IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF Brasil

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1 Mudanças Climáticas e Desmatamento: uma análise do discurso dos jornais Folha de São Paulo e O Globo no contexto da divulgação do relatório final do IPCC em 2007 Luciana Miranda Costa (UFPA) Jornalista. Professora Doutora da FACOM/ UFPA e Pesquisadora do CNPq Lara Thaís de Souza Lages (UFPA) Graduanda do curso de Comunicação Social da UFPA e bolsista do PARD/UFPA Resumo Tema recorrente na mídia nas últimas duas décadas, as mudanças climáticas vêm sendo debatidas por diversos segmentos sociais. Pretende-se, com base na análise de matérias veiculadas pela Folha de São Paulo e pelo Jornal O Globo, no contexto de divulgação do último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), mostrar a utilização das fontes provenientes dos campos político, científico e ambiental, através da temática do desmatamento, na construção do discurso jornalístico. Busca-se ainda, comparar o que foi divulgado por esses dois veículos. Alguns conceitos do método de análise de discurso foram escolhidos para o estudo desse conjunto de textos veiculados entre 20 de abril e 18 de maio de 2007 por dois dos jornais de maior circulação no Brasil: Folha de São Paulo e O Globo. Palavras-chave: Desmatamento, Mudanças Climáticas, IPCC, Folha de São Paulo, O Globo. 1

2 Apresentação Assunto muito debatido nacional e internacionalmente, as mudanças climáticas tornaram-se tema recorrente na mídia, principalmente no contexto de divulgação dos relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change ou Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), órgão das Nações Unidas. O objetivo deste artigo, através de um recorte específico, é analisar como a temática do desmatamento, no contexto mais amplo das mudanças climáticas, foi tratada pelos jornais Folha de São Paulo e O Globo, tendo como base as fontes provenientes dos campos político, científico e ambiental utilizadas pelo campo jornalístico para construir seu discurso. O corpus de análise foram as matérias divulgadas no período compreendido entre os dias 20 de abril e 18 de maio de A escolha está vinculada a um fato decisivo para a temática: a divulgação do último relatório do IPCC, que data de quatro de maio. Foram analisadas as matérias veiculadas duas semanas antes e duas semanas depois do anúncio deste terceiro relatório divulgado em Bancoc, Tailândia. A base teórica encontra-se, principalmente, na obra de Pierre Bourdieu e Michel Foucault. De Foucault, foi utilizado o conceito de discurso. De Bourdieu, o conceito de campo. Para Foucault (1995), discurso refere-se ao conjunto de regras e práticas que constroem uma versão da realidade num momento histórico específico. Deste modo, os discursos são dispersões, cabendo à análise de discurso descrevê-las. Bourdieu define o conceito de campo como um sistema específico de relações objetivas que podem ser de aliança e/ou de cooperação, entre posições diferenciadas, socialmente definidas e instituídas, independente da existência física dos agentes que as ocupam (COSTA, 2006a). O Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas IPCC O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), constituído em 1988, foi um órgão criado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) para fornecer informações científicas, técnicas e socioeconômicas. O IPCC produz três relatórios, divulgados periodicamente, baseados na revisão de pesquisas de 2500 cientistas de todo o mundo. 2

