FABRÍCIO MEIRA DE OLIVEIRA AS APROPRIAÇÕES DAOBRA DE GABRIEL SOARES DE SOUZA NO DISCURSO DE GILBERTO FREYRE

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1 1 FABRÍCIO MEIRA DE OLIVEIRA AS APROPRIAÇÕES DAOBRA DE GABRIEL SOARES DE SOUZA NO DISCURSO DE GILBERTO FREYRE Monografia apresentada para concluir a disciplina de Estágio Supervisionado em Pesquisa Histórica, sob orientação do Professor Doutor Magnus Pereira da Universidade Federal do Paraná - setor de ciências Humanas Letras e Artes- Departamento de História - Curso de Bacharelado e Licenciatura em História. CURITIBA 2010

2 2 Resumo Este estudo monográfico tem como objeto a recepção da obra Tratado Descritivo do Brasil em 1587 de autoria de Gabriel Soares de Souza, e a construção do discurso historiográfico brasileiro da década de 30 do século XX, tomando como referência a obra Casa-Grande e Senzala, escrita em 1933 por Gilberto Freyre. A monografia divide-se em duas partes. Na primeira, identifica-se Gabriel Soares de Souza focalizando-se o contexto no qual sua obra se insere. Em seguida o estudo se dirige para a história do livro até sua organização por Varnhagem no século XIX, além do próprio teor de Tratado Descritivo do Brasil. Finalizando a primeira parte é feita uma breve revisão bibliográfica enfatizando o fato de que a obra de Gabriel Soares de Souza tem sido apropriada por inúmeros historiadores, porém, quase sempre com a finalidade de reiterar as idéias dos historiadores sem que haja intenção de verificar qual é a parte construída por Gabriel Soares. Finalizando a primeira parte é refeita uma revisão bibliográfica. Na segunda parte, o estudo se dirige exclusivamente á recepção de Gabriel Soares de Souza em Casa-grande e Senzala. Verificando de que forma de que forma Freyre se apropria de Tratado Descritivo do Brasil em Palavras chave: Gabriel Soares de Souza, Gilberto Freyre, recepção.

3 3 Introdução O presente trabalho tem por objeto a recepção da obra Tratado Descritivo do Brasil em 1587, de autoria de Gabriel Soares de Souza, e a sua influência na construção do discurso historiográfico brasileiro das décadas de 30 do século XX, através de autores representativos do período. No caso Gilberto Freyre e a obra que o consagrou nesta mesma época Casa-Grande e Senzala de Os autores e obras abordados na revisão bibliográfica deste estudo o foram em ordem cronológica: Varnhagen, pela organização e comentário da obra Tratado Descritivo do Brasil em 1587, no ano de Gilberto Freyre com Casa-Grande e Senzala, obra publicada em 1936; Sérgio Buarque de Holanda e seu ensaio Raízes do Brasil, publicado em 1936; Florestan Fernandes com o livro Organização Social dos Tupinambás, cuja primeira edição é do ano de 1946; e John Manuel Monteiro, como representante de uma historiografia mais recente. A escolha dos autores e das obras não foi arbitrária. Ela deve-se ao grau de influência que estes exerceram sobre a maior parte das produções de natureza historiográfica, sociológica e antropológica escritas no século XX, chegando aos dias atuais. Neste sentido, outros autores e obras de reconhecido valor, tais como: Caio Prado Júnior ou Serafim Leite poderiam ser elencados, contudo, por não citar diretamente a fonte primária em questão, ou ainda, por fazer uso exíguo da mesma, não poderiam ser utilizadas para responder as principais perguntas deste trabalho: as possíveis divergências de visão, sobre um mesmo passado. Em essência, o que se busca é verificar o grau de importância da obra de Gabriel Soares de Souza no discurso historiográfico Brasileiro, através das leituras e discursos de Gilberto Freyre. Ou melhor, de que forma o discurso historiográfico do século XX se apropria do discurso produzido nos XVI, para reconstruir a gênese de uma suposta "brasilidade". Neste sentido há de se estabelecer uma "via de mão dupla", comparando o que foi escrito por Gabriel Soares com aquilo que foi apropriado pelos que o interpretaram. Este procedimento se faz necessário por compreender que o autor e seus intérpretes, falam de

4 4 diferentes contextos históricos, com interesses que são pertinentes unicamente ao seu próprio tempo. Não se busca evidentemente, com isso, estabelecer qual dos discursos é o mais verdadeiro, o da historiografia do século XX ou a do século XVI, visto que "o conhecimento histórico é historicamente produzido" e que a história, enquanto conhecimento, é uma construção - uma representação da realidade - e não o real em si próprio, tal como é, ou foi algum dia.

5 5 Capítulo 1 Notas biográficas de Gabriel Soares de Souza. A biografia de Gabriel Soares de Souza é cheia de lacunas. Sabe-se que era português de nascimento, possivelmente da cidade de Lisboa, onde habitavam suas duas irmãs viúvas. Por volta de 1567 (ou 1570?), acompanhando Francisco Barreto a Monomotapa, Soares resolve parar na Bahia (Cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, também denominada genericamente como Bahia até meados do século XX. O termo Bahia também podia ser aplicado a todo o entorno da Bahia de Todos os Santos e regiões próximas, o denominado Recôncavo Baiano. Portanto, a região citada em textos antigos, nem sempre corresponde à divisão política e administrativa, por vezes denominada de Capitania da Bahia ou que nos tempos do Brasil Império respondia pelo nome de Província da Bahia e em tempos republicanos pelo nome de Estado da Bahia. Apesar de ser constantemente citado por Soares o termo "Cidade do Salvador", seu uso não foi sempre o mais corrente ao longo do tempo, muitas vezes referências à Bahia, podem estar relacionadas na verdade à cidade de Salvador, especificamente. Parte do que é descrito por Gabriel Soares como Bahia, há muito já está inserido no sítio urbano da Cidade de Salvador. Estabelecido nesta região, Gabriel Soares fez fortuna tornando-se senhor de um grande engenho nas proximidades do Rio Jequiriçá. Por ocasião da morte de seu irmão João Coelho de Souza, que havia percorrido os sertões por três anos e descoberto metaes preciosos, Gabriel Soares recebeu por intermédio de um portador de confiança, o itinerário da expedição de seu irmão. De posse deste valioso documento, Gabriel Soares embarca em direção à Península por volta do mês de agosto de 1584, com o intuito de conseguir concessões régias e privilégios que lhes pudessem ser úteis para viabilizar sua empreitada pelos sertões com o aval da Coroa. Em 1587, publica a obra Tratada Descritivo do Brasil, dedicando-a a Dom Cristóvão de Moura - homem de estado - cuja influência poderia ser de grande valia para a obtenção de concessões. Os trâmites foram demorados e o autor permanece na Península até receber o despacho positivo em dezembro de Em sete de abril do mesmo ano, já na condição de

