UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO FACULDADE DE CIÊNCIAS DA ADMINISTRAÇÃO DE PERNAMBUCO MBA - ESPECIALISTA EM GESTÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO

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1 UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO FACULDADE DE CIÊNCIAS DA ADMINISTRAÇÃO DE PERNAMBUCO MBA - ESPECIALISTA EM GESTÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO EXCELÊNCIA NO ATENDIMENTO AO PÚBLICO: mudanças de paradigma e estabelecimento de padrões de qualidade na recepção e triagem das promotorias de justiça de Pernambuco. RECIFE

2 ISABEL DE LIZANDRA PENHA ALVES MARIA APARECIDA ALCÂNTARA SIEBRA MARIA DE FÁTIMA DE ARAÚJO FERREIRA EXCELÊNCIA NO ATENDIMENTO AO PÚBLICO: mudanças de paradigma e estabelecimento de padrões de qualidade na recepção e triagem das promotorias de justiça de Pernambuco. Monografia apresentada à Faculdade de Ciência da Administração de Pernambuco, da Universidade Estadual de Pernambuco, como requisito para a obtenção do Título de Especialista em Gestão do Ministério Público, orientada pela Professora Mestra, Derçulina Tavares Novaes. RECIFE

3 ISABEL DE LIZANDRA PENHA ALVES MARIA APARECIDA ALCÂNTARA SIEBRA MARIA DE FÁTIMA DE ARAÚJO FERREIRA EXCELÊNCIA NO ATENDIMENTO AO PÚBLICO: mudanças de paradigma e estabelecimento de padrões de qualidade na recepção e triagem das promotorias de justiça de Pernambuco. Data de aprovação: / / Nota: RECIFE

4 EPÍGRAFE Idealizo a transformação do Ministério Público em Ministério Público Social. Um Ministério Social em ação, ação mesmo, com fins e também meios próprios contra não só as ilegalidades mas, principalmente, contra as injustiças. Os privilégios, os pesos e medidas desiguais são inconstitucionais. Assim, o Ministério Público evoluiria para assumir a responsabilidade daquilo que é mais significativo na ordem jurídica a paz social pela justiça social, tarefa máxima da democracia na atual conjuntura da humanidade. O Ministério Público Social procurará dar a cada um o que é seu, mas sobretudo, acudir a quem nada tem de seu, a quem quer, mas não pode, viver honestamente, a quem, apesar de tudo, não prejudique ninguém. O Procurador Geral será mesmo geral e tornará prática e total a expressão mais profunda de nossa nomenclatura funcional Promotor de Justiça. Um Ministério Público Social promoverá a justiça social, cuidará dela e não só de uma justiça pública, estatal, oficial. A ordem jurídica seria adaptada aos dramas contemporâneos. A primazia nos benefícios pertenceria aos mais necessitados. A tranqüilidade de consciência do Ministério Público depende de avanço que ele mesmo executará. (Roberto Lyra, o príncipe dos Promotores de Justiça, profetizando em 1952, o futuro do Ministério Público). 13

5 DEDICATÓRIA A Deus, nosso Senhor e Salvador, a quem devemos tudo o que somos. Aos nossos pais, pelo amor, dedicação e infindável paciência. Ao amigo, Antônio Fernandes de Oliveira Matos Júnior, mente brilhante, amigos de todas as horas, verdadeiro presente de Deus em nossas vidas, pelo inesquecível convívio que tivemos e por tudo e não foi pouco que com ele aprendemos. Ao amigo Tiago de Oliveira, pelo apoio técnico na confecção dos gráficos e tabelas, bem como o carinho, incentivo e dedicação de todas as horas. 14

6 AGRADECIMENTOS Nosso especial agradecimento a Professora Mestra, Derçulina Tavares Novaes, por sua generosidade, paciência, ensinamentos e conselhos, fundamentais à realização deste trabalho. Ao meu amigo e irmão de alma, Tiago de Oliveira, pelo incentivo, apoio e compreensão, e em especial, pela sua disponibilidade, meus sinceros agradecimentos. Aos amigos, José Raimundo Gonçalves de Carvalho e Maria Lizandra Lira de Carvalho, pelo carinho e estímulo. 15

