A questão para trabalharmos com nossos Valores Culturais

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1 Causa Comum A questão para trabalharmos com nossos Valores Culturais

2 Causa Comum A questão para trabalharmos com nossos Valores Culturais Tradução do original Common Cause/ The Case for Working with our Cultual Values, relatório produzido por COIN, CPRE, FOE, Oxfam-GB e WWF-UK em setembro 2010 (V ers ão i ni ci al i ncompl eta e s uj ei ta a rev i s ão técni ca, para i nteres s ados na O fi ci na Caus a Comum) CON TEÚ DO PREFÁCIO/GRUPO DE TRABALHO/AGRADECIMENTOS/SUMÁRIO E GUIA 1. CONTEXTO 1.1 Abordagens atuais para tratar de desafios globais estão falhando 1.2 Pressão pública para a mudança é de crucial importância 1.3 Ao fazer juízos de valor, emoções são mais importantes do que fatos 1.4 Vendendo hambúrgueres, vendendo mudança de comportamento 1.5 Política e valores 1.6 Ética e organizações da sociedade civil 1.7 Algumas questões cruciais a serem resolvidas 2. OBJETIVOS E VA LORES 2.1 A organização de valores 2.2 Valores e comportamento 2.3 Valores de problemas maiores-do-que-si-mesmo 2.4 A natureza dinâmica dos sistemas de valores 2.5 Que fatores servem para fortalecer valores 2.6 As pessoas são inerentemente egoístas? 3. QU A DROS E EN QU A DRA MEN TO 3.1 Introdução a quadros 3.2 Enquadramentos e ação política 3.3 Enquadramentos e metáforas conceituais 3.4 Enquadramentos, metáforas conceituais e valores 3.5 Alguns exemplos de quadros profundos Enquadramentos de interesse próprio e de interesse comum Enquadramentos de pai severo e de pais que nutrem Enquadramentos de governança da elite e de democracia participativa 4. DA TEORIA ` A P RÁ TICA : trabalh an do com v alores e qu adros profu n dos 4.1 Princípio 1: Seja transparente e participativo, e demande o mesmo padrão dos outros 4.2 Princípio 2: Assegure-se de que as comunicações e campanhas incorporem os valores que buscam promover 4.3 Princípio 3: Esteja preparado para trabalhar por transformação sistêmica 4.4 Princípio 4: Construa novas coalizões 4.5 Princípio 5: Compreenda o impacto total da política 4.6 Princípio 6: Administre concessões quando inevitáveis 4.6 Princípio 7: Adapte a mensagem ao público 4.7 Princípio 8: Torne-o divertido e ouse sonhar

3 APÊNDICE 1: METAS DE VIDA DA ORGANIZAÇÃO A1.1 Metas de vida A1.2 Valores APÊNDICE 2: VALORES E PROBLEMAS MAIORES-DO-QUE-SI-MESMO A2.1 Tranqüilidade A2.2 Atitudes para com Direitos Humanos A2.3 Atitudes para com pessoas que são diferentes A2.4 Atitudes para com pobreza global A2.5 Atitudes para com o meio-ambiente A2.6 Envolvimento Cívico para a transformação social APÊNDICE 3: FERRAMENTAS PARA ANALISAR ENQUADRAMENTOS A3.1 Análise da resposta participativa A3.2 Análise de texto A3.2.1 Análise em escala ampla A3.2.2 Análise de texto restrito A3.3 Considerações sobre outros aspectos da experiência de vida PREFÁC IO Há uma ironia no cerne de muitas das campanhas sobre desafios globais incluindo campanhas sobre crises humanitárias e globais: enquanto nossa percepção sobre a profundidade desses desafios e as dificuldades de resolvê-los cresce, tendemos a nos apoiar cada vez mais em um conjunto de táticas para questões específicas, que podem, em realidade, militar contra o surgimento das soluções sistêmicas e duráveis que são necessárias. Quaisquer que sejam os sucessos recentes das organizações da sociedade civil em ajudar a resolver esses desafios, parece que as respostas atuais são incomparáveis com as escalas dos problemas que confrontamos. Fica cada vez mais evidente que a resistência `a ação diante desses desafios só será vencida através de engajamento com os valores culturais que sustentam tal resistência. Também parece claro que, ao tentar encarar esses desafios, as organizações da sociedade civil precisam promover certos valores, já aceitos há muito tempo (mas pouco incorporados), ao mesmo tempo em que buscam amenizar a primazia de muitos valores que são preponderantes ao menos na sociedade ocidental industrializada. Os