forma de discriminação também encontra amparo constitucional. Dispõe a Lei Maior, dentre seus objetivos, a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º, IV), para, mais adiante, estabelecer que a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais (art. 5º, XLI). 3 BRITTO, Lindivaldo Raimundo. Os tombamentos dos templos católicos e dos terreiros de Candomblé na Bahia uma comparação quantitativa. Curso de Especialização em Direitos Humanos, Bahia, p. 18, 2001.

13 13 De igual sorte, a proteção das manifestações da cultura afrobrasileira é assegurada constitucionalmente: Art O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. 1º - O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional. Art Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I as formas de expressão; II os modos de criar, fazer e viver; [...] 1º - O poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação. (grifos nossos). A Constituição Federal, portanto, reconhece que os negros africanos integram um dos grupos participantes do processo civilizatório nacional, cabendo ao Estado proteger todas as suas formas de manifestação cultural. Nunca é demais reiterar que a manifestação religiosa afrobrasileira constitui-se numa das formas mais importantes de expressão da cultura afro, que, como tal, merece toda a proteção do Poder Público. Assim, a defesa das religiões e cultos de matrizes africana tem o condão de assegurar o direito à liberdade de religião e a garantir a preservação da própria história do povo brasileiro.

14 14 José Afonso da Silva, ao discorrer sobre a liberdade de crença, assim explicita: Na liberdade de crença entra a liberdade de escolha da religião, a liberdade de aderir a qualquer seita religiosa, a liberdade (ou o direito) de mudar de religião, mas também compreende a liberdade de não aderir a religião alguma, assim como a liberdade de descrença, a liberdade de ser ateu e de exprimir o agnosticismo. Mas não compreende a liberdade de embaraçar o livre exercício de qualquer religião, de qualquer crença, pois aqui também a liberdade de alguém vai até onde não prejudique a liberdade dos outros. 4 (grifos nossos). Dentro do gênero liberdades religiosas, convém destacar ainda o que a doutrina denomina de liberdade de comunicação das idéias religiosas. Corolário do disposto no artigo 5º da Constituição Federal, pode ser definida como a transmissão de catequeses a terceiros, geralmente com o propósito de convertê-los à religião daquele que faz a pregação. Trata-se, pois, do proselitismo religioso. Enfim, a liberdade de crença não é absoluta pois não abarca, obviamente, a liberdade de embaraçar o exercício de qualquer religião. Também não é plena a liberdade de comunicação das idéias religiosas. Com efeito, o artigo 208 do Código Penal sanciona aquele que escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa ou vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. Por sua vez, o artigo 20 da Lei 7.716/89, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, pune a conduta de praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de religião. Ora, se a ordem legal define como fato típico e antijurídico a discriminação religiosa, não poderíamos subtrair tais condutas da pertinente apreciação na esfera cível sobretudo quando identificamos que o que está em jogo são direitos humanos 4 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo. Malheiros, 2004, p. 248.

15 15 fundamentais, bens jurídicos vitais para o funcionamento do sistema social, os quais devem merecer a devida tutela do Estado. A liberdade de religião, como forma de manifestação do pensamento - princípio em que devem se apoiar os réus para justificar as suas condutas desmedidas e ofensivas -, deve ser interpretada em seu exato sentido, não podendo servir de instrumento para acobertar condutas ilegais. O direito à livre manifestação do pensamento pode, assim, ser exercido plenamente desde que não sejam feridos os bens jurídicos igualmente tutelados pela ordem jurídica A LIBERDADE DE RELIGIÃO VERSUS A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, ANTE O PRECONCEITO E A DISCRIMINAÇÃO Embora de população predominantemente religiosa, o Brasil é um Estado laico, em que inexiste vinculação entre o Poder Público e as Igrejas, sendo a todos assegurada a liberdade de consciência e crença religiosa, nos termos do inciso VI, do artigo 5º, da Carta Republicana, cujo enunciado mais uma vez transcrevemos: Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; A liberdade de religião, entendendo-se como tal o direito de manifestar as próprias crenças, seja de forma individual ou coletiva, pública ou privada, também é garantida no artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos artigos 2º, 3º e 4º da Declaração Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Intolerância e Discriminação Fundadas na Religião ou nas Convicções, in verbis:

16 16 Declaração Universal dos Direitos Humanos: Art. 18. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência, religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou particular. Declaração sobre a eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação fundadas na religião ou nas convicções: Art. 2º 1. Ninguém será objeto de discriminação por motivos de religião ou convicções por parte de nenhum estado, instituição, grupo de pessoas ou particulares. 2. Aos efeitos da presente declaração, entende-se por " intolerância e discriminação baseadas na religião ou nas convicções" toda a distinção, exclusão, restrição ou preferência fundada na religião ou nas convicções e cujo fim ou efeito seja a abolição ou o fim do reconhecimento, o gozo e o exercício em igualdade dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. Art. 3º A discriminação entre os seres humanos por motivos de religião ou de convicções constitui uma ofensa à dignidade humana e uma negação dos princípios da Carta das Nações Unidas, e deve ser condenada como uma violação dos direitos humanos e das liberdades fundamentais proclamados na Declaração Universal de Direitos Humanos e enunciados detalhadamente nos Pactos internacionais de direitos humanos, e como um obstáculo para as relações amistosas e pacíficas entre as nações. Art. 4º 1. Todos os Estados adotarão medidas eficazes para prevenir e eliminar toda discriminação por motivos de religião ou convicções no reconhecimento, o exercício e o gozo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais em todas as esferas da vida civil, econômica, política, social e cultural. 2. Todos os Estados farão todos os esforços necessários para promulgar ou derrogar leis, segundo seja o caso, a fim de proibir toda discriminação deste tipo e por tomar as medidas adequadas para combater a intolerância por motivos ou convicções na matéria. (grifos nossos).

17 17 Impõe-se destacar ainda os termos da Convenção Americana de Direitos Humanos - Pacto de São José da Costa Rica sobre o Direito Constitucional Internacional -, que preceitua no artigo 12: Art Toda pessoa tem direito à liberdade de consciência e de religião. Esse direito implica a liberdade de conservar sua religião ou suas crenças, bem como a liberdade de professar e divulgar sua religião ou suas crenças, individual ou coletivamente, tanto em público como em privado. 2. A liberdade de manifestar a própria religião e as próprias crenças está sujeita unicamente às limitações prescritas pela lei e que sejam necessárias para proteger a segurança, a ordem, a saúde ou a moral pública ou os direitos ou liberdade das demais pessoas. (grifos nossos). Percebe-se, pois, que o direito à livre manifestação de pensamento, no qual está incluída a liberdade de credo, como direito fundamental da pessoa humana, tem respaldo tanto no ordenamento jurídico interno, como ainda nos principais diplomas normativos internacionais. Nesse aspecto, Alexandre de Moraes destaca o que representa o desrespeito à fé e às idéias de índole espiritual: A conquista constitucional da liberdade religiosa é verdadeira consagração de maturidade de um povo, pois como salientado por Themístocles Cavalcanti, é ela verdadeiro desdobramento da liberdade de pensamento e manifestação. A abrangência do preceito constitucional é ampla, pois sendo a religião o complexo de princípios que dirigem os pensamentos, ações e adoração do homem para com Deus, acaba por compreender a crença, o dogma, a moral, a liturgia e o culto. O constrangimento à pessoa humana, de forma a constrangê-lo a renunciar sua fé, representa o desrespeito à diversidade democrática de idéias, filosóficas e a própria diversidade espiritual. 5 5 MORAES, Alexandre de. Direitos Humanos Fundamentais. São Paulo: Atlas, 2004, p. 75.

18 18 Reitere-se, pois pertinente, que a prática, o induzimento ou a incitação a discriminação ou preconceito de religião caracteriza-se como ilícito penal, nos termos do artigo 20 da Lei 7.716/89: Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. [...] Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa. Conclui-se, destarte, que os direitos e garantias fundamentais não são absolutos, ilimitados, uma vez que encontram seus limites nos demais direitos igualmente consagrados pela Carta Constitucional. Ou seja, a todos os indivíduos é constitucionalmente garantida a livre manifestação de suas convicções religiosas, desde que esta não interfira no direito à liberdade de religião de outrem. É o que assinala José Afonso da Silva: Na liberdade de crença entra a liberdade de escolha da religião, a liberdade de aderir a qualquer seita religiosa, a liberdade (ou o direito) de mudar de religião, mas também compreende a liberdade de não aderir à religião alguma, assim como a liberdade de descrença, a liberdade de ser ateu e de exprimir o agnosticismo. Mas não compreende a liberdade de embaraçar o livre exercício de qualquer religião, de qualquer crença, pois aqui também a liberdade de alguém vai até onde não prejudique a liberdade dos outros. 6 (grifos nossos). Tal raciocínio vem ainda corroborado na doutrina de Alexandre de Moraes: 6 SILVA, José Afonso da, op. cit., p. 248.

