SÉRGIO APARECIDO NABARRO O BANCO DA TERRA EM TAMARANA - PR: O CASO DOS GRUPOS RENASCER II E III

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1 SÉRGIO APARECIDO NABARRO O BANCO DA TERRA EM TAMARANA - PR: O CASO DOS GRUPOS RENASCER II E III Londrina 2007

2 II SÉRGIO APARECIDO NABARRO O BANCO DA TERRA EM TAMARANA - PR: O CASO DOS GRUPOS RENASCER II E III Monografia apresentada ao Curso de Geografia da Universidade Estadual de Londrina UEL, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Geografia. Orientador: Profª. Drª Ruth Youko Tsukamoto Londrina 2007

3 Nabarro, Sérgio Aparecido O Banco da Terra em Tamarana Pr: O Caso dos Grupos Renascer II e III / Sérgio Aparecido Nabarro. Londrina: UEL / Departamento de Geociências, xiii, 77 p. : il. ; 31 cm. Orientador: Ruth Youko Tsukamoto Monografia (Bacharelado) Universidade Estadual de Londrina, Departamento de Geociências, Graduação em Geografia, Referências bibliográficas: f Geografia Agrária. 2. Questão Agrária. 3. Concentração Fundiária - Monografia. I. Tsukamoto, Ruth Youko. II. Universidade Estadual de Londrina, Departamento de Geociências, Graduação em Geografia. III.Título. III

4 IV SÉRGIO APARECIDO NABARRO O BANCO DA TERRA EM TAMARANA PR: O CASO DOS GRUPOS RENASCER II E III Monografia apresentada ao Curso de Geografia da Universidade Estadual de Londrina UEL, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Geografia. COMISSÃO EXAMINADORA Profª Drª Ruth Youko Tsukamoto Universidade Estadual de Londrina Profª Drª Alice Yatiyo Asari Universidade Estadual de Londrina Profª Drª Ideni Terezinha Antonello Universidade Estadual de Londrina Londrina, 12 de dezembro de 2007.

5 V Dedico este trabalho a meus familiares e amigos... companheiros de todas as horas...

6 VI AGRADECIMENTOS À Profª Drª Ruth Youko Tsukamoto, minha orientadora e amiga de todas as horas, que me apresentou a Geografia Agrária e que me acompanhou em mais esta jornada. A minha família, pela confiança e motivação. Aos amigos, pela força e pela vibração em relação a esta jornada. A todos os professores e colegas do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina, pois juntos trilhamos uma etapa importante da minha vida. A todos os entrevistados, pela concessão de informações valiosas para a realização deste estudo. A todos que, com boa intenção, colaboraram para a realização e finalização deste trabalho.

7 VII A terra não é apenas um lugar de produção. É um espaço de vida que inspira o sonho e a luta por uma sociedade nova. Mensagem dos romeiros e romeiras ao final da 20ª Romaria da Terra e da Água de Santa Catarina, 2007.

8 VIII NABARRO, Sérgio Aparecido. O Banco da Terra em Tamarana Pr: O caso dos Grupos Renascer II e III. 77 fls. Monografia (Bacharelado em Geografia) Centro de Ciências Exatas, Departamento de Geociências, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, RESUMO O Fundo de Terras e da Reforma Agrária Banco da Terra, criado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (F.H.C.), através da lei complementar nº 93 de 04/02/1998 e regulamentado pelo Decreto nº 3.027/99, que no governo Lula foi transformado em Programa Nacional de Crédito Fundiário, tem como finalidade financiar programas de reordenação fundiária e de assentamento rural. Além da compra da terra, o programa financia obras de infra-estrutura básica na propriedade, e os custos cartorários para o registro dos lotes formados a partir da aquisição da terra. Com o presente, pretendemos analisar o processo de formação e de consolidação de grupos de produtores formados por meio do Banco da Terra, mostrando os resultados da pesquisa realizada nos Grupos Renascer II e III, localizados em Tamarana, região norte do estado do Paraná. Foi escolhido este município em virtude da expressiva quantidade de grupos formados a partir deste programa, também por possuir oito assentamentos rurais, resultado da luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), efetivados pelo INCRA. Palavras-chave: Banco da Terra. Tamarana. F.H.C. Formação. Consolidação.