valores que precisam ser fortalecidos valores que são comumente difundidos e que podem ser trazidos para a dianteira incluem: empatia com aqueles que estão sofrendo os efeitos das crises humanitárias e ambientais, preocupação com as gerações futuras, e o reconhecimento de que a prosperidade humana reside nas relações tanto entre pessoas quanto com a natureza. Sem dúvida tais valores têm sido enfraquecidos e muitas vezes têm sido até mesmo motivo de piada na cultura moderna. Eles não são, por exemplo, valores que são cultivados ao se tratar pessoas como se fossem, sobretudo, consumidores. Mas são valores que têm uma história nobre e antiga no pensamento ocidental, e eles ainda constituem fundamentalmente grande parte do debate público. Eles estão aí para

4 serem ativados e fortalecidos. Nós acreditamos que todos cidadãos individualmente, organizações da sociedade civil, governo e negócios podem ter um papel ativo no seu fortalecimento. Realmente, são valores que têm que ser promovidos se quisermos descobrir o ímpeto coletivo para tratar dos desafios globais profundos da atualidade. Organizações da sociedade civil não devem se esquivar de assumir a missão de fortalecer esses valores, ou começar a trabalhar para garantir que sua comunicação e campanhas contribuam para este esforço. Mas este processo deve ser transparente, inclusivo e reflexivo. Muito grupos, movidos por interesse próprio, compreendem há tempos os mecanismos pelos quais os valores são promovidos culturalmente, e muitos têm trabalhado consciente ou inconscientemente para ajudar a incutir esses valores culturais que servem aos seus propósitos, muitas vezes sem escrutínio público ou debate. A abordagem que indicamos aqui é muito diferente. Ao contrário, ao trabalhar para fortalecer valores que ajudam, organizações da sociedade civil podem aproveitar a oportunidade para apresentar abertamente suas estratégias e por quê as consideram importantes. Elas podem trabalhar para incluir o maior espectro de perspectivas em função de evidências que o conhecimento oferece. E podem incorporar os valores que eles expressam na estrutura de sua comunicação e campanhas, de maneiras inspiradoras. Debates sobre as conseqüências dos valores culturais, e os mecanismos através dos quais eles evoluem, devem se tornar tão vigorosos quanto debates públicos sobre a base de evidências para políticas públicas, práticas comerciais ou campanhas da sociedade civil. Existe um papel crucial e excitante para as organizações da sociedade civil em assegurar que isso se torne real. A reflexão sobre estes assuntos e oportunidades nos levou a convocar um pequeno grupo de trabalho para supervisionar a produção deste relatório. Este é um trabalho em progresso em dois aspectos. Primeiro, a base extensa de pesquisa sobre a qual este relatório se construiu, e as conclusões que tiramos dele, devem continuar a se desenvolver. De fato, o relatório enfatiza áreas nas quais uma nova síntese interdisciplinar é necessária e onde novas partes de trabalho têm que ser realizadas. Mas não acreditamos que essas limitações devem distrair da perspectiva convincente que o relatório aponta. Segundo, é claro para nós que nenhuma organização nenhuma das cinco pode ficar na sua ao promover valores que recebem tão pouco destaque na linguagem e na cultura difundida da sociedade de consumo moderna. Nem poderiam ter esperanças de efetivamente abrir um debate público sobre a importância desses valores. Engajamento significativo no enquadramento de valores que começamos a demarcar vai demandar o compromisso de um leque grande de organizações. Portanto este relatório é também um convite para cidadãos individualmente, inúmeras organizações da sociedade civil, departamentos de governo, agências públicas, e negócios com visão para que ajudem a refinar e então articular os valores que estabelecemos. Estamos comprometidos a aprofundar e a estender esta iniciativa. Por favor não deixe de contatar algum de nós se você quiser juntar forças neste esforço.

