A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E A PRATICA DA OBRA KOLPING. (Pe. Paulo Link)

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1 A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E A PRATICA DA OBRA KOLPING (Pe. Paulo Link) A fé cristã não se limita ao intimo dos corações, mas é celebrada também na comunidade. Quero, sobretudo, ir para as ruas, para a agitação da vida, para o mundo tal como é. A fé deseja sempre transformar-se em práxis. Sob a denominação de Teologia da Libertação (TL) vem-se desenvolvendo nesses últimos tempos na América Latina um processo que mostra como a fé cristã, durante séculos restritos á vida interior e ao ambiente das igrejas, pode provocar a mudança de situações sociais extremamente injustas. Esse processo é por uns festejados como a fé do povo simples, a qual finalmente se tornou eficaz, ao passo que outros a temem como distorção do Cristianismo ou o Marxismo dos pobres. Desde o início dos anos 70, a Obra Kolping, que surgiu na Europa no começo da era da industrialização, criada pelo sacerdote católico e educador popular Adolfo Kolping, empenha-se em emprestar a sua contribuição para a solução dos grandes problemas sociais determinados principalmente pela situação Norte-Sul. Os sujeitos das atividades são grupos locais que se organizam em base regional e nacional. E óbvio que iniciativas de auto-ajuda, que se desenvolvem dessa maneira, só podem apresentar-se em sintonia e colaboração com as forças que levam à promoção e libertação do povo. Tentaremos, nas páginas que seguem, explicar como foi que surgiu a Teologia da Libertação, o que contém de positivo, o que apresenta de discutível e qual a posição que se deve tomar. A fé não pode ser reduzida a um sentimento, nem a uma mera celebração. Sem obra, a fé é morta (Tiago). A fé deve tornar-se prática de transformação do que e a Teologia da Libertação quer provocar situações dramáticas exigem soluções urgentes (Paulo VI). 1. COMO SURGIU A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO PRIMEIRO: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO (TL) E UMA NOVA FORMA DE TEOLOGIA Teologia é a tentativa sempre renovada de pensar os mistérios da fé e de transmiti-los ao homem sedento de felicidade e salvação. O seu ponto de partida é a fé vivida no dia-a-dia. Sua alma é a oração. Seu corpo é a pesquisa.

2 Seu sentido permanente é o serviço na fé para que esta se traduza plenamente na vida do homem, seja vivida na comunidade e penetre em todos os domínios da vida. Ela só é possível sempre como obra parcial. Cada época tem a sua ênfase própria. Na antiguidade a Teologia refletiu principalmente sobre Deus em si. Na Idade Média preocupava-se em saber como se pode obter a graça de Deus. Na Idade Moderna concentrou-se no homem indagando se a revelação de Deus serve ou não a sua liberdade. O século XX é o século da Igreja e no Concilio Vaticano II os cristãos discutiram sobre o que podem e devem fazer como Igreja em um mundo agitado, desenvolvendo-se vertiginosamente, carregado de conflitos e enlouquecido. SEGUNDO: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO DETERMINADA PELOS SINAIS DOS TEMPOS Sinais dos tempos: são fatos e acontecimentos que nunca existiram, que chamam a nossa atenção, que nos fascinam, que nos agridem e provocam uma tomada de posição. Sinais dos tempos: em primeiro plano são progressos arrebatadores e escândalos espantosos. Progressos que extasiam a humanidade. Por exemplo, a viagem do homem a lua e a exploração da energia do átomo. Escândalos que chocam profundamente o homem: basta lembrar as guerras que o nosso século teve que presenciar, as calamidades de fome que ameaçam povos inteiros. Sinais dos tempos: em segundo plano são as revoluções que ocorreram em determinados tempos e lugares e que depois se espalharam e continuam ainda se espalhando irresistivelmente por toda a humanidade com as suas promessas desmedidas e com as suas desilusões ainda mais desmedidas. Assim a revolução industrial inglesa promete o homem novo e a libertação da humanidade da miséria material mediante o uso do dinheiro, da técnica e das maquinas. A Revolução Francesa ou política promete o homem novo e a libertação da humanidade do altar, do trono, do além, de Deus, quando o homem tomar consciência da fonte mais profunda de sua felicidade, a liberdade. A Revolução Russa ou social, promete o homem novo e a libertação da humanidade das diferenças de classe e das injustiças sociais, quando sob uma rigorosa aplicação do princípio ordenador da igualdade a sociedade estiver totalmente organizada.