9 IX NABARRO, Sérgio Aparecido. El Banco de la Tierra en el Municipio de Tamarana Pr: El caso de los Grupos Renascer II e III. 77 páginas. Monografia (Geografia) Centro de Ciências Exatas, Departamento de Geociências, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, Brasil, RESUMEN El Fondo de Tierras y la Reforma Agrária Banco de la Tierra, que fue creado por el entonces presidente Fernando Henrique Cardoso (F.H.C), a través de la ley 93 de 04/02/98 y reglamentado por el decreto 3.027/99, que en el gobierno del actual presidente Luiz Inácio Lula da Silva fue transformado en Programa Nacional de Crédito Agrário, tiene por finalidad financiar programas de reorganización agrária y de assentamiento rural. Además de la tierra, el programa financia las obras básicas en la propriedad y los costos notoriales para el registro de los lotes creados con la aquisición de la tierra. Con este trabajo, intentamos analizar los procesos de formación y consolidación de los grupos campesinos formados por medio del Banco de la Tierra, exponiendo los resultados de la investigación realizada en los Grupos Renascer II y III, ubicados en el municipio de Tamarana, región norte de la provincia Paraná (Brasil). Fue seleccionado este municipio por su expresiva quantidad de grupos creados a través del Banco de la Tierra y por presentar ocho assentamientos rurales, resultado de la lucha del Movimiento de los Trabajadores Rurales Sin Tierra (MST), creados por el Instituto de Colonización y Reforma Agrária (INCRA). Palavras-clave: Banco de la Tierra. Tamarana. F.H.C. Formación. Consolidación.

10 X SUMÁRIO LISTA DE FIGURAS...XII LISTA DE FOTOS...Xll LISTA DE GRÁFICOS...Xlll LISTA DE TABELAS...Xlll INTRODUÇÃO CONTEXTUALIZANDO A CRIAÇÃO E OS OBJETIVOS DO PROGRAMA BANCO DA TERRA O MST e a luta pela reforma agrária A criação do Banco da Terra e seus objetivos Espacialização do Banco da Terra e a Atuação no Sul do Brasil OCUPAÇÃO DO NORTE DO PARANÁ E O ESPAÇO AGRÁRIO DE TAMARANA Ocupação do Norte do Paraná O município de Tamarana e seu espaço agrário O BANCO DA TERRA EM TAMARANA: O CASO RENASCER II E III Perfil dos produtores A criação dos grupos e o financiamento da terra Uso da terra, produção e comercialização Dificuldades enfrentadas e perspectivas para o futuro CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIBLIOGRAFIA CONSULTADA...53 APÊNDICE...57

11 XI Apêndice A Questionário Aplicado...58 ANEXOS...67 Anexo A Lei de Criação do Programa Banco da Terra...68 Anexo B Contratos com o Banco da Terra no Estado do Paraná...72 Anexo C Plano de Recuperação e Regularização dos Projetos Financiados pelo Fundo de Terras (Programas Banco da Terra e Cédula da Terra)...75