5 S UMÁRIO E G UIA Este sumário executivo é mais do que uma versão condensada do documento inteiro: ela também apresenta um mapa do relatório. O relatório em si reúne um volume considerável de evidência empírica para embasar o case que constrói. Esta evidência está presente tanto no corpo do documento quanto em seus apêndices. Este sumário dá uma visão geral sobre a questão, e traz um guia para que se possa localizar partes específicas do argumento justificado no texto principal. Conceitos e argumentos-chave em negrito são indexados `as partes relevantes no relatório principal. Es ta m o s co nf ro nta nd o d es a f io s p ro f und o s Este relatório tem a intenção de catalisar o debate em torno das abordagens atuais para combater um amplo espectro de desafios incluindo pobreza global, mudança climática e perda de biodiversidade. Qualquer que seja o sucesso das organizações da sociedade civil em começar a tentar resolver estes desafios, eles freqüentemente parecem insolúveis, ou piorando. Ao longo deste relatório estes desafios são, juntos, citados como problemas maiores-do-que-si-mesmo (Seção 1.1). Isso é feito para que se possa distingui-los de outro tipo de problema: aquele que é claramente do interesse imediato do indivíduo em investir energia e recursos para ajudar a combater (por exemplo, um projeto de desenvolvimento inconveniente em seu bairro). Para alguém envolvido em engajamento cívico no Reino Unido, problemas maiores-do-que-si-mesmo podem incluir aqueles que se apresentam a pessoas em outros lugares por exemplo, violações de direitos humanos em um país distante. Eles podem também incluir problemas que vão afetar pessoas no Reino Unido, mas onde o retorno para o esforço pessoal do indivíduo para ajudar a resolver este problema dificilmente justificará seu uso de recursos para ajudar a combatêlos. Liderança mais ousada, tanto de líderes políticos quanto do mundo dos negócios, é necessária para que respostas proporcionais a esses desafios possam emergir, mas um engajamento público ativo com esses problemas é de crucial importância. Isso é em parte devido ao impacto material direto do comportamento do indivíduo (por exemplo, sua pegada ecológica), em parte por conta da falta de demanda do consumidor por mudanças ambiciosas nas práticas dos negócios, e em parte pela falta de espaço político e de pressão para que os governos propiciem mudanças. N o s s o m o d elo d o m ina nte d e to m a d a - de- d ecis ã o hum a na p recis a d e reno v a çã o Existe evidência de sobra em uma série de estudos em ciência cognitiva de que o modelo do Iluminismo dominante de tomada de decisão humana é extremamente incompleto. De acordo com este modelo nós nos imaginamos, quando diante de uma decisão, de sermos capazes de avaliar desapaixonadamente os fatos, prevendo resultados prováveis de diferentes respostas, e então selecionando e buscando o melhor modo de agir. Como resultado, muitas abordagens para campanhas de problemas maiores-do-que-si-mesmo ainda se ligam `a convicção de que é só as pessoas ficarem sabendo sobre a natureza

6 verdadeira ou sobre a escala total dos problemas que confrontamos, e então elas estariam ferrenhamente demandando mais ação proporcional em resposta. Mas esta compreensão de como as pessoas tomam decisões é muito incompleta. Existe farta evidência de que os fatos só têm papel parcial na formação dos julgamentos das pessoas. Emoção é geralmente mais importante (ver seção 1.3) Fica cada vez mais aparente que nossas decisões coletivas se baseiam significativamente em um conjunto de fatores que paira, na maior parte das vezes, acima da percepção consciente, e que é influenciado relevantemente pela emoção em particular por valores da cultura dominante, que são ligados `a emoção. Parece que os indivíduos são freqüentemente predispostos a rejeitar informação quando percebem que ela desafiaria sua identidade e valores. Abordagens de campanha que se baseiam na disposição de informação podem até funcionar para pessoas cujos valores pessoais são confirmados por aceitar e agir sobre esta informação. Mas para outros a mesma informação (por exemplo, sobre o tamanho do desafio que a mudança climática apresenta) pode simplesmente servir para fortalecer a resistência a aceitar novas políticas de governo ou a adotar novos comportamentos na esfera privada. Isso aponta para a necessidade de incorporar uma compreensão dos valores das pessoas nas campanhas da sociedade civil. É impossível escapar do fato de que qualquer comunicação ou campanha