6 6 capitão-mor e governador da conquista e descobrimento do Rio de São Francisco", Soares de Souza parte de Lisboa em direção as terras do Brasil a bordo da Urca flamenga Grifo Dourado, conduzindo um total de trezentos e sessenta homens entre os quais quatro carmelitas. O projeto" de Gabriel Soares sofre os primeiros infortúnios antes mesmo de chegar à terra firme. Por volta do mês de junho, a embarcação veio a naufragar na altura da foz do Rio Vaza Barris, região que havia sido recentemente colonizada por Cristóvão de Barros. A maior parte da tripulação conseguiu salvar-se. Depois deste acidente, Gabriel Soares retorna à Bahia (cidade) onde recebe o auxílio de Dom Francisco de Souza. Após estar refeito da tragédia que se abateu sobre ele, Soares de Souza volta para suas terras para buscar provisões de carne e farinha para continuar a expedição. A malograda expedição de Gabriel Soares teve início subindo o Rio Paraguaçu, pela margem direita. Fundou um arraial denominado de João Amaro, pois tinha ordens para fundar povoações a cada cinqüenta léguas. No percurso até o dito arraial, muitos dos que o acompanhavam adoeceram assim com muitos animais foram perdidos devido ao ataque de morcegos. Passadas mais cinqüenta léguas, Soares de Souza resolve fundar um segundo arraial, contudo o cansaço e a doença o venceram quando muitos já esmoreciam. Pouco tempo depois veio a falecer nesta mesma localidade. Sobre a obra. O primeiro exemplar de Tratado Descritivo do Brasil em 1587 de que se tem notícia teria sido entregue em Madri a Cristóvão Moura, a quem o livro é dedicado. A data da dedicatória é de 1 de março de O que se faz presumir que seja a datação mais aceitável da obra, pois os originais manuscritos foram perdidos e não se sabe ao certo se esta foi apresentada em versão impressa ou manuscrita. Se não houver erros cronológicos quanto à biografia do autor, que é cheia de lacunas, podem-se levantar algumas hipóteses através da análise do trecho que se segue 1 : Espantar serem estes descendentes dos franceses alvos e louros, pois que saem a seus avós; mas é de 1 SOUZA, Gabriel Soares. de. Tratado Descritivo do Brasil EM edição São Paulo - Recife - Porto Alegre - Rio de janeiro: Companhia Editora Nacional, 1938, p.331.

7 7 maravilhar trazerem do sertão, entre outros tupinambás, um menino de idade de dez anos para doze, no ano de 1586, que era tão alvo, que de o ser muito não podia olhar para a claridade. Hipótese 1 - Que a obra tenha sido escrita pelo menos em parte na Europa, pois o autor narra um acontecimento ocorrido em 1586, quando, de acordo com as notas biográficas, ele deveria estar na Europa desde Hipótese 2 - Que o autor tenha continuado a produzir o texto depois de 1584, valendo-se do testemunho de terceiros e de notícias, que poderiam ter sido trazidas por viajantes que regressavam do Brasil ou ainda por intermédio de cartas particulares, visto que a aparição do pequeno índio branco (provavelmente albino) se deu em terras que pertenciam ao próprio Gabriel Soares. Hipótese 3 - Que o autor, sendo um Senhor de engenho e com negócios a serem cuidados, tenha voltado ao Brasil antes de 1591 (segundo sua biografia nesta época Gabriel Soares estaria no Reino, neste mesmo ano ele teria recebido o seu despacho) onde continua a escrever a obra. Através da leitura do trecho fica evidenciado que o autor não concluiu a obra nos dezessete anos em que morou no Brasil, ou seja, antes de 1584, época de sua partida para a Europa. Ao que tudo indica a intencionalidade maior do livro, está diretamente relacionada aos interesses privados de seu autor, que parece querer recomendar-se a El Rey, para receber concessões de exploração, assim com as prerrogativas oficiais. O livro é um esforço do autor em se apresentar como um homem valoroso, conhecedor da realidade do Brasil e apto para protagonizar o papel do conquistador das terras e riquezas do interior do Brasil. Sobre a formação cultural do autor, não existem informações, apenas pequenas pistas dos seus hábitos de leitura e daquilo que poderia tê-lo inspirado a escrever, ou ainda lhe servido de fonte escrita. O próprio autor cita "os Livros da índia" 2 e ao também a leitura relativa à Jurisprudência, o que fica claro através da citação e análise do Regimento de Tomé de Souza. Livros da Índia Gabriel Soares de Souza, não especifica em nenhum momento qualquer título de obra. É constante em sua obra a referência aos tais Livros da índias. 3 SOUZA, op. cit.p. 73..

