A FÉ QUE PROFESSAMOS CARTA PASTORAL SOBRE O ANO DA FÉ

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1 A FÉ QUE PROFESSAMOS CARTA PASTORAL SOBRE O ANO DA FÉ +Adriano Langa, OFM Bispo de Inhambane Caríssimo Povo de Deus que caminha por terras de Inhambane, Que o Deus da Aliança e da paz vos encha das suas graças e fortifique a vossa fé no Senhor Jesus 1 - No dia 11de Outubro de 2011, o Santo Padre Papa Bento de XVI, proclamou o período que vai de 11 de Outubro de 2012 a 24 de Novembro de 2013 o Ano da Fé. Com esta iniciativa, o Papa convida toda a Igreja Católica a dedicar a sua atenção (oração reflexão e outras acções práticas) à questão da fé, para redescobrirmos a importância, o lugar e a necessidade da fé na vida do homem. 2 - Nos últimos tempos tem-se falado com frequência da crise da fé ; uma espécie de doença espiritual que afecta a crença em Deus, no mundo do além, no transcendente. O Santo Padre diz na carta, através da qual ele anuncia o Ano da Fé, o segundo na história da nossa Igreja: Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir mas, frequentemente acaba sendo negado (Porta da Fé, 2). Por outras palavras, o Papa está denunciando uma atitude dos homens do nosso tempo que têm mais receio daquilo que lhes pode suceder como crentes, como se eles fossem crentes naturais, só pelo facto de terem nascido em ambientes onde se professa a religião. Mas este automatismo não só não existe mas até é rejeitado energicamente por muitos homens do nosso tempo. Na verdade, muita gente tem vergonha e medo da simples possibilidade de terem fé. Hoje há muita gente que parece pensar que negar a existência de Deus e a religião é sinal de evolução; parece pensar que para se ser um bom intelectual, um bom técnico, um bom cientista, um bom político é preciso ser ateu ou fingir ser ateu; como se alguém pudesse ser menos intelectual, menos técnico, menos cientista, menos político por ter fé. Parece que o não ter fé e não praticar a religião é estar na moda, é estar actualizado. 3 - Não temos visto pessoas que no campo eram fervorosas crentes praticantes mas que, chegando na cidade, baixam na sua prática religiosa ou abandonam completamente essa prática? Não temos visto gente que quanto mais avança na formação académica ou quando conseguem uma promoção social arrefecem na sua vivência religiosa ou mesmo abandonam essa vivência? Parece que os estudos e posições elevadas na sociedade são incompatíveis com a fé! Por isso, uma pergunta surge, espontaneamente: Porquê tudo isto? Respondendo vagamente, mas certo, diremos que é obra do diabo. Este não procura tanto os crentes mornos e fracos, pois, o mesmo diabo sabe que estes crentes estão ao seu alcance, como o milho que está no celeiro do agricultor ou do dono. O diabo sabe que aos crentes como 1

