Perguntas surpreendentes... Respostas desafiadoras

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1 Perguntas surpreendentes... Respostas desafiadoras Questões bíblicas que conduzem à prática cristã J o hn MacArthur observa que o viver cristão não é uma experiência mística, ou seja, contemplativa e meditativa apenas. Não é um tipo de mentalidade esquiva que não possa ser aplicada à vida cotidiana. É uma questão de pensar, falar e agir, afirma. A fé cristã tem a ver com a nossa maneira de pensar e viver em relação a Deus e às pessoas que se encontram à nossa volta. Portanto, colocar em prática a fé e assumir todos os desafios que ela impõe, sendo uma gratificante experiência em nossa vida diária. Praticar a fé é sinal de uma espiritualidade cheia de vida. Foi isso que o Senhor Jesus, nossa referência maior, ensinou e viveu. A fé sem obras é morta, afirmou o apóstolo Tiago. Portanto, praticar a fé em Cristo é vivenciar um estilo de vida que está enraizado na história do cristianismo. Nestes tempos em que a fé evangélica está muito dependente de novidades e experiências místicas, é extremamente oportuno resgatar as práticas cristãs observadas em Jesus e na igreja do primeiro século. Ao estudar algumas das surpreendentes perguntas levantadas na Bíblia, a Didaquê, através dos estudos aqui apresentados, procura oferecer respostas desafiadoras que possam conduzir o povo de Deus às práticas cristãs. Na convicção de que a igreja do século XXI é herdeira de uma tradição viva, esperamos que este volume, que faz parte da série Vida Abundante, ofereça as ferramentas para o serviço a Deus e ao próximo no mundo, na dependência e à luz da graça de Cristo. MANHUMIRIM-MG, Janeiro de 2009

2 Informações e Sugestões O presente volume da Série VIDA ABUNDAN- TE traz para a reflexão mensagens de encorajamento, encontradas na Palavra de Deus. As revistas da Série VIDA ABUN- DANTE são recomendadas para jovens e adultos. Os autores dos estudos são pastores presbiterianos. Eles revelam cuidado e equilíbrio na interpretação do texto bíblico, utilizando linguagem fácil de ser entendida e mantendo-se fiéis à linha teológica Reformada. O texto é uma contribuição ao debate e à reflexão e, em nenhum momento, pretende ser a última palavra sobre as questões abordadas, dogmatizando-as; é, na verdade, o ponto de partida. Para tornar o aprendizado mais eficaz, sugerimos aos professores, ou coordenadores de grupos, os seguintes procedimentos: Utilizar a Bíblia como principal e indispensável fonte de pesquisa; Examinar, rotineiramente, obras didático-pedagógicas, a fim de aperfeiçoar a tarefa de ensinar, dominando-se princípios e técnicas de aprendizagem; Ir além do texto apresentado na revista, buscando, noutras fontes, dados e informações complementares; Valer-se de ferramentas como Dicionário de Língua Portuguesa, Chave Bíblica, Dicionário Bíblico, Comentários Bíblicos etc., a fim de facilitar o preparo e tornar mais eficaz a ministração; Buscar sempre a iluminação do Espírito Santo durante o período prévio de preparação, e depender da mesma iluminação para conduzir a aula, fazendo tudo isso com esmero e dedicação; Valorizar a totalidade do estudo, evitando o distanciamento do assunto em foco, e administrar bem o tempo para não se deter em determinadas partes do estudo, em detrimento de outras; Assumir a função de mediador do grupo, evitando monopolizar a palavra, com respostas prontas e imposição de seu ponto de vista, como única e absoluta expressão da verdade; Variar, na medida do possível, a forma de apresentar o conteúdo de cada estudo, evitando assim que as aulas se tornem repetitivas, rotineiras e pouco atraentes; Relacionar as mensagens e os desafios ao cotidiano dos integrantes do grupo, incentivando-os a colocar em prática as lições aprendidas e despertando-os para a ação, no sentido de concretizar os objetivos do estudo.

3 Índice 1 - Acaso sou eu tutor de meu irmão? Estou eu em lugar de Deus? Que é o homem, que dele te lembres? Quem Senhor, habitará no teu tabernáculo? De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? Roubará o homem a Deus? Se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Quem diz o povo ser o Filho do Homem? Quem é o meu próximo? Como ouvirão se não há quem pregue? De onde procedem as guerras e contendas que há entre vós? Que é a vossa vida? Nosso

4 Acaso sou eu tutor de meu irmão? A negligência no cuidado mútuo 01 A Gênesis 4 resposta de Caim, à incômoda pergunta feita pelo Senhor, é a resposta dissimulada, de alguém que tinha consciência da sua transgressão e da sua culpa. É uma resposta que, em vez de justificar, condena. O sentimento de culpa incomoda e produz justificativas que não convencem nem a nós mesmos. Muitas vezes, preferimos fingir que não estamos vendo a situação ao redor, que envolve os nossos irmãos. Tentamos aplacar a consciência, fingindo que nada de mais está acontecendo. E a situação se torna mais desconcertante ainda, quando, a exemplo de Caim, abrimos a boca para nos explicarmos ou para tentar justificar a nossa omissão, a nossa indiferença, a nossa culpa. A responsabilidade do homem para com o seu semelhante é a essência do projeto de sociedade idealizado por Deus. Ele nos criou para que sejamos irmãos. É por isso que tudo se resume no mandamento do amor: amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Nós somos responsáveis uns pelos outros. Somos, sim, tutores do nosso irmão! Portanto, não podemos olhar para o próximo com os sentimentos que tomaram conta de Caim. Quando a indiferença ou a antipatia toma conta dos nossos relacionamentos, o cuidado mútuo dá lugar ao distanciamento, o que já é um desastre, mas pode desencadear desdobramentos ainda piores. Diante do estilo de vida individualista e competitivo da sociedade dos nossos dias, precisamos fortalecer as relações fraternais, cuidando para que não nos tornemos negligentes nessa questão. 1. A NEGLIGÊNCIA NO CUIDADO MÚTUO É CONSEQÜÊNCIA DO PECADO Conforme está registrado no versículo 7, o Senhor fez uma advertência a Caim, dizendo: eis que o pecado jaz à porta. O pecado que Tópicos para Reflexão Encontros diários com a Bíblia SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO DOMINGO Gênesis Salmo Salmo Salmo Mateus Lucas 1 Coríntios Responsabili- O paralelo entre Os ímpios A bênção da Amar A necessidade Um hino dade com o os ímpios e os serão união entre os do ao próximo justos condenados os irmãos inimigos perdão amor estava arraigado no coração de Caim motivou os seus sentimentos e a ação fatal. A força do pecado presente na natureza humana é a causa primeira de todos os pensamentos e sentimentos malignos. O pecado gera inimizade

