NOTA TÉCNICA DE AVALIAÇÃO DA EFICÁCIA DO MURO DE ARRIMO EM PORTO GRANDE

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1 PLANO BÁSICO AMBIENTAL DA AHE CACHOEIRA CALDEIRÃO NOTA TÉCNICA DE AVALIAÇÃO DA EFICÁCIA DO MURO DE ARRIMO EM PORTO GRANDE Licença Prévia 0112/2012 Condicionante Específica Nº 2.26 Elaborar um estudo específico que comprove a eficiência e eficácia do muro de arrimo proposto nas audiências públicas para contenção da inundação, pelo reservatório do empreendimento, da área urbanizada da cidade de Porto Grande, levando em consideração a existência de canais/igarapés de deságue natural. P14 do EIA Programa de Reconstrução da Infraestrutura Urbana Afetada. 1. INTRODUÇÃO A Nota Técnica de Avaliação da Eficácia do Muro de Arrimo em Porto Grande do Plano Básico Ambiental (PBA) do Aproveitamento Hidrelétrico (AHE) Cachoeira Caldeirão visa atender à condicionante 2.26 da Licença Prévia 0112/2012 IMAP/SEMA e corresponde ao detalhamento do Programa 14 do Estudo de Impacto Ambiental, apresentando relação de dependência com a Condicionante JUSTIFICATIVA Durante as Audiências Públicas para a apresentação e discussão do EIA-RIMA do AHE Cachoeira Caldeirão, ocorreram debates e surgiram dúvidas sobre a eficiência e eficácia do muro de arrimo existente na sede do município de Porto Grande. Os principais questionamentos eram sobre o nível d água alcançado pelo futuro reservatório do empreendimento, qual seria esse nível, se o muro de arrimo, a praça e as propriedades adjacentes a esta praça seriam inundados. Foi ainda questionado se a obra do muro PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 1

2 poderia ser aperfeiçoada visando conter o nível da água do futuro reservatório do AHE Cachoeira Caldeirão, bem como a inundação causada pelas cheias do rio Araguari. Em reunião realizada no dia entre a Coordenação do PBA e o IMAP foi definido que o estudo requerido pela condicionante 2.26 seria atendido em uma Nota Técnica. Assim, esta Nota Técnica objetiva avaliar a eficiência e eficácia do muro de arrimo na contenção de cheias, subsidiados pelos registros hidrológicos do rio Araguari e pelo estudo de remanso do reservatório, informando seus aspectos construtivos e a condição da infraestrutura localizada na área diretamente afetada pelo futuro reservatório do AHE Cachoeira Caldeirão. A cidade de Porto Grande, no estado do Amapá, distante 103 km de Macapá, localizada na margem direita do rio Araguari, tem população de habitantes (recenseada e estimada) e pode ser alcançada, partindo-se da capital, pela BR 210. Para o transporte de cargas, também pode ser utilizada a ferrovia, cujo traçado é paralelo à rodovia. O rio Araguari, no local, é um rio de planície, não encaixado na orla da cidade de Porto Grande, característica que propicia inundações nos períodos de chuva. Tendo a prefeitura do município planejado a construção de praça pública na margem direita do rio (Figura 3) e tendo conhecimento da inevitável inundação do local em época de chuvas, considerou a necessidade da elevação do greide do terreno da margem do rio no perímetro da praça. Para isto projetou e construiu um muro de arrimo para contenção do aterro sobre o qual foi construída a praça (Figura 4). O reservatório do AHE Cachoeira Caldeirão, que será construída a aproximadamente 23 km a jusante da sede do município, deverá operar no nível máximo normal 58,30 m. Esta situação implica na inundação das adjacências da praça, conforme pode ser observado na Figura 1. Nas condições atuais, tem-se observado que a praça vem sofrendo inundações naturais nos períodos de cheia do rio (Figura 2). Para uma análise mais acurada da questão, a EDP programou e efetuou visita técnica de equipe multidisciplinar no local em janeiro de 2013, na qual foi feita coleta de dados e informações através de moradores da cidade. Além das condições estruturais e geométricas do muro, nessa ocasião foram inspecionados os demais locais que serão PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 2

