A Lei 9.601/98 e o Contrato de Trabalho por Tempo Determinado. Artur Luis Pereira Torres

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1 A Lei 9.601/98 e o Contrato de Trabalho por Tempo Determinado 1 Artur Luis Pereira Torres Intróito. 1. Contrato a prazo e trabalho temporário: : realidades inconfundíveis? 2. Os ordenamentos espanhol e italiano como exemplos de intervenção estatal na política de criação e estimulação de empregos. 3. A Lei 9.601/98 e sua repercussão no quadro do crescimento formal do emprego no Brasil. Considerações Finais. Intróito A Lei 9.601/98, agradando alguns e aterrorizando outros tantos, acabou por movimentar a doutrina laboralista do final da década de noventa. Especulações a respeito do acerto ou desacerto da política por ela adotada não faltaram, no entanto, não passaram de meras meditações. Perpassados doze anos de sua publicação parece-nos tenha transcorrido tempo hábil para, sem quaisquer precipitações, identificarmos se detinham razão (a) os que a repugnaram ou (b) os que aplaudiram-na. Longe de pretender estudá-la em minúcias (prazos, condições e detalhes), o desiderato aqui almejado não supera a realização de análise macroscópica capaz de identificar em que medida contribuiu a adoção da política para a efetiva recuperação (ou não) do mercado de trabalho formal no Brasil. Perguntamo-nos, então: a adoção da política surtiu os efeitos desejados em solo nacional, ou empresariado se fez valer da previsão legal para reduzir contratações por 40

2 prazo indeterminado?? Aumentaram o número de postos formais de emprego no Brasil, ou tal medida não passou de mera precarização dos direitos trabalhistas? É hora de checar o que se tornou, de fato, realidade entre nós. 1 Laureado Dom Antonio Zattera pela Universidade Católica de Pelotas; Especialista em Direito Processual (PUC/RS); Mestre em Direito (PUC/RS); Professor convidado do PPG em Direito e Processo do Trabalho (PUC/RS); Professor do PPG em Direito de Família (PUC/RS); Professor convidado da Fundação Escola Ministério Público RS; advogado. 41

3 1. Contrato a prazo e trabalho temporário: : realidades inconfundíveis? Cumpre, antes de investigar os malefícios ou benefícios oriundos da publicação da Lei 9.601/98, rememorar o critério legislativo utilizado para dissociar dois importantes institutos do direito do trabalho: contratos a prazo e trabalho temporário. Os contratos individuais do trabalho revelam-se classificáveis a partir de diversos critérios. Do ponto de vista da forma mediante a qual são pactuados, poderão revelar- se verbais ou escritos; ; do ponto de vista da forma mediante a qual as partes o anuem, tácitos ou expressos e, finalmente, do ponto de vista do tempo que devam perdurar, por prazo determinado ou 2 indeterminado. No que diz com a derradeira possibilidade (a que interessa mais de perto), considerada a excepcionalidade de seu aceite, a Consolidação das Leis do Trabalho tratou de conceituar e enumerar expressamente as possibilidades de sua contratação. Fez constar, destarte, que considera a prazo os contratos de trabalho cuja vigência dependa de termo prefixado ou da execução de serviços especificados ou ainda da realização de certo acontecimento suscetível de previsão aproximada. 3 4 Os contratos por prazo determinado são assim nominados em contraposição aos contratos por prazo indeterminado, regra no direito brasileiro, e nada obstante possuam regramento peculiar (especialmente o rescisório), revelam a existência de vínculo laboral entre o empregado contratado para laborar por período predeterminado e a figura clássica do empregador descrita pelo artigo 2º da CLT. 5 6 O trabalho temporário, espécie de contrato por tempo determinado, não se confunde com a noção supra esposada no que diz com a vinculação entre o prestador e tomador da mão de obra. Regulado pela Lei 6.019/74, o epíteto revela a existência de relação triangular entre (a) uma empresa de trabalho temporário ETT, 7 (b) uma empresa tomadora de serviço ETS e, 2 3 Prevê o artigo 443 da Consolidação das Leis Trabalhistas brasileiras que o contrato individual de trabalho poderá ser acordado tácita ou expressamente, verbalmente ou por escrito e por prazo determinado ou indeterminado. Art (...) 1º -Considera-se se como de prazo determinado o contrato de trabalho cuja vigência dependa de termo prefixado ou da execução de serviços especificados ou ainda da realização de certo acontecimento suscetível de previsão aproximada. (Parágr (Parágrafo único renumerado 42