12 XII LISTA DE FIGURAS Figura 1 Tramitação do Programa Banco da Terra...9 Figura 2 Espacialização do Programa Cédula da Terra...14 Figura 3 Espacialização do Programa Banco da Terra...14 Figura 4 Número de Contratos com o Banco da Terra...14 Figura 5 Número de Famílias Beneficiadas...14 Figura 6 Contratos com o Banco da Terra no Estado do Paraná...16 Figura 7 Mapa de Solos, Distribuição dos Assentamentos, Grupos do Banco da Terra e Vilas Rurais...22 Figura 8 Planta dos Grupos Renascer II e III...29 Figura 9 Tramitação do Programa Banco da Terra em Tamarana...32 Figura 10 Uso da Terra...36 Figura 11 Situação Atual dos Lotes...45 LISTA DE FOTOS Foto 1 Lote do Grupo Renascer II...28 Foto 2 Antiga Sede da Estância Quadra...30 Foto 3 Lavoura de Acelga e Repolho...37 Foto 4 Sede da APRONOR...39 Foto 5 Moradia de um lote do Grupo Renascer III...40 Foto 6 Obras na Estrada...42 Foto 7 Estrada de Acesso aos Grupos Renascer II e III...43 Foto 8 Veículo para o Transporte da Produção...43

13 XIII LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 Famílias Envolvidas em Ocupações de Terras...8 Gráfico 2 Área Média por Família...17 Gráfico 3 Faixa Etária...27 Gráfico 4 Local de Nascimento...27 Gráfico 5 Nível de Escolaridade...27 Gráfico 6 Moradia Antes do Grupo Renascer...27 Gráfico 7 Última Residência...27 Gráfico 8 Ultima Atividade Exercida...27 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Conflitos de Terras no Brasil...6 Tabela 2 Balanço das Operações do Banco da Terra entre 1999 e Tabela 3 Assentamentos Rurais e Grupos do Banco da Terra do Município de Tamarana...23 Tabela 4 Principais Culturas / Tabela 5 Valores Financiados no Contrato do Grupo Renascer II...33 Tabela 6 Valores Financiados no Contrato do Grupo Renascer III...33 Tabela 7 Parcelas do Financiamento...34 Tabela 8 Uso Atual da Terra, Produção e Comercialização...35 Tabela 9 Nível de Tecnológico...37

14 1 INTRODUÇÃO Mais de oito anos após a formação do primeiro grupo de famílias, os programas de reforma agrária financiados pelo Banco Mundial ainda causam polêmica. De um lado pesquisadores e os movimentos sociais alegando estar havendo uma reforma agrária de mercado, também chamada por alguns de Contra- Reforma Agrária, de outro, o governo, via Ministério do Desenvolvimento Agrário, diz estar tomando medidas que atendam as necessidades do campo. Vale a pena salientar que a partir da década de 1990, principalmente no governo de Fernando Henrique Cardoso novas políticas foram adotadas para o desenvolvimento do campo, bem como para tentar amenizar os conflitos por terras, com destaque aos provenientes de ocupações protagonizadas por militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). É preciso destacar que mesmo após oito anos de governo FHC, e início do governo Lula, os programas pautados na ótica neoliberal do Banco Mundial ainda existem, porém com outros nomes e com pequenas modificações. Neste sentido, a luta dos movimentos sociais rurais, sobretudo a do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ainda continua, mesmo após episódios como o Massacre de Corumbiara, em Rondônia, e de Eldorado de Carajás, no estado do Pará. Com este trabalho, não pretendemos esgotar o assunto, mas analisar o processo de criação, implantação e a consolidação dos grupos formados a partir do Programa Banco da Terra, estudando o caso da Associação dos Produtores Rurais do Grupo Renascer II e a Associação dos Produtores Rurais do Grupo Renascer III, no município de Tamarana, região Norte do estado do Paraná. Além de verificar a viabilidade desse tipo de reforma agrária, através de análises, mapeamentos e dados divulgados por órgãos como Ministério do Desenvolvimento Agrário, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, e Comissão Pastoral da Terra, complementados por pesquisa bibliográfica a respeito do tema. Foram entrevistadas 20 das 35 famílias dos Grupos Renascer II e III, além de entrevistas e levantamento de dados em órgãos como: Secretaria Municipal de Agricultura, Prefeitura, EMATER, Cartório de Imóveis e Sindicato dos Trabalhadores Rurais, todos do município de Tamarana.

