AVANÇOS E DESAFIOS DA LEI MARIA DA PENHA NA GARANTIA DOS DIREITOS DAS MULHERES NO RS

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1 AVANÇOS E DESAFIOS DA LEI MARIA DA PENHA NA GARANTIA DOS DIREITOS DAS MULHERES NO RS Patrícia Krieger Grossi 1 Resumo: A pesquisa teve como objetivo verificar os avanços e desafios da Lei Maria da Penha na implementação das políticas de enfrentamento a violência doméstica contra a mulher em 12 municípios do RS. Foram realizadas entrevistas com as coordenadoras das políticas para mulheres e profissionais da rede de proteção e grupos focais com mulheres em situação de violência. A maioria dos profissionais revela fragilidades na articulação intersetorial dos serviços de proteção, dificuldades de inserção produtiva, acesso a serviços de saúde mental, tratamento de dependência química, insuficiência de casas abrigos e falta de capacitação profissional. O rompimento com a cultura machista e patriarcal dificulta a superação da violência. Entre os avanços está a medida protetiva, que tem oferecido maior segurança às mulheres, sendo a de afastamento do agressor, a mais conhecida e utilizada pelas mesmas. Destaca-se a criação da Patrulha Maria da Penha como uma forma de coibir agressores através de rondas e visitas às mulheres em situação de violência com duplas de policiais capacitados para acompanhamento das medidas protetivas. Palavras-chave: Lei Maria da Penha; violência de gênero; rede de proteção social. Introdução Nos anos 70, o movimento feminista visibilizou a violência contra a mulher e desde então, várias conquistas foram alcançadas como Delegacias de Mulheres, Centros de Referência das Mulheres, Casas Abrigos e mais recentemente, uma lei específica para coibir os crimes de violência de gênero. A Lei Maria da Penha, Lei nº procura enfrentar a violência enraizada em uma cultura sexista secular que mantêm a desigualdade de poder presente nas relações entre os gêneros, cuja origem não está na vida familiar, mas faz parte das estruturas sociais mais amplas. Um dos objetivos do movimento de mulheres foi caracterizar a violência de gênero como violação dos direitos humanos e elaborar uma lei que garantisse proteção e procedimentos mais humanizados para as vítimas. Entretanto, mesmo com a Lei Maria da Penha, a taxa de homicídios de mulheres pelos próprios maridos, companheiros ou ex-companheiros vem aumentando no RS. Segundo registros da violência contra a mulher na Delegacia de Porto Alegre, informados pela Delegada Nadine Anflor, 327 mulheres já foram assassinadas no período de 2006 a 2011; 45 mulheres assassinadas em 2012, ocorrências contra mulher registradas na Delegacia da Mulher de Porto Alegre somente no primeiro semestre de 2012, comparados com registros durante o 1 PhD em Serviço Social pela Universidade de Toronto, Canadá. Professora Adjunta da Faculdade de Serviço Social da PUCRS, Porto Alegre, RS, Brasil. Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Violência NEPEVI PUCRS. 1

2 ano de Somente no mês de maio e junho de 2013, tivemos mais de 8 mulheres assassinadas por seus ex-companheiros no RS, sendo que muitas delas possuíam medidas protetivas. Este artigo traz alguns resultados da pesquisa Avanços e Desafios da Lei Maria da Penha na Implementação de Políticas Públicas para as Mulheres no Estado do Rio Grande do Sul, que contou com o apoio do CNPq, Edital Universal. Os objetivos da pesquisa foram: a) Verificar as ações adotadas e resultados obtidos pelos Municípios na implementação da política de enfrentamento a violência doméstica contra as Mulheres; b) Analisar a efetividade do trabalho em rede na implementação da política de enfrentamento a violência contra a mulher nos Municípios do Rio Grande do Sul; c) Identificar os avanços e desafios da Lei Maria da Penha frente à implementação das políticas de enfrentamento à violência doméstica contra a mulher. Para atingir os objetivos da pesquisa, procuramos dar voz aos diferentes sujeitos envolvidos na rede de proteção, coordenadoras de políticas para mulheres, gestores, profissionais da rede de proteção à mulher e mulheres que acessaram os serviços da rede de proteção. Procedimentos Metodológicos A primeira etapa da pesquisa envolveu o mapeamento