REPERCUSSÕES SÓCIO-AMBIENTAIS DECORRENTES DA IMPLANTAÇÃO DO DISTRITO INDUSTRIAL EM SÃO JOSÉ DOS PINHAIS PR

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1 REPERCUSSÕES SÓCIO-AMBIENTAIS DECORRENTES DA IMPLANTAÇÃO DO DISTRITO INDUSTRIAL EM SÃO JOSÉ DOS PINHAIS PR 1 José Carlos de Jesus Lopes José Henrique Volpi Karin Sylvia Graeml Maria da Salete Sachweh Olga Estefania Duarte Gomes Pereira Wilson João Zonin 1 Resumo Este trabalho analisa as possíveis repercussões sócio-ambientais decorrentes da implantação do Complexo Industrial Automotivo Ayrton Senna, no Distrito Industrial em São José dos Pinhais Pr, município integrante da Região Metropolitana de Curitiba - RMC. O recorte físico espacial foi escolhido por estar em uma região passível de ocorrer impactos sócio-ambientais, nem sempre reversíveis, em sua área politicamente delimitada. Os três Estados da região Sul do Brasil, criaram estratégias políticas de atração para as montadoras, objetivando promover o crescimento econômico regional. Na RMC foram instaladas as novas unidades de automóveis da Renault, Audi, Volvo e ampliação da Scania. Sabe-se, que a gestão produtiva desenvolvida por essas empresas é questionada, inclusive, em alguns países desenvolvidos, por força das leis ambientais. Com relação à implantação da montadora Renault, esta regra foi confirmada por uma pesquisa realizada no Curso de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento, da UFPR. Para melhor compreender os impactos sócio-ambientais que possam ter ocorridos no Distrito Industrial, entende-se ser necessário um aprofundamento sobre a teorização e as relações epistemológicas existentes entre as Ciências Sociais e as Ciências da Natureza. Deste modo, desenvolver um trabalho de pesquisa interdisciplinarmente significa participar de um processo dinâmico, integrador e, sobretudo, dialógico. 1. Introdução Este estudo resultou de um exercício interdisciplinar entre as disciplinas de Ciências Naturais e Sociais ministradas no curso de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento/UFPR. Para tentar entender conceitos e representações tratadas em sala de aula fez-se um recorte físico, espacial e territorial, na Região Metropolitana de Curitiba RMC. O primeiro conceito estudado foi o da própria interdisciplinaridade - termo que não tem significado único, pois possui diferentes interpretações, mas em todas elas está implícita uma nova postura diante do conhecimento, uma mudança de atitude em busca da unidade do pensamento. Deste modo, desenvolver um trabalho de pesquisa interdisciplinarmente significa participar de um processo dinâmico, integrador e, sobretudo, dialógico. Para a pesquisa de campo foi desenvolvida no Distrito Industrial do Município de São José dos Pinhais - RMC, onde se encontra o Complexo Industrial Automotivo Ayrton Senna, por estar em região de possíveis impactos sócio-ambientais em sua área politicamente delimitada. A região está geograficamente localizada a 906 m de altitude, 25º 32 de latitude e 49º 12 W de longitude. Ressaltar-se, no entanto, que os impactos sócio-ambientais não se restringem somente ao recorte da área territorial escolhida, uma vez que o espaço entorno pode ser direta ou indiretamente impactada. 1 Alunos do Curso de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná.

2 2 De acordo com Martins et all (2003), há algum tempo o setor automobilístico vinha demonstrando uma saturação da demanda nos países avançados, fazendo com que a partir da década de 90, a América Latina trabalhasse em ritmo acelerado, para que o mercado consumidor automotivo global pudesse crescer. Assim, a partir de então os três Estados da região Sul do Brasil, começaram a criar estratégias políticas de atração para as montadoras, objetivando promover o crescimento econômico regional (AZZOLIN, 2001; IPARDES, 1981). No Paraná, Estado em que a maior parte dos investimentos se concentrou na região metropolitana (13,1% do total nacional), destacaram-se a instalação de novas unidades de automóveis da Renault, Audi, Volvo e ampliação da Scania. A atração das montadoras, com intuito de promover o crescimento econômico, pode trazer junto impactos sócio-ambientais, uma vez que essas empresas são potencialmente poluidoras. Sabe-se que a gestão produtiva desenvolvida por essas empresas, é questionada, inclusive, em alguns países desenvolvidos por força das leis ambientais. 2. Desenvolvimento Para melhor compreender os impactos sócio-ambientais que ocorreram no Distrito Industrial, entende-se necessário um aprofundamento sobre a teorização e as relações epistemológicas existentes entre as Ciências Sociais e as Ciências da Natureza. De acordo com Morin (1981) é necessário encarar toda a ciência física em seu embasamento social e todo o fato social em seu fundamento físico, ou então, considerar todo o conhecimento físico em seu enraizamento antropossocial, assim como, toda a realidade antropossocial em seu enraizamento físico. O mesmo autor aponta para um pensamento transdisciplinar - novo discurso científico - que articula os três níveis de organização: físico, biológico e antropossocial. Continua o autor dizendo, que fundamentar a produção do saber científico na produção cultural não significa reduzir a ciência a uma ideologia, mas significa tornar mais complexa nossa concepção de conhecimento científico, com duas ramificações: uma inerente à práxis histórico-social; e a outra inerente à realidade empírica. De acordo com Savater citado por Foladori (2003), existem diferentes concepções de natureza, das quais três são distintas: a natureza como conjunto de todas as coisas existentes, submetida às regras que estudam as ciências da natureza ; a natureza como conjunto das coisas que existem sem intervenção humana, com espontaneidade não deliberada; e a natureza como origem e causa de todas as coisas, como explicação última e razão de ser. Assim, de acordo com os entendimentos de Foladori (2003), tudo que se encontra no espaço é natureza. Isto quer dizer, que tanto a natureza virgem como os produtos criados pela

