SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS: UMA PROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DO GÊNERO PUBLICITÁRIO

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1 1 SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS: UMA PROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DO GÊNERO PUBLICITÁRIO Edsônia de Souza Oliveira Melo (IFMT) 1 Este artigo apresenta os resultados de um projeto de atividades práticas, envolvendo leitura e produção de uma pesquisa realizada com alunos da 8ª série de uma escola pública de Cuiabá 2. O objetivo geral foi o de desenvolver um projeto pedagógico por meio da metodologia sequência didática, com o gênero discursivo propaganda impressa, ressaltando os aspectos linguístico-discursivos, a fim de propiciar ao aluno uma leitura crítica de textos diversificados e levá-lo à produção desse gênero 3. Para tanto, realizamos atividades de reconhecimento e de identificação para que tivessem domínio dos elementos constitutivos desse gênero. Também analisamos os recursos persuasivos da propaganda, de maneira que os alunos percebessem as sutilezas do discurso presentes nesse gênero. Além disso, propusemos atividades de análise linguística, a partir das dificuldades apresentadas por eles. Ao final desse trabalho, solicitamos que produzissem propagandas sociais impressas, utilizando os recursos linguístico-discursivos estudados. Vale ressaltar que as atividades de análise linguística foram feitas no decorrer das aulas, quando os alunos demonstravam o nãoconhecimento de alguns conteúdos gramaticais. Para a fundamentação teórica, utilizamos a perspectiva sócio-histórica da linguagem Bakhtin (2004, 2003), apoiandonos, também, em Maingueneau (2004, 2005) e Geraldi (1997, 2004, 2005), dentre outros. Metodologia usada na elaboração do projeto Pesquisa-ação Na pesquisa-ação, confere-se ao professor-pesquisador a oportunidade de refletir a respeito de sua própria prática. De acordo com Andaloussi (2004, p. 139), a participação dos atores em uma pesquisa-ação, para transformar uma situação problemática, permite-lhes vivenciar essa transformação e compreender os mecanismos em jogo. Levando em consideração a vertente bakhitiniana da linguagem assumida neste trabalho, tivemos a preocupação de propor um projeto de atividades práticas enfocando a leitura e produção textual com propaganda impressa, visando a atender as condições de produção, circulação e recepção desse gênero discursivo. Dessa forma, organizamos o projeto em sequências didáticas, conforme proposto por Dolz, Schneuwly e Noverraz (2004), e nos embasamos, também, em outros autores que propõem trabalho em forma de projetos, como Lopes-Rossi (2002a, 2002b, 2005) e Barbosa (2001). É importante pontuar, aqui, que, embora usemos o modelo proposto pelo grupo de Genebra, fizemos uma adaptação: não propusemos a produção textual inicial do gênero trabalhado, mas uma atividade diagnóstica de leitura, para sabermos como os alunos compreendiam tal 1 Mestre em Estudos de Linguagem, IL/UFMT, professora efetiva de Língua Portuguesa do IFMT Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso. 2 Este artigo é parte da minha dissertação de mestrado, cuja referência completa é: MELO, E. S. O. Propaganda impressa: prática de leitura e produção textual em perspectiva discursiva. Cuiabá: UFMT, Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem, 134p. 3 É importante destacar que, neste artigo, daremos atenção à produção dos alunos, entretanto, em alguns momentos, será mencionado de como procedemos com o trabalho de leitura.

