MULHERES, VIOLÊNCIA E DIREITOS: (RE)CONSTRUINDO REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE A LEI MARIA DA PENHA

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1 MULHERES, VIOLÊNCIA E DIREITOS: (RE)CONSTRUINDO REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE A LEI MARIA DA PENHA Resumo: Carla Simone Beuter Rodrigues 1 Nilda Stecanela - orientadora 2 Este trabalho faz parte do Projeto de Pesquisa: As representações sociais da Lei Maria da Penha pelas Mulheres da Paz no município de Vacaria, e este texto trará os mapeamento sobre o entendimento da referida Lei, e o grau de acesso aos direitos por ela preconizados. A pesquisa parte do cotidiano das Mulheres da Paz, protagonistas do Projeto Mulheres da Paz, que integra as ações do PRONASCI que tem como meta a construção coletiva de um novo paradigma de segurança pública entre Governo Federal e as Unidades da Federação, bem como de incentivar mulheres a construir e fortalecer redes sociais de prevenção e enfrentamento às violências que envolvem jovens que estão expostos a ela no município. O método utilizado para o estudo das representações foi a pesquisa de opinião, com aplicação de questionários contendo questões abertas e fechadas, envolvendo uma amostra de quinze voluntárias que prestaram depoimento, dentre as cem participantes do curso Mulheres da Paz. Os resultados demonstram o panorama de uma realidade local que partem das percepções que se constroem a partir das vivências, do cotidiano e das situações que se apresentam nos territórios (bairros), de atuação destas mulheres. Estas são multiplicadoras na construção ou reconstrução do seu papel na sociedade, como sujeitos de direitos, bem como no fortalecimento de redes sociais de prevenção e enfrentamento às violências que envolvem mulheres/adolescentes no município. Palavras-chave: Violência contra a mulher; Lei Maria da Penha; Mulheres da Paz. INTRODUÇÃO O Projeto Mulheres da Paz integra as ações do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania - PRONASCI que tem como meta a construção coletiva de um novo paradigma de segurança pública entre Governo Federal e as Unidades da Federação. O referido projeto atende a uma demanda específica e foi criado com o objetivo de incentivar mulheres a construir e fortalecer redes sociais de prevenção e enfrentamento às violências que envolvem jovens que estão expostos a ela no município. A Universidade de Caxias do Sul - UCS, enquanto instituição de Ensino Superior com reconhecida trajetória de experiência comunitária, presente na região, e na cidade de Vacaria, através de edital, e atendendo as exigências estabelecidas foi contemplada para ser a executora da capacitação das mulheres, que foram selecionadas posteriormente, 1 Mestre em Direito e Docente do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Membro do corpo colaborador do Observatório de Educação da UCS. 2 Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Diretora do Centro de Filosofia e Educação e Docente do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade de Caxias do Sul. Coordenadora do Observatório de Educação da UCS.

2 com o acompanhamento da referida instituição e por equipe técnica contratada. O processo de seleção das mulheres atendeu os seguintes critérios: idade mínima de 18 anos; que tenham cursado, no mínimo, até a quarta série do Ensino Fundamental ou que comprovem sua capacidade de leitura e escrita; possuam renda familiar de até 2 salários mínimos; residam nas comunidades que constituem as áreas conflagradas do foco territorial do PRONASCI; possuam disponibilidade de tempo mínimo de 12 horas semanais e que pertençam a rede de parentesco e redes sociais dos e das jovens, foco do PRONASCI. O processo foi composto de análise de ficha cadastral, documentação e entrevista. A capacitação foi dividida em quatro módulos, totalizando 180 horas. Foram acompanhadas cem mulheres, dos mais variados bairros, no sentido de prepará-las em diversas temáticas que envolvem o tema violência. Durante os encontros de capacitação, em que o pano de fundo das discussões foi o tema da violência algumas questões se destacaram como: o cotidiano das mulheres vítimas de violência (doméstica, intrafamiliar, gênero) 3 emergindo, também, histórias de vida das próprias participantes, como de pessoas de suas relações) e, em especial, a importância da Lei Maria da Penha como garantidora do direito das mulheres. O problema de pesquisa: Quais as representações sociais das Mulheres da Paz sobre a Lei Maria da Penha? surge, então, a partir destas constatações, e que ficou registrado na primeira avaliação realizada ao término do Módulo I. É neste cenário que se destacam as percepções do senso comum sobre a violência contra a mulher, a cultura local, as trajetórias de vida das Mulheres da Paz voluntárias desta amostra; os bairros que estão inseridas, e que são de extrema vulnerabilidade; a responsabilidade de serem multiplicadoras e pacificadoras de conflitos, e que acabam por refletir os vários olhares sobre a questão da pesquisa 4. 1 A mulher vítima da violência e os marcos legais desta questão 3 ALMEIDA, Suely Souza apud STECANELA, Nilda e FERREIRA, Pedro Moura. Mulheres e direitos humanos: desfazendo imagens, (re)construindo identidades. Caxias do Sul, RS: Ed. São Miguel, É um subprojeto de dois projetos coordenados pela professora Nilda Stecanela intitulado Mulheres e direitos humanos: desfazendo imagens, reconstruindo identidades e Da vitimização afirmativa à reconstrução identitária: trânsitos de mulheres pela violência de gênero, ambos aprovados pelo comitê de ética da UCS.