2 aqueles (mornos e fracos) basta só estender a mão, a qualquer momento, para tê-los. Por isso, ele está mais preocupado com os bons crentes e fervorosos, que são o orgulho de Deus. Assim aconteceu com Job (cfr Job, 1, 8ss). 4 - Aprofundando mais a resposta, diremos que o diabo tem as suas portas preferidas e eficientes para atingir as suas vítimas e arrastá-las: A mais larga é a porta da ignorância em relação à própria fé e à religião que a pessoa professa. É que não é fácil defender uma causa mal conhecida, à qual só se adere por simples inclinação e emoção. Um soldado que vai à frente da batalha e não conhece bem as causas e razões da guerra que é obrigado a combater, já está derrotado antes de sair do quartel. Mesmo que esteja equipado com o armamento mais sofisticado ele poderá abandoná-lo diante do inimigo, mesmo antes de se iniciar o combate. É que tal soldado sabe que ele pode ser surpreendido pelo inimigo, como Golias o foi por David, este equipado pelo armamento mais rudimentar. Na verdade, esse soldado mal informado das razões do seu envolvimento na luta, faz-se a seguinte pergunta, curta mas desencorajante: morrer porquê e para quê? 5 - Assim, podemos imaginar que muitos cristãos já estão derrotados ao sair do baptistério (lugar na igreja onde acontecem os baptismos), a não ser que o novo cristão se empenhe a fundo na sua auto-formação cristã (oração, vida comunitária, leitura, participação em cursos de formação, etc). Os outros grandes buracos que engolem muitos crentes são os três inimigos da alma: o mundo (as seduções mundanas); o demónio (o poder, incluindo o poder do dinheiro); a carne (sensualidade ou imoralidade). Contra estes poderosíssimos inimigos o Senhor Jesus nos deixou duas armas: a mortificação dos sentidos (incluindo o jejum); e, sobretudo, a oração. 6 - A proclamação do Ano da Fé, foi uma forma que o Santo Padre achou (e muito bem) para celebrar dois grandes acontecimentos que muito promovem a Fé católica: as Bodas de Ouros da abertura do Concílio Vaticano II, que foi em Outubro de 1962; outro grande acontecimento que estamos celebrando é o vigésimo aniversário da publicação do Catecismo Católico. Os dois acontecimentos constituem grandes instrumentos na promoção da fé cristã católica. 7 - O Concílio Vaticano II: Com os seus ensinamentos (contidos nos seus diversos documentos), este Concílio abriu aos fiéis as portas para a compreensão da sua fé, porque tais documentos esclarecem pontos e aspectos da mesma fé que permaneciam na obscuridade ou mesmo desconhecimento dos crentes católicos, mas que lhes faziam muita falta, para a solidez da fé dos mesmos fiéis. Com tais ensinamentos, a fé dos católicos pode tornar-se adulta, responsável e activa; a Igreja Católica deixou de ser uma Igreja de crianças ; uma Igreja de mudos e ignorantes, como era chamada pelos crentes das outras Igrejas. Humilhante, sim, mas a crítica era certa. Na verdade, nesse tempo (antes do Concílio Vaticano II), a oração do crente católico era só o Pai Nosso, a Avè Maria e o Glória. Tirando estes, o crente católico ficava mudo, não sabia orar espontaneamente (Igreja dos mudos); Por outro lado, o crente católico nada sabia da vida da sua Igreja, da sua comunidade. O seu dever, uma vez baptizado, era só ir à missa, comungar e confessarse. Tudo o resto era com o padre (clericalismo). O crente católico não sabia como pegar e ler a Bíblia, porque era-lhe expressamente proibido. Ao católico só era permitido ler a chamada Bíblia das Escolas, que era uma colectânea de algumas histórias, tais como o da sentença de Salomão do caso das duas mulheres disputando uma criança; o episódio da casta Susana e pouco mais, para aulas de moral e educação cívica. 2