2 2 gênero. A partir dessa atividade, planejamos as demais. Assim, a produção textual foi proposta após o trabalho de leitura. A preparação das atividades, gradativamente, nos possibilitou explorar propagandas atuais, veiculadas no momento em que o trabalho estava sendo realizado, o que não nos impediu de utilizar textos de datas passadas. Para melhor visibilidade do procedimento, apresentaremos o plano geral de atividades, de acordo com Kaufman e Rodríguez (1995): 1- Plano Geral Nome do projeto: Propaganda impressa: prática de leitura e produção de texto em perspectiva discursiva Série: 8ª Materiais utilizados: propagandas impressas, revistas, lápis, folha xerocopiadas, retroprojetor, papel color set, tesouras, cola, régua, etc. Etapas previstas: Apresentação do projeto. Visita a um laboratório de publicidade e propaganda. Leitura e análises de propagandas comerciais e sociais. Produção de propagandas sociais. Exposição das propagandas. 2. Texto: produção de propagandas sociais. Situação comunicativa Leitores: alunos, professores, pais e possíveis visitantes da escola. Autores: alunos da 8ª série da Escola Estadual Dr. Hélio Palma de Arruda. Caracterização do texto Tema: Preservação do meio ambiente São textos predominantemente multimodais. Nos aspectos linguísticos, podemos ressaltar: o uso de tempo verbal no presente, modo imperativo e, muitas vezes, a modalização deôntica (dever); utilização de operadores argumentativos, por vezes modalizadores do discurso (p.ex.: inclusive, já, até, ainda, com certeza, facilmente, etc.); frases curtas e preferência por períodos compostos por coordenação; seleção lexical cuidadosa, com termos específicos, claros e concisos; linguagem clara e objetiva. Nos aspectos não-linguísticos, destacam-se jogo de cores e imagens; diferentes tamanhos das fontes; distribuição dos elementos que compõem este gênero: título, imagem, marca e o texto. Todos esses aspectos visam a atingir o objetivo de persuadir e/ou convencer o interlocutor à aquisição de um produto ou à mudança de comportamentos e atitudes. Temas para reflexão metalinguística Aspectos gramaticais: verbo no modo imperativo, períodos compostos por coordenação, modalizadores como mas, até, talvez, com certeza. Aspectos ortográficos: trabalhados de acordo com as necessidades apresentadas pelos alunos no decorrer da realização das atividades. Aspectos textuais: estratégias de coesão e coerência no processo de produção. 3. Conteúdos de outras áreas e/ou atividades de reflexão metalinguística. Os assuntos referentes à temática tratada nas produções serão trabalhados também na

3 3 disciplina Ciências, por meio de seminários. Leitura de propagandas sociais O objetivo dessa atividade foi expor aos alunos o projeto, permitindo-lhes o primeiro contato com gênero. Para tanto usamos procedemos seguindo e sequência abaixo: Apresentação do projeto, explicando as seguintes questões: o que será feito; qual é o gênero a ser trabalhado; como serão as aulas; qual a duração do projeto; como será a produção textual. Distribuição de alguns exemplares das revistas Veja e IstoÉ, para serem folheadas pelos alunos. Apresentação do contexto sócio-histórico da propaganda. Questionamentos sobre os textos encontrados nas revistas (destaque para as propagandas). Visita a um laboratório de publicidade e propaganda. Inicialmente, entregamos várias revistas para que os alunos pudessem conhecer as partes internas desse suporte e localizar as propagandas, tal como elas circulam na sociedade. Nesse momento, o objetivo foi respeitar, ao máximo, o gênero na sua forma original para que os alunos percebessem não só um gênero, mas também sua função social. Após observação, levantamos os seguintes questionamentos: Vocês já conheciam estas revistas? De que maneira vocês tiveram acesso a elas? Conseguiram localizar as propagandas? Como é o aspecto visual desse gênero? Como ele se constitui? Quem escreve esse gênero? Com qual finalidade? Como escreve, com base em quais informações? Quem lê esse gênero? Em quais outros lugares podemos encontrá-lo? Não tínhamos o objetivo de trabalhar os aspectos conceituais com os alunos a respeito dos gêneros do discurso. Interessava-nos, isso sim, mostrá-los na prática para que eles percebessem as especificidades que caracterizavam as propagandas. Em sala de aula, privilegiamos o termo texto, o que pode ser depreendido da maioria das atividades que eles recebiam, embora isso não exclua a ocorrência do termo gênero, em algumas situações. Aspecto que vale a pena destacar foi o fato de todos os alunos estranharem a propaganda como gênero discursivo. Quando fazíamos referência à propaganda como texto, questionavam que não se tratava de textos, justificando: não tem título, não tem parágrafos, e esses desenhos aí?, ela é muito diferente de um texto. Aliás, esse é um dado que já havíamos evidenciado numa pesquisa realizada em , em outra escola pública. Entre outros aspectos, foi um dos motivos que influenciaram a escolha de realizar um trabalho prático com esse gênero discursivo. Para conhecimento do ambiente prático em que tais textos são produzidos, levamos os alunos ao laboratório de publicidade e propaganda de um centro superior de ensino, na cidade de Várzea Grande-MT. Lá, a professora responsável explicou, passo a passo (do planejamento à impressão final), o processo de criação de uma propaganda 4 A pesquisa intitulada Li, mas não compreendi : O que tal enunciado revela acerca das condições de produção de leitura? foi realizada no ano de 2004, no curso de Especialização em Língua Portuguesa: Teoria e Prática, oferecido pelo IL/UFMT, sob a orientação da profª Drª. Maria Inês Pagliarini Cox. Tivemos como objetivo investigar os porquês de os alunos, durante o processo de leitura de determinado texto, não conseguirem compreendê-lo e como eles o concebiam.

