Fundação Getulio Vargas Escola de Pós-Graduação em Economia Mestrado em Finanças e Economia Empresarial

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1 Fundação Getulio Vargas Escola de Pós-Graduação em Economia Mestrado em Finanças e Economia Empresarial Núcleos de Inflação: avaliação das atuais medidas e sugestão de novos indicadores para o Brasil André Furtado Braz Rio de Janeiro 2011

2 Núcleos de Inflação: avaliação das atuais medidas e sugestão de novos indicadores para o Brasil André Furtado Braz Dissertação apresentada ao Mestrado em Finanças e Economia Empresarial como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Finanças e Economia Empresarial. ORIENTADORA: PROFA. SILVIA MARIA MATOS Rio de Janeiro

3 Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Mario Henrique Simonsen/FGV Braz, André Furtado Núcleos de inflação: avaliação das atuais medidas e sugestão de novos indicadores para o Brasil / André Furtado Braz f. Dissertação (mestrado) - Fundação Getulio Vargas, Escola de Pós- Graduação em Economia. Orientadora: Silvia Maria Matos. Inclui bibliografia. 1. Inflação. 2. Política monetária. 3. Índices de preços ao consumidor. I. Matos, Silvia Maria. II. Fundação Getulio Vargas. Escola de Pós- Graduação em Economia. III. Título. CDD

4 4

5 AGRADECIMENTOS Agradeço aos meus pais por todo o incentivo. Agradeço à minha família: minha esposa Márcia e minha filha Isabela por abrirem mão de inúmeros finais de semana ensolarados para que eu pudesse estudar para o mestrado. Agradeço a direção do IBRE por mais este crédito, em especial a Salomão Quadros por transmitir em nossas conversas sua experiência acadêmica e profissional. Agradeço a minha professora orientadora Silvia Matos pelo constante incentivo e disponibilidade em todo o processo de desenvolvimento desta dissertação. Silvia, você nasceu com dom e vontade de ensinar, muito obrigado por compartilhar comigo. 5

6 Resumo Desde a implantação do sistema de metas de inflação em julho de 1999, o Banco Central (BC) tem utilizado para monitorar a política monetária um número crescente de indicadores, dentre os quais, incluem-se as medidas de núcleo de inflação. O objetivo é obter uma informação mais precisa sobre o curso da inflação no país e, consequentemente, sobre o futuro da política monetária. Além do Banco Central, muitas instituições financeiras utilizam medidas de núcleo para orientar suas estimativas em relação ao comportamento da inflação no país. Deste modo, esta dissertação faz uma avaliação dos núcleos de inflação utilizando os principais testes estatísticos e econométricos sugeridos pela literatura econômica e propõe ainda novos indicadores para o Brasil. Palavra-Chave: Índice de Preços ao Consumidor, inflação, Meta de Inflação, Núcleo de Inflação. ABSTRACT Since the implementation of inflation targeting system in July 1999, the Central Bank (BC) is used to monitor the monetary policy of a growing number of indicators, among which include measures of core inflation. The goal is to obtain more precise information about the course of inflation in the country and hence on the future of monetary policy. In addition to the Central Bank, many financial institutions use core measures to guide their expectations regarding the behavior of inflation in the country. Thus, this paper makes an assessment of core inflation using the main statistical and econometric tests suggested in the literature and proposes new economic indicators for Brazil. Keywords: Consumer Price Index, Inflation, Inflation Targeting, Core Inflation. 6