15 2 No capítulo 1, Contextualizando a criação e os objetivos do Programa Banco da Terra contém um breve histórico da questão agrária no Brasil, a luta pela terra e crescimento dos conflitos no campo nos anos que antecederam a criação do Programa. Também, analisamos as regras dos programa e sua espacialização no Brasil, enfatizando sua atuação nos estados da região Sul. Ocupação do Norte do Paraná e o espaço agrário de Tamarana, segundo capítulo, realizamos uma breve discussão sobre a ocupação da região Norte do Paraná, visando diferenciar o processo de ocupação pela Companhia de Terras Norte do Paraná, no início da década de 1930, com a dos chamados safristas. Nesse contexto, abordamos sobre os assentamentos rurais, destacando sua importância, e dos grupos de agricultores no desenvolvimento municipal. O terceiro capítulo, O Banco da Terra em Tamarana: o caso Renascer II e III caracterizamos os componentes dos grupos, o processo de formação dos mesmos (a compra da área e detalhes dos contratos), a dinâmica da produção, do transporte e da comercialização, bem como as dificuldades enfrentadas e as perspectivas para o futuro. Cumpre esclarecer que não logramos êxito em alguns levantamentos e entrevistas, tais como: Banco do Brasil, INCRA e Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento. Tais dificuldades foram em virtude da confidencialidade dos documentos relacionados ao Programa Banco da Terra. Uma outra dificuldade enfrentada no desenvolvimento deste trabalho foi o levantamento contábil das famílias entrevistadas que tentamos realizar, mas de 10 cadernetas de anotações de receitas e despesas, retornou apenas uma e preenchida com apenas um mês.

16 3 1 CONTEXTUALIZANDO A CRIAÇÃO E OS OBJETIVOS DO PROGRAMA BANCO DA TERRA O problema da concentração fundiária no Brasil não é recente, pois teve início no processo de colonização do território, durante o século XVI, com capitanias hereditárias. Criadas em 1534, as capitanias eram extensos trechos, de 30 a 150 léguas (de 125 a 625 km), entregues ao seu donatário, com amplas concessões, grandes favores para eles e seus companheiros. (THOMAS, 1964 p.43) Após o declínio do sistema de capitanias hereditárias os processos de ocupação e exploração da porção de terra recém descoberta se intensificaram. A exploração, em primeiro lugar da madeira (pau-brasil) e, posteriormente da cana-deaçúcar criaram a necessidade de mão-de-obra, que no início era a indígena, e posteriormente negra, utilizada até o ano de 1888, com a promulgação da Lei Áurea que aboliu a escravidão no Brasil. Segundo Stédile (2005): Com a invasão dos europeus, a organização da produção e a apropriação dos bens da natureza aqui existentes estiveram sob a égide das leis do capitalismo mercantil que caracteriza o período histórico já dominante na Europa. Tudo era transformado em mercadoria. Todas as atividades produtivas e extrativas visavam lucro. E tudo era enviado à metrópole européia, como forma de realização e de acumulação capital. No século XIX a colônia exportava cerca de 80% do que produzia. Para tal, o modelo de produção adotado era o plantation, definido por Stédile (2005 p. 21) como: a forma de organizar a produção agrícola em grandes fazendas de área contínua, praticando a monocultura, ou seja, especializando-se num único produto, destinando-o à exportação, seja ele a cana-de-açúcar, o cacau, o algodão, gado etc., e utilizando mão-de-obra escrava. Até a primeira metade do século XIX a concessão de uso da terra era hereditária, mas essa concessão não dava o direito a venda das terras, ou mesmo a compra de terras vizinhas. Até esse período não havia a propriedade privada da terra, ou seja, a terra ainda não havia se tornado uma mercadoria. Ainda de acordo com Stédile (2005 p. 22), apenas em 1850 foi publicada a Lei nº 601 chamada até hoje de Lei de Terras, que veio legitimar a concentração fundiária no Brasil, e caracterizar a estrutura fundiária da época, com presença