8 8 Quem quiser saber quem foi Francisco Pereira Coutinho, leia os livros da Índia, e sabe-lo-á; e verão seu grande valor e heróicos feitos, dignos de diferente descanso do que teve na conquista do Brasil. Livros da Índia. 4 A vila de Olinda é a cabeça da capitania de Pernambuco, a qual povoou Duarte Coelho, que foi um fidalgo, de cujo esforço e cavalaria escusaremos tratar aqui em particular, por não escurecer muito que dele dizem os livros da Índia. Regimento de Tomé de Souza. 5 Sua Alteza em efeito esta determinação tão acertada, mandou fazer prestes uma armada e provê-la de todo o necessário para esta empresa, na qual mandou embarcar Tomé de Sousa do seu conselho e o elegeu para edificar esta nova cidade, de que o fez capitão e governador-geral de todo o Estado do Brasil; ao qual deu grande alçada e poderes em seu regimento, com que quebrou as doações aos capitães proprietários, por terem demasiada alçada, assim no crime como no cível; de que eles se agravaram à Sua Alteza, que no caso os não proveu, entendendo convir a si e a seu serviço. Em relação ao conteúdo da obra comparado-a aos discursos de modernidade produzidos pelos historiadores sobre o século XVI, podem-se tirar algumas conclusões. Entre elas, podemos citar a construção generalizante de "Renascimento", que coloca como questão a retomada do legado Greco-Romano, como espécie de guia do homem moderno, ou como propõe o historiador Luís Carlos Barreto 6, a recuperação de um passado que serviria como modelo a ser superado e não simplesmente imitado. Em Tratado Descritivo do Brasil, Gabriel Soares em nenhum momento cita Gregos ou Romanos. Algumas menções contidas na obra se referem aos Romanos, mas são observações que não pertencem a Gabriel Soares de Souza, nem ao século XVI, mas sim, ao século XIX e a Varnhagen seu comentador, ao compará-lo a Plínio. Também não há referência a figuras mitológicas ou entidades pagãs da antiguidade, como ocorre nos Lusíadas de Luiz Vaz de Camões, obra esta que cronologicamente não está muito distante da época em que se foi escrito o Tratado Descritivo do Brasil. Ao se comparar, dentro do possível, as duas obras, ambas produto do mesmo século e dentro de um mesmo contexto histórico de expansão ultramarina portuguesa, podemos observar dois estilos completamente diferentes de escrever. Enquanto a obra de Camões é construída em versos, com uma linguagem elaborada e cheia de requintes estilísticos, a obra de Soares embora 4 5 SOUZA, op. cit.p. p.57. SOUZA, op. cit. pp BARRETO, Luís Filipe. Descobrimentos e Renascimento; formas de ser e pensar nos séculos XV e XVI. Lisboa: Imprensa Nacional, 1983.

9 9 abrangente, é sintética e marcada por uma prosa quase lacônica, que a assemelha a toda uma gama de mareantes e náufragos que deixaram relatos e diários, desde á época de Cristóvão Colombo, o que nos faz suspeitar sobre o seu grau instrução formal. Camões é apropriado e enaltecido pela cultura portuguesa enquanto Soares foi relegado ao desprezo e condenado ao esquecimento em Portugal. Quase não é lembrado pelos estudiosos portugueses, mesmo em momento mais atual. Um exemplo disto é o trabalho de Antônio da Rosa Mendes - A vida Intelectual -, que chega mesmo a citar O Soldado Prático, de Diogo Couto (com suas lamúrias). Este autor analisa toda sorte de produção, mas parece desconhecer seu conterrâneo (Gabriel Soares). Neste sentido, a obra de Soares é apropriada pelos estudiosos de "literatura brasileira" e em parte pelos historiadores do Brasil, que apesar de terem ao menos consultado a obra, raramente se propõem a analisá-la ou criticála (com exceção notória de Varnhagen e John Manuel Monteiro.), preferindo utilizá-la apenas para recortá-la nos trechos em que podem servir de ponto de apoio para o seu discurso, como podemos observar em Sérgio Buarque de Hollanda em seu Raízes do Brasil. Contudo, boa parte do que é narrado no Tratado Descritivo do Brasil em 1587 é reproduzido em boa parte das obras, sem que haja menção ao autor, como se parte do seu discurso já tivesse virado lugar-comum, um conhecimento sabido e indiscutível que dispensa maiores análises o comentários. Boa parte do material didático produzido no Brasil, sobre o século XVI, parece repetir o conteúdo da narrativa de Gabriel Soares de Souza apenas com a utilização de outras palavras. A obra do historiador paranaense Rocha Pombo 7, não repete exatamente o conteúdo de Soares, mas se assemelha em sua organização e foco de preocupações. A abordagem de Rocha Pombo é semelhante à de Gabriel Soares, guardadas a distância secular entre os dois autores, ambos escrevem como filósofos naturalistas", que procuram demonstrar uma descrição da realidade dentro de um sistema único envolvendo toda a complexidade da natureza perceptível. Só que neste sentido, Soares é mais filósofo do que historiador, enquanto o segundo é mais historiador do que filósofo. Muitos autores desde Heródoto, costumam inserir a História dentro de um contexto geográfico, contudo estes dois autores transcendem em muito os demais, talvez por já possuírem uma visão geográfica não do século XVI, XIX, ou início do XX, mas uma 7 POMBO, Rocha. História do Brazil.Porto Alegre: Globo, 1935.v.1

10 10 visão mais complexa que os aproxima da geografia em sua multifacetada abordagem contemporânea, que novamente aproxima a Geografia da Filosofia. O olhar de Gabriel Soares sobre a realidade é o olhar do empirismo, semelhante a outras descrições produzidas durante o ciclo de expansionismo ibérico como a obra do jesuíta José de Acosta História Natural e Moral das Índias. 8. O autor parece estar movido por uma ânsia de conhecer e desvendar a natureza e procura conhece-la e descrevê-la em seus aspectos mineral, vegetal e animal. Apesar da análise minuciosa, não se encontra na obra nenhum indício que sugira um esboço do que mais tarde seria denominado de classificação taxonômica. As explicações dadas por Soares parecem satisfazer as necessidades do homem do século XVI, quando as macro-unidades eram descritas, mas não precisavam ser comparadas. Algo mais ou menos semelhante a: Esta é uma rã, e aquela é outra rã. A primeira rã tem este aspecto e a segunda rã tem outro aspecto, mas ambas são rãs do mesmo jeito. Por vezes se preocupando com relações de causa e efeito, por vezes se rendendo às superstições ou recorrendo a explicações providencialistas. Usos e apropriações da obra dentro do Plano de Construção e Legitimação na esfera do Estado. A obra Tratado Descritivo do Brasil em 1587 não teve grande repercussão no século XVI. Embora já se tenha notícia da circulação dela em Portugal, no ano de 1599, a obra foi citada por Pedro Mariz. Segundo Varnhagen, no século XVII a obra foi copiada e em parte usada nos trabalhos de Frei Henrique de Salvador e de Frei Henrique de Jaboatão. Varnhagen também cita cópia e aproveitamento da obra em Simão de Vasconcelos. A primeira edição completa só veio a ser impressa em 1825 pela Academia Real das Ciências de Lisboa. Em 1851, saiu a primeira edição brasileira, organizada e comentada por F.Adolfo Varnhagen. A edição mais famosa é a de 1938, réplica da de Varnhagen, reproduzida em encadernação de luxo por uma grande editora. 8 VARNHAGEN, Francisco Adolfo. de. Additamento. In: SOUZA, Gabriel Soares. de. Tratado Descritivo do Brasil EM edição São Paulo - Recife - Porto Alegre - Rio de janeiro: Companhia Editora Nacional, 1938, p. XXXV.

