A JUVENTUDE ON-LINE REPRESENTADA NA NOVELA GERAÇÃO BRASIL

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1 A JUVENTUDE ON-LINE REPRESENTADA NA NOVELA GERAÇÃO BRASIL Evelyn Santos Pereira Jacqueline Gomes de Aguiar Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Luterana do Brasil A PÓS-MODERNIDADE Vivemos um período de grandes mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais que estão transformando as formas de viver dos sujeitos. Muitos autores, entre eles Baumam (2001), Sibilia (2008), Costa (2008), Kellner (2001) e Barbero (2002) têm se preocupado em pensar e escrever sobre este tempo e sobre estes sujeitos, cujas subjetividades estão sendo desenvolvidas a partir de uma lógica cultural pautada em princípios como individualidade, efemeridade, consumo, descartabilidade, visualidade e também comunicação tecnologicamente mediada. Essa nova ordem social contribui para o desenvolvimento de novas formas de perceber e agir no mundo e de se relacionar com o outro. Temos experimentado uma outra racionalidade: novos projetos sócio-culturais; outras relações com o trabalho e produção de renda; relações econômicas e de consumo divergentes das colocadas em circulação na era moderna; importantes avanços tecnológicos e midiáticos que acabam por definir novas formas de sociabilidade, comunicação, participação e também novas formas de produção cultural. E nesta conjuntura toma posição de destaque o fator definido pelo desenvolvimento tecnológico cada vez mais exacerbado e que apresenta mais e mais artefatos que colocam em evidência os novos processos e possibilidades de comunicação mediada pela tecnologia. Estamos vivendo novos tempos, tempos de uma dita convergência comunicativa tecnológica, oportunizada por múltiplos canais e meios de interação social tecno-midiáticos. Na contemporaneidade os sujeitos estão cada vez mais conectados. E essa possibilidade de interação e comunicação mediada pelos artefatos tecnológicos têm colaborado para a construção de identidades peculiares. Argumenta-se que especialmente

2 àquelas relacionadas à juventude, uma vez que podemos considerar estes sujeitos juvenis como predispostos natos a possuírem habilidades tecnológicas e fluências midiáticas. Marisa Vorraber Costa (2008), em suas pesquisas que buscam articular educação e pós-modernidade, destaca a importância das novas tecnologias e da cultura da mídia para a (re)configuração das diversas instâncias da vida. Para ela, todo o conjunto tecnológico e a mídia, estão constantemente ensinando coisas, pois colocam em circulação artefatos que tem como efeitos a proliferação de preferências, desejos, estilos, modos de ser, condutas (COSTA, 2008, p. 4). E é ancorado neste argumento que apresentamos o objeto de análise deste texto: o artefato cultural representado pela novela Geração Brasil, produzida e exibida de segunda a sábado pela Rede Globo, durante o período de maio a outubro de REPRESENTAÇÕES DA JUVENTUDE ON-LINE Eu sou linda, sou rica, sou divertida, sexy, mas paciência não é o meu forte (Megan Lily Parker-Marra, site gshow). Como recorte para fins analíticos, foram escolhidas duas personagens da trama: Megan Lily Parker-Marra, uma jovem milionária, autocentrada e com comportamentos tidos pelo senso comum como superficiais, e herdeira da empresa de tecnologia Marra International e Manuela Yanes uma jovem proveniente da classe média, extremamente habilidosa tecnologicamente e que obtém sucesso, reconhecimento profissional e social através de sua fluência digital ampliada. O objetivo deste texto será problematizar a representação de juventude, em especial, da juventude feminina, veiculada através das duas personagens, mostrando como essas jovens têm sido narradas ora como autossuficientes, sedutoras, irresponsáveis, consumistas, superficiais, ora como produtivas, protagonistas em seu tempo, dotadas de ampliada fluência digital e tecnológica, autoras em uma matriz comunicativa pós-moderna e convergente. Esta análise está situada no Campo dos Estudos Culturais, e sua relevância justifica-se pela centralidade que tal campo confere aos processos de representação. Entende-se que a representação não só descreve algo, mas lhe dá sentido. Portanto, argumenta-se que as

