ORÇAMENTO E SEGURANÇA PÚBLICA Um Estudo de Caso do Fundo Nacional de Segurança Pública

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1 Bruno César Grossi de Souza ORÇAMENTO E SEGURANÇA PÚBLICA Um Estudo de Caso do Fundo Nacional de Segurança Pública Monografia apresentada ao Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas da Universidade de Brasília e à Associação Brasileira de Orçamento Público como requisito parcial à obtenção do Título de Especialista em Orçamento e Políticas Públicas. Brasília DF 2004

2 Agradecimentos Ao longo da elaboração deste trabalho, contei com o apoio e amizade de algumas pessoas. Ainda que algumas possam ser esquecidas, não posso deixar de agradecer ao Arthur, pela ajuda e incentivo constante ao longo de sua elaboração; à Célia, pela paciência e colaboração; ao Fabiano, ao José Roberto Faria e ao professor Paulo Calmon, pela disponibilidade e atenção nos encontros e s trocados. Também contei com o apoio do Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas e da Associação Brasileira de Orçamento Público, que propiciaram um ambiente importante de reflexão e de discussão sobre finanças e políticas públicas. Por fim, este trabalho não seria possível sem o incentivo e ajuda da Lúcia e de minha esposa Letícia, a quem dedico esta monografia. 2

3 Resumo Este trabalho trata de um marco na história do combate à violência no País: o Plano Nacional de Segurança Pública - PNSP. Criado em 2000 pelo Governo Federal, o PNSP foi instituído em conjunto com o Fundo Nacional de Segurança Pública - FNSP. Ambos representam um claro esforço em garantir a efetividade da atuação governamental na prevenção e no combate à insegurança crescente que o País vivia. Tais instrumentos contam exclusivamente com recursos oriundos dos Orçamentos da União, porém, na sua grande maioria, são operacionalizados com o apoio dos Estados e Municípios. Neste contexto de dualidade de recursos e operacionalização, e da ambigüidade na definição da competência legal para tratar do assunto, é que se desenvolve a presente monografia. Visando demonstrar a situação, é desenvolvida ao longo do trabalho uma análise dos orçamentos de 1992 a 2003, com especial atenção para os convênios firmados pelo FNSP, desde sua criação. 3

4 4

5 Sumário Introdução 8 1 Aspectos Conceituais 11 Federalismo 11 A Figura do Fundo 13 Convênios 18 2 Segurança Pública Orçamentos da União 22 Universo Trabalhado 22 Classificações Orçamentárias anteriores a Classificações Orçamentárias posteriores a Equivalência nas Classificações Orçamentárias 24 Gastos com Segurança Pública Todas as Despesas 29 Gastos com Segurança Pública Exceto Pessoal 31 3 O Plano Nacional de Segurança Pública e o Fundo Nacional de Segurança Pública 34 Evolução do Papel do Ministério da Justiça 34 O Início dos Trabalhos 37 Evolução dos Dispêndios 38 O Ano O Ano

6 O Ano O Ano Estrutura Programática do Fundo 47 4 Conclusão 50 Anexos Tabelas Completas dos Dados Utilizados 56 Tabela 1 - Demonstrativo dos Dispêndios por Função e Grupo de Natureza de Despesa a Dados Correntes a Preços Médios de Tabela 2 - Demonstrativo dos Dispêndios da Função Segurança Pública por Órgão e Grupo de Natureza de Despesa Dados Correntes a Preços Médios de Tabela 3 - Demonstrativo dos Dispêndios do Ministério da Justiça por Função e Grupo de Natureza de Despesa a Dados Correntes a Preços de Tabela 4 - Demonstrativo dos Dispêndios do Ministério da Justiça, por Unidade Orçamentária, Grupo de Natureza de Despesa e Modalidade de Aplicação a Dados Correntes a Preços de Tabela 5 Índices Utilizados na Atualização de Valores - IGP-DI 84 Tabela 6 - Convênios Firmados pelo Fundo Nacional de Segurança Pública em 2000 (valores correntes) 85 Tabela 7 - Convênios Firmados pelo Fundo Nacional de Segurança Pública em 2001 (valores correntes) 92 6