5 tanto em relação a Deus, quanto em relação aos que se acham à nossa volta. O descaso com que a vida humana é tratada, é conseqüência da natureza pecaminosa do homem. O pecado induz o homem a tornar-se egoísta e a viver em função apenas dos seus interesses. Essa força terrível do pecado pode ser vista claramente em nossa cidade. Apesar da evolução alcançada pela civilização humana, percebe-se que o espírito humano continua marcado pela mesquinhez. O pecado afetou a natureza humana, comprometendo a qualidade de vida idealizada pelo Criador. Desde a queda, o homem tornou-se negligente no cuidado do seu semelhante, mudando o sentido das relações humanas: é cada um por si. É claro que isso contraria frontalmente o projeto divino, que é caracterizado por união, cooperação e harmonia, como se vê, por exemplo, na própria Trindade. REFLITA: Qual é o remédio de Deus para curar essa negligência no cuidado mútuo? 2. A NEGLIGÊNCIA NO CUIDADO MÚTUO DESEMBOCA EM VIOLÊNCIA E MORTE O Senhor disse a Caim: Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo (v.7). O pecado que estava arraigado no coração de Caim foi a causa da violência que se manifestou mais tarde contra o seu próprio irmão. A primeira vez que aparece a palavra pecado, na Bíblia, é nesse contexto de violência. Isso comprova a ligação da violência com o pecado. Em vez de ter sido dominado, o pecado é que foi dominando Caim, intensificando a ira em seu coração: Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante (v.5). Nesse momento, ele já havia matado a seu irmão em seu coração. Mais tarde, a tragédia apenas tomaria forma. Toda vez que nutrimos pensamentos ou sentimentos dessa natureza, anulamos as pessoas em nosso coração. Assim, fica criado o cenário para a promoção da violência e da morte, que se manifestam tanto através da agressão quanto da indiferença. A ira humana age tal qual um processo de fermentação, que vai aumentando até explodir. Tiago adverte: a ira do homem não produz a justiça de Deus. Portanto, despojandovos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada (Tg 1.20,21). A ira acumulada é uma bomba perigosa que, fatalmente, produz violência. O capítulo 4 de Gênesis mostra o homem lutando contra o próprio homem, numa manifestação explícita de violência. O texto mostra dois aspectos igualmente cruéis da violência: A intolerância O versículo 8 diz que, estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou. Os versículos 23 e 24 afirmam que Lameque vangloriou-se de ter matado dois homens, por motivos fúteis. São duas demonstrações de intolerância desembocando em morte. A intolerância continua fazendo vítimas. Lamentavelmente, até mesmo dentro da Igreja. Em vez de sentir-se responsável por proteger o seu semelhante, o homem, muitas vezes, dá vazão ao seu instinto violento, fazendo prevalecer a intolerância. Como conseqüência, instala-se a morte, em vez de se promover a vida, como sugere o Salmo 133. No Salmo 37.8, o salmista adverte: Deixa a ira, abandona o furor; não te impacientes; certamente, isso acabará mal. Em Romanos , a Bíblia recomenda: Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança;

6 eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem ; A indiferença Essa é outra forma de manifestação da violência, não menos dolorosa do que a anterior. Conforme o versículo 9, Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei: acaso sou eu tutor de meu irmão?. A frieza dessa resposta é chocante! A indiferença demonstrada por Caim é uma punhalada na alma. Porém, devemos admitir que agimos exatamente igual a ele, diante da miséria exposta ao nosso redor. Nunca nos sentimos culpados. Não estamos interessados em saber nada sobre a desgraça do outro. Acaso somos responsáveis pelos miseráveis deste mundo? Alguns dizem: Eu já tenho os meus problemas. Assim, de forma cínica, vamos demonstrando a nossa violência. A indiferença é uma das formas mais perversas de violência. É por isso que a Bíblia declara: Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando. (Tg 4.17). REFLITA: Até que ponto somos culpados pelos atos de violência existentes à nossa volta? 3. A NEGLIGÊNCIA NO CUIDADO MÚTUO É SUPERADA PELO AMOR QUANDO O HOMEM SE VOLTA PARA DEUS Enquanto o homem não toma consciência da realidade do pecado em sua vida, a violência prevalece. É preciso, portanto, estar alerta, pois, o pecado jaz à porta. Em Romanos , Paulo discorre sobre a terrível força do pecado, que provoca uma verdadeira guerra espiritual na vida do crente. É preciso agir com firmeza e determinação: eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, a ti cumpre dominá-lo. O domínio próprio é fundamental para se evitar a violência e promover o cuidado mútuo. Tiago diz que é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz (Tg 3.18). Na condição de tutores dos nossos irmãos, devemos produzir o fruto do Espírito, conforme Gálatas 5.22,23, agindo sempre com amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Mas, essa conduta amorosa só é possível quando o homem se volta para Deus, em Cristo Jesus. Gênesis 4 termina dizendo: Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou. A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do Senhor. É significativo que o dramático relato desse capítulo termine de forma tão notável e alentadora, anunciando a possibilidade do início de um novo tempo: o tempo da comunhão com Deus e da paz entre os homens. É uma luz que brilha no fim do túnel, indicando que ainda há esperança. O ressurgimento do homem religioso, por meio da linhagem de Sete, que passa a invocar o nome do Senhor, é o sinal de que nem tudo está perdido. Esse fato é inspirador para a Igreja, no desenvolvimento de sua missão neste mundo tão individualista e violento. É o caminho da volta para Deus e do amor, como ensina o apóstolo João (1 Jo ). REFLITA: Por que pessoas que professam a fé em Cristo se mostram, muitas vezes, negligentes no cuidado mútuo? Rev. Eneziel Peixoto de Andrade