7 RESUMO Este projeto apresenta uma sugestão funcional na área de excelência no atendimento ao público dentro da Instituição Ministério Público de Pernambuco. Analisando a qualidade do atendimento ao público, a fim de demonstrar a necessidade de estruturar o atendimento ao povo dentro da Instituição de forma a dar mais agilidade e eficiência, a este canal de comunicação entre o Ministério Público e a população mais carente, e encontra-se dividido em seis capítulos. O primeiro é de considerações introdutórias ao tema. O segundo capítulo faz uma breve evolução do Ministério Público inserido no contexto histórico. O terceiro consiste na configuração constitucional do Ministério Público, em que são apresentados as características, princípios, garantias, vedações e rumos funcionais, ressaltando a relevância da instituição para o direito social e a consolidação do Estado Democrático de Direito. O quarto reflete sobre a interação existente entre o promotor de justiça e a população, através do atendimento ao público, em estudo comparativo com a instituição Ministério Público em outros países, sendo tal simbiose singular, não ocorrendo nas demais democracias sociais do mundo. O quinto disserta sobre o atendimento ao público como meio de efetivação do Ministério Público Social e garantia do acesso à justiça. Por derradeiro, utilizando-se da pesquisa de campo, o sexto capítulo mostra o funcionamento do atendimento ao público realizado pelo Ministério Público de Pernambuco, bem como a necessidade de estabelecer padrões de qualidade. Após são apresentadas considerações finais acerca do tema e recomendações que viabilizem o aprimoramento do atendimento ao público realizado nas promotorias de justiças de Pernambuco. Palavras-chave: Atendimento ao Público. Padrões de Qualidade. Acesso a Justiça. Estado Democrático de Direito. Ministério Público. 16

8 ABSTRACT This project presents a functional suggestion in the area of excellence in the service to a public inside the Institution Public prosecution service of Pernambuco. Analysing the quality of the service to a public, in order to demonstrate the necessity of structuring the service to the people inside the Institution of form to give more agility and efficiency, to this channel of communication between the Public prosecution service and the most wanting population, and it is divided in six chapters. The first one is of introductory considerations to the subject. The second chapter does a short evolution of the Public prosecution service inserted in the historical context. The third thing consists of the constitutional configuration of the Public prosecution service, in which there are presented the characteristics, beginnings, guarantees, fences and functional courses, emphasizing to relevance of the institution for the social right and the consolidation of the Democratic State of Right. The room thinks about the existent interaction between the promoter of justice and the population, through the service to a public, about comparative study with the institution Public prosecution service about other countries, being such singular symbiosis, when too many social democracies of the world not are taking place in. The fifth one speaks on the service to a public I eat a bit of efetivação of the Social Public prosecution service and guarantee of the access to the justice. For last, making use of the field work, the sixth chapter shows the functioning of the service to a public carried out by the Public prosecution service of Pernambuco, as well as the necessity of establishing quality standards. After final considerations are presented about the subject and recommendations that viabilizem the aprimoramento of the service to a public carried out in the prosecutor's offices of justices of Pernambuco. Key Words: Service to a Public. Quality standards. I access the Justice. Democratic State of Right. Public prosecution service. 17

9 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO EVOLUÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO INSERIDO NO CONTEXTO HISTÓRICO Histórico remoto Origem francesa Histórico brasileiro A CONFIGURAÇÃO CONSTITUCIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO BRASILEIRO Características e rumos funcionais Princípios, garantias e vedações mantenedores A relevância da instituição para o direito social O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E O ATENDIMENTO AO POVO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO A simbiose entre o Estado Democrático de Direito e o Ministério Público O Ministério Público em outras democracias sociais O atendimento ao público pelo Ministério Público ATENDIMENTO AO PÚBLICO COMO MEIO DE EFETIVAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO SOCIAL E ACESSO À JUSTIÇA O atendimento ao público como forma de acesso à justiça Ouvidoria social METODOLOGIA Da metodologia da pesquisa Da avaliação da pesquisa aplicada Do contingente e forma de aplicação das pesquisas Da análise dos dados coletados na pesquisa...45 CONSIDERAÇÕES FINAIS...59 RECOMENDAÇÕES...61 REFERÊNCIAS...64 APÊNDICES