3 impactados pela construção da usina, efetuadas observações das condições topográficas gerais do local, indícios de cheias, tipo de solo, grau de erodibilidade, cobertura vegetal, sistema de escoamento das águas superficiais urbanas e efetuados registros fotográficos. 3. CARACTERIZAÇÃO DO MURO DE ARRIMO O muro de arrimo foi construído para contenção do aterro onde está localizada a praça e somente no perímetro da mesma, numa extensão de aproximadamente 476 metros frontal ao rio e 100 metros perpendicular à margem. Sua altura máxima chega a 3 metros na frente e as faces laterais têm altura variável (Figura 3 e 5). O topo da face do fundo está nivelado com a rua, como pode ser visto na Foto 6. A largura do muro, no topo, é de aproximadamente 0,40 metros, com o nível da crista estimado entre a El.59,00m e a El.60,00m. O muro foi construído em concreto, não tendo sido identificado se é estrutura trabalhando à flexão (armada) ou de gravidade. A estrutura aparenta boas condições não tendo sido observadas deformações resultantes do empuxo do solo do aterro. No topo do muro foi construído guarda corpo com 1,10 m de altura, pilaretes de concreto e corrimão tubular. Não foram observados businotes ou barbacãs na estrutura para escoamento das águas de infiltração do aterro. O projeto deveria contemplar este sistema de drenagem, bem como um filtro de areia no contato entre o muro e o aterro, para facilitar o escoamento das águas de infiltração e aliviar as pressões hidrostáticas na face interna da estrutura. O aterro interno ao muro mostra-se bastante consolidado e aparentemente não tem sido prejudicado pelas inundações. O solo parece ter boa permeabilidade para o escoamento rápido das águas superficiais para o terreno natural da fundação. O aterro recebeu proteção vegetal (grama) e alguns equipamentos de urbanização tais como: meio-fio, arruamento pavimentado com elementos de concreto intertravados (tipo blocret), bancos e sanitário público. PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 3

4 As figuras a seguir mostram o muro de arrimo e a praça, que são as principais infraestruturas sociais a serem afetadas pelo reservatório na área urbana do município de Porto Grande. FIGURA 1 Estrutura de Concreto existente na cidade de Porto Grande FIGURA 2 Estrutura de Concreto e praça alagado pela cheia de 2011 (TR 25 anos) FIGURA 3 Muro de Arrimo FIGURA 4 Praça no aterro do muro de arrimo Embora o muro seja extenso, não possui fechamento nas ombreiras. Na prática, isso significa que não evitará os efeitos do reservatório na cota máxima normal, vide Foto 6. PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 4

5 FIGURA 5 Muro de arrimo sem o fechamento da ombreira FIGURA 6 Aterro da praça e muro de arrimo sem o fechamento da ombreira FIGURA 7 Aterro da praça nivelado com a rua PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 5

6 4. CARACTERIZAÇÃO HIDROLÓGICA DO RIO ARAGUARI A caracterização fluviométrica na região da cidade de Porto Grande, nas margens do rio Araguari, pode ser realizada utilizando-se, (i) informações de vazões medidas na estação Porto Platon, (ii) os níveis de água em condições naturais e, com a implantação do reservatório da UHE Cachoeira Caldeirão, (iii) os níveis simulados no estudo do remanso do reservatório, apresentado no Volume II Características do Meio Físico, página 233 do EIA. A Figura 8 apresenta o rio Araguari com a localização das seções topobatimétricas levantadas em campo utilizadas para o desenvolvimento do estudo de remanso, além de apresentar a localização da cidade de Porto Grande. Percebe-se pela figura que a seção S13 caracteriza os níveis de água na cidade de Porto Grande, nas margens do rio Araguari. S13 FIGURA 8 Localização das Seções Topobatimétricas do rio Araguari PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 6

7 A Tabela 1 apresenta os níveis de água simulados para as condições naturais e com o reservatório da UHE Cachoeira Caldeirão, com destaque para seção S13 localizada na cidade de Porto Grande. TABELA 1 Resultado da Simulação dos Níveis de Água no rio Araguari Vazões (m 3 /s) Seção 937 (QMLT) (TR = 100) (TR = 1.000) (TR = ) Natural Reservatório Natural Reservatório Natural Reservatório Natural Reservatório S1 UHE Cachoeira Caldeirão 42,91 58,30 44,71 58,30 45,11 58,30 45,49 59,64 M1 42,97 58,30 44,84 58,30 45,25 58,30 45,63 59,64 M2 43,11 58,30 44,98 58,30 45,38 58,30 45,76 59,64 S2 Posto Prainha 45,06 58,30 47,76 58,32 48,23 58,32 48,65 59,66 S3 49,83 58,30 51,82 58,38 52,39 58,42 52,91 59,75 S5 54,24 58,32 58,48 58,84 59,11 59,11 59,69 60,22 S6 54,74 58,35 59,14 59,39 59,78 59,78 60,36 60,75 S7 54,81 58,36 59,29 59,53 59,94 59,94 60,53 60,90 S8 54,83 58,37 59,36 59,59 60,02 60,02 60,61 60,97 S9 54,88 58,37 59,47 59,69 60,14 60,14 60,75 61,09 S10 54,98 58,39 59,64 59,83 60,31 60,31 60,92 61,23 S11 55,07 58,40 59,81 59,99 60,50 60,50 61,13 61,42 S12 55,19 58,41 59,94 60,11 60,64 60,64 61,28 61,55 S13 55,57 58,44 60,23 60,38 60,93 60,93 61,56 61,81 S14 55,97 58,48 60,51 60,64 61,21 61,21 61,84 62,06 S15 56,08 58,50 60,59 60,71 61,28 61,28 61,90 62,11 S16 56,19 58,52 60,83 60,94 61,54 61,54 62,19 62,37 S17 56,51 58,59 61,25 61,33 61,94 61,94 62,56 62,71 S18 56,82 58,64 61,44 61,51 62,11 62,11 62,72 62,86 S19 57,00 58,67 61,53 61,60 62,20 62,20 62,82 62,95 S20 57,49 58,78 61,67 61,73 62,27 62,27 62,82 62,93 PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 7