4 6 4 5 pelo Decreto-lei nº 229, de ) As possibilidades de sua concretização (de acordo com a CLT) e a potencial abertura do sistema mediante a publicação da Lei 9.601/98 figurarão como objeto de abordagem do item 3 destes escritos. Art. 2º -Considera-se se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço. 1º -Equiparam-se ao empregador, para os efeitos exclusivos da relação de emprego, os profissionais liberais, as instituições de beneficência, as associações recreativas ou outras instituições sem fins lucrativos, que admitirem trabalhadores como empregados. 2º -Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade jurídica própria, estiverem sob a direção, controle ou administração de outra, constituindo grupo industrial, comercial ou de qualquer outra atividade econômica, serão, para os efeitos da relação de emprego, solidariamente responsáveis a empresa esa principal e cada uma das subordinadas. (...) no contrato de trabalho a prazo o vínculo empregatício se estabelece diretamente entre o empregado e a empresa que o admite.. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. São Paulo: LTr, p Art. 4º - Compreende-se como empresa de trabalho temporário a pessoa física ou jurídica urbana, cuja atividade consiste em colocar à disposição de outras empresas, temporariamente, trabalhadores, devidamente qualificados, por elas remunerados e assistidos. 43

5 (c) o trabalhador temporário. Trabalho temporário, na definição do art. 2º da Lei n , de 3 de janeiro de 1974, é aquele prestado por pessoa física a uma empresa, para atender, necessidade transitória de substituição de seu pessoal regular e permanente ou acréscimo extraordinário de serviços. 8 Em suma, é preciso compreender que a prestação do trabalho temporário tem como pano de fundo a celebração de um contrato de natureza civil entre dois empresários. O primeiro deles (responsável pela empresa de trabalho temporário) ) obriga-se a colocar a disposição do segundo (responsável pela empresa tomadora de serviço) trabalhador a ele vinculado, para fins de atender necessidade provisória deste (seja em razão da troca de seu quadro de empregados, seja em decorrência do acréscimo extraordinário de serviço). 9 A despeito do que ocorre com os contratos a prazo previstos pela CLT, inexiste vínculo trabalhista entre empresa tomadora do serviço e trabalhador temporário (eventual reconhecimento de vínculo trabalhista entre ambos dependerá do desrespeito ao prazo legal). Vínculo existe, porém, entre a empresa de trabalho temporário eo trabalhador temporário. Os contratos previstos pela CLT (gise-se, se, onde há vinculo empregatício entre aquele que presta e quem recebe a prestação do serviço), com exceção do contrato de experiência,, poderão ser pactuados por até dois anos. 10 A prestação de trabalho temporário, consoante prescreve o artigo 10 da Lei 6.019/74, não poderá exceder de 3 (três) meses, pena de reconhecimento de vínculo entre trabalhador temporário e empresa tomadora do serviço. 11 Os institutos não devem ser baralhados pelo só fato de possuírem limitação temporal, no entanto, não há negar que analisados a partir do critério do tempo que devam perdurar,, revelam realidades assemelhadas. Em ambos é possível conhecer previamente o período máximo pelo qual surtirão efeitos enquanto contratos a termo. Distinguem-se, portanto, com relação a distinto critério. Em suma, a Lei 9.601/98 possibilita contratação a termo em situações distintas daquelas previstas pela CLT (a autorização deriva de instrumento coletivo) e deve ser compreendida, a exemplo do realizado em ordenamentos outros, como instrumento de adoção de política combativa a altas taxas de desemprego que assolaram o Brasil do final do século XX. 44

6 8 ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p A respeito: MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. 21 ed. São Paulo: Atlas, p Os contratos de experiência não poderão superar 90 dias. Art. 10 -O contrato entre a empresa de trabalho temporário e a empresa tomadora ou cliente, com relação a um mesmo empregado, não poderá exceder de três meses, salvo autorização conferida pelo órgão local do Ministério do Trabalho e Previdência Social, segundo instruções a serem baixadas pelo Departamento Nacional de Mão-de-Obra