3 3 atividade humana são elementos da natureza. Desse modo, a natureza como conjunto das coisas que existem sem intervenção humana serviria para distinguir o natural como aquilo que existe fora da intervenção humana, e o artificial como produto da ação humana. Esta é uma concepção que é muito utilizada porque expressa o sentido mais comum dos termos natural e artificial. Para Milton Santos (1999), território deve ser visto como o conjunto de sistemas naturais mais os acréscimos históricos materiais impostos pelo homem. É formado pelo conjunto indissociável do substrato físico, natural ou artificial, e mais o seu uso, em outras palavras, a base técnica e as práticas sociais, isto é, uma combinação de técnica e de política. Os acréscimos são destinados a permitir, em cada época, uma nova modernização, que é sempre seletiva. Atividades econômicas sejam de grande ou pequeno porte podem ocasionar uma série de alterações ambientais, nem sempre reversíveis, bem como gerar prejuízos para a sociedade. Com relação à implantação da montadora Renault, no Distrito Industrial, São Jose dos Pinhais, esta regra. foi confirmada no desenvolver dessa pesquisa. A fim de entender as alterações sócio-ambientais que possam ter ocorrido, fez-se necessário elencar alguns conceitos das Ciências da Natureza. Ao tratar-se de impactos ambientais está se tratando de quaisquer alterações das propriedades físicas, químicas e biológicas que ocorrem no meio ambiente causadas por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas (CONAMA, 1986). De acordo com Franco (2001), os conceitos de impacto e poluição são antropocêntricos, já que estão diretamente relacionados aos efeitos das ações humanas sobre a sociedade e os ecossistemas. Enquanto que, a degradação ambiental estudada por Guerra e Cunha (2003, p. 345) é o manejo inadequado do solo, tanto em áreas rurais, como em áreas urbanas, é a principal causa da degradação. Em se tratando de risco ambiental, Reis e Queiroz (2002) alertam para que seja considerado anteriormente à implantação de uma empresa ou de uma atividade, qual o risco ambiental que eventualmente poderá provocar no meio ambiente. Assim, um impacto ambiental pode por em risco todo um ecossistema. 3. Caracterização do Distrito Industrial O distrito Industrial está localizado na porção Norte do Município com as coordenadas geográficas médias 25 o 30 de latitude Sul e 49 o 07 de latitude O Greenwich, abrangendo parte das sub-bacias do Rio Pequeno e Itaqui, em uma área de 5,5 milhões de m2. Esta área agrupa indústrias no parque que é formando por um condomínio de uso estritamente industrial com cerca de 2,5 milhões de m2. O restante do imóvel está com uso diversificado, em especial o habitacional. A vegetação predominante, de acordo com o Sistema de Classificação Fitogeográfica Brasileira (COMEC, 1999), é caracterizada como floresta Ombrófila Mista, nas formações: Aluvial

4 4 e Montana. Para Jacobs (2002) a Floresta Ombrófila Mista era, no passado, à vegetação que recobria este tipo de floresta no primeiro planalto ficou conhecida como mata de araucária. Já a Floresta Ombrófila Mista Aluvial que é formação ribeirinha, ocupa ainda hoje os terrenos aluvionares, nas margens dos rios ou nas pequenas depressões aparecem os capões e matas de galeria associada ás estepe gramíneo-lenhosa. Utilizando-se dos dados do EIA/RIMA (1996) da região, a presença desta estepe no Município de São José dos Pinhais está associada com a Formação Guabirotuba, cujos sedimentos quaternários antigos apresentam condições especiais de drenagem, aeração e acidez. Os campos de várzea às margens do rio Pequeno e Itaqui são regiões baixas sujeitas a inundações periódicas. Em 1996, nos dados do EIA/RIMA (1996, p.319 v II), já havia um alerta sobre os possíveis riscos e impactos ambientais que poderiam ocorrer na região, com a construção de obras civis no Distrito Industrial, onde parte da cobertura vegetal correspondente à Estepe Gramíneolenhosa poderiam sumir, o que resultaria no empobrecimento da diversidade florística local e, conseqüentemente, da biodiversidade. A supressão desta vegetação pode ter sido de caráter permanente o que seria irreversível, assim, a capacidade de resiliência seria nula, pois a vegetação retirada não poderá ser reposta, e o papel deste tipo de cobertura vegetal em área de mananciais, deixa de ser exercido, desprotegendo mecanicamente o solo nas áreas de extravasamento natural dos cursos d'água, por conseqüência expões a região a inundações por elevação do lençol freático. De acordo com a classificação climática de Köppen, segundo Trewartha e Horn (1980), o clima da região em estudo é do tipo Cfb - Clima temperado propriamente dito; temperatura média no mês mais frio abaixo de 18 o C (mesotérmico), com verões frescos, com ocorrência de geadas severas e freqüentes, não apresentando estação seca. A Mineropar (1995) diz que a geologia do Distrito Industrial está representada basicamente por rochas gnáissicas e migmatíticas, sedimentos da bacia de Curitiba e sedimentos aluvionares recentes. A área está também situada sobre uma grande bacia aluvionar, caracterizada por baixas declividades (entre 0% a 5%), cuja planície está limitada por um relevo suave, com colinas baixas e médias (formação Guabirotuba) e tendo as maiores elevações da área, sustentadas por rochas magmáticas do Complexo Cristalino. Guerra e Cunha (2003) dizem que os sistemas ambientais naturais ao considerar a intervenção humana apresentam maior ou menor fragilidade em função de suas características genéticas. Frente a esta afirmação o EIA/RIMA da região (1996), aponta que a fragilidade do meio físico pode ser considerada moderada para ocupação urbana, agropecuária e obras viárias, baixa para equipamento enterrados e alta para rejeitos. Considerando a hidrografia da região, o Distrito Industrial está localizado em um divisor