7 Tabela 8 - Convênios Firmados pelo Fundo Nacional de Segurança Pública em 2002 (valores correntes) 104 Tabela 9 - Convênios Firmados pelo Fundo Nacional de Segurança Pública em 2003 (valores correntes) 113 Bibliografia 120 Sites Pesquisados na Internet 122 7

8 Introdução Em 20 de junho de 2000, o Governo Federal anunciou a implantação do Plano Nacional de Segurança Pública. Mais do que uma resposta a um acontecimento isolado ocorrido no Rio de Janeiro, o Plano visava dar maior efetividade às políticas governamentais de combate e prevenção à violência no território nacional. As medidas lançadas pelo governo pretendiam atuar em duas vertentes: de caráter repressivo e de caráter preventivo. Neste contexto, mediante destinação de recursos da União, foi instituído o Plano, de características estratégicas, que enfatizava o esforço na integração, na operacionalidade, na intolerância ao delito, na sobreposição de ações coordenadas e na agilidade da troca de informações, buscando a eficiência do trabalho conjunto e preservando a autonomia das unidades da Federação. Em conjunto com o Plano, por intermédio da Medida Provisória n o 2.045, de 28/06/2000, foi criado o Fundo Nacional de Segurança Pública, cujos objetivos primordiais eram garantir o reequipamento das polícias estaduais, o treinamento das polícias e guardas municipais e o aprimoramento da polícia técnico-científica. A mudança foi significativa, e o Plano realmente representou um marco na atuação federal para com o tema segurança pública pois, em boa medida, chamou para si certas responsabilidades que até então não estavam sob sua atuação direta. 8

9 A partir desses instrumentos, e tendo o Fundo sob sua responsabilidade, a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça iniciou seus trabalhos de parcerias com os Estados e Municípios, contando com a colaboração de um Conselho Gestor, constituído por Portaria do Ministro, e contando com representantes de outras Pastas. Considerando estes aspectos, procurou-se através deste trabalho analisar as ações e dispêndios do Governo Federal na área de segurança pública no período de 1992 a Ademais, a análise enfatiza o período de atuação do Fundo, em especial a seus convênios firmados com Estados e Municípios. O importante a ressaltar na análise desenvolvida ao longo deste trabalho é que todas as informações pesquisadas são de domínio público, ou seja, são frutos de informações e dados prestados ou disponibilizados por vários órgãos da administração pública federal. Esta, na verdade, foi uma estratégia utilizada de maneira a verificar, não somente a eficácia e eficiência das ações do governo, mas também analisar a transparência que se deu ao tema. Assim, este trabalho se divide em três capítulos e a conclusão. O primeiro capítulo se destina a apresentar alguns conceitos que serão utilizados ao longo do trabalho. O capítulo seguinte analisa os dispêndios realizados com a função segurança pública entre 1992 e 2003, e possibilita uma comparação entre esta função e os grupos de natureza de despesa. O terceiro capítulo, por sua vez, analisa o caso específico do Fundo Nacional de 9

10 Segurança Pública, nos anos de 2000 a 2003, com relação aos seus gastos e convênios firmados. 10

11 1 Aspectos Conceituais O objetivo deste capítulo é apresentar alguns conceitos importantes que irão ajudar na compreensão dos capítulos seguintes, e que também comporão a conclusão final. Desta forma, procurou-se fazer a divisão entre três blocos de conceitos principais: o primeiro relata a questão federativa, especialmente no que diz respeito à dualidade de competências entre União e Estados, na área de segurança pública; o segundo visa a demonstrar a conceituação do Fundo e sua importância na condução de uma política pública; por fim, o terceiro traz algumas definições e práticas utilizadas nos acordos firmados entre a União e os Estados e Municípios, chamados de convênios. Federalismo O federalismo brasileiro, mais do que um dispositivo expresso na Constituição Federal, deve ser visto como a busca pela autonomia, em especial, dos Estados. O federalismo brasileiro teve como referência o modelo norte-americano. Entretanto, na sua formação, ele foi construído de forma bem diferente. Como ressalta Abrucio e Costa 1, isto ocorreu por duas razões básicas: a) no momento da constituição do federalismo brasileiro, passou-se de um Estado centralizador para um modelo descentralizado de poder; e b) o federalismo brasileiro foi motivado apenas pela questão da autonomia dos Estados. A falta de uma distribuição igualitária de poder entre os Estados acabaria por gerar várias situações de desigualdades, propiciando até a formação de várias coalizões de uns contra os outros. 1 ABRUCIO, Fernando Luiz e COSTA, Valeriano Mendes Ferreira. Reforma do Estado e o Contexto Federativo Brasileiro. Fundação Konrad-Adenauer-Stiftung. São Paulo,