7 2. Os ordenamentos espanhol e italiano como exemplos de intervenção estatal na política de criação e estimulação de empregos Consoante preleciona doutrina de renome, pelo menos dois países de peso (em matéria trabalhista), no intuito de alargar o mercado formal de trabalho, se fizeram valer de expediente semelhante ao adotado pela Lei 9.601/98: Espanha e Itália. Editado em 1980 na Espanha, o Estatuto dos Trabalhadores (Lei n. 8) consagrou a presunção de que os contratos de trabalho deviam ser estipulados, em regra, por prazo indeterminado,, admitindo excepcionalmente a contratação a prazo.. No entanto: O agravamento da crise econômica e o aumento progressivo dos níveis de desemprego determinaram a necessidade de dar nova redação ao art. 15 do Estatuto dos Trabalhadores, a fim de se admitir em caráter geral a celebração de contratos de duração determinada, surgindo o denominado sistema conjuntural de duração determinada. O contrato de incentivo ao emprego tem como principal característica a inexigibilidade de causa objetiva que justifique a predeterminação da duração do ajuste. Esta reforma foi obra da Lei n. 32/1984, de 2 de agosto. Tal política manteve-se por aproximadamente uma década. Visando combater o desemprego que agonizou a Espanha do início dos anos noventa, três importantes diplomas legislativos foram promulgados (Leis 10, 11 e 14/1994). A Lei 10/1994 prestou-se, dentre outras, a suprimir a previsão constante do artigo 15 do Estatuto dos Trabalhadores (que consolidava a previsão de que os contratos de trabalho deveriam ser interpretados como por prazo indeterminado); a Lei 14 revogou o artigo 43.1, tornando lícita a atuação de empresas de trabalho temporário, mediante a justificativa de que a quase totalidade dos países que compunham a União Européia admitia tal expediente. O novo Estatuto dos Trabalhadores (1995) manteve, inauguralmente, idêntica sistemática. 16 Contudo, a grande rotatividade da mão-de-obra obra e impossibilidade de implementar processos de qualificação profissional dos trabalhadores conduziram o legislador espanhol, em 1997, a rever a orientação até então adotada. O princípio da continuidade do contrato de trabalho reconquistou seu espaço. 17 A política social não prosperou em solo 12 ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. Direito do Trabalho: Temas abertos. p. 202/

8 Segundo Arion Sayão Romita parcela da doutrina brasileira, em nome de interesses obscuros (a) realiza distorção relativa a realidade do ordenamento espanhol no que diz com o tema contratos a prazo e, (b) ignora/omite a experiência a italiana no concernente, visando apedrejar, quase sempre por motivos ideológicos facilmente identificáveis, o conteúdo da Lei 9.601/98. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p. 202/224. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p Tal alteração, segundo Romita, representou uma evolução legislativa digna de nota, porque revelou a sensibilidade do poder público no concernente ao grave problema do desemprego. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p. 204/205. O Decreto Legislativo número 1 de 1995 foi responsável pela aprovação do novo Estatuto dos Trabalhores ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p Essa reforma foi implementada por meio de dois reais decretos-leis: 1º -n. 8/1997, de 16 maio, sobre medidas urgentes para a melhoria do mercado de trabalho e incentivo à contratação por tempo indefinido. Foram introduzidas alterações no Estatuto dos Trabalhadores. As novas disposições articulam uma modalidade para o incentivo à contratação por tempo indeterminado, dirigidos a grupos especialmente afetados pelo desemprego e a instabilidade trabalhista; além disso, deu-se maior prestígio à negociação coletiva na contratação de empregados; 2º -n. 9/1997, de 47