dos Centros de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS) e Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) nos municípios do Estado do Rio Grande do Sul, destacando os que possuíam Coordenadorias da Mulher. A segunda etapa de coleta de dados ocorreu em doze municípios (Porto Alegre, Caxias do Sul, Charqueadas, Canoas, Carazinho, Arroio do Tigre, Selbach, São Leopoldo, Ijuí, Santa Rosa, Passo Fundo e Novo Hamburgo). Os critérios utilizados para seleção da amostra da pesquisa foram: municípios que já estivessem implementando o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres; que tivessem Coordenadoria da Mulher e que aceitassem participar do estudo. Os dados foram coletados através de um conjunto de técnicas e instrumentos, sendo estes: grupo focal com mulheres em situação de violência doméstica que acessam os serviços; entrevistas semi estruturadas com questões abertas e fechadas com gestores e profissionais responsáveis pelos atendimentos a estas mulheres. Após as transcrições dos grupos focais e entrevistas, os dados qualitativos foram submetidos à análise de conteúdo com recorte temático com base em Bardin (1977). Resultados A partir do levantamento realizado no site da Secretaria da Mulher do Estado do RS, existem 21 Centros de Referência Municipais da Mulher, 12 Casas-abrigo, 1 Juizado de Violência 2

3 Doméstica e Familiar contra a Mulher, 16 Delegacias Especializadas da Mulher e 27 Postos de Atendimento à Mulher, 110 Coordenadorias Municipais da Mulher e 52 Conselhos Municipais de Direitos das Mulheres. Apesar da existência desta rede de serviços, esta ainda é insuficiente frente à demanda e apresenta uma certa fragilidade na articulação da rede de proteção à mulher, havendo a necessidade de efetivação das políticas intersetoriais principalmente em relação á habitação, segurança e trabalho. para o atendimento das necessidades das mulheres, A gente não tá conseguindo um contato muito agradável com o delegado, então alguns dados a gente não tem, de violência doméstica no município, a gente até pediu, temos o ofício e tudo (P1, M1). Hoje a gente vê mulheres que vão para um abrigo, e depois desse abrigo, o que elas vão fazer? Pra quem que ela vai recorrer? Não tem (P4, M2). O principal desafio é a própria falta de estrutura para atender essas mulheres no sentido dessa política pública que tem que ser implementada... (P2, M3). Hoje nós temos uma necessidade de melhoramento do posto médico legal, tanto no aspecto de estrutura física quanto também na questão de recursos humanos pra qualificar esse atendimento, porque é um momento de fragilidade dessa mulher em que ela tem que fazer o exame e que ela tem que ter um atendimento digno (P1, M6). Os dados da nossa pesquisa indicam que não basta apenas a existência de uma rede de serviços. Esta precisa estar articulada intersetorialmente com as demais políticas públicas e estar sintonizada com as necessidades das mulheres, como funcionamento 24h, pois a violência não tem horário marcado para sua ocorrência. Além disso, urge a necessidade da garantia de um atendimento com dignidade e privacidade, o que nem sempre ocorre, podendo a mulher ser revitimizada ao acessar o serviço. Em relação à rede de serviços, define-se que o termo rede é derivado do latim, significando, segundo Loiola & Moura, entrelaçamento dos fios, cordas, cordéis, arames, com aberturas regulares fixadas por malhas, formando uma espécie de tecido. Para esses mesmos autores (1997, p. 54), os conceitos de redes apontam que os fios e as malhas dão a forma básica da rede e que os fios podem corresponder às linhas ou às relações entre atores e organizações, os quais representariam as malhas ou os nós. Conforme Faleiros, As redes não são invenções abstratas, mas partem da articulação de atores/organizaçõesforças existentes no território para uma ação conjunta multidimensional com responsabilidade compartilhada (parcerias) e negociada [...] Não funcionam como convênios, mas como contratos dinâmicos em movimento e conflito, para, no entanto, realizar objetivos em que cada parte potencializa recursos que, juntos, tornam-se, também mais eficientes. A rede, assim, é uma aliança de atores/forças num bloco de ação ao mesmo tempo político e operacional (2001, p.28). 3