17 4 maciça de latifúndios. De acordo com a lei ficam proibidas as aquisições de terras devolutas por outro título que não seja a compra. Desta forma, a Lei de Terras de 1850 fechou todas as portas para a aquisição de terras por parte de pessoas que não possuíam grande poder aquisitivo na época, e acabou com a possibilidade de realização de uma reforma agrária. Com a abolição da escravatura, já esperada, principalmente por pressões externas, sobretudo da Inglaterra, haja vista que a Lei de Terras de três décadas antes já acabara com a possibilidade de um ex-escravo ser dono de sua própria terra. Os negros libertos foram impedidos de se tornarem produtores rurais, mesmo pequenos produtores, tiveram também cerceado o seu direito de lutar pela conquista da terra, não tendo outra opção senão trabalhar para os latifundiários. Na década de 1930 a questão agrária brasileira merece destaque, sobretudo pela crise da economia cafeeira, um dos pilares do desenvolvimento econômico brasileiro, ocasionada pela quebra da Bolsa de Nova Iorque, em Após essa crise, a questão agrária ganha importância até o final da década de 1950 com as definições e debates sobre os rumos da industrialização brasileira. Na época acreditava-se que a agricultura seria um complicador para o processo de industrialização, pois nesta fase o campo era encarado como um setor atrasado, pois apenas as atividades ligadas há áreas urbanas eram vistas como modernas. Em março de 1964, após anunciar a realização de uma reforma agrária, João Goulart foi deposto e assim teve início o Regime Militar, que iria até os primeiros anos da década de Nesta fase houve severa repressão a todo e qualquer tipo de manifestação popular. A falta de políticas voltadas para o pequeno produtor, somada à crescente concentração fundiária, fez com que os produtores migrassem para a cidade, em virtude das dificuldades da vida no campo. Foi nesse contexto que, no início da década de 1980, o Regime Militar entra em crise, entre outros motivos pela crescente pressão popular em instaurar um governo democrático, até ser extinto em meados de Com isso as pressões populares, em busca de melhores condições de trabalho, moradia e justiça social, se intensificam, e com elas a questão da terra ressurge.

18 5 1.1 O MST e a luta pela reforma agrária Em virtude da má vontade política no tocante a realização de uma ampla reforma agrária, surgem as lutas dos trabalhadores rurais para a realização de mudanças no campo. Os trabalhadores rurais sem terra, se organizaram para exigir políticas publicas para a realização de uma ampla reforma agrária no Brasil. A história agrária brasileira apresenta um dinamismo originário da pressão daqueles que lutam e morrem pela terra. Em certas conjunturas, o conflito pela posse da terra torna-se tão agudo que o Estado é forçado a sair do marasmo agrário. (BERGAMASCO e NORDER, 1999, p. 35). Atualmente no Brasil existem inúmeros movimentos sociais de luta pela terra. Destacamos o maior e mais atuante deles, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que segundo OLIVEIRA, [...] é o principal movimento que representa a luta do campesinato brasileiro, por ser uma organização sólida e de caráter nacional; é um movimento jovem, datando seu início na década de 1980 baseado na ação de ocupação acampamento assentamento; possui uma organização democrática, de massa e respeita as decisões tomadas coletivamente e, essas, praticadas por todos. (2001, p. 196). O MST inicia a luta pela terra no final da década de 1970, porém é no ano de 1984, em Cascavel, durante o Encontro Nacional dos Sem Terra, que o movimento se consolida e passa a representar um avanço da mobilização e organização da luta pela terra no Brasil. Realiza seu primeiro congresso em 1985, com o lema sem reforma agrária não há democracia, referindo-se ao final da ditadura militar no Brasil após 20 anos de repressão ( ) e a necessidade do retorno à democracia. Desde o início das suas atividades o MST defende a luta em nome de todos os trabalhadores rurais em favor da criação de assentamentos. Esses que representam uma alternativa para o retorno, ou acesso, dos trabalhadores rurais a terra. No Brasil assentamentos rurais foram implantados, na maioria das vezes, mediante pressões populares, às vezes com ocorrência de conflitos e violência. Segundo Bergamasco e Norder (1996, p. 7 e 8), os assentamentos rurais:

19 6 [...] podem ser definidos como a criação de novas unidades de produção agrícola, Por meio de políticas governamentais visando o reordenamento do uso da terra, em benefício de trabalhadores rurais sem terra ou com pouca terra (...) envolve também a disponibilidade e o incentivo à vida comunitária. (...) os assentamentos rurais representam uma importante iniciativa no sentido de gerar emprego diretos e indiretos a baixo custo e para estabelecer um modelo de desenvolvimento agrícola em bases sociais mais eqüitativas. Mas, o que se percebe é a falta de vontade política para a implantação de assentamentos rurais, ou ainda, os cria mas não fornece condições mínimas para a consolidação e desenvolvimento das famílias, tais como: saúde e educação. Ao criar um assentamento, o Estado assume a responsabilidade de viabilizálo. Queira o Estado (na pessoa daqueles que o fazem existir) ou não, o desempenho de um assentamento é o desempenho do Estado, do mesmo tipo que se coloca para outras partes desse Estado, para definir normas de funcionamento. (LEITE; HEREDIA; MEDEIROS, 2004, p. 65). Com a consolidação do MST é intensificada a luta pela terra e com isso, o número de conflitos no campo aumenta, sobretudo durante o primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, entre os anos de 1995 e 1998 (tabela 1), pois os militantes alegavam que o então presidente governava de acordo com os interesses das classes dominantes, em detrimento das menos favorecidas. Tabela 1 - Conflitos de Terra no Brasil Ano Nº de Conflitos Assassinatos Pessoas Envolvidas Hectares Conflitivos Fonte: Comissão Pastoral da Terra, É importante destacar o número de assassinatos nos anos de 1995 e O Massacre de Corumbiara, em 1995 no estado de Rondônia que, segundo a Comissão Pastoral da Terra (2003), 9 trabalhadores sem-terra foram sumariamente mortos e 55 torturados por mais de 24 horas, e em Eldorado de Carajás, no Pará, em 1996, foram 19 mortos numa ação desastrosa de 155 policiais influenciados, sobretudo pelas oligarquias locais.

20 7 1.2 A criação do Banco da Terra e seus objetivos Com o aumento significativo do número de conflitos por terras no país, em 1998, foi instituído, através da Lei Complementar nº 93 de 04 de fevereiro de 1998, o Fundo de Terras e da Reforma Agrária Banco da Terra, regulamentado em 1999, início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999 a 2002), pelo decreto nº 3.027/99. Dois anos antes, os estados do Ceará, Maranhão, Pernambuco, Bahia e a região Norte de Minas Gerais foram escolhidos para abrigar o programa Cédula da Terra projeto piloto de combate à pobreza no meio rural que deu origem ao Banco da Terra. O Banco da Terra foi a expansão para todo o país, dessa experiência pioneira e bem sucedida de reforma agrária, desenvolvida pelo governo brasileiro em parceria com o Banco Mundial. (BRASIL apud PEREIRA e SAUER, 2006, p.178. grifo nosso). Percebe-se que o Fundo de Terras e da Reforma Agrária Banco da Terra, traz uma visão equivocada do que realmente significa uma reforma agrária. Para o Banco Mundial 1, órgão forneceu o respaldo financeiro ao programa do governo brasileiro, ela ocorre através de programas de desenvolvimento rural, como o Banco da Terra, que pregam a distribuição de terras sem desapropriação e com pagamento à vista para o proprietário, que na maioria das vezes oferece suas terras de baixa qualidade ou desgastadas, quando na realidade: A reforma agrária deve garantir terra de qualidade aos agricultores. Constitui a forma mais viável e democrática de assegurar trabalho e alimentos aos brasileiros. A um só tempo, a reforma agrária é o caminho para redistribuir a renda, eliminar a pobreza de grandes contingentes populacionais e democratizar as relações políticas no meio rural. A reforma agrária contribuirá para o acesso aos direitos de cidadão. (DOMINGOS NETO, 2004 p. 37). Em resposta à regulamentação do programa, que implementa e consolida a reforma agrária de mercado no Brasil, também chamada por Oliveira, 2001 de Contra Reforma Agrária, o MST intensifica ainda mais suas ações em todo o território nacional, chegando a um número de famílias envolvidas em ocupações de 1 Órgão Internacional que concede empréstimos e doações para financiamento de programas inovadores que promovam o desenvolvimento sócio-econômico em vários países. (PEREIRA; SAUER, 2006, p.7).