3 O primeiro relatório do ano de 2007 foi divulgado em dois de fevereiro. O documento afirma que os seres humanos são os responsáveis pelo aquecimento global 1. O segundo relatório foi divulgado dia seis de abril e abordou os impactos das mudanças climáticas, com um capítulo dedicado apenas à América Latina, com detalhes sobre o Brasil. Segundo informações divulgadas no site da organização não-governamental (Ong) WWF (World Wildlife Fund) 2, neste segundo relatório, o IPCC demonstra claramente que os impactos das mudanças do clima estão batendo à nossa porta neste momento e só tendem a piorar. O terceiro Relatório de 2007 foi divulgado no dia quatro de maio, em Bangcoc, na Tailândia. O texto mostra que é possível deter o aquecimento global se o processo de redução das emissões for iniciado antes de Breve histórico sobre os jornais A Folha de São Paulo foi fundada em 1921, ainda chamada de Folha da Noite". Em julho de 1925 foi criada a Folha da Manhã, edição matutina da "Folha da Noite". A "Folha da Tarde" foi fundada 24 anos depois. É, pois, com a união desses três títulos que, em 1960, nasce o jornal. Em 1989, a Folha de São Paulo passa a publicar, semanalmente, a coluna daquele que seria tido como o representante dos leitores: o ombudsman, palavra sueca que significa representante do cidadão. É este profissional que faz a análise do jornal do ponto de vista do leitor. A Folha foi pioneira nesse tipo de serviço na América Latina. Trata-se do jornal de maior tiragem e circulação no país 3 desde Possui, atualmente, quatro edições distintas: Nacional, Regional (distribuída no interior paulista), Brasília e São Paulo. O Globo é um jornal diário, fundado em 29 de julho de 1925 pelo jornalista Irineu Marinho, proprietário do jornal A noite, cuja intenção era expandir o público leitor da empresa. O Globo acabou sendo o carro-chefe do grupo. Com a morte de Irineu, o jornal foi herdado por seu filho, Roberto Marinho, que criou um conglomerado de empresas de mídia, incluindo a TV Globo, a 1 Acesso em: 25 de fev O aquecimento global é o aumento da temperatura terrestre (não só numa zona específica, mas em todo o planeta) e tem preocupado a comunidade científica cada vez mais. Acredita-se que seja devido ao uso de combustíveis fósseis e outros processos em nível industrial, que levam à acumulação na atmosfera de gases propícios ao Efeito Estufa, tais como o Dióxido de Carbono, o Metano, o Óxido de Azoto e os CFCs. Disponível em: Acesso em 13/04/ Acesso em: 25 de fev A circulação do jornal Folha de São Paulo é de aos domingos e nos dias úteis. Dados retirados da Folha Online no site Acesso em: 28/02/2008 3

4 Rádio Globo, a Editora Globo e demais veículos, nas chamadas Organizações Globo. O jornal tem sede no Rio de Janeiro e está entre os três maiores jornais de circulação no país 4. A seguir, para melhor familiarizar o leitor com o conteúdo dos textos, as matérias da Folha de São Paulo e de O Globo serão descritas com as respectivas fontes, datas de publicação e breve análise sobre suas especificidades discursivas. I - O corpus de Análise As matérias de Folha de S. Paulo e de O Globo foram selecionadas a partir da ferramenta de busca disponível em seus sites na Internet 5. A palavra-chave utilizada foi desmatamento. Nesta primeira parte serão apresentados alguns dados relevantes para se verificar como a temática ambiental aparece em cada veículo. Partindo das matérias da Folha de São Paulo, no período de 20 de abril a 18 de maio, foram divulgadas 21 (vinte e uma) matérias que citam o desmatamento. Dessas, oito abordam assuntos relativos ao IPCC. Já em O Globo, foram 25 (vinte e cinco) matérias no total, sendo seis relativas ao IPCC. É importante observar que o número de matérias é bem semelhante, o que mostra uma certa aproximação no padrão na divulgação feita por esses dois veículos de grande circulação. Com relação às matérias relativas ao IPCC, das oito divulgadas pela Folha, sete são assinadas, sendo quatro do enviado especial da Folha a Bangcoc, duas do jornalista da Folha, Eduardo Geraque, e um artigo de opinião de Márcio Santilli. Neste quesito, percebe-se a preocupação da Folha em manter um enviado especial, o jornalista e editor do caderno Ciência, Cláudio Ângelo, em Bangcoc, lugar da divulgação do último relatório do IPCC. Das matérias selecionadas no jornal O Globo, relativas ao IPCC, cinco não foram assinadas e uma foi assinada pela jornalista Marina Wentzel, enviada especial da BBC Brasil a Bangcoc. Em O Globo, percebemos uma incidência maior de matérias provenientes de agências de notícias, sendo que do total de 25 matérias, 14 são de agências. As agências que mais aparecem são Reuters e Agência Brasil. Das seis matérias relativas ao IPCC, apenas uma é da redação do jornal. 4 A circulação do jornal O Globo é aos domingos e tem uma média de exemplares por semana. Dados retirados do Infoglobo no site Acesso em: 28 fev