7 Sumário Abstract... 6 Índice de tabelas... 9 Índice de Gráficos Introdução Sistema de Metas de Inflação Qual a motivação para a adoção do regime de metas? Metodologias utilizadas para o cálculo dos núcleos de inflação Abordagem por Exclusão Abordagem Estatística As médias aparadas continuam a 20%? A eficácia dos Núcleos de Inflação em debate - conceito e metodologia Propriedades estatísticas para núcleos de inflação Ausência de viés Capturar a tendência da inflação Previsão da taxa de inflação Previsões fora da amostra a partir de janeiro de Fonte: Elaboração própria A combinação de Núcleos de Inflação melhora o desempenho do indicador? Viés para os núcleos combinados Capturar a tendência da inflação (núcleos combinados) Previsão fora da amostra a partir da combinação de núcleos combinação de núcleos melhora o desempenho dessas medidas? Núcleos orientados pela persistência inflacionária e pela freqüência de reajustes de preços Teoria e motivação Ausência de viés para os novos núcleos de inflação Capturar a tendência da inflação entre os novos núcleos Previsão fora da amostra do IPCA utilizando novas medidas de núcleo de inflação

8 8. Comparação entre os resultados dos núcleos testados Conclusão Bibliografia

9 ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 - Inflação anual do IPCA, meta e margem de tolerância Tabela 2 - Erro quadrático médio por linhas de corte do núcleo de médias aparadas Tabela 3 - Estatísticas descritivas para três períodos de tempo das principais medidas de núcleo de inflação Tabela 4 Desvio dos núcleos da tendência da Inflação Tabela 5 Betas estimados pelas regressões de atração Tabela 6 Coeficiente de determinação das regressões (R²) Tabela 7 Estatísticas descritivas para combinados de núcleos de inflação Tabela 8 Desvio dos núcleos da tendência da Inflação Tabela 9 Betas estimados pelas regressões de atração Tabela 10 Coeficiente de determinação das regressões (R²) Tabela 11 - ESTATÍSTICAS descritivas do IPCA previsto (fora da amostra) a partir da combinação dos núcleos tradicionais Tabela 12 - Estatísticas descritivas para medidas de núcleo de inflação baseadas na persistência dos reajustes de preços ao consumidor entre Set/1999 e Dez/ Tabela 13 - Estatísticas descritivas para medidas de núcleo de inflação baseadas na persistência dos reajustes de preços ao consumidor entre Set/1999 e Dez/ Tabela 14 - Estatísticas descritivas para medidas de núcleo de inflação baseadas na persistência dos reajustes de preços ao consumidor entre Set/1999 e Dez/ Tabela 15 Desvio dos novos núcleos da tendência da inflação Jul/1999 a Dez/ Tabela 16 Desvio dos novos núcleos da tendência da inflação Jul/1999 a Dez/ Tabela 17 Desvio dos novos núcleos da tendência da inflação Jul/1999 a Dez/ Tabela 18 Betas estimados pelas regressões de atração Tabela 19 Coeficiente de determinação das regressões (R²) Tabela 20 - ESTATÍSTICAS descritivas do IPCA previsto (fora da amostra) a partir da combinação dos núcleos tradicionais

10 ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Variação acumulada em 12 do IPCA e do Núcleo Calculado por Exclusão Gráfico 2 Variação percentual acumulada em 12 do IPCA e do Núcleo Calculado por Dupla Ponderação Gráfico 3 - Variação percentual acumulada em 12 do IPCA e do Núcleo Calculado por Médias Aparadas com Suavização Gráfico 4 Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto pelo IPCA (DEFASADO EM UM MÊS) e pelo núcleo estimado por dupla ponderação (MACS) defasados em TRÊS MESES Gráfico 5 - Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto pelo IPCA (DEFASADO EM UM MÊS) e pelo núcleo estimado por EXCLUSÃO (NEX) defasado em TRÊS MESES Gráfico 6 Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto pelo IPCA (DEFASADO EM UM MÊS) e pelo núcleo estimado por DUPLA PONDERAÇÃO (ndp) defasado em UM MÊS Gráfico 7 Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto fora da amostra pela combinação via OLS dos núcleos MACS, NEX e NDP Gráfico 8 Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto fora da amostra pela combinação via EQM dos núcleos MACS, NEX e NDP Gráfico 9 Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto fora da amostra pela combinação via MA dos núcleos MACS, NEX e NDP Gráfico 10 - Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto fora da amostra pelo núcleo C Gráfico 11 - Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto fora da amostra pelo núcleo FR Gráfico 12 - Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto fora da amostra pelo núcleo DFGLS Gráfico 13 - Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto fora da amostra pelo núcleo ARP Gráfico 14 - Variação percentual mensal do IPCA e IPCA previsto fora da amostra pelo núcleo KPSS_NT