7 Estou eu em lugar de Deus? 02 Somente Deus é juiz sobre todos Gênesis M uitos de nós enfrentam a dor de termos sido gravemente machucados ou ofendidos por alguém. Quem sabe é uma situação recente, ou então, algo acontecido há anos? Essa dor não é fácil de ser curada e ela aumenta na proporção do mal que sofremos. Não há outro remédio para curar essa dor a não ser o verdadeiro perdão estendido a quem nos magoou profundamente. Perdoar não é uma tarefa fácil, nem mesmo quando a pessoa se arrepende do que fez a nós. Porém, embora não seja fácil, não é impossível perdoar as ofensas, por maiores que elas sejam. Se temos, como cristãos, a preocupação de agradar a Deus, então, devemos perguntar: como vamos erradicar a amargura do coração e perdoar verdadeiramente aqueles que nos têm prejudicado? O texto que elucida o assunto deste estudo revela que José foi grandemente prejudicado e desprezado pelos irmãos. Seus irmãos tinham planejado matá-lo, mas depois decidiram vendê-lo como escravo. No Egito, ele fora injustiçado, sendo acusado pela mulher de Potifar de assédio sexual. Ele foi preso e passou muitos anos na prisão, tendo sido esquecido por um homem a quem ele ajudara. Quando saiu da prisão ele não tinha o coração amargo e tomado de vingança. Pela providência de Deus ele se tornou governador do Egito. Com a morte de seu pai, Jacó, os seus irmãos se preocuparam pensando que José iria se vingar de todos os males que eles lhe fizeram. Porém, para surpresa de todos eles, José não pagou o mal com o mal. A resposta que ele deu aos irmãos e sua atitude revelaram que ele, de fato, havia estendido o perdão completo a eles. Preocupados, seus irmãos enviaram-lhe um recado dizendo que Jacó, antes de morrer, havia pedido que José perdoasse o pecado que eles cometeram contra ele. Foi nessa hora que José, depois de chorar muito, disse a eles: Não temais; acaso estou eu em lugar de Deus? (v.19). A partir da notável e inspiradora atitude de José podemos aprender a perdoar aqueles que praticam injustiças contra nós. Encontros diários com a Bíblia SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO DOMINGO 2 Reis Jó Salmo Atos Romanos Efésios Hebreus ; Ninguém está Deus tem Deus: onisciente, Deus se A vingança Imitadores Consciência em lugar de poder para dar onipotente e dá a pertence a de limpa Deus e retirar onipresente conhecer Deus Deus

8 Tópicos para Reflexão 1. DEUS É O JUIZ SOBRE TODOS Nos relacionamentos interpessoais precisamos assumir o nosso lugar diante de Deus. Embora José fosse o segundo homem mais importante em todo o Egito, talvez sobre a face da terra, com todo o poder para lançar seus irmãos no cárcere ou colocá-los como escravos, ou até mesmo matá-los, ele não se esqueceu de que não estava no lugar de Deus. Ele se colocou em seu próprio lugar e reconheceu o lugar devido a Deus. José foi poderoso aos olhos do mundo, mas ele sabia que não era tão poderoso o suficiente para tomar o lugar de Deus. Somente Deus ocupa essa posição quando se trata de julgar aqueles que erram contra nós. Paulo, em Romanos declara: Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas daí lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. O Senhor é o único juiz competente, pois ele é quem conhece os pensamentos e as intenções do coração de cada pessoa. Uma atitude comum em todos nós é querer que Deus faça justiça sobre aquele que nos ofendeu ou nos machucou e pedimos que sobre nós ele exerça a sua misericórdia. Com essa atitude nos esquecemos de que devemos amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (Mt ). Uma das razões para que José perdoasse aos irmãos é que ele se lembrou de que não tinha nada para reclamar contra Deus, não importando quão grave fora o tratamento recebido. Ele sabia que Deus é o juiz de seus irmãos e de si próprio. REFLITA: Por que não devemos fazer justiça com as próprias mãos? 2. DEUS É SOBERANO EM SUAS AÇÕES Nada neste mundo pode frustrar os desígnios de Deus. José compreendeu isso claramente e, com certeza, essa compreensão da soberania de Deus o levou a entender que não estava no lugar de Deus para retribuir o mal que seus irmãos lhe fizeram. Ele declarou: Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. (v.20). Quando estivermos sendo carbonizados no fogo do sofrimento, devemos compreender que o divino Artista nos está preparando para sermos instrumentos do seu propósito. (Stanley Jones, em Cristo e o Sofrimento Humano, p. 236). Essa foi a maravilhosa compreensão que José teve diante das injustiças recebidas. Quando coisas ruins acontecem a nós, temos duas opções: Aceitar a soberania de Deus, que por algum motivo permitiu que tais coisas acontecessem, ou negar que Deus esteja no controle de tudo e, portanto, não pode controlar o mal que há no mundo. Uma tendência teológica, nascida entre teólogos americanos, que tem conquistado a simpatia de muitos no Brasil, é a teologia do teismo aberto. O que isso quer dizer? O escritor Luiz Sayão, na Edição 69 da revista Enfoque Cristão, abril de 2007, declara: A idéia básica dos novos teólogos americanos é que Deus decidiu abrir mão de sua soberania e da sua onisciência e resolveu não saber e controlar o futuro. Num processo de autolimitação, Deus passa a ter seus atributos. Em resumo, Deus abriu mão de ser Deus. Na verdade, eles rejeitam a teologia histórica evangélica e ignoram centenas de textos bí-