vai servir inevitavelmente para transmitir valores particulares, intencionalmente ou não. Acima de tudo, ao transmitir esses valores, a comunicação ou campanha vai ajudar a fortalecer ainda mais esses valores culturalmente. As decisões das pessoas são dirigidas significativamente pelos valores que elas têm freqüentemente inconscientemente, e `as vezes até mesmo excluindo uma avaliação racional dos fatos. Em particular, alguns valores provêm uma fonte de motivação melhor para se engajar em problemas maiores-do-que-si-mesmo do que outros valores. A conjunção desses dois insights de que comunicação e campanhas servem inevitavelmente para fortalecer determinados valores, e que os valores de uma pessoa têm um efeito profundo e frequentemente inconsciente nas escolhas de comportamento que ela faz traz questões éticas profundas (ver seção 1.6). A resposta prática para este desafio ético não pode ser lutar por comunicações de valores neutros (o que seria impossível). Ao contrário, seria lutar por transparência, comunicando para um público não apenas quais valores uma determinada comunicação ou campanha tem intenção de transmitir, mas também por quê tais valores são considerados importantes. Nestas bases, se alguém aceita que existem imperativos éticos para resolver problemas maiores-do-que-si-mesmo, então ele/ela vai também presumidamente tender a aceitar que existem imperativos éticos para transmitir alguns valores ao invés de outros desde que eles sejam transmitidos com um teor alto de transparência. Isso aponta para um papel importante para organizações da sociedade civil, que há muito tempo focam principalmente em examinar a base factual para resolver problemas maioresdo-que-si-mesmo, e engajar em debates sobre as melhores abordagens práticas para alcançar isso. Agora dá para se ver que as organizações da sociedade civil devem igualmente desenvolver expertise em examinar e desnudar os valores que uma determinada

7 comunicação promove: começando pelos próprios, e então avançando para começar a examinar os valores implícitos nas comunicações de um leque de participantes no debate público incluindo aqueles de grupos com interesses específicos e objetivos. V a lo res e co m p o rta m ento s ã o intim a m ente co necta d o s Existe um conjunto grande de evidências sobre a maneira pela qual os valores das pessoas são organizados através dos contextos culturais, e este relatório revê alguns desses resultados. Em particular, duas descobertas das pesquisas são de grande importância: Primeiro, valores das pessoas tendem a se agrupar de maneira significativamente parecida através das culturas; segundo, as relações entre valores diferentes é tal que alguns conjuntos de valores podem ser facilmente mantido simultaneamente, enquanto outros se opõem entre si. (Esta evidência é resumida na parte principal do relatório, nas seções 2.1 e 2.2. No entanto, por ser de importância central aos argumentos que se seguem e que são construídos no trabalho, a pesquisa é também examinada em detalhe no Apêndice 1.) Os valores de uma pessoa incluem um sistema integrado e dinâmico, de modo que ao ativar um determinado valor afeta-se outros valores (ativando valores compatíveis e suprimindo valores opostos). Simplificado, o trabalho apresentado aqui sobre valores aponta para uma distinção entre duas classes amplas de valor: valores intrínsecos ou auto-transcendentes, e valores extrínsecos ou de auto-reforço (Seção 2.1 e Apêndice 1). Valores intrínsecos incluem o valor depositado em um senso de comunidade, no envolvimento com amigos e família, e no auto-desenvolvimento. Valores extrínsecos, por outro lado, são valores que são relativos `a percepção dos outros eles se relacionam `a inveja de estrato social mais alto, admiração da riqueza material, ou poder. Estas duas classes de valores agem em oposição. Por exemplo, a tal nível que se uma pessoa considera o valor intrínseco de sentimento comunitário (que inclui o desejo de melhorar o mundo através do envolvimento cívico) importante, ela terá menos tendência a dar importância ao valor extrínseco de sucesso financeiro (que engloba o desejo do indivíduo por dinheiro, posses, e sua inveja daqueles que têm essas coisas). De fato, esses dois valores são quase que perfeitamente opostos. Mas notar, é claro, que não se deve negligenciar a importância de sucesso financeiro relativo para pessoas que têm muito pouco dinheiro para viver decentemente (ver Seção 2.1 para mais discussão sobre este ponto). Valores intrínsecos são associados com