4 4 impressa. Além disso, mostrou propagandas que foram feitas pelos alunos do curso de Comunicação Social. Os alunos visitantes receberam cartazes e fôlderes de propagandas sociais. Atividade inicial O objetivo foi identificar o conhecimento dos alunos acerca do gênero discursivo propaganda impressa. Para isso, entregamos aos alunos a atividade a seguir: Hoje, é impossível imaginar as cidades sem os outdoors, a televisão, sem os minutos destinados à propaganda; as revistas e jornais sem as páginas coloridas dos anúncios... Vivemos rodeados por anúncios que informam, incitam, convidam, seduzem... Conhecer e analisar as estratégias dos anunciantes é desenvolver nossa capacidade crítica para aprendermos a selecionar, com critério, produtos e serviços. Estudaremos neste bimestre, o texto publicitário impresso. Suas características, seu tipo de leitor, os meios de comunicação em que esse gênero circula, os temas abordados, linguagem utilizada, estrutura, marcas linguísticas... Como instrumento de trabalho, usaremos, para leitura e análise, propagandas diversas. Posteriormente, trabalharemos com produções de propagandas sociais. Espero que, através dessa proposta de estudo, você possa se deliciar com a leitura e refletir sobre esse gênero discursivo tão presente em nosso cotidiano. Os alunos receberam três textos para analisarem sobre as seguintes questões: a) Quais características básicas estes textos têm em comum que fazem com que os denominemos propagandas? b) Há diferenças entre eles? Quais? c) Que outras características você considera que estão presentes na maioria das propagandas? 2) Toda propaganda tem como finalidade persuadir o interlocutor, isto é, chamar sua atenção e convencê-lo a comprar um determinado produto, adquirir um serviço ou mudar um comportamento. Escolha uma das propagandas lidas e releia-a atentamente, procurando identificar que recursos o autor utilizou para persuadir o leitor. 3- Ainda em relação aos três textos lidos, responda: a) Quais são os produtos ou serviços anunciados? E quem são os anunciantes? b) Em que suporte foram veiculados? c) Qual é o público a quem se destinam? Nesta aula, pudemos constatar a pouca familiaridade dos alunos com a utilização desse gênero discursivo como prática de leitura. Eles estranhavam quando fazíamos referência às propagandas como textos: Nós vamos responder essa atividade desse tamanho olhando pra estas propagandas? ; e Responder exercício com propagandas. Essa é boa!. Durante a realização dessa primeira atividade, percebemos que os alunos não se preocupavam muito em ler atentamente: davam uma olhada rápida e procuravam respostas nos textos. Como não as encontravam, explicitamente, pediam ajuda. A partir dessa primeira aula, decidimos trabalhar com grande número de propagandas, mostrando a variação que esse gênero apresenta e os recursos utilizados que o definem como tal. Apresentávamos vários textos no datashow e, após uma conversa informal com os alunos, fazíamos uma leitura global, ressaltando os aspectos discursivos. Em seguida, eles recebiam a atividade individual, com vista a que