3 O fenômeno da violência contra a mulher na sociedade ocorre há muito tempo. A dificuldade de romper com o silêncio sempre estive alicerçado no fato de que o âmbito privado (lar) era o espaço em que se perpetrava a violência. Há bem pouco tempo a legislação brasileira ainda percebia a mulher como colaboradora e procriadora nas relações conjugais. Este, portanto, era o retrato da família patriarcal, hierarquizada e matrimonializada que se caracterizava por relações de submissão, de poder desigual, em que o homem em seu papel de provedor e cabeça do casal estendia seu poder a mulher e filhos. No Brasil temos como marco legal a Constituição Federal de 1988 que afirmou os princípios constitucionais da igualdade, liberdade e dignidade da pessoa humana 5. Além disso, destacamos as normativas internacionais de proteção (Declaração Universal dos Direitos Humanos (1945), Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher (1979) 6, Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher (1999) 7, Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção Belém do Pará,1994) 8, que também, alcançaram os fundamentos da referida norma constitucional brasileira, e suas normas infraconstitucionais. Neste sentido, com o intuito de romper com o cenário de violência e garantir uma proteção integral para a mulher vítima de violência doméstica e familiar foi aprovada a Lei , de , Lei Maria da Penha 9, que no âmbito jurídico e social cria mecanismos para coibir a violência estabelecendo medidas preventivas, de assistência e protetivas às mulheres em situação de violência. Diante da demanda apresentada pelas participantes do Projeto Mulheres da Paz, 5 Estes princípios podem ser encontrados nos Arts. 1, II; 3, II e 5, II da Constituição Federal de Ratificada pelo Brasil em Ratificado pelo Brasil em Aprovada no Brasil pelo Decreto Legislativo n. 56, de , e promulgada pelo Decreto n , de A Lei Maria da Penha encontra sua razão na luta desenvolvida por Maria da Penha Fernandes que foi vítima da violência doméstica que a deixaram paraplégica, e tendo como agressor o seu marido. Sua luta não se deu apenas no âmbito interno, mas também, na esfera dos direitos humanos das mulheres a nível internacional, tendo em vista a omissão brasileira em implementar medidas investigativas e punitivas contra o agressor, dentro do denominado razoável prazo de duração do processo, o que culminou com uma condenação do Estado brasileiro perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão da OEA (SOUZA, Ricardo Sérgio. Comentários à Lei de Combate à Violência contra a Mulher. Curitiba: Juruá, 2007).