9 espanhol. O ordenamento italiano fez-se valer de política assemelhada, todavia, ao que tudo indica, com melhor sorte. 20 No início do último quartel do século passado, sob idêntico pretexto (combate ao desemprego), implementou inovadora tendência: expansão do aceite da contratação a termo. 21 No ano de 1987 surge no direito italiano algo à semelhança do disposto pela Lei 9.601/98: Atenuou-se em conseqüência o desfavor manifestado pelo legislador no tocante ao contrato de trabalho a prazo. Este passou a ser tido por eficaz instrumento de flexibilização a ser utilizado pelas empresas, surgindo uma tendência a conceder crescente espaço ao contrato a termo, a ponto de se falar em uma inversão do histórico desfavor cultivado no passado, tendência esta que culmina com a promulgação da Lei n. 56, de 28 de fevereiro de 1987, que atribui à negociação coletiva, promovida pelos sindicatos de trabalhadores mais representativos, a tarefa de fixar novas hipóteses de contratações a termo, além daquelas previstas em lei. Anteriormente a este diploma, outras leis haviam sido editadas, sempre com o mesmo desiderato, a saber, o aumento da possibilidade de celebração de contratos de trabalho por tempo determinado (...). (grifos nossos) 22 O quadro evolutivo, a partir do início dos anos oitenta, apresentou-se galopante, tendo, inclusive, redundado em 1997, na queda do tradicional impedimento de interposição no trabalho, admitindo-se a figura do trabalhador temporário. 23 Nada obstante tenha o ordenamento espanhol dado passo atrás (ou seja, por lá a política não obteve os resultados almejados), o sistema italiano (nossa matriz ideológica) segue firme em sua proposta, o quê nos leva a crer que o acerto na adoção da política em epígrafe (leia-se, seu sucesso ou insucesso) será passível de identificação apenas quando analisado isoladamente suas consequências em dado ordenamento jurídico. Nesta linha, portanto, importa verificar (a) quais as consequências de sua implementação na realidade brasileira,, não sem antes, é claro, preparar o terreno para tanto de maio, peloqual se regulam incentivos em matéria de seguridade social e de caráter fiscal para a promoção da contratação indefinida e a estabilidade no emprego.. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p. 207/208. (...) o direito espanhol não serve de paradigma para o direito brasileiro, pelo menos com o significado que lhe vem sendo emprestado por intérpretes que hostilizam a promulgação da Lei n Se as medidas adotadas pelo legislador espanhol em 1984 não surtiram o efeito 48

10 20 21 desejado reduzir as altas taxas de desemprego o fato deve-se a circunstância de ordem econômica, estruturais, que não são necessariamente as mesmas observadas no Brasil.. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p. 202/224. A Itália apresenta uma evolução legislativa idêntica à registrada na Espanha: em nome do combate ao desemprego, ampliou as hipóteses de celebração de contratos de trabalho por tempo determinado (...).ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p Como expressão da nova tendência à política ativa do trabalho, em 1977 e 1978 foram promulagadas três leis que ampliaram as possibilidades de estipular contratos de trabalho por tempo determinado. Além das cinco hipóteses taxativamente enumeradas pela Lei n. 230, de 1962, este contrato tornou-se possível, também: 1º -no setor do espetáculo e da radiotelevisão (Lei n. 266, de 1977); 2º -setor do comércio e do turismo (Lei n. 18, de 1978; 3º -no trabalho dos jovens inscritos nas listas especiais de colocação ( Lei n. 479, de 1978).. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p. 211/ ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p A Lei 196/97 estabeleceu a possibilidade (lavor interinale). 49

11 3. A Lei 9.601/98 e sua repercussão no quadro do crescimento formal do emprego no Brasil Entre nós as contratações laborais são consideradas, em regra, por prazo indeterminado. 24 Preza-se pela prevalência do princípio da continuidade das relações de laborais, admitindo-se, excepcionalmente, contratação a prazo. 25 Anteriormente a essa lei, o direito brasileiro conhecia alguns tipos de contrato de trabalho de duração definida: a) o contrato de trabalho temporário regulado pela Lei n , de 3 de janeiro de 1974, cuja duração não poderia exceder 3 meses, ressalvada autorização administrativa (art. 10); b) o contrato de trabalho a termo (CLT, art. 443, 1º); c) o contrato de trabalho por obra certa (CLT, art. 443, 1º); d) o contrato de safra (CLT, art. 443, 1º); e) o contrato de experiência (CLT, art. 443, 2º, c). (...) Após a Lei 9.601, os contratos de trabalho de duração definida podem ser então assim grupados: a) o contrato de trabalho temporário (Lei n ); b) os contratos regidos pelo art. 443, CLT; c) o contrato de trabalho resultante da negociação coletiva (Lei n ). 26 Interessa para o momento, antes de investigar suas consequências, compreender os anseios e a sistemática adotados pela Lei O primeiro passo diz com a compreensão de que, a exemplo dos ordenamentos espanhol e italiano, a medida legislativa visou, grosso modo, expandir o mercado formal de trabalho, almejando combater os altos índices de desemprego da época de sua promulgação Dispôs o primeiro artigo do diploma sob apreço -regulamentado pelo Decreto 2.490/98 -que as convenções e os acordos coletivos de trabalho poderão instituir contrato de trabalho por prazo determinado, independentemente das condições estabelecidas pelo parágrafo 2º da Consolidação das Leis Trabalhistas, em qualquer atividade desenvolvida pela empresa ou estabelecimento A indeterminação da duração contratual tem constituído, no Direito do Trabalho, como já exaustivamente analisado, a regra geral aplicável aos contratos de trabalho.. DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 4 ed. São Paulo: LTr, p A Consolidação das Leis do Trabalho regula a matéria a partir de seu artigo 443, assim 50

