O gosto de classe: o jogo das classificações nos espaços de consumo. 1

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1 O gosto de classe: o jogo das classificações nos espaços de consumo. 1 Janaína Vieira de Paula Jordão 2 Faculdade de Informação e Comunicação / Universidade Federal de Goiás Resumo Este trabalho pretende investigar a constituição do gosto como demarcador de classe nos espaços de consumo. Buscamos entender possíveis relações entre as posições de classe e as representações sociais sobre o que constituiriam as altas e as baixas camadas da sociedade, e, dentro dessas representações, buscamos mapear a importância e a própria noção do gosto. Além disso, pretendemos investigar se há a apropriação dos conteúdos midiáticos no que se refere à nomeação de uma nova classe média. Foi feita a análise quantitativa de dados qualitativos a partir de 100 questionários aplicados em espaços de consumo de Goiânia. O que se poderá notar é que a formação de um gosto elevado depende de atributos que são também definidores de posições de classe. E que, apesar de a observação da presença de um novo público nos espaços de consumo ser pouco expressiva, quase a totalidade da amostra afirma a existência de uma nova classe média. Palavras-chave: Classes sociais; gosto; nova classe média ; consumo; comunicação. Gosto de classe. Trabalhar um conceito de classe social não é uma tarefa descomplicada. São várias correntes, com diferentes pressupostos, o que requer do pesquisador delimitar quais são as suas filiações teóricas para orientar a compreensão e a definição inclusive dos métodos de investigação. Não entendemos que um conceito de classe possa 1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho Comunicação e Consumo: materialidades e representações da cidadania, do 4º Encontro de GTs - Comunicon, realizado nos dias 08, 09 e 10 de outubro de É doutoranda em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás, é mestre em Comunicação pelo Programa de Pós- Graduação em Comunicação da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, e Professora no Curso de Publicidade e Propaganda da FIC/UFG. Bolsista da FAPEG Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás.

2 capturar toda a estrutura de uma sociedade, uma vez que há outros aspectos que vão definir as relações sociais, como gênero, patriarcalismo, etnia etc. Mas, segundo Miliband (1999), o ser social é constituído por diferentes aspectos, mas a classe é um deles, podendo incidir na vida das pessoas como uma das formas de dominação. Uma mulher poderá estar sujeita a uma cultura machista, mas o fato de estar em classes altas ou baixas pode mudar como ela vai lidar com as relações de dominação desta cultura. Assim, consideramos importante o estudo das classes sociais, pois a classe pode funcionar como um potencializador de diferentes aspectos da vida humana, aumentando ou diminuindo os acessos às oportunidades de vida. Até por uma questão de espaço e do tema, não vamos fazer a tentativa de uma revisão bibliográfica desta vasta discussão. De antemão, deixamos claro que não pensamos na detenção dos meios de produção como o maior diferenciador entre classes opostas burgueses e operários a partir da teoria marxista. Entendemos, na esteira do pensamento de Weber (2009), que o prestígio também é uma forma de distribuição de poder na sociedade. Ou seja, não é somente o viés econômico que define a posição de uma pessoa na estrutura social. Nos termos de Bourdieu, além do capital econômico, há o capital cultural, o social e também o simbólico (o prestígio), contribuindo para este posicionamento. Para o autor, podemos recortar classes no sentido lógico do termo, quer dizer, conjuntos de agentes que ocupam posições semelhantes e que, colocados em condições semelhantes e sujeitos a condicionamentos semelhantes, têm, com toda a probabilidade, atitudes e interesses semelhantes, logo, práticas e tomadas de posição semelhantes (BOURDIEU, 2012, p.136) [grifo do autor]. Na cultura de consumo, os objetos, as roupas, a aparência podem funcionar como um demarcador de classe, pelas semelhanças das escolhas por pessoas de diferentes classes sociais. Ou seja, o objeto consumido é a parte mais visível do gosto de uma pessoa ou grupo. Segundo Douglas e Isherwood (2009), os bens têm significados sociais (são comunicadores) e servem para estabelecer e manter relações sociais. Assim, a função essencial do consumo é a sua capacidade de dar sentido.