3 identidades postas em circulação são constituídas a partir de uma constante relação com as representações construídas e evidenciadas no artefato cultural focalizado. Bauman (2001) utiliza a metáfora dos líquidos para falar da atualidade que, segundo ele, é fluída, efêmera, escorregadia e nos escapa a todo momento. Problematiza as novas configurações sociais em torno das esferas do público e do privado, destacando o desmantelamento ou mudança das fronteiras que demarcavam esses limites, e destacando que há, de certa maneira, um embaralhamento desses lugares. As coisas da vida privada passam a ser de âmbito público, as políticas da vida cotidiana são o grande interesse das esferas públicas. Sobre isso, Costa (2008) diz que nessa nova ordem, os poderes passaram do sistema para a sociedade, da política para as políticas da vida, migraram do macro para o micro (COSTA, p. 5, 2008). Barbero (2002) fala sobre o surgimento de um ecossistema comunicativo, cuja importância social se compara a do ecossistema ambiental. Segundo ele, tal relevância se dá, não só pelo massivo uso das tecnologias comunicativas e informativas, mas pelas transformações nas sensibilidades dos sujeitos, na linguagem, na escrita e na forma de perceber o tempo e o espaço. Tais mudanças se encontram mais acentuadas entre os jovens, pois para essa geração, a gama de aparatos tecnológicos faz parte da experiência de desenvolvimento desde a mais tenra idade. Neste sentido, estariam os jovens, rompendo com uma cultura baseada nos princípios dos mais velhos, pais e avós, para inaugurarem uma nova cultura. Jenkins (2009), autor ícone dos estudos sobre a cultura da convergência, termo que tem sido utilizado para reportar os movimentos de comunicação mediados pela tecnologia e produzidos a partir de diferentes atores sociais e com diferentes impactos na produção/consumo, apresenta aspectos que congregam, justapõem e condensam elementos relacionados à evidência do meio material (computadores multifuncionais, celulares que agregam diversas funções: fotografam, filmam; videogames com conexão à rede, televisões que navegam na internet, etc) e da mensagem expressada através de diferentes aportes e produtos culturais contemporâneos, época em que vivemos e onde a novela estava situada. Para este autor o centro da questão, a maior mudança vivenciada por estes tempos líquidos, ou por essa denominada cultura da convergência e conexão talvez seja o consumo individualizado ou personalizado em rede, o que acaba por oportunizar novas formas de produção, colaboração, participação e consumos culturais.

4 Tomamos assim, a análise da personagem Megan Lily Parker-Marra, filha de um dos principais personagens da novela, Jonas Marra. Jonas é o fundador e dono da empresa Marra International que, de acordo com o enredo, revolucionou o mercado com aparelhos eletrônicos que visavam popularizar a tecnologia e ampliar a conectividade. A novela tem como plano de fundo a tecnologia, e os diferentes núcleos da trama se desenvolvem em torno da Empresa Marra Brasil e Parker TV, emissora de televisão de Pamela Parker, mãe de Megan e mulher de Jonas. Dois núcleos (e modelos) de juventude são apresentados na narrativa. Um deles é a juventude hiperconectada, empreendedora e com alta capacidade intelectual, e o outro, é constituído por jovens, também muito ligados à tecnologia, porém, com um cunho irresponsável, desleixado, que estão mais interessados em fazer sucesso na internet. A personagem Megan é vista como a riquinha e mimada filha do milionário rei da tecnologia. É irresponsável, impulsiva, consumista, volátil, sempre preocupada com sua imagem/beleza e conectada às redes sociais. Seu grande objetivo é aproveitar a vida a qualquer custo e sem preocupações. É inegável a importância que as tecnologias têm na vida dos jovens. Parece que o celular faz parte do figurino de todos eles. Muito além da utilidade inicialmente dada a esta ferramenta, fazer ligações e mandar mensagens de texto, o celular hoje representa estar conectado. E estar conectado, significa estar trocando informações em intensa velocidade, ter acesso a um infinito de estímulos, sons e imagens, através das redes sociais, de jogos, músicas, videoclipes, blogs, sites. É a operação da convivência individualizada em rede, na prática. A mídia e, em especial, a televisão é o principal veículo de informação e entretenimento de grande parte da população. Canclini (2007) refere a realidade de uma parcela de jovens, especialmente os latino-americanos, enfatizando papel de destaque às condições políticas, sociais e econômicas destes locais que acabam por configurar algumas tessituras sociais e culturais peculiares no que diz respeito a tecnologia. Por exemplo, quando a massiva maioria dos jovens possui acesso irrestrito apenas a televisão de sinal aberto em detrimento de mínimas parcelas com acesso à internet, é presumível que a informação veiculada e recebida por estes públicos seja diferente, e que isso provoque comportamentos também diferenciados. O autor nos lembra com esse argumento que devemos pensar a juventude como uma condição onde as diferenças são extremas, e onde o aspecto social e

