Juliana Boff (PUCPR) Nara Pasinato (PUCPR) Hilda Matos (PUCPR)

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1 A ética do cuidado na prática pedagógica de professoras de educação infantil e ensino fundamental I L'éthique du soin dans la pratique pédagogique des professionnels du préscolaire et de l'école primaire Juliana Boff (PUCPR) Nara Pasinato (PUCPR) Hilda Matos (PUCPR) Resumo O presente trabalho traz uma reflexão acerca da influência do cuidado da professora no âmbito educativo, especificamente em salas de aula de Educação Infantil e Ensino Fundamental I. O tema cuidado foi abordado num grupo de estudos, caracterizado como uma formação em serviço, no qual se fez uma análise do livro Saber Cuidar (BOFF, 1999), durante o ano de 2009, em uma escola particular da cidade de Curitiba/Paraná/Brasil. A escolha do tema deu-se em função da relevância atual, tendo em vista que o cuidado é capaz de integrar aspectos epistemológicos e práticos, transformando a práxis educativa. A temática trabalhada, dentro do contexto teórico, é a de que o cuidado é anterior à própria vida humana (BOFF, 1999) e, ao correlacionarmos com a educação, espera-se que o professor possa aplicar a teoria na sua ação pedagógica e dessa maneira modificar as suas concepções de formação ética, inserindo o cuidado como parte fundamental do seu agir. No cumprimento desse contexto, foi realizada uma pesquisa de caráter qualitativo objetivando verificar a reflexão das educadoras participantes do grupo de estudos em relação ao cuidado em sala de aula e de que maneira o cuidado influencia a sua ação pedagógica. Optou-se por um estudo de caso, por meio do qual se pode fazer um exame de uma experiência e seus resultados auxiliam na análise de uma determinada situação, fornecendo indícios e possibilidades para a sua modificação. Para tanto, aplicou-se um questionário com perguntas abertas e fechadas às professoras participantes do referido grupo de estudos e posteriormente analisaram-se as respostas. A partir das respostas das professoras pode-se verificar se o referencial teórico estudado refletiu na prática pedagógica dessas profissionais e, se dessa maneira, contribuiu para uma formação integral dos alunos, auxiliando na constituição do sujeito como futuro cidadão que integrará a sociedade. Palavras-chave: ética do cuidado, formação de professores, ensino fundamental. Resumé Cet article fait une réflexion sur l'influence du soin du professeur dans le domaine de l'éducation, spécifiquement dans des salles de classe d'éducation infantile et d'école primaire. Le thème 'soin' a été abordé dans un groupe d'études, caractérisé par la formation en service, où on a fait l'analyse du livre Savoir soigner (BOFF, 1999), pendant l'année de 2009, dans une école privée de la ville de Curitiba/Paraná/Brésil. Le choix du thème est donné à son importance actuelle, ayant en vue que le soin est capable d'intégrer des aspects épistémologiques et pratiques, en transformant la práxis éducative. Le thème travaillé, dans le contexte théorique, concerne le soin qui est antérieur à la vie humaine elle-même (BOFF, 1999) et, en le rélationant à l'éducation, on espère que le professeur pourra appliquer la théorie dans son action pédagogique et de cette façon modifier ses conceptions de formation éthique, en y ajoutant le soin comme partie fondamentale de sa manière d'agir. Dans ce contexte, une recherche qualitative a été faite avec l'objectif de 154

2 vérifier la réflexion des éducateurs participants du groupe d'études par rapport au soin dans la salle de classe et de quel façon le soin influence son action pédagogique. Pour cela, on a choisi une étude de cas. On peut faire l'évaluation d'une expérience et ses résultats sont valables pour l'analyse d'une situation donnée en fournissant des preuves et des possibilités pour son changement. Pour cela, les professeurs appartenant au groupe d'études ont répondu à un questionnaire ayant des questions ouvertes et fermées, ensuite, on a analysé les réponses. Mots-clés: éthice du soin, formation de professeurs, éducation infantile. A educação