Famílias adoptivas e processo de adopção

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1 FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA 2010/2011 Violência e Vítima de Crimes Famílias adoptivas e processo de adopção Unidade Curricular: Psicologia Clínica/Saúde I Módulo: Psicologia Forense Docente: Madalena Moutinho Alarcão Silva Trabalho realizado por: Isa Carreira Susana Anastácio Referência Bibliográfica: Mascaranhas, M. C. & Alarcão, M. (2003). Famílias adoptivas e processo de adopção. In C. Machado & R. A. Gonçalves, Violência e vítimas de crimes (vol.2 - Crianças) (2ºed.) (pp ). Coimbra: Quarteto Editora.

2 Palavras-chaves: 1. Adopção 2. Direitos das crianças 3. Família 4. Filiação 5. Vinculação Glossário: Adopção:A adopção é o vínculo que, à semelhança da filiação natural, mas independentemente dos laços de sangue, se estabelece legalmente entre duas pessoas. Existem dois tipos de adopção, a adopção plena e a adopção restrita. Direito das crianças: (1) Todas as crianças são iguais e têm os mesmos direitos, não importa a sua cor, raça, sexo, religião, origem social ou nacionalidade; (2) Todas as crianças devem ser protegidas pela família, pela sociedade e pelo Estado, para que se possam desenvolver física e intelectualmente; (3) Todas as crianças têm direito a um nome e a uma nacionalidade; (4) Todas as crianças têm direito a alimentação e ao atendimento médico, antes e depois do seu nascimento; (5) As crianças portadoras de dificuldades especiais, físicas ou mentais, têm o direito a educação e cuidados especiais; (6) Todas as crianças têm direito ao amor e à compreensão dos pais e da sociedade; (7) Todas as crianças têm direito à educação gratuita e ao lazer; (8) Todas as crianças têm direito de ser socorrida em primeiro lugar em caso de acidentes ou catástrofes; (9) Todas as crianças devem ser protegidas contra o abandono e a exploração no trabalho; (10) Todas as crianças têm o direito de crescer em ambiente de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos. Família: Conjunto invisível de exigências funcionais que organiza a interacção dos membros da mesma, considerando-a, igualmente, como um sistema, que opera através de padrões transaccionais. Assim, no interior da família, os indivíduos podem constituir subsistemas, podendo estes ser formados pela geração, sexo, interesse e/ ou função, havendo diferentes níveis de poder, e onde os comportamentos de um membro afectam e influenciam os outros membros. Filiação: É a ligação de um ser humano a outro a partir do reconhecimento da paternidade ou maternidade do mesmo, ou seja, a ligação do filho com os seus pais, seja biologicamente ou por adopção. A filiação é um direito reconhecido a filhos originados ou não pelo casamento, incluindo ainda os adoptivos, sendo todos portadores dos mesmos direitos. Vinculação: Procuras dirigidas a figuras específicas, ou seja, a relações afectivas específicas. Assim, a vinculação é a tendência que os indivíduos têm para procurar a presença ou testar a proximidade de membros da mesma espécie. 1 P á g i n a