9 blicos que afirmam atributos essenciais de Deus. Basta citar alguns poucos textos da literatura poética bíblica: Conheces as nossas iniqüidades; não escapam os nossos pecados secretos à luz da tua presença (Sl 90.8). Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor (Sl 139.4). Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? (Sl 139.7). Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado (Jó 42.2). Para podermos perdoar aqueles que nos ofendem é preciso compreender que Deus, em sua soberania, permite determinados acontecimentos em nossa vida, para os quais não temos explicações claras ou plenamente satisfatórias. Não se pode concordar com o teísmo aberto, pois é uma teologia que contraria as Escrituras. É necessário, portanto, que nos humilhemos diante dessa soberania, sabendo que algum propósito há nos atos permissivos de Deus. REFLITA: A soberania de Deus anula a responsabilidade humana? 3. DEUS É BOM EM TODOS OS SEUS CAMINHOS Disse José a seus irmãos: Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem... (v.20). O equivalente desta afirmação em o Novo Testamento é a declaração do apóstolo Paulo: Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Rm 8.28). O clássico problema filosófico gira em torno do sofrimento e do mal existentes no mundo. Como Deus pode ser tanto soberano, ou todo-poderoso, e ao mesmo tempo bom? Se ele fosse bom nos livraria do sofrimento e se fosse todo-poderoso iria fazer algo para impedir as injustiças. Mas nós sofremos. Assim, para muitos, Deus deve ser fraco ou não é tão bom. O rabino norte americano Harol Kushner, em seu famoso livro, Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas (Nobel Editora), apresenta a idéia de que Deus é bom, mas não tem o poder para acabar com o mal. Para explicar por que as coisas ruins acontecem ele, então, mostra que é melhor admitir isso do que conviver com a idéia de um Deus todo-poderoso que deixa o mal florescer. Mas, esse é o Deus da Bíblia? O Deus de José? Com certeza, não. As Escrituras ensinam que Deus é bom em todos os seus caminhos. Muitas vezes Satanás sussurra aos nossos ouvidos: Se Deus realmente importa com você, ele não teria deixado isso acontecer. Sem dúvida, José resistiu a esse pensamento ao longo dos anos. A sua certeza era: Deus transforma o mal em bem, pois ele é bom em todos os seus caminhos e em tudo aquilo que faz e permite. Não há dúvida de que se torna muito mais fácil estender o perdão a quem nos ofende quando temos uma correta compreensão do lugar que Deus ocupa no mundo. Ao nos colocarmos em nosso devido lugar, reconhecendo que Deus é juiz, soberano e bom, a sua graça e misericórdia nos capacitarão a desenvolver atitudes de perdão e reconciliação com aqueles que intentam o mal contra nós. REFLITA: Como pode uma vítima de um crime terrível acreditar que tal coisa aconteceu para o bem? Rev. Sérgio Pereira Tavares

10 03 V o Que é o homem, que dele te lembres? O valor da vida humana Salmo 8 cê já parou para pensar sobre quem você é? Sobre o valor da sua vida? É triste constatar que para muitos a vida não tem mais valor. Para muitas pessoas Deus está longe e não se importa com o ser humano. O Salmo 08 começa e termina com a expressão: Ó SENHOR, Senhor nosso, que caracteriza uma admiração reverente do salmista em reconhecer que Deus se ofereceu para ser seu companheiro. Isso é evidência de que Deus está próximo e valoriza a vida humana. Porém, este Salmo é um hino em que a excelência de Deus em suas obras da criação é cantado de forma poética. É um poema de sabedoria, que pondera a exaltação a Deus, enfoca a pequenez da humanidade, outorgando-lhe domínio sobre a criação. É interessante observar que esta passagem foi aplicada a Jesus em Hebreus Neste estudo pretendemos, de forma resumida, apresentar à luz deste Salmo e, a partir da pergunta que é o homem, que dele te lembres?, o quanto Deus como criador valoriza a vida humana. Tópicos para Reflexão 1. O VALOR DA VIDA HUMANA RESIDE PRINCIPALMENTE NO FATO SER OBRA DE DEUS O Salmista após fazer a intrigante pergunta sobre que é o homem, ele mesmo responde declarando que Deus o criou: Fizeste-o, no entanto, por um pouco menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste (vv.4,5). Deus é o autor de toda a criação. O ponto culminante de toda obra da criação é o ser humano. Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, soprando em suas narinas o fôlego da vida (Gn Encontros diários com a Bíblia SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO DOMINGO Gênesis Gênesis Jó Salmo Salmo Romanos Hebreus O início Deus: criador A realidade Deus é eterno, A proteção A triste Jesus, coroado de do homem e da o homem, de inversão de honra e tudo da mulher morte transitório Deus de valores de glória 10

11 2.4-7). Em Gênesis 5.1,2 encontra-se esta afirmação: Este é o livro da genealogia de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão, no dia em foram criados. É interessante observar que as palavras homem e Adão têm o mesmo sentido na língua hebraica. Isso significa que ao criar Adão, Deus criou toda a humanidade. Mesmo que existam pensamentos diferentes quanto à criação do homem, apresentando o ser humano como resultado de uma evolução, a Bíblia deixa claro que ele foi criado por Deus. Isso confere ao ser humano um grande valor. No livro O Enigma das Origens A Resposta (Editora Origens), de vários autores, há o seguinte modelo de comparação entre a teoria da evolução e criação: diz: Você tem valor, o Espírito Santo se move em você. REFLITA: Uma vez que o homem foi criado à semelhança de Deus, por que muitos não se voltam para Ele? 2. DIANTE DA GRANDEZA DE DEUS A VIDA HUMANA É INSIGNIFICANTE Realmente, é isso que o salmista expressa, especialmente no versículo 05, afirmando que o homem foi feito um pouco menor do que Deus. A palavra traduzida por Deus aqui significa no original seres celestes, seres divinos. Para alguns se trata de anjos. Porém, o que o texto quer colocar é uma clara contraposição entre a majestade de Deus e a relativa insignificância do ser humano. No Salmo 144.3,4 esta mesma pergunta é feita, sendo que uma MODELO DA EVOLUÇÃO Origem naturalista em andamento Cada ser humano é obra-prima de Deus e por isso tem muito valor. Tudo que Deus criou é bom, belo e possui propósitos bem definidos. Daí não existir nenhuma possibilidade para o complexo de inferioridade ou frustração pessoal, pois todos são criados por Deus, à sua imagem e com um propósito. Há um cântico espiritual que 11 MODELO DA CRIAÇÃO Origem sobrenatural consumada Crescimento global em complexidade Decréscimo atual em complexidade. ocorrendo. resposta é dada mostrando a real insignificância da vida humana: O homem é como um sopro; os seus dias, como a sombra que passa. O salmo 90 é uma oração feita por Moisés. Nessa oração o homem de Deus descreve a insignificância do ser humano, apresentando o contraste de forma bem nítida entre a eternidade