4 apresentamos a seguir os resultados, considerando o foco de análise que parte da investigação das representações 10 sociais das Mulheres da Paz do município de Vacaria sobre a Lei Maria da Penha. Desta forma, utilizamos a pesquisa de opinião 11 como metodologia, composta de um questionário 12 com vinte e cinco perguntas abertas e fechadas, envolvendo uma amostra de quinze voluntárias que prestaram seu depoimento. 2 Partindo do perfil das voluntárias da pesquisa e alguns conceitos que se entrelaçam sobre a família As Mulheres da Paz voluntárias da pesquisa totalizam quinze mulheres, sendo que dez mulheres situavam-se na faixa etária dos 41 aos 60 anos de idade, quatro delas estavam entre os 30 anos e os 40 anos, e uma mulher tinha 70 anos. Verificou-se que a maioria das entrevistadas possui como situação ocupacional serem do lar (sete mulheres); três mulheres desempregadas; duas domésticas, duas mulheres serventes de escola, e apenas uma voluntária que declarou ser estudante, o que demonstra que o âmbito privado (lar) ainda é de responsabilidade feminina. No que se refere à escolaridade a maioria das mulheres (totalizando cinco voluntárias) declararam ter o Ensino Fundamental incompleto; o Ensino Fundamental completo (duas mulheres); quatro mulheres o Ensino Médio completo; duas voluntárias o Ensino Médio incompleto, e apenas duas mulheres o superior incompleto. Este dado de escolarização retrata que a busca pelo espaço de formação não é a primeira opção, pois fazendo o cruzamento com a questão se estava estudando no momento somente uma entrevistada estava estudando 13 Com relação à situação conjugal e de moradia, constatamos que a maioria (oito 10 Segundo a autora (PESAVENTO, 2008 apud STECANELA, 2009, p ) as representações construídas sobre o mundo não só se colocam no lugar deste mundo, como fazem com que os homens percebam a realidade e pautem a sua existência. Para a referida autora, as representações agem como matrizes geradoras de condutas e práticas sociais, dotadas de força integradora e coesiva, bem como explicativa do real. 11 MONTENEGRO, Fábio; MASAGÃO, Vera (Ed.). Nossa escola pesquisa sua opinião: manual do professor. 2. ed. São Paulo: Global, Para este artigo faremos uma análise e cruzamento das principais questões emergentes na pesquisa de opinião. 13 Sobre a escolarização que merece maior reflexão não detalharemos esta questão, pois neste momento não é foco da pesquisa.

5 mulheres) das entrevistadas vivem com o cônjuge (relação de casamento) por mais de 10 dez anos. Sendo que apenas três mulheres estão na faixa compreendida entre os 7 e os 20 anos de convivência (união estável); e duas entrevistadas convivem só com os filhos (família monoparental), e duas vivem sozinhas. Analisando estes dados podemos dizer que a maioria vive com o marido e filhos, ou seja, retrata o modelo da família tradicional, em que a responsabilidade de prover ainda é do masculino, e fazendo o cruzamento dos dados observa-se que a maioria está em situação ocupacional do lar. Estes dados merecem reflexão, pois para a Igreja a constituição da família tinha origem no casamento, considerando-o como instituição indissolúvel, que além dos deveres matrimoniais, envolvia o de procriação e educação dos filhos. Mas para a Constituição Federal de 1988 (art. 226, CF/88) é a família 14 e não o casamento a base da sociedade, que tem a proteção do Estado, e refere que as suas responsabilidades integram a proteção a todos os seus membros 15. Embora nos resultados desta pesquisa o modelo de família ainda permaneça o mais tradicional, não podemos esquecer que ocorreram mudanças neste âmbito, pois novas configurações 16 se apresentam, as quais envolvem o significado do conceito de família e as relações entre seus membros. Neste sentido, anunciam-se novos valores, e a afetividade desponta como elemento nuclear, o que desafia criar novas formas de convívio entre os membros integrantes da família, que inclui a redefinição de papéis e responsabilidades domésticas e profissionais. A família independente de sua constituição tem a responsabilidade primordial de formação dos sujeitos. Mesmo que atualmente se discutam que os papéis de gênero 17 e as 14 Segundo a Lei Maria da Penha o âmbito da família é compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa. Lei n /06, art. 5, II. 15 DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. 8.ed.rev. e atual. São Paulo: Editora dos Tribunais, 2011.p Sobre novos modelos de família importante referenciar estudos sobre Famílias Plurais. DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. 8.ed.rev. e atual. São Paulo: Editora dos Tribunais, p Sob o substantivo gênero se agrupam todos os aspectos psicológicos, sociais e culturais da feminilidade/masculinidade. Anderson contribui neste sentido conceituando-o como um conjunto de elementos que incluem formas e padrões de relações sociais, práticas associadas à vida cotidiana, símbolo, costumes, identidades, vestuário, adornos e tratamento do corpo, crenças e argumentos, senso comum e outros elementos que fazem referência, direta ou indiretamente, a uma forma cultural específica de entender e registrar as semelhanças e diferenças entre os gêneros. CANABRAVA, Beatriz. Afinal o que é gênero?

