Imagens médicas entre a arte e a ciência

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1 Imagens médicas entre a arte e a ciência Profa. Dra. Rosana Horio Monteiro Professora da Universidade Federal de Goiás/ UFG O termo cultura visual pode englobar uma variedade de formas de representação, desde as artes visuais e o cinema, até a televisão e a propaganda, atingindo ainda áreas em que, geralmente, não se tende a pensar em termos de cultura visual as ciências, a justiça, a medicina, por exemplo. A imagem científica geralmente vem acompanhada de uma autoridade que lhe confere um status de representante de um conhecimento dito objetivo. Os resultados estatísticos dos exames, processados por computador e reproduzidos em um monitor, parecem ser objetivos, neutros, irrefutáveis, equivalentes à verdade. Com os raios-x, por exemplo, tecnologia desenvolvida e tornada pública em 1895 pelo físico alemão Wilhelm Roentgen, os médicos e cientistas reconsideraram o que eles estavam vendo e o que a própria visão significava, estabelecendo assim um novo modo de ver o mundo através de diferentes percepções sobre, por exemplo, a intimidade e a privacidade. Neste artigo apresento algumas reflexões iniciais de uma pesquisa que pretende investigar a relação entre arte e ciência a partir do estudo de produções artísticas que incorporam imagens médicas. Como as imagens de raios-x, de endoscopia, ultra-som, tomografias, entre outras, interagem com uma rede de interpretações culturais e são reutilizadas fora do contexto médico? Como os conceitos de público e privado são (re)significados? Como os corpos cientificamente medicalizados são (re)construídos no contexto artístico? O foco deste texto é, sobretudo, o entendimento da imagem médica enquanto representação cultural. Esta pesquisa parte de estudos que desenvolvi nos últimos cinco anos com médicos cardiologistas em seu aprendizado do cateterismo cardíaco. Nesse período, investiguei como o processo de leitura de imagens médicas é construído e como os médicos aprendem a atribuir significado a essas imagens, ou, em outras palavras, como o corpo é revelado, lido, ou tornado legível ao olho do observador. Para tanto, trabalhei em dois hospitais-escola: um nos Estados Unidos e outro no Brasil. O estudo americano originou minha tese de doutorado Videografias do coração: um estudo etnográfico do cateterismo cardíaco, defendida na Unicamp em Atualmente estou finalizando o estudo comparativo envolvendo os dois hospitais. 58_XXVICBHA_Rosana Hório Monteir /07/ :10:36

2 XXVI Colóquio CBHA No contexto médico, assumo que os padrões de normalidade e anormalidade são convenções que envolvem negociação entre diferentes atores sociais. Assim, a leitura, assim chamada dominante de uma imagem, não é a única possível, e as decisões médicas baseadas em tais leituras refletem algum tipo de preferência relacionado à prática médica. Meu argumento central é que a interpretação das imagens nesse contexto depende da posição social do médico, de sua experiência e formação acadêmica, da hierarquia profissional e da instituição onde os médicos trabalham e foram treinados. Ou seja, os médicos vêem aquilo que eles aprenderam a ver com base em seus compromissos com certas tradições de pesquisa, com certas regras institucionais. Esses compromissos foram adquiridos durante o treinamento acadêmico dos médicos, na prática médica diária em especialidades particulares, e como atores de diferentes mundos sociais fixados institucionalmente. O que o médico vê está inseparavelmente ligado e depende de como ele vê lê-se o tecido biológico através das lentes do social, mapeando e lendo o social. A popularização das imagens médicas em diferentes contextos midiáticos (cinema, televisão, propaganda, etc.) tem fornecido ao público leigo um olhar que anteriormente era limitado ao olho especializado do médico, contribuindo para a criação de uma cultura dependente das imagens e das tecnologias que as produzem. Os processos de iluminação do interior do corpo humano, a transparência, passam a existir, então, como um produto cultural, um artefato cultural. Do mesmo modo o trabalho de muitos artistas vem incorporando essas imagens, sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial, com a popularização das imagens de raios-x. Num primeiro momento, a reflexão sobre esse mundo interior transparente representado pelas imagens médicas é que orienta o trabalho de muitos artistas, como o inglês Francis Bacon, nos anos 50. Bacon utilizou um livro de radiologia, de 1934, Positioning in radiology, de Kathleen Clara Clark, como uma espécie de manual para a produção de algumas de suas obras, como Head Surrounded by sides of beef (1954), em que o artista transforma as imagens de raios-x tomadas como referência num corpo vivo na forma de uma carcaça. Uma década depois (1969), o americano Robert Rauschenberg produz uma enorme litografia - Booster com imagens de raios-x de seu próprio esqueleto, cuja imagem é recortada em cinco pedaços para então compor o centro da litografia. Aqui, Rauschenberg representa uma cultura centrada no imaginário da superficialidade. Mas ainda é o corpo perfeito, livre de qualquer doença, que é representado, diferentemente do que se observa a partir de meados dos anos 70, aproveitando-se não tão-somente de imagens radiográficas, mas, sobretudo, de imagens digitalizadas, presentes no contexto médico já a partir dos anos 60 com a união do computador com a tecnologia dos raios-x. A partir de então a imagem do corpo cosmeticamente perfeito difundida pela mídia, sobretudo o da mulher, começa a ser questionada. Uma _XXVICBHA_Rosana Hório Monteir /07/ :10:36