5 As Reportagens da Folha de São Paulo 1) A matéria da Folha de São Paulo intitulada Maggi verde defende floresta nos EUA (FSP On-Line, 26/04/07, Opinião) já é irônica pelo título. O texto mostra uma mudança de discurso do governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, um dos maiores sojistas do seu Estado. Ele diz estar adotando uma posição de defesa do meio ambiente depois da divulgação dos dois relatórios do IPCC. Mudança essa, que o jornalista considera inusitada. Bourdieu já observara que, (1989, p. 55), (...) os homens políticos (...) são (...) sempre suspeitos de produzirem interpretações interessadas, enviesadas e, por isso mesmo, desacreditadas. É inusitado, mas até o governador de Mato Grosso, o mega-sojicultor Blairo Borges Maggi (Partido Republicano), diz ter mudado seu ponto de vista sobre a questão ambiental após o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) (FSP On-Line, 26/04/07, Opinião). O governador concedeu entrevista à Folha em tom irônico, segundo o jornalista. No novo discurso, o governador defende que os proprietários devem ganhar dinheiro para manter a floresta em pé. Além disso, diz não ver mais a necessidade de ampliar terras para a pecuária. Trata-se de uma posição inesperada diante da atitude oposta que o governador adotou durante sua vida política. O próprio governador demonstra ironia ao tratar de sua mudança, quando se autodenomina "diabo da floresta". O novo discurso do "diabo da floresta", como ele mesmo se chamou em tom irônico em entrevista à Folha, será apresentando amanhã em Nova York, em evento de uma ONG que procura estreitar as relações entre brasileiros e a ONU (FSP On-Line, 26/04/07, Opinião). A outra voz que o jornalista revela para tentar fazer um relativo contraponto à fala do governador é a do ambientalista Sergio Guimarães, da organização não-governamental IVC (na matéria, denominada de Instituto Centro de Vida. A sigla significa Instituto Vitae Civilis), sediada em Cuiabá. Sérgio considera a atitude de Maggi interessante, mas demonstra certa desconfiança até poder ver medidas concretas. Diz ainda que é preciso reconhecer que a gestão ambiental melhorou no estado. Apesar de ser bem-vindo, o novo discurso verde de Maggi ainda precisa ser demonstrado na prática, segundo o ambientalista Sérgio Guimarães, do IVC (Instituto Centro de Vida), ONG sediada em Cuiabá (FSP On-Line, 26/04/07, Opinião). 5

