A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM INTERNACIONAL DO BRASIL NO MODERNISMO 1

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1 1 A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM INTERNACIONAL DO BRASIL NO MODERNISMO 1 Cristiano A. Diniz Guerra Silvestre 2 Orientador: Israel Roberto Barnabé (Núcleo de Relações Internacionais) Co-Orientador: Lucas Miranda Pinheiro (Núcleo de Relações Internacionais) 1. INTRODUÇÃO Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. (ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropófago) (...) O impulso lírico clama dentro de nós como turba enfuriada, Seria engraçadíssimo que esta dissesse: Alto lá! Cada qual berre por sua vez; e quem tiver o argumento mais forte, guarde-o para o fim! A turba é confusão aparente. Quem souber afastar-se idealmente dela, verá o impotente desenvolver-se dessa alma coletiva, falando a retórica exata das reivindicações. Minhas reivindicações? Liberdade. Uso dela; não abuso. (...)(ANDRADE, Mário. Prefácio Interessantíssimo) Este trabalho, durante o ano de sua produção, teve por objetivo compreender, entre outros pontos, os impactos do evento modernista na política externa brasileira. De antemão, é necessário um enorme exercício de abstração para encontrarmos a relevância de um evento consagrado na Semana de Arte Moderna de 1922 para as decisões que Vargas haveria de tomar anos depois, de 1930 a O objeto de reflexão deste trabalho perpassa por um conjunto gradativo de transformações até que seja montada a lógica da construção da imagem internacional do Brasil a partir do Modernismo. Em outras palavras, nosso objeto é um marco cronológico: o período pós-primeira Guerra, o período de 1922 a 1930 e o período de 1930 a 1945, todos com suas explicações. O período que antecede 1922 tem sua importância com o pós Primeira Grande Guerra e toda a efervescência que lançou ao mundo. A queda de regimes, o absurdo e a destruição, as agremiações sociais, o colapso e o soerguimento de modelos foram o 1 Este artigo é oriundo de bolsa do Programa Especial de Inclusão à Iniciação Científica (PIIC), financiada pelo COPES, Coordenação de Pesquisa, da Universidade Federal de Sergipe; tendo sido a pesquisa, posteriormente, vinculada ao Grupo de Internacionalização e Desenvolvimento (GID 2 Cristiano Armando Diniz Guerra Silvestre. Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe, 3º Período. Bolsista PIBIC atuante no Grupo de Política Internacional e Processos de Integração (http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhegrupo.jsp?grupo= oy5fq07). (http://lattes.cnpq.br/ ,

2 2 terreno fértil de todas as vanguardas artísticas que brotaram nesse período. Validas de argumentações inovadoras, apresentaram propostas de ruptura e manifestaram sua insatisfação com o estado das coisas, lançando ao mundo a necessidade de revisar, entre tudo, os valores cristalizados pelos regimes políticos ora vigentes. A herança destas vanguardas é inflar em São Paulo a coragem de um evento que propôs trazer a mesma revisão ao nosso cenário nacional, a Semana de Arte Moderna de Neste trabalho, começando observando os resultados da referida guerra, tratamos das principais vanguardas e suas premissas para chegarmos aos princípios defendidos na fatídica semana de 1922, nos manifestos produzidos e nas repercussões ideológicas resultantes. Do período de 1922 a 1930, o Brasil se transforma. Como reflexo do que acontecia no mundo, a estrutura política aqui vigente começa a ser contestada. Fatores diversos agem de modo a minar as forças do regime oligárquico. O tenentismo e seus atos de insatisfação, o surgimento da industrialização, a maquinizição, a urbanização, as exigências populares pelo direito ao trabalho e a própria mudança do homem rural para proletário mudam as demandas das camadas da sociedade. Acrescentando ainda o enfraquecimento do café como principal produto, a oposição recém instaurada de grupos oligárquicos dissidentes e a formação de novos grupos interessados em participar do poder. Este período é testemunha da ágil transformação do social, do político e do econômico; da realidade do Brasil em conformidade com o mundo. O período de 1930 a 1945 assiste a Vargas e ao gigantesco evento que atingiu a todos os continentes: a Segunda Grande Guerra. Nesse período, nos será interessante observar a mudança da atuação de Vargas quando comparada aos governos anteriores. O Brasil, pela sua primeira vez, negociará de forma que suas decisões poderiam alterar o próprio decorrer da Guerra. Temos não só uma valorização do Brasil como agente, mas uma mudança razoável de seu autoentendimento para tanto. Nessa parte do trabalho, já nas nossas considerações finais, refletiremos sobre os impactos da proposta modernista na esfera máxima do posicionamento nacional: a política externa. É absurdo pensar em elementos da Antropofagia de Oswald nas decisões políticas de Vargas e na importância dada ao nacional? É absurdo pensar nas denúncias de Tarsila, de Menotti e de Vitor Brecheret, expoentes da Semana de 22, nas políticas internas de Vargas? Observar a