11 INTRODUÇÃO A necessidade de uma medida confiável de núcleo é um consenso entre os Bancos Centrais (BC), principalmente nos países adeptos do regime de metas de inflação. A expectativa é de que as medidas de núcleo permitam colocar uma lupa sobre a dinâmica dos preços identificando quais mudanças são permanentes e quais são transitórias. Esta informação é importante devido aos efeitos defasados da política monetária, pois a falha na detecção do aparecimento das pressões inflacionárias pode favorecer o aumento sustentável da inflação e, finalmente, exigir um período prolongado de aperto da política monetária. Da mesma forma, uma reação exagerada diante de um aumento temporário da inflação poderia resultar em uma diminuição injustificada e, possível declínio, da atividade econômica. Assim, a capacidade do BC em diferenciar movimentos permanentes de transitórios é fundamental para determinar a utilização adequada da política monetária. No Brasil, desde a implantação do sistema de Metas de Inflação - em julho de o BC vem utilizando núcleos de inflação como parte do amplo conjunto de dados, com os quais se orienta para tecer as estratégias da política monetária. Apesar da popularidade dos núcleos de inflação, alguns estudos contestam a utilidade destas medidas em auxiliar o processo decisório da política monetária. Trabalhos como o realizado por da Silva Filho e Figueiredo (2006) mostram que os núcleos da inflação não ajudam muito a determinar a tendência ou mesmo a prever a inflação. A literatura sobre núcleos de inflação recomenda alguns testes estatísticos e econométricos para avaliar os atributos dessas medidas de inflação. Neste contexto, alguns dos principais núcleos estimados pelo BC - por exclusão (NEX), dupla ponderação (NDP) e médias aparadas com suavização (MACS) serão avaliadas nesta dissertação. Assim, os objetivos deste trabalho foram estruturados da seguinte maneira. Da primeira a terceira parte a dissertação apresenta o sistema de metas para inflação, aborda os principais métodos utilizados para o cálculo dos núcleos e promove um teste para verificar se o núcleo calculado pela 11

12 metodologia de médias aparadas com suavização deve continuar com as linhas de corte em 20% para os pesos dos itens com as maiores e menores taxas de variação. A seção quatro apresenta um pouco do debate sobre o que vem a ser um núcleo de inflação e a sua utilidade. A seção cinco aborda as propriedades estatísticas e econométricas desejáveis para uma boa medida de núcleo de inflação e apresenta o desempenho das principais formas de cálculo diante destas propriedades. A seção seis testa se a combinação dos principais núcleos de inflação à luz de três formas de agregação - pode melhorar o desempenho desses indicadores. E, finalmente, a seção sete apresenta uma nova classe de núcleos construídos a partir da persistência inflacionária e da frequência de reajustes de preços. 1. SISTEMA DE METAS DE INFLAÇÃO O objetivo do sistema de metas de inflação é proporcionar uma âncora nominal para a política monetária. A atuação da autoridade monetária procura levar a inflação a convergir para a meta preestabelecida, que, sendo previamente conhecida pelos agentes, se torna a expectativa de inflação. Para que isso ocorra, entretanto, é necessário que o sistema conquiste credibilidade e sucesso, que são obtidos pelo recorrente cumprimento da meta. Sob tal regime, a autoridade monetária do país deve acompanhar atentamente as oscilações dos preços e estimar o comportamento destes no futuro, pois suas decisões, especialmente a definição da taxa de juros, dependem da inflação, passada e futura. Para isso, o sistema de metas requer que a autoridade monetária tenha total informação sobre as causas das oscilações dos preços e de seu possível comportamento no futuro, dado que suas decisões de política monetária dependerão das fontes e da trajetória da inflação. Neste sentido, os núcleos de inflação têm missão de ampliar a visibilidade do Banco Central sobre as verdadeiras fontes de pressão inflacionária, principalmente quando a orientação para a política monetária parte de um indicador pleno, como o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) 12