11 11 Não podemos deixar passarem despercebidas determinadas coincidências entre as datas das edições com determinados momentos históricos específicos. Em 1825, o Estado Português havia sido expulso definitivamente da América por intermédio das guerras de Independência do Brasil, Bahia (1823), Pará e por último da Cisplatina em 1824, o que vem a tornar práticas, as palavras contidas na declaração de Independência, atribuída ao infante português filho de Dom João VI, que desde 1822 se declarava Imperador do Brasil. Esta situação ainda não era plenamente aceita e reconhecida pelo Estado Português, que ainda possuía esperanças de restaurar a unidade do seu antigo Império, visto que, aquilo que já esboçava a conformação de dois Estados soberanos diferentes, estava sob o domínio de uma mesma casa monárquica. O filho do velho Dom João, que se arrogava como paladino da Independência do Brasil, era na realidade o herdeiro da própria Coroa Portuguesa. Na edição portuguesa de 1825, ainda se pode notar determinadas notas que de forma alguma poderiam pertencer ao original. A edição portuguesa intitula a obra -: NOTICIA DO BRAZIL, DESCRIPÇÃO VERDADEIRA DA COSTA DAQUELLE ESTADO QUE PERTENCE A COROA DO REINO DE PORTUGAL, SITIO DA BAHIA DE TODOS OS SANTOS. - o que entra em contradição com o que é escrito pelo autor no século XVI. Gabriel Soares fala em terras marítimas da coroa de Portugal e Castela. O que demonstra que a Coroa portuguesa ainda não havia reconhecido plenamente a independência do Brasil por época da publicação, além do evidente anacronismo (provavelmente proposital), visto que na época em que Gabriel Soares dedica sua obra a Dom Cristóvão de Moura, em 1 de março de 1587, ele escreve em Madri e não em Lisboa. E por esta época, não havia exatamente uma Coroa Portuguesa, conforme está escrito na publicação portuguesa de Gabriel Soares fala de terras marítimas da coroa de Portugal e Castela 9, e a historiografia brasileira irá se referir mais tarde a este período utilizando o termo União Ibérica. Dentro deste contexto é plenamente plausível que Portugal buscasse evidenciar e resgatar os seus laços históricos com o Brasil, resgatando a obra esquecida (por mais de dois séculos) de um colono português, fiel súdito de EL Rey, que se toma de paixões pelo 9 SOUZA, op. cit. p.352.

12 12 Brasil e não pensa em subtrair a fortuna aqui adquirida para o Reino. A história de um português também dá testemunho de outros bons" portugueses que procederam da mesma forma. Simulando a idéia de um só povo português (Soares não faz menção a brasileiros, mas sim há portugueses, cristãos e súditos - novamente A fé, a lei e o rei.), uma só religião e um só Império separado apenas pelo mar. A edição comentada e organizada por Varnhagen em 1851, está em um contexto diferente, pois na época de sua publicação a Independência já era um fato estabelecido e inquestionável. Desta vez a apropriação de Gabriel Soares de Souza será feita por brasileiros e para brasileiros, a exemplo do que já havia ocorrido na mesma época com obras e relatos que reproduziam o passado "Nacional", e interpretava o Brasil segundo uma construção intelectual, que criava uma nova história oficial, sob os auspícios dos nascentes Institutos Históricos (Nacionais) patrocinados e politicamente organizados segundo os interesses do Poder Moderador. O resgate e revisão da obra estão relacionados aos interesses do próprio Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), ou seja, à necessidade de construção e legitimação do Estado Nacional Brasileiro, à procura das raízes que pudessem ser interpretadas como legitimamente brasileiras. Ou ainda, segundo as palavras de Manoel Luís Salgado Guimarães traçar a gênese da nacionalidade brasileira 10. A busca pela construção de uma identidade nacional, explica a recorrência aos temas e fontes do século XVI. Os Índios, por exemplo, tema bastante trabalhado em Tratado Descritivo do Brasil em 1587 era um tema recorrente na produção intelectual e artística brasileira. No período em que esteve em voga no Brasil, a estética do Romantismo, mais particularmente, através da corrente indianista. Existia por parte dos literatos a crença de estar realizando um suposto resgate" das origens da brasilidade. Contudo, o resultado produzido pela literatura indianista, foi um discurso de exaltação marcado pela construção de um passado idealizado. Torna-se profícuo, contudo, salientar que no século XIX, não havia uma unanimidade sobre a maneira pela se deveria abordar a temática indígena. Existia uma diferença de visão substancial entre os discursos produzidos pela literatura e pela história. 10 GUIMARÃES, Manoel Luís Salgado Guimarães. Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional. In Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n.1,1988,p.7

13 13 Conforme afirma Manoel Guimarães: Será, portanto, em torno da temática indígena que no interior do IHGB, e também fora dele, travarse-á um acirrado debate em que literatura, de um lado, e história do outro, argumentarão sobre a viabilidade da nacionalidade brasileira estar representada pelo indígena. Enquanto Varnhagen, em carta dirigida ao imperador com data de 18 de julho de 1852 a propósito do indianismo de Gonçalves Dias o adverte para não deixar para mais tarde a solução de uma questão importante acerca da qual convém muito ao país e ao trono que a opinião se não extravie, com idéias que acabam por ser subversivas, a literatura veicula a imagem do indígena como portador da brasilidade. 11 A edição de 1938 coincide exatamente com o golpe que dá origem ao Estado Novo, inserido dentro de um contexto Nacionalista, que busca novamente a reconstrução da nova identidade Nacional sob novos parâmetros, que congregue e harmonize os diferentes componentes étnicos e as distintas formas de cultura nacional de uma forma unitária e totalizante. A obra de Gabriel Soares sugere uma pretensa solidariedade entre índios, negro e brancos, o que viria mais tarde a formar a identidade cultural brasileira. Este mesmo discurso do Estado Novo se fazia necessário também, para demonstrar a existência de um povo amalgamado étnica e historicamente que tinha por costume absorver o elemento "adventício" (note as mestiçagens narradas por Gabriel em relação aos Franceses que aqui ficaram) que vinha a se somar ao processo de construção histórica da Pátria. Pátria, cuja cultura e unicidade já vinham sendo consolidadas através dos séculos, e que naquele momento estava sob o risco de ter suas características fundamentais desconfiguradas pelas vagas de imigrantes europeus que chegavam ao país ameaçando desfigurar sua unidade lingüística. Na visão do Estado Novo, os imigrantes deveriam ser absorvidos culturalmente, para a criação de uma Pátria homogênea. Nesta década, também voltam à cena discursos históricos desprezados anteriormente, como a obra de Manoel Bonfim, que, contra a corrente de pensamento de seu próprio tempo, insistia em enxergar uma consciência de brasilidade desde os primórdios da história do Brasil. O Estado Novo precisava de obras históricas que endossassem o seu discurso. Veja o que afirmou Soares sobre a composição étnico/ racial do efetivo humano que poderia ser supostamente mobilizado na defesa da Terra contra o