10 ANEXOS INTRODUÇÃO Este projeto tem por escopo demonstrar a evolução institucional do Ministério Público brasileiro e seu dever funcional de atender à sociedade, para bem defender os interesses sociais e outros direitos dos cidadãos, dos quais trata a Constituição Federal de Nos termos do art. 127, caput, da Constituição Federal de 1988, o Ministério Público é uma instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbido da defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Funcionará, pois, como verdadeiro defensor da sociedade. Assim, uma das principais atribuições desenvolvidas na atividade fim ministerial é o atendimento ao público. O presente projeto visa apresentar uma sugestão funcional na área de excelência no atendimento ao público dentro da Instituição Ministério Público. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica a fim de fomentar o embasamento teórico do tema, bem como a pesquisa de campo para demonstrar como vêm atuando os membros do parquet, para colocar em prática seu dever de defender o regime democrático. A estrutura encontra-se dividida em 6 capítulos, sendo o primeiro introdutório. O segundo capítulo relata a história da figura do promotor, desde seus traços do magiaí egípcio ao berço da instituição, francês. No Brasil, chegou por meio das ordenações portuguesas, crescendo a cada nova Constituição, até libertar-se dos demais poderes e ser consagrado como função essencial à justiça. O terceiro capítulo enfrenta a nova formatação ministerial dada pela Carta Magna de Para que o promotor pudesse atuar como agente político no cenário nacional, defensor das minorias e instrumento de efetivação do direito social, foram traçados princípios, garantias, e ações judiciais dos quais ele deve valer-se. 19

11 O quarto capítulo demonstra a relação de dependência entre estado democrático de direito e Ministério Público, ficando transparente, através de pesquisa no direito comparado, que a amplitude de legitimação do parquet é inversamente proporcional à organização da sociedade. A interação que ocorre entre a população e o promotor, através do atendimento ao público, é singular, não ocorrendo nas demais democracias sociais. O quinto capítulo evidencia como o Ministério Público organiza-se para colocar em prática a função de defensor do povo. Através do atendimento ao público e materializando acordos extraprocessuais, a promotoria de justiça, com atribuição da defesa da cidadania, pela justiça social, tarefa máxima da democracia na atual conjuntura da humanidade, torna efetivo os direitos dos cidadãos. O sexto capítulo tratará sobre a pesquisa de opinião aplicada nas promotorias de justiça para verificar a qualidade no atendimento ao público realizado pelo Ministério Público de Pernambuco. Após, serão apresentadas as considerações finais acerca do tema, sugerindo-se recomendações que viabilizem o aprimoramento do atendimento ao cidadão, no Ministério Público de Pernambuco, os apêndices referentes à metodologia aplicada na pesquisa e o anexo com a legislação infraconstitucional sobre o tema. 2 EVOLUÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO INSERIDO NO CONTEXTO HISTÓRICO 2.1 Histórico remoto Realizar um estudo sobre o que hoje constitui o Ministério Público demonstrará seu aprimoramento de funções e crescente autonomia em relação aos poderes estatais. O promotor de justiça atual há que fazer opção ideológica por interferir positivamente na realidade, de modo que o operador crítico, que assombra a história do direito, transforme-se em protagonista de um novo compromisso social. É necessário levar a sociedade à perceber o novo jeito de operar o 20

12 direito, daí a necessidade de atuar como canal condutor e entregar-se à efetivação dos justos anseios sociais. É preciso lutar para que a história da humanidade não se ligue ao aumento da violência, mas sim à busca da paz social. Várias foram às figuras históricas assemelhadas ao promotor de justiça. No Egito houve a concepção da instituição com o funcionário egípcio chamado magiaí, há cerca de 4000 anos a.c, que segundo MAZZILLI, era:... a língua e os olhos do rei; castigava os rebeldes, reprimia os violentos, protegia os cidadãos pacíficos; acolhia os pedidos do homem justo e verdadeiro, perseguindo o malvado mentiroso; era o marido da viúva e o pai do órfão; fazia ouvir as palavras de acusação, indicando as disposições legais que se aplicam ao caso; tomava parte das instruções para descobrir a verdade. 1 Também se encontram vestígios do promotor público no período da antigüidade clássica, em Roma, porém muito diferente do atual, já que os censores faziam investigações sobre a vida dos indivíduos e não sobre fatos legalmente previstos e levados a juízo como atualmente se faz. Além daqueles, haviam os procuratores caesaris que atuavam na defesa do fisco e não eram titulares da ação penal cuja titularidade pertencia ao povo. Sobre o tema, MOURA ROCHA, procurador de justiça em Recife, historia : Criados por volta do ano de 435 a.c., os censores, tinham por atribuição organizar os cidadãos pelas diversas classes existentes em Roma e as listas de senadores e chevaliers, especialmente, proceder uma verdadeira investigação na vida inteira daqueles que compunham tais listas com o fito de, encontrando algo repreensível apresentar a nota de infâmia, o que embora fosse uma sanção puramente moral, e não propriamente jurídica, possuía uma eficácia social notável(...). 2 Ainda segundo MOURA ROCHA, na Grécia haviam os thesmotetis de grande importância no controle da administração pública, já que sua função era basicamente de denunciar empregados públicos e sustentar a acusação perante a assembléia e o senado onde estavam os representantes do povo. 3 1 MAZZILLI, H. N. Manual do promotor de justiça. 2. ed. ampl. e atual. São Paulo: Saraiva, p MOURA ROCHA, J. E. D. de. Ministério Público no estado democrático de direito. Recife: Procuradoria de Justiça, p Idem ibidem. 21