12 Com a promulgação da Constituição de 1988, houve algumas alterações importantes neste jogo federativo: a) as receitas que a União detinha foram reduzidas frente a uma elevação da participação dos Estados e Municípios; e b) houve crescimento das atribuições do Legislativo frente ao Executivo, o que, por sua vez, fortaleceu a representação dos Estados no contexto político nacional, acentuando ainda mais a idéia de independência e autonomia. No caso específico da segurança pública, a Constituição vigente não assegurou como competência da União, seja privativa ou não, tratar ou dispor sobre o tema. Apesar disso, é importante observar o que diz o 1 o do art. 25: Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e leis que adotarem, observados os princípios desta Constituição. 1º São reservadas aos Estados as competências que não lhes sejam vedadas por esta Constituição. A partir deste ponto, o tema segurança pública veio a ter sua competência remetida aos Estados; competência esta que, não possuindo regulamentação estadual específica, passaria aos Municípios. O que se observa a partir de 1988 é que este tema passou a figurar na maioria das Constituições Estaduais como um dos objetivos a serem perseguidos pela atuação local. A partir daí, cada unidade da federação, considerando suas peculiaridades, empreendeu ações específicas no combate aos crimes e na condução da política de segurança pública. 12

13 O Plano Nacional de Segurança Pública, criado em 2000, tem por objetivo principal reduzir e reprimir a criminalidade. Muitas das ações e metas contidas no Plano dependem de várias iniciativas, as quais não se restringem exclusivamente à área federal, envolvendo também outras esferas do Poder Público, os governos estaduais e municipais, além da própria sociedade civil. Justamente nesse ponto reside a maior dificuldade de implementação de uma política única de segurança pública. A situação poderia ser resumida da seguinte forma: a União formulou um Plano Nacional e, para isso, abriu uma linha de recursos sob a égide do Fundo Nacional de Segurança Pública, também instituído em 2000; a partir daí, os Estados e Municípios formularam seus planos de segurança e os submeteram à apreciação do Governo Federal, por intermédio do Ministério da Justiça. O problema é que a constituição do Fundo não trouxe consigo obrigações ou condicionantes que não fossem o respeito estrito aos aspectos legalistas, como por exemplo, a instituição nos Estados de uma política única de segurança, o que, por sua vez, só veio a reforçar a idéia de autonomia que os Estados historicamente detêm. A Figura do Fundo Na história brasileira, a figura do fundo aparece no Império, por volta de1891, quando existia o Fundo de Emancipação, que se destinava à libertação dos escravos. Entretanto, nessa época, o fundo não significava um instrumento de programação. Na República, o primeiro fundo, criado pelo Decreto n o 4.382, de 08/04/1902, chamava-se Fundo de Amortização dos Empréstimos Internos ; o segundo fundo só veio a aparecer em 1932, com a instituição do Fundo Naval. 13

14 Mesmo assim, a constituição dos fundos não condicionou, como bem lembra Machado Júnior 2, a sistematização do planejamento das ações governamentais no País. Considerando este aspecto, as Constituições de 1946 e 1967 incluíram vários dispositivos que vinculavam parte das receitas de certos fundos a determinadas ações do governo. Ainda assim, o conceito de Fundo só veio a ser mais bem explicitado nos art. 71 a 74 da Lei n o 4.320, de 17 de março de 1964, relatados a seguir: Art. 71. Constitui fundo especial o produto de receitas especificadas que, por lei, se vinculam à realização de determinados objetivos ou serviços, facultada a adoção de normas peculiares de aplicação. Art. 72. A aplicação das receitas orçamentárias vinculadas a fundos especiais far-se-á através de dotação consignada na Lei de Orçamento ou em créditos adicionais. Art. 73. Salvo determinação em contrário da lei que o instituiu, o saldo positivo do fundo especial apurado em balanço será transferido para o exercício seguinte, a crédito do mesmo fundo. Art. 74. A lei que instituir fundo especial poderá determinar normas peculiares de controle, prestação e tomada de contas, sem, de qualquer modo, elidir a competência específica do Tribunal de Contas ou órgão equivalente. 2 MACHADO JÚNIOR, José Teixeira. Fundos e Receitas Vinculadas. Brasília, Revista da Associação Brasileira de Orçamento Público, volume 5, número 2, maio/agosto de