5 5 de águas entre as sub-bacias dos rios Pequeno e Itaqui, na bacia do altíssimo Iguaçu, sendo o Pequeno um dos limites da área do Distrito Industrial. Os rios: Pequeno e Itaqui são afluentes da margem esquerda da bacia hidrográfica do Alto Iguaçu, compondo o atual Sistema Integrado de Abastecimento de Água da Região Metropolitana de Curitiba. A bacia do Iguaçú segundo Andreolli et all (s.d) possui 565 km e atualmente abriga duas captações de água (captação Iguaçu e captação Irai). A bacia do altíssimo Iguaçu é constituída pelas seguintes sub-bacias: Irai, Iraizinho, do Meio, Piraquara, Palmital, Itaqui e Pequeno, que juntas, produzem hoje, cerca de l/s (já incluído o reservatório do Irai). A sub-bacia do Rio Pequeno abrange uma área de 137 km 2 (SUDERHSA, 2002) e atualmente está com intensa ocupação urbana numa área com cerca de 50 km 2 a jusante do Rio Quississana e no Distrito Industrial de São José dos Pinhais (ANDREOLLI et all, s.d). De acordo com o relatório realizado em 15 de junho de 2002 pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente de São José dos Pinhais, diversos loteamentos foram construídos na área de preservação permanente do rio Pequeno e o esgoto é lançado no rio sem tratamento. Ainda segundo o mesmo documento, outros fundos de vale da bacia, seguidamente, são agredidos com despejo de lixo trazido por pessoas de áreas urbanas. Ao mesmo tempo, o Distrito Industrial atraiu uma acelerada ocupação imobiliária, tanto de nível popular como de chácaras. O entorno Distrito Industrial apresenta sérios problemas de impacto ambiental causando transtornos para os moradores da região, bem como para as nascentes, córregos e rios, como o Pequeno. A sub-bacia do Rio Itaqui abrange uma área de 39,80 km 2, nos Municípios de Piraquara e São José dos Pinhais com loteamentos e com um processo de ocupação acelerada. Parte da margem esquerda do Rio Itaqui, bem como suas nascentes possuem declividades mais acentuadas, onde as matas ciliares estão conservadas e praticamente sem ocupação urbana. Já na sua margem esquerda, a mata ciliar é praticamente inexistente. Este desmatamento, juntamente com o uso inadequado do solo, proporciona o carregamento de sedimentos, fazendo com que ocorra o assoreamento do seu leito natural, ocasionando enchentes. (COMEC, 1999). Porém as nascentes de água encontram-se ameaçadas, pois de acordo com os dados do EIA/RIMA (1996, p. 310) existe um alerta para o problema do soterramento de nascentes, entende-se que esta ameaça se encontra em execução em alguns platôs que compõe o Parque Industrial, pois tal como foi concebido, atinge e soterra, em sua porção sul, nascentes e pequenos córregos que dispunham de mata ciliar (Floresta Ombrófila Mista Aluvial). Tal fato pode resultar em prejuízos ao sistema hídrico local e à fração da biota que dele depende, intervindo diretamente sobre reservas ecológicas protegidas por lei. Este impacto atinge a área diretamente afetada e ocorrerá no instante em que as obras atinjam esse ponto e será

6 6 permanente e irreversível. Portanto, a sua magnitude e importância podem ser consideradas grandes, principalmente tendo-se em vista que em determinados pontos, o soterramento de cursos d'água deverá se dar em um desnível superior a 20m. Conforme Carta da Comissão Executiva Estadual do Partido Verde ao Presidente da Renault, datada de 29/03/96, alertava: A operação das industrias no Distrito Industrial deverá gerar um certo volume de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, todos eles com potencial poluidor do lençol freático (1996, p.4), indicando assim um aumento da poluição dos aqüíferos subterrâneos O EIA/RIMA (1996, p. 309) também evidenciou o risco do escoamento superficial, que com execução de obras civis, especialmente a pavimentação de ruas e estacionamento, impermeabilizarão uma parte substancial do terreno, fazendo com que a parcela de água proveniente das precipitações pluviométricas que se infiltraria no subsolo, escoe em superfície, aumentando o runoff e causando uma sobrecarga no sistema de drenagem superficial natural. Este impacto afeta a área de influência indireta, ou seja, as sub-bacias dos rios: Pequeno e Itaqui, em suas porções a jusante do empreendimento. A ação impactante teria efeito imediato e progressivo a partir do início das obras, podendo ser considerada permanente e irreversível a partir daí, pois terminada a implantação do empreendimento, as condições não serão revertidas. Para Branco Rocha (1936), o escoamento superficial das águas de chuva e ou de irrigação pode causar transporte horizontal não só de matérias orgânicas em solução, mas também de finas partículas em suspensão, ocasionando grandes deslocamentos de solo das regiões mais altas para os vales, rios, lagos e oceanos. Atualmente, as evidências mostram que os riscos alertados pelo EIA/RIMA estão se concretizando sem que ações por parte dos órgãos competentes tenham sido encaminhadas. Segundo Oliveira (2002), ocorreu a obstrução de um córrego que está causando o alagamento de uma propriedade rural em São José dos Pinhais, fundos da montadora Renault. O problema ambiental surgiu ainda durante a terraplanagem para a construção da montadora, e a situação está se agravando diariamente, pois além da transformação da vegetação, grande parte da propriedade está improdutiva. A Comissão Executiva Estadual do Partido Verde em carta dirigida ao Presidente da Renault alertava também sobre o incremento no volume das enchentes. A impermeabilização progressiva do solo terá como efeito previsto o aumento do coeficiente de escoamento superficial, em razão da redução da infiltração, gerando sobrecarga da rede de drenagem superficial. [...], pois deverá acontecer sempre que a precipitação pluviométrica alcance determinada patamar, sendo, uma vez deflagrada, irreversível (1996, p. 4). Estes fatos também foram levados a conhecimento do Ministério Público (12/2002), através de denúncia do Conselho Municipal do Meio Ambiente, de São José dos Pinhais, acrescentando informações sobre a poluição do rio Pequeno, decorrente dos resíduos industriais da

7 7 Renault, causando um grande volume de espuma sobre as águas e mortandade de peixes. Guerra e Cunha (2003) enfatizam que na área de encostas tanto o desmatamento como crescimento da área urbana reduz a capacidade de infiltração aumentando o escoamento superficial, promovendo desta maneira, a erosão hídrica nas encostas o que acarreta em um maior volume de sedimentos para a calha fluvial podendo resultar no assoreamento do leito e enchentes na planície de inundação. 4. Área de Proteção Ambiental - APA Os mananciais são as fontes de onde a água é retirada para o abastecimento e consumo. Por isso eles são tão importantes e precisam ser preservados. Infelizmente, os mananciais que abastecem a população vêm sendo comprometidos pelo desmatamento, exploração incorreta do solo, subsolo e utilização exagerada de agrotóxicos. Foi desta necessidade que surgiu a regulamentação o uso e a ocupação das diversas atividades humanas de modo a assegurar a proteção, melhoria e recuperação da qualidade ambiental, criando-se as chamadas Áreas de Proteção Ambiental - APA. Andreolli et al. (s.d) diz que um manancial sofre degradação quando há um crescimento populacional sobre ele, que por conseqüência, gera a impermeabilização do solo, remoção florestal, aumento de lançamento direto de lixo e esgoto, aterros sanitários, etc. No caso dos mananciais urbanos, os problemas com o lixo e esgoto sanitário são os que mais atuam para a degradação de mananciais de abastecimento. Já, uma Área de Proteção Ambiental é assim declarada com o objetivo de proteger valores ambientais significativos, assegurar o bem estar da população humana e/ou melhorar as condições ecológicas locais. Uma APA é criada por decretos em nível, Federal, Estadual e Municipal em terras públicas ou privadas, quando houver relevante interesse público (THEODOVICZ, 1994). Dentro do limites geográficos das APAs é necessário que seja estabelecida uma zona de vida silvestre, na qual será regulado o uso dos recursos naturais, sendo proibida qualquer atividade de terraplanagem, mineração, dragagem e escavação que venham a causar danos ou degradação ao meio ambiente e/ou perigo as pessoas, bem como a implantação e o funcionamento de indústrias potencialmente poluidoras, cujas normas reguladoras serão estabelecidas pelo Poder Público (1994). Na delimitação física que se tornou objeto desta pesquisa, encontra-se o Rio Pequeno, que é protegido ambientalmente pelo Decreto Estadual nº 1752/96 - que Institui a APA na área de manancial da bacia hidrográfica do Rio Pequeno, denominada APA Estadual do Pequeno, localizada no município de São José dos Pinhais, com área aproximada de 6.200,00 ha. Diariamente novas áreas urbanização estão se consolidando nas periferias das grandes cidades, não só em áreas de fácil acesso e ocupação próximas ao centro, como também em lugares