14 14 ataque de corsários ou outros elementos adventícios: 12 se não levarem a cidade do primeiro encontro, não a entram depois, porque pode ser socorrida por mar e por terra de muita gente portuguesa até a quantia de dois mil homens, de entre os quais podem sair dez mil escravos de peleja a saber: quatro mil pretos da Guiné, e seis mil índios da terra, mui bons flecheiros, que juntos com a gente da cidade Varnhagen, ao comentar a obra de Gabriel Soares, chama a atenção para a relação de 1:2:3 na composição racial das forças defensoras da Bahia no século XVI. Ele faz uso do termo "índios civilizados" para designar estes seis mil índios da Terra que Gabriel Soares afirma estarem disponíveis para a defesa da Cidade da Bahia em caso de ataque corsário. A narrativa de Gabriel Soares fornece uma evidência de rápida aculturação do elemento indígena, assim como atesta a efetividade e a importância do elemento indígena na gênese da sociedade colonial. Assim como sugere alguma harmonia dos indígenas com demais elementos étnicos adventícios. Sendo eles guerreiros e em número três vezes maior o elemento dominante, ainda assim não se rebelam. O que faz Gabriel Soares supor uma possível solidariedade guerreira entre o elemento dominador e seus subordinados, configurando o que seria uma aparente "democracia racial". Coexistência de mentalidades conflitantes no Homem do Século XVI. O inventário de Gabriel Soares de Souza foi feito antes do seu embarque de retorno rumo à Europa. A data do documento é de 10 de agosto de 1584, portanto, três anos antes de a data de conclusão da obra conforme, afirma Varnhagen, depois de examinar diversas cópias manuscritas. A datação estabelecida por Varnahagen contraria a datação estabelecida na edição portuguesa. Uma das primeiras impressões que ficam é que Gabriel Soares de Souza tem consciência plena da transitoriedade da vida e de que o futuro tem por ofício ser incerto", o que não o impede de fazer planos para a vida em sua realidade telúrica assim como para o destino de sua alma. No imaginário deste homem português do século XVI, a vida terreal, o 11 GUIMARÃES, Manoel Luís Salgado Guimarães. Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional. In Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n.1,1988,p SOUZA, op. cit. p.140.

15 15 presente, as preocupações cotidianas, as realizações materiais e os planos para um futuro próximo dividem espaço com a religiosidade e os planos para um futuro eterno. Ou seja, o futuro que só oferece duas alternativas: a salvação ou a danação eterna. A realidade palpável da vida e a crença na vida eterna formam um quadro onde estes dois planos existenciais coabitam de maneira relativamente harmônica em um mesmo intelecto, que procura pautar sua conduta de acordo com a própria ética cristã de seu tempo. A obra Tratada Descritivo do Brasil em 1587, de sua autoria forma um contraste antagônico com o teor do testamento por ele deixado. Se a obra em sua maior parte contém atributos de modernidade percebem-se algumas permanências do imaginário medieval, demonstrando que as rupturas fazem parte de um lento devir e que só se configuram plenamente na longa duração. Esta constatação só pode ser feita a partir do nosso próprio presente, pois não fazem parte da consciência deste homem do século XVI, onde medievalidade e a modernidade são formas de pensar que se superpõem e se entrelaçam no mesmo superego, hora pendendo para o "racionalismo" dos modernos, hora se rendendo as superstições medievais e as explicações de natureza providencialista de tudo aquilo que o seu intelecto não pode desvendar e compreender. Embora este hábito mental ainda sobreviva no aparente cepticismo do homem contemporâneo, mesmo que sob a forma de incongruência racional, este mesmo hábito é mais evidente e menos problemático para este homem de fins do Século XVI que assiste e encarna o aparente confronto destas duas cosmologias conflitantes. Ele não está imune às mudanças do próprio tempo e nem às permanências do legado de épocas passadas. É como se o pensar e o sentir estivessem em épocas históricas distintas, o consciente voltado para as perspectivas do presente e o inconsciente ainda carregado de medos, imagens e concepções herdados do passado, mas que ainda encontram eco nos vários aspectos da realidade e da consciência epocal. 13 Enquanto o humanismo, o racionalismo e o antropocentrismo já são elementos constitutivos da nova mentalidade Ocidental a velha cosmologia medieval ainda está presente e atuante na própria estrutura de poder secular e temporal que se confundem nas 13 Em BARRETO, Luís Filipe. Descobrimentos e Renascimento; formas de ser e pensar nos séculos XV e XVI. Lisboa: Imprensa Nacional, 1983.p Esta é uma condensação da interpretação do historiador Luís Filipe Barreto a respeito do homem português entre o fim do medievo e os primórdios da modernidade, nesta obra Barreto analisa a existência simultânea de duas formas de interpretar o mundo. De um lado a permanência de uma mentalidade medieval, e de outro, o nascimento do pensamento moderno português, atrelado de maneira indissociável ao Renascimento e às Grandes Navegações.