5 político é determinante para a formação de comportamentos e modos de estar na conjuntura social, política e econômica dos indivíduos, tornando-se o pressuposto principal para a percepção e conformação também das identidades entendidas como juvenis. Ainda que pese este argumento, é possível admitir que as narrativas ficcionais da televisão carregam uma responsabilidade e papel ampliado na conformação das identidades juvenis que estão sendo postas em circulação e que a espetacularização e glorificação da vida de famosos, aciona nos jovens uma série de desejos em torno do ideal de realização e felicidade. O que se vê nas novelas acerca da busca pelo corpo ideal, adereços, objetos, comportamentos, modos e estilos de vida está constantemente sendo estimulado por uma série de representações veiculadas pela mídia, em maior escala pela televisão, mas não somente ela. Afirmar que a televisão ainda possui papel de destaque na conformação dos sujeitos é admitir que a conjuntura sócio-econômica e cutural de um tempo e de um lugar são responsáveis pelas formas de viver e interagir em uma sociedade. Neste sentido, entende-se que toda essa gama de informações, representações e estímulos acionados pelas mídias, sejam elas televisão, jornais, revistas, internet, etc, funcionam como pedagogias culturais, pois acabam apresentando uma série de estratégias didáticas que ensinam formas de ser e estar no mundo. Apesar de Canclini (2007) apontar as diferenças extremas no acesso aos meios de comunicação social, no Brasil a internet tem apresentado importantes índices de uso. Em pesquisa realizada pela Secretaria de comunicação social da presidência da república brasileira no ano de 2014 sobre o uso que os brasileiros declaram fazer atualmente sobre os meios de comunicação social, cabe destacar a importante e massiva presença da televisão. Nada menos que 97% dos lares apontam a presença deste eletrodoméstico e ainda informam que a televisão fica ligada nos sete dias da semana. No entanto, é relevante também destacar que a mesma pesquisa aponta uma tendência para os próximos anos entre os mais jovens, ou a faixa-etária compreendida na pesquisa entre 16 e 25 anos, revelando a citação de preferência pelo acesso à internet, que chega ao índice de 77% de usuários que acessam a rede neste intervalo etário. Ao mesmo tempo em que a preferência pela televisão cai neste intervalo para cerca de 70%. Assim, segundo este estudo estatístico recente, o crescimento do uso e acesso à internet nos lares nacionais, especialmente entre os sujeitos jovens, já apresenta patamares significativos e tende a continuar crescendo vertiginosamente em pouco tempo.