4 Ainda Faleiros (2001) distingue redes sociais primárias e secundárias, sendo que as primeiras são constituídas por todas as relações significativas que uma pessoa estabelece cotidianamente ao longo da vida. A rede primária é composta por familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, entre outros; e as redes sociais secundárias seriam aquelas formadas por profissionais e funcionários de instituições públicas ou privadas; organizações não governamentais, grupo de mulheres e associações comunitárias, entre outras. Essas teriam a incumbência de fornecer atenção especializada, orientação e informação. Para as mulheres residentes nas zonas rurais, a rede primária é fundamental para a denúncia das situações da violência. Sem o apoio de alguém da família ou vizinha, raramente a mulher recorre aos órgãos de denúncia, o que é dificultado pelas longas distâncias. O apoio da rede informal no enfrentamento das situações de violência é evidenciado nas narrativas das mulheres a seguir: A bisa vem me ajudando muito com as minhas filhas, então é complicado (G1, M3). Eu tenho ajuda da minha tia, a minha família me ajuda porque eu perdi a minha mãe e o meu pai, mas as irmãs da minha mãe sempre me apóiam, os meus irmãos (G4, M5). Eu fui numa vizinha. Uma vez ele me deixou com o olho roxo, brigou dentro de casa e com as crianças junto. Aí a vizinha disse que não podia ficar com um cara assim, ele saia, fazia festa e vinha de manhã, queria entrar em casa, as crianças dormindo, queria brigar. Ela disse que não podia ficar assim, se eu não ia dar parte, ela ia dar parte dele. Aí eu fui na delegacia e dei parte e lá eles me indicaram para a Lei Maria da Penha (G2, M3). Olha, eu tô fazendo assim: eu tô dormindo na casa de uma amiga agora (...) aí eu deixo as minhas filhas na vizinha, a minha vizinha vai lá para a casa da minha amiga (G4, M6). No que se refere à rede de serviços dos seus municípios, as mulheres destacam o Conselho Tutelar (pois muitas delas possuem filhos que também são vítimas da violência doméstica), a escola (que pode atuar na identificação e intervenção nos casos de violência), Brigada Militar e Emater (no caso das mulheres rurais). Na organização em rede, os atores envolvidos assumem uma ação combinada e decidem participar, engajam-se nessa ação como sujeitos de seus compromissos (GROSSI, TAVARES, OLIVEIRA, 2009, p. 216). No entanto, quando perguntamos sobre a rede de proteção da mulher, observa-se que há falta de conhecimento e informação sobre a rede de serviços especializada existente para as mulheres em situação de violência. Aqui especificamente, praticamente acho que não tem nenhuma rede exclusiva para a mulher (G3, M2). Não, nunca ouvi falar (da rede) (G2, M7). E ai eu fiquei lá e ninguém me atendeu, então eu peguei e sai. Eu fiquei lá trinta minutos sentada e peguei e sai. Até nem sei para que serve, eu fui lá porque eu não sabia aonde ir (G1, M7). 4

5 As mulheres relatam que há pouca informação em relação à rede de atendimento à mulher que o município oferece. Dessa forma, dificulta o acesso das mesmas aos serviços, portanto, a permanência em situações de violência pode ser prolongada. Ai eu fui à delegacia da mulher, ai ela me falo que tinha a coordenadoria da mulher, daí eu fui na coordenadoria e não fui bem tratada, fui ali e resolvi ir para a casa (G8, M8). Eu to hoje aqui procurando (a Coordenadoria da Mulher), pra ver se vocês podem me ajudar porque eu não sei mais o que fazer (porque o filho está agindo como o ex-marido). Bater eu não quero porque não é justo bater neles, mas eu não sei mais o que fazer, tô bem perdida mesmo (G6, M8). De acordo com os dados do Disque 180, em 66% (17.438) dos casos, filhas e filhos presenciaram as agressões de suas mães. Em (18%) das agressões, elas e eles também foram vítimas de violência. Na situação acima, ocorre a reprodução da violência por parte do filho. Urge a necessidade de programas voltados para toda a família, para atuar na perspectiva de prevenção da violência. Um dos grandes desafios em tempos de lei Maria da Penha é modificar as práticas costumeiras no trato das questões envolvendo conflitos conjugais. As mulheres buscam um