21 8 terras jamais presenciado na história da luta pela reforma agrária no Brasil. O ápice foi em 1999, ano em que o Banco da Terra foi regulamentado, quando famílias estiveram envolvidas em ocupações (gráfico 1) Gráfico 1 Famílias Envolvidas em Ocupações de Terras Fonte: Comissão Pastoral da Terra, Org. NABARRO, S. A. Em 2000 cai o número de ocupações em virtude da Medida Provisória nº que proibia por dois anos a vistoria em imóveis ocupados. Essa medida ratifica a real intenção do governo ao criar o Banco da Terra, ou seja, desmobilizar e criminalizar as ações dos movimentos sociais de luta pela terra, sobretudo o MST. No Grito da Terra de 1999, promovido pela Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), o lema central foi: Contra a Privatização da Reforma Agrária. Na ocasião, foi reiterada a demanda de extinção do Programa Cédula da Terra e do Banco da Terra, ao mesmo tempo em que foram feitas severas críticas ao Programa Novo Mundo Rural. (MEDEIROS, 2003, p.63). A retórica do Ministério do Desenvolvimento Agrário, na divulgação do Programa Banco da Terra é que ele visava respaldar financeiramente programas de assentamento rural e de reordenação fundiária, que além da terra, financiava as obras de infra-estrutura básica no lote e os custos cartorários para o registro das propriedades formadas pelo programa. O financiamento para as obras de infra-estrutura e início da produção é obtido através do PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) grupo A, gerido pelo Banco do Brasil.

22 9 Segundo as normas, para o financiamento da compra da propriedade, na forma do financiamento coletivo, seria necessária a criação de um grupo entre os interessados em participar do programa e adquirir a terra por meio de compra. Após a formação, o próximo passo é eleger um representante que terá a função de fazer a inscrição dos interessados e também de verificar o preço da propriedade escolhida para a instalação do grupo (figura 1).