preocupação sobre problemas maiores-do-que-simesmo, e com correspondentes comportamentos para tentar resolver esses problemas. Valores extrínsecos, por outro lado, são associados com níveis mais baixos de preocupação sobre problemas maiores-do-que-si-mesmo, e menos motivação para adotar comportamentos coerentes com tal preocupação (Seção 2.3 e Apêndice 2). A evidência para isso é desenhada de diferentes estudos e abordagens investigativas, e representa um corpo robusto de resultados de pesquisa. Então, seguindo o exemplo acima, estudos experimentais mostram que um foco forte no sucesso financeiro é associado com: menor empatia, mais tendências `a manipulação, uma preferência maior pela desigualdade e hierarquia social, maior preconceito por pessoas que são diferentes, e menos preocupação sobre problemas ambientais. Estudos sugerem ainda que quando pessoas se encontram em jogos de dilemas de recursos, elas tendem a ser menos generosas e a agir de maneira

8 mais competitiva e prejudicial ao meio-ambiente, se tiverem sido explicitamente lembradas das preocupações sobre sucesso financeiro. É claro, valores extrínsecos podem motivar o comportamento que ajuda, mas isso só acontecerá onde metas extrínsecas podem ser almejadas por meio de comportamentos particularmente úteis: por exemplo, comprar um carro híbrido para dar uma pinta de bacana. O problema é que, muitas vezes, fica muito difícil motivar comportamentos que ajudam através de apelos a valores extrínsecos e mesmo quando se tem sucesso o comportamento subseqüente tende ao relapso de volta ao que é mais consistente com valores extrínsecos que não ajudam. Além disso, tais estratégias têm a probabilidade de criar danos colaterais, porque elas servirão também para reforçar a percepção da importância dos valores extrínsecos, diminuindo a importância de valores intrínsecos e minando a base para uma preocupação sistêmica sobre problemas maiores-do-que-simesmo. Então, para responder `a compreensão da natureza integrada dos sistemas de valores é necessário que as comunicações e campanhas devam considerar ambos os efeitos dos valores que sua comunicação ou campanha vão servir para ativar (e portanto, como será discutido, também tendem a fortalecer) e os efeitos dominó de suas campanhas sobre outros valores (alguns dos quais podem ajudar e outros não ajudar ). Uma série de fatores (tais como a educação que a pessoa teve, a exposição que teve a normas sociais através da mídia, ou os valores adotados por suas figuras-modelo) determinam quais dentre o espectro completo de valores são particularmente importantes para um indivíduo (sendo que eles podem mudar de acordo com as circunstâncias). Ao determinar a preocupação de uma pessoa sobre problemas maiores-do-que-si-mesmo, parece que o que importa não é se um indivíduo adota valores extrínsecos per se, (isso é provavelmente inevitável), mas sim a importância relativa que ele ou ela atribui a valores extrínsecos ao invés de a valores intrínsecos. Então não se deve concluir que problemas maiores-do-que-si-mesmo só serão resolvidos se valores extrínsecos forem expurgados. Mas é crucial, do ponto de vista da preocupação sobre problemas maiores-do-que-simesmo, perguntar-se como valores intrínsecos podem ser encorajados e como valores extrínsecos podem ser desencorajados. V a lo res p o d em s er f o rta lecid o s cultura lm ente Valores podem tanto ser ativados (por exemplo, encorajando pessoas a pensar sobre a importância de certas coisas), e podem ser posteriormente fortalecidos, de modo que se tornam mais fáceis de serem ativados. Parece que uma forma pela qual valores são fortalecidos é por sua repetida ativação (ver Seção 2.5). Isso pode ocorrer, por exemplo, pela exposição das pessoas a esses valores através de colegas influentes, na mídia, na educação, ou através de sua experiência de políticas públicas. Por vezes argumenta-se que valores de interesse próprio são inevitavelmente dominantes (talvez por serem biologicamente inatos, por exemplo). Existe farta evidência de que este não é o caso (ver Seção 2.6). Mas mesmo se fosse o caso, isso serviria para sublinhar a importância em se garantir, na medida do possível, que dicas culturais contribuem para ativar e fortalecer valores intrínsecos. Um a co m p reens ã o s o b re v a lo res d ev e s er inco rp o ra d a na s ca m p a nha s d a s o cied a d e civ il