6 responsabilidades no âmbito da família mudaram, conforme sinaliza Coutinho 18, ainda apresenta-se arraigada na cultura tradicional, pois, (...) por trás de discursos e à margem de declarações oficiais, se ouve a opinião de que o lar e a educação dos filhos sempre foram e devem continuar sendo atribuições das mulheres e que, devido à sua constituição física e espiritual, as mulheres devem ser afastadas do trabalho físico pesado, bem como das atividades que lhes exigem muito intelectualmente. Tal posição vem possibilitando o domínio do homem sobre a mulher, disfarçando-o sob a capa de proteção, ao mesmo tempo que tem levado a mulher a desenvolver um tipo de controle muito sutil e especial dentro de casa, controle este do qual muitas mulheres têm dificuldade em abrir mão.(coutinho, 1994, p. 42). Partindo da ideia de que o conceito de família atualmente, ainda se limita na divisão de papéis e funções do feminino e do masculino, demonstra que esta estrutura ainda permanece internalizada pelos sujeitos, e que esse ideal foi construído através dos tempos, considerando a cultura, o cotidiano 19 e o imaginário da família dita ideal. 3 Sobre a Mulher da Paz e a violência contra a mulher As entrevistadas, quando perguntadas sobre as razões que elvam um homem a agredir uma mulher, responderam, conforme podemos verificar na tabela abaixo (Tabela 1) 20 : E.1 Machismo, podem tudo. E.2 Bebedeiras quando estão sãos é difícil vir algum caso. E.3 Falta de comunicação entre as pessoas. Falta de respeito. Falta de posição da mulher diante de algumas coisas. E.4 Primeiro porque bebem e porque muitas das mulheres não colaboram com o marido, com comida, casa limpa, por isso, às vezes ficam agressivos. E.5 Falta de diálogo, de companheirismo, de respeito e confiança. Disponível em: 18 ROCHA-COUTINHO, Maria Lúcia. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares. Rio de Janeiro: Rocco, p É neste caminho que refletimos sobre os enigmas que nos permitem a chegar a nosso objetivo de análise deste cotidiano. Segundo Pais, decifrar enigmas implica, pois, estudar a natureza das mensagens por eles encobertas e o sentido dessas mensagens. Enquanto observadora este será o exercício, o de observar com meticulosidade e sensibilidade as representações das violências que emergem do cotidiano destas mulheres. PAIS, José Machado. Vida cotidiana: enigmas e revelações. São Paulo: Cortez, p Tabela organizada pela autora utilizando a fala de cada entrevistada em itálico, sendo assim, fiel ao depoimento de cada uma.

7 E.6 Não tanto por culpa da mulher, mas por querer fugir da responsabilidade e depois se arrependem. E.7 Machismo, eles acham que são superiores à suas companheiras. E.8 Vários fatores, o alcoolismo e as drogas. E.9 Por várias razões, às vezes ela é culpada, às vezes o homem é violento, mas as mulheres também são culpadas. E.10 Por que às vezes eles não conversam e como a mulher é mais fraca ele bate. E.11 Às vezes a mulher dá motivo, se tem diálogo não acontece. E.12 Por que a mulher deixa, mas mulher nenhuma é obrigada. E.13 Por que a mulher consente, porque se ela não deixasse, ele não fazia isto. Já conquistamos muita coisa, esta época já passou. E.14 Muitas vezes, as mulheres provocam e a falta de diálogo. E.15 Covardia, força física, ciúmes em geral, não só como mulher porque a mulher é superior, machismo, pela sexualidade liberada, não conseguem compreender que podem iniciar e terminar um relacionamento, sentimento de posse. Pelas respostas podemos inferir que as entrevistadas 1, 2, 3, 7 e 8 consideraram que os motivos da violência contra a mulher provocada pelo homem ocorrem pelo machismo e pela bebedeira. Por outro lado, algumas entrevistadas atribuem a si a responsabilidade pela violência como a fala da entrevistada 3: Falta de posição da mulher diante de algumas coisas, e entrevistada 6: Não tanto por culpa da mulher, mas por querer fugir da responsabilidade e depois se arrependem (grifo nosso). A entrevistada 9, refere que por várias razões, às vezes ela é culpada, às vezes o homem é violento, mas as mulheres também são culpadas (grifo nosso). Podemos verificar esta posição nas falas das entrevistadas 11, 12,13 e 14, remetendo a reflexão de que a mulher sente-se merecedora da violência. As entrevistadas 10 e 15 trazem um elemento diferenciado em relação às outras mulheres, que é em relação à força física, demonstrando assim, a fragilidade do sexo feminino em relação ao masculino. A última entrevistada salienta que os homens não conseguem compreender que podem iniciar e terminar um relacionamento, sentimento de posse (grifo nosso). Neste sentido, podemos sinalizar que este sentimento de posse que o homem tem sobre a mulher é cultural, pois historicamente, o feminino foi oprimido, excluído da vida política e subordinado. As consequências dessa opressão perduraram ainda hoje. ( ) A violência contra as mulheres pelo simples fato de serem mulheres a violência de gênero marcou a história das mulheres. Usar da violência para submeter o feminino (matar em defesa da honra;