3 Esqueçamos a idéia da irracionalidade do consumidor. Esqueçamos que as mercadorias são boas para comer, vestir e abrigar; esqueçamos sua utilidade e tentemos em seu lugar a ideia de que as mercadorias são boas para pensar: tratêmo-las como um meio não verbal para a faculdade humana de criar (DOUGLAS; ISHERWOOD, 2009, p. 108). E mais: o consumo é relacional. Afinal, todo consumo é feito com o objetivo de se distinguir, mesmo que não haja a intenção, de forma a caracterizar os grupos por estilos de vida diferentes no espaço social (BOURDIEU, 2012). E o operador que faz com que as diferenças da ordem física o objeto consumido ou a maneira de consumir - tenham acesso à ordem simbólica maior ou menor grau de prestígio - é o gosto. Segundo Bourdieu (2007), o olhar puro é uma invenção histórica. Ao contrário de ideologias que pretendem atribuir ao gosto um caráter de dom da natureza, a observação científica mostra que as necessidades culturais são o produto da educação e estão associadas ao nível de instrução e à origem social (BOURDIEU, 2007, p. 9). O gosto classifica aquele que procede à classificação: os sujeitos sociais distinguem-se pelas distinções que eles operam entre o belo e o feio, o distinto e o vulgar; por seu intermédio, exprime-se ou traduz-se a posição desses sujeitos nas classificações objetivas (BOURDIEU, 2007, p. 13). O gosto, desta forma, pode classificar tanto pessoas, quanto grupos. Bourdieu (2007) afirma a existência de um habitus 3 de classe, já que, para o autor, classe é definida não só por como é identificada através de índices (profissão, renda, nível de instrução), mas também por características auxiliares que podem funcionar como princípios reais de exclusão e seleção, mesmo que nunca formalmente enunciados. Aliás, o gosto pode ser parte da estratégia nas lutas simbólicas que se travam para se manterem as distâncias entre as classes sociais, através das classificações (Bourdieu, 2007, p. 234). 3 Habitus, segundo Bourdieu, é o princípio gerador de práticas objetivamente classificáveis e, ao mesmo tempo, sistema de classificação (principium divisionis) de tais práticas. [...] Na relação entre as duas capacidades que definem o habitus, ou seja, capacidade de produzir práticas e obras classificáveis, além da capacidade de diferenciar e de apreciar essas práticas e esses produtos (gosto), é que se constitui o mundo social representado ou seja, o espaço dos estilos de vida. (BOURDIEU, 2007, p.162, grifos do autor).

4 E são essas classificações que buscaremos mapear neste trabalho. Fomos aos seguintes espaços de consumos, justificados pela suposição de predominância de pessoas de diferentes classes sociais, e aplicamos ao todo 100 questionários: a) Aeroporto Santa Genoveva, objetivando encontrar respondentes das classes altas, devido ao ainda alto valor de passagens aéreas praticado no Brasil; b) Feira da Lua, que acontece em uma região nobre da cidade, e que comercializa desde vestuário, objetos de decoração e alimentos. Na Feira da Lua 4, esperávamos encontrar pessoas das camadas médias e médias altas; e c) Camelódromo de Campinas, também tradicional na cidade, que comercializa também, entre outros, vestuário, alimentação e produtos de informática. No Camelódromo, esperávamos aplicar os questionários prioritariamente para pessoas das camadas sociais mais baixas. Estratificação social Como a proposta do trabalho é entender quais os atributos que as pessoas consideram para formar suas opiniões a respeito do gosto de diferentes classes sociais, tivemos que utilizar um critério de estratificação para situar os respondentes, consonante com o conceito de classe utilizado. Com base na estratificação sócioocupacional proposta por Quadros (2008), vamos delimitar o que entendemos ser cada camada, de acordo com a renda e as características ocupacionais (que dão pistas sobre anos de estudo, prestígio da ocupação e característica manual ou não manual de trabalho). Fazem parte da classe alta, para Quadros (2010): pessoas da alta classe média e da classe alta, que têm acesso à educação, moradia, transporte e planos de saúde de melhor qualidade. O grupo de ocupações é composto por empresários, médicos, engenheiros, professores universitários, juristas, entre outros. A média classe média 4 A Feira da Lua acontece desde 1993, na Praça Tamandaré, em uma região nobre de Goiânia, e que comercializa desde vestuário, objetos de decoração e alimentos. A estimativa é que passem na feira, por cada sábado, aproximadamente 10 mil pessoas, de diferentes classes sociais. Devido à observação do público frequentador e com base na localização geográfica da Feira, esperávamos encontrar pessoas das camadas médias e médias altas, o que de fato ocorreu no momento da estratificação dos respondentes.

