PESQUISA ARQUITETURA INSTITUCIONAL DE APOIO ÀS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL NO BRASIL. Relatório Final Eixo Cooperação Internacional

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1 PESQUISA ARQUITETURA INSTITUCIONAL DE APOIO ÀS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL NO BRASIL Relatório Final Eixo Cooperação Internacional São Paulo, fevereiro de 2013

2 Créditos Realização: Articulação D3- Diálogos, Direitos e Democracia CEAPG- Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da EAESP FGV Coordenação Geral da Pesquisa: Patricia Maria E. Mendonça Coordenação Eixo Cooperação Internacional: Luiza Reis Teixeira Pesquisadores Responsáveis: Catarina Ianni Segato Luiza Reis Teixeia Natália Navarro Santos Mario Aquino Alves Sofia Reinach Patricia Maria E. Mendonça Colaboradores: Adriana Wilner Felipe Guerra Acosta Fernando Burgos Frederico Silva Tonus Pedro Fadanelli Apoio para realização: Aliança Interage (Instituto C&A, Instituto Arcor, Fundação Avina) Fundação W. K. Kellogg

3 Sumário

4 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Quadro 1 Relevância do Brasil para a cooperação Internacional...15 Quadro 2 Tipos de Cooperação Pública Internacional para o Desenvolvimento...20 Gráfico 1 - Investimentos em AOD do DAC da OCDE...21 Gráfico 2 Diferença entre riqueza e AOD dos países do DAC da OCDE...21 Gráfico 3 - Volume de cooperação técnica destinada ao Brasil (Milhões de US$)...23 Gráfico 4 - Total do volume de cooperação técnica destinada ao Brasil (Milhões de US$)...24 Gráfico 5 - Total do volume de cooperação técnica entre Espanha e Brasil (Milhões de US$)...27 Gráfico 6 - Total do volume de cooperação técnica entre Reino Unido e Brasil (Milhões de US$)...29 Gráfico 7 Diferença entre recebimento e doações no Brasil entre 2005 e Gráfico 8 Perfil das doações brasileiras entre 2005 e Quadro 3 Acordos do Brasil com Organismos Internacionais...34 Quadro 4 - Origem dos recursos dos programas da Cooperação Técnica Multilateral..35 Gráfico 9 Recursos por Fonte de Financiamento da Cooperação Técnica Multilateral Fonte externa (Período )...36 Gráfico 10 Recursos por Fonte de Financiamento da Cooperação Técnica Multilateral Contrapartida (Período )...37

5 Gráfico 11 Diferença entre Fontes externas e Contrapartidas da Cooperação Técnica Multilateral Contrapartida (Período )...37 Gráfico 12 Quantidade de Projetos por Parceiro Externo - Cooperação Técnica Multilateral (Período )...38 Gráfico 13 Quantidade de Projetos por Setor - Cooperação Técnica Multilateral (Período )...39 Gráfico 14 Recursos investidos no campo social brasileiro pelas organizações internacionais no período (Período )...48 Gráfico 15 Recursos investidos pela Ashoka Brasil (Período )...51 Gráfico 16 Recursos investidos pela Development and Peace (Período ) 51 Gráfico 17 Recursos investidos pela Action Aid (Período )...51 Gráfico 18 Recursos investidos pela Brazil Foundation (Período )...52 Gráfico 19 Recursos investidos pela Fundação Kellogg (Período )...52 Gráfico 20 Recursos investidos pela KNH (Período )...53 Gráfico 21 Recursos investidos pela CESE (Período )...53 Figura 1 Representação simples da arquitetura de doação...67 Figura 2 Tipos de relação Estado/Sociedade Civil na cooperação...68 Figura 3 Fluxos da Indústria da Ajuda...69 Figura 4 Nova arquitetura do financiamento para a Cooperação Internacional...70

6 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Principais Países Doadores de Cooperação Técnica Bilateral ( ) 23 Tabela 2 - Principais Setores da Cooperação Técnica Recebida Bilateral ( ) 23 Tabela 3 Projetos da Agência de Cooperação Espanhola...26 Tabela 4 Alocação aproximada de fundos para o Brasil da Embaixada Britânica...28 Tabela 5 - Cooperação brasileira para o desenvolvimento internacional (Em milhões US$ valores correntes aproximados)...31 Tabela 6 - Assistência humanitária internacional, detalhamento dos recursos Tabela 7 - Maiores receptores da AHI do Brasil Tabela 8 - Contribuições para organizações internacionais e bancos regionais (Em milhões de R$ em valores correntes aproximados)...39 Tabela 9 Variação do investimento internacional por quantidade de organizações...49 Tabela 10 Faixa de participação das fontes de financiamento no orçamento das associadas da ABONG, em