3 3 contribuição deste movimento à política externa brasileira varguista é a contribuição deste trabalho à ciência das Relações Internacionais. 2. PREÂMBULOS MODERNISTAS: AS VANGUARDAS E CONTRIBUIÇÕES As ideias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. (ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropófago) O término da Primeira Guerra Mundial não anunciou para o mundo os resultados que se pretendiam: abaixo do lema da guerra que se pretendia "pôr fim a todas as guerras", se instaurou caos e destruição no mundo. Nações arrasadas, perdedoras e vitoriosas, se preocupavam agora no ardiloso exercício de restaurar suas economias e reorganizar suas pretensões políticas. Entretanto, por todos os lugares varridos pela guerra, homens e mulheres contestavam, não só a situação humana a qual se encontravam, mas também se os governos que possuíam trariam bons resultados ou se o estado de calamidade tornar-se-ia permanente. A desordem instalada agora se transformava em inconformidade. Governos foram depostos, o mapa mundial reorganizava-se, a geopolítica do mundo também. Nesse entremeio do que tentava permanecer e do que poderia mudar, surgem movimentos artísticos decididos a minar as estruturas que fracassaram na guerra e, cada um a sua visão, propor mudanças significativas no tratamento da temática social. Pelo seu caráter de propostas pensadas a frente do que se tinha propriamente dito, estas escolas foram chamadas de Vanguardas. As Vanguardas sugiram em cidades onde quantidades significativas de ideias radicais foram reunidas e apresentadas em manifesto. Estes manifestos espalharam-se pelo mundo. Coube a este projeto estudar as principais vanguardas e suas respectivas propostas, em especial as que surtiram efeito aqui no Brasil. Foram quatro as vanguardas adotadas na pesquisa. O Futurismo, fundado em 1909 na Itália, por Marinetti, tinha como predileção básica a liberdade da arte. Essa concepção fundamental rompia com o academicismo vigente na Europa e, puxando para termos sociais, significava não necessariamente manter a configuração política estática, desvalorizando o tradicionalismo e o moralismo. A mudança, a liberdade, é uma característica irrepreensível. A principal contribuição desta Vanguarda é o desprezo ao