13 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Este indicador dado a própria configuração de sua estrutura - composto por bens e serviços variados, está sujeito a intensa volatilidade, a qual deve ser identificada e separada de ruídos não transitórios. Então, o que motivou a escolha de um indicador pleno como o IPCA para orientar a meta de inflação? A escolha não foi aleatória e pode ser justificada pela sua grande aceitação pelo público. Bogdanski, Tombini e Werlang (2000) comentam que a escolha do índice cheio tornou-se inevitável, pois a sociedade já havia testemunhado vários episódios de manipulação de índices de preços, e qualquer mudança relacionada com a supressão de itens do índice-meta despertaria desconfiança. Dada a utilização do índice pleno, justifica-se o emprego de mecanismos que garantam a identificação das flutuações captadas pelo IPCA classificando-as segundo o seu caráter, que pode ser permanente ou transitório. Com este acompanhamento, ampliam-se as chances de sucesso do sistema de metas de inflação, principalmente na identificação da natureza dos choques. Segundo Mishkin e Schmidt-Hebbel (2001), citados no Relatório de Inflação (2002, p.118), há quatro maneiras de fazê-lo: A) Adotar uma medida de núcleo de inflação para evitar a volatilidade do índice de preços; B) Utilizar cláusula de escape; C) Ampliar o horizonte de tempo de avaliação do regime de metas; D) Adotar bandas mais largas para melhor absorver as flutuações da inflação. 2. QUAL A MOTIVAÇÃO PARA A ADOÇÃO DO REGIME DE METAS? A decisão de adotar o regime de metas nasceu em julho de 1999 com a consolidação da estabilização da inflação depois do Plano Real. A implantação do plano foi acompanhada pela adoção de um regime de câmbio flutuante, após a crise do México em dezembro de 1994 e, pela formalização do regime de metas cambiais como política monetária em março de Em julho de 1995 foi instaurada a banda de desvalorização gradual do cambio nominal, com meta de desvalorização de aproximadamente 7,5% ao ano. Este mecanismo levou ao crescimento da dívida pública e do déficit em conta corrente diante do câmbio valorizado tornando o Brasil vulnerável 13

14 à fuga de capitais, principalmente com a crise asiática, ocorrida na segunda metade de 1997 e a moratória russa, em agosto de No primeiro evento, o Banco Central elevou a taxa de juros, mas no segundo, o mercado não reagiu positivamente à repetição do receituário e os ataques especulativos reduziram o nível de reservas internacionais. Como resposta surgiu em 15 de janeiro de 1999 o regime de câmbio flutuante. E, em março de 1999, o Banco Central adotou o sistema de metas de inflação para ancorar as expectativas dos agentes. A partir deste momento, coube ao Conselho Monetário Nacional (CMN) a responsabilidade de escolher o centro da meta e o intervalo de tolerância e, neste contexto, coube ao Banco Central adotar as políticas necessárias para conduzir os preços para o intervalo estabelecido para cada ano e, para esta tarefa, o principal instrumento utilizado foi a taxa de juros do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (SELIC), cujo percentual é fixado pelo Comitê de Política Monetária (Copom). A tabela a seguir, apresenta o IPCA fechado desde 1999, a meta de inflação fixada para cada ano e a margem de tolerância. TABELA 1 - INFLAÇÃO ANUAL DO IPCA, META E MARGEM DE TOLERÂNCIA Ano Percentual Pontos Percentuais IPCA Meta Tolerância ,94 8,00 2, ,97 6,00 2, ,67 4,00 2, ,53 3,50 2, ,30 (1) 4,00 2, ,60 5,5 2, ,69 4,5 2, ,14 4,5 2, ,46 4,5 2, ,90 4,5 2, ,31 4,5 2, ,91 4,5 2, ,50(2) 4,5 2,00 Fonte: Elaboração própria com dados do Banco Central (1) Meta ajustada em 21/01/2003, para 8,5% sem intervalo de tolerância (2) Em setembro de 2011, a expectativa para o IPCA do mesmo ano já era superior a 6,50%. 14