8 estuprar; agredir fisicamente, etc.) é algo que tem sido permitido ao longo da nossa história legal.(campos, 2004, p. 71). 21 Por outro lado, no que se refere à denúncia quando questionadas se em algum momento de sua vida fez registro de ocorrência em uma Delegacia denunciando a violência que tenha sofrido, entre as entrevistadas quatorze mulheres responderam que não, e apenas uma entrevistada respondeu que sim, e que registrou a violência quatro vezes ou mais (grifo nosso), demonstrando que buscou auxílio rompendo com o silêncio, e com a violência que estão enredadas. Neste sentido, importante salientar a importância de atendimento especializado, com acolhida e escuta qualificada pois, o momento da queixa é uma situação limite, na qual a mulher pode ser desencorajada a romper com o relacionamento violento se não se sentir compreendida, apoiada e segura quanto ao que está por fazer. Por menos informada ou intelectualizada que ela seja, sabe muito bem, por sua experiência prática que se trata de uma decisão que provocará consequências em sua vida, significando muitas vezes um aumento da própria violência. (STREY, 2004, p. 104) 22 Além disso, a ação de denunciar impulsiona a mulher vítima da violência a buscar o seu direito de proteção, e assim modificar o retrato de invisibilidade em que foi inserida culturalmente, sem que seja julgada como a responsável pelos atos violentos de seu marido/companheiro. 4 Família (espaço privado): tecendo considerações sobre as representações da Lei Maria da Penha Os relatos das mulheres entrevistadas sobre se é a primeira vez que toma conhecimento sobre a Lei Maria da Penha responderam na sua maioria (totalizando dez) que já a conheciam através de jornal, televisão, rádio, notícias, faculdade, leitura por ser curiosa, internet, capacitação do Conselho Tutelar e pelo Projeto. Enquanto que apenas 21 CAMPOS, Carmen Hein de. Justiça consensual, violência doméstica e direitos humanos. In: STREY, Marlene; AZAMBUJA, Mariana Porto Ruwer de; JAEGER, Fernanda Pires (org.). Violência de gênero e políticas públicas. Porto Alegre: EDIPUCRS, p. 71. Ainda sobre a violência de gênero e a reflexão com o Direito Penal ver: CAMPOS, Carmen Hein de (org.). Criminologia e feminismo. Porto Alegre: Sulina, STREY, Marlene; WERBA, Graziela C.; NORA, Thais Cardoso. OUTRA VEZ ESSA MULHER? Processo de atendimento a mulheres em situação de violência nas delegacias da mulher do RS. In: STREY, Marlene; AZAMBUJA, Mariana Porto Ruwer de; JAEGER, Fernanda Pires (org.). Violência de gênero e políticas públicas. Porto Alegre: EDIPUCRS, p. 104.