4 4 passado e o culto à originalidade que influenciaram importantes artistas nacionais, como Anita Malfatti e Oswald de Andrade, sendo este o principal nome do Modernismo do Brasil. O Dadaísmo, vanguarda nascida em Zurique, em meados de 1916, foi a mais radical de todas. Segundo Tzan, principal nome da escola, Dadá não significava nada. A ironia, pregada como principal instrumento, era o principal veículo dos dadaístas se confrontarem com as instituições, insurgir-se contra a tristeza e as convulsões sociais oriundas da guerra. A principal contribuição dadá ao Brasil foi a importância do escândalo: da ideia que, quanto mais chocante e impactante for apresentada, mais rápida pode ser assimilada e interpretada com naturalidade. O Expressionismo foi outra vanguarda, nascida na Alemanha, na década de 20. Sua principal prerrogativa era a arte como expressão do interior, do sentimento e não uma cópia. Dessa forma, a escola expressionista preocupouse em expressar o homem, rompendo com a linearidade da forma e com a objetividade do conteúdo. O que o Expressionismo trouxe ao Brasil, foi a importância do homem expressar-se por ele mesmo, observando seu papel dentro da sociedade. E não menos importante, o Surrealismo, também nascido na França, no final da década de 20. O surrealismo, estética do campo ilógico, irracional, impulsivamente criativo, fez coro sobre o homem reencontrar sua importância como elemento participativo, contrapondo-se ao discurso mecânico pregado pela industrialização, urbanização e automação dos meios produtivos. Em termos sociais, o Surrealismo, consideravelmente distante das Vanguardas inicias, é dos últimos sopros identitários da importância do homem. 3. A SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922 E A FASE HERÓICA Nossa época anuncia a volta ao sentido puro. (ANDRADE, Oswald. Manifesto Pau-Brasil) As Vanguardas espalharam-se pelo mundo ocidental ganhando releituras onde encontrasse indignação social ou rachaduras nos modelos políticos. Aqui no Brasil, o movimento irrompe ainda na década de 10, com a atuação de vários artistas, especialmente em São Paulo. Paulatinamente aproximados, tanto pela convergência de suas insatisfações, quanto a fim de uma renovação cultural do Brasil, o grupo articulou-se em prol de uma campanha única: a Semana de Arte Moderna de A semana, feita

5 5 em três dias no Theatro Municipal de São Paulo, escandalizou a opinião pública bitolada ao comodismo e a estaticidade ainda provenientes do Parnasianismo, corrente artística predominante. Mais do que inconformados com o cenário artístico, observavam as mudanças que tomavam conta do Brasil e, a passo delas, preencheram sua arte de exigências e denúncias. Altamente criticados, antes e depois da Semana, a proposta brasileira foi solidificando-se ao apresentar seus Manifestos, entre eles o Pau-Brasil e o Antropófago, basilares do Modernismo, e as obras de seus participantes: desde Oswald e Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, até Víctor Brecheret, Villa-Lobos e Di Cavalcanti. A Semana, não somente por ser uma mostra da nova postura intelectual brasileira, mostrou os preceitos do que viria a se tornar o centro de importância das artes nacionais: exportar nossa arte, reinventar o nacionalismo, a variedade étnica, as camadas sociais, a multiculturalidade, a ignorância do povo brasileiro enquanto elemento de sua própria identidade e a antropofagia: absorver, transformar e produzir. Ou como disse Mário da Silva Brito: A denúncia do lastimável estado desse período histórico causa e efeito a um só tempo de fenômenos sociais decisivos vem a constituir, aos olhos de hoje, toda uma série de depoimentos veementes, testemunhos e retratos da hora conturbada que passava. (BRITO, 1997, pág. 11) 4. A TRANSFORMAÇÃO DO CENÁRIO POLÍTICO E ECONÔMICO Não só os temas de caráter social impulsionaram a revisão modernista; todas as principais esferas de importância do Brasil, desde que, em tempos de mudança, interessavam. Ou seja, a Economia, como uma delas, foi de extrema importância. Até então, o Brasil, rural e agrário, apoiava-se no café como seu principal produto de pauta de exportação. O fim da Grande Guerra trouxe duas mudanças significativas: a indústria de substituição, que acabou absorvendo capitais do café, e a queda da compra internacional do mesmo, como reflexo do encolhimento do comércio internacional. Já não sendo fatores isolados, acrescenta-se ainda a fatídica queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, que pôs em cheque a produção cafeeira e impulsionou definitivamente a indústria como base da produção nacional.