15 3. METODOLOGIAS UTILIZADAS PARA O CÁLCULO DOS NÚCLEOS DE INFLAÇÃO A literatura econômica cita com frequência diferentes medidas de núcleo de inflação, cujo desenvolvimento teórico, segundo Barros (2002), pode ser dividido em três abordagens, que também podem inspirar a construção de outras metodologias derivadas: abordagem por exclusão, abordagem estatística e abordagem por modelagem ABORDAGEM POR EXCLUSÃO Os núcleos estimados pela exclusão de determinados itens são classificados como os mais antigos. A primeira formulação foi na década de 70. Esta metodologia consiste em excluir do IPC itens que apresentam elevada volatilidade. Este método é fácil de operar e sua metodologia tende a excluir o que de fato pode transmitir certa volatilidade para a inflação. Os Bancos Centrais de vários países 1 utilizam esta forma expurgada do Índice de Preços ao Consumidor para monitorar a trajetória da inflação. Esta metodologia é de fácil aplicação e entendimento, mas esta simplicidade sustenta uma hipótese forte, a de que volatilidade e ruído são necessariamente a mesma coisa, ou seja, os itens excluídos não teriam nenhuma informação sobre a inflação. O BACEN chegou a calcular duas versões do núcleo por exclusão: IPCAEX-1 (que exclui 10 itens 2 pertencentes ao grupo Alimentação no Domicílio) e o IPCAEX-2 (que exclui os mesmos itens da primeira versão, além de combustíveis para veículos e para uso doméstico), mas atualmente somente o IPCAEX-2 continua ativo. O gráfico a seguir, apresenta a evolução da taxa média em 12 desde dezembro de O núcleo por exclusão mostra trajetória semelhante a do IPCA, mas em geral, sua curva mantém-se abaixo do IPCA, pois sua metodologia atenua o efeito de elementos transitórios. 1 Como, por exemplo, os Bancos Centrais: japonês, francês, americano, grego e australiano. 2 Os dez itens são os seguintes: tubérculos, raízes e legumes; cereais, leguminosas e oleaginosas; hortaliças e verduras; frutas; carnes; pescados; açúcares e derivados; leites e derivados; aves e ovos; e óleos e gorduras. 15

16 GRÁFICO 1 - VARIAÇÃO ACUMULADA EM 12 MESES DO IPCA E DO NÚCLEO CALCULADO POR EXCLUSÃO dez/99 dez/00 dez/01 dez/02 dez/03 dez/04 dez/05 dez/06 dez/07 dez/08 dez/09 dez/10 ipca nex Centro da Meta de Inflação Fonte: Elaboração própria com dados do Banco Central 3.2. ABORDAGEM ESTATÍSTICA Alguns métodos para a apuração de núcleos classificados na abordagem estatística não ignoram o sinal transmitido pelos itens componentes dos índices de inflação. As primeiras abordagens neste sentido foram feitas por Dow (1994) Variance weighted Price Index e Diwert (1995) Neo- Edgenworthian Inflation apresentando metodologias que utilizam o inverso da variância como ferramenta para amplificar o sinal inflacionário transmitido por cada item componente do índice sem excluí-lo. Esta metodologia utiliza, portanto, a informação contida em cada componente do índice de preços para fazer inferência. Wi = 1 2 σ i n 1 2 i= 1σi 16