9 cinco (5) mulheres responderam desconhecer a Lei, ou seja, é o dado que confirma que a minoria tomou conhecimento através da Capacitação das Mulheres da Paz da qual fizeram parte. Perguntadas sobre no seu entendimento, qual a importância da Lei Maria da Penha para as mulheres? As mulheres se manifestaram conforme tabela abaixo (Tabela 2) 23 : E.1 Tem muitas mulheres que sofrem caladas em função do medo, então acho importante para diminuir a violência se o casal não se entende. E.2 Importante. É uma maneira de elas terem a ajuda, terem a quem recorrer, tendo vários apoios, é uma lei muito boa. E.3 Dá um suporte, dá uma segurança para a mulher. Discernimento de que pode usar a lei ao seu favor. E.4 Para elas deixarem de ser violentadas. A mulher é companheira, não deve ser violentada. E.5 Foi um marco, antes disso não havia referência. Antes a mulher fazia queixa e era humilhada. E.6 É uma lei muito boa que defendem as mulheres, mas muitas apanham porque gostam de apanhar. E.7 É importante, mas poderia diminuir muito mais. E.8 Lei específica para as mulheres. E.9 Uma proteção que elas têm. E.10 É bom, porque numa época não tinha como denunciar e a mulher era escrava, mas agora tem. E.11 Muita coisa aprendemos com a lei. E.12 Interessante porque elas ficam sabendo mais como se proteger, mas não são obrigadas a ficar com o marido. E.13 Ajuda as mulheres, mas se as mulheres souberem ser mulher de verdade a lei não tem importância... As mulheres têm os mesmos direitos que os homens. E.14 Não oculta totalmente a violência, hoje se falam, fica pior. Só pra dizer criamos uma lei. E.15 Elas têm pelo menos um norte, sabendo que tem a lei, elas podem procurar ajuda, segurança, mas às vezes ainda falta, como a delegacia, a mulher não tem privacidade e nem atendimento prioritário. Diante dos relatos podemos observar que as entrevistadas 2, 3, 5, 7 e 15 expressam a importância da Lei Maria da Penha na proteção das mulheres vítimas de violência, porque sentem-se protegidas, seguras, conforme se observa na fala da entrevistada 5, no sentido de que a Lei (...) Foi um marco, antes disso não havia referência. Antes a mulher fazia queixa e era humilhada (grifo nosso). Por outro lado, a entrevistada 6 traz em sua fala a marca de uma cultura ainda construída pelo masculino, no sentido da viabilidade do uso da força física, e o seu consentimento pela mulher que apanha quando refere que é uma lei muito boa que defende as mulheres, mas muitas apanham porque gostam de apanhar. (grifo nosso) Percebe-se no depoimento da entrevistada 14 que embora traga em seu discurso o 23 Tabela organizada pela autora utilizando a fala de cada entrevistada, sendo assim, fiel ao depoimento de cada uma.

10 descrédito com relação a Lei quando menciona que não oculta totalmente a violência, hoje se falam, fica pior. Só pra dizer criamos uma lei (grifo nosso), e fazendo o cruzamento com a pergunta anterior quando questionamos se era a primeira vez que tomou conhecimento sobre a Lei Maria da Penha, ela respondeu positivamente. Neste caso, podemos refletir em relação à entrevistada que ela não conhecia, não utilizou-se da Lei e, portanto, acredita que esta poderá apenas ser mais uma, no rol de tantas outras leis brasileiras. De certa forma, reforça e deixa transparecer que a denúncia não é a saída para romper com ciclo da violência. A entrevistada 15, tendo o conhecimento da Lei, reforça a necessidade de atendimento especializado, quando refere: elas tem pelo menos um norte, sabendo que tem a lei, elas podem procurar ajuda, segurança, mas às vezes ainda falta, como a delegacia, a mulher não tem privacidade e nem atendimento prioritário (grifo nosso). Quando peguntadas sobre se depois da Lei Maria da Penha as mulheres passaram a apanhar menos, foram unânimes em afirmar que sim (totalizando treze mulheres) pelo motivo de que a Lei trouxe medo para os homens. Na contramão desta afirmação duas entrevistadas (13 e 15) relataram que não, pois as mulheres continuam apanhando, que a violência aumentou porque está relacionada com o uso de drogas, e que não denunciam para proteger os filhos porque precisam de um lugar seguro para acolhê-los. Outra questão que tratada na entrevista foi: se você acha que a lei impede de que a mulher volte para o relacionamento, por mais de uma vez com o agressor. As entrevistadas destacam que não impedem de retornar à relação com o marido/companheiro, pois esta decisão é de cada uma, mas que geralmente voltam por causa dos filhos, por dinheiro e necessidade material, demonstrando, assim, um vínculo de dependência ao homem, o que dificulta romper com o ciclo de violência. Perguntadas se após a Lei Maria Penha as mulheres começaram a denunciar mais? Por que motivo?, todas acreditam que as mulheres passaram a denunciar mais e o motivo é que a própria Lei assegura à mulher essa possibilidade. Importante destacar a entrevistada 01 que relata: antes só se fazia o registro e não era resolvido. Uma vez um homem entrou correndo na minha casa atrás de uma vizinha minha pra esfaqueá-la. Neste sentido, o fragmento demonstra que atualmente, a mulher pode denunciar, pois a

