UNIVERSIDADE POSITIVO CURSO DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA A NARRATIVA DO FAIT DIVERS EM PROGRAMAS POPULARES DE TELEVISÃO: O CASO TRIBUNA DA MASSA

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1 UNIVERSIDADE POSITIVO CURSO DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA A NARRATIVA DO FAIT DIVERS EM PROGRAMAS POPULARES DE TELEVISÃO: O CASO TRIBUNA DA MASSA CURITIBA 2010

2 BRUNA STEUDEL HELOISA DUDA LUCIANA NOBRE MARIANA ZARPELLON RENATA HERNANDES LOPES A NARRATIVA DO FAIT DIVERS EM PROGRAMAS POPULARES DE TELEVISÃO: O CASO TRIBUNA DA MASSA Monografia apresentada como requisito parcial à conclusão do Curso de Publicidade e Propaganda Núcleo de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas da Universidade Positivo. Orientador: Profº Alexandre Tadeu dos Santos CURITIBA 2010

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4 A palavra dos homens é o material mais duradouro. Se um poeta deu corpo à sua sensação passageira com as palavras mais apropriadas, aquela sensação vive através dos séculos nessas palavras e é despertada novamente em cada leitor receptivo _Schopenhauer. Aos nossos pais pelo apoio, carinho e incentivo em todos os momentos decisivos, aos amigos pelo entusiasmo, e ao professor Alexandre Tadeu pela dedicação e por nos fazer sempre acreditar no potencial do esforço e da leitura.

5 SUMÁRIO LISTA DE IMAGENS... 5 RESUMO INTRODUÇÃO A ESTRUTURA DO FAIT DIVERS FAIT DIVERS: UMA SÍNTESE OBJETIVA PARA UMA ESTRUTURA ENGENHOSA OS CAMINHOS DO FAIT DIVERS O Fait Divers e o antigo: consolidação e êxito no jornal impresso Os fatos que chocaram a sociedade e sua repercussão nos jornais O Fait Divers e contemporâneo: metamorfoses na televisão brasileira ANÁLISES ESTÉTICAS: O GROTESCO E A NARRATIVA DO FAIT DIVERS PROGRAMA TRIBUNA DA MASSA: UMA ANÁLISE NA PRÁTICA ANÁLISES ESTRUTURAIS: DA REDAÇÃO À ESCOLHA DAS PAUTAS E À MONTAGEM DO ROTEIRO Análise estrutural: trajetória do programa Tribuna da Massa O programa Tribuna da Massa e a abordagem atual Análise de casos mostrados no programa O caso Joselaine, o sonho de uma viúva trabalhadora O caso Aleixo boca torta - 05/10/ Considerações sobre a narrativa sensacionalista CONCLUSÃO REFERÊNCIAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS WEBGRAFIA VIDEOGRAFIA APÊNDICES ROTEIROS DE ENTREVISTAS... 63

6 6.1.1 Roteiro de entrevista para a produtora do programa Tribuna da Massa, Rosane Freire Roteiro de entrevista para o apresentador do programa Tribuna da Massa 2ª edição, Adilson Arantes TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS Entrevista com Rosane Freire Entrevista com Adilson Arantes ANEXO DE IMAGENS... 78

7 LISTA DE IMAGENS FIGURA 2.1 Feuilleton du Petit Journal FIGURA 2.2 Macabra Coincidência FIGURA 2.3 Revista Fon Fon Folhetins FIGURA 2.4 Revista Fon Fon Na Calçada FIGURA 2.5 O Crime da Mala FIGURA 2.6 Varias FIGURA 2.7 Varias As barbas do vizinho FIGURA 3.1 Carta sobre o cavalo FIGURA 3.2 Carta sobre o cortador de grama FIGURA 6.1 No rastro do mistério FIGURA = FIGURA tiros, 4 mortos FIGURA 6.4 Monstro é apelido... 81

8 RESUMO O Fait Divers é um formato narrativo que assim como o romance de folhetim, nasceu no século XIX e fez muito sucesso. Ainda hoje suas características são visíveis em muitos gêneros, formatos e narrativas. Dessa forma, procuramos investigar através desse trabalho a relação entre a narrativa Fait Divers e o discurso do programa popular Tribuna da Massa, analisando sob quais aspectos e em que medida isso acontece, relacionando também os conceitos de sensacionalismo e estética do grotesco com o objetivo de estabelecer parâmetros. O estudo será feito através de uma análise do Fait Divers ao longo da história dos meios de comunicação e, por fim, através de estudos de casos mostrados no programa. Palavas-chaves: Tribuna da Massa, Folhetim, Fait Divers, grotesco, sensacionalismo, narrativa.