15 O importante a ressaltar nestes artigos é a constituição dos fundos, que a partir de então passou a ser feita por receitas especificadas e, por lei, relacionadas diretamente à realização de objetivos ou serviços. Posteriormente, o Decreto-Lei n o 200, de 25/02/1967, estabeleceu em seu art. 172, 2 o, a autorização para o Poder Executivo instituir Fundos Especiais de Natureza Contábil. Apesar de ter criado esta categoria de fundos, não houve uma caracterização clara desse instrumento. Para os juristas da época, a criação deste tipo de fundo tinha por objetivo criar um instrumento de flexibilidade operacional para os entes da administração direta que eram responsáveis por atividades específicas. Além destes, também figuram até a data de hoje os Fundos Constitucionais, que se destinam a distribuir recursos às outras unidades governamentais, conferindo assim certo grau de racionalidade à administração e partilha das receitas federais. Vários autores consideram a instituição do Decreto-Lei n o 200, de 1967, como um marco divisor. Após sua edição, a figura dos fundos se proliferou na administração pública, sobretudo nos Estados da região Sul e Sudeste, o que perdurou até Só para se ter uma idéia, de 1967 a 1988, foram instituídos 50 novos fundos na esfera federal. Em 1988, a Constituição Federal utilizou em vários artigos a figura do fundo, dos quais se destacam os pontos a seguir: I) Confirmação da questão da distribuição das receitas federais para Estados e Municípios, objetivando promover o equilíbrio sócio-econômico (art.159); 15

16 II) Os fundos seriam considerados como parte integrante da Lei Orçamentária (art.165); III) Confirmação da vedação na vinculação de receita de impostos aos fundos. Entretanto, há ressalva à repartição de receitas federais, incluindo, a partir de então, a destinação de recursos para as ações e serviços públicos de saúde, para manutenção e desenvolvimento do ensino, para realização de atividades da administração tributária e na prestação de garantias às operações de crédito por antecipação de receita (art. 167); IV) A uma Lei Complementar, remeteu-se a instituição e o funcionamento dos fundos (art. 165); V) A instituição de qualquer fundo sem prévia autorização legislativa foi vedada (art. 167); e VI) Criou-se a necessidade de ratificação dos fundos existentes em 1988, no prazo de dois anos, sob pena da sua extinção, exceto os resultantes de isenções fiscais que passasem a integrar patrimônio privado e os que interessassem à defesa nacional (art.36 do ADCT). Apesar de a Constituição estabelecer a necessidade de ratificação dos fundos num prazo máximo de dois anos, poucos tiveram a edição de uma lei específica determinando sua ratificação. Ao invés disso, o que veio a ocorrer foi o aproveitamento da edição da Lei n o 8.173, de 1991 (PPA ) para a recriação dos fundos extintos em outubro de

17 Conjugado a estes preceitos Constitucionais, é importante observar o que diz Machado Júnior e Reis 3 : O fundo por sua vez não detém personalidade jurídica, e também não se configura em órgão ou unidade orçamentária, representando tão somente um tipo de gestão financeira de recurso ou conjunto de recursos vinculados. Em termos da execução orçamentária, a existência de um fundo apresenta as seguintes vantagens: Garantia de certa linha de recursos, via vinculação de receitas; Descentralização da consecução dos objetivos de um programa para um determinado gestor; Possibilidade de se obter melhores avaliações dos resultados pretendidos; Maior controle entre as receitas vinculadas e os objetivos estipulados; e Garantia da destinação dos recursos à finalidade proposta, ainda que em exercício seguinte à sua arrecadação ou destinação. Em oposição, alguns fatores são considerados negativos para a execução orçamentária por intermédio dos fundos: Rigidez na definição das ações de governo, tendo em vista suas destinações de recursos; Possibilidade de formação de centros de poder para administrar cada um; Elevação dos custos operacionais, ligados à sua manutenção; e 3 JÚNIOR MACHADO, José Teixeira e REIS, Heraldo da Costa. A Lei Comentada. Rio de Janeiro, IBAM,