3 Rosana Hório Monteiro produção em sua grande maioria realizada por mulheres propõe uma definição de autobiografia que expande as convenções sociais dominantes. No lugar do corpo sadio, entram os corpos doentes, como é caso da artista americana Laura Ferguson e sua série The visible skeleton. O projeto Visible Skeleton 1 teve início há vinte anos, quando a artista começou a experimentar a deformação física em decorrência de sua escoliose aguda. Aos treze anos, Ferguson submeteu-se a uma cirurgia de fusão da coluna. As transformações no corpo a levaram a experimentar novos conceitos de espaço e gravidade, uma nova consciência de processos como a respiração e o movimento. Laura incorpora inicialmente as imagens de seus registros médicos regulares e depois outros produzidos por médicos especialmente para a produção de suas obras. Segundo a artista, essa série conta a história de sua trajetória e de como ela transformou as experiências de seu corpo medicalizado em arte. 2 De fato, um dos objetivos da pesquisa que desenvolvo atualmente é, mais do que investigar a utilização de imagens médicas em contextos artísticos, entender as relações que se estabelecem entre arte e ciência; nesse caso entre arte e medicina. Incorporando imagens geradas pelas tecnologias médicas, tais como os raios-x, tomografias e ressonâncias, documentado em ambientes médicos e/ou científicos e transformado por esses artistas, esse tipo de trabalho traz uma nova visão do corpo ao público, redefinindo. Além disso, a própria noção de retrato e questionando os significados de identidade. No Brasil, mais recentemente podemos citar os trabalhos de Diana Domingues, com sua instalação Trans-e (1995), a série Retratos íntimos (fotografia transparente), de Cris Bierrenbach, e as refotografias da carioca Mônica Mansur, como exemplos de artistas que exploram ou já exploraram as imagens médicas de diagnóstico em seus trabalhos. Dessas três artistas, Mônica Mansur é quem tem se dedicado mais regularmente à exploração de imagens médicas em seu trabalho como gravadora, por isso o foco aqui é em sua produção. Retratos íntimos (2003), de Cris Bierrenbach, é uma série de cinco ampliações fotográficas digitais de radiografias (dimensões 85x60cm) que exibe a artista internamente da altura do estômago até os joelhos, com cinco diferentes objetos cortantes e pontiagudos (seringa, garfo, tesoura, faca e fórceps) envoltos em vaselina e inseridos em sua vagina. Trans-e é uma instalação interativa em 1 Sobre a técnica desenvolvida por Laura Ferguson, ver o site da artista: 2 Considerando que historicamente o corpo da mulher tem sido mais freqüentemente medicalizado, talvez isso possa explicar o fato de tantas artistas mulheres estarem utilizando essas imagens médicas em seu trabalho. Sobre a medicalização do corpo da mulher, ver RIESSMAN (1992) _XXVICBHA_Rosana Hório Monteir /07/ :10:36