no século XXI O século XXI apresenta características que desafiam os educadores na sua prática pedagógica. O individualismo que caracterizou o século XX vem sendo questionado pelas consequências constatadas na sociedade, quer seja no aspecto individual, coletivo ou ecológico. O Sullivan (2004) lembra que para se discutir uma educação transformadora deve-se, obrigatoriamente, tratar do tema da espiritualidade: A educação contemporânea sofre profundamente com o eclipse da dimensão espiritual de nosso mundo e universo. Em nosso tempo, a espiritualidade foi seriamente comprometida por sua identificação com as religiões institucionalizadas. (O SULLIVAN, 2004, p. 376) Esse século que nos é apresentado se caracteriza por uma amplitude nas dimensões humanas e, consequentemente, educacionais, que podem ser constatadas na proposta da UNESCO denominada Educação para o século XXI, apresentada por Jacques Delors (1999) que propõe os quatro pilares para a educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver, aprender a ser. A educação possui um papel fulcral nesse processo, pois a aprendizagem ocorre por meio da interação com as pessoas. Nesse sentido a escola é um local que proporciona essa troca intersubjetiva, que estando permeada pelo cuidado, modifica a qualidade dessas relações. Corroborando com essa ideia, Delors (1999, p.11) afirma que: ante os múltiplos desafios do futuro, a educação surge como um trunfo indispensável à humanidade na sua construção dos ideais da paz, da liberdade e da justiça social. Para aprender a conviver é necessário reforçar as relações interpessoais, na busca da construção de valores pautados na solidariedade, na justiça, na visão do outro como sujeito e não objeto. Destaca-se aqui uma dimensão de alteridade, onde o outro é percebido com reciprocidade e respeito. Para se atingir esses objetivos, Boff (1999) retoma um aspecto fundamental das relações humanas: o cuidado. O autor destaca que a presença do cuidado nas relações é capaz de promover uma mudança basilar na maneira de se conceber o mundo e, consequentemente, nas ações humanas. Nessa perspectiva, a formação de professores, deve estar pautada na construção da ética do cuidado como parte fundamental na constituição do sujeito. Diante desse contexto, uma escola que se preocupa com a formação do seu corpo docente, oportuniza valiosos momentos de formação em serviço que possibilitam a reflexão da prática educativa, tendo em vista a transformação do sujeito na construção de uma nova sociedade em que todos cooperam com todos na busca de uma solidariedade cósmica (BOFF,1999). Segundo Nóvoa (1995, p.25), A formação não se constrói por acumulação [...], mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re) construção permanente de uma identidade 155

3 pessoal. O presente trabalho é, pois, resultado da busca incessante da reflexividade como ferramenta para instrumentalizar o saber, ou os saberes, em favor da sabedoria como possibilidade de potencialização da vida. A ética do cuidado Vivemos em uma cultura contemporânea ocidental com o predomínio do capitalismo, um mercado global competitivo e uma infinidade de informações que circulam em vários âmbitos. Nesse contexto, verifica-se que as pessoas entram no mundo competitivamente e em alta velocidade. Consequentemente em diversas situações percebe-se o predomínio do individual sobre o coletivo como meio de sobrevivência. Porém, a competitividade, o consumismo exacerbado e a supremacia do individualismo produziram consequências sérias, como a hegemonia do homem sobre a natureza, o desequilíbrio planetário, a perda do sentido cosmológico, o esvaziamento das relações humanas e uma alteração nos valores da sociedade (O SULLIVAN, 2004). Assim, o cuidado torna-se fundamental para modificar a relação do ser humano consigo, com o outro, com a natureza e com a sociedade, buscando o equilíbrio entre o trabalho e o cuidado em uma relação dinâmica. Inicialmente cabe esclarecer a origem etimológica e o significado da palavra cuidado. As palavras possuem em si significados existenciais que são constituídos ao longo