9 7 1. INTRODUÇÃO Pretendemos,através desse trabalho, investigar a relação existente entre programas populares como o Tribuna da Massa, programa que mistura informação com entretenimento, e o Fait Divers, gênero narrativo do século XIX. Os casos, ou crônicas, Fait Divers surgem na oralidade como contos e causos do dia-a-dia e passam a ser publicados nas notas de rodapé dos jornais populares, inicialmente na França. Suas principais características são a abordagem enfática e dramatizada que, através de elementos como a causalidade aleatória dos fatos o qual reporta, pode levar ao exagero e às coincidências, configurando um acontecimento misterioso. Assim, o Fait Divers não é apenas uma notícia comum é um fato curioso, inexplicável, e devido a isso leva à busca pelas respostas em suposições, crenças e no destino. Dessa forma, a linguagem do Fait Divers é inerente não só ao mundo factual, mas também ao ficcional. Portanto, procuraremos estudar a relação entre a linguagem do programa Tribuna da Massa, o qual mescla em sua narrativa o factual e o ficcional através de uma linguagem enfática, e o formato Fait Divers.(tirara palavra folhetinesco) O programa Tribuna da Massa apresenta um gênero misto de notícias policiais, atenção à comunidade e interação, além de outros quadros com conteúdos diversos os quais englobam curiosidades ocorridas na cidade de Curitiba, Região Metropolitana e em alguns casos no Paraná. Possui também caráter comunitário, de prestação de serviços, atendendo às necessidades da população. Procura trazer informações úteis à comunidade com os principais temas da cidade, com especial atenção para os bairros populares. Há também os quadros Palco do Povo e Gente procurando Gente. Serão estabelecidas comparações entre a narrativa do Fait Divers e a do programa, começando pela descrição do Fait Divers, de sua estrutura, características, origens, propagação para os principais meios de comunicação e adaptação às diversas linguagens, bem como uma análise de suas características segundo a estética do grotesco. Descreveremos esse caminho ao longo da história do jornal impresso, exemplificando através de notícias que causaram polêmicas devido ao seu conteúdo (como crimes, curiosidades, mortes e milagres) em jornais como o Commércio do Paraná, e O Diário da Tarde de 1918, entre outros que serão mencionados. Serão feitas também análises comparadas com manchetes do jornal local Tribuna do Paraná, o qual segue a mesma linha do programa Tribuna da Massa, para exemplificar como a narrativa do Fait Divers se insere no contexto atual dos jornais impressos.