16 16 monarquias peninsulares. Estas são as forças que buscam dar uma nova ordenação ao mundo, baseados na "releitura" e na readaptação da teologia medieval, que insistem em uma concepção de mundo baseado em dogmas e explicações providencialistas. Este "refluxo" histórico estava presente e atuante na Península e no Novo Mundo, nos tempos de Gabriel Soares de Souza. Contudo, estas mesmas forças atuam com redobrado ânimo no panorama americano do século XVI, tecendo e moldando a face ocidental do Novo Mundo que não está imune à influência Jesuítica e o seu ideal de evangelização como forma de salvação da alma do elemento gentio e como forma de preparação para civilizá-lo, torná-lo apto para ser inserido como força de trabalho na nova dinâmica assumida pela economia dentro do contexto que mais tarde seria denominado de mercantilismo. A Inquisição atua um como um instrumento de repressão e vigilância dos hábitos e idéias dos fiéis e dos recém conversos, sendo ela própria uma reedição maquiada dos instrumentos de opressão que operaram no quadro medieval. Este conjunto de fatores atua de maneira decisiva e simultânea sobre o pensamento do homem comum, que primeiro veio para colonizar as terras do Brasil e dar início ao longo processo de construção do que viria a ser mais tarde o Brasil, país soberano dentro do contexto de Estado Nacional. Daqui em diante, irei tentar extrair alguns trechos do testamento e da obra de Gabriel Soares de Souza que possam ser úteis para interpretar o pensamento do homem comum e realidade histórica do homem comum do século XVI, dentro do contexto Ibérico. Se possível, demonstrar a singularidade deste tipo específico de homem moderno e como ele se diferencia e se aproxima da mentalidade dos demais tipos de homens europeus e modernos que através de generalização é denominado de "O Homem Ocidental". Através da leitura deste trecho, pode-se notar que o autor é um observador atento e de sensibilidade aguçada. Contudo, não parece ser o único, ele cita mareantes e filósofos que também estão estiveram atentos aos mistérios que se manifestam na natureza e que tentam desvendá-la buscando uma relação de causa e efeito para os fenômenos naturais. Ou seja, o racionalismo deve ser o instrumento utilizado para interpretar a realidade SOUZA, op. Cit.p.133.

17 17 Em todo o tempo do ano, quando chove, fazem os céus da Bahia as mais formosas mostras de nuvens de mil cores e grande resplendor, que se nunca viram noutra parte, o que causa grande admiração. E há-se de notar que nesta comarca da Bahia, em rompendo a luz da manhã, nasce com ela juntamente o sol, assim no inverno como no verão. E em se recolhendo o sol à tarde, escurece juntamente o dia e cerra-se a noite; a que matemáticos dêem razões suficientes que satisfaçam a quem quiser saber este segredo, porque os mareantes e filósofos que a esta terra foram, nem outros homens de bom juízo não têm atinado até agora com a causa porque isso assim seja. Quando confrontamos a passagem anterior com a que se segue, podemos verificar uma mudança drástica no modo de interpretar a realidade, o racionalismo cede lugar ao providencialismo e Gabriel Soares interpreta a natureza como um homem medieval, admitindo uma interferência de planos, como se Deus, estivesse a punir e exortar os homens através de sinais, como várias vezes é possível ler nas nos livros do Velho Testamento, notadamente nos livros que compõem o Pentateuco. 15 Como não há ouro sem fezes, nem tudo é a vontade dos homens, ordenou Deus que entre tantas coisas proveitosas para o serviço dele, como fez na Bahia, houvesse algumas imundícias que os enfadassem muito, para que não cuidassem que estavam em outro paraíso terreal, de que diremos daqui por diante, começando no capítulo que se segue das lagartas. O aparente "racionalismo" da narrativa de Soares de Souza cede lugar à superstição. De certa forma podemos dizer que este homem do Século XVI, que raciocina como um "homem moderno" parece "sentir" como um homem medieval. Como se o seu consciente estivesse vivendo de acordo com o seu próprio tempo histórico enquanto o seu inconsciente lhe trai a razão o que pode evidenciar como os medos e superstições ainda constituem uma permanência do imaginário medieval que interfere no julgamento e no aparente" ceticismo do homem do Século XVI. Se Gabriel Soares dá crédito aos testemunhos, é por possuir referências semelhantes em seu legado cultural. Afinal, desde a antiguidade, figuras mitológicas como as sereias habitam no imaginário do que mais tarde se tornaria o homem ocidental". Observe a narrativa de Gabriel Soares de Souza sobre os Homens Marinhos, ou ainda, Hipupiara de acordo com os indígenas. 16 Não há dúvida senão que se encontram na Bahia e nos recôncavos dela muitos homens marinhos, a que os índios chamam pela sua língua upupiara, os quais andam pelo rio de água doce pelo tempo do verão, onde fazem muito dano aos índios pescadores e mariscadores que andam em jangada, onde os SOUZA, op. cit. p SOUZA, op. cit. p. 277.

18 18 tomam, e aos que andam pela borda da água, metidos nela; a uns e outros apanham, e metem-nos debaixo da água, onde os afogam; os quais saem à terra com a maré vazia afogados e mordidos na boca, narizes e na sua natura; e dizem outros índios pescadores que viram tomar estes mortos que viram sobre água uma cabeça de homem lançar um braço fora dela e levar o morto; e os que isso viram se recolheram fugindo à terra assombrados, do que ficaram tão atemorizados que não quiseram tornar a pescar daí a muitos dias; o que também aconteceu a alguns negros de Guiné; os quais fantasmas ou homens marinhos mataram por vezes cinco índios meus; e já aconteceu tomar um monstro destes dois índios pescadores de uma jangada e levarem um, e salvar-se outro tão assombrado que esteve para morrer; e alguns morrem disto. E um mestre-de-açúcar do meu engenho afirmou que olhando da janela do engenho que está sobre o rio, e que gritavam umas negras, uma noite, que estavam lavando umas fôrmas de açúcar, viu um vulto maior que um homem à borda da água, mas que se lançou logo nela; ao qual mestre-de-açúcar as negras disseram que aquele fantasma vinha para pegar nelas, e que aquele era o homem marinho, as quais estiveram assombradas muitos dias; e destes acontecimentos acontecem muitos no verão, que no inverno não falta nunca nenhum negro." Relatos de aberrações" marinhas são encontrados com facilidade nos diários de Cristóvão Colombo, que, quase cem anos antes de Gabriel Soares, também parece dar crédito a narrativa dos indígenas da América Central". Outro cronista dos Quinhentos, Pero de Magalhães Gândavo, também faz alusão a estes que seriam "homens marinhos". Em seu comentário Varnhagen escolhe esta passagem de Dante "Che solto 1'acqua ha gente che sospira, E fanno pullular quesfacqua al summo." 17 Para demonstrar o quanto é antiga na Europa a existência da idéia de aberrações marinhas, também fala do Padre João Daniel que em seu livro Tesouro das Amazonas também parece dar crédito à idéia. 18 Sérgio Buarque de Hollanda no século XX, também fez alusão a este mesmo tema em seu ensaio Raízes do Brasil. Contudo, estes homens marinhos citados por Soares fazem parte do imaginário indígena. Segundo Varnhagen, os homens marinhos seriam chamados de Hipupiara pelos indígenas. Os indígenas assim como outros povos também possuíam superstições. Contudo é de se notar que estas superstições narradas por Gabriel Soares de Souza parecem não ter deixado resquícios no imaginário popular, assim como nenhuma das lendas e mitos indígenas que fazem parte do acervo folclórico brasileiro por nós conhecido, se encontram 17 VARNHAGEN, Francisco Adolfo. de. Comentários. In: SOUZA, Gabriel Soares. de. Tratado Descritivo do Brasil EM edição São Paulo - Recife - Porto Alegre - Rio de janeiro: Companhia Editora Nacional, 1938, p VARNHAGEN, Francisco Adolfo. de. Comentários. In: SOUZA, Gabriel Soares. de. Tratado Descritivo do Brasil EM edição São Paulo - Recife - Porto Alegre - Rio de janeiro: Companhia Editora Nacional, 1938, p.379.