espaço no qual possam ser acolhidas, ouvidas, respeitadas, não julgadas, apoiadas e orientadas no seu processo decisório. Quando uma mulher não se sente bem tratada, as chances de retorno ao agressor se intensificam. Este percurso que a mulher percorre na busca de seus direitos é conceituado por Sagot (2007) como rota crítica, cujo início da rota envolve o rompimento do silêncio. Os fatores que impulsionam as mulheres a iniciarem uma rota crítica podem ser de dois tipos: internos ou externos. Os fatores internos estão associados a processos pessoais, sentimentos e razões. Os fatores externos relacionam-se com as condições ambientais como apoio, recursos materiais, informação, qualidade dos serviços e até aumento da violência. [...] Dada a quantidade de fatores intervenientes, a rota crítica é um processo complexo, não linear, que implica avanços e retrocessos. (SAGOT, 2007, p. 45). Quando a mulher não é bem tratada, contribui para o retrocesso na rota de superação da violência. Sagot alerta que em comunidades distantes, a dificuldade de acesso à rede de serviços é maior[...] Além disso, a ausência dessas organizações em muitas das comunidades produz um vazio de apoio e de estímulo para as mulheres que desejam iniciar uma rota de busca de ajuda. Apesar das forças dos fatores inibidores, que às vezes adquirem o caráter de uma grande conspiração social, muitas mulheres chegam em determinado momento a um nível de saturação que se torna 5

6 insuportável e faz com que se decidam a empreender ações para terminar com a violência como muitas mulheres do nosso estudo. Verifica-se que existem estratégias dos municípios para sensibilização em relação à Lei Maria da Penha, as quais são realizadas através de: visitas domiciliares às mulheres, grupos de apoio, seminários na comunidade e capacitação de profissionais e agentes de saúde para identificação da violência e orientação às mulheres na perspectiva de garantia dos direitos previstos na Lei. Estas iniciativas porém são esparsas e muitas políticas não contam com a equipe mínima prevista de profissionais, além dos recursos necessários para mobilizar ações protetivas. A falta da rede de proteção faz com que muitas mulheres se sintam inseguras, mesmo com medidas protetivas de afastamento do agressor. Nas falas das mulheres, a violência aparece em suas múltiplas expressões (física, psicológica, patrimonial, sexual e moral). A violência é entendida como expressão das relações sociais e interpessoais, pois está presente nas relações intersubjetivas entre homens e mulheres. Também se expressa através da negação de valores universais, como a liberdade, a igualdade e a vida e também viola a dignidade humana. Quando questionadas sobre o conhecimento da referida Lei percebe-se que a maioria tem conhecimento da mesma, porém, têm-se visões diferentes (negativas e positivas) a respeito da Lei. Destacamos nos fragmentos abaixo as mulheres que reconhecem a Lei Maria da Penha e que são a favor do uso dela: eu acho que veio muito bem em defesa da mulher, porque muitas vezes a mulher não tinha aquele apoio, aonde ela ia se ampara? (G3, M2). Mas uma coisa que também melhorou é, antigamente, anos atrás, que sempre era tirada a vítima de casa e ali a gente via que era uma violência de novo, porque além dela ser vítima, ela acaba sendo retirada de casa e hoje não, quem sai de casa é o agressor (G3, M2). Essa Lei Maria da Penha foi um respeito (para as mulheres) (G4, M2). Ai, eu achei ótima né, muito boa essa lei que veio, acho que se eu não tivesse colocado ele lá e não tivesse essa Lei eu já tava morta (G4, M2). Eu gostei por que mostrou pra ele que não é conforme ele quer, conforme ele achava que era, ele achava que ele era o homem da casa, que ele podia fazer e acontecer e nada acontecia com ele. Daí foi resolvido numa boa. (G1, M9). No que se refere às medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha, as mulheres relatam que conhecem a medida de afastamento, sendo que as demais medidas protetivas são ignoradas pelas mesmas. Eu nem sabia que tinha mais que uma (a medida protetiva que ela conhece é a de afastamento de 200 metros), eles me ofereceram, perguntaram se eu queria e eu disse que sim, lógico, porque eu tinha medo (G1, M7). 6