7 1. INTRODUÇÃO O objetivo do eixo Cooperação Internacional foi identificar tendências acerca dos fluxos de financiamentos advindos de organizações e da cooperação internacional, e, em especial, sua relação com as Organizações da Sociedade Civil de Defesa dos Direitos (OSCsDD). Desde o ano de 2008, quando eclodiu a crise financeira internacional, organizações da sociedade civil passaram a se questionar sobre a eventual queda de investimentos internacionais no Brasil. Foi com essa motivação, que, em 2009, o Instituto Fonte realizou a pesquisa intitulada Efeitos da Crise Econômica 2008/2009 sobre as Agências de Cooperação Internacional que Atuam no Brasil. A essa altura, algumas dúvidas inquietantes faziam-se presentes entre OSCs no Brasil, tais como: haverá menos dinheiro? As empresas deixarão de investir? As ONGs terão que disputar por mais recursos? As práticas de avaliação e de planejamento estratégico terão mais espaço neste contexto? ONGs vão desaparecer? Terão mais sentido? (SILVA, 2009, p. 4) Os resultados da pesquisa do Instituto Fonte apontaram para um cenário ainda incerto no que se refere aos investimentos de organizações internacionais para OSC s no Brasil. O conjunto de entrevistas a 40 organizações de cooperação internacional, selecionadas com base em 4 critérios 1, revelou que os efeitos da crise econômica sobre a cooperação internacional começavam a ser sentidos nos primeiros meses de 2009, e deveriam se intensificar pelo resto do ano, com uma tendência de repercutirem, fortemente, em Contudo, vale destacar que os entrevistados apresentaram dificuldade em distinguir entre o que seriam efeitos de uma crise anterior da cooperação internacional no Brasil, e o que seriam efeitos diretos da crise econômica atual. Parte dessa dificuldade pode ter ocorrido pelo fato da pesquisa ter sido realizada logo em seguida aos principais acontecimentos relacionados à crise, em 2008, sem que houvesse tempo das organizações entrevistadas absorverem seus impactos e elaborarem suas conclusões. 1 Critérios de seleção das organizações de cooperação internacional: a) Não são originárias nas sociedades brasileiras ou latino-americanas; b) A maior parte de seus recursos financeiros e técnicos provêm do exterior, preferencialmente de múltiplas fontes; c) Apóiam ONGs, Governos e Movimentos Sociais no Brasil com recursos técnicos, políticos e financeiros; d) São reconhecidas no Brasil como organizações internacionais de cooperação. (SILVA, 2009, p. 9)

8 Acredita-se que, há algum tempo, está em curso uma mudança gradativa de prioridades das organizações internacionais para cooperação em relação às áreas geográficas mundiais preferenciais. Com isso, há um movimento expressivo de retirada da atuação de parte destas organizações do Brasil, processo denominado, por alguns entrevistados, como crise da cooperação internacional. Assim, as mudanças de prioridades e restrições orçamentárias para o Brasil podem ter sido aceleradas, intensificadas ou legitimadas frente à crise financeira. Contudo, a presente pesquisa, ampliou um pouco mais os resultados da pesquisa anterior sobre a crise, realizada pelo Instituto Fonte, em 2009, uma vez que pretendeu apresentar a evolução do montante de recursos investidos pela cooperação internacional no Brasil. Para tanto, fez-se necessário levantar dados quantitativos do volume de investimentos de organizações de cooperação internacional no Brasil, a fim de verificar se, de fato, há a uma tendência de queda do investimento no Brasil. Contudo, não foi possível encontrar uma fonte de dados que disponibilizasse tais informações. Cabe, aqui, uma observação sobre a lacuna que há no que se refere à disponibilidade de dados sobre investimentos da cooperação internacional em OSC s no Brasil. Essa lacuna já era sinalizada em 1997, em trabalho sob a coordenação da professora Maria Filomena Gregori, do CEBRAP e da UNICAMP, intitulado Os Caminhos da Institucionalização: Cooperação Internacional, Estado e Filantropia. A professora Leilah Landin, da UFRJ, ao falar sobre fontes de recursos para instituições filantrópicas, faz uma consideração sobre a fragmentação e escassez de dados gerais e confiáveis sobre quantidades e origens desses recursos. Para a professora, haveria um desinteresse, ou mesmo despreparo, por parte do sistema de produção de informações estatísticas na coleta e divulgação de dados deste tipo de organização. Ou seja, em 15 anos, parece não ter havido uma mudança significativa na produção de dados estatísticos sobre organizações de cooperação internacional no Brasil. Portanto, essa pesquisa representa um esforço de busca de dados em diferentes fontes, tais como o IPEA, a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), o Banco Central, a ABONG, o Foundation Center, Instituto Fonte, entre outros. A partir dos diferentes