11 sua fala tem valor, não só para a sociedade, mas para o Estado, quando seus direitos são violados. 24 Nas questões: Você poderia citar algo que conhece da Lei Maria da Penha? Acredita que a Lei Maria da Penha protege as mulheres? De que forma? E qual o maior benefício que a Lei oportunizou às mulheres vítimas da violência? Na sua grande maioria referem que a Lei possibilitou às mulheres perderem o medo de denunciar, e, com isso afastar o agressor da casa (medida protetiva), pena de prisão para o agressor, pensar na separação e ser portadora de direitos, conforme destacamos na fala da entrevistada 02: elas têm direito de escolher se querem denunciar e punir ou não o agressor (grifo nosso). A entrevistada 01 aborda a questão da liberdade no sentido de se afastarem da violência, mas ao mesmo tempo, faz um juízo de valor e acha que ainda há mulheres que merecem apanhar, como relata: As mulheres ficaram mais livres. Têm mulheres que têm medo até de conversar, então elas se sentem mais seguras. Mas tem algumas que merecem (apanhar), não vou dizer que não (grifo nosso). Perguntadas sobre: Você acha que as instituições (Polícia, Delegacia da Mulher, Conselho da Mulher, Judiciário, Ministério Público) estão dando respostas adequadas para o combate da violência contra a mulher? Relatam que as instituições precisariam agir mais, no sentido do atendimento mais rápido; ter um local adequado para o atendimento e profissionais qualificados; mais proteção para a mulher depois da denúncia; positivamente destacaram as palestras nas escolas, e na televisão; em Vacaria as respostas são dadas imediatamente (entrevistada 12); e algumas destacam que o atendimento está melhorando. Em relação à sociedade quando perguntadas - Em sua opinião, como a sociedade poderia se mobilizar para enfrentar esse problema da violência contra a mulher? O que gostaria de sugerir? - as entrevistadas sugerem que se façam palestras esclarecedoras; campanhas e movimentos para conquistar a Delegacia da Mulher; fortalecer a capacidade de denunciar a violência; persistência na tomada de atitude de afastar-se do agressor; grupos sociais e mobilização das mulheres; projetos sociais e que as denúncias fossem 24 Sobre a efetividade da Lei Maria da Penha ver: DIAS, Maria Berenice. A Lei Maria da Penha na Justiça: efetividade da Lei /2006 de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2007.

12 anônimas (entrevistada 07). CONCLUSÕES Considerando, a população amostra desta pesquisa, mulheres que participaram do Projeto Mulheres da Paz, capacitadas para serem multiplicadoras na construção e fortalecimento de redes sociais de prevenção e enfrentamento às violências que envolvem jovens no município de Vacaria/RS, que integra as ações do PRONASCI, é possível chegarmos à conclusão de que a pesquisa e a apresentação dos dados possibilitou apurar opiniões e atitudes explícitas e conscientes das entrevistadas, com relação as representações sociais sobre a Lei Maria da Penha. As constatações e o cruzamento das respostas sobre a violência contra a mulher e a repercussão no imaginário social, nos reportam aos estudos e pesquisas realizados até o momento. Alguns elementos se fizeram presentes, confirmando que as relações violentas, na sua grande maioria, apresentam-se no âmbito privado, em que a figura masculina exerce fortemente o seu poder. As questões culturais emergem no que se refere às responsabilidades no âmbito privado (lar), ou seja, do que compete ao feminino e ao masculino, demonstrando que estes papéis foram construídos historicamente, e que acabaram por repercutir inclusive na própria legislação. Infelizmente, as relações de submissão aparecem na fala das entrevistadas, o que gera a dependência e acaba por dificultar a denúncia. Por outro lado, ainda é forte a ideia de que existem mulheres que são merecedoras da violência que sofrem, e que a legislação pouco auxilia neste campo, não dando importância ao objetivo da própria Lei. Neste sentido, conseguimos identificar que as vivências de violência que se fizeram e/ou fazem presentes no cotidiano das mulheres participantes do Projeto Mulheres da Paz, permanecem internalizadas e naturalizadas nas histórias de vida de cada uma, repontando às percepções registradas nas falas que evidenciam as representações sociais sobre a Lei Maria da Penha. Os depoimentos trazem um mapeamento sobre os seus entendimentos e o grau de acesso aos direitos preconizados pela legislação protetiva, acessados não só através da