18 Possibilidade de duplicação de esforços para a solução de um mesmo problema. Por fim, vale lembrar que, para a Lei Orçamentária de 2003, existem 52 fundos distribuídos entre os orçamentos fiscal e da seguridade social da União. Convênios A possibilidade de execução dos orçamentos de forma descentralizada veio a ser consagrada no art.10 do Decreto-Lei n o 200, de 1967, que assim dispunha: Art. 10 A execução das atividades da Administração Federal deverá ser amplamente descentralizada. 1 o A descentralização será posta em prática em três planos principais: a) dentro dos quadros da Administração Federal, distinguindo-se claramente o nível de direção do de execução; b) da Administração Federal para a das suas unidades federadas, quando estejam devidamente aparelhadas e mediante convênio; c) da Administração Federal para a órbita privada, mediante contratos ou concessões. Desta forma, ao se estabelecer uma parceria com os governos estaduais e municipais, haveria a necessidade de se formalizar estes acordos por meio de convênios. Convênios podem ser conceituados como acordos firmados por entidades públicas de qualquer 18

19 espécie, ou entre estas e organizações particulares, para realização de objetivos de interesse comum dos partícipes 4. A única exceção para formalização de convênios está expressa na Instrução Normativa n o 01, de 15/01/1997, que assim dispõe: A obrigatoriedade de celebração de convênio não se aplica aos casos em que lei específica discipline a transferência de recursos para execução de programa em parceria do Governo Federal com governos estaduais e municipais, que regulamente critérios de habilitação, montante e forma de transferência e a forma de aplicação dos recursos recebidos. A edição desta Instrução Normativa representa um marco na conceituação e regulamentação do processo de convênios, pois é nela que estão expressos os conceitos e requisitos para formalização, execução e prestação de contas dos recursos utilizados sob esta modalidade. Formalizados estes acordos, o órgão federal passa a se chamar concedente (ou repassador), enquanto que o governo estadual ou municipal (ou outro órgão que vier a representar estes governos) é denominado convenente (ou beneficiado). Estes convenentes podem fazer constar ou não, no ato do convênio, alguma parcela de contrapartida, que consiste no montante de recursos à conta de suas próprias expensas. Com a edição da Lei de Responsabilidade Fiscal, em maio de 2000, adicionou-se à figura do convênio um conceito extremamente relevante, que viria afetar até as classificações orçamentárias, denominado transferência voluntária. Apesar de a Constituição já ter 4 MEIRELES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 19a. ed. Atual. São Paulo: Malheiros, 1994, p

20 mencionado este termo, sua caracterização veio a ser mais bem explicitada na LRF, reproduzida a seguir: Art. 25 Para efeito desta Lei Complementar, entende-se por transferência voluntária a entrega de recursos correntes ou de capital a outro ente da Federação, a título de cooperação, auxílio ou assistência financeira, que não decorra de determinação constitucional, legal ou os destinados ao Sistema Único de Saúde. Apesar de o artigo ter caracterizado a transferência voluntária, ele abriu uma exceção preocupante. Se a entrega de recursos depender ou estiver condicionada a uma Lei, não estaremos falando de transferências voluntárias e, portanto, algumas exigências impostas a elas, como a utilização dos recursos para o pagamento de pessoal, estariam dispensadas. Ainda neste mesmo artigo, são colocadas uma série de exigências no caso de uma transferência voluntária. Destaca-se a necessidade dotação orçamentária específica, previsão orçamentária de contrapartida e o cumprimento dos limites constitucionais para as áreas da saúde e educação. Outro ponto que se deve levar em conta é que, nem todo convênios celebrado representa uma transferência voluntária. A assinatura de um convênios pode ser decorrente de uma simples execução descentralizada. Talvez a maior dificuldade contida neste assunto, seja estabelecer de qual Ente Federado é a responsabilidade constitucional ou legal para execução de uma determinada política pública. Este é o limiar principal para um 20

21 diferenciação entre uma execução descentralizada e uma transferência voluntária, lembrando que ambos os casos devem utilizar a figura do convênio. 21