6 2) A matéria intitulada Calor faz 18% da Amazônia virar savana (FSP On-Line, 28/04/2007, Ciência) traz informações sobre o cruzamento feito pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, com sede em S.José dos Campos-SP) de modelos de computador do IPCC com alguns feitos no Brasil, alertando para o risco da Amazônia virar savana. São mencionados três pesquisadores do Inpe, autores do estudo. O texto também faz referência a outros pesquisadores, que na matéria são denominados pioneiros. Cita ainda dois pesquisadores cujas instituições não são mencionadas, com estudos no Estado do Pará. Os resultados são tratados como certos e incontestáveis (... já sabem o tamanho do estrago... ): Pesquisadores do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) já sabem o tamanho do estrago que o aquecimento global vai fazer na Amazônia neste século (FSP On-Line, 28/04/2007, Ciência). 3) Desmate evitado entra na conta do IPCC (FSP On-Line, 03/05/07, Ciência) aponta que, pela primeira vez, o IPCC vai considerar a conservação de florestas e o desmatamento evitado como medidas de mitigação. Apresenta dois entrevistados: Thelma Krug, Secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente e membro do Conselho do IPCC, e Roberto Schaeffer, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Nota-se, como se observa no trecho abaixo, que nas matérias há a preocupação de ouvir pelo menos um pesquisador brasileiro. Com autoridade de quem participa do processo de Kyoto desde o início, Roberto Schaeffer, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), diz que a posição do governo vem suavizando sobre esse tema (FSP On-Line, 03/05/07, Ciência). 4) Salvar planeta custa 2% do PIB mundial (FSP On-Line, 04/05/07, Ciência) menciona Mohan Munasinghe, vice-presidente do IPCC, e Suzana Kahn Ribeiro, professora da UFRJ e autora do capítulo sobre transportes do relatório. Ambos abordam o custo necessário para conter o aumento de temperatura do planeta e, ainda, que a redução do desmatamento é uma das soluções para o problema do aquecimento. Um dos intertítulos, Síndrome de Fidel, trata da preocupação com os biocombustíveis e seus possíveis danos ambientais, questionando as declarações de Fidel Castro contrárias aos biocombustíveis: Primeiro, existe uma controvérsia em torno da chamada "síndrome de Fidel Castro", ou seja, a limitação da agricultura energética devido a uma competição com a agricultura para alimentos (FSP On-Line, 04/05/07, Ciência). 6

7 5) Em uma das reportagens analisadas, intitulada IPCC mostra caminho para curar o clima (FSP On-Line, 05/05/07, Ciência), os entrevistados são muitos. São citadas as falas de Gavin Edwards, Coordenador de Clima e Energia da Ong Greenpeace; Rajendra Pachauri, presidente do IPCC; Ogunlade Davidson, Co-Coordenador do Grupo de trabalho 3 do IPCC; Bert Metz, também do IPCC; Branca Bastos Americano, do Ministério da Ciência e Tecnologia, Membro da delegação brasileira na reunião do IPCC em Bangcoc; Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente; e Sérgio Rezende, Ministro da Ciência e Tecnologia. A matéria também fala do gasto do PIB (Produto Interno Bruto) necessário para conter o aquecimento. A fala do ambientalista Gavin Edwards ganha destaque no texto: "agora os líderes mundiais já têm a ciência do aquecimento global [a primeira parte do AR4 6 ], conhecem seus impactos [a segunda parte] e sabem como atacar a questão". A frase é explicitada para mostrar o aval do grupo, geralmente mais polêmico em relação à temática ambiental, no que diz respeito ao conteúdo do relatório. Os três membros estrangeiros ligados diretamente ao IPCC são as fontes a que o jornalista recorre para dar mais confiabilidade ao que escreve. A matéria cita um membro da delegação brasileira (do Ministério da C&T), mostrando a opinião de especialistas brasileiros. Mostra ainda, as divergentes opiniões dos Ministros Marina Silva e Sérgio Rezende quanto à energia nuclear, explicitando a disputa no campo político: No Brasil, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, disse que quer terminar o plano nacional de enfrentamento da crise do clima em 90 dias. "Já há várias ações em curso. Não vamos começar do zero." Já o ministro Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia) destacou a menção que o IPCC fez à energia nuclear como potencial "limpo". "A resistência a ela vem de alguns ambientalistas pouco esclarecidos" (FSP On-Line, 05/05/07, Ciência). 6) A matéria Crise do clima precede guinada cultural (FSP On-Line, 06/05/07, Ciência) mostra a importância dada pelo IPCC a fatores culturais nas políticas de redução do aquecimento. Os entrevistados são Rajendra Pachauri, presidente do IPCC, e Ogunlade Davidson, engenheiro coordenador do Grupo de Trabalho 3 do IPCC e professor da Universidade de Serra Leoa, na África. A declaração de Rajendra Pachauri deixa clara a crítica 6 Fourth Assessment Report (Quarto Relatório de avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas do IPCC). 7