13 Avançando na linha da história chega-se à Idade Média, na qual o mundo viveu um completo caos social, em razão do poder dividir-se entre o Estado, representado pelo monarca e a igreja católica, que possuía o controle da população por meio da fé monoteísta. Tais circunstâncias impediam que o homem desenvolvesse qualquer manifestação de pensamento que fosse contrário aos ideais desses institutos. Do período da Idade Média, conforme MAZZILLI, foram encontrados alguns traços sensíveis do promotor nos saions germânicos, ou nos bailios e senescais, atuantes como defensores dos senhores feudais em juízo. Na Alemanha havia, ainda, o comum acusador, que só atuava na acusação se houvesse a inércia do particular. 4 É do período medieval o desenvolvimento do procedimento inquisitório do direito canônico, com o qual firmou-se a divisão entre jurisdição civil e penal. À época, o autor levava a acusação de heresia à autoridade pública, oralmente ou por escrito. Meros boatos já proporcionavam a investigação por parte do inquisitor, comparável ao inquérito criminal utilizado atualmente. Vem daí a tendência da perseguição do acusado por parte do estado (na época intimamente ligado à igreja), consubstanciando-se hoje na ação penal pública cuja legitimidade ativa pertence exclusivamente Ministério Público. Tomando-se por base este último período, fica mais fácil compreender o porquê da imagem do promotor acusador, até hoje, superposta às demais funções desempenhadas pelo Ministério Público. Devido a esta passagem histórica marcante criou-se uma crença popular que dificulta o leigo de assimilar a idéia de um Ministério Público democrático, com cheiro de povo, compromissado com a verdade, com a realização plena da criatura humana e defensor dos direitos coletivos. 2.2 Origem francesa Merece destaque a origem mais usualmente comentada pela doutrina. 4 MAZZILLI, H. N. Regime jurídico do Ministério Público. 3. ed. rev. ampl. e atual. São Paulo: Saraiva, p

14 Conforme explana MOURA ROCHA, surgiram ainda na França medieval os procureurs du roi, inspirados no saion germânico. Passou de defensor da lei fiscal à fiscal da lei (em sentido genérico) e defensor dos oprimidos. Durou até o século X, época da decadência do reino francês e simultânea influência da igreja, que utilizou para si tal defensor, denominando-o advocatus. Posteriormente o poder real foi reconstruído apresentando o baillis para defendê-lo. 5 Observa-se nesse defensor real a mais comum indicação de nascimento do Ministério Público, cuja certidão é a Ordenança de 25 de março de 1302, de Felipe IV, o Belo, rei da França, o qual exigia dedicação exclusiva às causas reais. Interessante perceber que a etimologia da palavra ministério se prende ao vocábulo latino manus, querendo significar a mão do rei, hoje, mão da lei. Com a revolução francesa e seus ideais foram trazidas maiores garantias à instituição e seus integrantes. Posteriormente, os textos de Napoleão Bonaparte vieram instituir o que hoje se conhece por corpo de oficiais do Ministério Público na França, ou seja, o parquet. RASSAT 6 lembra que por decreto, em 1790, deu-se vitaliciedade aos membros do Ministério Público, sendo que outro decreto, no mesmo ano, dividiu as funções do Ministério Público em comissário do rei e acusador público. O primeiro era nomeado pelo rei velando pela aplicação da lei e execução dos julgados. O segundo era eleito pelo povo, promovendo apenas a acusação. O homem pós-revolução francesa, ávido de praticar a liberté, egalité et fraternité, deu início a uma tomada de consciência de seus direitos e de seus deveres como membro da sociedade. O século XVIII, para se tomar como ponto de reflexão, foi marcado por grandes transformações no âmbito mundial, principalmente no que diz respeito aos valores atribuídos aos cidadãos, em função de novos ideais trazidos pelo iluminismo, tais como democracia e liberdade. Encerrou-se aí um longo período de escuridão que praticamente suprimiu qualquer manifestação de pensamento. 5 MOURA ROCHA, J. E. D. de. Op. cit., p Apud MAZZILLI, H. N. Op. cit., p