9 dados, que nem sempre estavam publicados e disponibilizados, pretendeu-se apresentar o fluxo em operação da cooperação internacional no Brasil. Contudo, antes mesmo de partir para a apresentação dos dados sobre investimento, para fins de pesquisa, fez-se necessário definir o que são organizações de cooperação internacional para o desenvolvimento. Silva (2009) considera essa definição uma tarefa difícil, devido à diversidade dessas organizações e das diferenças entre elas. Para análise do eixo da cooperação internacional, dividimos, então, as organizações em três grupos: 1. Cooperação Internacional Pública - Oficial 2 para o Desenvolvimento esse grupo envolve a cooperação entre países, bilateral, assim como, a realizada por órgãos de cooperação internacional, multilateral. Nesse grupo, ainda incluímos a cooperação técnica, por meio de internacionalização de políticas públicas; 2. Cooperação realizada por empresas privadas, por meio de ONGs e fundações empresariais; 3. Cooperação Filantrópica - Solidária 3, realizada por ONGs, cooperação ecumênica e fundações independentes COOPERAÇÃO INTERNACIONAL PARA O DESENVOLVIMENTO A indefinição sobre a conceitualização da expressão cooperação internacional precisa ser desmitificada para a compreensão do fenômeno nos dias atuais. De acordo com Sánchez (2002), cooperação internacional teria como finalidade assegurar a paz e promover desenvolvimento e justiça, com vistas a uma ordem social, econômica e política legítima. As ações resultantes da cooperação internacional englobam a participação de diferentes atores no processo decisório e de execução, tais como governos, organizações da sociedade civil de países distintos, assim como 2 Ao longo da pesquisa nos deparamos com o uso dos dois termos: Cooperação Oficial Internacional e Cooperação Pública Internacional. Portanto, adotamos o uso dos dois termos para nos referir ao mesmo fenômeno, ao longo do relatório. Ao longo da pesquisa nos deparamos com o uso dos dois termos: Cooperação Solidária Internacional e Cooperação Filantrópica Internacional. Portanto, adotamos o uso dos dois termos para nos referir ao mesmo fenômeno, ao longo do relatório.

10 agências e organismos internacionais. Ora, a cooperação estaria condicionada à introdução de mudanças políticas, econômicas e sociais. Eventos como guerras, transições políticas e crises econômicas fomentam as discussões e decisões acerca das questões de preocupação e interesse mundial. A incidência de problemas semelhantes em contextos distintos estimulou a criação e manutenção de uma ampla rede de organizações com atuação nacional e internacional, de natureza pública, privada e público-privado, relacionadas a temas diversos como: fomento dos direitos humanos, a consolidação da democracia, combate à pobreza e à fome, luta por acesso universal a serviços básicos, desenvolvimento econômico, entre outros. Se, efetivamente, nos deparamos com transformações nas concepções de enfrentamento a questões políticas, econômicas e sociais (com enfoque para o desenvolvimento), assim como, mudanças contínuas nos cenários nacional e internacional, não nos escapa uma análise que restabeleça, também, constantemente, o exame da cooperação internacional a partir de cálculos variados. Em outras palavras, não podemos analisar a cooperação internacional de maneira imutável e estável, como uma ordem de grandeza única cujos cálculos anteriores não refletem o cenário atual. Nesse sentido, torna-se imperativo pensar sobre as novas formas de articulação entre as esferas governamental, da sociedade civil e dos organismos internacionais, agora sob o denominador comum do desenvolvimento. As conferências internacionais da ONU abriram espaço para a integração de um debate, deliberação e proposições de medidas de cooperação em áreas específicas, tidas como prioritárias. Nesse sentido, as Nações Unidas definem, conjuntamente, uma agenda global de promoção e preservação dos direitos fundamentais. A agenda constitui um conjunto de metas que tomam como princípio fundamental o fato de que as questões socioeconômicas na atualidade não têm fronteiras, ou seja, escapam do controle de um único Estado. Cabe considerar, ainda, o novo formato institucional de participação, negociação e deliberação dessas ações que integra diversas esferas de resolução de problemas: governo local, nacional, regional e mundial. E por fim, a interação do estatal com o não-estatal, a partir da participação de agentes diversos da