3 No mundo europeu as revoluções propagam-se em um espaço de tempo de 150 anos. Mas no caso da América Latina, inundaram-na em pouquíssimo tempo como um rio impetuoso. Bem poucos foram os beneficiados pelas bênçãos da prosperidade material do capitalismo, dos direitos humanos do liberalismo e da justiça do socialismo. A grande massa vive na marginalização, mas apesar de toda a frustração sente um profundo anseio de libertação e de nova humanidade. Sinais dos tempos: em um nível mais profundo são os fatos do Antigo e do Novo Testamento que se encontram igualmente presentes e em ação. As vitórias e desastres de Israel, a morte e a ressurreição do "Último Homem" Jesus de Nazaré. São esses os sinais dos tempos e o sinal do tempo. Indicam a profunda realidade da fé: o homem que anseia pelo Absoluto e por Deus que se relaciona com o homem. Sinais dos tempos para os cristãos não é tanto a sociologia, mas antes sim, um acontecimento de fé. "Sabeis muito bem distinguir os aspectos do céu, mas não sois capazes de 'reconhecer os sinais dos tempos" Mt 16,3. Teologia da Libertação é a confrontação dos sinais dos tempos com o Sinal do Tempo. TERCEIRO: TEOLOGIA DA LIBERTACAO E A IMPACIENCIA DIANTE DA EXTREMA MISERIA SOCIAL TRANSFORMADA EM TEOLOGIA O que está em jogo é a solução da questão social tanto da velha questão social referente às relações entre capital e trabalho como o a nova questão social que se preocupa com a justiça e a igualdade de oportunidades dentro da sociedade; tanto a pequena questão social que se refere a uma grande questão social que hoje assume proporções mundiais, ou seja a problemática Norte-Sul, as relações entre os países industrializados super ricos e os países subdesenvolvidos, não raro totalmente arruinados. A questão social é tão antiga quanto a humanidade. No entanto, tornou-se particularmente aguda a partir da era da industrialização. Na América Latina durante os últimos vinte anos tornou-se simplesmente "gritante". O relatório do Banco Mundial de 1983 sobre o desenvolvimento mundial indica, por exemplo, que a classe alta do Brasil (20% da população) detém 66% de toda a renda. A campanha da fraternidade de 1985 "pão quem tem fome" lembra que dos 130 milhões de brasileiros, 80 milhões são subnutridos. Diariamente morrem neste país