15 Com a projeção individualista da revolução francesa consolidaram-se aquelas conquistas que, assim, caminharam para o pacífico destino de princípios fundamentais e elevaram o Ministério Público como força social. Posteriormente, a revolução industrial, conseqüência do mercantilismo, gerou uma grande concentração populacional buscando comida e emprego. O Estado passou a ser mais exigido por meio de uma atividade político social, devendo zelar pelo desenvolvimento da sociedade. É a passagem do Estado liberal para o Estado social. 2.3 Histórico brasileiro O promotor de justiça chegou em terras brasileiras através de nossos colonizadores: os portugueses. Tanto as ordenações Afonsinas, de 1447, quanto as Manoelinas, de 1514, apresentaram um título dedicado ao procurador de nossos feitos. Com as ordenações Filipinas de 1603 houve uma divisão entre procuradores dos feitos da coroa, da fazenda, da casa do porto e da casa de suplicação. No Brasil colônia e império não se falou em uma instituição própria, eis que os promotores eram completamente atrelados ao Poder Executivo. Este aspecto histórico colaborou para a noção contemporânea equivocada da população menos informada, de um Ministério Público supostamente condescendente, com as questões de desvio de finalidade, realizadas pela administração pública. Segundo RODRIGUES, promotor de justiça no Amazonas, a Constituição Federal de 1824 não falou em instituição e mencionou apenas que ao procurador da coroa e soberania nacional cabia acusar nos crimes em juízo. O Aviso de 16 de janeiro de 1838 foi o precursor do papel de fiscal do promotor. A lei de 03 de dezembro de 1841 unificou a atribuição fiscal com a atribuição de condenar delinqüentes. 7 A previsão das funções e requisitos para nomeação foram dadas pelo código processual criminal do império. Houve uma reforma em 1841, pela qual 7 RODRIGUES, J.G. O Ministério Público e um novo modelo de estado. Manaus: Valer, p

16 direito. 8 A Constituição de 1934 trouxe inovações dedicando um título à ordem passou-se a exigir o requisito de bacharel idôneo na nomeação dos promotores públicos. A Constituição Republicana de 1891 foi responsável por institucionalizar nova ordem. Esta constituição estabeleceu a forma de estado federado, a forma de governo republicano e o sistema de governo presidencial. Já em relação ao Ministério Público, apenas mencionou que o procurador geral de justiça seria indicado pelo Presidente da República. O Decreto nº 1030/1890 serviu de estatuto do Ministério Público. Rezava o art. 164, do referido decreto, transcrito na obra de RODRIGUES: O Ministério Público é, perante as justiças constituídas o advogado da lei, o fiscal de sua execução, o procurador dos interesses gerais do Distrito Federal e o promotor da ação pública contra todas as violações do econômica e social. Criou a justiça do trabalho, o salário mínimo, instituiu o mandado de segurança, recepcionou a ação popular e manteve a justiça eleitoral. Com relação ao Ministério Público traçou normas gerais de organização, representando o primeiro passo à categoria de instituição. Notese que as significativas previsões dos direitos sociais deram-se ao mesmo tempo do avanço da autonomia do Ministério Público. A Constituição de 1937 foi produto de um regime ditatorial, e naturalmente retirou atribuições conquistada pelo órgão defensor da sociedade, subordinando-o totalmente ao executivo. Felizmente a dignidade da instituição foi restituída pela lei fundamental de 1946, que admitiu sua independência em relação aos demais poderes (executivo, legislativo e judiciário), a estrutura federativa, a estabilidade de seus membros e a promoção de carreira, conforme expôs RODRIGUES 9. A instituição passou a ser apêndice do Poder Judiciário em 1967 e do executivo em 1969, ou seja, sem independência funcional, financeira e administrativa. 8 Idem Ibidem., p RODRIGUES, J. G.Op. cit., p