5 ou simplesmente classe média - é formada por gerentes, professores de nível médio, profissionais da segurança pública, militares, enfermeiras, trabalhadores de nível técnico etc. Com algum sacrifício no orçamento familiar, as pessoas da classe média buscam um padrão de vida parecido com o da classe alta. Já a baixa classe média que seria a nova classe média ou nova classe trabalhadora é formada por auxiliares de enfermagem, auxiliares de escritório, recepcionistas, garçons, barbeiros, cabeleireiras, manicures, motoristas, entre outros. Seria, segundo o autor, muito contorcionismo intelectual para incluí-los na classe média, já que são pessoas com acesso a um ensino de baixa qualidade e a planos de saúde precários. Também são precárias as condições de habitação, transporte, segurança, alimentação, cultura e lazer. É este segmento que teve maior dinamismo social com a estabilização da economia, o acesso ao crédito e as políticas de transferência de renda. E a classe baixa é formada por segmentos mais baixos de trabalhadores assalariados e autônomos, os trabalhadores domésticos, os trabalhadores rurais e os miseráveis. Apesar da nomenclatura baixa classe média, consideramos, em concordância com Quadros e Antunes (2001), Scalon e Salata (2012), Ronsini (2012) e Souza (2012) que este estrato faz parte da camada inferior na estratificação, e não na classe média, ou de uma nova classe média, pela característica do estilo de vida proporcionado pelas ocupações e pelo caráter manual do trabalho. Definido o critério de estratificação, podemos passar agora para a análise das representações sociais. As representações sociais sobre classes altas e baixas. Para entendermos quais são nas representações sociais os atributos para diferenciar as pessoas de classes altas e baixas, avaliamos o grau de importância de algumas características, como dinheiro, cultura, beleza, bons modos, oportunidades, higiene, vontade de trabalhar, bom gosto e aparência. As respostas foram divididas em muito importante, um pouco importante e não é importante. Dinheiro é muito importante para todas as classes tendo a maior frequência na classe alta, com 100% das opiniões. Cultura também é muito importante para todas as

6 classes, especialmente para a classe média (67,6%) e baixa classe média (72,4%). Beleza divide as opiniões: no total da amostra, a soma de muito importante e um pouco importante corresponde a 54%, tendo as maiores frequências na classe alta, média e baixa. Somente a baixa classe média teve um expressivo índice em não é importante (55,2%). No quesito aparência, a importância aumenta. No total da amostra, 68% considera alguma importância, ficando equilibradas as opiniões nas diferentes classes. Somando-se muito e um pouco importante, aparência conta para 75% da classe alta, 64,7% da classe média, 72,4% da baixa classe média e 65,5% da classe baixa. Bons modos também importam em alguma medida para 81% do total da amostra, tendo os maiores índices na classe média (50%) e baixa classe média (62,1%). 68% do total da amostra considera higiene como um atributo que importa em alguma medida para a diferenciação de classes altas e baixas, tendo os maiores índices nas classe média (52,9%) e baixa classe média, esta última com 62,1%. Também esta classe apresenta a maior frequência de respostas muito importante para o atributo vontade de trabalhar, com 69%, seguida pela classe alta, com 62,5%. O bom gosto é em alguma medida importante para 63% do total da amostra, sendo que, na classe alta, 75% dos respondentes veem importância; 61,8% na classe média; 58,6 na baixa classe média; e 65,5% na classe baixa. Ou seja, podemos observar que, além do capital econômico e cultural, beleza, aparência, bons modos, higiene, vontade de trabalhar e bom gosto também contam como elementos de classificação. Isso nos chama a atenção, uma vez que podem ser percebidos preconceitos geralmente velados na diferenciação entre ricos e pobres, que são encontrados nas interações do dia a dia, em frases como sou pobre, mas sou limpinho, ou em observações que determinado lugar está dando muita gente feia. Também a cultura meritocrática pode ser observada pelo quesito vontade de trabalhar, como se uma estagnação social pudesse ser percebida como falta de vontade de trabalho. Existe também a representação de que as pessoas das classes mais baixas se comportam de forma diferente em público. Somando-se as opiniões muito diferente