8 feita aos EUA, país que adota políticas que vão de encontro à diminuição de emissão de gás carbônico na atmosfera: Seria ingênuo acreditar que tecnologias recém-desenvolvidas em laboratórios são parte da solução", disse Rajendra Pachauri, numa crítica velada aos EUA - que alegam que seus investimentos em pesquisas tecnológicas são a melhor arma contra o aquecimento (FSP On-Line, 06/05/07, Ciência). "Tecnologias precisam fazer parte de um pacote de políticas públicas", disse [Rajendra Pachauri] (FSP On-Line, 06/05/07, Ciência). 7 e 8) Os textos Investir no planeta (FSP On-Line, 07/05/07, Opinião) e Clima e florestas: é hora de avançar (FSP On-Line, 16/05/07, Opinião) são artigos de opinião. O primeiro comenta o relatório do IPCC e enfatiza o combate ao desmatamento como solução para os problemas do clima. Não está assinado. O segundo, assinado por Márcio Santilli, coordenador da campanha Y Ikatu Xingu do Instituto Socioambiental, ONG da qual é sócio-fundador, dá ênfase à redução compensada do desmatamento e às negociações sobre o desmatamento evitado, mas traz também uma avaliação crítica em relação ao governo, como pode ser visto nas citações abaixo: O governo brasileiro avançou e formulou uma proposta, mas pretendendo que a compensação se dê por meio de doações para um fundo, e não pela emissão de certificados de redução de emissões válidos no mercado de carbono (FSP On-Line, 16/05/07, Opinião). A vantagem para o clima está em facilitar o cumprimento das metas e sua ampliação (FSP On-Line, 16/05/07, Opinião). As Reportagens de O Globo 1) Etanol Brasileiro é opção melhor, diz esboço do IPCC (O Globo On-Line, 02/05/07, Ciência). A matéria trata sobre a potencialidade e riscos do etanol produzido no Brasil para o meio ambiente. Cita a também possibilidade de o cultivo da cana-de-açúcar causar desmatamento no pantanal, trazendo fontes de opiniões contrárias, uma que sugere esse desmatamento (ONG Global Nature Fund) e uma que se opõe (WWF): 8

9 Em um estudo divulgado no começo deste ano, a organização nãogovernamental alemã Global Nature Fund sugere que o cultivo de cana-deaçúcar para a produção de Etanol está causando desmatamento na região do Pantanal. Mas segundo Singer, da WWF, o etanol brasileiro não é a principal causa do desflorestamento. Ele aponta a indústria pecuária como razão do problema e defende a produção sustentável do biocombustível (O Globo On- Line, 02/05/07, Ciência). O entrevistado acima foi Stephan Singer, chefe da unidade de políticas energéticas da ONG WWF, o que reforça uma tendência observada nas matérias de O Globo em prol dos biocombustíveis. 2) A matéria Pressão para que países ricos assumam culpa pelo aquecimento global (O Globo On-Line, 03/05/07, Ciência) fala do esforço feito por Brasil, Índia e China para que fosse acrescentado um parágrafo no texto do relatório, no qual a responsabilidade pelo aquecimento recaísse sobre as nações desenvolvidas. Há um tom irônico do jornalista quando diz que a China vai se tornar o maior poluidor até o fim do ano e que, mesmo assim, exige essa responsabilidade dos países ricos. Os entrevistados são o Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e Luiz Pinguelli Rosa, Secretário Executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Os três países querem ver incluído no texto final um parágrafo no qual se diz que 'se os países com alta taxa de emissão per capita de gases-estufa não reduzirem suas emissões significativamente, será difícil fazer progressos substanciais no combate ao aquecimento global'. Os países com Alta taxa per capita são as nações desenvolvidas. Embora vá se tornar o maior poluidor do mundo até o fim deste ano, a China tem baixa emissão per capita, já que este índice está associado também ao nível de consumo (O Globo On-Line, 03/05/07, Ciência). 3) Bangcoc: IPCC define medidas contra aquecimento (O Globo On-Line, 03/05/07, Ciência) resume o que está contido no relatório, citando, principalmente, os cortes de emissões de carbono e a utilização de energia limpa. Menciona também o Greenpeace, uma ONG ambientalista. No entanto, a ênfase maior é dada ao conhecimento científico vindo de países ricos, onde a pesquisa é mais consolidada, comprovando mais uma vez as palavras de Foucault (1995) quanto ao lugar de fala do indivíduo e seu status correspondente. 9

