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1 SADE E A SEXUALIDADE: A EDIÇÃO DAS OBRAS DO MARQUÊS NO BRASIL NOS ANOS 1960 [UMA APRESENTAÇÃO] Letícia Fernochi Co-autor: Gabriel Giannattasio História (Universidade Estadual de Londrina) Palavras- chave: contracultura, história da leitura, mercado editorial e pornografia. Nada deveria estar mais distante dos pensamentos do Marquês de Sade do que aquelas cenas fantasmagóricas de violência e corrupção sexual com as quais iria mais tarde apimentar seus romances (do que resultou na interdição destes no mundo inteiro e os fez, conseqüentemente, tanto mais avidamente procurados por aqueles que tem gosto por essas obscenidades e estômago para atura-las). (Endore,1967,p.1) Donatein-Alphonse-François de Sade nasceu em Paris em 1740, estudou em um colégio jesuíta, fez parte da cavalaria e foi mandado para combate na guerra dos sete anos. O Marquês de Sade foi preso diversas vezes pela acusação de extrema libertinagem e foi na prisão que ele passou a escrever suas obras, obras que também acabaram levando-o para a prisão. A obra literária de Sade nasce na prisão, nasce da prisão. Uma obra vigorosa, polêmica, certamente discutível em muitos pontos, romances e novelas cheios de repetições e páginas cansativas, pensamento filosófico parcialmente inaceitável, explosão estética de um individualismo irremediável, personagens estereotipados a partir da necessidade de expor teses existenciais fascinantes mas fantasiosas e muitas vezes quase para-fascistas, mas ao mesmo tempo obra revolucionária por sua coragem em denunciar os valores falsos de uma civilização podre, por reivindicar com eloqüência e paixão a liberação do homem de uma milenar cadeia de preconceitos que reprimem sua íntegra e verdadeira realização como individuo. (PEIXOTO, 1978, 75)

2 Em 1785 quando estava preso na Bastilha, Sade finaliza o livro considerado por Gilbert Lely, o mais importante biógrafo de Sade, a sua obra-prima Os 120 dias de Sodoma. Esse livro trata quase que exclusivamente sobre os prazeres da sodomia e dá um amplo desenvolvimento ao gozo violento que nasce do crime e da influência poderosa que o assassínio exerce sobre os sentidos. Sade continua escrevendo, em 1788 é a vez de Justine ou os infortúnios da virtude que foi considerado por Maurice Blanchot o livro mais escandaloso de toda a literatura, é a demonstração de uma tese: está escrito que as atribuições e as dores devem ser o terrível apanágio da virtude; e ainda, se a recompensa da virtude é a desgraça e a infelicidade, o caminho do vício conduz á felicidade e á prosperidade. Com a Revolução Francesa em 1789 os presos entre eles Sade receberam anistia, mas não demorou muito, ele volta à prisão sob acusação de ter escrito Juliette, é interrogado e afirma ser apenas o copista da obra, protesta inocência e implora liberdade, mas não adianta ele fica preso até 1814 ano de sua morte no manicômio de Charenton. Em 1967, Guy Endore publica o livro Sade o santo diabólico onde relata sobre a vida do marquês, reproduz alguns documentos e, ao fim, escreve sobre uma conferência que fez na School of Library Service, na Universidade da Califórnia em Ele diz que durante as suas pesquisas sobre Sade verificou o catálogo da biblioteca e foi obrigado a atribuir uma significação mais profunda a isso. O que observei foi que todos os cartões do catálogo de vossa biblioteca sobre a ciência militar, enchendo a mais de uma gaveta, creio todos ele eram novos e limpos e duros. Os cartões de outro assunto, o sexo, que iam de uma gaveta a outra, estavam manuseados, sujos nos cantos e tão quebrados que pareciam oferecer-se, por assim dizer, aos próximos e ansiosos dedos que os consultariam, e dos quais, aparentemente, não são poucos os que vêm a esta escola. Então Endore coloca que em outras palavras a biblioteca diz Lede estes! Não leiais estes! embora os alunos estivessem fazendo exatamente o contrário. E se fosse interpretar simbolicamente o catálogo a imagem que teria seria de um grupo de jovens fascinado por um aspecto, e um grupo de cabeças mais velhas e sem dúvida mais