8 8 deficitários de infra-estrutura e/ou com alta declividade, normalmente, de importância hídrica, podendo estar localizadas neles inúmeras nascentes de rios, lagos de represas, constituindo um meio ecológico frágil. Apresentando características que facilitam a erosão e a contaminação pelos esgotos, resíduos sólidos e lixo, assim se faz necessário que normas rígidas e leis para ocupação e uso da terra se façam presentes, tanto para fins de habitação, quanto para outros tipos de manejo, apontando para os diferentes problemas de risco e vulnerabilidades a que estão sujeitas as populações urbanas ricas e pobres (PENNA, 2002). Assim, pode-se até mesmo afirmar que os recursos hídricos estão sendo diariamente comprometidos pela degradação doméstica, industrial e agrícola, bem como por desequilíbrios ambientais resultantes do desmatamento e uso indevido do solo, pois ali as coisas acontecem rapidamente e longe de uma visão interdisciplinar que norteie o planejamento e a consolidação de políticas ambientais diretamente voltadas para um enfoque do ecodesenvolvimento. Há que se considerar uma APA como área de extrema importância para o meio ambiente e para a sociedade, coube então a esta pesquisa, salientar que a área destinada à implantação do Distrito Industrial de São José dos Pinhais, está localizada na APA do rio Pequeno. Acatando as observações de Azzolin (2001), o local onde está instalada a Renault pertencia a uma zona denominada área de Proteção Ambiental criada com a função de proteger as bacias hidrográficas, houve porém, necessidade de promover alteração na legislação que normatiza essas áreas para a instalação da Renault. 5. Sociedade e Economia O processo de globalização se fez presente na região a partir de 1990, quando o Município foi incluído por força de acordos, leis e decretos nacionais e internacionais na economia mundializada, com a implantação do Complexo Industrial Automotivo por meio da criação do Distrito Industrial. Em função destes arranjos produtivos, pode-se observar que houve uma nova dinâmica na economia municipal, interagindo com a RMC, com os demais Estados e com as outras regiões produtoras em escala internacional, pois o Município passou a importar peças e componentes automotivos, amparando-se no sistema produtivo draw-back 2 para importar bens acabados. Com a criação dos Distritos Industriais, bem como a implementação de algumas infraestruturas, o Governo do Estado indica o Município para a instalação da montadora Renault e posteriormente da Volkswagen-Audi, que fortalecem o setor automotivo no Estado (GUERRA; CUNHA, 2003). Assim, Renault e Volkswagen-Audi são consideradas empresas-mãe, pois, atraem 2 Este recurso permite que as empresas exportadoras tenham isenção fiscal para os produtos importados quando estes forem re-exportados (RATTI, 2002).

9 9 diversas outras empresas de menor porte para servirem suas matérias primas, dentro das unidades de montagem. Esta região passa a produzir, então, bens de alto valor agregado para o país e para o resto do mundo. São José dos Pinhais hoje é considerada uma região que participa do ambiente mercadológico - arena global. Para elaborar uma reflexão sobre os possíveis impactos sócio-ambientais ocasionados pela implantação do Complexo Industrial Ayrton Senna, faz-se necessário analisar as repercussões sócio-econômicas, bem como entender a opção do Estado do Paraná em promover o crescimento econômico por força da industrialização. Durante as décadas de 30 ao final de 80, baseado no pensamento econômico keynesiano, coube ao Estado criar oportunidades de empregos e de negócios, sendo ele próprio o Estado-empresário que podia e devia intervir na economia e na distribuição de renda, de modo a zelar pela qualidade de vida dos cidadãos, criando empresas estatais e fusões com empresas estrangeiras, em áreas e em segmentos econômicos em que o capital privado não se interessava (FEIJÓ, 2002). A partir da década de 90, este modelo deu lugar ao pensamento econômico e distributivo do neoliberalismo que determinou um novo papel para o Estado, também denominado papel mínimo do Estado. A partir de então, coube a iniciativa privada promover o crescimento econômico e o mercado volta a ser o regulador dos investimentos necessários para o crescimento econômico, embora amparado por incentivos governamentais. As políticas de industrialização saíram da esfera central do Governo Federal e passaram para a esfera política de cada unidade da Federação. O crescimento econômico, das regiões, depende das políticas de investimentos fomentadas pelo próprio Estado Federativo. Desta forma, cabe aos Estado e às regiões criarem oportunidades de atração para o capital internacional, a fim de participar efetivamente do processo de globalização. A partir da década de 1990, com a abertura econômica do Brasil, este processo tomou características regionais diferenciadas, pois os governos passaram a oferecer oportunidades de incentivos fiscais, creditícios legais e mercadológicos, enquanto isso, os Estados federativos passaram a competir entre si para atrair os grandes investimentos tendo como conseqüência à guerra fiscal. O segmento econômico industrial traz consigo a promessa do desenvolvimento econômico, por conta do crescimento das indústrias de produtos de massa, consubstanciadas pelos fatores tecnológico, social e mercadológico, com um discurso de ocorrer melhor distribuição de renda e melhoria na qualidade de vida a todos os participantes. Assim, a distribuição de riqueza é feita tanto pelo aumento do número de empregos que a indústria gera, quanto pelo melhor salário pago. Este resultado é devido ao valor agregado que é inserido nos bens produzidos pelo processo industrial, conforme os quadros a seguir.