10 Os cientistas do IPCC, a maioria deles vinda de países industrializados, consideram que o projeto das torres pode ser importante em duas décadas (...) (O Globo On-Line, 03/05/07, Ciência). 4) O Texto Brasil levaria vantagem para limitar emissões (O Globo On-Line, 04/05/07, Ciência) fala que o limite de emissões de gás carbônico deve ser mais fácil para o Brasil, já que sua matriz energética é a hidrelétrica. O problema maior está no desmatamento. Os entrevistados são a especialista Branca Americano, do Ministério da Ciência e Tecnologia, a diretora do Grupo de Trabalho do IPCC, Thelma Krug, e Gavin Edwards, especialista nas questões de energia e mudança climática da ONG Greenpeace. Segundo Americano, o Brasil está muito bem na foto se comparado com os outros emergentes, porque o país não depende de combustíveis fósseis como o carvão, que emitem mais gás carbônico. Já a diretora do grupo de trabalho do IPCC, a brasileira Thelma Krug, observa que a maior parte das emissões de carbono no Brasil é causada pelo desmatamento de florestas (O Globo On-Line, 04/05/07, Ciência). 5) A matéria Transporte público é questão ambiental para o IPCC, (O Globo On-Line, 08/05/07, Ciência) fala dos problemas ambientais causados pelo setor de transportes. Os entrevistados são dois pesquisadores já citados em matérias mencionadas aqui, tanto as da Folha como do próprio O Globo. São eles: professora Suzana Kahn, pesquisadora da UFRJ que participou da redação do relatório do IPCC; professor Roberto Schaeffer, também autor do relatório, e o professor Emílio La Rovere. O jornalista ressaltou a diferença de opiniões de cientistas brasileiros que participaram da produção do relatório do IPCC: Ainda não há consenso, porém, sobre a melhor forma de combater o desmatamento. O assuntou deu origem a divergências entre o professor Roberto Schaeffer e o professor Emílio La Rovere, o terceiro brasileiro envolvido na produção do relatório do IPCC. Enquanto Schaeffer defende o estabelecimento de metas para a redução do desmatamento, La Rovere argumenta que a prática deve ser extinta (O Globo On-Line, 08/05/07, Ciência). 6) Finalmente, em Floresta dá mais lucro preservada (O Globo On-Line, 11/05/07, Ciência) são colocadas informações sobre o estudo de um grupo que diz que a redução de queimadas 10