19 19 na narrativa de Gabriel Soares de Souza. O que de certa forma nos induz a pensar, que mitos como o da caipora, sejam construções mais recentes, posteriores ao contato entre índios e portugueses. Abaixo, seguem dois recortes. Ao primeiro, que fala sobre o bugio diabo 19, o autor não parece dar muita importância, mas, ao segundo relato que fala sobre a jibóia 20, o autor parece dar mais crédito, talvez por ter sido confirmado por um português, ou ainda segundo as palavras de Gabriel Soares de Souza: " homem de verdade". O bugio diabo. Há nos matos da Bahia outros bugios, a que os índios chamam saíanhangá, que quer dizer "bugio diabo", que são muito grandes, e não andam senão de noite; são da feição dos outros, e criam em côncavos de árvores; mantêm-se de frutas silvestres e o gentio tem agouro neles, e como os ouvem gritar, dizem que há de morrer algum. A jibóia Agora cabe aqui dizermos que cobras são estas do Brasil, de que tanto se fala em Portugal e com razão, porque tantas e tão estranhas, não se sabe onde as haja. Comecemos logo a dizer das cobras a que os índios chamam jibóia, das quais há muitas de cincoenta e sessenta palmos de comprido, e daqui para baixo. Estas andam nos rios e lagoas, onde tomam muitos porcos da água, que comem; e dormem em terra, onde tomam muitos porcos, veados e outra muita caça, o que engolem sem mastigar, nem espedaçar; e não há dúvida senão que engolem uma anta inteira, e um índio; o que fazem porque não têm dentes, e entre os queixos lhes moem os ossos para os poderem engolir. E para matar uma anta ou um índio, ou qualquer caça, cingem-se com ela muito bem, e como têm segura a presa, buscam-lhe o sesso com a ponta do rabo, por onde o metem até que matam o que têm abarcado; e como têm morta a caça, moem-na entre os queixos para a poder melhor engolir. E como têm a anta, ou outra coisa grande que não podem digerir, empanturram de maneira que não podem andar. E como se sentem pesadas lançam-se ao sol como mortas, até que lhes apodrece a barriga, e o que têm nela; do que dá o faro logo a uns pássaros que se chamam urubus, e dão sobre elas comendo-lhes a barriga com o que têm dentro, e tudo o mais, por estar podre; e não lhes deixam senão o espinhaço, que está pegado na cabeça e na ponta do rabo, e é muito duro; e como isto fica limpo da carne toda, vão-se os pássaros; e torna-lhes a crescer a carne nova, até ficar a cobra em sua perfeição; e assim como lhes vai crescendo a carne, começam a bulir com o rabo, e tornam a reviver, ficando como dantes; o que se tem por verdade, por se ter tomado disto muitas informações dos índios e dos línguas que andam por entre eles no sertão, os quais afirmam assim. E um Jorge Lopes, almoxarife da capitania de S. Vicente, grande língua, e homem de verdade, afirmava que indo para uma aldeia do gentio no sertão, achara uma cobra destas no caminho, que tinha liado três índios para os matar, os quais livrara deste perigo ferindo a cobra com a espada por junto da cabeça e do rabo, com o que ficou sem força para os apertar, e que os largara; e que acabando de matar esta cobra, ele lhe achara dentro quatro porcos, a qual tinha mais de sessenta palmos de comprido; e junto do curral de Garcia de Ávila, na Bahia, andavam duas cobras que lhe matavam e comiam as vacas, o qual afirmou que adiante dele lhe saíra um dia uma, que remeteu a um touro, e que lho levou para dentro de uma lagoa; a que acudiu um grande lebréu, ao qual a cobra arremeteu e engoliu logo; e não pôde levar o touro para baixo pelo impedimento que lhe tinha feito o lebréu; o qual touro saiu acima da água depois de afogado; e afirmou que neste mesmo lugar mataram seus vaqueiros outra cobra que tinha noventa e três palmos, e pesava mais de oito arrobas; e eu vi uma pele de uma cobra destas que tinha quatro palmos de largo. Estas cobras têm as peles cheias de escamas verdes, amarelas e azuis, SOUZA, op. cit. p SOUZA, op. cit. pp

20 20 das quais tiram logo uma arroba de banha da barriga, cuja carne os índios têm em muita estima, e os mamelucos, por acharem-na muito saborosa. Brasil ou América Portuguesa? Em toda a obra de Soares, não existem referências às palavras: colônia, Brasil Colônia ou Brasil Colonial, nem tão pouco é utilizado o termo América, ou América Portuguesa. O que prova que todos estes termos são produtos de construções historiográficas escritas a partir de um determinado presente para descrever o próprio presente, ou um determinado período do passado. Muitas vezes, talvez para diferenciar os contextos de Brasil Estado Nacional Soberano de seu contexto anterior de subalternidade na hierarquia de relações do Império ultramarino Português ou ainda para não endossar a idéia de linearidade de um "passado nacional" construído a partir do descobrimento ou achamento do Brasil por Pedro Álvares Cabral em 1500, ou a partir de 1549 com a fundação da cidade de Salvador por Tomé de Souza, como é da preferência de alguns. O uso do Topônimo América Portuguesa ao invés de Brasil é de uso recorrente na historiografia do século XX. Ainda no século XVIII, a intelectualidade portuguesa e lusobrasileira já usava preferencialmente o topônimo América Portuguesa. Porém, para efeito deste estudo, a construção retórica de sonoridade pomposa deve ceder lugar ao que está contido nas fontes de época. Neste ponto é mais seguro dar fé ao palavreado simplório de Gabriel Soares de Souza para analisar o Brasil do Século XVI. Veja quais as palavras ele utiliza repetidas vezes para se referir à terra 21 : e com a força da gente da terra se poderão apoderar e fortificar de maneira que não haja poder humano com que se possam tirar do Brasil estes inimigos, de onde podem fazer grandes danos a seu salvo em todas as terras marítimas da coroa de Portugal e Castela, cujo fundamento é mostrar as grandes qualidades do Estado do Brasil, Corre esta corda dos tapuias toda esta terra do Brasil pelas cabeceiras do outro gentio Como a tenção com que nos ocupamos nestas lembranças foi para mostrar bem o muito que há que dizer da Bahia de Todos os Santos, cabeça do Estado do Brasil, mas são-no de todas as outras nações do gentio do Brasil, e entre todas elas lhes chamam taburas. No princípio da povoação do Brasil vieram alguns homens a perder os pés, e outros a encherem-se de boubas, o que não acontece agora, porque todos os sabem tirar, e não se descuidam tanto de si, 21 SOUZA, op. cit. pp