6 6 Este processo, não tão simples, traz em seu entorno outros processos: a urbanização, o crescimento e a metropolização de cidades brasileiras devido, principalmente, à mudança do agricultor para operário e série de lutas por direitos sociais e trabalhistas que passam a serem demandados. O Modernismo denunciará os contrates, do homem do campo contra o homem da cidade, dos tipos e condições do trabalho, das realidades sociais, do êxodo, da migração, emigração e imigração, do desemprego, da exploração, da favelização, da exploração e da luta entre classes. Ainda falando em classes, os modernistas dissecarão as camadas sociais brasileiras, desde o burguês culto ao trabalhador analfabeto, do negro, do branco, do índio, dos estrangeiros, dos mestiços, dos rótulos e dos estereótipos. A realidade passa a ser a matéria prima do nacionalismo. Seguindo essa linha de insatisfação, entramos na discussão política do Brasil nesse período, em que, sob a égide das Oligarquias dominantes, sustentadas pelo café e por um governo de coalizão pendular entre São Paulo e Minas Gerais, se veem desafiadas por Oligarquias de outros estados e por grupos em ascendência, como por exemplo, os empresários. É junto a estes grupos de oposição que as camadas insatisfeitas, como proletariado e tenentes, juntam forças e pouco a pouco minam o poder estabelecido. Sucumbindo-se a República oligárquica, o grupo que a derrubou é o mesmo grupo que então apoia Vargas. Este período de transformação, diferente do período inicial, é considerado como a segunda fase do Modernismo, também chamada fase de 30. Com extrema ciência de seu papel, produz obras como Fogo Morto e Capitães de Areia, de Lins do Rego e Jorge Amado, na literatura e Operários, de Tarsila, na pintura. É mister observar que as propostas de 1922 nunca se apagaram e, pelo contrário, encontram-se convictas de sua função político-social neste período. Nas palavras de Lucia Helena: E a modernização de nossa sociedade, se assim podemos dizer, começaria por volta dos anos 20, nas transformações do mundo rural e oligárquico em contato com as novas de aplicação industrial e monetária do capital. Essa nova sensibilidade é veloz, baseada no choque e na fragmentação dos laços culturais herdados e será muito mais nítida nos centros cosmopolitas, embora se irradie para outras áreas. Ainda que fossem incipientes essas transformações no panorama brasileiro da época, elas não só existem na prática econômico-política das alianças oligárquicas, como também começam a ser anunciadas pela produção literária do período, na tematização dos novos pactos entre o campo e a cidade, a indicar a

7 7 progressiva ruptura dos alicerces de nossa primeira República. Estavam no ar os ventos de uma mudança econômica, politica e social. (HELENA, 1986, pag. 12) Todas essas discussões superficialmente aqui abordadas, mas exaustivamente trabalhadas na pesquisa, servem de ponte entre os dois principais pontos que ligam este trabalho: a proposta do Modernismo Brasileiro e Vargas em sua Política Externa. Em linhas evolutivas facilmente comparáveis, observamos como ideias contidas nos manifestos de 1922 podem apresentar-se amadurecidas nas decisões de Vargas entre 1930 a 45. Vargas é extremamente nacionalista, como pregou o Modernismo, é deveras populista, visto exigências do mesmo, é deliberativo, flexível e competente nos assuntos internacionais do Brasil, como sugerido pelos modernistas em se tratando de ser, antes de tudo, antropofágico. Um último ponto a ser discutido é a arte enquanto elemento inspirador de liberdade, de releitura e importância nacional. O Modernismo tem respaldo na abordagem do povo, de suas peculiaridades, de entender a importância popular na criação de um real nacionalismo. O sucesso do Modernismo esteve em compreender homens e mulheres para que esses compreendessem o que significa nação. Trata-se de um projeto em que não foram construídos heróis, mas o valor deles, espalhado nos méritos do povo. Ou seja, com todas as possibilidades que existem dentro do país, de riqueza a pobreza, de uma região a outra, o Modernismo conseguiu encaixar todos nesse plano de nação. Foi um trabalho ousado, especialmente por não delegar todos os créditos às classes dominantes, fazendoas repartir, sob críticas e críticas, com as camadas menos favorecidas. No final de contas, o Modernismo não hierarquizou ninguém em importância, mas atribuiu a todos, indiferente de qualquer característica, uma função no corpo nacional. É nesta esquematização brilhante que o Modernismo reascendeu a vela do Nacionalismo. 5. A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM INTERNACIONAL DO BRASIL A transformação permanente do tabu em totem. (ANDRADE, Oswald. Manifesto Antropófago) O Modernismo rompe com este estado de coisas. As nossas deficiências, supostas ou reais, são reinterpretadas como superioridades. (CAMPOS e DOLHNIKOFF, pág. 168, 2011)