10 8 Paralelamente, um formato semelhante, o romance de folhetim, será também estudado, sob a mesma ótica, contextualizando historicamente e investigando as principais características que fizeram dessa forma de narrar uma linguagem de tanto sucesso, através de imagens e textos da revista de variedades Fon-Fon do ano de Após descritos em suas qualidades, analisaremos de que maneira os dois formatos se relacionam, estabelecendo pontos em comum, como o discurso melodramático, entre outros pontos fundamentais para o entendimento da propagação e adaptação de tais narrativas. Partiremos então para uma análise do Fait Divers no rádio, mostrando características da linguagem de programas populares como Aqui Agora de Gil Gomes para exemplificar em que formatos radiofônicos a narrativa do Fait Divers se insere, e quais elementos se assemelham ao Tribuna da Massa, passando pela linguagem folhetinesca através das novelas e dos programas de auditório da rádio Mayrink Veiga. Passando para o gênero televisivo, serão analisados dois formatos: a telenovela e o telejornal, descrevendo momentos decisivos de cada um e analisando em quais deles as narrativas folhetinescas se fazem presentes. Um exemplo disto é a telenovela Beto Rockefeller de Braulio Pedroso, a qual inaugurou o gênero romântico realista para ilustrar o modelo ficção-realidade. Serão mencionados também programas como O real e o sobrenatural com o mesmo objetivo de contextualizar o Fait Divers e a narrativa ficçãorealidade nos programas atuais da televisão regional. Para realizar estas comparações, partiremos do pressuposto de que o Fait Divers, o romance folhetinesco e o melodrama se misturaram ao longo do tempo, segundo a teoria de Sonia Maria Lanza, permeando diversos outros gêneros e formatos, como a programação televisiva, a ponto de formatos ficcionais como a telenovela tornarem-se mais realísticos, de forma semelhante ao folhetim: o romance da vida, e formatos jornalísticos se tornarem ficcionais, semelhantes ao Fait Divers: a vida romanceada. No segundo capítulo serão feitas três análises, uma através do estudo de quatro casos mostrados no programa em forma de pauta, outra através de uma entrevista realizada com a produtora da emissora Rede Massa, Rosane Freire, sobre a estrutura do programa Tribuna da Massa e a terceira através do acompanhamento da gravação do programa durante uma edição. Na primeira análise faremos um pequeno estudo de caso de três pessoas que fizeram pedidos pessoais ao programa através de cartas e foram ajudadas, e um quarto estudo sobre uma notícia polêmica mostrada pelo programa. Dois dos estudos de caso serão baseados

11 9 somente nas cartas e os outros dois em vídeos produzidos, mostrados respectivamente nos dias 30/09/2010 e 04/10/10, contando a história dessas pessoas. O primeiro vídeo analisado é documental e retrata a história de Joselaine, a autora da carta, a qual pede a ajuda do programa para conseguir uma máquina de crepes para poder trabalhar. O segundo vídeo analisado se trata de uma matéria retratando o caso de Aleixo boca torta o qual gerou muita polêmica em torno de seus crimes e foi retratado também no jornal Tribuna do Paraná. Através das cartas procuraremos mostrar a relação de proximidade entre o programa Tribuna da Massa e os telespectadores, legitimando o conceito de programa popular e voltado à comunidade. Já através dos vídeos, procuraremos analisar a abordagem dada aos casos mostrados, assim como as características discursivas usadas para construir o conteúdo, esclarecendo quais delas se assemelham à narrativa do Fait Divers e ao sensacionalismo, partindo do pressuposto de que este formato utiliza em seu discurso o Fait Divers e a linguagem folhetinesca. Em seguida, será feita a entrevista para responder a perguntas relacionadas ao programa: como os assuntos priorizados pela redação, à realização das pautas, o discurso, o público do programa, à abordagem dada pelos apresentadores ao conteúdo, entre outras questões relevantes. Através dessas perguntas será possível definir com mais clareza o gênero do programa, que se caracteriza por um mistura de ficção e realidade, mas que necessita de um esclarecimento mais criterioso, para só então, analisarmos as características narrativas do programa, sob quais aspectos se assemelham à linguagem do Fait Divers e,conseqüentemente, ao sensacionalismo. Por fim, através do acompanhamento de um dia de gravação do programa,analisaremos na prática questões como o roteiro, a ordem das matérias e das inserções publicitárias, a interpretação dos apresentadores ao vivo, entre outros elementos que constroem o discurso. Dessa forma, poderemos analisar também quais desses elementos estão enraizados na narrativa do Fait Divers e de que forma eles atendem a proposta do programa.