21 21 como faziam os primeiros povoadores. A Fé a Lei e o Rei são os atributos de civilização que regem a Ocidentalidade no contexto Ibérico do Século XVI. Sem Fé, sem Lei nem Rei, segundo as palavras de Gabriel Soares 22. Ainda que os tupinambás se dividiram em bandos, e se inimizaram uns com outros, todos falam uma língua que é quase geral pela costa do Brasil, e todos têm uns costumes em seu modo de viver e gentilidades; os quais não adoram nenhuma coisa, nem têm nenhum conhecimento da verdade, nem sabem mais que há morrer e viver; e qualquer coisa que lhes digam, se lhes mete na cabeça, e são mais bárbaros que quantas criaturas Deus criou. Têm muita graça quando falam, mormente as mulheres; são mui compendiosas na forma da linguagem, e muito copiosos no seu orar; mas faltamlhes três letras das do ABC, que são F, L, R grande ou dobrado, coisa muito para se notar; porque, se não têm F, é porque não têm fé em nenhuma coisa que adorem; nem os nascidos entre os cristãos e doutrinados pelos padres da Companhia têm fé em Deus Nosso Senhor, nem têm verdade, nem lealdade a nenhuma pessoa que lhes faça bem. E se não têm L na sua pronunciação, é porque não têm lei alguma que guardar, nem preceitos para se governarem; e cada um faz lei a seu modo, e ao som da sua vontade; sem haver entre eles leis com que se governem, nem têm leis uns com os outros. E se não têm esta letra R na sua pronunciação, é porque não têm rei que os reja, e a quem obedeçam, nem obedecem a ninguém, nem ao pai o filho, nem o filho ao pai, e cada um vive ao som da sua vontade; para dize-zerem Francisco dizem Pancico, para dizerem Lourenço dizem Rorenço, para dizerem Rodrigo dizem Rodigo; e por este modo pronunciam todos os vocábulos em que entram essas três letras. A tentativa de compreender o grande universo lingüístico e cultural dos indígenas tinha como objetivo tornar esta nova realidade cognoscível para o ponto de vista ocidental. A partir daí se estabeleceram comparações tomando a cultura ocidental como parâmetro, onde o conquistador buscava as semelhanças e a s diferenças com a sua realidade conhecida. Também por desconhecimento de causa, foram produzidas generalizações que se não reproduziam fidedignamente a realidade das populações nativas, ao menos atendia de imediato a demanda mínima de conhecimento para que se estabelecessem estratégias de domínio sobre as populações nativas. Uma comparação notória e de natureza lingüística embasa uma argumentação que legitima e justifica a dominação portuguesa, através do uso de recurso de retórica e sob o pretexto de civilizar e cristianizar a barbárie, impondo uma Lei e um Rei, segundo a concepção européia destes mesmos conceitos. Afinal, apesar da ausência das consoantes L e R, em nenhum momento, pode-se afirmar que tais estruturas não existissem nas sociedades indígenas, apenas se manifestavam sob outros aspectos, que não podiam ou não 22 SOUZA, op. cit. p.302.

22 22 eram propositalmente compreendidos pelos dominadores. A ausência de leis escritas não necessariamente indica a ausência de m código comum de moral e costumes reconhecível que reja e normatize a vida em sociedade, fornecendo os parâmetros de certo e errado, do aceitável e do intolerável. A ausência de um Rei, cujos poderes e atribuições não reproduziam o quadro das monarquias européias não implica em ausência total de autoridade, ou que os indivíduos pudessem fazer valer sua vontade pessoal acima dos direitos e prerrogativas da comunidade na qual se insere. O mesmo pode ser dito em relação à Fé, a ausência da consoante F ou de uma instituição que se se assemelha à Igreja, não significam ausência de religiosidade. Mais uma vez, os ditames da cultura ocidental servem como base de comparação. Desta vez, no entanto, o discurso de dominação utiliza como premissa não somente apenas a civilização, mas a salvação da alma. Esta mesma afirmação "Sem Fé, sem Lei nem Rei" ao mesmo tempo em que constitui uma argumentação frágil da parte de Gabriel Soares, é ao mesmo tempo uma prova de o quanto a história é seletiva e o quanto a reconstituição dos fatos históricos é produto da escolha dos historiadores. Muito injustamente o livro de Gabriel Soares, só passou a ter repercussão a partir do século XIX, e ainda assim é muitas vezes ignorado. Quase todos os historiadores que utilizaram o Tratado Descritivo do Brasil em 1587 como fonte do século XVI, aproveitaram a narrativa não naquilo que ela possui de melhor, mas naquilo ela possui de pior - a retórica mal elaborada -, mas que serve para legitimar o domínio português, cristão e da própria Coroa. O historiador John Manuel Monteiro (brasileiro), analista contemporâneo, interpreta a conclusão de Gabriel Soares como sendo uma "dificuldade em identificar instituições que fossem comparáveis às da civilização européia", o que nos faz enxergar a fase embrionária do pensamento eurocêntrico já no século XVI, a partir do advento das grandes navegações, onde o historiador Jaquues Revell (europeu) enxerga uma primeira tentativa de "globalização" 23. Ao Examinar a afirmativa com as lentes do século XXI, ela nos fornece não somente uma leitura dos discursos de dominação produzidos no século XVI e depois apropriados e consolidados pela historiografia luso-brasileira posterior, mas uma pista 23 Esta foi a opinião emitida por Jaquees Revel em uma palestra realizada para estudantes de História da UFPR, durante sua visita ao Brasil em 2008.

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