12 redigido: Art O contrato individual de trabalho poderá ser acordado tácita ou expressamente, verbalmente ou por escrito e por prazo determinado ou indeterminado. 1º - Considera-se se como de prazo determinado o contrato de trabalho cuja vigência dependa de termo prefixado ou da execução de serviços especificados ou ainda da realização de certo acontecimento suscetível de previsão aproximada. 2º -O contrato por prazo determinado só será válido em se tratando: a) de serviço cuja natureza ou transitoriedade justifique a predeterminação do prazo; b) de atividades empresariais de caráter transitório; c) de contrato de experiência. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p Foram objetivos do governo, ao enviar ao Congresso Nacional o projeto que deu origem à Lei n /98, diminuir o desemprego e legalizar a situação informal de certos trabalhadores, que eram contratados sem carteira assinada.. MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. 21 ed. São Paulo: Atlas, p A Lei n tem o declarado propósito de contribuir para a redução da taxa de desemprego, que ultimamente vem crescendo: (...) O art. 1º da lei dispõe claramente que o contrato de trabalho por tempo determinado ali previsto poderá ser instituído para admissões que representem acréscimo no número de empregados. O art. 1º, parágrafo único, do Decreto n 2.490, de 4 de fevereiro de 1998, que regulamenta a Lei 9.601, veda a contratação por tempo determinado na forma agora introduzida para substituição de pessoal regular e permanente contratado por tempo indeterminado. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p A Lei n deve ser estuda neste contexto: combate ao desemprego, emprego, à luz do modelo ou sistema de relações industriais prevalecente no Brasil.. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p O O 1º, do art. 1º da Lei 9.601/98 dispõe expressamente que a contratação é feita mediante convenção ou acordo coletivo. Não usa a expressão acordo ou convenção coletiva, que poderia indicar que o acordo é individual. Nesse caso, o acordo é coletivo e não individual. Para a validade do contrato por tempo determinado, a contratação deve ser feita mediante mediante convenção ou acordo coletivo. Não será possível a contratação individual.. MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. 21 ed. São Paulo: Atlas, p

13 Segundo doutrina de peso, dois são os requisitos exigidos para a validação da contratação ação a termo previsto pela Lei 9.601/98: a) a existência de instrumento coletivo autorizativo e, b) que tais admissões representem acréscimo no número de empregados do contratante. 31 No tocante ao primeiro requisito (contrato instituído por negociação coletiva), quer a lei que tal contrato somente seja pactuado caso tenha recebido autorização de diploma normativo autônomo negociado. Não há possibilidade jurídica, desse modo, à utilização do contrato a termo, nos moldes da Lei n /98, sem o manto prévio da negociação coletiva, através de seus instrumentos formais (convenção e/ou acordo coletivo do trabalho). (...) Quer a ordem jurídica exigir, portanto, a formalidade da convocação de assembléia geral específica para tratar do tema (arts. 611 e 612, CLT), celebrando-se os diplomas normativos negociais coletivos autorizadores do tipo de pactuação aventado pela Lei n /98. Sem tal formalidade e sem tal título jurídico de caráter coletivo, torna-se irregular o contrato por tempo determinado. (...) O segundo destes requisitos (...), é de que seja o contrato de trabalho instituído para pactuar admissões que representem acréscimo no número de empregados. Isso significaria que o temor de que haja utilização desse contrato para admissão de obreiros que não traduzam real acréscimo no número de empregados teria encontrado lenitivo no próprio texto legal: será irregular a contratação que se faça sem verdadeiro incremento no número de postos de trabalho. 32 Chancelando a ratio legislativa, o artigo 1º do diploma regulamentador (Decreto 2.490/98) veda a contratação de trabalhadores, por esta via, para substituição de pessoal regular e permanente contratado por prazo indeterminado. 33 É possível asseverar, destarte, que a Lei 9.601/98 atenuou sim o caráter restritivo que a ordem jurídica conferia à validação dos contratos a termo, restando, porém, a necessidade de enfrentar o tema a partir da perspectiva da fragilização ou não da proteção estatal ao trabalhador e sua atual legitimidade. 34 De um lado, parcela doutrinária sustenta que o diploma legal não apenas diminuiu restrições à pactuação dos contratos a termo, mas aprofundou a carência de direitos trabalhistas, característica ínsita a espécie contratual, em clara afronta ao sistema juslaboral pátrio. 35 Argumenta-se, primeiro, no sentido de que a política adotada não se presta a legitimar o discurso oficial de que a redução do custo direto e indireto da força do trabalho seria instrumento eficaz para gerar novos postos de trabalho Segundo, que o trilho normativo escolhido como política 52