22 2 Segurança Pública Orçamentos da União Universo Trabalhado Primeiramente, a análise delimitou-se aos dados da União, considerando seus Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social. A série estudada abarcou os anos de 1992 a 2003 devido a duas razões: a) necessidade de se trabalhar com uma série de dados anterior a 2000 (Criação do Plano Nacional de Segurança Pública); e b) dificuldades associadas ao alinhamento dos dados orçamentários, em especial, aqueles anteriores a Classificações Orçamentárias anteriores a 2000 No âmbito das classificações orçamentárias, pode-se dizer que os anos de 1999 e 2000 representaram um divisor de águas. Até 1999, as classificações eram agregadas em Funções de Governo, estabelecidas pela Lei n o 4.320, de 17/03/1964, que se desdobravam em programas e subprogramas. Esta classificação, chamada de Funcional- Programática, foi implantada por intermédio da Portaria n o 9, de 28 de janeiro de 1974, da então Secretaria de Planejamento da Presidência da República. A função representava o maior nível de agregação das ações do Governo nos diversos setores. Os programas, desdobramento das funções, representavam os meios e instrumentos de ação, e guardavam ligação entre si, de maneira a alcançar os objetivos traçados pelo Governo, representando a ligação entre o planejamento de longo e médio prazos e o orçamento anual. Os subprogramas, por sua vez, tratados como desdobramento dos programas, representavam os objetivos parciais que poderiam ser identificados em cada programa. 22

23 Ainda nesta mesma classificação existiam os projetos e atividades, que retratavam a materialização das metas e objetivos contidos nos programas e subprogramas, sendo, portanto, considerados seus instrumentos efetivos. Procurou-se introduzir também, nesta classificação, o conceito de tipicidade, onde cada programa era típico de uma determinada função, e cada subprograma, típico de um programa determinado. Entretanto, a fim de classificar melhor certas ações, um programa específico poderia ser utilizado por mais de uma função, regra que também valia para os subprogramas. Isto acabaria por melhorar a classificação existente até então, pois tornaria possível transformar o orçamento num instrumento efetivo de programação. Classificações Orçamentárias posteriores a 1999 Com o intuito de introduzir normas para elaboração do Plano Plurianual PPA , foi editado o Decreto n o 2.829, de 29/10/1998, que estabelecia logo em seu art. 1 o que...a partir do exercício financeiro de 2000, toda a ação finalística do Governo Federal deverá ser estruturada em Programas orientados para a consecução dos objetivos estratégicos para o período do Plano. Este Decreto, fixou ainda, a necessidade de rever a classificação funcional-programática (art. 3 o ), de realizar o inventário de ações do Governo Federal antes da elaboração do Plano e de recadastrar todas as atividades e projetos (art. 12 ). Assim, em abril de 1999, com a edição da Portaria n o 42, do então Ministério do Orçamento e Gestão, a estrutura funcional-programática foi revista, passando a ter duas classificações distintas. Na primeira, a classificação funcional passou a englobar as funções que ficaram sujeitas à divisão por subfunções. Para as funções, utilizou-se o 23

24 conceito do maior nível de agregação das diversas áreas de despesa que competem ao setor público; já para subfunções, entendeu-se que estas visam a agregar determinado subconjunto de despesa. Foi mantida, entretanto, a possibilidade de combinação ou matricialidade das funções e subfunções, ou seja, estas continuariam podendo ser combinadas com funções diferentes daquelas a que estão vinculadas. Já na classificação programática ou, como se convencionou chamar, na Estrutura Programática, ficaram inseridos os Programas e suas Ações, que se subdividem conforme sua peculiaridade, em atividades, projetos ou operações especiais. Atualmente, o programa reflete um instrumento de organização da ação de governo que tem por objetivo atender a uma demanda da sociedade ou disponibilizar algum serviço, sendo mensurado por meio de indicadores estabelecidos no PPA. Ainda em relação a esta Portaria, é importante ressaltar seus efeitos para os Estados e Municípios, pois todos deveriam aplicar estas classificações, como forma de unificá-la em todos os níveis de Governo. O prazo estabelecido para tal era a partir de 2000 para os Estados e Distrito Federal, e a partir de 2002, para os Municípios. Equivalências nas Classificações Orçamentárias Feito este retrospecto conceitual, importante para o entendimento da organização dos dados analisados, procurou-se estabelecer uma correlação entre a classificação existente até 1999 e a mudança ocorrida em Nela, a menor unidade da classificação funcional-programática existente até 1999 (subprograma) só foi utilizada quando necessário, a fim de se obter uma interligação mais forte com a classificação vigente desde Assim, quando houver necessidade de utilizar este detalhe, ter-se-á 24