7 Depois que ele (agressor) recebeu essa medida protetiva pelo menos sumiu até da casa da minha filha que ele vivia lá pedindo onde é que eu tava Sumiu. Sabe que não pode se aproximar de nós. Pra mim fui bem atendida na Lei (G8, M8). Eu fiz o registro lá na delegacia, daí foi sair o afastamento dele, que proibia ele de chegar e ir entrando na minha casa, me ameaçando no meu serviço, daí 4 ou 5 dias depois que oficial veio com o papel que ele estaria sendo proibido de chegar a 100 metros de mim ou perto da minha casa ( G1,M5). No começo ele não respeitava, não sei se ele achava que era brincadeira ou o que. Continuou infernizando a minha vida até onde ele pode, e depois que ele foi preso, como não faz muitos dias que ele foi solto, ele não tem se aproximado de mim. E eu pretendo que continue assim, cada um num canto (...) (G2, M7). No relato de algumas mulheres, elas informam que a medida protetiva de afastamento do lar não funciona, pois seus maridos e/ou companheiros descumprem a medida e não vão presos quando a polícia é acionada. Esta última, segundo fragmentos das mulheres também nem sempre comparece toda vez que solicitada. Uma amiga minha foi nessa Lei Maria da Penha, ela foi lá, fez as ocorrências e no fim não deu em nada né. Toda essa função que teve, ela acabou levando uma facada do marido, mesmo com a proteção toda que botaram né e ela levou duas facadas do ex-marido dela (G1, M3). Com a minha amiga, o cara chegou a matar ela. Ele deu três tiros nela, ele era policial, deu três tiros à queima roupa (G1M3). Eles falam, falam que tem proteção preventiva [protetiva], só que ele ta indo lá em casa. Eu já liguei para a polícia, tu acha que a polícia foi, ela não foi. sim, ele foi lá em casa.. Às vezes, isso tudo para mim parece uma brincadeira sabe? Ele pode entrar lá na hora que ele quiser (G2, M3). Observamos que muitos profissionais não informam para as mulheres que a Lei Maria da Penha prevê outras medidas protetivas, além do afastamento do agressor do lar e proibição de aproximação da mulher e dos filhos, como restrição das visitas, retirada do porte de armas, prestação de alimentos, proibição de contato com os familiares da vítima; proibição de venda e locação de bens e restituição de bens subtraídos indevidamente da mulher, entre outras, visando a proteção patrimonial. ). ressalvas: Há algumas mulheres que relatam positivamente em relação à medida protetiva, mas com O que eu acho interessante são as medidas protetivas, eu fiz isso na segunda feira e na quarta feira eu voltei pra minha casa, então, pra mim até agora, ela foi eficiente. (...) mas a irmã dele que vem até a minha casa buscar algumas coisas que ele precisa pra trabalhar, sempre traz algum recado, enfim... E a conclusão que eu cheguei é que se eu retirar a queixa, tudo bem, se eu não retirar a queixa, depois que sair o divórcio, ai eu volto a correr risco de vida. Entende? (G4, M8). Nesta situação, a irmã está sendo usada como pombo-correio pelo agressor e as ameaças continuam. Neste caso, a medida protetiva prevista na Lei Maria da Penha deve se estender a todos os familiares do agressor para que a mulher se sinta segura no seu processo de tomada de decisão. Em caso de lesão corporal, a ação penal é incondicionada, isto é, não necessita da representação da 7

8 mulher para ir adiante o processo, isto é não pode mais ser retirada a queixa como costumava ocorrer anteriormente devido às ameaças do companheiro ou reconciliação do casal. Em outras situações, as mulheres relatam experiências bem sucedidas em relação às medidas protetivas de afastamento a seguir: Mas depois que recebeu essa medida protetiva pelo menos sumiu até da casa da minha filha que ele vivia lá pedindo onde é que eu tava, coisa assim. Sumiu. Sabe que não pode se aproxima de nós. Pra mim fui bem atendida na lei (G8, M8). Estou me sentido segura. (...) Bem segura, graças a Deus (com a medida protetiva). (G9, M8). Tranquila, tranquila (que está se sentindo graças a medida protetiva) (G8, M8). Comecei a dormir, ontem dormi até de tarde, coisa que eu não dormia nem de tarde nem de madrugada, de jeito nenhum (G3, M7). Em relação às mudanças nas suas vidas após acionarem a Lei Maria da Penha, as