3 8 - Por isso, o último Concílio do século XX foi, justamente, considerado uma revolução dentro da Igreja. Ele foi um Concílio mais pastoral do que doutrinal, como foram os anteriores. Estes ocuparam-se (era necessário) de questões da verdadeira doutrina, da busca da autenticidade doutrinal; foram concílios para a resolução de problemas de erros ou heresias doutrinais; concílios das definições e de dogmas, de clarificações das afirmações. O Concílio Vaticano II veio ensinar aos fiéis como viver a fé como indivíduo e como comunidade; ele ocupou-se de coisas práticas, da vivência espiritual individual e comunitária, com conhecimento de causa; aquele Concílio veio ensinar o que é o mundo laico, qual é o seu valor e como a Igreja deve olhá-lo e relacionarse ele. 9 - Este Concílio continua e continuará sendo sempre actual e importante, por isso, é fonte para todos os efeitos e para todo o crente que queira ser crente de verdade; para todo aquele que queira ser cristão de hoje e de amanhã, para si mesmo, para a comunidade e diante do mundo; para aquele que queira ser luz do mundo e sal da terra. Sendo assim, somos todos chamados a estudar, conhecer e familiarizar-nos com os seus ricos documentos, para a promoção de uma fé consciente, madura, apostólica, evangelizadora O Catecismo da Igreja Católica: É a exposição ordenada da doutrina cristã católica; é o Manual para a formação cristã, baseada no Credo (a doutrina que o crente católica deve saber) e sobre os sete Sacramentos, que são os meios para o cristão viver plenamente como tal. Até aqui havia somente pequenos catecismos, cada um versando sobre um ou alguns temas: Catecismo para o Catecumenado, para a Primeira Comunhão, para o Crisma, para o Matrimónio, etc. Assim devia e deve ser, para facilitar a aprendizagem: para a clareza do objectivo de cada etapa. O único problema é que corre-se o risco de o crente formado por estes manuais não saber bem os fundamentos básicos da matéria aprendida e a ligação entre os vários aspectos da sua religião ou realidades da vida cristã: porque fazer isto e aquilo, etc? No Catecismo da Igreja Católica todos os aspectos estão expostos em ordem e são explicados de uma forma seguida e compreensiva Mais ainda: no Catecismo Católico praticamente está tudo o que se encontra nos documentos do Concílio Vaticano II. A diferença é que no Catecismo Católico, os assuntos ou temas estão postos de uma maneira clara e ordenada que torna fácil a identificação, compreensão e assimilação facilitando, assim, a aprendizagem. Nos documentos conciliares, os mesmos elementos estão em forma de discurso desenvolvido, que nem sempre é fácil para todos a identificação e a compreensão. S. Paulo diz aos coríntios: é o leite que vos dei a beber, não alimento sólido; não o teríeis suportado (1 Cor. 3,2). Portanto, há maneiras diferentes para dizer uma mesma coisa, conforme os intervenientes, a capacidade dos destinatários e a finalidade Qual é o mais importante? Esta costuma ser a pergunta daqueles que procuram o caminho mais curto, que evita fazer esforço. É uma pergunta que costuma ser mal vinda como neste caso; ela é mal vinda porque coisas curtas costumam ser truncadas, incompletas. Assim, aquela pergunta é mal vinda tratando-se de pôr em alternativa os documentos conciliares e o Catecismo da Igreja Católica, pois, para um cristão católico, que aspira à maturidade, tudo é importante. Por isso, por tudo (os documentos conciliares e o Catecismo Católico) nos devemos interessar. Numa dada circunstância vamos precisar mais de um dos tipos daqueles documentos e numa outra circunstância vamos precisar mais de outro tipo. 3

4 13 - A fé é uma realidade que necessita de crescer. Ela está feita para crescer, é uma realidade viva e dinâmica. Se este crescimento não acontece a fé morre, desaparece ou estagna e degenera numa religiosidade defeituosa e, assim, ela se transforma numa negação da verdadeira e sã religiosidade, podendo chegar até ser perigosa e ruinosa, para a própria pessoa e para a sociedade (o fundamentalismo, por exemplo). Para que tudo isto não aconteça, a fé deve ser cuidada e alimentada como o corpo humano. Este precisa de ser cuidado e de ser alimentado, com alimento apropriado, conveniente. A fé alimenta-se, é cuidada através da oração, dos Sacramentos, dos exercícios espirituais, da instrução ou auto-formação cristãs e através da vida em comunidade. Só a formação inicial não basta, por boa que ela possa ser. Esta fornece apenas os fundamentos rudimentares, essenciais mas incapazes de sustentar o edifício da fé por toda a vida nem para todas a situações existenciais. Aquela formação deve ser continuada e aprofundada O crescimento da fé não termina porque a sua medida, a sua meta é Cristo, ela é chamada a crescer para atingir a estatura de Cristo. Por isso, é um processo, um movimento que dura toda a nossa vida e esta acaba sem que tal movimento tenha chegado à meta ideal. Até hoje ninguém atingiu aquela meta. Mesmo os grandes santos morreram lamentando as suas limitações, deixaram este mundo sentindo-se pecadores. Eles estiveram sempre em movimento de crescimento e muitos se maltrataram para favorecer e acelerar o seu movimento de aproximação a Cristo modelo, até que Deus os veio buscar, completando, pelos méritos de Cristo, o que neles faltava de perfeição, levando-os aos ombros, memecando-os para o paraíso pelo qual lutaram até onde puderam. Nisto descobrimos que, de verdade, o homem não se salva pela força das suas obras mas é Deus que o pode salvar. Por isso, com a ajuda da Virgem Santíssima e de todos os Santos, busquemos o nosso crescimento na fé sem desfalecer, até que o Senhor venha nos memecar para o céu, completando o resto do caminho de perfeição que faltar a cada um. (+Adriano Langa, OFM) Bispo de Inhambane 04 de Outubro de

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