6 Outro dado que corrobora com os argumentos deste texto, estão aproximados também através dos índices apresentados na referida pesquisa sobre o uso que se faz da internet, quando em momentos de acesso. Quando perguntados sobre a principal atividade realizada na rede em momentos de acesso, receberam destaque nas respostas dadas, as redes sociais. Assim, é possível afirmar que o advento da internet e da massiva expansão das redes sociais tornou possível a cada sujeito, editar e reeditar sua vida quantas vezes achar necessário, na busca de transformar o cotidiano anônimo de cada um, como nomeou Sibilia (2008), em um show do eu. Na trama da novela Geração Brasil, Megan utiliza o celular para fazer selfies e postar em sua rede social. Sempre por dentro de tudo que acontece na vida das celebridades, antenada nas tendências da moda e nas melhores festas, ela utiliza a tecnologia para fazer da sua própria vida uma novela, onde cada episódio pode ser cuidadosamente planejado, produzido e posto no ar/na rede. A experiência da visualidade e visibilidade como uma forma de ler o mundo e de autoproduzir-se, para si e para o outro, em junção com a grande proliferação do uso de dispositivos eletrônicos móveis, como o celular, tem possibilitado que todos os momentos do cotidiano sejam fotografados, como que na criação de um diário pessoal visual. A partir desse diário, é possível selecionar a melhor forma de narrar-se. Essa relação com a imagem de si torna a experiência humana um jogo de performances, onde o sentido das ações está na imagem que pode ser produzida a partir dela. Costa (2008) fala que o recurso à performance, para além do prazer obtido com a visibilização do corpo, permite exercitar, sozinho ou com a cumplicidade dos olhares externos, um certo trabalho de modelagem do eu em direção ao modelo almejado (COSTA, p. 11, 2008). Chama de estranhos narcisos esses sujeitos que miram-se e apaixonam-se, não simplesmente por si mesmos, mas pela miragem desejada de sua própria imagem espetacularizada, que os conduz ao puro deleite estético (COSTA, p. 11, 2008). De acordo com Ribeiro (2007), atualmente, a juventude pode ser entendida como um ideal social. O corpo, a saúde, a liberdade pessoal e flexibilidade nos relacionamentos e na vida profissional, são valores associados a esta etapa (RIBEIRO, 2007). Neste sentido, a juventude é uma posição que pode ser assumida ao longo de toda a vida. Rompe com uma ideia linear de etapas da vida. Podendo o sujeito assumir um estado de juventude a qualquer momento, independendo de sua idade. Este fascínio por ser jovem, está associado a uma ideia de juventude que tem liberdade, que busca a felicidade, que pode saciar seus desejos instantaneamente, sem grandes responsabilidades. A epígrafe no início deste texto, trata de

7 uma fala da personagem Megan, que representa o ideal buscado por muitos jovens, amplamente divulgado pela mídia e recriado nas páginas das redes sociais. Megan representa um modelo de ser jovem, neste caso, jovem feminina, que personifica a beleza, o dinheiro, o comportamento divertido e descontraído, o jogo de sedução, a sexualidade e a autossuficiência como padrões ideais jovens. Portanto, faz sentido que a juventude tenha se tornado um ideal social, uma vez que a ideia de felicidade está estreitamente ligada ao desejo de ter um corpo e uma vida ativa, divertida e cheia de emoções. Também é possível destacar partir da observação analítica das representações da personagem Megan, que para além de ideários que perpassem a noção de juventude que independem do gênero, percebe-se por trás das representações das meninas, discursos muito ligados a estereótipos de feminilidade, associados a características e comportamentos como a irracionalidade, a busca pelo amor romântico, o embelezamento e cuidado com o corpo, o consumismo desenfreado, a superficialidade e a exposição do corpo e da sexualidade. Entende-se gênero e sexualidade como construções históricas e culturais que dão sentido as formas de viver as identidades em determinado tempo e espaço. Nesta perspectiva, as identidades femininas e masculinas são aprendidas ao longo de toda a vida através de múltiplas estratégias sociais. Felipe e Guizzo (2003) chamam de pedofilização o processo de transformação protagonizado, em especial, pelo acesso da criança aos meios de comunicação e pela centralidade que a infância ganhou para o mercado de consumo, em que a representação da criança como um ser puro e angelical passa a se mesclar com imagens de infantis extremamente erotizadas. Este conceito, serve para pensar sobre a forma como as meninas, desde muito cedo, são subjetivadas a cuidarem do corpo e se preocuparem com a beleza. Assim como, são reiteradamente ensinadas a cuidarem-se para o olhar do outro, a seduzirem, porém, sem serem vulgares. Neste sentido, há um investimento social que ensina e incita nas meninas uma preocupação exagerada em torno do corpo e da sexualidade, ao mesmo tempo em que mantém uma vigilância e controle constante em torno destes corpos femininos. A preocupação em moldarem-se para as câmeras, para a tela do computador e do celular, combinada com as pedagogias culturais que ensinam formas de ser feminina, estão colocando as jovens em grande situação de vulnerabilidade. Têm sido cada vez mais frequentes casos de meninas que tem suas vidas íntimas expostas, por elas próprias ou não, nas redes sociais. Esta exposição do corpo e da intimidade, em especial, entre as meninas,