12 10 2. A ESTRUTURA DO FAIT DIVERS 2.1 FAIT DIVERS: UMA SÍNTESE OBJETIVA PARA UMA ESTRUTURA ENGENHOSA Partindo do estudo de caso do programa de gênero popular Tribuna da Massa, o qual oferece uma programação variada de notícias policiais e do cotidiano, interatividade com o público e atenção à comunidade, podemos estabelecer uma comparação entre sua narrativa melodramática e o Fait Divers, forma narrativa de muito sucesso entre os leitores de folhetins no século XIX. Entre suas principais características estão: a abordagem romanceada e dramática, a causalidade aleatória (que muitas vezes leva ao exagero e às coincidências), além dos fatos misteriosos, que podem levar uma interpretação através de significados criados por meio de crenças e suposições míticas ou do destino. Assim, partimos do pressuposto de que a abordagem e os temas apresentados no programa se assemelham à narrativa do Fait Divers. Fala-se hoje em Fait Divers como um gênero que sempre existiu, um conceito que naturalmente se explica na medida em que pensamos em sua estrutura tão peculiar, por isso, é importante buscar suas origens para que seja apropriadamente delineado em sua totalidade. Segundo Meyer (1996, p. 98) sobre a origem do o Fait Divers: Surgiu em Le Petit Journal em 1836 e não consta que tivesse sido utilizada anteriormente. Até então, falava-se, como diziam Balzac ou Nerval, de canards ou de fait Paris, ou de nouvelles (...) O conceito de Fait Divers não se impõe portanto per si. É uma noção aproximada que deve ser manejada com cautela (...) assim, a expressão Fait Divers não designa portanto somente uma atividade de distribuição das notícias entre a rubricas de um jornal, ou um tipo de informação, mas também, com uma conotação explicitamente pejorativa, uma categoria particular de acontecimentos.(meyer, 1996, p.98). Pode-se começar a entender o Fait Divers a partir da oposição entre o nomeado e o inominado, pois como afirma Barthes (2009, p. 215), tal estrutura só começaria a existir onde o mundo deixasse de ser nomeado, submetido a um catálogo conhecido (política, economia, guerras, espetáculos, ciências, etc), estabelecendo dessa forma, uma oposição em relação às notícias formais, classificadas dentro de um padrão temático, e que por conseqüência obedecem a uma estrutura coerente com o conteúdo. Assim, o Fait Divers, trata de temas generalizados, ou diversos, sem obedecer a uma ordem de conteúdo, mas seguindo

13 11 uma estrutura própria. Tal estrutura se caracteriza por um ciclo fechado, que segundo Barthes (2009, p. 216) é uma informação total, ou mais exatamente, imanente, contém em sim todo o seu saber: não há necessidade de conhecer nada do mundo para consumir um caso do dia, ele não remete formalmente para outra coisa que não seja ele próprio. Entende-se por isso que o Fait Divers não se desenvolve em forma de série, é único pois encerra onde começa, sem deixar qualquer tema que precise ser entendido ou desenvolvido fora de sua estrutura única. Em oposição a ele está a notícia política, caracterizada por fragmentos de romance os quais necessitam da continuidade para serem compreendidos. Como diz Barthes (2009, p. 216) [...] o assassinato que escapa ao caso do dia sempre que é exógeno, vindo de um mundo já conhecido, pode-se então dizer que não tem estrutura própria suficiente, por que ele nunca é senão uma termo manifesto de uma estrutura implícita que lhe pré-existe: não há informação política sem duração, porque a política é uma categoria transtemporal, o mesmo acontece com todas as categorias vindas de um horizonte nomeado, de um tempo anterior. (BARTHES, 2009, p. 216) O conteúdo do Fait Divers também obedece a uma estrutura. Ele constrói, por sua vez, a relação entre dois termos, ou seja, a informação é desdobrada em dois pontos principais, gerando uma problemática. Essa relação quase sempre pode ser quantificada, de modo que ao leitor, cause comoção e dramaticidade. Segundo Meyer (1996, p.99) [...] é uma narrativa construída sobre uma relação que visa provocar espanto, e este nasce da estrutura própria ao Fait Divers, que parece sempre se enquadrar em dois tipos, diz Barthes: uma causalidade anormal, inesperada, ligeiramente aberrante ou uma relação de coincidência. (MEYER, 1996, p.99) Essas relações podem, por repetição, gerar significado ou então levar ao exagero que, nesse caso, como diz a autora cria um universo mítico que acredita em uma inteligência escondida, em outras palavras, num Destino. A partir dessa afirmação é possível especular sobre a relação entre tal estrutura e o grotesco 1, uma vez que para Sanchez Vasquez apud Hoffman (2002, p. 287) O homem prefere o pior dos terrores a explicar aquilo que, em sua opinião, pertence ao mundo dos fantasmas, de modo algum quer satisfazer-se com o nosso universo, deseja ver algo que dependa do outro mundo, capaz de manter-se sem a meditação do corpo. 1 De acordo com Muniz Sodré e Raquel Paiva (2004, p. 25) trata-se da mutação brusca, da quebra insólita de uma forma canônica, de uma deformação inesperada.. Ao longo do estudo o termo grotesco será melhor explorado de acordo com as narrativas analisadas e seus meios de comunicação.