14 Neste sentido, vide: DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. p. 555/556. DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 4 ed. São Paulo: LTr, p Pugnando pela ilegalidade do artigo 1º do Decreto 2.490/98, vide: MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. p. 152/ Ao ser promulgada, a Lei n ensejou a nítida separação na grei dos estudiosos do Direito do Trabalho entre nós, de duas correntes de opinião perfeitamente identificadas: 1ª corrente estatizante, intervencionista, apegada AA noção do garantismo legislativo, crente no direito impositivo, defensora intransigente da ordem pública social; 2ª corrente que abre espaço às manifestações da sociedade civil, liberalizante, que dá ênfase à autonomia coletiva privada, avaliza o direito promocional e reconhece não o primado, mas a necessidade de atentar para as limitações da ordem pública econômica de direção.. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 4 ed. São Paulo: LTr, p DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 4 ed. São Paulo: LTr, p Há críticas, porém, ao mecanismo adotado pela lei. Pondera-se que nenhum empresário, em sã consciência, iria criar novos postos de trabalho simplesmente pelo fato de se tratar de postos menos onerosos (o raciocínio é outro: eleva-se a produção apenas se o mercado justificar tal acréscimo). A equação postos de trabalho mais onerosos versus menos onerosos apenas justificaria a substituição de trabalhadores, eliminando-se os postos mais dispendiosos pelos menos dispendiosos e igualmente produtivos. Para tal linha reflexiva, a criação efetiva de empregos passaria por raciocínio distinto, de dimensão macroeconômica, não se vinculando a práticas de apenação unilateral do trabalhador (práticas adotadas em um país cujos salários básicos já se situam entre os menores, no quadro dos parâmetros ocidentais minimamente comparáveis). (...) mesmo considerado o cenário estritamente trabalhista, outro tipo de política social é que se mostraria eficaz no combate ao desemprego: a redução da jornada de 53

15 social encontra enorme dificuldade de compatibilização com o texto constitucional de A Lei 9.601/98, entretanto, parece querer firmar marco distinto e mais extremado do processo flexibilizatório trabalhista no país. Pelo texto deste diploma, a linha flexibilizatória deixa de preponderar pela simples adequação do caráter genérico das leis trabalhistas às circunstâncias e especificidades de segmentos do mercado de trabalho e setores produtivos e profissionais, através da negociação coletiva. Prefere o novo diploma, ao revés, apontar na direção da franca e direta redução dos direitos laborais decorrentes da ordem jurídica. Passa-se a perceber na norma jurídica heterônoma estatal e na negociação coletiva instrumentos de pura e simples redução de direitos. 38 Em suma, tal corrente considera que o diploma em epígrafe é responsável pela precarização de direitos trabalhistas e condições básicas de pactuação da força de trabalho, motivo pelo qual apelidou a Lei 9.601/98 de Lei do Contrato Precário. Doutro, ecoam aplausos ao legislador de 98 considerando parcela doutrinária que a veemente crítica ao diploma legal retrata herança do ranço histórico-ideológico que, atualmente, se presta tão somente a albergar interesses escusos. 41 O Estado autoritário onisciente, onipresente e onipotente -, que sabe melhor do que os grupos e do que os indivíduos aquilo que convém a todos e a cada qual, está em vias de desaparecimento, mesmo entre nós. O Estado que absorve os anseios da sociedade civil reprime a ação dos corpos sociais intermediários ou a direciona para a satisfação dos interesses do bloco instalado no poder. (...) O Estado que desconfia dos atores sociais, que se nega a aceitar a participação dos protagonistas sociais na criação do direito também se encolhe. Como disse Ernst Forsthoff em 1964, liberdade e participação são conceitos cardeais que determinam hoje a relação do indivíduo com o Estado. 42 Segundo tal corrente, não há mais falar na manutenção de um modelo jurídico facista-getulista (incapaz de alinhar o exacerbado paternalismo estatal a contemporânea conjuntura econômica) que vede maior participação da sociedade civil na construção dos ditames jurídicos a que se submete. O Direito, independentemente do pretexto a ser levantado como pano de fundo, não pode ignorar a realidade e as necessidades sociais. Escasso o bem da vida (no caso o emprego) ) deve sim o ordenamento buscar alternativas para renová-lo. Ao adotar medidas tendentes a abrandar os contornos do desemprego, a Lei n , sem sombra de dúvida, atenta contra o princípio da continuidade da relação da relação de emprego (...) mas o faz com o declarado propósito de contribuir para o combate do desemprego. Leva em conta a existência de vastos contingentes de seres humanos que buscam uma colocação, após terem perdido a