mulheres referem sentimentos ambivalentes, sendo que o medo e a insegurança continuam presentes, além de prejuízos na vida emocional, laboral e afetiva. Depois que eu coloquei ele na Lei Maria da Penha, coloquei ele fora de casa, ele ficou um tempo fora de casa, até né,(...) depois disso, ele não me agride mais, (...)Trouxemos ele de volta, agora ele ta querendo fazer de novo né, pra mim. (G4, M2). Eu fui para casa e ele podia entrar; fazer o que ele quisesse, porque é assim né. Eu to sempre completamente insegura, tu não denuncia porque tem medo (...) Aeu fiquei assim por quase um ano, eu tinha medo de sair, de conversar com as pessoas (...) Mas muda tudo né, tipo, tu cria um amor próprio, mas a gente tem medo no começo né... (G1, M7). Ele ficou 5 horas (preso) e tu nunca vai ter a certeza de tá tranqüila, chega em casa sempre com aquela insegurança. Se eu tirar a queixa, ele não vai fazer nada, se eu não retirar, ele vai tentar. (...) Eles continuam com a vida normal deles, nós não, nós estamos abaladas psicologicamente, nós nos prejudicamos no trabalho porque o nosso rendimento baixa, tu para de estudar... (G4, M8). Enquanto a gente procura ajuda psicológica, a gente cuida dos nossos filhos, a gente fica desempregada sabe, a gente fica dependendo dos outros, eles não, eles agem como se nada tivesse acontecido. (...) (G3, M8). Olha, deprimida assim, que nem eu digo, eu até fui procurar ajuda, fui procurar tratamento com psicóloga, (...) eu não consigo me ver com alguém, eu penso que no começo sei lá, pode ser um relacionamento normal, mas depois quando a gente for morar juntos, será que vai ser a mesma coisa? Sabe, o medo vai ficar sempre (G2, M7). A Lei Maria da Penha foi um avanço para a garantia dos direitos das mulheres, principalmente em relação à retirada do agressor de casa, porém as seqüelas psicológicas decorrentes da violência permanecem nas mulheres, conforme indicam os relatos, influenciando futuros relacionamentos e projetos de vida. Trabalhar na perspectiva do empoderamento das mulheres implica na existência de políticas públicas articuladas que possam oferecer além da segurança necessária ás mulheres, apoio psicológico para a mulher e filhos, garantia de renda, entre outros. A perspectiva do empoderamento também esteve presente nas narrativas dos profissionais da rede de proteção e coordenadoras de políticas para as mulheres. 8

9 Uma das questões fundamentais para a superação da submissão e o rompimento do ciclo de violência é o empoderamento da mulher. Está presente na fala dos profissionais a autonomia financeira como um dos primeiros passos para o fortalecimento da mulher que vivencia situações de violência doméstica. Se elas estiverem empoderadas o suficiente para acabarem com a violência, elas vão direto para a defensoria, com um protocolo de pedido de separação, não tem a necessidade de acionar a parte penal e fazer uma representação criminal com o acusado, que elas não querem também prejudicar os agressores. Elas querem às vezes só se separar e em curto prazo, pedir o afastamento é mais rápido (P2, M3). A autonomia financeira e econômica das mulheres é um elemento fundamental para que ela possa romper com o ciclo de violência (P1, M5). Tanto no enfrentamento a violência contra a mulher, é como a questão da autonomia econômica de projetos que visem à geração de renda, na questão da saúde da mulher, enfim, em todos os aspectos da vida dessa mulher, a coordenadoria tem a missão de elaborar, construir, propor políticas públicas assim como articular ações e programas que visem melhorar a vida das mulheres (P1, M5). Percebe-se que com a Lei Maria da Penha, torna-se novamente pública a questão da violência contra as mulheres, negativizando sua ocorrência e indo pelo caminho oposto ao da banalização. Porém, somente a judicialização não resolve a situação da violência contra a mulher. Em relação à essa questão, Pougy (2010, p.5), reafirma a compreensão de que a judiciarização envolve um conjunto de práticas e valores que interpretam a violência conjugal de modo criminalizante e estigmatizante, na qual se reafirma a dualidade vítima e agressor, tratada por meio de oposição simples, onde um pólo vence o outro. Propõe a intervenção