10 QUADRO 1 - EVOLUÇÃO DA INSTALAÇÃO DE INDÚSTRIAS EM SÃO JOSÉ DOS PINHAIS. Período Instalação de indústria Média por ano 1940 a a Total de Indústria em Fonte: Secretaria do Trabalho do Município de São José dos Pinhais O quadro 1 comprova o grau de atratividade do município para o processo de industrialização, enquanto que o Quadro 2 mostra o número de habitantes de São José dos Pinhais que fazem parte do quadro de funcionários da Renault e Audi. 10 QUADRO 2 - QUADRO DE FUNCIONÁRIOS DA RENAULT E AUDI RENAULT Nº de pessoas Nascidas em São José dos Pinhais e que residem em São José dos Pinhais 041 Nascidas em São José dos Pinhais e que não residem em São José dos Pinhais 005 Nascidas em outras localidades, mas que residem em São José dos Pinhais 321 Total de funcionários do Paraná 873 Total de Funcionários AUDI Nº de pessoas Funcionários de São José dos Pinhais 505 Curitiba e RMC Outros 159 Total de funcionários Fonte: Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais, Observa-se que dos funcionários, somente 46 trabalhadores sãojoseenses foram incluídos nos postos de trabalho criados pelo processo de industrialização do município, quebrando a promessa de crescimento econômico e melhoria na qualidade de vida da população. Outro ponto a ser considerado e questionável é o incentivo do Estado ao município por conta da distribuição de renda gerada pelas iniciativas e investimentos privados no Estado. Do que é produzido, tributa-se. O tributo é o recurso legal que os Estados têm para fazer frente aos gastos dos governos, tais como pagamentos dos salários dos funcionários públicos, investimentos nas áreas de saúde, educação, infra-estrutura e incentivos. Parte do tributo total do Estado é devolvido aos municípios para que os mesmos possam também fazer frente aos seus gastos municipais. Um dos tributos em questão é o ICMS Ecológico, que o Estado repassa para os municípios que têm Programas de Proteção e Conservação do Meio Ambiente. O Quadro 3 apresenta uma problemática que poderá ser aprofundada em trabalhos futuros. QUADRO 3 - EXTRATO FINANCEIRO DO ICMS E ICMS ECOLÓGICO Ano Total de ICMS repassado ao Município (A) % ICMS Anual Total de ICMS Ecológico repassado (B) % ICMS Ecológico Anual , ,43-10, ,17 18, ,01 20,27 10, ,88 (1,34) ,77 (25,40) 8, ,37 19, ,18 (4,93) 6, ,08 32, , , ,62 55, ,91 23,81 4, ,12 25, ,51 14,80 4, ,05 27, ,19 51,54 1,52 Fonte: Secretaria de Estado da Fazenda, B/A

11 11 Diante dos fatos e estatísticas analisadas, observa-se que houve uma redução drástica no percentual do ICMS Ecológico repassado ao município, contrastando com a política de incentivo fiscal que promove a preservação ambiental do município. Enquanto a arrecadação do município cresceu na ordem de 359% no período de 7 anos, o repasse do Estado diminuiu de 10,73% para 1,52%. 6. A fome e as repercussões para a saúde da população do município São José dos Pinhais é uma cidade que traduz a tipicidade do modo de produção vigente no Brasil e no Paraná, apresentando os mesmos problemas de desigualdades sociais, resultantes do intenso crescimento que ocorreu de modo acelerado e desordenado na última década (PEREIRA, 2003). Discutir, portanto, a questão da fome é tratar de um assunto complexo e perigoso, (CASTRO 2002) questiona as causas ocultas desta verdadeira conspiração de silêncio em torno da fome. Para cada mil publicações tratando dos problemas da guerra, pode-se contar apenas um acerca da fome. No entanto, os estragos produzidos por esta calamidade, são maiores que as guerras e as epidemias juntas. O fato universalmente comprovado é de que a fome constitui a causa mais constante e efetiva das guerras e a fase preparatória do terreno, quase obrigatória, para a eclosão de epidemias. (CASTRO, 2002) Para Doretto et al. (2003), no Mapeamento da Pobreza no Paraná, pesquisa efetuada com base nos microdados do Censo Demográfico do Paraná de 2000, identificou o contingente de pessoas abaixo da linha de pobreza dentro do território estadual, o critério utilizado para esta classificação foi a renda per capita disponível (0,25 salário mínimo) para aquisição de alimentos. Como resultado foi encontrado que a RMC apresentava um total de pessoas, das quais , ou seja, 8% encontravam-se abaixo da linha de pobreza. Destes, localizavam-se em São José dos Pinhais, segundo maior foco paranaense da fome, atrás apenas de Curitiba que apresentava pessoas abaixo da linha de pobreza. O entorno do distrito industrial de São José dos Pinhais, evidencia claramente estas condições, na medida em que os problemas sociais são agravados com a instalação da Empresa Automotiva, que remetem a entidades assistenciais e religiosas cuidar dos famintos que convivem neste mesmo espaço. As informações disponíveis sobre a situação de saúde não poderiam deixar de refletir também esta realidade. Houve um aumento significativo no índice de mortalidade infantil nos anos de 1999 e 2000, seguido de um decréscimo nos anos de 2001 e Estes valores são maiores que os