14 12 Ainda em Convite a Estética (2002, p.288) analisando o grotesco em Os Elixires do Diabo, Vasquez diz não faz mais que potencializar a estranheza e o mistério da existência humana, ali onde a realidade se perde No entanto, a relação de causalidade não é o único fator responsável para que as significações sejam construídas. Em muitos casos em que esta já é esperada e de certa forma considerada normal, o fator significante gerador de um suposto significado se transfere para o que se pode chamar de dramatis personae, ou as essências emocionais que comportam e vivenciam os estereótipos, de forma que o Fait Divers jamais deixa de provocar uma reação de espanto e de ligação com o sobrenatural. Outra característica resultante dessa estrutura causal é a efemeridade, ou seja, o Fait Divers devido ao seu conteúdo auto-explicativo, resoluto em apenas uma publicação não resiste ao tempo. Isso acontece porque o fator gerador do conflito não é concreto, espera-se uma causa e aparece outra, legitimando mais uma vez a anormalidade ligeiramente aberrante, que ressalta também o poder dos estereótipos presentes na trama. Assim, afirma Barthes (2009, p.220): um crime sem causa é um crime que se esquece: o caso do dia desaparece então, precisamente porque na realidade sua relação fundamental se extenua. Paradoxalmente à sua efemeridade está o curioso fato de que o Fait Divers nunca envelhece, com o passar do tempo seu formato foi se adaptando a diversos meios de comunicação, sem nunca deixar de existir e saciar as massas com seu conteúdo melodramático. Assim como afirma Meyer (1996, p. 99) É interessante notar que, num jornal, a página de Fait Divers é a única que não envelhece. Se é impossível, hoje, ao ler um jornal antigo, compreender algum fato político sem recorrer ao contexto (...) a leitura de um Fait Divers ainda pode, cem anos depois, causar os mesmos arrepios ou espanto (MEYER, 1996, p.99) Intrínseco à relação estrutural está o elemento que pode-se chamar de surpresas do número, fator responsável pela possibilidade de quantificar a causa. Assim, entende-se que quanto menor e menos explicado for o acontecido maior serão os efeitos, como exemplifica Barthes (2009, p. 220) Uma estudante americana tem de abandonar os estudos: o seu peito (104 cm) provocava galhofa (...) Um comboio descarrilha no Alaska: um veado tinha bloqueado a agulhagem.