4 1000 crianças, a maioria de fome. Em 1983, os salários subiram 142%, enquanto um dos alimentos básicos, o feijão teve uma elevação de 500 % Nesse contexto escrevem Leonardo e Clodovis Boff: "o novo nesta Teologia não resulta dela mesma, mas... da tremenda problemática histórica com que se defronta em nome da fé da Igreja: com a situação de pobreza e opressão e com a coexistência ética e cristãos de novas fôrmas de organização social". Segundo estes autores, ela não é nada mais que "o grito articulado dos pobres a partir da fé". A TL é uma forma de pensamento cristão... em uma época revolucionária (Gollwitzer) 2. O QUE E POSITIVO? Primeiro: A Teologia da Libertação torna consciente com veemência profética uma situação que no mundo moderno com excessiva facilidade e não sem interesse é relegada ao esquecimento. E a sorte do SUB-HOMEM que clama ao céu, do irmão pobre da terra que vive a margem embaixo, que soma milhões, para os quais não há lugar na mesa da humanidade. E o homem sem nome; - sem força e sem saúde; - sem pão, sem roupa e sem moradia; -sem-trabalho; - sem segurança - sem relacionamentos sociais; - sem terra, sem direito e sem crédito; - sem sentido, sem ânimo-e sem esperança; E este homem e não tanto o homem que não crê que constitui o objeto da preocupação da TL. A TL toma o partido dele. O empenho primeiro ato decisivo. A reflexão sobre ele e o empenho em seu favor é o segundo ato. Esta é a TL. Segundo: Graças a TL a fé vai para as ruas, para o meio do povo, para a discussão pública. O objeto da Igreja é a salvação definitiva do homem. Mas essa deve ser transmitida ao homem concreto. O homem concreto é ele mesmo e as suas circunstâncias. As circunstâncias são processos, situações e estruturas econômicas, sociais, culturais, políticas. A fé não pode ficar indiferente a elas. E diferente alguém nascer de baixo de uma ponte ou em uma casa bem mobiliada. A Igreja tem o dever de

5 "anunciar a libertação de milhões de seres humanos... de ajudar para que essa libertação se torne realidade." (e "ocorra em plenitude) (EN 30). Terceiro: Graças à TL, na América Latina uma oposição desnorteada e não raro agressiva se confronta permanentemente com a exigência de um mínimo de direitos e deveres humanos. Em situações de conflito e reconhecida a autoridade da Igreja. Bispos e padres foram chamados na fase de conflitos das greves do ABC de são Paulo. As suas palavras foram ouvidas, as suas orações foram acompanhadas e a sua influência foi aceita. A Igreja coloca-se decididamente do lado do povo. Os governos latinoamericanos deveriam sentir-se felizes em ter tal oposição. Que diferença entre a influência da fé entre o Irã e o Brasil. 3. O QUE E DISCUTIVEL Primeiro: E discutível a tendência a apresentar uma visão unilateral e excessivamente negativa da realidade. A realidade é de antemão limitada ao aspecto econômico, social e político e na análise que parte dos fenômenos e indaga as causas mais profundas "não resta Pedra sobre pedra". A sociedade não esta corrompida só na sua periferia, mas em toda a sua substância pela exploração desumana dos pobres pelos ricos, pela injustiça institucionalizada, o pecado social, o egoísmo. Ora, os cristãos não devem ser otimistas ingênuos e que só vêem coisas positivas, mas tampouco, em nenhum ma hipótese devem ser sombrios, pessimistas que se julgam cercados de tropas por todos os lados. Eles devem ser homens que, dotados de uma consciência críticoconstrutivo, primeiramente descobrem os valores e depois, mostram com toda a clareza os problemas. Segundo: E discutível a tendência de não destacar suficientemente a originalidade da fé cristã. A Teologia da Libertação trabalha segundo o método "ver - julgar - agir" Ver: Trata-se da compreensão da realidade, utilizando-se para isto principalmente as ciências sociais (intervenção sócio-analítica) Julgar: A realidade assim vista é julgada à luz da fé (intervenção hermenêutica) Agir: Da confrontação entre a fé e a realidade seguem-se as conseqüências: opções, ações, táticas e estratégias (intervenção pastoral). Nesse processo a fé cristã é simplesmente considerada como existente. Trata-se de uma descoberta, ou da