7 e um pouco diferente, 90% do total da amostra considera em alguma medida a diferença, estando o maior índice na baixa classe média, seguida pela classe média, classe baixa e classe alta. Quanto ao modo de se portar em público, o comportamento das pessoas mais baixas é o que, comparado com as classes mais altas? Total Alta Média Baixa classe média Baixa Muito diferente Um pouco diferente Não vê diferença ,5% 12,5% 25,0% 100, ,5% 64,7% 8,8% 100, ,7% 44,8% 3,4% 100, ,3% 37,9% 13,8% 100,0 % % % % Tabela 1: modo de se portar em público classes altas x classes baixas. O principal motivo da diferença se deve para todas as classes à diferença na educação, cultura ou costumes (estando o maior índice na baixa classe média); e em segundo lugar, devido a problemas de adaptação ou preparo para se comportar em determinados lugares ou situações (estando o maior índice na classe alta) 5. Apesar de quase toda a amostra considerar que o gosto de uma classe mais baixa que a do respondente possa ser pior ou melhor, a renda é um fator que importa em alguma medida para a constituição de um gosto elevado, especialmente para a classe baixa. Para todas as classes, 67% consideram alguma importância na renda e é dividida pela metade a opinião da classe alta entre a soma de muito / um pouco importante e não é importante. Desta forma, temos uma inversão: a classe baixa é 5 Esta era uma pergunta com respostas abertas. Então, anotamos as falas dos respondentes para posterior codificação.

8 a que mais respondeu muito importante (51,7%) e a classe alta é a que mais respondeu não é importante (50%). A escolaridade também tem importância em alguma medida para todas as classes (90% do total da amostra), sendo que a baixa classe média foi a que mais respondeu muito importante, com 75,9%, seguida da classe média e baixa, ambas com 58,8%. A classe alta foi a que mais considerou um pouco importante, com 62,5%. Crescente na medida em que se desce na pirâmide se encontra a frequência de acesso à cultura. Do total da amostra, esse atributo é em alguma medida importante para a constituição do gosto elevado para 93% dos respondentes. Interessante notar que o capital cultural é em alguma medida importante para a classe alta, mas no quesito escolaridade e acesso a cultura, esta foi a classe que apresentou os menores índices de muito importante. Já o histórico familiar é considerado muito importante, especialmente para a classe alta, com 62,5%, seguida pela classe baixa (51,7%), classe média (50%) e baixa classe média (41,4%). Nota-se que os capitais econômico e cultural, além da origem social, que são uns dos definidores das posições de classe, contam também como definidores da constituição do gosto elevado. Mas, se considerávamos a hipótese da distinção a partir das classes altas, isso não se comprovou nesta amostra. O que se pôde observar foi um atravessamento das representações sociais por todas as classes, inclusive pelas classes baixas, o que poderia nos fazer pensar em fluidez, mas não em solidificação de fronteiras simbólicas entre as classes, especialmente entre a classe média e a baixa, como muito tem se falado na mídia e em ambientes acadêmicos 6, desde o aparecimento de uma nova classe média, à qual supostamente a classe média tradicional estaria se opondo. Voltaremos neste assunto mais adiante. 6 Muito têm repercutido as opiniões da filósofa Marilena Chaui sobre um caráter reacionário da classe média tradicional, como neste vídeo em que a autora afirma odiar a classe média. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=fddcbc4dwdg. Acesso em 11 de agosto de Também muito se criticou esta classe média nos eventos da Copa do Mundo, quem que a Presidente Dilma foi vaiada.