da história. Como afirma Boff (1999) é preciso retirar das palavras sua riqueza escondida. A palavra cuidado deriva do latim cura, que expressa atitude de cuidado, preocupação em relações de amor e amizade. Outros estudiosos afirmam que deriva de cogitare que propõe o mesmo sentido de cura: desvelo, cuidado, zelo, atenção, solicitude, bom trato (BOFF, 1999). Montenegro faz uma retrospectiva histórica acerca da educação infantil e o binômio cuidar e educar, buscando a origem das palavras cuidar e cuidado. Verifica que as duas palavras vêm de cogitare e possuem a mesma raiz. O verbo cogitare tem sua origem em co-agitare e passou a designar a agitação do pensamento, revolver no espírito ou tornar a pensar em alguma coisa. É curioso notar como este verbo passou a significar unicamente a atividade do pensamento [...] (MONTENEGRO, 2001, p.72) Percebe-se que no português cogitar é a versão erudita de co-agitare. Cuidar corresponde à versão popular. King (2005) relata que antes do século XIII, cogitare e cuidare significavam a mesma coisa, referiam-se ao pensar e sentir, à inteligência e à vontade. No decurso da história o uso da palavra cogitare foi substituído por pensare, com um sentido mais preciso. Montenegro (2001) ainda comenta que em línguas neolatinas a palavra cuidar refere-se tanto à solicitude com o outro que abarca um aspecto emocional, quanto ao pensamento, à reflexão. Partindo da acepção da palavra cuidado e seu percurso histórico, pode-se notar que originalmente havia uma integração entre razão e emoção, pensamento e afeto. No decorrer da história houve uma cisão entre intelecto e emoção, tanto na acepção das palavras quanto na maneira de perceber o ser humano. Com o Iluminismo, o cientificismo e a era da razão, impõem-se à sociedade a soberania da razão sobre a emoção e consequentemente, percebe-se maior prestígio às atividades intelectivas enquanto há um desprestígio às atividades de cuidado por estarem diretamente vinculadas à emoção e não à razão. Porém, a hegemonia da razão pura, como se afirmou anteriormente, trouxe consequências desastrosas para as relações e para a terra como um todo, fazendo-se necessário resgatar a dimensão do cuidado em todas as ações humanas, inclusiva na esfera pedagógica, já que esta, desde a tenra idade, auxilia na formação dos sujeitos em parceria com as famílias. Boff (1999), fundamentado em Heidegger, propõe a fenomenologia do cuidado, na qual o sujeito tem consciência do cuidado de forma a orientar a prática de cada pessoa. No ambiente pedagógico, local de relação entre docentes e discentes, pode e deve-se viver de forma plena esse aspecto, de maneira que as 156

4 ações sejam guiadas pelo cuidado, sendo assim encharcadas de humanidade. Heidegger apud Boff (1999, p. 34) afirma que do ponto de vista existencial, o cuidado se acha a priori, antes de toda atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer que ele se acha em toda atitude e situação de fato. Portanto, o cuidado está na constituição do ser humano, em sua raiz. Pensar no cuidado como raiz, não supõe falar sobre o cuidado como algo externo às pessoas e sim a partir do cuidado. Sendo assim, a pessoa, a educadora imbuída de cuidado em suas ações, apresenta a característica singular do ser humano: um ser de cuidado consigo, com os outros e com as coisas. Outro aspecto relevante é a forma como o ser humano organiza a sua vida no mundo. Boff (1999) propõe dois modos de ser-no-mundo: o trabalho e o cuidado. Cabe ressaltar que modo de ser-no-mundo concebe a forma do ser humano existir e relacionar-se com todas as coisas, construindo seu próprio ser e consequentemente sua identidade. O modo-de-ser-trabalho abrange a atuação humana de forma interventora, de dominação, antropocêntrica. Já o modo-se-ser-cuidado confere ao trabalho uma nuance diferente: uma relação entre alteridades, na qual sujeito relaciona-se com outro sujeito e não com um objeto. Aqui o ser humano coloca-se ao pé das coisas, junto delas e a elas sente-se unido. Não existe, co-existe com todos os outros. A relação não é de domínio sobre, mas de con-vivência. Não