6 descoberta simplesmente de que essa fé se realizou na vivência de acontecimentos históricos concretos em Israel e em torno de Jesus de Nazaré, Cristo aparece como figura única, extraordinária e acima de tudo, como caminho, verdade e vida: "Nunca vimos coisa semelhante", isto, quer dizer esta "unicidade" é suficientemente pressuposta. Esse fato deveria ser novamente destacado por cada Teologia. Mas, ao contrário disso,cristo e seu projeto, o Reino, é excessivamente restrito a certas situações de conflito. Só se dá importância àqueles fatos salvificos que são importantes para a prática concreta da libertação. Pecado pessoal, graça, conversão, penitência e salvação, céu, essas dimensões todas não são negadas, mas não recebem peso igual. A boa, genuína Teologia da Libertação alimentou-se profundamente nas fontes da Bíblia e dos Sacramentos. Proclama a palavra de Deus como força libertadora e orientadora. Na Liturgia celebra a festa da vitória sobre o pecado e sobre a morte. Como expressão da palavra e da presta serviços que têm por projeto a transformação do homem e da sociedade segundo a nova vida que se manifestou em Cristo. O centro da evangelização libertadora é a concepção do homem que, como imagem e semelhança de Deus é chamado a ser senhor, irmão e filho. Senhor que deve dominar as coisas e sistemas. Irmão que vê no próximo uma criatura e dádiva de Deus, que agradece que se torna generoso e começa a servir segundo a lei do receber e do compartilhar. Filho que se deixa surpreender pela vida, que de Deus espera não apenas alguma, coisa, mas tudo, e o adora. Se o homem viver como filho, irmão e senhor, haverá libertação. Libertação da escravidão, do pecado e da morte. Libertação para a participação na vida em todas as suas dimensões e finalmente comunhão com o próximo e com Deus. Libertação, participação e comunhão são as grandes etapas da evangelização libertadora. Terceiro: E discutível a tendência a colocar toda a esperança na práxis - Ver é importante, julgar é mais importante, mas o mais importante de tudo é o agir, sobretudo o agir político. Não se nega a ação de Cristo, mas não lhe é dado seu valor decisivo supremo. O sofrimento e a Cruz de Cristo válida para todos os tempos e para toda a eternidade, esse ato salvífico supremo, único e definitivo em muitas liturgias não é tão celebrado quanto a práxis dos cristãos engajados pelos pobres. Entretanto, foi a ação dele e não a nossa que trouxe a salvação.

7 E verdade que a fé sem obras é morta. Mas as obras sem fé, que não se entendem como expressão da forca de Cristo, facilmente podem vir a transformar-se em orgulho. O que e festejado e exaltado até as alturas do céu não é, o silencioso, o cotidiano, o serviço do amor, nem o trabalho de formação realizado dia apos dia, nem os grupos de auto-ajuda que se baseia no seu próprio trabalho mas a práxis política que interfere com autoridades e instituições; com, empresas multinacionais e com o sistema capitalista. Pessoas que sempre precisam de ser carregadas, os totalmente pobres, que não são capazes de informar-se, de formar-se e nem de organizar-se, e que, portanto, não representam nenhum potencial histórico, são vistas como corpos estranhos à margem da grande estrada da historia. Como na prática da libertação as soluções radicais não ocorrem imediatamente, a luta pela justiça e pela liberdade não raro se reduz a meros discursos de tipo contestatório. Esta práxis torna-se então um fator de frustração e de bloqueio. Melhor seria então a montagem de um processo com etapas, metas parciais, passos pequenos, médios e grandes. 4. QUE POSIÇÃO TOMAR Primeiro: Procurar dialogar e aprender O Concilio Vaticano II pediu que os Cristãos, ao tratar com pessoas de opiniões e convicções diferentes, se abstivessem das controvérsias e procurassem o diálogo. A controvérsia só enxerga o lado negativo do adversário para diminuí-lo. O diálogo, ao contrário, vê o lado positivo do próximo para ajudar a eleva-lo no espírito de Cristo. Teologia da Libertação que parte dos fatos bíblicos da salvação que "santifica" o Senhor na oração e na liturgia, anunciando através da palavra e dele dando testemunho nos atos, Teologia da Libertação que se coloca ao lado dos milhões de sub-homens, Teologia da Libertação que através de um silencioso serviço diaconal, através de sonoros clamores proféticos, através da persuasão e da pressão trabalha na construção de uma sociedade nova é uma bênção tão grande para a Igreja e para o mundo e um bem tão grande que precisa ser conservado, desenvolvido e comunicado a todo o mundo. Um homem como Adolfo Kolping, se vivesse hoje, com toda a certeza compartilharia as preocupações da Teologia da Libertação. Adolf Kolping em sua época procurou dar uma contribuição parara solução do problema social. Dedicou se à renovação religioso-moral, à ajuda mutua dos indivíduos. A sua preocupação era a