17 A vantagem em comparação ao núcleo por exclusão é que a princípio todos os itens possuem chance de transmitir alguma informação sobre a inflação futura, já que o peso original do item é ponderado pelo inverso da variância, ampliando a possibilidade de identificação do sinal inflacionário. Esta modalidade de cálculo (IPCA-DP) foi recém-incorporada à família de núcleos monitorados pelo BACEN. Contudo, este núcleo é mais sensível a impactos pontuais. De maneira não rara, o item passagens aéreas do IPCA, por exemplo, registra forte oscilação de preço determinada por fatores sazonais. Este comportamento seria imediatamente neutralizado pela metodologia de médias aparadas, mas na metodologia por dupla ponderação não há eliminação de tal ruído no cálculo, o que eleva a média do novo núcleo e o coloca mais próximo da variação média do IPCA, conforme ilustra o gráfico 2. Em contrapartida, esta metodologia não leva em conta a persistência e, não sendo esta, sinônimo de volatilidade, ao se reduzir o peso de certo item volátil porém persistente poderá haver perda de informação. Isso só não ocorrerá, se os itens mais voláteis forem os mesmos que apresentarem menor persistência. GRÁFICO 2 VARIAÇÃO PERCENTUAL ACUMULADA EM 12 MESES DO IPCA E DO NÚCLEO CALCULADO POR DUPLA PONDERAÇÃO dez/99 dez/00 dez/01 dez/02 dez/03 dez/04 dez/05 dez/06 dez/07 dez/08 dez/09 dez/10 ipca ndp Centro da Meta de Inflação Fonte: Elaboração própria com dados do Banco Central 17

18 Dentro da abordagem estatística inclui-se a utilização dos núcleos calculados por médias aparadas. Esta metodologia foi desenvolvida a partir da constatação de que a variação individual de preços não possui distribuição normal, bem como, registram elevados graus de assimetria e curtose. As maiores contribuições sobre este tema surgiram dos trabalhos de Bryan e Pike (1993) e Bryan, Cecchetti e Wingins (1997). Eles utilizaram núcleos calculados por Estimadores de Influência Limitada (EIL), que reduzem a influência dos valores localizados nas extremidades da distribuição. Deste modo, o núcleo por médias aparadas é um exemplo de (EIL), pois são excluídos do índice de preços, bens e serviços que apresentaram as maiores e menores variações no período. Esta medida de núcleo pode ser estimada em duas versões: com e sem suavização. A utilização dessa modalidade foi estuda por Figueiredo (2000) e Barros e Schechtman (2002). O núcleo sem suavização exclui sem parcimônia os itens que apresentaram as maiores e menores taxas de variação sem levar em conta a regularidade destes movimentos. Esta versão tende a subestimar a inflação, por desconsiderar no seu cálculo as variações de preços em produtos e serviços com reajustes menos frequentes (preços administrados). Já a versão com suavização distribui no horizonte de 12 a variação dos preços dos serviços - para que estes tenham uma chance de não serem sumariamente excluídos. Com esta metodologia criou-se condições para que estes preços passassem a receber o mesmo tratamento que os demais, aproveitando melhor as informações contidas nos mesmos. 18

19 GRÁFICO 3 - VARIAÇÃO PERCENTUAL ACUMULADA EM 12 MESES DO IPCA E DO NÚCLEO CALCULADO POR MÉDIAS APARADAS COM SUAVIZAÇÃO dez/99 dez/00 dez/01 dez/02 dez/03 dez/04 dez/05 dez/06 dez/07 dez/08 dez/09 dez/10 ipca macs Centro da Meta de Inflação Fonte: Elaboração própria com dados do Banco Central AS MÉDIAS APARADAS CONTINUAM A 20%? Adiando um pouco o objetivo central desta dissertação cuja principal missão é avaliar as propriedades estatísticas e econométricas dos núcleos de inflação é importante verificar se a linha de corte em uso - para o núcleo calculado pela metodologia de médias aparadas - continua em 20%. O estudo que orientou a escolha do melhor estimador para núcleos calculados por médias aparadas ocorreu a mais de uma década, vale, antes de prosseguir com o objetivo desta dissertação, verificar se a linha de corte do estimador continua igual. O critério escolhido para esta tarefa foi o de verificar o estimador com o menor erro quadrático médio da tendência da inflação. A verificação começa com a reconstrução das linhas de corte, que foram recalculadas de janeiro de 2001 a dezembro de 2009, núcleos simétricos, cujas caudas foram aparadas no intervalo de 1% a 50% (mediana). Os estimadores de médias aparadas foram construídos como revela a fórmula a seguir: 19