12 de Deus e a transitoriedade do homem. Porém, ele pede que o Senhor o ensine a viver todos os dias de sua vida, pede a compaixão divina e termina clamando pela graça do Senhor. Quem dessa forma ora será valorizado pelo Senhor. Mesmo sendo um ser criado por Deus, o ser humano é pequeno, limitado, imperfeito e insignificante diante da grandeza do Senhor. Daí a sua necessidade de Deus, ou seja, da sua dependência de Deus. Como é bom depender de Deus! Saber que o Deus Todo-Poderoso é quem cuida de nós, quem nos socorre em perigos e nos auxilia em nossas fraquezas! É lógico que não podemos ter uma visão pessimista ou negativa da depravação do homem. A própria doutrina da depravação total do homem caminha nesta direção, pois mesmo pecadores, os seres humanos retêm a imagem de Deus, que dá a cada pessoa dignidade e valor. REFLITA: Em que sentido Cristo restitui a dignidade do ser humano diante de Deus? 3. AO SER HUMANO FOI DADO O DOMÍNIO SOBRE A CRIAÇÃO Os versículos 06 a 08 deste Salmo 08 afirmam que Deus deu ao homem domínio sobre a criação: Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste. Este domínio sobre a criação está expresso no começo de tudo (Gn ). Porém, é necessário pensar em três aspectos deste domínio: 3.1. Autoridade O primeiro princípio que se percebe nesta conferência de domínio é a autoridade. Quem domina é porque tem autoridade e esta foi concedida por Deus; 3.2. Privilégio Quem domina é um privilegiado. É o privilégio de poder agir com liberdade, mas com responsabilidade. Este privilégio é uma honra conferida por Deus; 3.3. Responsabilidade O poder sobre a natureza que Deus conferiu aos seres humanos encerra tanto privilégios quanto responsabilidades. Deus deu ao homem a responsabilidade de CULTIVAR E GUARDAR a terra (Gn 2.15). É lamentável verificar aqueles que empregam suas capacidades e conhecimentos para aproveitar de modo indevido os recursos da terra. Enfim, precisamos permanecer bons administradores de tudo quanto Deus tem confiado a cada um de nós. O Dr. Shedd disse: Por causa do pecado o homem não tem cumprido a responsabilidade dada por Deus de mordomo junto à criação, porém, o salvo em Cristo recebe de volta os direitos de mordomia que Adão perdera. REFLITA: Deus impôs limite ao ser humano quanto ao domínio sobre a criação? Rev. Anderson Sathler 12

13 Quem Senhor, habitará no teu tabernáculo? 04 O hóspede do Senhor Salmo 15 N o íntimo de todo ser humano há um desejo forte e intenso de se conhecer a Deus que não pode ser satisfeito por nada nem por ninguém, a não ser pelo próprio Deus. Afinal, Deus é a realidade suprema do universo, e nada menor que ele mesmo pode preencher o vazio que se encontra no coração de toda e qualquer pessoa. Esta verdade foi percebida mais de mil anos atrás por Agostinho, o brilhante pastor e pensador dos primórdios da história da igreja cristã, que afirmou em uma frase que se tornou famosa que Deus nos criou para ele mesmo, e que não encontramos descanso enquanto não nos voltamos para ele. Antes ainda de Agostinho o próprio texto bíblico já afirmava que Deus colocou a eternidade no coração do homem (Ec 3.11). Logo, só o Eterno pode satisfazer plena e completamente este desejo do ser humano. Bem disse o pensador cristão C. S. Lewis que o ser humano quase sempre tem desejos pequenos demais... por isso, se ilude desejando coisas pequenas, quando na verdade o que está a buscar é maior realidade do universo o próprio Deus. Daí vem uma questão importantíssima: como estar na presença de Deus? As religiões oferecem várias tentativas de resposta para esta pergunta que é o título deste estudo. Tópicos para Reflexão SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO DOMINGO Salmo Salmo Isaías 2 Coríntios Efésios Colossenses Colossenses O limpo de cora- Os olhos do Senhor Os olhos dos Andamos por Andando A nova Viver para o ção obterá a bên- estão sobre os justos verão fé e não pelo na luz vida em louvor da ção do Senhor que o temem o Rei que vemos Cristo glória de Deus O HÓSPEDE DO SENHOR BUSCA A INTIMIDADE COM O ETERNO A maioria dos especialistas concorda que o Salmo 15 pertence a um gênero literário conhecido como liturgia de entrada no Templo. A este mesmo gênero pertence o Salmo 24. O Antigo Testamento não dá detalhes claros quanto a isto. Por isso, supõe-se que o Salmo 15 fosse cantado por ocasião das festas sagradas que anualmente aconteciam no Templo em Jerusalém. Os peregrinos, quando chegavam, perguntavam sobre quem habitará no tabernáculo de Javé. O sacerdote então respondia com o restante do Salmo. O Salmo tem uma estrutura tríplice. A primeira parte da estrutura é apresentada pelo primeiro versículo, isto é, a pergunta dos peregrinos quanto às condições para ser hóspede do próprio Deus. A segunda Encontros diários com a Bíblia