8 transformação social através da transformação do homem, mas também a criação e a renovação de estruturas sem as quais dificilmente o homem pode transformar-se. Em 16 anos reuniu sócios em 418 associações. O Papa João Paulo II chama-o de "exemplo para a Igreja de hoje". O Cardeal Arns de são Paulo, Brasil, caracteriza-o como "Homem do Terceiro Mundo". A Obra Kolping que conta atualmente com 300 grupos e membros em cinco países da América Latina, atinge cerca de pessoas através de cursos e programas que, desde as suas origens segue a opção pelos pobres e pelos jovens, deve permanecer em constante diálogo com a TL sadia, biblicamente fundamentada e orientada segundo a realidade plena, por estar sempre lembrada da situação dos pobres de Deus, deve aguçar o olhar para as condições de natureza social e política, deve aprender a dimensão política e trazer contribuições autênticas para o bem comum. Uma família Kolping local que vive de conformidade com os programas "religião, trabalho, tempo livre, família sociedade" é comunidade eclesial de base, é democracia local. Coordenadas em federações regionais e nacionais podem conseguir mais que movimentos populares totalmente desorganizados. Finalmente quando na nova e grande questão social se trata de justiça e igualdade entre grupos, classes e países, uma federação social católica como a Obra Kolping pode apresentar sinais de uma solidariedade efetiva. Segundo: Fazer aquilo que a TL propõe O ponto crucial que choca na TL é o convite para colocar-se do outro lado, de ver o mundo através dos olhos do pobre, assumir as suas esperanças e idéias. Aliás, segundo o próprio Cristo, e a Bíblia empresta a esse fato uma ênfase muito clara, o mundo melhora não quando os maus se voltam para os bons, o que e praticamente impossível, mas quando os bons procuram os maus, o que é possível. Mas esse imperativo é como um espinho na carne. E norma geral crista dirigir-se para onde alguma coisa está sendo desprezada, marginalizada, enfim considerada como um mal. E na sociedade de hoje este é o sub-homem que simplesmente não pode ser excluído do nosso pensar, sentir, falar e agir, se quisermos ser cristãos. Trata-se de sua libertação real, efetiva e atual. E evidente que o compromisso da libertação é uma questão realmente prática e que não pode ser deixada para outros e para um futuro remoto. E doloroso constatar que em um continente em que se fala muito, mas se age pouco, a tarefa inadiável da libertação dos pobres em tantos casos é relegada ao campo