25 precedência sobre outra classificação mais agregada, a saber: função e programa. Por exemplo, algumas programações que estavam classificadas no programa 030 Segurança Pública e subprograma 0015 Custódia e Reintegração Social, ao serem correlacionadas com 2000, foram agregadas à função 14 Direitos da Cidadania, haja vista a existência da subfunção 421, de mesma denominação do subprograma. Partindo deste pressuposto, e considerando a mudança gerencial dos orçamentos promovida em 1999, foi necessário construir uma espécie de tabela de conversão de forma a alinhar a estrutura funcional-programática existente até aquele ano, com a classificação funcional adotada a partir de Classificação Funcional-Programática utilizada até 1999 Portaria n o 09, de Funções / Programas / Subprogramas 01 Legislativa 001 Processo Legislativo 002 Fiscalização Financeira e Orçamentária Externa 02 Judiciária Processo Judiciário 0013 Ação Judiciária 0014 Defesa do Interesse Público no Processo Judiciário 06 Defesa Nacional e Segurança Pública 026 Defesa Aérea 027 Defesa Naval 028 Defesa Terrestre 06 Defesa Nacional e Segurança Pública 029 Serviços de Informações 030 Segurança Pública 13 Saúde e Saneamento 077 Proteção ao Meio-Ambiente 0455 Defesa Contra Erosão Classificação Funcional utilizada a partir de 2000 Portaria n o 422, de Funções / Subfunções 01 Legislativa Ação Legislativa 032 Controle Externo 02 Judiciária 061 Ação Judiciária 062 Defesa do Interesse Público no Processo Judiciário 05 Defesa Nacional 151 Defesa Aérea 152 Defesa Naval 153 Defesa Terrestre 06 Segurança Pública 181 Policiamento 182 Defesa Civil 183 Informação e Inteligência 25

26 0457 Defesa Contra as Secas 0458 Defesa Contra Inundações 12 Relações Exteriores 072 Política Exterior 0410 Relações Diplomáticas 0411 Cooperação Internacional 15 Assistência e Previdência 081 Assistência 0483 Assistência ao Menor 0485 Assistência à Velhice 0486 Assistência Social Geral 0487 Assistência Comunitária 15 Assistência e Previdência 082 Previdência 13 Saúde e Saneamento 075 Saúde 14 Trabalho 078 Proteção ao Trabalhador 080 Relações do Trabalho 08 Educação e Cultura Educação da Criança de 0 a 6 anos 042 Ensino Fundamental 043 Ensino Médio 044 Ensino Superior 045 Ensino Supletivo 047 Assistência a Educandos 049 Educação Especial 08 - Educação e Cultura 048 Cultura 02 Judiciária 015 Custódia e Reintegração Social 15 Assistência e Previdência 081 Assistência 0484 Assistência ao Silvícola 10 Habitação e Urbanismo 058 Urbanismo 059 Regiões Metropolitanas 060 Serviços de utilidade Pública 16 Transporte 091 Transporte Urbano 10 Habitação e Urbanismo 057 Habitação 13 Saúde e Saneamento 076 Saneamento 07 Relações Exteriores 211 Relações Diplomáticas 212 Cooperação Internacional 08 Assistência Social 241 Assistência ao Idoso 242 Assistência ao Portador de Deficiência 243 Assistência à Criança e ao Adolescente 244 Assistência Comunitária 09 Previdência Social 10 Saúde 11 Trabalho 331 Proteção e Benefícios ao Trabalhador 332 Relações de Trabalho 12 Educação 361 Ensino Fundamental 362 Ensino Médio 363 Ensino Profissional 364 Ensino Superior 365 Ensino Infantil 366 Educação de Jovens e Adultos 367 Educação Especial 13 Cultura 14 Direitos da Cidadania 421 Custódia e Reintegração Social 423 Assistência aos Povos Indígenas 15 Urbanismo 451 Infra-Estrutura Urbana 452 Serviços Urbanos 453 Transportes Coletivos Urbanos 16 - Habitação 17 - Saneamento 26

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