9 Como discutido, por um lado, simplesmente transmitir informação sobre problemas maiores-do-que-si-mesmo provavelmente deixa muitas pessoas indiferentes ou talvez ainda mais resistentes a transformações. Por outro lado, apelos a valores que estão em oposição `a emergência de preocupações amplamente difundidas sobre problemas maiores-do-que-si-mesmo têm a possibilidade de contribuir para fortalecer ainda mais estes valores culturalmente. Que resposta alternativa pode ser desenvolvida? Este relatório constrói o conceito de que problemas maiores-do-que-si-mesmo só serão sistematicamente tratados pela conjunção de: Uma compreensão dos efeitos dos valores culturais sobre as motivações das pessoas para mudar seu próprio comportamento ou para demandar mudanças dos líderes políticos e empresariais. Uma compreensão do leque de fatores que ativam e fortalecem certos valores e não outros. Debate público bem disseminado sobre as maneiras como o governo, as empresas e organizações da sociedade civil trabalham para fortalecer determinados valores através de comunicações, campanhas e políticas. Enq ua d ra m ento s o f erecem um v eículo p a ra p ro m o v er v a lo res Este relatório traz então duas correntes de pesquisa uma ao lado da outra: i) estudos em psicologia social e sociologia que examinam a importância de valores específicos para motivar preocupação sobre problemas maiores-do-que-si-mesmo (ou seja, o trabalho discutido na seção anterior); e ii) pesquisa sobre a importância de quadros (frames) como veículos para trabalhar para ativar e fortalecer valores que ajudam (ver seção 3) Quadros são de importância-chave quando se pensa sobre valores e como estes são ativados e fortalecidos culturalmente. (Seção 1.3 introduz quadros) Quadros, escreve o cientista cognitivo George Lakoff, são a estrutura mental que permite aos seres humanos entenderem a realidade e por vezes criar o que tomamos como realidade. Eles estruturam nossas idéias e conceitos, eles formatam como pensamos, e eles até mesmo impactam na nossa percepção e em como agimos. Alguns cientistas cognitivos usam o termo quadros profundos para se referir a estruturas cognitivas mantidas na memória de longo prazo que contêm valores específicos. Eles tendem a ser relativamente estáveis mas eles não são fixos ou imutáveis. O trabalho sobre quadros é frequentemente mal compreendido: por vezes assume-se que um quadro é apenas sobre enviar a mensagem certa como se uma escolha particular de linguagem pode nos motivar, en masse, como um todo, a querer abraçar uma determinada visão de mundo. A mensagem é naturalmente importante para ativar quadros específicos, mas é apenas o começo [Seção 3.2]. Enquadramento conceitual (escolhendo

10 habilmente palavras e frases para focar em questões específicas) não terá efeito se essas mensagens não ressoarem com um conjunto de quadros profundos. Existe portanto uma distinção importante entre processos que levam `a ativação de quadros, e processos que ajudam a fortalecer quadros (isso é, tornar quadros mais facilmente ativáveis). [Esta distinção é discutida no contexto de valores na Seção 2.5, e no contexto de quadros na Seção 4.3.] Ativação se refere ao processo de provocar determinados quadros. Uma vez estabelecido culturalmente, um quadro profundo pode ser muito facilmente ativado pelo uso de apenas algumas palavras (por exemplo, as frases Guerra ao Terror ou benefício fiscal ativam quadros profundos que se relacionam a toda uma compreensão sobre segurança ou sobre o papel apropriado do governo, respectivamente). O que é particularmente interessante é como quadros profundos são fortalecidos isto é, como um quadro profundo se torna mais fácil de ser ativado através do uso de pistas simples. Crucialmente, a ativação de um quadro através do uso de determinada linguagem é uma maneira importante de ajudar a fortalecê-lo ativar repetidamente um quadro tem o efeito de torná-lo mais fácil de ativar. Mas a linguagem não se sustenta por si só. Ela é parte e parcela das instituições e políticas com as quais vivemos e interagimos. Quadros profundos (e portanto os valores que estes incorporam) são ativados e fortalecidos através de muitos aspectos da nossa experiência de vida incluindo nossa experiência de viver com determinadas políticas públicas a instituições sociais. Existe um processo mútuo pelo qual políticas públicas e instituições políticas moldam nossos quadros profundos, que por sua vez formatam nossas políticas e instituições. Por exemplo, interagir com determinadas políticas ou instituições sociais como o sistema eleitoral, as agências de cooperação internacionais, as políticas de planejamento, ou o sistema nacional de