9 do academicismo. Tanto mais são de admirar os inúmeros bispos, os padres, religiosos, leigos que muitas vezes não possuem o predicado da TL, mas na prática do dia-a-dia libertam este e aquele indivíduo, este e aquele grupo da dura sorte da marginalização Terceiro: Reforçar a solidariedade O que na América Latina é chamado de "Libertação" nos países europeus em geral é chamado de "Ajuda para o Desenvolvimento". Os dois processos precisam de ser mais sintonizados. Não se pode resolver a questão com a posição radical do "tudo ou nada". Há muita necessidade de aprendermos a nos conhecermos mutuamente. Principalmente, precisamos muito caminhar juntos. A libertação real, efetiva e atual do homem que vive marginalizado só é possível em um processo. Impõe-se uma estratégia em que pequenos passos levem a passos médios e esses por sua vez aos grandes passos da transformação. Os pequenos passos são todas as medidas de assistência e ajuda, especialmente para as pessoas necessitadas, bem como iniciativas educacionais desde cursos ate escolas, desde a informação até a formação que exigem participação. Como passo médio, podemos considerar a auto-organização no sentido da formação de associações acima da base. Os grandes passos da transformação ocorrem principalmente na dimensão social e política São dados basicamente pelos sindicatos e partidos constituídos de baixo para cima. Mas a eliminação ou modificação das causas da miséria só alcançará êxito se todos colaborarem e se forem adotadas as medidas necessárias. A política ê a busca da realização do bem comum. E facilmente compreensível que em um país de contrastes como é o Brasil o processo de formação da vontade política não siga caminhos tranqüilos. Fazem sentir-se também posições extremas e essas precisam ser evitadas. Deve ser repelido o Marxismo, qualquer que seja a forma como se apresente. Deve ser rejeitado enquanto considera a situação existente como totalmente insolúvel e irreformável, enquanto prega a substituição total do presente modelo sócio-político do Capitalismo não incluindo a luta de classes e a revolução para fazer nascer como a Fênix das cinzas, uma sociedade nova, formada pelo puro socialismo. O seu "pathos" da totalidade, juntamente com um moralismo que do ímpeto messiânico de indivíduos radicalmente convertidos espera um mundo totalmente novo, geralmente leva a um fanatismo crescente, à frustração, ao autoisolamento e não à formação de uma maioria mais ampla. Grupos que só trabalham

10 ideologicamente, que buscam o acesso ao poder através da polêmica, do protesto e da contestação, não alcançam a dimensão política. Não mobilizam, bloqueiam. No fundo são reacionários por que paralisam os processos e não os deixam avançar. Igualmente rejeitável é o sistema de Segurança Nacional que no "status quo" das condições existentes vê a única perspectiva do futuro. Os defensores dessa i déia não são contra a participação do povo. Mas demasiada freqüência a falta de seriedade com que são com introduzidos e instalados certos programas em si bons, nos campos da alimentação, da alfabetização, da promoção de pequenos empreendimentos autônomos, etc. denunciam os verdadeiros interesses daquilo que aparentemente fariam pelo povo. A falsidade do seu "pathos" muitas vezes ligado a um certo "integralismo" que para fortalecer as suas próprias posições, prega a renovação religiosa e moral, está cada vez mais desmoralizado no seio da população. Os grupos mantenedores do sistema são hiper-sensíveis à subversão, mas extremamente negligentes no combate à corrupção. A esta estão abertas todas as portas, criando obstáculos e desestímulo ao invés de ajuda para um povo que deseja erguer-se. Perspectiva. Em decorrência da industrialização extremamente rápida, países como o Brasil caracterizam-se por colossais transformações. O seu maior problema é a antiga e a nova, a pequena e a grande questão social. A sua solução não pode provir das posições ideológicas do capitalismo e do socialismo. Impõe-se um novo sentido da realidade que, entre luta de classes e status quo se engaje na transformação como ampla reestruturação em todos os planos, nos dividindo as pessoas, grupos e partidos mas muitas vezes contra toda esperança, unindoos. O que a situação de hoje requer é a conjugação da eficiência técnica com a autoorganização do povo. Trata-se de desenvolver uma nova alternativa, sem polêmica, contra as instituições existentes que, em última análise, são responsáveis pelos contrastes da humanidade, mas usando o material existente já purificado que pode contribuir para a solidez da casa em construção. Diálogo, solidariedade e parceria na formulação da concepção e da ação, estas é que de verão ser as novas armas. Esta nova visão das coisas, este novo método, esta nova ação por. um mundo novo e diferente poderia ser chamada de "novo realismo social". Não se pretende criar um paraíso na terra que, caso se realizasse, não contaria mais com as intervenções inesperadas de Deus e com a liberdade criadora do homem. O que se proclama é a necessidade de tirar do caminho toda e qualquer situação caótica que represente um protesto contra o Deus Criador e um rebaixamento e distorção da dignidade humana.

11 Trata-se da conservação, restauraçã9 ou criação de um mínimo de estruturas ordenadas que permitam a auto-realização, auto-determinação de pessoas, grupos e sociedades.

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