12 12 encontrados na 2ª Regional de Saúde 3 que foram os seguintes: Mortalidade Infantil 4 (1.000 NV) /13,42; 2000/23,87; 2001/20,79 e 2002/18,81; por sua vez, para o município os índices disponíveis foram os seguintes: 1999/17,77; 2000/18,44; 2001/17,06; 2002/15,59. Se por um lado os índices apresentados são reconhecidos mundialmente como baixos, por outro, a definição de faixas de valores da Taxa de Mortalidade Infantil TMI consideradas altas ou baixas é sempre arbitrária, e sujeita a controvérsias. Por sua vez, as comparações entre diferentes populações, ou entre diferentes períodos, são úteis na avaliação da sua magnitude. (MEDRONHO et al, 2002). Szwarcwald, citado por Medronho, afirma que a redução da TMI no Brasil de 1979 a 1989 é marcada pela instabilidade. Este padrão de instabilidade de queda da TMI deve-se às variações da economia. Segundo Vermelho, Costa e Kale In: Medronho: (...) Seus efeitos negativos, conseqüentes à agudização da pobreza, interagem com os efeitos da implementação de políticas sociais e de programas de prevenção e controle de doenças, como o programa de imunizações e a implantação da terapia de reidratação oral, levando às flutuações observadas. (...) A Taxa de Mortalidade Infantil Pós-Neonatal-TMIPN foi determinada por óbitos devidos a causas infecciosas, particularmente às diarréias, pneumonias e doenças imunopreveníveis. Ressalta-se o sub-registro dos óbitos devido a deficiências nutricionais. As causas perinatais foram responsáveis por grande parte dos óbitos neonatais. (2002, p. 41) Pode-se depreender desta análise, que nos anos estudados, as altas taxas de mortalidade infantil verificadas no município de São José dos Pinhais, refletem condições de saúde e de vida precárias como conseqüência das deficiências apresentadas pelo aparelho de Estado, que não está organizado para responder estruturalmente e não se mostrou capaz de satisfazer adequadamente as demandas da comunidade. 7. Método Para realização deste trabalho buscou-se construir um caminho metodológico de pesquisa não convencional, não primando o método sobre a realidade; ao contrário, partindo da realidade social na sua complexidade, na sua totalidade qualitativa e quantitativa, na sua marcha histórica, também dotada de horizontes subjetivos (DEMO, 1995). Uma postura crítico-dialética. Como método, utilizou-se a análise de conteúdo, que é um conjunto de instrumentos que se aplica a discursos extremamente diversificados. Como técnicas de pesquisa, pode-se referir ao contexto de 3 Divisão administrativa da Secretaria Estadual de Saúde do Paraná que possui um território de 29 municípios da região metropolitana de Curitiba. 2 Fonte: CIDS/DSI/ISEP/SESA, GPC/ISEP/SESA, DSS/ISEP/SESA, Ministério da Saúde/DATASUS, OPS, OMS

13 13 um estudo de caso, analisado a partir de informações secundárias (SALVADOR, 1986), observação em equipe, entrevistas despadronizadas (MARCONI & LAKATOS, 2002), para a realização de análise de conteúdo que é uma hermenêutica controlada, baseada na dedução: a inferência. E a hermenêutica é a arte de interpretar os textos sagrados ou misteriosos é uma prática muito antiga, onde os cientistas sempre acreditaram que por detrás de um discurso aparente geralmente simbólico ou polissêmico esconde-se um sentido que convém desvendar (BARDIN, 2000, p. 14). A análise de conteúdo é útil para se compreender a comunicação de um discurso além dos seus significados imediatos. É um conjunto de técnicas que analisa a comunicação, e que oferece uma avaliação e uma análise que terão a virtude da objetividade e revelarão também os aspectos do material que poderiam ter escapado ao exame minucioso do clínico (BARDIN, 2000). Por fim, a análise de conteúdo é um recurso que tem por objetivo fazer análise material do qualitativo. Os sujeitos desta investigação foram moradores do Município de São José dos Pinhais/PR, escolhidos aleatoriamente, conduzidas no período de 05 a 13 de novembro de Como instrumento de pesquisa para a coleta de dados, optou-se por entrevistas semiestruturadas, e dentre as várias perguntas que nortearam o interesse, centrou-se os problemas sócioambientais ocasionados na região, após a implantação do Complexo Industrial Automotivo Renault. As entrevistas foram analisadas seguindo o método de análise qualitativa descrito por Bardin (2000). Iniciou-se o trabalho com a leitura das entrevistas, destacando pontos importantes relacionados aos possíveis impactos sócio-ambientais. De posse dessas informações, efetuou-se o levantamento de categorias de impactos ambientais e sociais, comparando-os, em seguida, com todas as entrevistas realizadas, no intuito de verificar pontos em comum, os quais foram relacionados à teoria apresentada nesse trabalho. 8. Análise e Discussão dos Resultados Com base nos resultados das entrevistas, levantou-se como categorias de impactos: 1) Impactos Ambientais: a) Diminuição da APA e ocupação irregular de área de preservação Houve uma modificação na legislação estadual que determina a extensão da área de preservação ambiental de São José dos Pinhais, a fim de possibilitar a construção do Distrito Industrial. Nós abrimos mão da fonte da vida para instalar uma indústria poluidora (Entrevista 1). Nós tamos aqui dentro de uma área onde toda ela se volta para a preservação. Aqui tempos água, a fonte da água pura está aqui (Entrevista 4). Essa região era tida como manancial e não era pra ter casa (Entrevista 6).

14 14 Pelo relato das entrevistas, percebeu-se que a Constituição Federal não foi e não está sendo cumprida, uma vez que houve uma alteração de legislação para a implantação de uma indústria dentro de uma região de preservação e a ocupação e uso do solo na área de proteção continua ocorrendo. b) Poluição do rio Pequeno e do rio Itaqui O relatório do Conselho Municipal do Meio Ambiente (2002) apontou que o entorno Distrito Industrial apresenta sérios problemas de impacto ambiental causando transtornos para os moradores da região, bem como para as nascentes, córregos e rios, como o rio Pequeno, fatos que também são apontados no relato das entrevistas citadas. Foi constatado grande volume espuma sobre as águas dos rios, em decorrência do esgoto lançado pela Renault (Entrevista 1). O rio piorou muito. O rio era limpo. Dava pra pescar e tudo. Agora é uma sujerada tudo e os banheiros caindo dentro do rio (Entrevista 8). Eles jogam a culpa na Renault mais tem casa que joga o esgoto tudo no rio (Entrevista 9). Quando eu cheguei aqui era um buracão de valeta ai nois manilhemo com 40 manilha que o prefeito ajudou, pra fazer o esgoto até o rio. Quando eu cheguei aqui era um buracão de valeta ai nois manilhemo com 40 manilha que o prefeito ajudou, pra fazer o esgoto até o rio. (Entrevista 10). Ah, é a Renault que jogava sujeira no rio, esvaziava e ficava assim, ó, a parte de baixo... Mas a Renault continua jogando sujeira no rio? Joga não. Agora quem joga é os morador. Joga esgoto de todas as casas e fica assim, ta vendo? [...] Aqui tem muita poluição, tem esgoto no rio (Entrevista 11). Estes fatos foram levados, através de denúncia do Conselho Municipal do Meio Ambiente, a conhecimento do Ministério Público de São José dos Pinhais (12/2002), sobre a poluição do rio Pequeno decorrente dos resíduos industriais da Renault, causando um grande volume de espuma sobre as águas e mortandade de peixes. Mesmo assim, o problema ainda não foi solucionado. c) Contaminação do lençol freático De acordo com o EIA/RIMA (1996), na fase de implantação do empreendimento Renault, foram previstos impactos sobre praticamente todos os fatores ambientais. No que diz respeito ã qualidade da água, o documento relata: A qualidade da água também se verá afetada, pelo aumento do escoamento superficial, causando sobrecarga na rede de drenagem de superfície; bem como pelo soterramento de drenagens e nascentes, causando prejuízo ao sistema hidrológico, podendo provocar o incremento do volume de enchentes localizadas. A modificação da qualidade das águas, pela alteração de parâmetros físicos, químicos, biológicos e de suas características organolépticas, resultará de um modo geral em aumento de áreas inundáveis e dos índices de insalubridade registrados e, conseqüentemente, na incidência de doenças. (EIA/RIMA, 1996, p. 439)