14 parte é constituída pela maior parte do Salmo, pois vai do versículo 2 até a primeira metade do versículo 5. Nesta parte, vários preceitos éticos extremamente práticos são apresentados. Finalmente, a terceira e última parte é formada pela segunda metade do versículo 5, que afirma: quem deste modo procede, não será mais abalado. A idéia é que as exigências apresentadas no Salmo são para toda a vida, e não apenas para os dias da festa. Neste Salmo o verbo habitar transmite a idéia de morar com Deus. Ser hóspede do Senhor é a linguagem poética, extremamente sugestiva, utilizada pelo salmista para transmitir a idéia de ter comunhão e intimidade com o Eterno. Habitar no tabernáculo do Senhor é uma metáfora, isto é, uma comparação da idéia de salvação. Apresenta o desejo de uma comunhão íntima com o Senhor. REFLITA: O que é necessário para ser recebido pelo Senhor, e desfrutar de sua intimidade e comunhão? O HÓSPEDE DO SENHOR ASSOCIA O CONHECIMENTO À PRÁTICA, A INTEGRIDADE À ÉTICA Especialistas em teoria da comunicação nos lembram de que comunicamos não apenas pelo que falamos, mas também pelo que deixamos de falar. O que é dito e afirmado é importante. Curiosamente, o que não é dito também é importante. Talvez sejamos surpreendidos se fizermos uma leitura mais atenta do Salmo, olhando para o que o Salmo não fala. Há pelo menos duas omissões neste texto que chamam a atenção, e que devem ser consideradas. Vejamos: A primeira ausência que chama a atenção no Salmo 15 é que o texto não apresenta um conhecimento teórico como condição para ser recebido pelo Senhor. Alguns setores da tradição evangélica no Brasil dão importância muito grande a um conhecimento teórico e intelectual de sistemas doutrinários corretos como condição para a salvação. Conhecimento doutrinário correto é importante. Não deve ser desprezado. Um dos fatores que incentivaram a Reforma Protestante do século XVI foi exatamente a divulgação do ensino verdadeiro das Escrituras quanto à vida cristã. O que não se pode fazer é permitir que um conhecimento meramente teórico nos leve a pensar que não precisamos viver em obediência ao Senhor. Os Evangelhos relatam que Jesus não entrou em conflito necessariamente com o conhecimento doutrinário dos líderes religiosos fariseus do seu tempo, mas com a falta de coerência que tinham entre conhecimento e vida. Esta situação aparece várias vezes nos Evangelhos. Talvez a mais conhecida seja aquela em que o Jesus conta a conhecida parábola do samaritano, tido como doutrinariamente não ortodoxo, mas que com sua vida agiu de modo correto, mais correto que o sacerdote e o levita, que tinham em suas mentes um conhecimento doutrinário absolutamente certo. Por mais que este conhecimento seja importante e é mesmo não pode substituir o lugar da obediência prática. A segunda ausência do texto é que neste não se encontra nenhuma referência a aspectos ritualísticos. Esta ausência é surpreendente, se considerarmos que o livro do Levítico apresenta uma série de situações que deixariam uma pessoa ritualmente impura, e portanto, indigna e incapaz de estar na presença do Senhor. Os peregrinos seriam considerados impuros se tivessem algum contato com cadáveres. Também se-

15 riam consideradas impuras as mulheres em período menstrual, e homens que tivessem tido polução noturna. Curiosa e surpreendentemente, o Salmo 15 ignora todas estas exigências rituais. Não que não fossem importantes. Mas aos olhos do Senhor, o que vale verdadeiramente é viver com integridade e com ética. REFLITA:O que realmente comprova que uma pessoa possui o verdadeiro conhecimento de Deus? 3. O HÓSPEDE DO SENHOR EXPRESSA A SUA FÉ EM ATITUDES CONCRETAS Quem Senhor, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? Esta pergunta tão importante é respondida com uma seqüência de doze situações absolutamente práticas. Serão abaixo reproduzidas conforme a tradução feita pelo biblista brasileiro José Bortolini em seu comentário ao livro dos Salmos: Quem age na integridade E pratica a justiça, Quem fala sinceramente o que pensa E não usa a língua para caluniar; Quem não prejudica seu próximo, E não difama seu vizinho; Quem desprezo o injusto, E honra os que temem a Javé; Quem sustenta o que jurou, Mesmo com prejuízo seu; Quem não empresta dinheiro com juros, Nem aceita suborno contra o inocente. São todas situações de vida. E todas têm a ver com nosso relacionamento com nosso semelhante. Mais tarde, o Novo Testamento afirmará: aquele que não ama a seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus, 15 a quem não vê (1 João 4:20). A vida com Deus não é mera teoria, nem um amontoado de palavras estéreis e sem vida. A fé sem obras é morta, diz Tiago (2:26). Se a pergunta quanto ao hóspede do Senhor for feita a diversos líderes brasileiros que se apresentam como evangélicos, que aparecem em programas de rádio e TV praticamente 24 horas por dia, eles responderão que o Senhor aceitará como hóspede quem fizer ofertas em dinheiro para suas igrejas. Contra esta tendência tão antibíblica, o Salmo 15 apresenta uma vida em integridade, justiça e amor ao próximo como critérios para se desfrutar de comunhão e intimidade com o Senhor. Quanto a isto, vale a pena citar mais uma vez José Bortolini: interessante ainda é notar que Javé não pede nada para si: nem ofertas, nem sacrifícios, nem oblações, nem holocaustos. Nada. É como se ele dissesse a cada um: Você quer ser meu hóspede, meu amigo: Acolha o outro, seja amigo dele na integridade, na verdade, na justiça e na solidariedade. Deus não quer nada para si. Se quisermos dar-lhe algo, é aos outros que precisamos doar e doar-nos. O Salmo 15 apresenta uma resposta surpreendente para uma pergunta importantíssima. Como disse o biblista alemão Artur Weiser, o valor especial deste salmo para todos os tempos está no seu reconhecimento de que a verdade e a justiça são os pilares sobre os quais repousa a ética social que rege a vida da comunidade, a administração da justiça e a conduta do homem na área econômica. Por que com tanta freqüência as exigências deste Salmo são desprezadas em nossa compreensão da vida cristã? Rev. Carlos Ribeiro Caldas Filho