20 = α 1 α ( α 100) i= α 100 wiχ i Onde: A letra é o percentual a ser aparado da cauda do IPCA ordenado de forma crescente pela taxa de variação. s são os pesos dos itens componentes do IPCA, fora do intervalo de corte, e são as variações de cada um destes componentes do IPCA. Este teste considerou duas questões importantes. A ponderação utilizada foi a vigente para cada mês avaliado do IPCA e os preços de serviços administrados foram suavizados. A suavização, comentada anteriormente, é necessária para evitar que no único mês de reajuste, a variação de um item importante do IPCA seja excluída do indicador. 20

21 TABELA 2 - ERRO QUADRÁTICO MÉDIO POR LINHAS DE CORTE DO NÚCLEO DE MÉDIAS APARADAS Alpha (EQM) Média Móvel Centrada 13 Alpha (EQM) Média Móvel Centrada , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,1602 Fonte: Elaboração própria No cálculo da média móvel centrada foram considerados os treze primeiros valores da série e, em seguida, calculou-se a média móvel centrada de acordo com a expressão a seguir: 1 Yt = 24 [X t (X t 5+Xt Xt+X t+ 1+ X t X t+ 5) + X t+ 6] 21

22 O valor encontrado é colocado na sétima posição. Nesta operação, a série perderá seis informações no início e seis no final. A média móvel centrada permite eliminar influências sazonais. Para ser fiel ao teste, o resultado revelou que o percentual a ser aparado da cauda corresponde simetricamente a 19% e, não a 20%, do peso do IPCA. Contudo, no trabalho de Barros (2001) as linhas de corte foram testadas em intervalos de 5%. Então, por aproximação, o teste valida o ALPHA de 20%. Desta forma, não haverá necessidade de calcular um novo núcleo com outra linha de corte. A série estimada pelo BC será utilizada nos testes propostos nesta dissertação. 4. A EFICÁCIA DOS NÚCLEOS DE INFLAÇÃO EM DEBATE - CONCEITO E METODOLOGIA Diferente do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) que foi baseado na Teoria do Custo de Vida as medidas de núcleo não dispõe de uma teoria capaz defini-las sucintamente, nem ao menos uma definição sobre o que de fato tais indicadores estão medindo. Deste modo, não há fundamentos teóricos para apoiá-las. Há apenas a expectativa de que o resultado seria a inflação que de fato o Banco Central teria que focar a política monetária. Na crescente literatura sobre núcleos de inflação, várias são as definições propostas sobre a verdadeira utilidade destas medidas. As principais seriam: determinar a tendência da inflação, apoiar a atividade de previsão e estimar a inflação de longo-prazo. Bryan et al.(1997) explicam que o núcleo pode ser visto como uma medida que descobre a verdadeira tendência subjacente da inflação. Já para Blinder (1997), o núcleo pode revelar a parte da inflação que é mais eficiente para prever a inflação de curto-prazo. Eckstein (1981), por sua vez, define o núcleo como a inflação de longo-prazo estimada na ausência de choques e com a demanda neutra, ou seja, no estado estacionário. Enquanto que para Quah e Vahey (1995), as medidas de núcleo revelam a componente da inflação que está embutida nas expectativas de inflação e, que, portanto, não terão nenhum impacto no produto no longo prazo. Apesar dos créditos a favor do núcleo de inflação, estas medidas parecem perder gradualmente a credibilidade entre economistas. Um dos maiores entusiastas Cecchetti (2006) passou a desapontado 22