23 10 De acordo com as normas do programa, o prazo para pagamento da terra é de 20 anos, com juros de 8% ao ano, com carência de 36 meses, ou seja, as famílias têm apenas três anos para se consolidar e iniciar o pagamento da terra. Segundo MEDEIROS (2003, p. 59), o grupo formado pelos interessados em obter as terras através do programa deveria atender simultaneamente a oito requisitos básicos: 1. Todos devem ser produtores rurais sem-terra ou com pouca terra (caracterizada como minifúndio); 2. Ser chefe de família; 3. Maior de idade ou emancipado; 4. Ter experiência de no mínimo cinco anos na atividade agropecuária; 5. Ter interesse em adquirir terra por meio de compra e desenvolver atividades produtivas sustentáveis; 6. Encontrar um proprietário disposto a negociar sua terra; 7. Assumir o compromisso de reembolsar as quantias financiadas; 8. As terras almejadas para a compra não poderiam estar ou ser ocupadas; As regras do Banco da Terra, mais uma vez comprovam as verdadeiras intenções do governo com a sua criação. Além de desmobilizar os movimentos sociais, também objetiva privatizar a reforma agrária no Brasil, tendo o respaldo financeiro do Banco Mundial, como argumenta Alentejano: Diante da incapacidade de derrotar politicamente o MST durante o primeiro mandato, o governo FHC decidiu mudar suas táticas. Se antes as armas eram a propaganda do INCRA e a condenação dos métodos do MST visando convencer de que o governo estava fazendo a sua parte, e o MST atua orientado por uma radicalidade descabida a partir deste momento, o governo muda suas armas, passando a centrar suas ações em duas frentes: (1) intensificação da repressão, através da criminalização das ações do movimento e da perseguição de suas lideranças; (2) alteração das regras da política de obtenção de terras e de financiamento da produção, de modo a minar as duas fontes básicas de oxigenação do movimento, quais sejam a concretização da desapropriação das terras ocupadas e o bom desempenho de alguns assentamentos vinculados ao MST, diante da situação de penúria generalizada da agricultura familiar. (2000 p ). Um grave problema identificado está expresso no artigo 4º da lei de criação do programa (Anexo A). Trata-se da responsabilidade operacional e administrativa

24 11 dos estados e municípios, dando assim maior margem para fraudes e aumento dos índices de irregularidades nas operações, pois, Ao eleger o Banco da Terra como instrumento fundamental de obtenção de terras e propor a descentralização das ações fundiárias, transferindo a maior parte da responsabilidade para o âmbito municipal num país tradicionalmente dominado pelas oligarquias locais o governo não só busca desarticular o movimento, apostando na incapacidade deste de se contrapor ao poder local, como aposta na desmobilização dos sem terra, pois oferece, teoricamente, a possibilidade de obtenção de terra sem necessidade de mobilização, pressão política e tampouco sacrifícios. (ALENTEJANO, 2000, p. 97). Outro problema da nova política de obtenção de terra foi a extinção do Programa de Crédito Especial para a Reforma Agrária PROCERA, mais abrangente que o seu substituto, o PRONAF em 1995, como explica GOMES: As políticas públicas de desenvolvimento rural que serão implantadas ao longo de oito anos de governo F.H.C. reforçarão a todo o momento a orientação mercantil. Até conquistas políticas alcançadas pelos movimentos sociais rurais organizados, como o PROCERA, serão substituídas por programas de ajuda à agricultura familiar como um todo (sem diferenciar o segmento dos assentamentos via reforma agrária), nos quais o produtor se integra mais profundamente na lógica do mercado, com o PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). (2004, p. 44). Com o fim do segundo mandato de F.H.C. e início do primeiro mandato do governo Lula, em novembro de 2003, o Banco da Terra foi substituído pelo Programa Nacional de Crédito Fundiário PNCF. Programa que segue a mesma linha neoliberal, vinculado ao Banco Mundial e com características muito semelhantes aos do governo anterior. As poucas diferenças estão relacionadas à taxa de juros, que no Banco da Terra eram 8% ao ano, e no PNCF é de 6,5%, e nos prazos de carência e pagamento. No Banco da Terra eram 3 anos de carência e 17 para pagamento, já no PNCF os prazos são 2 e 15 anos respectivamente. As linhas de crédito criadas são: Combate à Pobreza Rural, Nossa Primeira Terra e Consolidação da Agricultura Familiar. Para Rezende e Mendonça (2004 p. 77): Os programas Combate à Pobreza Rural e Nossa Primeira Terra são idênticos aos programas Cédula da Terra e Crédito Fundiário de Combate à Pobreza do governo F.H.C. Da mesma forma, o Banco da Terra tem as mesmas características do Consolidação da Agricultura Familiar. Ou seja, são os mesmos programas apenas com pequenas modificações, mas a concepção central da mercantilização da reforma agrária permanece igual.

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