11 sociedade civil. De acordo com Herz e Hoffmann (2004), basicamente, dois atores institucionais têm atuado no campo da cooperação internacional. São eles: organizações intergovernamentais (OIGs) e as organizações não governamentais (ONGs). Tal atuação se desenvolve em arenas distintas que configuram uma nova governança global. Esse cenário é regulamentado por normas, regras, leis - de aceitação - entre os Estados-nação que o compõem. Em 2002, a Conferência Internacional sobre o Financiamento do Desenvolvimento reuniu 51 presidentes e primeiros-ministros, ministros das finanças e dos negócios estrangeiros, dirigentes de organizações internacionais e instituições financeiras, bem como líderes da comunidade empresarial e da sociedade civil. Teve, como objetivos primeiros, enfrentar os desafios do financiamento da cooperação internacional e da redução da pobreza. A Conferência resultou na aprovação do Consenso de Monterrey, que afirma a determinação da comunidade internacional de erradicar a pobreza, alcançar o crescimento econômico sustentável e promover o desenvolvimento sustentável no contexto de um sistema econômico mundial equitativo e que favoreça a plena inclusão. Tais resoluções impactaram, também, na lógica de cooperação entre os países, organizações internacionais e organizações da sociedade civil. De modo a garantir resultados eficazes e coerentes às metas estabelecidas, novos padrões mais rigorosos foram desenvolvidos. Estados e organizações da sociedade civil atendem, hoje, a uma série de critérios que determinam o caráter dessas parcerias. Diagnósticos, elaboração de projetos e mecanismos de avaliação tornaram-se condições elementares para o financiamento de projetos. Ao mesmo tempo, em uma Assembleia Geral da ONU, em 2000, foram definidas as Metas do Milênio, como os princípios norteadores que arquitetaram a cooperação internacional. As Metas competem: 1) acabar com a fome e a miséria; 2) atingir o ensino básico universal; 3) igualdade entre sexos e valorização da mulher; 4) reduzir a mortalidade infantil; 5) melhorar a saúde materna; 6) combater a HIV/AIDS, a malária e outras doenças; 7) garantir a sustentabilidade ambiental; 8) estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.

12 As mudanças ocorridas na configuração determinada pelas Metas do Milênio são resultado de jogos e incentivos em outros tabuleiros, como acordos e compromissos assumidos na comunidade internacional para o desenvolvimento por meio da defesa de direitos (CAMARÁ et. al, 2009). Tais pactos concretizam diretrizes internacionais que defendem uma harmonização entre os países financiadores, assim como uma adequação das políticas internacionais às políticas públicas nacionais que visam compreender a pluralidade de problemas e sua complexidade. Consolidam, também, um conjunto de condicionantes ex ante e ex post para o recebimento dos recursos, tanto para os países, quanto para as Organizações beneficiadas. As condicionantes vão desde medidas adotadas pelos governos locais, até requisitos normativos aos projetos concorrentes. Um estudo realizado pelo Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento (CESA) 4 apresenta uma síntese que agrega relatórios de organizações internacionais como o CAD da OCDE, o Banco Mundial, o PNUD, o FIDA, a OIT, a CNUCED, assim como textos de organizações estatais de países com forte presença na cooperação internacional, como a Noruega, a Holanda ou o Reino Unido. O conteúdo comum das estratégias nacionais definido com base nos referenciais da Cooperação Internacional para o Desenvolvimento admite como princípios orientadores: a) aumento das oportunidades dos pobres através do crescimento econômico direcionado para os mais vulneráveis; b) melhoria das capacidades dos pobres para aproveitarem essas oportunidades através de um maior acesso a ativos humanos, físicos e financeiros; c) aumento da voz dos pobres, ou seja, que o imperativo ético do empoderamento dos pobres seja claramente assumido; d) redução da vulnerabilidade dos mais pobres pela construção de redes de segurança social; e) ligação forte entre a boa governação e as políticas de desenvolvimento concebidas pelos países receptores com os MDG (Millennium Development Goals) adaptados aos países como referencia; f) condicionamento ex-post ou seja o financiamento da CID fica dependente da execução das medidas que os próprios países aprovaram nos PRSP (Poverty Reduction Strategic Papers). (SANGREMAN, 2009, p. 12 e 13). 4