8 muitas vezes acabam tendo desfechos traumáticos em que elas são culpabilizadas por causa da erotização que foram estimuladas a desenvolver. Continuando o exercício de reflexão a partir da análise cultural aqui proposta, e tomando por ponto de partida as representações de juventude colocadas em evidência na novela Geração Brasil, especialmente as femininas, fixaremos o olhar também na personagem Manuela Yanes, ou simplesmente Manu, como fora denominada na trama. Esta personagem, representante também de um modo de ser mulher, mulher em condição de juventude, carrega em si características que denotam particularidades importantes e compõem um modo de viver na contemporaneidade. Proveniente de uma história familiar bem menos glamourosa que a de Megan, Manu tem no pai a figura não de um milionário, mas de um presidiário. Traz consigo apelos denotativos bem menos dotados de valor social aparente do que os atribuídos a Megan. Ou seja, essa personagem desde os elementos mais concretos da representação, tais como a materialidade de sua aparência, vale-se de um estilo menos espetacular. Seu modo de vestir bastante distante do fashion ou chic glamouroso da outra personagem, faz dela a representação de uma jovem mulher cotidiana, simples, demonstrada através da escolha de estampas étnicas, tecidos artesanais e estilo despojado em oposição aos modelos brilhantes, sensuais e caros de Megan. Outro referente material que constrói o distanciamento entre as duas é o sotaque. Enquanto uma traz as marcas vocais de um idioma estrangeiro, com maior valor social na sociedade da visibilidade, aparência e espetáculo; a outra carrega traços sonoros marcantes da região nordeste de nosso país. O sotaque nordestino surge em oposição ao estrangeiro e é utilizado como marca de uma conjuntura social e econômica menos potente. São as marcas de materialidade sonora contribuindo para a construção de uma representação para a jovem mulher, advinda de classes mais populares, nacional em oposição ao estrangeiro. Sobretudo é preciso destacar que esta jovem mulher mais cotidiana e menos espetacular também domina e tem o poder da fluência tecnológica como força de identidade. Manu pertence ao primeiro modelo de juventude apresentado no início desta sessão, uma juventude hiperconectada, empreendedora e com alta capacidade intelectual, focada em construir produtiva e participativamente seu papel na sociedade.