interdisciplinar, na qual as diferentes disciplinas e profissões poderiam reunir subsídios à construção de metodologias inovadoras. A Lei Maria da Penha também prevê assistência às vítimas através das políticas de assistência social, saúde e educação e centros de reabilitação para agressores, o que ainda não foi efetivado, constituindo-se um grande desafio para as políticas públicas. Outro desafio é a implementação da transversalidade de gênero nas políticas públicas, efetivada através da interdisciplinaridade e da intersetorialidade na criação de serviços especializados dentro da estruturação da Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Trabalhar esses princípios pressupõe o desenvolvimento de uma articulação em rede. O conceito de Rede de atendimento refere-se à atuação articulada entre as instituições/serviços governamentais, não-governamentais e a comunidade, visando à ampliação e melhoria da qualidade do atendimento; identificação e encaminhamento adequado das mulheres em situação de violência; e ao desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção. A constituição da rede de atendimento busca dar conta da complexidade da violência contra as mulheres e do caráter multidimensional do problema, que perpassa diversas áreas, tais como: a saúde, a educação, a segurança pública, a assistência social, a cultura, entre outros. (BRASIL, 2005, p.14) 9

10 Um dos avanços com a Lei Maria da Penha foi a criação da Patrulha Maria da Penha no RS em A Patrulha Maria da Penha é composta de quatro policiais militares que fazem rondas nos quatro territórios da Paz de Porto Alegre para acompanhar os casos de violência doméstica contra mulheres e o cumprimento das medidas protetivas. As visitas são realizadas durante o dia por uma equipe de dois policiais homens e duas policiais mulheres para que as mulheres vítimas se sintam mais acolhidas e também realizam rondas à noite. A idéia é acompanhar todas as mulheres que tiverem solicitado medida protetiva na Delegacia de Mulheres para mostrar que o Estado se importa com a sua segurança, poder verificar se o agressor a está importunando ou ameaçando. A iniciativa é pioneira em Porto Alegre e está sendo ampliada para outros 25 municípios do RS. Já foram capacitados em torno de 600 policiais. Os integrantes da Patrulha Maria da Penha participaram de um grupo focal em Porto Alegre e pontuaram os motivos que levaram à criação dessa ação. a gente fez o diagnóstico da violência também, da mulher no Estado como um todo, e fizemos um diagnóstico dos 5 anos da violência contra a mulher no período dos 5 anos da lei Maria da penha e ai se identificou que 95% das mulheres assassinadas tinham uma ocorrência de estupro,lesão corporal e ameaça de 2 a 6 meses antes delas serem assassinadas, então na verdade por isso que o trabalho da patrulha Maria da Penha é tão importante, identificação das prioridades... (P10, M5) Só que infelizmente estas (assassinadas) não pediam medida protetiva, estas que estavam numa faixa digamos assim risco total extremo, elas não pediam medida protetiva, elas não faziam valer os direitos que elas tinham. (P11, M5) muitas mulheres diziam o que adianta, porque muitas vezes nós tínhamos que abrir a porta para ele entrar porque as mulheres não tem para onde ir, não se tem casas abrigo suficiente para estar acolhendo aquela mulher e os filhos...(p10, M5) Com a Patrulha, a intenção é intimidar o agressor a não procurar a companheira. Ressaltase a importância também de um trabalho com a comunidade para sensibilizá-la em relação à violência e ser parceira na luta contra todas as formas de violência, especialmente, a conjugal, que muitas vezes, fica invisibilizada e vizinhos temem denunciar por medo de represálias do agressor. Na última fala, destaca-se a importância da rede de serviços como casas-abrigos para mulheres e filhos em número suficiente para atender a demanda, pois muitos homens não respeitam a medida protetiva mesmo com a Patrulha Maria da Penha. A questão do trabalho com a vizinhança também surgiu no grupo focal como um dos desafios da Patrulha Maria da Penha. acredito que seja um desafio, que comunidade abraçasse esta idéia também e ficasse com este cuidado a esta mulher vítima de violência, que como foi dito quando chega a patrulha, os vizinhos já falam, olha eles estão vindo! Aquela história que briga de marido e mulher não se mete a colher não é bem assim...então eles sabem que vai ter alguém que vai dar este suporte em outro momento (P10, M5) Conclusões 10

