Uma história para a arte hoje

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1 Uma história para a arte hoje Arte parece constituir o princípio de sua própria história ou pelo menos de uma história cujas relações com a outra não estão fixadas por um determinismo estrito. 1 Apresentamos aqui um programa de história da arte para estudantes dos cursos fundamental, médio e superior (exceção feita à própria graduação em História da Arte), que tem por objetivo promover uma aproximação aos caminhos da arte a partir de obras e questões da arte moderna. Considerando-se, contemporaneamente, que o passado imediato da arte é moderno e a sua influência ainda presente, é nele que vamos fundamentar as bases de nossos estudos. Por meio da fruição e da análise de obras e movimentos modernos e seus antecedentes, desdobramentos e ligações com outras obras de períodos mais ou menos distantes, este programa visa desenvolver a percepção estética do aluno e estimular a apreciação crítica da arte. SITUAÇÃO Tradicionalmente, os programas de história da arte tomam como pressuposto o conhecimento da história, e de um longo passado da arte, antes de abordar obras e manifestações artísticas mais recentes. Enfileirando períodos históricos sucessivos em quatro ou seis semestres de curso (com pequena carga horária semanal) para cobrir milênios de produção artística 2, chama a atenção, nesses programas, o descompasso entre o longo tempo que se leva para alcançar a arte atual e o pouco que sobra para tratar do que foi produzido no último século. O ensino da história da arte por uma cronologia estrita da pré-história à contemporaneidade vai de encontro, também, ao fato de que grande parte dos estudantes do ensino fundamental, médio e mesmo superior, não detém (ainda) informação ou referência histórica suficiente para reconhecer o contexto social no qual foram geradas as manifestações artísticas de períodos mais distantes. Ao tentar acompanhar cronologicamente essas 1 DUFRENNE, M., Fenomenologia da experiência estética. 2 Exemplos de representações pré-históricas, ou de culturas primitivas, tornados artísticos e históricos pela leitura à distância, teriam, no seu próprio tempo de criação, caráter bem diverso do que hoje é conferido à arte.

2 manifestações, o professor de história da arte vê-se, muitas vezes, impelido a tratar da história social, política, econômica para situar a época em que foram criadas as obras que pretende abordar. Acontece que esta dinâmica, além de tomar uma parte significativa do já reduzido tempo dispensado ao estudo da arte pelos currículos acadêmicos, não consegue remediar a defasagem histórica (em tão pouco tempo) e tende a restringir a expressão artística a uma leitura da história aplicada à arte, na qual esta é vista, sobretudo, como reflexo do momento histórico. A história da arte como função derivada da história perde os rumos da arte que pretende acompanhar. Naturalmente, são valiosas para o estudo da história as manifestações artísticas de uma época. Bem como a informação histórica será valiosa para o estudo da arte de qualquer período. Mas obras de arte não se limitam a refletir o seu tempo, e vão, elas mesmas, refletir-se e afetar o tempo e a história, presente e futura. Por isso as manifestações artísticas são vistas aqui como fenômenos não apenas resultantes do processo histórico, mas ainda, e principalmente, como constituintes, formadores e transformadores desse processo. PROPOSTA A contemporaneidade artística descende da modernidade. A história da arte que nos envolve diretamente compreende, sobretudo, o último século. É na dinâmica de eventos do século vinte do final do anterior (dezenove) ao início do posterior (atual) que desenvolvemos o nosso percurso. E vão existir, neste percurso, ligações estéticas com toda a arte já produzida em qualquer período. Ligações que atravessam a cronologia e criam uma história própria de processos e embates, questões e soluções relacionadas por uma lógica inerente à arte, e à sua expressão no mundo 3. Por isso, para uma aproximação aos sentidos de uma obra, seria preciso, antes de tudo, a fruição (mesmo mediada, reproduzida) e uma abordagem que acompanhe os seus movimentos e os seus desvios estes que, justamente, a reafirmam e transformam, e que não se restringem a uma determinação 3 Não se trata aqui de defender uma teoria da visibilidade pura ou a Escola de Viena (Riegl, Wölfllin), uma vez que não se pretende lançar mão, tampouco, de esquemas e categorias generalizantes para a classificação de obras de arte.