9 Manu Vence pelo seu esforço e talento pessoal na gestão e possibilidades de articulação tecno-midiática. Revela um poder feminino posto em ação e acaba assim definindo caminhos da trama narrativa através de um uso responsável, atuante, participativo em uma sociedade cada vez mais calcada em valores tecnológicos. Nesta novela, em uma disputa sexista entre personagens centrais com similares conhecimentos sobre tecnologias, é a mulher que recebe destaque, pois é Manu a escolhida para dirigir a empresa em que trabalha em detrimento de adversários masculinos. Este artefato está assim colaborando para a construção de uma representação onde não é mais apenas o homem que domina a tecnologia, onde não é mais apenas o homem que deve comandar espaços corporativos. E, sob o status de pedagogia cultural, constrói, através desta personagem a figura de uma mulher inteligente, produtiva e atuante na sociedade, hoje dominada por formas de sociabilidades tecnológicas e comunicação convergente, materialmente e cognitivamente. A mulher, representada por Manu é mais que aparência, espetáculo e visibilidade. Através desta personagem a jovem mulher pode também ser inteligente, digitalmente capaz e com papéis detentores de poder corporativo, evidenciando assim outras forças de trabalho e posicionamento na sociedade. Macluan (1963), Levy (1996) e Jenkins (2009) são autores ícones dos estudos sobre a compreendida e cada vez mais potente sociedade tecnológica e virtualizada. Desde a ideia da aldeia global de Macluhan (SOUSA,2012) que se tenta observar com atenção os impactos e as rupturas que podem ser causados pelas novas formas de enxergar os meios de comunicação. A sociedade, o tecido social vigente, acaba por se reconfigurar de acordo com as possibilidades de interação comunicativa dos sujeitos. A relativização dos tempos e dos espaços ocasionada pelo avanço tecnológico oportuniza que os lugares e as pessoas se aproximem. E é na interação entre estes pares que a comunicação se dá e onde as escolhas, os gostos, as direções que as subjetividades e a racionalidade de um tempo se expressam. Para McLuhan (1963), o estudo dos meios de comunicação poderia evidenciar mais mudanças que apenas o estudo das mensagens veiculadas, para a sociedade. O autor, tido como um determinista tecnológico por essa crença focada no material, acreditava, portanto, na importância dos meios de comunicação, colocando a televisão no centro do processo, atitude alinhada com os recursos de sua época, e, estabelecendo uma relação unidirecional de veiculação e recepção de conteúdos. Nas palavras de SOUSA:

10 McLuhan testemunhou com olhos atentos a formação de uma tribo mundial que agregava novos aparatos tecnológicos às comunicações, reestruturando métodos, transformando mensagens e reformatando sociedades. Segundo o autor, a partir dessa nova ordem os processos cognitivos seriam alterados e a própria cultura impressa encontraria sua crítica mais pungente devido a seu compromisso quase absoluto com a linearidade.(sousa et alli, 2012, p.71) Na década de noventa, o fenômeno da popularização da rede mundial de computadores aparece como estopim para que o papel dos meios fossem, outra vez, colocados em posição central no processo comunicacional. As evidências das profundas transformações que esse novo canal poderia causar fizeram com que os pesquisadores da área da comunicação se voltassem outra vez para a centralidade dos meios. Mas, foi Pierre Levy (LEVY, 1996) que colocou em evidência a emergência de se considerar a ascensão da Internet como meio fundamental para pensar em novas formas de interação entre sujeitos. Novas formas de comunicação surgiram, agora transcendendo a barreira da verticalidade dos meios analógicos de Mcluhan (1963), e gerando uma outra maneira de construção e interação coletiva para criação e circulação de conteúdos na web. A emergente e fantástica repercussão que este meio atribui a contemporaneidade revoluciona modos de ser e estar no mundo. Há também na novela Geração Brasil papel de destaque a estas possibilidades de interações virtuais. Tanto a personagem Megan como Manu estão inscritas em uma sociedade da conexão. Usar as tecnologias, suas materialidades e fundamentalmente parecer, criar valor social nestes meios, representando modos de ser mulher em tempos de conexão é o principal constructo do artefato. Problematizar as representações e tipos juvenis femininos inscritos em um tempo tido por pós-moderno, desconstruindo valores anteriormente colocados no centro das questões de convivência social, especialmente nas questões de visibilidade, de relação masculino/feminino, nas relações de trabalho, de colocação social baseada em aparência, conhecimentos e possibilidades ampliadas de uso das tecnologias, entalhado em modelos de sociedades aceitas e representadas até então como essencialmente masculinas, toma corpo. A evidência da busca de valor social, seja através da construção de uma vida espetacular e espetacularizada ou sendo através da participação produtiva na sociedade tecnológica e conectada sãos os modos de viver acionados pela novela Geração Brasil.