15 13 Essa relação de causalidade e quantificação da causa pode ser observada em manchetes de jornais populares como Tribuna do Paraná 2, o qual segue a mesma linha do programa Tribuna da Massa, e utiliza os mesmos recursos de linguagem para construir uma abordagem dramática e folhetinesca em torno das notícias. Um exemplo e descrito através da manchete da figura 6.2, anexo 6.3 da página 79 que diz: 10+10=2 (dez minutos mais 10 tiros igual a 2 mortos), que através dos números, além de quantificar o crime, superdimensiona a fatalidade e a gravidade da situação, com a possibilidade de poder mensurar o acaso. Esses casos mostram que a banalidade de um acontecimento não diminui seu efeito, pelo contrário, amplia as conseqüências induzindo à construção de significados indiciais onde aparentemente não havia, evidenciando a potencialidade do Fait Divers para acontecer a qualquer momento, em qualquer lugar. Contudo, a construção sígnica não se dá apenas pela causalidade ou pela quantificação de seus efeitos. Há outros dois fatores responsáveis pela articulação da estrutura e interpretação em sua totalidade: a coincidência e a repetição, como já mencionados anteriormente. A coincidência para Barthes é nada mais que a repetição de um acontecimento, e pode acontecer através da aproximação de dois temas distantes ou então da relação de questões improváveis e uma mesma problemática, de modo que acabam atreladas a um percurso único e paradoxal, de tal modo que, em muitos casos, ela inverte a situação ao trocar estereótipos de lugar, como exemplifica Barthes (2009, p. 223) em Little Rock chefe de polícia mata a mulher (...) Há não só um assassinato, mas também esse assassino é o chefe da Polícia: a causalidade inverte-se em virtude de um desenho exatamente simétrico Esse tipo de trama tem suas raízes na tragédia grega - era o que chamamos de cúmulo: expressava uma situação de má sorte que, assim como o Fait Divers, acontecia por um acaso neutro, necessitando da construção de um significado no qual está implícito a idéia de destino. Então, nota-se que a coincidência apesar de ininteligível (nas palavras de Barthes), não é de forma alguma infundada - ela se justifica exatamente na aleatoriedade da causa, que assim ordena a coincidência. Muito além da tragédia ou então da própria literatura, o Fait Divers permeia muitos meios e linguagens de tal forma que se define por uma arte das massas, pois se antecipa em buscar na sociedade as ambigüidades de gênero necessárias para a construção de signos e, 2 Ver figuras 2.2, 6.1, 6.3 e 64 nas páginas 18, 78, 80 e 81 respectivamente. Títulos retirados do site: Acessado em: 28/09/2010.

16 14 consequentemente, de uma cultura. Acerca dessa consideração, Barthes diz que o homem, através do Fait Divers, apóia-se em uma cultura, pois qualquer sistema de significação expressa uma cultura. Assim, paradoxalmente na medida em que a preenche de signos, preenche de natureza, já que o sentido conferido aos acasos do Fait Divers não é resultante de um processo puramente racional, mas sim especulativo, partindo de pressupostos do campo do inexplicado, do mítico e das crenças. 2.2 OS CAMINHOS DO FAIT DIVERS O Fait Divers e o antigo: consolidação e êxito no jornal impresso Na medida em que a estrutura do Fait Divers se consolidou (através de um fator decisivo para seu sucesso através do tempo o fato curioso), este passou a se adaptar a outros meios de comunicação e eternizar o modelo de narrar nascido no século XIX com o romance folhetinesco. Dessa forma, pode-se dizer que tal narrativa conquistou as massas oferecendo uma gama de paradigmas sentimentais, como acrescenta Lanza em seu artigo Jornalismo: da origem folhetinesca à folhetinização da Informação : O melodrama é a referência de identificação imediata entre as narrativas e o leitor, é a catarse necessária ao processo que Silvia Oroz 3 (1999, p.13) chama de educação sentimental das massas. O melodrama, no entanto, não esteve sempre vinculado ao folhetim. Veio como forma de narrar posterior à tragédia grega para, só então, permear com o tempo os meios de comunicação. Devido à sua estrutura simples, priorizava enredos sentimentais, temas maniqueístas como o bem e o mal e a busca pela justiça e a virtude. Dessa forma que o leitor pudesse tornar a vida romanceada, e assim, deixar a banalidade da rotina para outras narrativas. Pode-se dizer acerca disso que melodrama teve um papel decisivo no romance folhetinesco e, mais tarde, no Fait Divers. O romance contribuiu para que a tiragem dos jornais aumentasse e assim se tornassem veículos de massa. Através da estratégia comercial de fragmentar a trama em pequenos capítulos para criar suspense, fazendo com que os leitores a fim de saber o final da história continuassem a comprar jornais, o folhetim se consolidou e,junto com seu sucesso, a tradição do formato narrativo melodramático. 3 Segundo Sonia Maria Lanza p.03