16 que tinham. Procura incorporar ao mercado formal de trabalhadores que se encontram fora dele, marginalizados. (...) A Lei n tem suportado muitas críticas, de diversas origens e de variadas naturezas. Todas são injustas e improcedentes. Não raro carregam em seu bojo o preconceito (jamais trabalho, associada à penalização definitiva da prática de horas suplementares habituais, por exemplo.. DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. p A respeito: DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. p. 579/581. DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. p Segundo Romita tal corrente fiel à sua matriza ideológica de cunho autoritário, com raízes no corporativismo facista-getulista do Estado Novo, não pode tolerar o avanço doutrinário, de efeito modernizante e democrática, que a Lei traz em seu bojo.. ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p Neste sentido vide: ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p. 203/ ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p. 216/

17 explicitado, é claro) que trai o apego doutrinário e ideológico de quem as formula ao ideário corporativista, estatizante, autoritário, paternalista e protecionista que está na base do Direito do Trabalho brasileiro, desde seu início histórico até os dias de hoje. (grifos nossos) 43 Mas, e de fato, a adoção da política (12 anos atrás) surtiu quais efeitos em solo brasileiro? O empresariado se fez valer da previsão legal para reduzir contratações por prazo indeterminado?? Aumentaram o número de postos de emprego? Consoante anotação do Ministério do Trabalho (vide relatórios de Relação Anual de Informações Sociais RAIS 44 ), com derradeira atualização em 2008 (apenas dados do CAGED relatam o ano de ), constata-se se que os anos que precederam a publicação da Lei 9.601/98 representaram período de pequena evolução no quadro do crescimento do emprego no Brasil (em alguns casos até seu decrescimento). De 1989 a 1992 registrou-se se queda livre no número de empregos formais no país (1989= ; 1990= ; 1991= ; 1992= ). Ainda que se tenha registrado alta no ano de 1993 (em relação a = ), os índices alcançados em 1989 foram recuperados/superados tão somente no ano de 1999 (ano posterior ao da publicação da Lei = ), momento a partir do qual decolou o Brasil rumo aos postos de trabalho registrados em Foram registrados no âmbito celetista,, até o mês de julho de 2009, o surgimento de mais 299,5 mil postos de trabalho. É preciso, porém, analisar os números oficiais com a devida cautela. Primeiro, porque a estatística oficial soma postos de emprego (formais) celetistas e estatutários; ; segundo, porque não há dados específicos referentes ao número de contratações realizadas mediante a via ora analisada (pelo menos não há divulgação oficial); terceiro, porque evidentemente questões outras (com destaque para o crescimento econômico do país) obviamente contribuíram para a evolução do número de postos de emprego constatado. Assim sendo, imperioso reconhecer a impossibilidade de concluir pelo (des)acerto de qualquer das correntes doutrinárias supra mencionadas. Há, no entanto, uma certeza. O Brasil, desde 2000, registra considerável taxa de crescimento no número de empregos formais. 46 Desde lá, crescemos mais de 35%, nada obstante afigure-se impossível afirmar o quilate da contribuição perpetrada pela Lei 9.601/98 para tanto. 43 ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. p Instituída pelo Decreto no /75, a RAIS é um registro administrativo de responsabilidade do Ministério do Trabalho e Emprego, criado com fins fiscalizadores, operacionais e estatísticos. Fonte: Relatório 2008 RAIS, acessado em ; 56