16 05 S egundo De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? O culto que agrada a Deus Isaías a Bíblia, Deus é santo e nós pecadores. Estamos apartados dele, pois os nossos pecados fazem uma divisão entre nós e Ele, divisão esta que não podemos por nós mesmos superar. Como, então, poderíamos, sequer, comparecer em Sua santa presença? Razão por que diz Isaías: Quando vindes comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes nos meus átrios? (Is 1.12). Somos pecadores e não podemos comparecer diante de Deus, somente aqueles a quem Ele assim requer, ou seja, aos que Ele chamou. Se Ele nos chamou isto é graça e misericórdia, ou seja, serviço divino a nosso favor. No presente estudo desejamos deixar claro que é de fundamental importância no ato do culto, uma vida santificada pelo Espírito Santo. Deus nos escolheu para sermos santos (Ef 1. 4). Cremos que a vida daquele que cultua precisa estar rendida aos pés do Senhor a fim de que sua adoração seja aceita de forma agradável. Cremos ainda que se faz urgente uma clara compreensão do que seja o culto.ele deve ser segundo a vontade de Deus,para que não se torne vazio de conteúdo. O culto existe para agradar a Deus e não ao homem. É bom enfatizar ainda a conscientização da relação culto e sociedade. Assim, o culto precisa contemplar o amor ao próximo já que não pode haver espiritualidade para com Deus se não houver espírito de solidariedade. O objetivo do presente estudo é levar a Igreja a refletir sobre o culto, levando-a a adorar a Deus. sempre em espírito e em verdade. 1. O culto que agrada a Deus leva em conta a vida daquele que cultua (vv.3,5) Um culto agradável a Deus tem que vir invariavelmente de um coração dedicado a Deus. Um coração do qual Deus de fato é o dono. Se o coração não pertencer a Deus Tópicos para Reflexão SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO DOMINGO Êxodo Salmo Salmo Isaías Oséias Mateus João a Culto somente A importância o valor Adoração e Voltar-se A centralidade A ao Deus vivo e da da serviço sinceramente da verdadeira verdadeiro adoração confissão para Deus adoração adoração 16 como oferecer um culto de coração? Dáme, filho meu, o teu coração, e os teus olhos se agradem dos meus caminhos (Pv 23.26). Antes de oferecermos um culto a Deus é preciso que nos ofereçamos a Ele na ação do Espírito Santo. Quando olhamos para a narrativa de Encontros diários com a Bíblia

17 Abel e Caim, somos informados de que Deus se agradou de Abel e de sua oferta, ao passo que rejeitou Caim e sua oferta. Qual teria sido o problema da rejeição de Caim? Deus lhe disse: Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Podemos concluir que o culto de Caim não foi aceito por falhas em seu procedimento pessoal. O problema com Caim está em seu proceder, está antes nele do que no culto que intentou ofertar a Deus. Já com relação a Abel somos informados de que ele foi aceito pela fé, pela fé ofereceu mais excelente sacrifício do que Caim. (Gn e Hb 11.4). O grande problema de Israel foi ter deixado Deus de lado. O próprio Deus afirmou: Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura, mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende (vv.2,3). A linguagem divina é impactante. O boi e o jumento conhecem o seu dono, mas os filhos de Deus não o conhecem. Isso nos traz à mente a história de Balaão e sua jumenta. Balaão seguia seu caminho, um anjo do Senhor se põe no caminho; a jumenta o vê e se desvia, mas Balaão não teve a visão espiritual que teve a jumenta e a espancou. Então Deus usa a boca da jumenta já que não usou a visão e a boca do profeta. (Nm ). Paulo escrevendo aos amados de Roma disse: Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-lhes o coração insensato (Rm 1.21). Deus quer ser glorificado em nossas vidas. Isso será abençoador para 17 nossa própria vida e certamente renderá muitas ações de graças. REFLITA: Poderá haver vida no culto, sem que haja culto na vida? 2. O culto que agrada a Deus leva em conta a vida do próprio culto (v.11) Israel deixara de andar com Deus, de reconhecê-lo e tê-lo como Deus. A conseqüência foi que o culto oferecido tornou-se sem sentido para Deus. Na verdade ganhou um sentido extremamente negativo. Já não havia vida no culto, uma vez que não havia culto na vida. As formas litúrgicas estavam presentes. Os sacrifícios eram oferecidos, os incensos eram queimados e as festas e as orações eram celebradas. Nenhum bom judeu ousaria criticar tal liturgia. Mas Deus não se agradou. De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? - diz o SENHOR. Dos sacrifícios o Senhor estava farto; o incenso se constituiu numa abominação; as festas tornaram-se em aborrecimento e as orações já não eram ouvidas (Is ). O culto havia ganhado características hipócritas, eram os adoradores verdadeiros artistas que representavam muito bem o religioso, o cerimonial, aquilo que tornaria fácil a identificação de que o culto que eles prestavam era de fato um culto judaico. O grande perigo é quando o culto passa a mostrar quem nós somos, e não quem Deus é. A Confissão de Fé Westminster tratando do culto religioso nos diz o seguinte: A luz da natureza mostra que há um Deus, que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, por-

18 tanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo, e é tão limitado pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras (Cap. XXI, par. I). O culto se torna vão quando seguimos os preceitos humanos e não os divinos (Mt 15.9). O Dr. Russell P. Shedd em seu livro Adoração Bíblica tratando das várias formas litúrgicas diz que existem liturgias onde o silêncio parece ser essencial na adoração e outras onde o silêncio não é tão importante assim. Ele afirma que não é uma questão de certo ou errado, mas muito mais uma questão cultural. Contudo, isto não passará de hipocrisia se os adoradores não conhecem a Deus e não tem uma idéia realista da sua santidade, amor e poder (pp.12-13). REFLITA: Será que uma boa liturgia é suficiente para dar vida ao culto e torná-lo agradável a Deus? 3. Um culto que agrada a Deus leva em conta a vida da própria comunidade (v.17) O culto em Israel tornara-se vazio e desprovido de sentido a despeito de todo o aparato litúrgico se fazer presente. Para que o culto seja agradável a Deus é preciso haver prática litúrgica na vida, ou seja, uma clara compreensão do que estamos fazendo e do que significa culto a Deus. 18 No culto há um relacionamento entre Deus e o cultuador, mas para que ele seja aceitável a Deus depende também do relacionamento existente entre a comunidade de fé e a sociedade. A comunidade de Israel havia deixado a prática pessoal do culto a Deus, o que afetou o próprio culto comunitário. Uma vez que não havia culto na vida do povo não poderia haver vida no ajuntamento solene. A comunidade precisava voltar à prática do bem; atender à justiça, repreender ao opressor; e defender o direito do órfão e das viúvas. (Is 1.4). O Dr. Russel P. Shedd, diz que um dos efeitos do culto digno do Senhor será o desejo crescente de ser testemunha de Jesus Cristo e arauto das boas-novas. Ser-meeis testemunhas em Jerusalém, Judéia e Samaria e até os confins da terra (At 1.8). Se as igrejas evitam a comunhão permanente com o Arquiteto da igreja não é de se admirar os erros que os mestres de obras cometam. Nem se deve estranhar as facilidades com que os trabalhadores desistem da obra ainda longe do término. (p.109) A comunidade de Jesus Cristo não deve ignorar sua responsabilidade para com a sociedade. Israel deveria ter sido exemplo para as demais nações, mas ao invés de influenciar, muitas vezes acabou sendo influenciada pelas praticas pagãs. Que não seja assim na vida da comunidade cristã de nossos dias. REFLITA: O serviço da comunidade cristã na sociedade tem sido satisfatório? Rev. Vladir Cesar Oséas