11 é uma das formas mais baratas de combater o aquecimento. Traz Carlos Nobre, do Inpe, como entrevistado. Ressalta-se que o Inpe é uma das instituições que mais aparecem nas matérias dos dois jornais. Reduzir a queima das florestas tropicais é uma das formas mais baratas de combater o aquecimento global, principalmente para o Brasil, dono dos maiores estoques florestais da Terra (O Globo On-Line, 11/05/07, Ciência). II. A representatividade dos campos no discurso jornalístico Bourdieu (1989) coloca que os agentes (...) para fazerem reconhecer sua visão como objetiva, dispõem de forças que dependem da sua posição nos campos respectivos. E mesmo Foucault já trazia à luz essa reflexão: Qual é o status dos indivíduos que têm e apenas eles o direito regulamentar ou tradicional, juridicamente definido ou espontaneamente aceito, de proferir semelhante discurso? (FOUCAULT, 1995, p. 57). Prossegue o autor: (...) as diversas modalidades de enunciação, em lugar de remeterem à síntese ou à função unificante de um sujeito, manifestam sua dispersão: nos diversos status, nos diversos lugares, nas diversas posições que pode ocupar ou receber quando exerce um discurso, na descontinuidade dos planos de onde fala. (FOUCAULT, 1995, p.61). Como bem nos diz Bourdieu (1989), as estratégias empregadas pelos diversos agentes na luta simbólica pelo monopólio da imposição das suas verdades são justamente a manifestação das relações de força entre os campos em que estão inseridos. O campo ambiental vem se fortalecendo desde a década de 60 com a criação de leis de proteção ambiental e o aumento das discussões sobre o tema ao longo dos anos, mas foi durante as duas últimas décadas que sua base institucional foi consolidada (COSTA, 2006, p.88-89). O campo científico, socialmente legitimado, tem sua gênese no nascimento da ciência moderna, no século XVI. O método racional é aplicado nas pesquisas voltadas à compreensão dos fenômenos naturais. A partir do século XVIII, passa-se também a utilizar o método para entender fenômenos sociais. Com a evolução da ciência, isso vem a ser questionado. Atualmente, a certeza que domina a construção da ciência é a incerteza (DESAULNIERS, 2002, p. 4). 11

12 O campo político é o lugar em que se organiza a competição em torno do controle do aparelho do Estado (DABÈNE, 2002). Segundo Bourdieu (1989, p. 164) é o lugar em que se geram, na concorrência entre os agentes que nele se acham envolvidos, produtos políticos, problemas, programas, análises, comentários, conceitos, acontecimentos, etc. As fontes de cada campo A seguir, tem-se a lista dos entrevistados de cada jornal: Entrevistados da Folha de São Paulo Função Orgunlade Davidson Co-coordenador do Grupo de trabalho 3 2 do IPCC Rajendra Pachauri Presidente do IPCC 2 Blairo Borges Maggi Governador de Mato Grosso e megasojicultor 1 Bert Metz Coordenador do IPCC 1 Branca Bastos Membro da delegação brasileira na 1 Americano reunião do IPCC em Bancoc Carlos Nobre Pesquisador do Inpe 1 Gavin Edwards Coordenador de uma ONG (Greenpeace), 1 Luís Salazar Pesquisador do Inpe. 1 Marcos Oyama Pesquisador do Inpe 1 Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente 1 Mohan Munasinghe,. Vice-presidente do IPCC 1 Orgunlade Davidson Co-coordenador do Grupo de trabalho 3 2 do IPCC Rajendra Pachauri Presidente do IPCC 2 Roberto Schaeffer UFRJ (Universidade Federal do Rio de 1 Janeiro) Sérgio Guimarães Ambientalista da ONG IVC (Instituto 1 Centro de Vida) Sérgio Rezende Ministro da Ciência e Tecnologia 1 Suzana Kahn Ribeiro Professora da Coppe (Coordenação dos 1 Programas de Pós-Graduação em Engenharia) da UFRJ e autora do capítulo sobre transportes do relatório do IPCC Freqüência nas matérias Tem-se mais abaixo, uma classificação dos entrevistados do jornal de acordo com seu campo de origem. Considerou-se do campo ambiental, as fontes representativas de organizações não-governamentais de defesa ambiental; do campo cientifico, os pesquisadores ou professores, ligados ou não ao IPCC; e do campo político, entrevistados ligados aos ministérios ou ocupantes de cargos públicos: 12