4 XXVI Colóquio CBHA que os visitantes controlam as imagens projetadas sobre as paredes ao caminhar sobre carpete contendo sensores. Segundo Diana Domingues, a instalação é composta por três estágios, que correspondem ao transe xamânico. As refotografias de Mônica Mansur 3 Desde 1995, quando realiza sua primeira exposição com obras produzidas a partir de raios-x e impressas sobre esparadrapo e gaze, até mais recentemente com suas paisagens cristais, ou refotografias, como a artista as chama, Mônica explora as possibilidades de criação através da própria reprodução, discutindo a estética da repetição. Refotografias são imagens refotografadas a partir de vários tipos de resultados de exames médicos e depois impressas. A artista fotografa a imagem que resulta do exame, a digitaliza, retrabalhando-a em seguida. Mônica retira partes, aumenta ou diminui a luz, distorce, amplia, modifica o espaço físico. Em seguida, as imagens são impressas sobre diferentes suportes e meios, que vão do esparadrapo e a gaze da primeira exposição ( Fratura, 1995), passando pelos acetatos impressos em grandes formatos ( Tomos, 2001), pela fotografia digital ( Fantasmagoria 1 e 2, 2002), experimentando a gravura tridimensional em placas acrílicas, em Visível (2003), e, finalmente, chegando à impressão serigráfica sobre acrílicos e espelhos ( Paisagem cristal, 2003/2004). Em 1996, Mônica se aproxima do vídeo, criando uma instalação com imagens em movimento do interior de estômagos e cólons humanos ( Estrutura da obsessão ). Diferentemente da discussão presente em obras como as de Ferguson, por exemplo, o que predomina no trabalho de Mônica são questões internas ao processo da gravura e à impressão. O centro de suas reflexões é a reprodução mecânica, são as possibilidades da imagem mediada. A artista não busca nas imagens médicas inspiração para o seu trabalho, mas parte dele próprio, numa analogia, por exemplo, entre este e os cortes dos planos tomográficos. Um exercício de metalinguagem. Não é contemplação, nem fruição estética com uma reprodução de imagens; é perceber a discussão possível a partir da imagem reproduzida e reprodutível. É reprodução como ação, informa a artista. É a estética transformada em experiência de reprodução. As imagens com as quais Mônica trabalha podem ser de seu próprio corpo como de outro qualquer; são não-identidades. Coletadas aleatoriamente, podem ser imagens de pacientes que já faleceram, de pacientes doentes ou não. A desindividualização do sujeito contemporâneo é outro ponto presente no trabalho de Mônica. É o rastro sem nome do exame mé- 3 Para conhecer as obras de Mônica Mansur, visite o site _XXVICBHA_Rosana Hório Monteir /07/ :10:36

5 Rosana Hório Monteiro dico. O olhar não identifica; o olho só lhe diz que aquilo é um ser humano, afirma a artista. Se é homem ou mulher, velho ou moço, sem conhecimento médico especializado não é possível saber; são visões médicas e somente existem porque foram imaginadas através de uma máquina, seja ela uma câmera de vídeo com fibra ótica, um túnel com ondas magnéticas ou raios laser que laminam cortes transversais de órgãos e ossos, completa a artista. Mônica produz obras únicas, sem tiragem. Nenhuma de suas obras é numerada. Para a artista, o assunto da reprodutibilidade está no trabalho e não no meio (técnica). Mônica resgata a noção de aura da obra de arte a partir da própria reprodutibilidade na produção contemporânea. Nesse caso, talvez a noção de múltiplo seja mais apropriada. Ao produzir realidades pseudofotográficas, a artista instiga a imaginação não contaminada com o vocabulário imagético incluído no repertório do observador, enfatizando as mudanças na visualidade do homem contemporâneo, geradas a partir da reprodutibilidade mecânica das imagens. Como Didi-Huberman (1998) afirma, aquilo que vemos vale vive apenas por aquilo que nos olha. Não há imagens inocentes, nem tampouco olhos inocentes. Mais do que algo para ser contemplado, as imagens médicas são entendidas aqui como um texto a ser decifrado ou lido pelo espectador; como uma construção e um discurso, cujo acesso à realidade é mediado. Na aura, entrelaçam-se a onipotência do olhar e a de uma memória que se percorre como quem se perde numa floresta de signos. Assim, o valor de culto se liga ao valor da experiência. É isso o que as refotografias de Mônica Mansur parecem indicar. Referências BERGER, J. (1972) Modos de ver. Rio de Janeiro: Rocco, CRARY, J. (1990) Techniques of the observer. On vision and modernity in the Nineteenth Century. 6 th edition. Cambridge Mass: MIT Press, DIDI-HUBERMAN, G. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, KEVLES, B. H. Naked to the bone. Medical imaging in the Twentieth Century. New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, MONTEIRO, R. H. Videografias do coração. Um estudo etnográfico do cateterismo cardíaco. Tese de doutorado. Campinas, SP: Instituto de Geociências, Unicamp, RIESSMAN, C. K. Women and medicalization: a new perspective. In: G. Kirkup; L. S. Keller (Ed.). Inventing women. Science, technology and gender. Oxford: Polity Press and Open University Press, p _XXVICBHA_Rosana Hório Monteir /07/ :10:37

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