5 5 procedessem a uma leitura mais detalhada. Salientamos que, embora tenhamos destacado os recursos utilizados nas propagandas trabalhadas, não podemos dizer que são os únicos, isso porque este gênero discursivo apresenta grande variedade em sua construção. As propagandas que lemos e discutimos apresentam características de propagandas comerciais, conforme Pinho (1990). Considerando nosso interesse em expor aos alunos uma variedade de textos desse gênero, passaremos agora para o trabalho com propagandas sociais. Neste artigo, daremos atenção à produção dos alunos, entretanto, mostraremos para ilustração uma das atividades realizadas com o trabalho de leitura de propagandas sociais. Leitura de propagandas sociais O objetivo dessa atividade foi mostrar as condições de produção, circulação e recepção da propaganda social impressa em nossa sociedade, bem como analisar a função social e os recursos icônico-linguísticos usados nesses textos. Entregamos aos alunos a atividade abaixo. Nesta sequência de atividades, serão trabalhadas as propagandas sociais impressas que foram veiculadas em revistas (Isto É, Veja e Claúdia). Faremos, assim, leitura, análises e pesquisas de propagandas que apresentam tema relacionado ao meio ambiente. Para isso, além do estudo e análises das propagandas, vocês farão também leitura de reportagem para se informarem a respeito dos problemas ambientais que vêm ocorrendo atualmente. O objetivo é que vocês tenham conhecimento para a produção textual atividade prevista na finalização deste projeto. Texto 1

6 6 Texto 2 Agência Lowe Loducca, dezembro, Discutimos com os alunos, em aulas anteriores, que há grande número de empresas comerciais desenvolvem projetos sociais. Isso retrata o marketing social (Pinho, 1990). Como exemplo dessa prática, propusemos a análise de uma propaganda da Fundação O Boticário de Preservação ao Meio Ambiente. Para tanto, pedimos que eles refletissem acerca do seguinte questionamento: Na sua opinião, qual é o interesse de empresas comerciais em desenvolver propagandas de cunho social? Após a discussão oral, iniciamos as atividades escritas. Nessas atividades, foram trabalhados alguns recursos usados nas propagandas, como provérbio, modo verbal no imperativo, o uso da imagem, cores, uso da ambiguidade. Some-se a isso a escolha de vocabulário específico e de uma linguagem simples e objetiva. As questões gramaticais e ortográficas foram trabalhadas com o intuito de responder às dificuldades dos alunos, surgidas no decorrer das aulas. Os alunos revelaram dificuldade em perceber o verbo no modo imperativo. Em vista disso, foi nossa preocupação inserir esse conteúdo gramatical, para que eles percebessem os efeitos de sentido que tal modo verbal provoca nas propagandas. Assim, o estudo da gramática derivou de uma necessidade dos alunos, numa real situação de uso. Explicamos aos alunos nesta aula que, ao final do projeto, eles seriam produtores de propagandas sociais. Os temas seriam referentes à preservação ambiental. Pedimos que começassem a pensar sobre um aspecto dentro dessa temática, para produção da propaganda. Atividade com base no texto 1 1- A linguagem da propaganda costuma ser curta e em alguns casos apresenta mais de um sentido. Observe a parte não-verbal e responda: a) O que representa a imagem? b) É possível atribuir mais de um sentido a ela? Quais? 2- Quem é o anunciante? Qual é objetivo deste anúncio? 3- Que resposta ou atitude se espera do leitor, nesta propaganda?

7 7 4- Quais são os argumentos linguísticos e não-linguísticos usados para obter tal resposta ou estimular tal atitude? Atividade com base no texto 2 Inicialmente, propusemos uma discussão oral levantando as seguintes questões: 1. Como você realiza a leitura da imagem? Estabeleça uma relação entre a imagem apresentada e a frase sou dono do meu nariz. 2. Mudando a cor do não-verbal há mudança de sentido? Agora responda no seu caderno: 1- Qual foi a intenção do autor ao escolher a imagem que estampa a camiseta da campanha? Há marcas no texto verbal em que você possa ancorar sua resposta? Explicite-as. 2. Explique a relação que há entre as cores predominantes da campanha e a proposta da propaganda. 3. Com a leitura do texto verbal, a expectativa que você tinha sobre a imagem se modificou? Explique sua resposta. 4. A que sentido remete a expressão sou dono do meu nariz? A partir da leitura do texto verbal é possível estabelecer mais de um significado para essa expressão?