13 Segundo Sangreman (2009), as mudanças ocorridas e os princípios orientadores adotados implicavam em uma retomada do papel do Estado como autor das prioridades e de responsabilidades que assume face à comunidade internacional. Acrescentamos à análise que o papel assumido pelo Estado implica, também, no desenvolvimento de mais canais de participação dos cidadãos, de políticas públicas de acesso a serviços básicos e de crescimento econômico que gere oportunidades de desenvolvimento equitativo, para que possam gozar de suas liberdades A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL NO BRASIL Nos últimos anos, o Brasil vem assumindo um papel de destaque no cenário da cooperação internacional. A melhoria dos indicadores de desenvolvimento socioeconômico o aproxima, cada vez mais, da condição de país potência. O país tem registrado evoluções significativas em termos de redução de pobreza e de desigualdade de renda nos últimos anos. Desde 2007, o Brasil é considerado um País de alto desenvolvimento humano, com base no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano 2007/08, do PNUD. Em 2011, o país ocupou a 84ª posição no ranking (IDH de 0,718). De acordo com os dados usados no relatório, o rendimento anual dos brasileiros foi de US$ , e a expectativa de vida, de 73,5 anos. A escolaridade foi de 7,2 anos de estudo, e a expectativa de vida escolar, 13,8 anos. Outro indicador de desigualdade que melhorou foi o coeficiente de GINI, que, entre 2001 e 2006, teve forte redução, chegando a uma queda de mais de 6% no período. Em 2012, a taxa do país é de 0,519. Neste coeficiente, quanto mais próximo de 1 for a nota do país, maior é sua desigualdade. Ao falar nas melhorias sociais vividas pelo Brasil, o documento da Aliança ICCO, sobre desafios e oportunidades para a atuação no Brasil, de setembro de 2009, destaca três fatores como motivadores destas melhorias: fatores demográficos, por meio do crescimento constante da População Economicamente Ativa, e da maior participação das mulheres no mercado de trabalho; fatores econômicos, proporcionados pela retomada do crescimento econômico, a partir de 2004; e fatores políticos, uma vez

14 que há a consolidação da democracia, assim como uma maior participação da sociedade civil, associada ao fortalecimento do Estado e das políticas públicas por ele desenvolvidas. No que se refere à cooperação internacional, hoje, o Brasil se caracteriza como ator que tanto recebe, como promove cooperação internacional oficial ou governamental, segundo dados do relatório de pesquisa do Instituto de Estudos Sócioeconômicos (INESC), intitulado Presente e Futuro: Tendências na Cooperação Internacional Brasileira e o Papel das Agências Ecumênicas, publicado em Nessa pesquisa, verificou-se que o fluxo de cooperação governamental oferecida pelo Brasil corresponde a 0,02% do PIB. Já a Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD) dos países do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento da OCDE (DAC- OCDE) apresentou um decréscimo ao longo de cinquenta anos: em 1961, representava 0,5 do PIB per capita destes países, enquanto que, em 2008, esse percentual era de 0,3%. O relatório do INESC (2012) aponta para o mesmo fato, já destacado pelo Instituto Fonte, em 2009, de que há uma avaliação que o país não precisa mais de apoio externo, visto que já dispõe de recursos suficientes para enfrentar sozinho seus problemas. Entretanto, como se trata de um amplo espectro de organizações, e, portanto, opiniões e posicionamentos diversos, há também uma percepção oposta, que compreende a permanência no Brasil como estratégica, no sentido de buscar influenciar a governança global e contribuir para manter um equilíbrio multipolar das relações de poder. São apresentados, então, alguns argumentos que justificam a permanência da cooperação internacional no Brasil e, em especial, da cooperação ecumênica: Entende-se que a cooperação recebida deve permanecer por quatro grandes motivos, a saber: (1) para combater as relações de poder que perpetuam a desigualdade e a miséria no país, evitando-se, assim, exportar este modelo para outras regiões do planeta; (2) para fortalecer movimentos e organizações sociais de defesa de direitos ameaçados pelas relações hegemônicas de poder; (3) para influenciar a agenda global de tomada de decisões no sentido da defesa de direitos e de justiça social; e (4) para identificar experiências bemsucedidas resultantes da cooperação no Brasil que possuem potencial de ser