é pura intervenção, mas inter-ação e comunhão (BOFF, 1999, p.95). Aqui se permite viver a experiência fundamental do valor, não só do valor utilitarista, mas do valor intrínseco às coisas que permite aflorar a dimensão de respeito, de reciprocidade e de alteridade. Nörnberg (2007) complementa apontando que o cuidado com o outro não é algo que se faça por meio do cumprimento de certos procedimentos. Cuidar do outro exige uma ética do desprendimento, da compaixão. Exige a ética da relação, do diluir-se na condição do outro para estar-sendo-com-o-outro. (p. 230) Em relação à educação, o cuidado coloca um desafio à lógica contemporânea, pois não se baseia em condutas universais. Como afirma Tiriba (2005, p. 82) não há uma maneira ou uma quantidade de cuidados que sirva a todos indistintamente. O cuidado não pode ser generalizado. Ele exige particularismo, porque as pessoas são singulares. Assim, ao mesmo tempo em que, exige um olhar singular sobre cada ser, tem como pano de fundo a visão de relação, de capacidade de ligação com outros seres de maneira a criar um ambiente e uma comunidade cooperativa e solidária. O cuidado está relacionado à necessidade do outro e isso pressupõe receptividade, abertura e sensibilidade para perceber o que o outro precisa. Isso exige proximidade, tempo e entrega, além de responsabilidade e compromisso contínuos. Por isso, cuidar é uma ação que afeta e envolve tanto quem cuida como que é cuidado, modificando a qualidade da relação que se estabelece. A partir dessa concepção de cuidado, cabe propor, tanto uma formação em serviço, que torne consciente e trabalhe com as professoras a dimensão do cuidado como realidade fontal, como a própria vivência no cotidiano desse modo-de-ser-cuidado, na prática não só educativa mas pessoal. Como afirma Boff (1999), convém sempre explicitar a imagem de ser humano subjacente em nossas visões de mundo, em nossos projetos e em nossas práticas (p. 36). Partindo da concepção do ser humano como um serno-mundo-com-outros, expressão utilizada por Boff (1999), concebemos o sujeito como um ser de relação e, portanto de cuidado, pois este é capaz de fortalecer vínculos, revelar atenção, preocupação àqueles que atribui valor e significado. Assim, considerou-se relevante propor o estudo do livro Saber cuidar, de Leonardo Boff (1999), de maneira a propor uma reflexão e tornar consciente a importância do cuidado na vida humana e, consequentemente no âmbito pedagógico. 157

5 Metodologia e resultados A investigação realizada é definida como pesquisa qualitativa, uma vez que requer momentos de imersão na prática do cotidiano dos sujeitos investigados, exigindo do pesquisador um envolvimento com seu objeto de investigação. Segundo Severino (2002, p. 145) não se trata de um envolvimento puramente sentimental, mas de uma avaliação de relevância e de significação dos elementos abordados. A presente pesquisa se caracteriza como um estudo de caso, pois segundo Lüdke e André (1986) ele é o estudo de um caso com características próprias e únicas. Nesse caso a formação de um Grupo de Estudos com professoras e a análise de um livro para, posteriormente, transpor o conteúdo analisado na prática pedagógica. O grupo de estudos realizado com as professoras aconteceu no decorrer do ano de 2009 em uma escola da rede privada da cidade de Curitiba/Paraná/Brasil, com vinte e cinco professoras. Os professores participantes do referido grupo receberam o livro A ética do Cuidado, de Leonardo Boff e realizavam a leitura individual do livro, capítulo a capítulo, e encontravam-se para uma reunião mensal em que discutiam a leitura realizada. Nessa leitura assinalavam as ideias principais, pontos duvidosos ou confusos e procuravam relacionar com sua experiência docente. Para cada encontro duas professoras ficavam responsáveis por apresentar o tema para o grande grupo. Em seguida, realizava-se uma conversa, expondo as principais ideias encontradas, trocando experiências, pontos de vista e percepções individuais. Em um último momento, eram propostas questões de reflexão do tema abordado com a prática educativa