8 8 5. Quais os recursos utilizados no texto (verbal e não-verbal) que o caracterizam como propaganda? 7. Explique o sentido dos recursos linguísticos sublinhados. Tudo bem que você tenha consciência de que o efeito estufa é um problema ecológico do qual não há como fugir. Mas isso não é motivo para se conformar. Muito menos para ficar de braços cruzados. 8. Em que contexto a propaganda é calcada? Feito o trabalho com os textos anteriores, com o uso do datashow, ressaltamos os seguintes aspectos: Como estes textos são organizados, estruturados? Qual é a função do texto verbal? Como ele é posicionado nas propagandas? Qual é a parte do texto em que é feito um apelo direto ao leitor? Estes textos possuem argumentos suficientes capazes de convencer o leitor a comprar os produtos anunciados? Em que posição aparece a marca/logotipo do produto anunciado? O que aparece com mais destaque, o lingüístico ou o não-lingüístico? Como é feita a distribuição dos recursos na propaganda? O uso do datashow foi fundamental para a realização de algumas atividades, pois era uma forma de os alunos visualizarem as propagandas tais como elas se apresentam. A folha xerocopiada, usada na realização dos exercícios, por ser em preto e preto e branco, prejudicava a imagem que muitas vezes era essencial na leitura. Produção de texto Após terem planejado o texto, deixamos à disposição dos alunos o material necessário para a produção. A eles fizemos a seguinte proposta: Imagine que você e seus colegas foram contratados para criar um anúncio para uma campanha ecológica, destinada a promover a defesa e conservação ambiental da região onde vocês moram. Para a criação do seu texto, não se esqueça de levar em consideração os seguintes aspectos: Público a quem se destina: alunos da escola, professores, pais e possíveis visitantes. Local de publicação: Escola Estadual Dr. Hélio Palma da Arruda. Objetivo do anúncio: Chamar a atenção das pessoas em relação à necessidade de preservar o meio ambiente. Não se esqueça de observar: Se a imagem e o texto verbal se complementam. Se o anúncio como um todo é atraente para os leitores. Se o texto apresenta bons argumentos para convencer o leitor a mudar de comportamento/atitude. Se a linguagem está adequada ao público a quem se destina.

9 9 A análise das produções foi feita tomando como base os seguintes aspectos: a) especificidades do gênero propaganda impressa, observando se os textos dos alunos apresentam características relativamente estáveis desse gênero, a saber, estrutura composicional, estilo e conteúdo temático; b) estratégias persuasivas, procurando identificar como é marcada a argumentação nos textos dos alunos, isto é, de que recursos persuasivos eles se utilizaram para convencer o leitor sobre o que está sendo propagado. Os nomes dos autores são apenas representativos. Produção de propagandas sociais Sujeito 1a - Caio No que diz respeito à produção do aluno Caio, vimos que ele não explora um tema específico. Para estruturar seu texto, seleciona uma imagem de tamanho bem grande, a ocupar quase todo o espaço da propaganda, dividindo o enunciado em duas partes: A natureza pede socorro! Salve enquanto ela está viva. Nos aspectos estilísticos, o aluno lança mão de uma frase curta, de fácil compreensão, constituída por um vocabulário forte, qual seja, a utilização do verbo pedir no presente do indicativo. No sentido expresso por essa construção está subentendido o co-enunciador (você): A natureza pede socorro para você. Conforme Maingueneau (2004, p. 29), esse apagamento é um caso interessante quando se trata do gênero publicitário, que, por natureza, implica fortemente seu co-enunciador. Se fosse alicerçada tão-somente no verbo pedir, nossa compreensão poderia ficar atada ao sentido usual de pedir esmola, atitude apassivada, o sujeito-pedinte mero dependente de outro ser. Amarrado no substantivo socorro, o verbo pedir se apossa de autoridade. É um implorar, um pedir com insistência, imprimindo ao sujeito o papel que dele se espera: sujeito é o ser ativo, que impõe alteração, que provoca reação, que não aceita dependência, que não se acomoda. Em suma, é brigador, é agente. A natureza, nesse sentido, está reagindo. Se a ela não nos associarmos, ambos natureza e homem seremos sufocados. Assim, o uso da palavra socorro expressa a necessidade e, ao mesmo tempo, o desespero da natureza, dando a impressão de que ela está no limite. Esse argumento é reforçado pelo uso da exclamação, que evoca o sentido da entonação usada na