3 Actualmente, os interesses da criança são prioritários e a adopção é uma forma de proporcionar uma família prestadora de cuidados adequados e satisfatórios às crianças cujos pais biológicos não tiveram possibilidade de o fazer ou recusam a aceitação dessa parentalidade.a adopção é então,definida, por lei,como o vínculo que à semelhança da filiação natural, mas independentemente dos laços de sangue, se estabelece entre duas pessoas. Quando se debate este assunto é importante considerar o ciclo de vida destas famílias. O nascimento da família e o início da parentalidade é a primeira etapa do ciclo da vida, onde a infertilidade e a incerteza quanto à duração do processo que decorre até à confiança da criança são causadores de stress na família. Em termos de educaçãopoderão surgir algumas dificuldades como o exercício da autoridade, em que os pais temem perder o afecto da criança ou sentem pena pelo seu sofrimento passado, adoptando um estilo educativo permissivo. Na etapa família com crianças em idade pré-escolar é importante considerar a tarefa de iniciação de revelação à criança da sua condição de adoptada e a aceitação desta pelo mundo exterior. Quando os pais adiam muito esse momento há uma maior probabilidade da criança descobrir a sua situação de adoptada de forma não apoiada e potencialmente dolorosa. A terceira etapa diz respeito à família com filhos em idade escolar, é momento de abertura do sistema familiar ao mundo extrafamiliar e em que o medo do insucesso em relação ao desempenho escolar adquire um significado especial. A próxima etapa diz respeito à família com filhos adolescentes Esta é caracterizada pelo desejo de diferenciação do adolescente que pode ser vivido como uma fonte de insegurança pelos pais, receando estes que aquele opte pela família biológica ou que exerça retaliações por ter sido afastado das suas origens. A etapa família com filhos adultos é marcada pela saída dos filhos de casa, com o casamento e o nascimento de filhos, o indivíduo adoptado sentirá uma forte satisfação pela oportunidade de vivenciar pela primeira vez um vínculo afectivo. Família na fase tardia é a etapa que finaliza o ciclo de vida, os pais aceitam com naturalidade as circunstâncias da adopção e acreditam numa hereditariedade psicológica, revendo-se nos filhos adoptivos e sentindo assegurado o desejo de continuidade. Depois de serem explicitadas as diferenças existentes entre famílias adoptivas e famílias não adoptivas ao longo do ciclo vital, as autoras preocuparam-se então em sugerir o referido modelo de estudo e de acompanhamento, baseado nas suas experiências de acompanhamento destas crianças e destas famílias. Segundo o ponto de vista das autoras, ao longo da tarefa de acompanhamento do processo de adopção, a avaliação deve ser um processo verdadeiramente dinâmico, em que todos os elementos intervenientes se possam entreajudar e não apenas um simples processo de diagnóstico e de rotulação. Neste contexto, é interessante a constituição de três equipas: de despiste e encaminhamento, de colocações familiares e de adopções. Estas equipas funcionam como 2 P á g i n a

4 fonte de suporte e integram técnicos da área de enfermagem pediátrica assim como outros técnicos específicos a cada equipa. A equipa de despiste e encaminhamento centralizará as situações de crianças em risco, avaliando-as e intervindo consoante o caso, conjuntamente com as estruturas que as tenham sinalizado e com todas as necessárias. A equipa de colocações familiares está encarregue de acompanhar estas famílias e as crianças inseridas em estruturas temporárias. Sempre que a hipótese de adopção se coloque, a equipa de adopções deverá ser envolvida nesse estudo, sendo constituída por técnicos de serviço social e de psicologia. Esta equipa deve disfrutar de um espaço de formação interna suportada pela partilha de conhecimentos, de preocupações e de interrogações intra técnicos; pela supervisão de casos e pela supervisão institucional. O primeiro contacto dos candidatos à adopção com a instituição será efectuado telefonicamente no sentido de ser marcada a primeira entrevista (o pedido). Depois da marcação da primeira entrevista, uma sub-equipa de dois técnicos irá assumir o acompanhamento dessa família (o acolhimento). Para o estudo e acompanhamento dos casais, nesta fase prévia è elaboração do parecer, são propostas duas estratégias: uma abordagem dos casais em grupo e outra de abordagem individual dos casais. A abordagem individual do casal é importante para a criação de um contexto que favoreça uma relação de confiança com a equipa de atendimento e permita um acompanhamento mais próximo das vivências idiossincráticas dos candidatos e da sua forma específica de sentir o processo de adopção. Por outro lado, a metodologia de grupo apresenta várias vantagens em termos de oportunidade e interajuda entre os participantes, facilitação das mudanças de atitude, entre outras. O parecer a emitir pela equipa técnica pode ser positivo (capacidade de concretizar a adopção), negativo (existência de problemas graves numa família que possa converter o projecto de adopção numa situação de risco) e condicional (dúvidas acerca se será ou não funcional para a criança e para a família concretizar-se a adopção). Após a elaboração do parecer, deverá ser dada mais iniciativa ao grupo, propondo o desenvolvimento de actividades tais como a reflexão, a partir de testemunhos, sobre a experiência de adopção ao nível dos sentimentos experienciados nas diversas fases do processo e, a reflexão sobre os antecedentes da criança e a forma de a informar sobre a sua origem. Em Portugal, este período de pré-adopção tem a duração de cerca de um ano, existindo um acompanhamento da família que terminará com a elaboração de um relatório sobre a qualidade da relação estabelecida entre a criança e os pais adoptivos. Será com base nesse relatório que o tribunal decretará a adopção. Após a adopção a existência e duração do acompanhamento do processo de adopção estará dependente da iniciativa da família em procurar ou não a equipa de adopção. 3 P á g i n a