3 histórica estrita. Vão além, transcendem as relações temporais e espaciais, e, nesse movimento, afetam a história para além do seu tempo 4. CONDIÇÕES A maior parte da arte que nos cerca pelos meios de comunicação e propaganda é a de artistas modernos, bem como a de seus antecessores e sucessores, que anteciparam, inspiraram, deflagraram e levaram adiante o projeto de uma arte dinâmica, crítica e autocrítica. Movimentos e manifestos os mais diversos apareceram no século vinte inicialmente na Europa, depois também nas Américas e na Ásia 5 com uma rapidez e profusão como jamais visto, antes ou depois, em toda a história da arte. A discussão e os argumentos apresentavam-se com novas obras que realçavam as características formais e os processos de sua própria fatura, ou questionavam, mais ou menos diretamente, a sua posição artística, estética, política no mundo. A essência do modernismo está (...) no uso dos métodos característicos de uma disciplina para criticar essa mesma disciplina, (...) o modernismo critica a partir de dentro, através dos próprios processos do que está sendo criticado. 6 Uma história para a arte, hoje, deve partir, assim,dos movimentos da arte moderna, as vanguardas artísticas do século vinte, que, em suas articulações, vão dialogar com obras e movimentos dos mais diversos períodos. Trilhando os seus caminhos, descortinam-se vistas e aberturas para a arte de qualquer tempo e lugar. Sob uma ótica moderna, e com um olhar que privilegia as obras para retraçar-lhes os movimentos, podemos investigar a sua estética e os seus sentidos, ou a que vêm e como vêm essas obras. 4 Os artistas modernos (pré e pós) estenderam sobremaneira a liberdade de retomar ou apoiar-se em soluções de outras épocas. Manet, Van Gogh, Picasso e Bacon, por exemplo, foram grandes estudiosos e reintérpretes da arte de Giorgione, de gravuras japonesas, máscaras africanas, de Velázquez e Rembrandt. 5 Além das vanguardas do início do século na Europa, na segunda metade do século, os EUA se tornam o centro artístico mundial, onde vão proliferar novos movimentos (expressionismo abstrato, arte pop, minimalismo, arte conceitual), ao mesmo tempo em que aparecem novos grupos e movimentos também na Europa (realismo, tachismo, Fluxus), na América do Sul (concretismo, neoconcretismo), e no Japão (Gutai). 6 STEINBERG, L., A nova arte.

4 A arte moderna nos trouxe até aqui. A partir de suas formas acostumamonos a olhar as imagens da arte e do mundo. Estão por aí, ainda hoje, as suas articulações, espalhadas por todo lugar (reconheçamo-las ou não). Por isso é preciso assumir a leitura da arte e sua história a partir do presente. O olhar aberto para o mundo e a arte atual. Uma história de e para o observador, enquanto desenha-se pelo olhar dos artistas modernos guiandonos pelos processos da arte e da criação. Revemos e retraçamos o que fizeram os artistas modernos, que moldaram as feições e povoam de imagens o mundo em que vivemos, para não nos vermos alijados de seus sentidos, ou iludidos pelas características cambiantes de sua visualidade. E, consequentemente, impossibilitados de uma apreciação crítica sobre as imagens do mundo e da arte que nos cerca. Investigamos os caminhos percorridos por outra pessoa para a criação de sua obra para, percorrendo-os, conhecê-los. Um tal tipo de observação evita que se conceba a obra como algo estático, irremediavelmente fixo. 7 PROGRAMA O programa aqui proposto vai começar tratando das origens da arte e de sua permanência ao longo da história, questionando a sua ocorrência e discutindo as motivações que levaram, e continuam levando, o homem a criar imagens e objetos representativos e formalmente elaborados do mundo e de si mesmo no mundo. Acompanhando as características formais de representação, podem-se identificar tendências ora mais realistas, ora mais esquemáticas, desde as peças mais antigas de que temos notícia. Obras diversas serão apresentadas e relacionadas, formal e tematicamente, explorando correspondências que desafiam o determinismo histórico. Investigando as questões específicas da arte moderna desde o período imediatamente anterior e até as suas extensões para a arte contemporânea, serão levantadas ligações com outros períodos e estilos artísticos, observando a sincronia e o alinhamento entre formulações estéticas através dos tempos. Seguindo a introdução ao fazer artístico, focaremos então um momento particular de reafirmação da representação fiel à realidade com o realismo de 7 KLEE, P., in BREST, J. R., La pintura europea.

5 Courbet, antes de enveredarmos por uma sequência que vai passar pela arte dos impressionistas e pós-impressionistas, e pelos primeiros movimentos modernos do século vinte, que apareceram quase simultaneamente, ou em sucessão acelerada, sem que haja necessariamente uma prevalência temporal entre eles 8. Partindo desses movimentos, que ficaram conhecidos como as vanguardas artísticas do início do século, serão feitas relações de pertinência transhistórica com obras e períodos diversos da arte, a fim de explorar e aprofundar as características estéticas das principais obras e movimentos do século vinte, conforme veremos a seguir. Ricardo Tamm Lessa de Sá Artista, professor, doutor em Artes Visuais (UFRJ) 8 Se é verdade que o neoplasticismo vai partir das conquistas estéticas do cubismo (que vai leva- lo à abstração e à planaridade), não se pode inferir a mesma relação entre o expressionismo e o surrealismo, por exemplo.

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