9 E a nova classe média? Muito tem se falado e já há algum tempo sobre a existência de uma nova classe média brasileira 7. O termo, cunhado pelo economista Marcelo Neri (2008), foi midiatizado tanto por publicações de cunho jornalístico, quanto pela programação de entretenimento, como foi o caso de duas novelas da Rede Globo Cheias de Charme e Avenida Brasil, esta última com 79% de seus personagens pertencendo a esta classe. Em outro sentido, tem surgido publicações no âmbito, entre outros, da Sociologia, buscando trazer à tona a discussão sobre classe e estratificação social, com o fim de situar esta parcela da população no espaço social e averiguar se há ou não uma real mobilidade. O ponto fundamental da discordância em relação ao critério de Neri é utilizar a renda (ou o poder de consumo) para situarmos uma pessoa em uma ou outra classe ou posição de classe. A suspeita é que este grupo, que passou a ter maior poder de consumo devido a vários fatores (para os quais diferentes autores darão diferentes importâncias), como estabilização da economia, aumento de postos de trabalho, políticas de transferência de renda e de aumento do salário mínimo, não faz parte de uma nova classe média, mas de uma nova classe trabalhadora (Souza, 2012). Para Pochmann (2012), não se pode falar sequer em uma emergência de uma nova classe, pelo fato de que, devido ao aumento de postos de serviços na base da pirâmide, houve a elevação do rendimento e o aumento do consumo, um fenômeno que pode ser considerado comum. Do ponto de vista da estratificação sócioocupacional, o maior aumento de renda ocorreu nas ocupações que detêm o menor prestígio, no setor dos trabalhadores manuais, sendo o trabalho manual o principal marcador de diferenciação das classes médias e baixas, tanto em estudos empíricos realizados no Brasil (Scalon e Salata, 2012), quanto no conceito de classe média trabalhado por Mills (1979), no contexto norte-americano. Para este autor, esta característica está historicamente ligada às pretensões de prestígio, o ponto essencial para situar as camadas médias na estrutura social contemporânea. 7 Temos trabalhado a representação midiática das classes populares e de uma nova classe média em Jordão (2011; 2012; 2013).

10 Inicialmente, não perguntamos diretamente sobre a nova classe média para os respondentes para não partir do pressuposto da existência deste grupo. Desta forma, perguntamos se as pessoas têm notado ou não alguma diferença em relação ao público nos centros de compras e lazer. Do total da amostra 65% das pessoas não notam nenhuma diferença. Na distribuição da estratificação, notam a diferença 50% da classe alta, 32,4% das classes médias, 44,8% da baixa classe média e 24,1% da classe baixa. Para os 35% do total da amostra que notam a diferença, perguntamos qual seria, ao que 68,6% afirmou ser acesso da classe mais baixa. Em segundo lugar, com 17,1%, o fator mistura de pessoas foi citado. Mas chamou nossa atenção o fato de que, apesar de somente 35% do total da amostra notar a diferença, 93% da amostra nomeia uma grande parcela da população que saiu da pobreza e agora consegue consumir mais e frequentar shoppings, aeroportos e centros de lazer : todas as classes citaram em primeiro lugar nova classe média e em segundo lugar emergentes. E, na localização na estratificação, 82% do total da amostra situa esta nova classe dentro da classe média. Já estando claro para os respondentes que agora estamos falando desta nova classe média, repetimos a pergunta do começo da pesquisa a respeito de diferença de comportamento, em comparação às classes altas. Em todas as classes houve uma redução das frequências em muito diferente, aumentou-se a frequência de um pouco diferente (exceto para a classe média, cuja frequência permaneceu inalterada) e de não vê diferença. Isso nos chamou a atenção, uma vez que, se somente 35% do total da amostra percebe a nova classe média nos locais, como pode nomeá-la e fazer inferências sobre a diferença de seu comportamento?

11 Quanto ao modo de se portar em público, o comportamento das pessoas desta parcela da população, que também tem sido chamada, dentre outros, de NOVA CLASSE MÉDIA OU NOVA CLASSE C, é o quê, comparado com as classes mais ALTAS? Total Alta Média Baixa classe média Baixa Muito diferente Um pouco diferente Não vê diferença NSD/NR ,0% 25,0% 25,0%,0% 100,0% ,8% 64,7% 20,6% 2,9% 100,0% ,0% 55,2% 10,3% 3,4% 100,0% ,7% 62,1% 13,8% 3,4% 100,0% Tabela 2: modo de se portar em público classes altas x NCM. Da mesma forma, 96% da amostra tem opinião a respeito do gosto desta nova classe, sendo que 64% o considera pior do que o gosto das classes altas: 75% na classe alta; 58,8% na classe média; 72,4% na própria baixa classe média; e 58,6% na classe baixa. Isso nos faz pensar no poder de nomeação da mídia a respeito da existência de uma nova classe. Ainda que 65% das pessoas entrevistadas não tenham ainda podido construir as suas próprias representações devido à ausência da percepção objetiva desses novos consumidores, já conseguem nomeá-los e falar sobre seu comportamento e gosto. As inúmeras publicações falando sobre esta classe, a produção do mau gosto nas representações midiáticas ao falar pelas classes populares e até um contexto sócio-histórico em que o termo nova classe média qualificaria os programas governamentais como propulsores de uma mobilidade social de fato para a classe média servem como pano de fundo para entendermos formas de compreensão explicitadas nesta pesquisa. Entendemos esses dados como uma pista da mediação dos meios de comunicação na formação do conhecimento no cotidiano e da classificação dos grupos sociais, antes mesmo da convivência nos espaços sociais. Nos termos de Thompson,