17 Finalmente, após muitos avanços e retrocessos, o Ministério Público chegou à condição de instituição independente e autônoma, por via constitucional, em Muitos textos legais foram projetando a previsão constitucional, afinal alcançada, como por exemplo: a Lei Complementar 40/81, que trazia atribuições, garantias e vedações da instituição; a Lei da ação civil pública, que conferiu legitimidade ativa ao promotor para que viesse a intervir em questões de interesse de todo cidadão; a Carta de Curitiba, resultado da primeira reunião do Ministério Público em nível nacional, em 1986, quando foram traçadas propostas para a nova constituição da República. Reconhecidamente foi o Ministério Público a instituição que mais viu ampliada suas atribuições no texto da nova ordem constitucional. Tal fato, a princípio, foi considerado, por alguns, como resultado de intenso lobby, por parte da Confederação Nacional do Ministério Público nos corredores do Congresso Nacional. Todavia, o que realmente pesou foi a atuação eficiente de promotores e procuradores no desempenho diário de suas funções e o próprio momento político, proporcionador de crescente desigualdade social e econômica. O promotor surgiu pela nova constituição como agente político não partidário. Na seqüência, a partir da nova atuação do Ministério Público, o executivo sentiu a pressão e acusou esses defensores do povo de deslumbramento com o poder alcançado, elaborando leis visando calar a voz ministerial. PACELLI noticiou assim a seqüência de tentativas, em propor leis, do executivo A primeira foi em 1997, quando o governo mandou ao Congresso um projeto que previa multa, perda do cargo e até prisão para os procuradores que divulgassem o conteúdo de processos em tramitação. O projeto apelidado de lei mordaça, foi aprovado na Câmara, mas gerou tanta controvérsia que hoje se encontra num fundo de gaveta no Senado. No início do ano passado, o governo voltou à carga, enfiando a punição no âmbito da reforma do Judiciário, mas a idéia novamente não vingou. Agora, com uma medida provisória, o governo criou multa que chega à até reais contra os procuradores, e outros agentes públicos, que peçam a abertura de ações consideradas infundadas contra autoridades públicas PACELLI, M. Mordaça de novo. Revista Veja. São Paulo: Abril. n. 1500, ano 34, p , jan

18 É inegável que os promotores e procuradores, pela carga de poder recebida, chegam a atuar politicamente sem serem eleitos pelo voto popular. É isso que ocorre quando a instituição atua na defesa de interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos, entre outros, ligados à saúde, ao direito a escola, ao consumidor, bem como a proteção ao meio ambiente. A política está se manifestando no meio jurídico e vice-versa. É justamente esse o trabalho desenvolvido pela Promotoria de justiça e demais promotorias especializadas em vários estados do país. Cabe aos membros do Ministério Público buscar o cumprimento de suas atribuições institucionais, estabelecer bom relacionamento e a compreensão de todos os poderes, pois fazem parte de um sistema onde todas as peças precisam estar engrenadas para atingir o objetivo maior do bem estar social, preconizado pelo estado democrático de direito brasileiro. 3 A CONFIGURAÇÃO CONSTITUCIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO BRASILEIRO 3.1 Características e rumos funcionais A Constituição Federal de 1988 alinhou novos rumos funcionais à instituição, e seus artigos 127 e 129 consagraram e tornaram possível o Ministério Público social. 11 O promotor atual só realmente realiza suas funções quando escuta o clamor social, pois, como anota CAMARGO PENTEADO, procurador de justiça de São Paulo: Ser promotor é encontrar na dignidade do trabalho o caminho seguro para o progressivo aperfeiçoamento do profissional que, na plena doação à comunidade, conquista a sua realização integral como pessoa Há também a previsão dessas características nas leis especialmente dedicadas ao Ministério Público: -Lei Orgânica Nacional do Ministério Público (8625/93) que dispõe sobre normas gerais para organização do Ministério Público estadual, entre outras providências; Lei Complementar nº 75/93, que trata da organização, atribuições e estatuto do Ministério Público Federal; Lei Orgânica do Ministério Público estadual, no caso do Estado de Pernambuco, Lei Complementar nº 12/ CAMARGO PENTEADO, J. de. A ética do promotor de justiça. In: Funções institucionais do Ministério Público. ALVES, A. B. et. alii. (Orgs). São Paulo: Saraiva, p