das professoras, para reflexão individual e posterior fechamento, com o grupo todo, retomando os conhecimentos trabalhados e discutidos. Ao término da leitura e discussão dos onze capítulos do livro, ou seja, dos onze encontros realizados, foi aplicado um questionário com perguntas abertas e fechadas acerca da compreensão do conceito de cuidado e suas implicações na prática docente. Dentre treze questões foram escolhidas para análise neste artigo três relativas: à compreensão de cuidado, à maneira que o cuidado influencia a ação pedagógica das professoras e aos aspectos do cuidado a serem atentados em sala de aula objetivando a formação ética dos alunos. Análise dos dados coletados O primeiro aspecto analisado contempla o conceito de cuidado compreendido pelas professoras a partir da leitura e discussões realizadas no grupo de estudos. Dos questionários analisados, 8% foram invalidados, uma vez que apresentaram respostas idênticas. Assim, dos 92% restantes, 56,5% demonstraram entendimento do conceito de cuidado como pode ser verificado nas seguintes afirmativas: Hoje entendo cuidado como ação de consciência, sendo ele assim, todas as pequenas e grandes ações que devemos ter com a nossa vida e tudo o que está presente nela: corpo, ambiente, sociedade, espírito. (professora A) Um conjunto de atitudes que nos fazem mais humanos. (professora C) É estar preparada para compreender e entender a necessidade do próximo. Procurar ajudar e aceitar o próximo em sua dificuldade. É ter a justa medida. (professora E) Observa-se que a professora A, aborda o cuidado como uma ação de consciência, isto é, uma atitude ou um ato prudente, posto que consciente. Em relação à maneira que o grupo de estudos acerca do cuidado influenciou a ação pedagógica das docentes, constata-se que 52% das professoras afirmam que a vivência do estudo do livro e as reflexões individuais e 158

6 grupais, promoveram a reflexão de seus valores e de sua prática docente, como pode ser verificado nas seguintes afirmações: O estudo do livro Saber Cuidar me auxiliou fazendo repensar valores, relembrar aspectos que às vezes, na correria cotidiana, esquecemos. (professora B) Repensei que estou nesta profissão não somente para educar no sentido de conteúdo, mas sim para os valores éticos e fraternos. (professora M) Os debates e experiências trocadas certamente enriquecem a formação profissional. Quando existe um momento para a reflexão existe também um momento para a mudança. (professora X) A partir das proposições ressalta-se a relevância na formação permanente das professoras. Como afirma Nóvoa (1995, p. 29) a formação de professores deve conceber a escola como um ambiente educativo, onde trabalhar e formar não sejam atividades distintas. A formação deve ser encarada como um processo permanente, integrado no dia-a-dia dos professores e das escolas. O grupo de estudos em questão foi proposto como parte integrante do cotidiano da escola e da formação das professoras realizada permanentemente pela instituição. A organização dos encontros foi pensada enfatizando a reflexão pessoal, bem como a reflexão dos aspectos do cuidado discutidos relacionados à prática pedagógica de cada professora. Como bem lembra Nóvoa (1995, p. 25) a formação não se constrói por acumulação [...], mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal. Consequentemente, a partir da reflexividade sobre a prática surge o movimento da ação educativa que se manifesta na ressignificação e reflexão da prática da professora e as repercussões na aprendizagem dos alunos, transformando, docentes e alunos, em sujeitos pensantes, reflexivos e autônomos de seus conhecimentos. As citações das professoras confirmam a interferência da reflexão sobre a prática: Por meio das reflexões feitas pude avaliar melhor minhas atitudes em sala de aula e modificar algumas condutas (professora T) Foi interessante perceber como no dia-a-dia nos esquecemos da amplitude do cuidado. O estudo do livro e as discussões mostraram os diferentes aspectos do cuidado que esquecemos de observar e fazer. (professora A) Foi possível analisar