12 o processo de interpretação pode começar a explicar o caráter ideológico das mensagens, isto é, - as maneiras como o significado, mobilizado por mensagens específicas, pode servir, em determinadas circunstâncias, para estabelecer e sustentar relações de dominação. Pois o que essas relações de dominação são, e se esse significado serve para mantê-las ou miná-las, para firmá-las ou destruí-las, são questões que podem ser respondidas somente através da junção da produção/transmissão e construção das mensagens às maneiras como elas são recebida e apropriadas pelas pessoas inseridas dentro de contextos sócio-históricos específicos (THOMPSON, 1995, p. 396). O lugar dos respondentes: estratificação x identificação. Voltamos agora à questão da estratificação. O pesquisador define critérios objetivos dentre muitos para situar as pessoas no espaço social. Assim fizemos e o que pudemos descobrir é que as representações sociais sobre a constituição do gosto e da classe social atravessa todas as classes sociais de maneira mais ou menos equilibrada. Não temos, como poderíamos supor, uma distinção que partisse das classes altas ou uma representação negativa somente a partir dos estratos superiores. Poderíamos entender isso como a dominação de sentidos específicos na sociedade de forma que há uma apropriação consentida conscientemente ou não por todas as partes da estrutura social (desta amostra, claro), de forma que as classes baixas têm representações negativas das classes baixas. Mas, uma outra hipótese surgiu ao perguntarmos às pessoas com quais classes elas se identificam. Todas as classes se identificam com a classe média e com a classe trabalhadora. No primeiro caso, vemos um movimento claro de pertencimento para baixo, a partir das classes altas (87,5% se identifica plenamente com a classe média), e para cima, a partir das baixas (69% da baixa classe média e 51% da classe baixa). E no segundo caso, compreendemos a confusão que classe trabalhadora cause no senso comum. Um empresário pode perfeitamente se considerar um trabalhador, o que coloca em jogo um cuidado maior do pesquisador na hora de interpretar os dados (100% da classe alta se identificou plenamente com a classe trabalhadora). Se olharmos novamente os dados a partir desta ótica de que 64% do total da amostra se considera de classe média, podemos supor que as representações não são

13 negativas a respeito de si mesmo, mas de um outro, que está em uma classe inferior. Seria uma espécie de distinção em cascata, em que o gosto, que é constituído por atributos de classe, piora na medida em que se desce na escala social. Reflexões Este trabalho buscou entender um pouco melhor os mecanismos de classificação do gosto em diferentes posições sociais. Pudemos observar que, além do capital econômico, cultural, social e simbólico, outros atributos diferenciam as classes, como aparência, beleza, bons modos, higiene, bom gosto e vontade de trabalhar. Ao pensarmos que na oposição entre classe alta e classe baixa também se opõem maus modos x bons modos; vontade de trabalhar x falta de vontade de trabalhar; boa aparência x aparência ruim; bom gosto x mau gosto; beleza x feiúra, podemos inferir que muitas vezes as representações hierarquizam, a partir da classe, outros atributos que não necessariamente têm relação com ela. E acreditamos que estes outros capitais naturalizados podem acabar fazendo com que a consequência vire causa, interferindo nas oportunidades de vida, especialmente no campo do capital social: casamentos, empregos, amizades etc., podendo engessar uma possível mobilidade social ou acesso mais igualitário a recursos. Outro fator que notamos é que as noções, ainda que preconceituosas, sobre as classes baixas estão introjetadas em todas as classes, de forma dominante. Neste ponto, confirmamos na nossa amostra a ideia de Bourdieu (2007) a respeito da contestação da legitimidade da cultura, segundo a qual há poucas áreas em que as classes baixas desafiam esta legitimidade. As frequências significativas de representações negativas a respeito das classes baixas, dentro delas próprias, só reafirmam esta ideia de dominação, que, segundo Bourdieu (2008) atinge dominantes e dominados. E mais: a classe baixa introjetou representações ruins sobre a classe baixa, mas, se pensarmos que só 17,2% da classe baixa se identifica plenamente com este estrato, e 51% se identifica plenamente com a classe média, as representações que ela produz não necessariamente dizem sobre ela mesma, mas sobre uma classe