15 replicadas e levá-las para outros países (inovação, tecnologias sociais, boa governança, entre outras). (INESC, 2011, p. 13). A investigação do INESC (2012) também apresenta a constatação da escassez de informações disponíveis sobre a cooperação brasileira, especialmente a oferecida. Eles entendem que estudos adicionais se fazem necessários para um melhor entendimento da amplitude e do sentido desta cooperação, assim como sobre os impactos causados não apenas na América do Sul, mas também em outras regiões do planeta. Portanto, concluise que, frente à escassez de dados e de reflexões mais estruturados sobre o tema, a pesquisa apresenta um ensaio que busca aportar elementos ao debate e levantar algumas hipóteses. De modo geral, é possível afirmar que, até os anos 80, a cooperação internacional não governamental tendeu a enfocar, no Brasil, o combate à pobreza, à injustiça da estrutura social, a luta pelos direitos civis e políticos e o fortalecimento das organizações da sociedade civil. Do ponto de vista do olhar sobre o país, privilegiava o mundo rural. Em termos geográficos, a maior prioridade era a região Nordeste, historicamente menos desenvolvida e com maiores índices de pobreza e, em menor medida, a região Norte (INESC, 2012). Ao fazer um balanço da cooperação internacional no Brasil, o documento da Aliança ICCO (2009) considera que há uma mudança significativa, desde a década de 80. Isso se deve ao fato do Brasil não ser mais um país pobre, embora tenha um significativo contingente de sua população vivendo na pobreza, o que o faz um país extremamente desigual. O documento destaca alguns pontos que devem ser considerados ao se pensar a relevância do Brasil para a cooperação internacional, tanto bilateral como não governamental, descritos no Quadro 1, a seguir:

16 PONTOS RELEVANTES PARA PENSAR A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL NO BRASIL Não é um país pobre, mas continua com níveis inaceitáveis de pobreza e de desigualdades; Avançou muito na integração continental, em especial no âmbito da América do Sul, exercendo, hoje, significativa liderança na região; Avançou muito na projeção internacional e contribuição aos debates e articulações globais sobre temas como direitos humanos, democracia, participação e desenvolvimento sustentável, tendo um enorme potencial para oferecer soluções aos problemas relacionados ao desenvolvimento; Do ponto de vista geopolítico, é crescentemente considerado um global player em negociações políticas e comerciais, exercendo, ainda, liderança nas atuais negociações sobre as mudanças climáticas, por deter a maior área de floresta contínua do planeta e por ser o 4º maior emissor de gases do efeito estufa; Tem crescido como fornecedor de ajuda internacional, em especial para a África e América Latina; Vem se consolidando como um verdadeiro laboratório de experiências sociais e políticas que tem inspirado novos paradigmas para todo o planeta; O movimento ecumênico e o diálogo inter-religioso existentes no país são um campo muito importante de inovação e de exercício de uma ética de respeito às diferenças e de promoção da paz, da democracia e da justiça, sendo uma referência internacional para a contribuição das igrejas ao desenvolvimento; Registra-se o crescimento de um movimento empresarial pela responsabilidade social e ambiental, o que abre novas possibilidades e alianças para um novo tipo de desenvolvimento, servindo de referência para setores empresariais de outros países e regiões; Está em melhores condições do que muitos países para se adaptar, de forma criativa, aos desafios das mudanças climáticas e demonstrar ao mundo que outro tipo de desenvolvimento socioeconômico é possível; Exerce crescente influência sobre os países em desenvolvimento. Quadro 1 Relevância do Brasil para a cooperação Internacional Fonte: elaboração própria, baseado no Documento da Aliança ICCO (2009) PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O relatório está dividido em três partes, de acordo com os tipos de cooperação descritos anteriormente, com a apresentação de dados quantitativos e qualitativos, a partir de dados secundários coletados em pesquisas publicadas por diferentes institutos de pesquisa e organizações da sociedade civil (OSC s), assim como a partir de dados primários, coletados por meio de entrevistas semi-estruturadas com representantes de Embaixadas, agências de desenvolvimento, ONGs e fundações internacionais. A pesquisa desenvolveu uma análise qualitativa dos dados coletados, a fim compreender os fenômenos investigados com um alto grau de complexidade. A revisão bibliográfica envolveu o levantamento de pesquisas publicadas sobre o tema da cooperação internacional. A partir da seleção dos 16 documentos, descritos na lista abaixo, foram feitas análises e apresentação de dados ao longo desse relatório.