8 8 Fica, para nós, por trás de todo esse estudo teórico, conceitual e comparativo, a pergunta: qual a efetiva importância do Modernismo neste processo? O primeiro e fulcral ponto a ser observado é que, apesar de todas as suas resoluções, o Modernismo é um movimento artístico, uma vanguarda, uma estética. Tal afirmação acarreta nas seguintes ponderações: arte é prioritariamente a expressão de alguma coisa, com conteúdo e forma trabalhados especificamente por um objetivo; arte é um mecanismo de comunicação; arte afirma ao mesmo passo que nega coisas. O Modernismo nesta estruturação teve, entre várias importâncias, três essenciais: a primeira, definir o perfil da cultura estritamente brasileira ainda que em contato e em troca com perspectivas estrangeiras, neste primeiro sentido, o Modernismo reinventa o papel do nacional; a segunda, arte ao alcance do povo, feita de povo, que denuncie a variedade, a problemática, a heterogeneidade e a diversidade que compõem os aspecto social e cultural do Brasil, neste segundo ponto, a repulsa à academicidade e a proposta de arte enquanto elemento cristalizado da realidade; a terceira, a capacidade de criticar, de não concordar, de revoltar-se com a ordem vigente, se possível até sugerindo novos modelos para abarcar as diferentes perspectivas sociais. Com estas considerações, podemos resumir o efeito do Modernismo como identitário, ou seja, sua linha mestre foi reconstruir a imagem brasileira e a sua percepção enquanto elemento do povo. Não é absurdo pensar que tudo era interessante ao Modernismo. Não só a própria história do Brasil e não só a multiculturalidade que nos compõe: interessava, sobremaneira ao Modernismo, a transformação. Transformar avante é modernizar. Sentindo a transformação pulsando nas diversas esferas do país, os artistas sabiam não exatamente como, mas sabiam que a realidade chegaria a outro patamar. O advento do moderno, da urbanização, do homem que se transforma com a cidade, que se transforma com o modelo produtivo, que passa a contestar a conjuntura política, que passa a exigir direitos, a exigir participação, a exigir vez e voz. Os radicais manifestos do início do Modernismo são o prenúncio da Era Vargas. Nas palavras de Neide Rezende: Censura-se em especial a falta de visão social e política dos rapazes de 22, o que de fato eles não tinham se se pensar no corpo coerente de ideias, em consciência de classe e do país. Mas se se pensar que a recusa radical de uma linguagem pressupõe a recusa do poder que a viabiliza, à medida que naquela se traduz o modo de percepção e representação da realidade, e, em última análise, a