11 AMPLIANDO AS DISCUSSÕES Abrimos esta sessão do texto com a frase acima, pois não entendemos ser possível encerrar ou finalizar as discussões acerca das representações de juventude que colaboram e funcionam como pedagogias culturais, que ensinam modos de ser jovem na contemporaneidade, acionados pelas mídias. A televisão, a internet, o cinema, as fotografias, os jornais, as revistas e toda a sorte de artefatos culturais deste tempo constroem representações que colaboram para a conformação das identidades juvenis compartilhadas. Embora pesem as diferenças econômicas que condicionam acessos diferenciados para os sujeitos deste tempo, conforme argumenta Canclini (2007), é inegável que novos aportes de produção, circulação e consumo de informações e de modos de ser, estar e se relacionar no mundo estão sendo postos em movimento. Concordando que estes sujeitos jovens fazem parte de uma geração sem precedentes, e que cabe também destacar a importância de estudos que sejam voltados a essas análises, que possibilitem a problematização e reflexão sobre essas identidades é que realizamos tal estudo. Urge a necessidade cada vez mais premente de que estas modalidades de estudos sejam capazes de conferir atenção para a forma como socialmente estão sendo representados e, portanto, a forma como estão sendo estabelecidas relações de representação com estes sujeitos, para que seja possível olhá-los com menos estranheza e mais compreensão. Não propomos esgotar ou finalizar as discussões, mas pelo contrário, propomos a continuidade dos estudos, a ampliação do foco e do olhar para essa parcela que se faz central, das mediações sociais atuais. REFERÊNCIAS BAUMAN, Zigmund. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Josge Zahar, BAUMAN, Zygmunt. Vida para Consumo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., BRASIL. Presidência da República. Secretaria de Comunicação Social. Pesquisa brasileira de mídia 2014 : hábitos de consumo de mídia pela população brasileira. Brasília : Secom, 2014 Disponível em: CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e Cidadãos. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2001.

12 CANCLINI, Nestor G. Ser diferente é desconectar-se? Sobre as culturas juvenis. In: CANCLINI, Nestor G. Diferentes, desiguais e desconectados. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007, p COSTA, Marisa Vorraber. Cartografando a gurizada da fronteira: novas subjetividades na escola. In: ALBUQUERQUE Jr., Durval; VEIGA-NETO, Alfredo; SOUSA FILHO, Alípio (Orgs.). Cartografias de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2008, p FELIPE, J.; GUIZZO, B. S. Erotização dos corpos infantis na sociedade de consumo. Pro- Posições, v. 14, n.3 (42), set./dez Texto disponível em: JENKINS, Henry: Cultura da Convergência. São Paulo, Aleph, JENKINS, Henry; FORD, Sam; GREEN, Joshua: Cultura da Conexão: Criando valor e significado por meio da mídia propagável. São Paulo, Aleph, LEVY, Pierre. As tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de janeiro: Editora 34, LEVY, Pierre. O que é o virtual? Rio de janeiro: Editora 34, MACLUHAN, Marshal. A galáxia de Gutemberg. São Paulo, Câmara Nacional do Livro, MARTÍN-BARBERO, Jesús. Jóvenes, comunicación e identidad. Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura: Pensar Iberoamérica. Revista de Cultura (revista digital). N.0, Febrero, Texto disponível em: SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, SOUSA, Janara; CURVELLO, João; RUSSI, Pedro. Cem anos de Mcluhan. Brasília: Casa das Musas, 2012.

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