18 acessado em Se considerarmos o saldo do CAGED (que compreende apenas o mercado de trabalho celetista), de janeiro a junho de 2009 (299,5 mil postos, cujo resultado está fortemente influenciado pelo impacto da crise financeira), o montante de empregos criados no período de janeiro de 2003 a junho de 2009 totaliza 11,056 milhões de postos de trabalho formais. acessado em No período de 2003 a 2008, com base nos dados da RAIS, verificou-se a geração de emprego formal da ordem de 10,758 milhões. Esse resultado demonstra um ganho na formalização da força de trabalho sem precedentes, com importantes repercussões em termos sociais e econômicos, visto que representa uma melhoria social, decorrente do fato de que esses trabalhadores são amparados legalmente, com salários mais altos e outros benefícios. Fonte: Relatório 2008 RAIS, acessado em

19 Considerações finais O presente estudo, ao fim e ao cabo, nos leva concluir que: a) ainda que a espécie contratual prevista pela Lei 9.601/98 não possa ser confundida com o trabalho temporário no que diz com a vinculação existente entre prestador e tomador da mão de obra, ambos se assemelham do ponto de vista da estipulação de limitação temporal para duração do pacto; b) o contrato especial a termo (Lei 9.601/98) foi introduzido no Brasil, a exemplo do que ocorreu na Espanha e na Itália do final do século passado, mediante o discurso de tratar-se de política social capaz de adequar o ordenamento vigente as exigências econômicas contemporâneas, visando o combate aos altos índices de desemprego registrados à época de sua publicação; c) a doutrina pátria cindiu-se no que diz com a aprovação da política por ela adotada. De um lado, sustentou-se se que, além de a política adotada não revelar instrumento eficaz à geração de novos postos de trabalho, encontrava enorme dificuldade de compatibilização com o texto constitucional de Em suma, considerou tal corrente que o diploma em epígrafe representou fonte de precarização dos direitos trabalhistas, nada além disso; De outro, sustentou-se se que não mais havia falar na manutenção de um modelo jurídico facista-getulista (incapaz de alinhar o exacerbado paternalismo estatal a contemporânea conjuntura econômica) capaz de impedir a maior participação da sociedade civil na construção dos ditames jurídicos a que deveria se submeter. Escasso o emprego,, teria agido bem o legislador ao buscar alternativa inovadora para sua renovação; d) nada obstante registre-se se o considerável crescimento do número postos formais de emprego no Brasil a partir do início do século XXI, não é possível afirmar, face à inexistência de índices oficiais específicos, o acerto ou desacerto de qualquer das correntes doutrinárias, bem como o tamanho da contribuição perpetrada pela Lei 9.601/98 para tanto. 58

20 Referências bibliográficas AGUIAR, Leonardo Sales de. O novo contrato de trabalho por prazo determinado previsto na lei nº 9.601/98. acessado em BARROSO, Fábio Túlio. Novo contrato de trabalho por prazo determinado. Curitiba: Juruá, Crítica ao processo de flexibilização laboral. O contrato de trabalho por prazo determinado da lei 9.601/98 e sua forma impositiva legal. Jus Et Fides: Revista do Departamento de Ciências Jurídicas -Unicap. Recife, v. 2, n. 2, p , 148, dez DINIZ, José Janguiê Bezerra. Do contrato de trabalho por prazo determinado (temporário). Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região,, Recife, v. 10, n. 26, DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 4 ed. São Paulo: LTr, O novo contrato por tempo determinado (Lei n. 9601/98).. 2. ed. São Paulo: LTR, MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. 21 ed. São Paulo: Atlas, PAMPLONA FILHO, Rodolfo. PAMPLONA, Danielle Anne. Nós górdios da Lei nº 9.601/98; acessado em ROMITA, Arion Sayão. Direito do Trabalho: Temas abertos. São Paulo: LTr, TEIXEIRA FILHO, Manoel Antônio. Contrato Temporário de Trabalho Comentários à Lei nº 9.601/98. in Revista LTr 62-02/

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