situações práticas e uni-las à teoria melhorando a maneira de agir com os alunos. (professora H) Auxiliou muito na minha formação profissional no sentido de repensar e refletir os temas que abordamos e sempre que possível colocando-os em prática no dia-a-dia. (professora K) Constata-se que 24% das professoras participantes do grupo de estudos, mencionam a reflexão como meio possibilitador de mudança sobre a prática. Cabe ressaltar que teoria e prática estão imbricadas e a existência de uma instância determina a existência de outra. A teoria surge como uma sistematização da prática e só tem sentido quando emerge desta. A partir do momento que, parte-se de uma concepção dialética entre teoria e prática, percebe-se a relação incondicional entre os dois aspectos. Em relação aos aspectos do cuidado considerados relevantes em sala de aula pelas professoras, constatou-se que 52% relatam a espiritualidade pessoal como aspecto mais relevante, seguido por 28% condizente à espiritualidade dos alunos e em terceiro lugar, com 24% aparece a atenção individualizada da professora para as particularidades de cada aluno. Chama a atenção o fato da espiritualidade da professora e dos alunos 159

7 aparecerem em destaque sobrepondo aspectos pedagógicos, fato este possivelmente constatado pela formação espiritual contínua na referida instituição. Considerações finais Apesar da formação em serviço realizada durante um ano, observou-se que o número de professoras que compreendeu o cuidado como valor presente foi de apenas 56,5%. Constatou-se que algumas professoras perceberam que o cuidado pode influenciar a sua ação pedagógica e a formação ética do aluno. A partir do resultado acerca das atitudes de cuidado relevantes em sala de aula verificou-se a predominância do cuidado em relação a espiritualidade da professora e dos alunos. Esse resultado chamou a atenção das autoras e questionou-se a sua relação com o fato de a escola ser confessional. Ao tomarmos como base que o cuidado deve ser encarado como atitude, percebemos a responsabilidade que recai sobre a professora que trabalha com crianças. A formação em serviço pretendeu desenvolver essa percepção para termos um docente que se preocupe com o todo do aluno e não somente com a educação formal. Como Delors (1999) bem coloca, o contributo do professor não está somente no desenvolvimento das suas capacidades cognitivas, mas num desenvolvimento total da pessoa, seu espírito e corpo, sem esquecer a sua espiritualidade, na qual a ética do cuidado se faz presente. bibliografia BEHRENS, Marilda A. Paradigmas inovadores na Aprendizagem para a vida: o saber e o fazer pedagógico dos professores. In: ENS, R.T.; VOSGERAU. D. S.A.R. ; BEHRENS, M. A. (Org.). Trabalho do Professor e saberes docentes. Curitiba: Champagnat, BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano compaixão pela terra. 16. ed. Petrópolis: Vozes, DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre educação para o século XXI. São Paulo: Cortez; Brasília: MEC/UNESCO, GAUTHIER, C. et Al. Por uma teoria da pedagogia: pesquisas contemporâneas sobre o saber docente. 2. ed. Ijuí: Unijuí, KING, Y. Educar e cuidar: buscando a teoria para compreender os discursos e as práticas. In: KRAMER, S (org.). Profissionais de educação infantil: gestão e formação. São Paulo: Ática, KRAMER, S (org.). Profissionais de educação infantil: gestão e formação. São Paulo: Ática, LÜDKE, M., ANDRÉ, M.E.D.A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU,1986. MONTENEGRO, T. O cuidado e a formação moral na educação infantil. São Paulo: EDUC, NÓVOA, A. (Org.) Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, O SULLIVAN, E. Aprendizagem transformadora: uma visão educacional para o século XXI. São Paulo: Cortez, Instituto Paulo Freire, SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 22 ed. São Paulo: Cortez, TIRIBA, L. Educar e educar: buscando a teoria para compreender os discursos e as práticas. In:KRAMER, S. (Org.) Profissionais de Educação Infantil: gestão e formação. São Paulo: Ática,

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