9 9 interpretação do mundo, então, mesmo formando ao lado de Prados, Penteados e Washington Luíses, mesmo não investindo contra o poder imediato os modernistas da Semana estavam iniciando uma revolução profunda que iria inclusive se radicalizar sob o aspecto ideológico, nos anos seguintes. (REZENDE, 1986, págs. 42 e 43) Tomada esta consciência, ou melhor, este processo conscientizador a qual se propuseram os modernistas, enxergamos no passar dos anos a maturação da ideia de nacional, de nosso, de Brasil. Aliás, a reinvenção do nacional é o aporte para um governo totalitário e para uma política externa que defenda avidamente os interesses do Brasil. O final deste projeto foi observar as relações internacionais varguistas. Poderíamos até falar de uma política antropófaga, mas com uma série de ressalvas quanto ao uso do termo. Como nunca antes na história de nossa Política Exterior, o Brasil se pôs numa posição de negociador, global player, sendo elemento estratégico de elevado grau de importância na Segunda Grande Guerra. O Brasil pôde barganhar. Talvez por uma série de situações favoráveis externas, mas também por uma reflexão profunda quanto a sua posição geopolítica, o Brasil, em Vargas, foi extremamente oportunista por perceber no seu potencial um trunfo para catalisar notoriedade e reestruturar a política econômica e social do governo. Grande parte das denúncias modernistas entraram nessas decisões: o nacionalismo exacerbado, direitos trabalhistas, rearranjo dos grupos dominantes e de seus meios de manutenção, a diversidade social, entre outros fatores. A contribuição do Modernismo enquanto objeto a ser estudado dentro das Relações Internacionais é a de se recontar uma mesma linha temática através de outro meio. Tão consideralvemente importante é a construção de uma linha lógica de sustentação da ligação entre o Modernismo e a Política Externa Varguista neste trabalho, é a contribuição da metodologia empregada. Não tradicionalmente a que observa causas e efeitos, mas sim uma metodologia comparativa de linhas de evolução de diversos eventos, encontrando pontos de culminância em causas e consequências entre todas elas. Em outros termos, a metodologia empregada assume um papel significativo no modo de estudar conteúdos já conhecidos: é o de reinterpretá-lo a luz de outros eventos concomitantes, e de outra esfera do conhecimento, a fim de enxergar o mesmo processo histórico ou resultado prático, por uma forma não usual. Qual o benefício desse tipo de esforço é um pergunta deveras pertinente. A resposta também: o conhecimento histórico

10 10 possui diversas nuances, debatê-lo sob outras vertentes acarreta na construção de argumentos novos e tão significativos quanto todos os velhos já conhecidos. Podemos explorar a ciência de modos surpreendentes, puxando de outras áreas, novidades em prol de antigos debates. É construirmos pontes entre as ciências, conteúdos, pontos, tão cristalizados em suas respectivas esferas. No caso deste trabalho em específico, a herança enriquecedora das Artes e das Letras para o estudo da Política Externa Brasileira nas Relações Internacionais. Recontar uma história de outro jeito é contar uma nova história. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Oswald de. Obras completas: VI: Do pau-brasil à antropofagia e às utopias. Manifestos, teses de concurso e ensaios. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/ MEC, BRITO, M. da S. História do Modernismo brasileiro: antecedentes da Semana de Arte Moderna. 6 ed. Nova Friburgo RJ: Imagem Virtual, 1997 CAMPOS, F. e DOLHNIKOFF, M. Manual do Candidato História do Brasil. 1. ed. Brasília: FUNAG, 2001 CASTRO, S. Teoria e política do modernismo brasileiro. Petrópolis RJ: Vozes, 1979 CERVO, A. L. e BUENO, C. A Política Externa Brasileira ed. São Paulo: Ática, 1986 CERVO, A. L. e BUENO, C. História da política exterior do Brasil. 3 ed. Brasília: Editora UNB, 2008 FIGUEIREDO, E. (organizadora) Conceitos de Literatura e Cultura.2 ed. Niterói: EdUFF, 2010 FURTADO, C. Formação econômica do Brasil. 34 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 HELENA, L. Modernismo brasileiro e vanguarda. 3 ed. São Paulo: Ática, 1986 JÙNIOR, C. P. História econômica do Brasil. 51 ed. São Paulo: Brasiliense, 2008 LAFER, C. A identidade Internacional do Brasil e a política externa brasileira. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 2009 MARTINS, W. A Literatura brasileira: o modernismo ( ) 2 ed. São Paulo: Cultrix, 1967

11 11 MOREIRA, L. F. V., QUINTEROS, M. C. e SILVA, A. L. R. As Relações Internacionais da América Latina. Petrópolis: Vozes, 2010 (Coleção Relações Internacionais) REZENDE, N. A Semana de Arte Moderna. 3 ed. São Paulo: Ática, 1986 TELES, G. M. Vanguarda européia e modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1972.

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