10 10 interjeição Socorro!, indicando perigo, urgência, grito. Na parte abaixo, no complemento do enunciado, o locutor dirige o discurso diretamente ao leitor (salve você). Isso pode ser visto pelo uso do modo verbal imperativo salve. A segunda parte do enunciado deixa claro que o homem é o responsável e, portanto, é ele quem deve agir. A expressão enquanto ela está viva corrobora que ainda há tempo, ou seja, o homem, conscientizando-se de que deve preservar a natureza, pode amenizar os problemas ambientais. Sujeito 2b Caio Na reescrita, o aluno, como no exemplo anterior, achou necessário acrescentar uma pequena parte lingüística para reforçar seu argumento: Do jeito que estamos tratando a natureza ela não durará por muito tempo. e nós também. A posição escolhida para essa parte lingüística ao lado da imagem e a letra em tamanho bem menor estão adequados para manter a estrutura desse gênero. O aluno se assume como ser humano participante desse processo, pois, como é comum na publicidade, ele poderia ter optado pela segunda pessoa do singular (Do jeito que você está tratando a natureza), mantendo assim a uniformidade com o enunciado A natureza pede socorro! Salve enquanto ela está viva. Como consequência desse ato, ele mostra o que poderá acontecer com a natureza e com os seres humanos. Para isso, muda o tempo verbal (ela não durará por muito tempo), ou seja, no futuro essa paisagem não vai mais existir. O aluno finaliza o texto com a afirmação e nós também. Nesse trecho, ele prevê que o homem também sofrerá graves conseqüências, podendo até desaparecer. É significativo o uso do ponto final anterior à oração e nós também. Não preservada a natureza, nossa vida corre perigo. Ela só poderá ser mantida, como também a de nossos filhos e netos, se estiver ligada, unida à vida da natureza. O ponto final está presente para dissociar natureza e homem. Mais que isso: sem a natureza, o homem acabará findando sua própria existência, conferindo-lhe um ponto final antes do esperado.

11 11 Vale enfatizar que a mudança do enunciador nessa propaganda apresenta-se, também, como forte recurso persuasivo. Num primeiro momento, o aluno toma o uso do verbo na segunda pessoa Salve enquanto ela está viva (segunda parte do título). O pronome implícito você individualiza responsabilidades, direcionando a mensagem a cada um dos leitores, como é próprio do gênero e, num segundo momento, toma o uso do pronome nós, inscrita aí uma coletividade (eu + vocês), ou seja, o próprio enunciador se inclui no discurso, demonstrando sensibilidade pelos problemas que estão ocorrendo com o meio ambiente. Nesse sentido, o enunciador procura ganhar a adesão do leitor, persuadindo-o a compartilhar de seus pontos de vista, construindo com eles a própria argumentação. Outra mudança se deu com o não-linguístico: o aluno reforçou a nitidez do título, com a cor verde, passando mais uma vez a canetinha, deixando-o mais visível para ser percebido fator essencial nesse gênero. Foram também destacadas as cores nas palavras Socorro (vermelha) e Natureza (verde). Essas cores assumem, em nossa sociedade, significados já cristalizados: o vermelho indica proibição, sangue, morte; o verde, por sua vez, aponta para esperança, natureza, vida, liberdade. Tais significados contribuem para a construção da significação do texto, uma vez que os relacionamos com sentidos já produzidos, acionados no momento da leitura, isto é, a palavra socorro, a única do texto a ser pontuada com a cor vermelha, sinaliza urgência, expressa a ideia de que a natureza está morrendo, e a verde é a forma como a natureza deve se manter, se a preservarmos. Sujeito 2a - Sara A produção textual de Sara se estrutura da seguinte forma: um enunciado verbal centralizado e, ao meio, uma imagem, em formato oval, de uma cachoeira. Ao lado esquerdo, uma parte linguística e, no canto direito, uma frase imperativa. Nos aspectos estilísticos, o locutor utiliza um questionamento, chamando a atenção do leitor: Água, até quando? O uso do modalizador até quando unido com o ponto de interrogação geram um impacto, ou seja, exigem do interlocutor um posicionamento,