17 15 Somente depois de consolidado o romance é que surge então o Fait Divers, por volta de 1850 na França, com a volta dos folhetins após a proibição por Napoleão, fazendo concorrência ao primeiro modo de ficção, como afirma Lanza apud Meyer (1996, p. 264) É chegada a hora em que melodrama, fait divers, folhetim se entrelaçam numa democratização do crime e dos criminosos Com o nascimento do Le Petit Jornal (figura 2.1) em 1836, começa a moda dos jornais populares e de baixo custo que, logo após se consolidar entre os franceses, lançou uma segunda edição voltada apenas para folhetins e Fait Divers (esse ilustrado nas capas chamativas e coloridas), chamada Nouvel Illustré. Assim, através do Le Petit Journal, o termo Fait Divers é batizado como tal, já que anteriormente era designado como conard, chronique ou então como nouvelle. Ao passo que vai se tornando cada vez mais popular, o Fait Divers extrapola os limites da nota de rodapé e começa a aparecer em páginas inteiras, nas capas dos folhetins e nos muros da cidade de Paris ao lado de reclames e cartazes além dos illustrés (jornais ilustrados e recreativos), em jornais femininos como o Petit Écho de La Mode e até mesmo em revistas católicas como a Veilée des Chaumières. FIGURA 2.1 Feuilleton du Petit Journal. Exemplo de romance de folhetim no jornal Le Petit : As Histórias Extraordinárias. Edição de 01/01/1864. Atravessando os mares, em 1838 é conhecido o primeiro registro de um ensaio do gênero folhetinesco no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro por Alexandre Dumas: O Capitão Paulo. Aos poucos, a estrutura das edições vai sendo modificada conforme o crescente consumo de ficção no Brasil, como acrescenta Meyer (1996, p. 283) E enquanto

18 16 continuam se sucedendo listas de antigas moderníssimas novelas, no rodapé do jornal vão se sucedendo as fatias de romance-folhetim traduzidas dia após dia do francês, introduzindo angústia e suspense com o fatídico continua-se. Em 1844 chegam finalmente, em português, às notas de rodapé Os Mistérios de Paris de Eugene Sue, aumentando gradativamente a quantidade das notas, ocupando a extensão de todas as colunas do jornal, até que se esgotasse a tiragem do jornal, a ponto de leitores colocarem reclames e cartazes nos muros a fim de comprar edições que não possuíam. Surge então em 1875, em oposição ao Jornal do Comércio, a abolicionista Gazeta das Notícias, através da qual ficaram conhecidos grandes nomes da literatura brasileira como Eça de Queirós, Machado de Assis, Ramalho Ortigão, entre outros. Por volta de 1877 o folhetim vai para as primeiras páginas, seguindo o modelo do jornal inglês Times. Mais tarde, em 1891, surge um novo jornal, de cunho político, mas que também possuía suas notas de rodapé, conforme os leitores estavam acostumados. Em meados do século XX começam a aparecer no Brasil as narrativas jornalísticas parecidas com as estruturas norte-americanas, que utilizavam o lead, uma linguagem clara, objetiva e com enunciados mais referenciais. Assim, cria-se uma mistura de narrativas, gerando uma terceira, própria à imprensa brasileira, como acrescenta Lanza Apud Lage, (1985, p. 07) O jornal moderno vai tentar combinar esta estrutura norte-americana à fórmula folhetinesca e cria a folhetinização da informação. Essa forma de apresentar tornou muito tênue a fronteira entre a imprensa marrom e os jornais sérios. Uma informação que apazigua e suscita a curiosidade de um público que gosta do excesso melodramático, além das técnicas do folhetim: fragmentação/corte que mantém a expectativa no leitor e faz desse processo uma técnica mercadológica. (LAGE, 1985, p. 07) Assim, segundo Lanza, pode-se interpretar a relação próxima entre o Fait Divers e a folhetinização da informação, sendo ambas de narrativa rápida, através de um registro melodramático. Dessa forma que, a partir da modernidade, pode-se falar de um sincretismo ou hibridismo 4 das formas de narrar, fazendo de várias uma só, mesclando ficção e realidade, permeando e se adaptando aos meios de comunicação. 4 O encontro de elementos culturais diversos em um mesmo espaço gera o que autores como Canclini (2000, p.19), Burke (2003, p. 39) e Gruzinsky (2001, p. 161) denominam hibridização ou hibridação. A tradução de elementos de um espaço cultural para outro acontece através da eliminação ou enfraquecimento das fronteiras. Quando se atenuam as diferenças entre elementos culturais distintos, obtém-se um terceiro elemento, híbrido, que conserva as características de cada um daqueles que contribuíram para sua formação. (GABRIELLI E HOFF, 2006 p.8)