13 Campos (presentes nas matérias da FSP conforme Representantes as fontes entrevistadas) Campo Ambiental 2 Campo Científico 9 Campo Político 5 Como se observa nos quadros acima, a prioridade do jornal Folha de São Paulo foi dar espaço para as fontes do campo científico. O campo político aparece em seguida, apenas com representantes do governo federal, ou seja, apenas com o discurso oficial. O campo ambiental está representado por duas ONGs, uma de caráter internacional (Greenpeace) e outra nacional. Os entrevistados do jornal O Globo são os seguintes: Entrevistados de O Globo Luiz Pinguelli Rosa Função Coordenador do Programa de Planejamento energético da COPPE/UFRJ e Secretário Executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas Freqüência nas matérias 2 Branca Americano Ministério da Ciência e Tecnologia 1 Celso Amorim Ministro das Relações Exteriores 1 Emílio La Rovere Professor e também autor do 1 relatório do IPCC Gavin Edwards Especialista nas questões de energia e mudança climática da ONG Greenpeace 1 Roberto Schaeffer Stephan Singer Suzana Kahn Thelma Krug Professor da COPPE, também autor do relatório. Chefe da unidade de políticas energéticas da ONG WWF Professora e pesquisadora da COPPE que participou da redação do relatório do IPCC Diretora do Grupo de Trabalho do IPCC Campos Representantes (presentes nas matérias de O Globo conforme as fontes entrevistadas) Campo Ambiental 3 Campo Científico 8 Campo Político 2 A prioridade é também para o campo científico, possuidor de maior número de representantes, assim como visto na Folha. O campo ambiental vem em seguida com 3 representantes, sendo dois entrevistados da ONG Greenpeace e um da WWF, ambas internacionais. O campo 13

14 político aparece apenas com dois representantes, estes ligados aos ministérios de Ciência e Tecnologia e das Relações Exteriores. Conclusão No meio da explosão atual de informações sobre mudanças climáticas, a estratégia do jornalista (e da empresa jornalística, em última análise) para fazer-se crer pelo seu leitor e, antes disso, fazer-se ler, é trazer discursos para configurar o seu, discursos estes que estejam num lugar institucional, como chamaria Foucault, privilegiado. Daí o aparecimento de pesquisadores de instituições conhecidas e respeitadas para validar o que se afirma, principalmente em se tratando de um assunto ainda desconhecido para maioria das pessoas e de domínio, até a Rio-92 (TRIGUEIRO, 2005), quase que exclusivo de cientistas e de alguns ambientalistas. O campo científico, em se tratando de suas fontes, foi o fórum privilegiado escolhido pelo campo jornalístico. O discurso do campo científico percebido nas reportagens é posto como a autoridade maior, muitas vezes embasando as afirmações feitas por representantes dos outros dois campos aqui citados. Ou seja, pode-se inferir que houve um aprofundamento maior nos textos, em termos de conteúdo, com explicações do próprio fenômeno (Aquecimento Global), causas e conseqüências (p.ex.desmatamento), em virtude das principais fontes ouvidas, do campo científico. Elas não se limitaram apenas à descrição do factual e suas vozes e opiniões foram incorporadas ao corpo das matérias jornalísticas. Porém, observa-se que nos textos selecionados que trataram sobre o desmatamento na região amazônica, pesquisadores locais praticamente não foram ouvidos, mantendo-se um enfoque ainda externo à realidade local. Falou-se de desmatamento na Amazônia sem se consultar seus principais atores, inclusive do campo científico. O campo ambiental, através da representação das ONGs nos textos, tem sua importância reconhecida, mas é representado, em sua maioria, por entidades internacionais. As organizações nacionais são preteridas. Já o campo político aparece com um discurso de defesa do desenvolvimento sustentável, com propostas de ações integradas socialmente, porém, as fontes ouvidas são somente as de âmbito federal, com exceção do Governador do Mato Grosso. Pode-se também concluir que as estratégias que esses dois veículos adotam para legitimar seus discursos são comuns: vozes de especialistas, de pessoas de lugares de fala privilegiados, fontes diretamente ligadas ao campo científico e ao campo político. O jornal 14

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