5 Como foi visto, as autoras preocuparam-se com o tema da adopçãosugerindo o referido modelo de estudo e de acompanhamento das crianças e casais/famílias adoptivas. Este modelo, constituído por propostas que visam melhorar o sistema de adopção no nosso país, parte do princípio de que a adopção é um tema delicado, que necessita de bom senso e de sensibilidade por parte de todas as entidades envolvidas. Depois da leitura cuidada do modelo, destacaremos os pontos que, na nossa opinião são mais ou menos positivos. Este modeloparece-nos bastante esclarecedor em relação a todos os passos e etapas propostos que devem ser seguidas durante o processo, trazendo, por isso, vantagens para os técnicos responsáveis e que, por vezes, envolvidos na delicadeza do processo, se vêem numa situação paradoxalna medida em que têm que corresponder a muitas e a diferentes expectativas.por um lado, é necessário que o seu contributo vá para além do que o cidadão comum pode intuitivamente explicar e compreender, o que lhes impõe que ajam como alguém com conhecimento especializado. Por outro lado, requer-se que a sua intervenção especializada não confronte o senso comum nem a ideologia ou os valores dominantes, correndo o risco de serem, eles próprios, alvo de apreciações menos favoráveis. Neste contexto, o modelo proposto pode ser útil na medida em que os técnicos se podem guiar pelas etapas apresentadas. No entanto, na nossa opinião, com esta esquematização,pode correr-se o risco de tornar o processo de adopção demasiado mecânico, deixando os técnicos sem manobras alternativas no caso de alguma das fases não correr como o previsto. Pensamos que isto deve ter sido em conta, já que num processo como o da adopção, todos os casos são diferentes, todas as famílias adoptivas e todas as crianças adoptáveis têm necessidades, sentimentos e expectativas diferentes. Principalmente em relação às crianças, já que se encontram numa posição de fragilidade devido ao abandono de que foram vitimas, devem ser tidas em conta as diferenças idiossincráticas de cada uma. É importante saber que se podem encontrar quer crianças mais receosas e assustadas quer crianças mais ávidas de amor e de afecto e que cada uma precisará de um apoio específico. As autoras referem um período de 9 meses como o mais indicado para poder efectuar-se o estudo e acompanhamento dos casais, a fim de se formar um parecer final. Na nossa opinião, este é um período sensato. Tal como uma gravidez, 9 meses é o tempo que a família adoptante deve ter para ser acompanhada e para idealizar, desejar e amara criança que integrará. Segundo uma gravidez muito longa corre o risco de que os pais idealizem tanto a criança que, no parecer deles, esta não fará birras, não chorará, não ficará doente (Sá, 2005, p.106).concordamos que é importante avaliar psicologicamente os pais (muitas vezes a viver luto devido à esterilidade) a fim de avaliar a viabilidade de construção de um vínculo entre a família e a criança, bem como a viabilidade da adopção. Posto isto, podemos dizer que, no geral, concordamos com as propostas de acompanhamento das famílias adoptivas apresentadas pelas autoras e que a sua leitura contribuiu para a nossa clarificação sobre a adopção em Portugal, bem como para o papel dos psicólogos, como mediadores entre famílias, crianças e Segurança Socialneste 4 P á g i n a

6 processo.sabendo que não era objectivo deste seu trabalho e que as autoras se predispuseram aqui a tratar apenas dos requisitos especiais da adopção plena, gostaríamos de, no entanto, sugerir a elaboração de um modelo homólogo para os casos específicos em que a família biológica da criança contínua próxima, já que este é um dilema que, muitas vezes, pais adoptantes, pais biológicos e criançasnão sabem gerir. Bibliografia suplementar: Sá, E. & Sottomayor, M.C. & Rosinha, I. & Cunha, M.J. (2005). Abandono e Adopção. (pp.106). Coimbra: Almedina. Fonseca, A.C. (2008). Psicologia e Justiça. Coimbra: Almedina. 5 P á g i n a

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