14 que ela pode considerar estar abaixo da sua. Desta forma, podemos inferir que o mecanismo da distinção aqui não opõe ricos e pobres, a partir dos ricos, mas todas as classes em relação ao que se pensa ser uma classe inferior à sua. É a distinção em efeito cascata. A parcela da população que passou a ter maior poder de consumo e frequentar lugares que antes estavam destinados às classes média e alta é reconhecida pela maioria da amostra como nova classe média, ainda que pese o fato de a maioria das pessoas pesquisadas não terem observado uma diferença no público em centros de compras, parques e centros de lazer. Isso mostra o poder de nomeação e de penetração dos conteúdos midiáticos na formação dessa representação. Um termo criado pelo economista Marcelo Neri (2008), que foi e é amplamente repetido pela mídia, passou a fazer parte do vocabulário e da noção das pessoas de que esta parcela da população pertence à classe média, do que nós discordamos e justificamos no decorrer do trabalho. Sendo assim, esperamos ter contribuído para os estudos de gosto e de classe, conceitos tão caros ao universo do consumo. Referências BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2007., Pierre. O espaço social e a gênese das classes. In O poder simbólico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, DOUGLAS, Mary; ISHERWOOD, Baron. O mundo dos bens. Para uma antropologia do consumo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Comunicando o gosto: a publicidade para a Classe C. Anais do Comunicon I Congresso Internacional de Comunicação e Consumo. Anais do 1º Encontro de GTs do Comunicon II Congresso Internacional de Comunicação e Consumo. Escola Superior de Propaganda e Marketing, ESPM. São Paulo: ESPM, 2011., Janaína. Olhai as periguetes : a representação das classes populares na mídia e a estetização da diferença. Anais do 2º Encontro de GTs do Comunicon II Congresso Internacional de Comunicação e Consumo. Escola Superior de Propaganda e Marketing, ESPM. São Paulo: ESPM, 2012.

15 , Janaína Vieira de Paula. O porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça? A nova classe trabalhadora e representações midiáticas da distinção social. Anais do 3º Encontro de GTs do Comunicon III Congresso Internacional de Comunicação e Consumo. Escola Superior de Propaganda e Marketing, ESPM. São Paulo: ESPM, MILIBAND, Ralph. Análise de Classes. In: GIDDENS, Anthony; TURNER, Jonathan. Teoria Social Hoje. São Paulo: Editora UNESP, NERI, M. A Nova Classe Média. Rio de Janeiro: CPS, POCHMANN, Marcio. Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, QUADROS, Waldir José de; ANTUNES, Davi José Nardy. Classes sociais e distribuição de renda no Brasil dos anos noventa. Cadernos do CESIT, n. 30, QUADROS, Waldir José de. A evolução da estrutura social brasileira: notas metodológicas. Texto para Discussão, IE/Unicamp, n. 147, QUADROS, Waldir José de. Brasil: um país de classe média? Le monde diplomatique, n. 40, p.4-5, novembro, RONSINI, Veneza V. Mayora. A crença no mérito e a desigualdade: a recepção da telenovela no horário nobre. Porto Alegre: Sulina, SCALON, Celi; SALATA, André. Uma nova classe média no Brasil da última década?: o debate a partir da perspectiva sociológica. Soc. estado., Brasília, v. 27, n. 2, Aug Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s &lng=en&nrm=iso>. Acesso em 07 jun SOUZA, Jessé. Os Batalhadores Brasileiros: Nova classe média ou nova classe trabalhadora? Belo Horizonte: Editora UFMG, THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Volume 2. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2009.

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