19 Roubará o homem a Deus? 06 Fidelidade na vida cristã Malaquias S erá que pessoas obedientes à Lei de Deus, portanto, religiosas, sejam capazes de roubar a Deus? O profeta Malaquias, no texto que fundamenta este estudo, revela que isso é possível. No entanto, aqueles que o roubam nem sempre têm consciência disso. Por isso, perguntam: Em que temos roubado a Deus? Esse é um assunto tão sério que por quatro vezes a palavra roubar aparece nos versículos 8 e 9. Deus cobra isso da nação de Israel, mas o povo está cego para as cobranças de Deus. É preciso analisar se Deus está cobrando isso de nós e se não estamos cegos a essas cobranças. De que maneira as pessoas religiosas roubam a Deus? 1. AS PESSOAS ROUBAM A DEUS QUANDO ABANDONAM A SUA PALAVRA E SE TORNAM APENAS RELIGIOSAS O que se observa no versículo 7 é que as pessoas a quem essas palavras foram dirigidas estavam vivendo como seus pais e seus avós que culturalmente eram judeus, porém não viveram em obediência ao Senhor. Seus antepassados pretendiam ser os seguidores do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, mas sua religiosidade foi simplesmente cultural ou histórica, não introspectiva, experimental e sincera. Tópicos para Reflexão SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO DOMINGO Mateus Mateus Marcos Lucas Lucas 2 Coríntios 1 Timóteo Frutos O Reino de Ser religioso Fidelidade Provas A graça Tesouros dignos de Deus em não é o exigida do de no céu arrependimento primeiro lugar suficiente arrependimento contribuir 19 Ao longo dos anos essa religião foi gradualmente assimilando elementos da cultura, misturando-se com os costumes e rituais prescritos pelos homens, deixando de lado os estatutos de Deus. É extremamente gratificante quando se pode vir de uma linhagem de pessoas cristãs. Mas é preciso considerar que isso pode oferecer alguns perigos. A experiência cristã pode tornar-se ao longo das gerações apenas ritualista e mecânica. A vivência cristã pode tornar-se legalista, com normas rígidas mas que não sejam necessariamente normas bíblicas. As atitudes diárias podem não represen- Encontros diários com a Bíblia

20 tar o fruto do Espírito, resultado de uma conversão sincera a Cristo Jesus. É da maior importância conectar as gerações na fé cristã, mas é preciso tomar todo cuidado para que a família não expresse uma religiosidade sem o verdadeiro conhecimento de Deus, mas vivendo pela fé e obedecendo à sua Palavra. João Batista advertiu quanto a uma fé simplesmente histórica. Muitos dos que iam a ele para ser batizados se gloriavam de que eram filhos de Abraão e não precisavam de arrependimento (Mt ). Eles possuíam uma fé cultural, tradicional, mas sem vida e sem a experiência do verdadeiro arrependimento diante de Deus. REFLITA: O que distingue o religiosos e o convertido de fato? 2. AS PESSOAS ROUBAM A DEUS QUANDO NÃO OBEDECEM À SUA PALAVRA NO QUE DIZ RESPEITO A DAR Nos dias do profeta Malaquias as pessoas diziam: Nós obedecemos a Deus. Então o Senhor afirmava: Vocês dizem que me obedecem mas estão me roubando. O povo perguntava: Em que te roubamos?. Deus respondia: Nos dízimos e nas ofertas (vv.8-10). Fica claro no texto que dar ou contribuir é uma das provas decisivas do relacionamento com Deus. Quando Zaqueu, o rico coletor de impostos passou pela maravilhosa experiência da conversão, suas primeiras palavras foram:...senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma 20 cousa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais Essas palavras de Zaqueu levaram Jesus a dizer; Hoje houve salvação nesta casa (Lc 19.8,9). Que contraste com a trágica experiência do jovem rico que queria herdar a vida eterna! Ele era uma pessoa religiosa, sabia todos os mandamentos e havia sido criado na religião judaica. Mas uma coisa faltava em sua vida. Ele tinha um ídolo em seu coração, que era a sua riqueza. Ele perguntou a Jesus o que deveria fazer para herdar a vida eterna. Jesus respondeu: Só uma cousa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. (Mc 10.21). Em Lucas 16.10,11 Jesus afirma que a mordomia do nosso dinheiro é um teste sobre o que iremos fazer com as mais importantes responsabilidades. Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. (v.10). As pessoas podem ficar impressionadas com o nosso vasto conhecimento da Bíblia, com nossa fervorosa oração, com os nossos muitos anos de serviço na Igreja. Mas Deus não olha para nenhuma dessas coisas para testar nossa fidelidade. Ele analisa a forma como gerimos o dinheiro que Ele tem confiado a nós. Se não somos bons mordomos no que se refere ao dinheiro, estamos roubando de Deus. Não podemos ser legalistas com o dízimo, pensando que entregando os dez por cento do que ganhamos já é o suficiente para estar em dia com Deus. Sem dúvida, o Senhor espera a nossa fidelidade nos dízimos, mas espera também que

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