17 Pretendeu-se, assim, destacar os dados já publicados e as conclusões alcançadas sobre a cooperação internacional. Também foi possível, através da análise dos documentos, estabelecer comparações com os dados coletados na pesquisa. 1. ABONG: Panorama das Associadas, GOUVEIA, Taciana; DANILIAUSKAS, Marcelo Better Aid, Managing Aid: Practices Of DAC Member Countries. OECD, Brasil, um país doador, LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL: Desafios e Oportunidades da Aliança ICCO , ALIANÇA ICCO Caminhos da institucionalização: cooperação internacional, Estado e filantropia, LANDIM, Leilah Conjuntura dos investimentos das organizações internacionais, INSTITUTO FONTE Cooperação brasileira para o desenvolvimento internacional, Ipea/ABC De Receptor a Doador: Os desafios da cooperação para o desenvolvimento na política externa brasileira sob a ótica da relação estado/sociedade civil, MESQUITA, Rui Cordeiro Democratizing Foreign Aid: Online Philanthropy and International Development Assistance, DESAI, Raj M; KHARAS, Homi Diretrizes para o desenvolvimento da cooperação técnica internacional multilateral e bilateral, Agência Brasileira de Cooperação Efeitos da crise econômica 2008/2009 sobre as Agências de Cooperação Internacional que atuam no Brasil. SILVA, Rogério Renato; VARGAS, Ana Carolina Comin Mito y Realidad de La Ayuda Externa America Latina al 2009: Una evaluación independiente de La cooperación internacional al desarrollo, ALOP Presente e futuro: tendências na Cooperação Internacional brasileira e o papel das Agências Ecumênicas. INESC

18 14. Shifting Ground: Implications of international cooperation for civil society organizations in Latin America, with specific reference to the UK s Department for International Development (DFID) Defending dignity, CARE Sustentabilidade das ONGs no Brasil: acesso a recursos privados, ABONG Trends and Issues in Development Aid, KHARAS, Homi No que se refere aos procedimentos metodológicos empíricos, adotamos a estratégia de realizar a coleta de dados de diferentes formas. Vale lembrar que a pesquisa enfrentou a dificuldade de não haver dados sistematizados sobre o tema disponíveis em um único instituto de dados estatísticos. Portanto, buscou-se contato com alguns órgãos da administração pública, a que enviamos algumas solicitações de dados. Ao IPEA, foram solicitadas informações sobre a cooperação oficial enviada pelo Brasil, dado esse não obtido até o fechamento deste relatório. À Agencia Brasileira de Cooperação (ABC), foram solicitados dados sobre a cooperação técnica multilateral e bilateral recebidas pelo Brasil. Esses dados foram recebidos em tabelas, o que nos permitiu realizar alguns gráficos e análises sobre o assunto, na primeira parte deste relatório. Outro órgão ao qual solicitamos dados foi o Banco Central, por meio do e-sic - Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão, órgão recentemente criado pelo poder executivo federal. Foram solicitados dados sobre a movimentação financeira realizada por organizações estrangeiras no Brasil nos últimos 10 anos. Até o fechamento desse relatório, não havíamos recebido resposta ao protocolo de atendimento 5. Solicitamos, também, ao Ministério da Justiça, dados referentes às organizações estrangeiras autorizadas a atuar no Brasil. Recebemos, então, uma lista com os dados de contato de 116 organizações 6. Ao Instituto Fonte e a ABONG, também foram solicitados dados. O primeiro forneceu uma lista de contatos de organizações 5 Vale ressaltar que o protocolo de atendimento foi registrado no dia 31 de outubro de Veja a lista de contatos das Organizações Estrangeiras no Brasil fornecida pelo Ministério da Justiça no Anexo A.