11 Em relação aos desafios apontados neste artigo, destacamos a importância da implementação de políticas intersetoriais que possam atender as necessidades das mulheres como habitação pós abrigo, atendimento psicossocial para todos os membros da família, acesso à tratamento para dependência química, educação, renda e principalmente, a humanização no atendimento, respeitando as singularidades do processo de violência vivenciado por cada mulher e contribuindo para a criação de estratégias coletivas de enfrentamento às múltiplas formas de opressão. A Lei Maria da Penha é o primeiro passo para mostrar à sociedade que em briga de marido e mulher se mete a colher, porém a rede de atendimento à mulher deve estar disponível e esta precisa se sentir segura, pois o enfrentamento da violência contra a mulher vai além da denúncia. Romper com as amarras da opressão de gênero, raça/etnia e classe social e com os resquícios da cultura patriarcal e patrimonialista torna-se o primeiro passo para que as mulheres possam ser resgatadas em sua condição de sujeito de direitos e não serem mais assujeitadas pelas marcas de um sistema patriarcal, capitalista e racista que perpetua as desigualdades. Isto envolve a capacitação profissional dos operadores da rede de serviços, dos operadores jurídicos e a sensibilização dos gestores públicos para a implementação de ações que desconstruam os padrões e estereótipos culturais sexistas e machistas que reforçam este quadro. Referências BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa/Portugal: Edições 70, Ltda, 1977, 225 p. BRASIL. Lei nº Lei Maria da Penha. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Brasília, BRASIL. Secretaria de Políticas das Mulheres. Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Brasília: DF, FALEIROS, Vicente de Paula. Estratégias em Serviço Social. SP: Cortez, GROSSI, P. K., TAVARES, F., & OLIVEIRA, S. B. A rede de proteção à mulher em situação de violência doméstica: avanços e desafios. Athenea Digital, 14, , 2009, disponível em <http://psicologiasocial.uab.es> LOIOLA, E.; MOURA, S. Análise de redes: uma contribuição aos estudos organizacionais. In: FISCHER, T. (Org.). Gestão contemporânea: cidades estratégicas e organizações locais. Rio de Janeiro: Editora da FGV, POUGY, Lilia Guimarães. Desafios Políticos em Tempos de Lei Maria da Penha. Rev. Katál. Florianópolis v. 13 n. 1 p jan./jun

12 SAGOT, Montserrat. A Rota Crítica da violência intrafamiliar em países latino-americanos. In: Stella Nazareth Meneghel (org.). Rotas Críticas: Mulheres Enfrentando a Violência. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2007, p Advances and challenges of Maria da Penha Law in the guarantee of rights of women in RS Abstract: The research aimed to verify the progress and challenges of the Maria da Penha Law on the implementation of policies addressing domestic violence against women in 12 municipalities in the RS. Interviews were conducted with the coordinators of policies for women and professional from the network protection and focus groups with women in situations of violence. Most professionals reveals weakness in the intersectoral protection services, difficulties in the inclusion of income generation programs, access to mental health services, chemical dependency treatment, lack of shelter homes and lack of professional training. The break with the patriarchal and macho culture makes it difficult to overcome violence. Among the improvements is a protective measure, which has offered greater security to women, and the expulsion of the offender, and it is the most known and used by them. Noteworthy was the creation of the Maria da Penha Patrol as a way to curb abusers through rounds and visits to women in situations of violence with double police trained to follow the protective measures. Keywords: Maria da Penha Law. Gender violence. Social safety net. 12

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