3 sabias os líderes de nossa sociedade que controlam as coisas, que fundam e mantêm bibliotecas e universidades, e que desejam levar os jovens a direções bem diferentes. Desejam fazer com que abandonem o lado fácil da vida, tomando o lado difícil. Com que se interessem menos pela criação da vida e mais pela sua eliminação. Pelas características do marquês e a perversão contida em suas obras, os livros de Sade não foram muito divulgadas no Brasil. Mas a partir da década de 1960 isso mudou e essa mudança pode ser atribuída a vários fatores, dentre as quais a chegada do pensamento contracultural ao Brasil. A contracultura foi um movimento que surgiu no início de 1960 nos Estados Unidos, mas se espalhou por grande parte do mundo ocidental. Esse movimento visava um novo estilo de sociedade, ele contestava o pensamento, o comportamento, tudo que fosse tradicional. Com esse novo pensamento também surgiram movimentos como os hippies, o rock, que era diferentes do rock n roll dos anos 50, agora era um estilo musical feito por jovens para os jovens, os maiores destaques foram Beatles, Rolling Stones e Bob Dylan. Ocorreram manifestações em Universidades como o Maio de 68 na França. Nessa época surgiu também palavras e expressões de ordem como o flower power, onde a liberdade sexual vinha em primeiro lugar. As mulheres na contracultura tornaram-se mais independentes e ousadas. A partir da década de 50 já se via uma mudança de estilo, uma maneira mais relaxada de viver. As mulheres passaram a admitir necessidades sexuais e saírem da passividade de satisfazer apenas aos homens. Diversas comunidades alternativas foram criadas para que as pessoas pudessem manifestar a sua sexualidade de uma forma mais natural e com liberdade. Uma dessas comunidades é a Sandstone criada pelo casal Williamson. Essa comunidade queria que casais do movimento da contracultura participassem das experiências que ocorriam lá. No livro A mulher do próximo Gay Talese fala sobre essa comunidade e os conceitos em que se baseava Os conceitos em que Sandstone se baseiam incluem a idéia de que o corpo humano é uma boa coisa, as manifestações abertas de afeição e sexualidade são uma boa coisa. Os membros de

4 Sandstone podem fazer qualquer coisa que desejarem, contanto que não sejam ofensivos nem imponham á força seus desejos a outras pessoas. Não há qualquer atividade estruturada em Sandstone, não há programas de estudo de comportamento, não há muletas. Os membros têm toda liberdade para fazerem o que desejarem, sempre que desejarem, num espírito de reciprocidade... (Talese, 1987, 300) Uma das freqüentadoras da comunidade de Sandstone era a pintora e feminista Betty Dodson, ela foi uma dona de casa dependente do marido e com o divórcio se descobriu como mulher, tornando-se uma mulher liberada que dava palestras para outras mulheres em seu apartamento desejando que elas também pudessem se descobrir e se libertar sexualmente. Em uma de suas declarações ela disse que : Entre as muitas questões envolvidas na libertação das mulheres, as duas frentes de luta mais importantes, na minha própria libertação pessoal, foram a sexual e a econômica. Ultimamente, não se pode separá-las... não enquanto os órgãos genitais femininos tiverem para as mulheres um valor econômico, ao invés de valor sexual. Guardar o sexo para meu amante/ marido era o presente que lhe dava em troca de segurança econômica, no que se chamava relacionamento significativo ou casamento. Meu futuro dependia de encontrar o parceiro certo a quem possuiria eternamente com meu presente de sexo e amor. Com essa imagem romântica de sexo, numa sociedade em que não existe a igualdade econômica entre os sexos, fui obrigada a negociar com minha vagina, em troca de qualquer esperança de segurança financeira. O casamento nessas circunstâncias é uma forma de prostituição. (Talese, 1987, 453) Em suas palestras Betty estimulava as mulheres a se tocarem e se descobrirem assim conseguiriam ficar mais desinibidas e confiantes para tomarem a iniciativa sexual e dizerem de que forma mais gostavam de serem acariciadas, as posições que preferiam. Ela dizia que quando uma mulher se masturba, ela aprende a gostar de seus próprios órgãos genitais, a desfrutar do sexo e o orgasmo, tornando-se também eficiente e independente nisso. Nessas mesmas palestras ela também convidava amantes e maridos para atividades como ioga e sexo grupal pois acreditava que amar apenas uma pessoa é anti-social.

5 Betty Dodson fez uma exposição em 1968, ano em que a nudez estava mais em voga, na Galeria Wickersham, as obras exibiam representações sensuais de diversas figuras nuas, beijando-se e em alguns casos até fazendo amor. Recebeu criticas positivas por seus traços clássicos, capacidade criativa e percepção. No Brasil o gesto inaugural da contracultura foi com a Tropicália, com o lançamento do disco manifesto Tropicália ou panis et circenses, em que participaram Gilberto Gil, Caetano Veloso, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé. A contracultura brasileira foi diferente da americana, foi um movimento mais pesado sem muita celebração devido à situação política do momento. O que mais interessa nesse estudo é a questão da sexualidade, as liberdades e opressões sofridas principalmente no Brasil. Luiz Carlos Maciel em seus livros e em sua coluna no jornal Pasquim falava bastante dessa questão, ele foi processado e acusado de atentado a moral e aos bons costumes, o juiz que o sentenciou acreditava que ele era responsável pela propagação da imoralidade no Brasil. Com a chegada do pensamento contracultural no país ocorreu a necessidade de uma modificação de consciência, como Patrícia Marcondes de Barros diz em seu trabalho A contracultura na América do Sol : Luiz Carlos Maciel e a coluna underground. Fazia-se necessário a formação de uma nova organização familiar, deixando de ser patriarcal e que não reprimisse sexualmente seus membros. Wilhelm Reich, segundo Patrícia, entende que o sistema vigente até então se alimenta: dos pequenos horrores privados, e esses pequenos horrores são as questões sexuais das pessoas, que levam-nas a ter um sexo doente, Reich critica os costumes sexuais de nossa civilização e parte de Freud para isso. Para Freud o desequilíbrio psíquico está sempre ligado a uma perturbação do libido e chega a conclusão de que o homem é o único responsável pela deturpação de suas funções biológicas naturais. Essa deturpação sexual é concebida como criação da direita sexual¹ que resultava em crimes sexuais. Patrícia cita Maciel que em sua coluna underground no jornal Pasquim de 1969 comenta:

6 Os crimes sexuais, os abortos criminosos, a agonia sexual dos adolescentes, o assassinato das forças vitais nas crianças, as perversões a granel, os esquadrões da pornografia e do vicio, a exploração vil a ânsia humana por amor levada a cabo por empresas comerciais e publicitárias vulgares, as milhares de enfermidades tanto psíquicas quanto somáticas, a solidão e a mutilação, tudo isso é resultado de uma repressão sexual sociologicamente determinada e portanto, alterável. A alternativa que enfrentamos na educação sexual não é entre sexualidade e abstinência, mas entre vida sexual natural e saudável ou perversa e neurótica (PASQUIM, 1969). A sexualidade reprimida, contra as leis da natureza, tende a se manifestar de forma patológica diz Reich, o falso moralismo e as perversões sexuais são faces de uma mesma moeda que prolonga a existência da obscenidade e leva a ruína à felicidade do amor, isto porque o homem hipócrita se rege por formas compulsivas externas e não em suas leis internas naturais como uma imoralidade. Ao ser distorcida sua sexualidade fica mais suscetível a obscenidade, alimentando assim a pornografia. Segundo Reich, quando todos tiverem uma sexualidade sadia, não precisarão mais das doenças sádicas e a pornografia não venderá mais. No meio de todas as questões sexuais e de uma nova cultura rebelde, foi publicado o primeiro texto sobre Sade no Brasil, que era Sade e o Brasil do ensaísta e critico literário Jamil Almansur Haddad. Nesse texto o marquês de Sade foi apresentado como um contestador da moral vigente e não apenas um frenezi do sexo, e influenciou de forma oculta a literatura brasileira, uma de suas influencias foi à descoberta de um impulso e instinto sexual puro, que não merecia ser reprimido como se estava fazendo até então. Também foi publicado as Novelas do Marquês de Sade junto com o texto de Haddad. Alguns de seus romances foram publicados na época, como: Justine ou os infortúnios da virtude e A filosofia na alcova em 1968, Os 120 dias de Sodoma e Aline e Valcour em 1969, e outros que foram publicados como se Sade os tivesse escrito, mas já se sabe que não foi ele quem escreveu, tais: Zoloé e suas duas amantes em 1968 e O livro negro do amor em Por todas essas características da obra do marquês é compreensível que ele tenha aparecido no mercado editorial brasileiro no contexto de um movimento que

7 buscava mudanças contraculturais na sociedade, portanto esse pode ser um dos motivos dele ter sido editado no Brasil a partir da década de Contudo, a pesquisa esta apenas no começo há muitas obras para serem minuciosamente analisadas e ainda uma grande pesquisa a ser feita sobre Sade e a repercussão de suas obras no Brasil. Notas Explicativas ¹Direita sexual é concebida aqui como deturpadora do sexo, função natural do homem. Instituciona a repressão sexual através de meios sutis, ocasionando a neurose. Bibliografia BARROS, Patrícia Marcondes de. A contracultura na América do Sol : Liz Carlos Maciel e a coluna undergroud. Assis, 2002 ENDORE, Guy. Sade: O santo diabólico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, HADDAD, Jamil Almansur. Sade e o Brasil In: Novelas do Marquês de Sade. São Paulo: Difusão Européia do livro, PEIXOTO, Fernando. Sade: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, PEREIRA, Carlos Alberto M. O que é contracultura. São Paulo: Brasiliense, SADE, Marquês de. Os 120 dias de Sodoma. 2 ed. Trad. João M. P. de Albuquerque. São Paulo: Hemus, Zoloé e suas duas amantes.trad. Maria José Fialho Londres. Rio de Janeiro: Gráfica Record, O livro negro do amor. São Paulo: Hemus, Justine: os infortúnios da virtude. Trad. D. Accioly. Rio de Janeiro: Saga, Aline e Valcour. Trad. Rubem Rocha Filho. Rio de Janeiro, A filosofia na alcova. Trad. Martha A Haecker. Rio de Janeiro: JCM. TALESE, Gay. A mulher do próximo. Trad. A. B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1987.

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