19 internacionais atuantes no Brasil 7, e a segunda, dados sobre pesquisa de 2007 acerca do perfil das associadas. Outro procedimento de coleta de dados foi a realização de quatro entrevistas com um roteiro 8 semiestruturado a três organizações para a Cooperação Internacional Filatrópica-Solidária, a saber, a Care Brazil, Oxfam, Fundação Rosa Luxemburgo e uma organização da cooperação Pública-Oficial, a Agência Espanhola de Cooperação. O objetivo, nessas entrevistas, era entender a atuação das mesmas no país e as perspectivas de investimentos futuros. Também foram realizadas entrevistas sem roteiros estruturados, com pesquisadores do tema, como o professor Carlos Milani, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e a pesquisadora Ana Carolina Comin Vargas, do Instituto Fonte. O objetivo destas entrevistas era entender melhor a configuração do campo de atuação da cooperação internacional no Brasil, e também, algumas vezes, buscar algumas informações mais específicas. A coleta de dados envolveu, também, buscas por relatórios de atividades nos sites institucionais de diversas organizações internacionais atuantes no Brasil. Essa busca teve como base uma lista inicial de 27 organizações 9, obtida a partir de um estudo exploratório preliminar do campo das organizações internacionais. Essa lista foi construída com base no conhecimento prévio dos pesquisadores, que sistematizaram dados sobre as organizações internacionais atuantes no Brasil. O objetivo da pesquisa aos sites dessas organizações era mostrar a evolução do montante de investimentos financeiros no Brasil ao longo dos últimos anos, e conseguir levantar dados de 5 organizações internacionais no campo da cooperação solidária. Em seguida, foram realizados contatos telefônicos com base, primeiramente, na lista fornecida pelo Instituto Fonte com contatos de 107 organizações, incluindo a cooperação pública-oficial, além de organizações da cooperação filantrópica-solidária. O Ministério da Justiça também forneceu uma lista com contatos de 116 organizações Veja a lista de contatos das Organizações Estrangeiras no Brasil fornecida pelo Instituto Fonte no Anexo B. 8 Veja o roteiro de entrevista aplicado no Apêndice A. 9 Veja a lista de organizações no Apêndice B.

20 estrangeiras no Brasil. Contudo, não se conseguiu contatar muitas organizações a partir das duas listas. Além do contato telefônico realizado, foram enviados s 10, contendo quatro perguntas referentes a recursos investidos, perspectivas e áreas de atuação, para as organizações em que não constava o contato telefônico, ou o único contato fosse fora do país. Os s também foram enviados em inglês para as organizações de fora do país. Foram obtidas, por , na maioria após um primeiro contato telefônico, informações sobre 5 organizações apenas. A partir desses dados, realizamos análises e inferências, descritas a seguir. 2. COOPERAÇÃO INTERNACIONAL PÚBLICA-OFICIAL PARA O DESENVOLVIMENTO Segundo o documento da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), de 2004, intitulado, Diretrizes para o desenvolvimento da cooperação técnica Internacional multilateral e bilateral, a Cooperação Internacional Pública para o Desenvolvimento pode ser dividida em três tipos: a Cooperação Técnica Bilateral, a Cooperação Técnica Multilateral, a Cooperação Técnica Internacional (CTI). O Quadro 2 estabelece as distinções entre os tipos de cooperação. TIPO CARACTERÍSTICAS OBS Cooperação Técnica Bilateral Cooperação Técnica Internacional Cooperação com agências internacionais de desenvolvimento, que são órgãos de governos estrangeiros que atuam no Brasil de forma vinculada às Embaixadas de seus países, Intervenção razão temporária pela qual não destinada possuem a personalidade promover mudanças jurídica qualitativas própria no e/ou País. estruturais em um dado contexto socioeconômico, seja para sanar e/ou minimizar problemas específicos identificados naquele âmbito, seja para explorar oportunidades e novos Cooperação paradigmas de com desenvolvimento. organismos A materialização dessas mudanças dá-se por 10 Ver questionário enviado por no Apêndice C. Agências de cooperação internacional que tem acordos com o Brasil: Agência Alemã de Cooperação Técnica (GTZ), Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional (CIDA), Agência Espanhola para a Cooperação Internacional (AECI), Institut Français de Recherche Scientifique pour le Development en Cooperation (IRD) e o Centre de Coopération Internationale en Recherche Organizações Agronomique pour aptas le a estabelecer Development CTI: públicas (CIRAD), (União, Direção Estados, Geral de Municípios), Cooperação do setor para o produtivo Desenvolvimento (Associações, (DGCS), Federações, Japan Conselhos International e instituições Cooperation com Agency perfil (JICA), assemelhado), Department for e International da sociedade Development civil (organizações (DFID). não-governamentais e demais instituições sem fim lucrativo)

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