19 17 No jornalismo, o espetáculo do sincretismo da realidade-ficção tem a fisionomia do fait divers (...) Os fait divers, com alta carga de emoção e de conflito, se nutrem dos mesmos ingredientes usados para homogeneizar as mensagens da indústria cultural Rezende (2005 p. 06) Acerca dessa afirmação, podemos refletir rapidamente sobre a propagação dessa forma de construir as notícias em exemplos contemporâneos. São muitos os exemplos, mas de forma alguma todos têm a mesma postura. Já o jornal impresso Tribuna do Paraná, (sobre o qual fale-se em tom de ironia, torce o papel e escorre sangue ) mescla uma narrativa semelhante ao Fait Divers, somada a uma abordagem melodramática e folhetinesca, explorando casos rotineiros como mortes, assassinatos entres outros acontecimentos populares e muitas vezes anônimos, que não entram na pauta dos jornais comuns. No exemplos abaixo é possível conferir essa analogia através do estudo da manchete e imagens e da escolha das palavras que apelam para o sobrenatural e para o impactante. Na manchete de julho de 2006 intitulada Macabra Coincidência (figura 2.2 página 18) a forma narrativa e os termos utilizados podem ser facilmente associados às características que definem o Fait Divers e à linguagem dramática do Folhetim. Outros exemplos de manchetes, anexados (apêndices), também ilustram essa relação, tais como No rastro do mistério (figura 6.1 página 78) de abril de 2008, que além da própria manchete altamente folhetinesca, traz na parte superior uma pequena curiosidade dizendo fazendeiro troca esposa por cabra, pois reclama que sua mulher não podia dar lhe filhos, através da qual podemos ver novamente a relação causal imprevisível que a estrutura do Fait Divers descreve. Na outra manchete (figura 6.2 página 79) 10+10=2, também do mesmo mês e ano, e 50 tiros, 4 mortos (figura 6.3 página 80) de janeiro de 2009, é possível reconhecer a surpresa dos números responsável por quantificar a causa, a relação com o sobrenatural, a coincidência, e a causa e efeito inesperados, conforme definição de Barthes sobre o Fait Divers, citada anteriormente na página 10.

20 FIGURA 2.2 Macabra Coincidência. Capa do Jornal Tribuna do Paraná de 05/05/

21 19 Em 1925, o Jornal do Comércio de São Paulo inaugura outro rodapé destinado a crítica literária, e o Correio Paulistano, jornal que apoiava o Partido Republicano Paulista, publicava diariamente uma coluna intitulada Fatos Diversos, que noticiava assaltos, crimes, suicídios, entre outros casos não ligados a pessoas de destaque, nas palavras de Meyer (1996, p. 364). É importante frisar também que, mesmo se tratando da década de vinte, com toda a divulgação e rebuliço feitos pelo modernismo e pelo que se chamava então de futurismo, o folhetim jamais deixou de ocupar a nota de rodapé, bem como é notável a mistura entre o mau gênero, ou o gênero popular junto à literatura considerada culta, em todos os tipos de jornais, ao contrário do que aconteceu na França, onde apenas jornais populares publicavam folhetins e Fait Divers. Só então a partir da década de trinta, época em que o Brasil passa por um surto editorial, é que os romances de folhetim saem dos jornais, de revistas como a famosa Fon-Fon 5 e dos fascículos, para serem publicados em livros através de editoras sérias ou não sérias de modo que o folhetim deixou aos poucos de existir no jornal, mas não na vida dos brasileiros. Enquanto que o legado deixado pela forma de narrar folhetinesca, somado à influência norte-americana, permanecem até hoje nas imprensas nacionais e na forma de compreendermos uma notícia. 5 Revista Fon-Fon Fundada em 1907 no Rio de Janeiro, como conteúdo trazia notícias do cotidiano e curiosidades, anúncios e costumes da sociedade na época. Ver figuras abaixo, páginas 20 e 21.

22 FIGURA 2.3 Revista Fon Fon Folhetins. Publicada em

23 FIGURA 2.4 Revista Fon Fon Na Calçada. Publicada em

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