15 Quando estavam, os tratores tavam trabalhando, eles jogavam alguns óleos do trator do lado debaixo da estrada e aquilo, o pessoal só tem poço, não tem água encanada e o poço deles chegava com a água cheia de óleo e eles não tinha o que tomar. (sic) (Entrevista 4). Olha o que fizeram. Isso ai foi tudo eles que fizeram. Encheram de terra, a nossa água do poço não presta mais. Eu moro aqui a dezoito anos, até antes da vinda da Renault eu usava a água para beber, fazer comida, tudo. E os vizinhos também. Depois da instalação da Renault a água tem mau cheiro, cheiro de podre e a cor diferente. A gente tem de pegar lá em cima, do vizinho, pra beber. Pra fazer comida e beber não tem como essa água. (Entrevista 7). 15 Conforme Carta da Comissão Executiva Estadual do Partido Verde ao Presidente da Renault, datada de 29/03/96, alertava: A operação das industrias no Distrito Industrial deverá gerar um certo volume de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, todos eles com potencial poluidor do lençol freático (p. 4), indicando assim um aumento da poluição dos aqüíferos subterrâneos. Percebe-se pelas entrevistas, que o lençol freático superficial na região do Distrito Industrial, encontra-se alterado. d) Alagamentos Quando a Reneault ia ser instalada aqui, algumas pessoas do meio ambiente chamaram a gente e alertou para os possíveis alagamentos que poderia ter aqui e hoje quando enche, fecha tudo. Tudo isso aqui fica embaixo da água (sic) (Entrevista 6). De acordo com o dados do EIA/RIMA (1996, p.319 v II), possíveis riscos e impactos ambientais poderiam ocorrer na região, com as obras civis no local do Distrito Industrial, onde parte da cobertura vegetal correspondente à Estepe Gramíneo-lenhosa poderia sumir, o que resultaria no empobrecimento da diversidade florística local e, conseqüentemente, da biodiversidade. A supressão desta vegetação pode ter sido de caráter permanente e isto seria irreversível, pois a vegetação retirada não poderá ser reposta. Nesse caso, a capacidade de resiliência seria nula. O papel importante deste tipo de cobertura vegetal em área de mananciais, que não vai mais ser exercido, é o de proteção mecânica do solo nas áreas de extravasamento natural dos cursos d'água, ou onde recorrentemente ocorram inundações por elevação do lençol freático. A Comissão Executiva Estadual do Partido Verde em carta dirigida ao Presidente da Renault alertava, também sobre o incremento no volume das enchentes: A impermeabilização progressiva do solo terá como efeito previsto o aumento do coeficiente de escoamento superficial, em razão da redução da infiltração, gerando sobrecarga da rede de drenagem superficial. [...] pois deverá acontecer sempre que a precipitação pluviométrica alcance determinada patamar, sendo, uma vez deflagrada, irreversível (1996, p. 4). 2) Impactos Sociais a) Migração/Fome

16 Nesses 5 anos, um borbulhar de tanta gente vindo de tantos lugares, o crescimento, a população de todos os lugares vindo do Brasil todo, da propaganda que se fala, de busca de empregos, e não existe este emprego. É uma ilusão. [...], então esta questão social é muito séria [...] e a gente está vendo a pobreza [...], famílias passando fome [...], mulheres que são abandonadas. Os maridos vão embora e deixam aqui a mulher com 4 ou 5 filhos. Pessoas vem pedir cesta básica, ajuda, chegavam, aí a gente vai conversar, né, de onde o senhor vem, o que vem fazer... Olha, nos viemos, eu vim para trabalhar na Reneault, atrás de emprego. O senhor tem algum curso? Não, sou analfabeto. É analfabeto. Não sabe ler, nem escrever. Vinha iludido? Vinha iludido. nós temos dentro desse projeto muitas famílias que vem aqui buscar, passando fome, necessidade. Então vem aqui em busca de cesta básica, como que pode ajudar. E nós ajudamos bastante. Chegamos a dar 300 cestas por mês, acompanhando isso. Tem muita criança passando fome. Então nós fomos buscar alternativas para isso. Então usamos a cozinha comunitária, atendemos hoje 300 crianças no almoço todos os dias de segunda a sexta. Está aqui na capela próxima e estão convidados a almoçarem pra conhecer. (Entrevista 4) Eu conheço muita gente desempregada aqui, que ta passando até necessidade de fazer até campanha de alimentos pra muitas pessoas que tavam passando necessidade porque não tinham emprego. Tinham a certeza de que com duas montadoras ia ter emprego pra todos, mais a gente sabe que não é assim não. Gera emprego, isso não tem dúvida, mais não é tudo isso (sic) (Entrevista 5). Teve muita gente que veio morar pra atrais de emprego (sic) (Entrevista 8). 16 O Mapeamento da Pobreza no Paraná, trabalho organizado por uma equipe técnica do IAPAR, mostra resultados que indicam uma intensa desigualdade distributiva das pessoas pobres dentro do território estadual, considerando a sua ocorrência em regiões consideradas rurais, urbanas e metropolitana no Paraná. Segundo este relatório, a RMC apresentava um total de pessoas, das quais ou seja 8% encontravam-se abaixo da linha de pobreza. Destes, localizavam-se em São José dos Pinhais, segundo maior foco paranaense da fome, atrás apenas de Curitiba que apresentava pessoas abaixo da linha de pobreza. b) Aumento da criminalidade/violência É, violência aumentou barbaridade aqui. [...] Eu acho que tanto perto de uma quanto de outra tem moradores ali que são até favelados, falando o português claro. No caso propriamente da Reneault, tem muitas famílias que invadiram ali e tão até hoje. Então, com aquilo aumentou a criminalidade, os assaltos, e muito mais. (Entrevista 5). Tem muito ladrão aqui e o povo não quer mais ficar aqui. Tem gente boa que vem de fora, mais tem muito ladrão também depois disso (Entrevista 9). A violência ta meio parada porque agora tem a polícia. Mas antes era muito assalto. (Entrevista 11). Outro impacto no âmbito social verificado na análise do conteúdo das entrevistas foi o aumento da violência e dos roubos após a implantação da indústria Renault. Fator decorrente do aumento da população, somado ao desemprego, conforme mostram os recortes já citados. c) Modificação no índice da mortalidade infantil A oscilação verificada no coeficiente de mortalidade infantil nos anos de 1999 a 2000, apresentando um sensível aumento e, nos anos de 2001 a 2002 apresentando um decréscimo,