8 Como resultado do estudo de remanso, verifica-se que os níveis de água para as vazões elevadas, com recorrência igual ou superior a 100 anos, resultantes após a implantação do reservatório são praticamente iguais aos níveis de água em condições naturais na seção de interesse. Isso indica que, as regiões atingidas por cheias na cidade de Porto Grande, após a implantação do reservatório, serão as mesmas que já são atingidas com as cheias antes da implantação da usina. Visando apresentar um indicativo de probabilidade da ocorrência de vazões intensas, é apresentada na Figura 9, a curva de permanência de vazões médias diárias anotadas na estação Porto Platon para o período das maiores cheias no rio Araguari, que englobam os meses de abril, maio e junho Vazão (m 3 /s) Permanência (%) FIGURA 9 Curva de Permanência de Vazões Médias Diárias Abril a Junho Está curva apresenta resultados, que podem ser lidos, por exemplo, da seguinte forma: nos meses de abril, maio e junho, há a probabilidade de, em 10% do tempo haver uma vazão igual ou superior a m 3 /s, ou que em 50% do tempo as vazões serão iguais ou superiores a m 3 /s. Também podemos dizer que em 2% do tempo as vazões são superiores a m 3 /s. Há com isso um indicativo de vazões registradas, anotadas em uma estação fluviométrica oficial do sistema de monitoramento da ANA, na qual se baseou o cálculo PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 8

9 da probabilidade de ocorrência de cheias na cidade de Porto Grande e possíveis níveis de água atingidos. Como registro vale citar que em 2011, a máxima vazão registrada em Porto Platon foi de m 3 /s, que, segundo as informações disponíveis, superou a crista do muro de arrimo construído na cidade de Porto Grande. Esta vazão corresponde a um período de recorrência inferior a 25 anos no estudo das vazões máximas instantâneas para o posto Porto Platon. As figuras a seguir foram tiradas do EIA-RIMA e comparam a situação atual com a situação final, após o enchimento do reservatório. FIGURA 10 - Ilustração do impacto sobre a cidade de Porto Grande (à esquerda, sem o reservatório; à direita, com o reservatório). PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 9

10 FIGURA 11 - Ilustração mostrando a linha d água do reservatório, em vermelho (cota máxima normal), e a linha que marca os limites da Área de Proteção Permanente (APP) urbana, em amarelo. 5. CONCLUSÕES O muro de arrimo possibilitou a construção da praça pública em nível mais elevado que o terreno natural da margem do rio, com o objetivo de preservá-la de inundações resultantes de cheias nos períodos de chuvas intensas. Provavelmente o nível do platô foi definido levando-se em consideração observações dos níveis alcançados pelas cheias do rio em um curto intervalo de tempo, sem levar em consideração os necessários estudos hidrológicos que normalmente são efetuados em projetos desta natureza. Diante do apresentado nesta Nota Técnica, a principal conclusão é de que o muro de arrimo não é eficaz para contenção da inundação provocada pelo reservatório do empreendimento, tampouco para cheias naturais do rio Araguari. O nível da crista não foi devidamente avaliado na concepção do projeto, pois não levou em consideração o registro histórico das vazões do rio Araguari, tornando a área da PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 10

11 praça sujeita a inundações em diferentes ocasiões do ano, na dependência direta da vazão do rio. Este fato é evidenciado observando-se a cheia de 2011, que teve uma taxa de recorrência estimada como inferior a 25 anos, onde o nível do rio Araguari ultrapassou a crista do muro de arrimo. Além disso, as laterais do muro também não foram dimensionadas de acordo com um período de recorrência adequado. Há de considerar ainda que se fossem executados o alteamento e o fechamento das ombreiras, outro problema surgiria: a drenagem superficial que escoa para a área do murro de arrimo precisaria ser feita através de um complexo sistema de bombas de recalque. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ECOTUMUCUMAQUE. (2009). Estudo de Impacto Ambiental: Aproveitamento Hidrelétrico de Cachoeira Caldeirão. Macapá/AP: Ecotumucumaque. PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 11

12 PBA Plano Básico Ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico Cachoeira Caldeirão 12

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