23 com o atual desempenho dos núcleos. Ele concluiu que os vários métodos utilizados para a construção dos mesmos confiam em técnicas estatísticas, mas que no final das contas o que fazemos é uma previsão, que não dependeria do núcleo, mas sim do comportamento da própria inflação passada. Da mesma forma Marques et al. (2003) e Clinton (2006) colocam que as medidas dos núcleos por exclusão, categoria mais popular, principalmente nos Estados Unidos, pode ser fortemente enganosa, na medida que a exclusão de fatores transitórios pode enfraquecer a previsão da inflação de curto prazo. Reunindo um pouco de cada conceito, conclui-se que a essência de uma medida de núcleo de inflação é a desagregação do índice de preços (IPCA) em dois componentes: um transitório que reflete choques exógenos e, um persistente, que mostra a tendência do nível de preços. Desta maneira, espera-se que um bom núcleo indique a parte persistente e de longo prazo da inflação. 5. PROPRIEDADES ESTATÍSTICAS PARA NÚCLEOS DE INFLAÇÃO Segundo Barros e Schechtman (2002), não existem critérios que permitam selecionar um indicador que melhor represente um núcleo de inflação. Deste modo, cada núcleo deve ser avaliado dentro de um conjunto de critérios para determinar em que contexto a medida pode ser usada. Alguns desses critérios são: ser um bom indicador da tendência da inflação; servir de indicador antecedente e ter o mesmo comportamento do IPCA; possuir baixa variância e ser correlacionado com agregados monetários. Teixeira e Filho (2009) enumeram como boas propriedades de um núcleo de inflação: a ausência de viés, a capacidade de capturar a tendência inflacionária e ser um bom previsor da taxa de inflação. Com alguns critérios definidos pela literatura econômica, o passo seguinte será o de submeter os núcleos produzidos por diversas metodologias - a um conjunto de testes para determinar se estas medidas derivadas da inflação oficial estão fazendo um bom trabalho. 23

24 5.1. AUSÊNCIA DE VIÉS O primeiro critério importante citado pela literatura é o de verificar a ausência de viés nas medidas de núcleo. Um caminho para a verificação pode ser a partir da seguinte equação: = α+ β c πt π + t εt A hipótese nula conjunta é de que α = 0 eβ = 1. Se a hipótese nula não for rejeitada, isso significa que o core analisado não é viesado. Este teste foi empregado nas três metodologias de núcleo mais tradicionais do Banco Central: por exclusão (NEX), médias aparadas com suavização (MACS) e dupla ponderação (NPD). Os testes foram realizados em períodos distintos, pois é útil verificar se alterações no ambiente econômico podem afetar o comportamento dos núcleos. TABELA 3 - ESTATÍSTICAS DESCRITIVAS PARA TRÊS PERÍODOS DE TEMPO DAS PRINCIPAIS MEDIDAS DE NÚCLEO DE INFLAÇÃO Jul/1999 a Dez/10 IPCA MACS NEX NDP Média 0,54 0,52 0,52 0,53 DP 0,43 0,21 0,29 0,30 Coeficiente de variação 0,79 0,41 0,56 0,56 Viés anual - -0,19-0,15-0,11 P-Valor - 0,11 0,10 0,00 Jul/1999 a Dez/08 IPCA MACS NEX NDP Média 0,57 0,54 0,54 0,55 DP 0,46 0,22 0,31 0,31 Coeficiente de variação 0,80 0,41 0,57 0,57 Viés anual - -0,20-0,17-0,15 P-Valor - 0,13 0,37 0,00 Jul/1999 a Dez/02 IPCA MACS NEX NDP Média 0,71 0,56 0,59 0,61 DP 0,57 0,22 0,33 0,37 Coeficiente de variação 0,80 0,39 0,56 0,61 Viés anual - -1,55-1,15-1,22 P-Valor - 0,02 0,35 0,07 Fonte: Elaboração própria A tabela 3 apresenta o resultado do teste para três períodos de tempo. Para o período mais antigo entre julho de 99 e dezembro de 2002 foi evidenciada a presença de viés para os núcleos estimados por médias aparadas com suavização (MACS) e por dupla ponderação (NDP). Contudo, neste 24

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