17 17 desvela que a intervenção estatal tem se dado nas conseqüências do problema e não nas causas que determinam este evento. Diante da análise do perfil epidemiológico elaborado anteriormente, pode-se concluir que há necessidade de outros estudo sobre as causas dos principais coeficientes de saúde. Sugere-se destacar aqueles que apresentam significativa perda para os indivíduos atraídos pelo sonho de uma vida melhor, que incluiu a perspectiva de obtenção de trabalho na Renault. 9. Conclusão Como exercício interdisciplinar julgou-se a proposta do trabalho de fundamental importância para a construção da prática que soma diversos saberes e campos de atuação, pois entende-se que as necessidades do futuro hoje não mais requerem somente uma especialização, mas versatilidade e harmonia entre a formação especializada e o saber geral, de forma a assegurar a assimilação de novos conhecimentos e a capacidade de auto-apredizagem conforme ocorreu com o grupo, tanto na pesquisa de campo como na pesquisa bibliográfica. Assim, como pós-graduandos sujeitos de própria ação e do engajamento no processo de investigação descobriu-se e re-descobriu-se a importância da construção coletiva do conhecimento, superando a divisão do conhecimento em disciplinas e ao compartilhando as idéias, as ações e as reflexões de cada participante, fato que permitiu a cada parte do grupo sentir-se ao mesmo tempo "ator" e "autor" do processo. Desta forma, o que foi observado em campo levou a equipe a aprofundar o conhecimento dos autores que foram apresentados durante as aulas das disciplinas que enfocaram as Ciências da Natureza e as Ciências Humanas e Sociais do Curso de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento e a acrescentar outros autores que fundamentaram o trabalho de pesquisa. Conforme proposto nos objetivos no início deste estudo, pode-se constatar empiricamente que algumas das repercussões sócio-ambientais pesquisadas cientificamente não devem ser contidas apenas no desenvolvimento deste trabalho, mas consideradas como um referencial para novas pesquisas, dentre elas pode-se destacar: a contaminação do lençol freático, a poluição do Rio Pequeno, a diminuição da Área de Preservação Ambiental, a concentração da fome e da criminalidade, além do elevado coeficiente de Mortalidade Infantil no município de São José dos Pinhais. Ressalta-se ainda, que muito há que se explorar, pois as repercussões sócioambientais encontradas no município de São José dos Pinhais, após a implantação da fábrica destinada à produção de veículos automotores da marca Renault, deverão ser objeto de outros estudos mais aprofundados, a fim de contribuir para a compreensão dos impactos gerados na vida de parte da população brasileira e, que haja por parte de líderes quer sejam na esfera política local, regional,

18 18 estadual ou federal, pensadores críticos, que desafiem a realidade concreta e pensem politicamente a questão da relação entre homem/natureza refletindo sobre os possíveis projetos e alternativas de vida. 10. Referências ANDREOLI, C. V.; DALARMI, O.; LARA, A.I.; ANDREOLI, F.N.; Os Mananciais de Abastecimento do Sistema Integrado da Região Metropolitana de Curitiba RMC. Limites ao Desenvolvimento da Região Metropolitana de Curitiba, Impostos pela Escassez de Água. SANARE - Revista Técnica da Sanepar. (1) AZZOLIN, J. L. Uma avaliação da fórmula de distribuição do imposto relativo às operações de circulação de mercadorias e serviços (ICMS) aos municípios paranaenses p. Dissertação (Mestrado em Administração). Programa de Pós-Graduação em Administração. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, BRANCO, S. M.; ROCHA, A. L. Poluição, proteção e usos múltiplos de represas. São Paulo: Edegard Blücher, CETESB, CARTA DO PARTIDO VERDE PARA O PRESIDENTE DA RENAULT. 29 mar CASTRO, J. Geografia da Fome. Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, COMEC - UTP do Itaqui, CONAMA. Definições, as responsabilidades, os critérios básicos e as diretrizes gerais para uso e implementação da Avaliação de Impacto Ambiental como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente. Nº 001, de 23 de janeiro de Disponível em: Último acesso em: 03/11/2003. CUNHA, S. K.; OLIVEIRA, M. A.; CUNHA, J. C.. Clusters: novo padrão de especialização da indústria paranaense na década de 90. Política de Gestão Tecnológica. VI SEMEAD. Revista. s.d. DEMO, P. Saber pensar. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2002 DORETTO, M. et al.; Pobreza urbana e rural nos municípios paranaenses: situação segundo Municípios e Associações de Municípios, ano 2000 / IAPAR Londrina: IAPAR, (Relatório preliminar). EIA/RIMA. Relatório de Impacto Ambiental do Distrito Industrial de São José dos Pinhais. Curitiba: UNILIVRE, FEIJÓ, Ricardo. História do pensamento econômico. São Paulo: Atlas, FOLADORI, G. Uma tipologia do pensamento ambientalista. Texto trabalhado em sala de aula no curso de doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento na Universidade Federal do Paraná. Curitiba.(mimeo) 2003 FRANCO, M. A. R. Planejamento ambiental para a cidade sustentável. São Paulo: Annablume: FAPESP, 2001 GUERRA, A.J.T; CUNHA, S. Degradação Ambiental. In: Geomorfologia Ambiental. GUERRA, A.J.T;

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20 SUDERHSA - Plano de Despoluição Hídrica da Bacia do Alto Iguaçu - v. 5. dez THEODOVICZ, A. M. Projeto Curitiba. Áreas naturais sob proteção na Região Metropolitana de Curitiba. Curitiba CPRM - Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba. TREWARTHA, G.T; HORN L.H. An introduction to climate. New York, McGraw-Hill, 5th ed., 1980.

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