19 Para a garantia efetiva da defesa da ordem jurídica, e do regime democrático, e também por representar uma parcela da soberania do Estado, o Ministério Público não poderia deixar de ser uma instituição permanente. Foi estruturado com independência, autonomia, garantias e prerrogativas destinadas a possibilitar o eficiente desempenho das suas funções. O Ministério Público é instituição permanente justamente por ser essencial à busca da garantia dos princípios fundamentais estatais, que devem ser preservados. Não podia ser um órgão temporário, pois se pretende que a República Federativa do Brasil, enquanto estado democrático de direito, seja eterna. É essencial também à função jurisdicional do Estado. Esta afirmação pode levar à interpretação equivocada de que deverá atuar em todas as lides e todos feitos, contudo, é essencial, mas não em todas as ações, devendo estar obrigatoriamente presente naquelas que digam respeito à defesa da ordem jurídica, do regime democrático, dos interesses sociais e individuais indisponíveis, sob pena de nulidade. O leigo, normalmente, quando pensa no promotor de justiça, não tem noção da amplitude de suas funções. Geralmente tem a idéia do promotor criminal, do acusador, sendo preciso, algumas vezes, que se esclareça aos jurados em um julgamento, por exemplo, que incumbe ao parquet promover a justiça, seja acusando ou pedindo a absolvição do réu. Antes se falava em promotor público, pela imagem acusatória; hoje deve, e é chamado promotor de justiça, pois esta é sua função primordial. Quando se fala em Ministério Público, geralmente vêm à mente as questões processuais mais tradicionais, como a promoção da ação penal pública, do artigo 24 do código de processo penal, bem como as do artigo 82 do código de processo civil. Ignoram-se as numerosas atuações extraprocessuais dos membros do Ministério Público que, quando bem desenvolvidas, evitam a lide judicial e a demora processual. Neste sentido, PORTO afirma: Oportuno destacar, também, que o Ministério Público não é órgão de atuação exclusivamente processual, pois dentre suas missões institucionais encontra-se uma gama infindável de atribuições extraprocessuais, muitas as quais desconhecidas dos demais profissionais do Direito e da própria sociedade. Por exemplo, quando instala e desenvolve inquérito civil, fiscaliza fundações, prisões e delegacias de polícia, como 28

20 também quando procede ao exame das habilitações de casamento ou homologa acordos ou ainda quando estabelece os compromissos de ajustamento. Nesta medida, nota-se que o teatro de operações do Ministério Público se alarga e extrapola a órbita judicial, daí ter dito o legislador constituinte menos do que devia, na medida em que a instituição também é essencial em tarefas não-jurisdicionais a si incumbidas. 13 Quando se trata da defesa da ordem jurídica e do regime democrático podem ser feitas diversas observações. O Ministério Público, sempre, desde o surgimento na França, quando foi previsto como instituição, teve uma posição primordial: a defesa da ordem jurídica pela via da atuação como custos legis. A nossa ordem jurídica tem por base os fundamentos do estado democrático de direito (art. 1º) e os objetivos da República Federativa do Brasil (art. 3º). É sobre esta base, caracterizada principalmente, sob o ponto de vista social, pelo respeito à dignidade da pessoa humana, bem como pela construção de uma sociedade solidária, que o Ministério Público deve fiscalizar e doar-se completamente. Reitera-se a importância de ser instituição independente. Poder-se-ia ter um Ministério Público com poder garantido através do soberano ou do chefe do executivo. Só que, em não sendo independente, acabaria instrumento à disposição do detentor do poder político e não do regime democrático, que é, nos dias de hoje, sua mais relevante incumbência. A Constituição Federal fala em defesa dos interesses sociais 14 e individuais indisponíveis 15 pelo promotor, os quais são compreendidos como integrantes do interesse público. O interesse público é mais amplo e genérico do que parece à primeira vista, não se traduzindo simplesmente em interesse do Estado. O interesse público primário é o interesse de todos, da coletividade, do elemento humano do Estado; e o secundário é o interesse da administração do Estado. Na prática, então, o membro do Ministério Público poderá inclusive acionar o próprio Estado, quando entender que aquilo que o governante imaginar ser interesse público (interesse público secundário) não corresponde ao verdadeiro interesse da coletividade (interesse público primário). 13 PORTO, S. G. Sobre o Ministério Público no processo não criminal. Rio de Janeiro: Aide, p Constituição Federal art. 6º. Exemplo: educação, saúde, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade, à infância e assistência aos desamparados. 15 Constituição Federal art. 5º. Exemplo: direito à vida, à liberdade à segurança e à propriedade. 29

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