12 12 instigam-no a pensar sobre esse assunto. Segundo Sandmann (2003, p. 29), a frase interrogativa é uma forma muito direta de apelo ao interlocutor, de empatia, de interesse por ele. Nesse sentido, o autor enfatiza que a frase interrogativa é usada quando se quer obter uma informação, ao passo que a imperativa relaciona-se a um comportamento. Ainda na parte linguística, a escolha lexical feita pela aluna foi bem cuidadosa e de acordo com a temática abordada: água, cai do céu, nosso planeta, consumo, etc. O uso da expressão quem pensa assim está muito mal informado, em uma linguagem simples, sugere intimidade e aproximação com o leitor. Podemos ver aqui uma linguagem bem característica do gênero do discurso propaganda impressa: marcas da oralidade, como se estivesse falando diretamente com o interlocutor, uso de operadores argumentativos (até quando, afinal, mas, ainda), presença de verbos no imperativo (valorize). Em relação ao não-linguístico, há o uso da cor azul como pano de fundo e uma imagem bem agradável de uma cachoeira para sensibilizar o leitor da situação em que se encontra o planeta quanto à escassez de água. Sujeito 2b - Sara É indispensável grifar que essa aluna não refez o texto, apenas reforçou as cores para deixar a parte linguística mais nítida e, assim, facilitar a leitura. A respeito das estratégias persuasivas, podemos analisar algumas escolhas feitas pelo locutor. Ao construir o enunciado com uma pergunta e, logo abaixo, simular a resposta, traz para seu discurso a voz do outro, e nesse caso, de um leitor desinformado sobre a questão tratada no anúncio. Água temos e muita! Afinal coisa que encontramos em todo lado e que até cai do céu. Mas quem pensa assim está muito mal informado e não sabe que nosso planeta corre risco de ficar sem água boa para o consumo. Note-se que, na primeira frase, há o ponto de exclamação para mostrar despreocupação, tranquilidade e, na segunda, a expressão cai do céu, expressão, aliás, bem utilizada, remetendo a coisas adquiridas com facilidade. Isso nos lembra situações

13 13 em que pais chamam atenção de seus filhos sobre a necessidade de economizar dinheiro: pensa que dinheiro cai do céu. Na propaganda, o uso é no sentido literal mesmo, mas nos remete a esse outro discurso. A mudança do enunciador introduzida pelo modalizador mas causa certo tom de ironia. Essa alternância de vozes presentes no mesmo texto é forte marca argumentativa, dado que se revela a forma de o locutor evidenciar a presença desse leitor desinformado e despreocupado com esse assunto. Koch (2004, p. 156), ao apresentar as estratégias discursivas identificadas por Guimarães (1981), afirma que a palavra mas (ênfase da autora) é usada para frustrar uma expectativa que se criou no destinatário. Na propaganda, essa estratégia é bem elaborada: primeiramente, é apresentado um argumento; com a introdução do mas, o locutor surpreende o leitor ao veicular novo argumento, negando, assim, o anterior. A frase imperativa, no canto direito, é uma forma de apelo direto a esse leitor: Valorize a água que ainda resta! Observe-se que a escolha do verbo valorizar sugere o sentido de que a água é preciosa, e na expressão ainda resta está subentendido que a água está acabando ou pode acabar-se. Considerações finais Como afirmamos, ao produzirem esses textos, os alunos já haviam tido contato com o gênero discursivo propaganda impressa. De acordo com Bakhtin (2003, p. 285), quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente empregamos, [...] realizamos de modo mais acabado o nosso livre projeto de discurso. Tendo em vista que esse gênero discursivo apresenta muitas variações, são mais plásticos, não exigimos que os alunos seguissem uma padronização. No entanto, eles teriam que levar em conta o suporte em que os textos seriam veiculados cartaz e escolher um subtema dentro da temática preservação do meio ambiente. No momento da produção, eles tiveram a oportunidade de escolher a imagem, as cores, a distribuição desses elementos no cartaz e, quando foram orientados a reescrevê-los, não exigimos o que teria de ser modificado, alterado, ou seja, deixamos que eles observassem o texto e vissem o que poderia ser acrescido para torná-lo mais atraente, criativo, de forma que conseguissem a adesão do público ao assunto propagado. Ainda de acordo com o filósofo russo (idem), ao falante não são dadas apenas as formas da língua nacional (a composição vocabular e a estrutura gramatical) obrigatórias para ele, mas também as formas de enunciado, isto é, os gêneros do discurso. Com este estudo, à luz da teoria bakhtiniana, procuramos refletir sobre o percurso de um trabalho prático enfocando a leitura e a produção textual com o gênero do discurso propaganda impressa, cujos resultados, por um lado, confirmam a necessidade de busca de um ensino de qualidade e, por outro, comprovam a viabilidade de aplicação dos gêneros na perspectiva enunciativo-discursiva ao ensino dessas práticas sociais. Os textos produzidos pelos alunos evidenciam sua capacidade em relação à apreensão do gênero do discurso propaganda impressa. Isso nos possibilita constatar que conseguimos proporcionar-lhes o contato com um gênero de grande circulação social, por eles desconhecido como prática de leitura e produção textual no universo escolar. Durante a elaboração das propagandas, percebemos sua preocupação com as características constitutivas desse gênero, isto é, a construção dos argumentos, considerando tanto os linguísticos quanto os não-linguísticos. Percebemos que eles sabiam que não poderiam colocar apenas frases soltas e isoladas; antes, tinham de constituir um todo significativo.