saúde, tem um efeito sobre quais quadros profundos venham a dominar. Pesquisa sobre respostas a políticas revelam que talvez não surpreendentemente políticas públicas têm um impacto em moldar valores públicos dominantes, que por sua vez impactam no apoio público para novas políticas [Seção 3.2]. Im p la nta r um a co m p reens ã o d e q ua d ro s d es p erta q ues tõ es ética s p ro f und a s O poder dos quadros profundos em promover particulares agendas baseadas em valores é bem conhecido. É algo para o qual muitos grupos de interesse político têm reagido. Por exemplo, George Lakoff argumenta que neo-conservadores americanos têm assiduamente difundido seus valores profundos pelos cérebros de dezenas de milhões de americanos, ao trabalhar para fortalecer quadros profundos coerentes com sua política. Existe alguma evidência para efeitos similares no contexto do Reino Unido [Seção 3.2], embora não na forma de política partidária análoga. Uma compreensão de quadros profundos pode ser imensamente poderosa para estrategistas políticos tentando constituir apoio público para seus programas. Infelizmente, a maneira pela qual esta compreensão é difundida não é sempre transparente, e esta falta de transparência pode ser vista servindo aos interesses daqueles que desenham estes programas: enquanto quadros profundos provêm um conjunto de

11 ferramentas extremamente poderosas, trabalhar com elas pode parecer manipulativo e é sem sombra de dúvida o caso de que esta percepção seja por vezes justificada. Mas isso não é para sugerir que enquadramentos possam ser expostos e depois ignorados não mais do que uma compreensão da importância que valores têm para motivar a preocupação pública sobre problemas maiores-do-que-si-mesmo possa ser ignorada. Pensamos que, inevitavelmente, em termos de quadros, e qualquer comunicação transmite necessariamente um conjunto de quadros tanto quando o faz deliberadamente, quanto inadvertidamente. Do mesmo modo, qualquer política pública cria expectativas da parte de um cidadão um entendimento sobre seu papel e aquele do governo, por exemplo e isso, também, serve para ativar e fortalecer determinados quadros profundos. Não há como existir uma política neutra de valores. Então quadros profundos não irão embora eles estruturam nosso pensamento, e vão provavelmente continuar a ser transmitidos por grupos de interesse políticos de todas as tendências políticas. Como, portanto, devem as organizações da sociedade civil responder a uma compreensão da importância dos quadros profundos? Duas respostas são necessárias: Organizações da sociedade civil devem defender o escrutínio público de, e debater sobre, o papel dos quadros profundos em ativar e fortalecer determinados valores culturalmente, e as conseqüências disso. Utilizando ao máximo a transparência, organizações da sociedade civil devem transmitir uma compreensão de quadros profundos em suas próprias comunicações e campanhas de interesse público, e assim ajudando a fortalecer valores que vão deixar a sociedade mais bem colocada para combater problemas maiores-do-que-si-mesmo. Ao fazê-lo, tais organizações devem tomar cuidado escrupuloso para explicar para seu público quais quadros profundos uma comunicação ou campanha tem o objetivo de ativar (e portanto fortalecer) e por quê isso é importante. Exem p lo s d e q ua d ro s q ue p o d em s er im p o rta ntes p a ra co m b a ter p ro b lem a s m a io res - do- q ue- si- m es m o Neste relatório, três pares de quadros profundos [Seção 3.5] que são apresentados parecem ter provavelmente significado suficiente para influenciar a importância cultural atribuída aos valores que ajudam, discutidos anteriormente. Cada exemplo foi desenvolvido desenhando, em parte, nos itens específicos da pesquisa usados para estabelecer tais valores [estes itens da pesquisa são apresentados detalhadamente no Apêndice 2]. Ao longo do tempo quadros importantes deverão ser identificados e validados através de métodos empíricos. Conduzir uma análise de quadros detalhada seria uma tarefa grandiosa, além da meta atual deste projeto (o Apêndice 3 delineia algumas das técnicas que deveriam ser implantadas no decorrer de tal análise). É por esta razão que esta sessão se pauta do julgamento de analistas de quadros experientes. Trabalho futuro aprofundaria a compreensão sobre o modo como os quadros que são destacados aqui e outros que são negligenciados são usados no debate público. No entanto, por conta dos propósitos

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