13 mídia, mas na capacitação realizada com o grupo. Diante disso, as representações sociais que as Mulheres da Paz possuem sobre a violência de vida e da violência e/ou conflitos a serem pacificados, serão percebidos também, nos bairros que atuam diretamente. Muitas impressões positivas ficaram diante do aparato proporcionado durante a formação, atendendo aos objetivos do Projeto Mulheres da Paz, no sentido de não apenas ficar restritos à uma mobilização mas, também, demonstrando a necessidade do fortalecimento e da articulação da rede de atendimento para enfrentamento da violência contra as mulheres. As entrevistadas em unanimidade fizeram referência positiva, quanto à participação na pesquisa, pois como a entrevistada 7 refere: é importante, pois é através de entrevistas assim que poderá ter novas melhorias; e por outro lado, a entrevistada 15 menciona que: gostei, porque toda contribuição que uma mulher pode dar a outras mulheres, é bemvinda (grifo nosso), o que demonstra a necessidade do conhecimento da Lei protetiva e dos caminhos a serem percorridos para denunciar. A atuação das Mulheres da Paz enquanto multiplicadoras em seus bairros, é de extrema importância diante da complexidade do tema. Os resultados demonstraram o panorama de uma realidade local que parte das percepções que se constroem a partir das vivências, do cotidiano e das situações que se apresentam nos territórios (bairros), na atuação destas mulheres. Estas são multiplicadoras na construção ou reconstrução do seu papel na sociedade, como sujeitos de direitos, bem como no fortalecimento de redes sociais de prevenção e enfrentamento às violências que envolvem mulheres/adolescentes no município de Vacaria, pois através da Capacitação puderam ter mais um conhecimento, a gente fez um curso e é bom expor o que estamos aprendendo (grifo nosso). Referências ALMEIDA, Suely Souza apud STECANELA, Nilda; FERREIRA, Pedro Moura. Mulheres e Direitos Humanos: desfazendo imagens, (re)construindo identidades. Caxias do Sul, RS: Ed. São Miguel, ARENDT, Hannah. A crise na educação. In: POMBO, Olga (org.). Quatro Textos

14 Excêntricos. Lisboa: Relógio d Água, CAMPOS, Carmen Hein de. Justiça consensual, violência doméstica e direitos humanos. In: STREY, Marlene; AZAMBUJA, Mariana Porto Ruwer de; JAEGER, Fernanda Pires (org.). Violência de gênero e políticas públicas. Porto Alegre: EDIPUCRS, CAMPOS, Carmen Hein de (org.). Criminologia e feminismo. Porto Alegre: Sulina, CANABRAVA, Beatriz. Afinal o que é gênero? Disponível em: CERTAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis, Vozes, DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. 8.ed.rev. e atual. São Paulo: Editora dos Tribunais, 2011.p.150. DIAS, Maria Berenice. A Lei Maria da Penha na Justiça: efetividade da Lei /2006 de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo: Cia das Letras, MONTENEGRO, Fábio; MASAGÃO, Vera (Ed.). Nossa escola pesquisa sua opinião: manual do professor. 2. ed. São Paulo: Global, PAIS, José Machado. Vida cotidiana: enigmas e revelações. São Paulo: Cortez, PESAVENTO, Sandra Jatahy apud STECANELA, Nilda; FERREIRA, Pedro Moura. Mulheres e Direitos humanos: desfazendo imagens, (re)construindo identidades. Caxias do Sul: Ed. São Miguel, PIOVESAN, Flávia. Temas de Direitos Humanos. São Paulo: Saraiva, ROCHA-COUTINHO, Maria Lúcia. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares. Rio de Janeiro: Rocco, p.42. SOUZA, Ricardo Sérgio. Comentários à Lei de Combate à Violência contra a Mulher. Curitiba: Juruá, STECANELA, Nilda. A crise da escola e o esboroar de seus mitos fundadores. In: SANTOS, Carla Sotero; ALMEIDA, Dóris Bittencourt (Orgs.). Educação: o uno e o múltiplo. Caxias do Sul: EDUCS, 2009, v.,p

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