14 14 Tendo percorrido os passos desta pesquisa, ressaltamos que o trabalho na perspectiva enunciativa com os gêneros do discurso não é tarefa simples, uma vez que requer tempo para o estudo do seu contexto sócio-histórico de produção, circulação, recepção e para o planejamento das atividades. Dessa forma, é necessário que o professor-pesquisador faça um estudo da teoria bakhtiniana, para compreender o que o filósofo russo propôs a respeito da linguagem como interação verbal, pois, sem essa orientação, o trabalho com os gêneros pode tornar-se superficial. Evitar tal equívoco implica assumir a linguagem como processo de interação verbal; significa entender que o sentido do texto depende da relação dialógica entre os interlocutores; admitir que a língua não está pronta num sistema, mas ela é constituída numa situação sócio-histórica concreta, no momento e no lugar onde se dá a enunciação; é, enfim, considerar que os sujeitos se constituem na e pela linguagem. Referências bibliográficas ANDALOUSSI, El K. Pesquisas-ações: ciências, desenvolvimento, democracia. Trad. Michel Thiollent. São Carlos: EdUFSCar, BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 11 ed. São Paulo: HUCITEC, Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, BARBOSA, J. P. Do professor suposto pelos PCNs ao professor real de língua portuguesa: são os PCNs praticáveis? In ROJO, R. (org.). Prática de linguagem em sala de aula: praticando os PCNs. Campinas-SP: Mercado de Letras, BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa/MEC/ 3º e 4º Ciclos. Secretaria da Educação Fundamental. Brasília: Introdução. Secretaria da Educação Fundamental. Brasília: CARVALHO, N. Publicidade: a linguagem da sedução. 3 ed. São Paulo: Ática, GERALDI, J. W. Portos de passagem. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, O texto na sala de aula: leitura e produção. 3 ed. São Paulo: Ática, Tranças do poder, danças dos letrados. A infatigável tarefa de frear a língua. VIII Fórum de Estudos Linguísticos, Língua Portuguesa. Universidade Estadual do Rio de Janeiro, KOCH, I. V. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, Argumentação e linguagem. São Paulo: Cortez, Desvendando os segredos do texto. São Paulo: Cortez, KAUFMAN, A. M.; RODRÍGUEZ, M. H. Escola, leitura e produção de textos. Porto Alegre: ARTMED, LOPES-ROSSI, M. A. G. (org.). Gêneros discursivos no ensino de leitura e produção de textos. Taubaté-SP: Cabral Ed. e Livraria Universitária, A produção de texto escrito na escola a partir de gêneros discursivos. In SILVA, E. R. (org.) Texto & Ensino. Taubaté-SP: Cabral Editora e Livraria Universitária, M. A. G. Níveis de conhecimento necessários ao domínio da escrita forma. Disponível em: Acesso em: 23/05/2005. MAINGUENEAU, D. Novas Tendências em Análise do Discurso. Tradução: Freda Indursky. Campinas, SP: 2 ed. Fontes, 1997.

15 15. Análise de Textos de Comunicação. Tradução: Cecília P. de Souza-e-Silva e Décio Rocha. São Paulo: Cortez, Gênese dos discursos. Curitiba: Criar Edições, PINHO, J. B. Propaganda Institucional: usos e funções da propaganda em relações públicas. 2. ed. São Paulo: Summus, SANDMANN, A. A linguagem da propaganda. São Paulo: Contexto, SCHNEUWLY, B.; DOLZ J. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas-SP: Mercado das Letras, (tradução e organização Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro)..Os gêneros escolares das práticas de linguagem aos objetos de ensino. In Revista Brasileira e Educação, n. 11, 1999, p THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. 12 ed. São Paulo: Cortez, 2003.

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