19 19 Os direitos e garantias fundamentais consagrados na Constituição Federal, portanto, não são ilimitados, uma vez que encontram seus limites nos demais direitos consagrados pela Carta Magna (Princípio da relatividade ou convivência das liberdades públicas). [...] Apontando a relatividade dos direitos fundamentais, Quiroga Lavié afirma que os direitos fundamentais nascem para reduzir a ação do Estado aos limites impostos pela Constituição, sem contudo desconhecerem a subordinação do indivíduo ao Estado, como garantia de que eles operem dentro dos limites impostos pelo direito. 7 O Supremo Tribunal Federal, enfrentando a matéria, num dos julgamentos mais emblemáticos de sua história, proclamou em data recente: EMENTA: HABEAS-CORPUS. PUBLICAÇÃO DE LIVROS: ANTI- SEMITISMO. RACISMO. CRIME IMPRESCRITÍVEL. CONCEITUAÇÃO. ABRANGÊNCIA CONSTITUCIONAL. LIBERDADE DE EXPRESSÃO. LIMITES. ORDEM DENEGADA. [...] Liberdade de expressão. Garantia constitucional que não se tem como absoluta. Limites morais e jurídicos. O direito à livre expressão não pode abrigar, em sua abrangência, manifestações de conteúdo imoral que implicam ilicitude penal. 14. As liberdades públicas não são incondicionais, por isso devem ser exercidas de maneira harmônica, observados os limites definidos na própria Constituição Federal (CF, artigo 5º, 2º, primeira parte). O preceito fundamental de liberdade de expressão não consagra o "direito à incitação ao racismo", dado que um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede com os delitos contra a honra [...].(grifos nossos). 8 Sob o manto de que estaria a exercer a sua crença religiosa, tendo direito, pois, à liberdade de expressão, o réu Edir Macedo promove flagrante discriminação de outras formas de manifestação religiosa, agravado pelo propósito de captar novos adeptos, afastando-os de sua fé tradicional. 7 MORAES, 2004, op. cit., p Supremo Tribunal Federal. Penal. Habeas Corpus n Rio Grande do Sul. Paciente: Siegfried Ellanger. Impetrante: Wener Cantalício João Becker e outra. Impetrado: Superior Tribunal de Justiça. Relator: Ministro Moreira Alves. Material disponibilizado pela Coordenadoria de Análise de Jurisprudência do STF. Brasília, 2003.

20 20 Obviamente que o direito à liberdade de expressão não pode albergar posturas preconceituosas e discriminatórias, sobretudo quando caracterizadas como infração penal. O Estado e a sociedade devem orientar-se por uma convivência harmoniosa entre as religiões, evitando o fomento da discriminação e do preconceito. É, portanto, dever do Estado garantir o direito à liberdade de crenças, inclusive se necessário for, como ora demonstrado, mediante a retirada de circulação de obras literárias ofensivas a este direito fundamental. Ao veicular, em sua obra, atos atentatórios à cidadania, à dignidade da pessoa humana, bem como à liberdade de crença religiosa, o primeiro demandado com a aquiescência deliberada dos segundo e terceiros réus utiliza de maneira manifestamente deturpada uma prerrogativa constitucional, pois, sob a égide da consagrada "liberdade de expressão", incita todos os seus leitores a assumirem uma postura preconceituosa e discriminatória em relação à religião afro-brasileira. Preconceituar é anteceder algum juízo de valoração a respeito de algo que ainda não se conhece. É conceber, é julgar, de forma antecipada. Ao mesmo tempo, o preconceito tem índole subjetiva, psicológica, expressando opinião de foro íntimo daquele que o cultiva. 9 O preconceito tende a desconsiderar a individualidade, atribuindo, a priori, características, em geral grosseiras, aos membros de determinado grupo já estigmatizado. Assim, o sentido da expressão preconceito religioso pode ser definido como um juízo antecipado de índole negativa dirigido a grupamentos religiosos ou que cultuam certos credos. Na discriminação elege-se determinado grupo, que não se entremeia com outro, em função exclusiva de suas características 9 SILVA, Sidney Pessoa Madruga da. Discriminação Positiva: ações afirmativas na realidade brasileira. Brasília: Brasília Jurídica. 2005, p. 137/138.

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