Brasil pós-crise: empresas saem vitoriosas

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1 Giovanna Nucci capa Brasil pós-crise: empresas saem vitoriosas Nos mais diferentes setores da economia, estratégias de companhias nacionais explicam por que o país foi o último a entrar nas turbulências da economia mundial e o primeiro a superá-las N Márcio Utsch, presidente da Alpargatas: Motivar funcionários, cortar custos e manter investimentos. Foi nossa receita contra a crise 22 LIDE a primeira quinzena de setembro, um número chegou para confirmar o que muitos empresários já percebiam em seus próprios negócios. De abril a junho, o Produto Interno Bruto (PIB) nacional cresceu 1,9 %, um resultado, sem qualquer exagero, fabuloso. O Brasil é o país com uma das recuperações mais rápidas do mundo diante da crise, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Além do percentual de crescimento do PIB, outros indicadores revelam que o país foi mesmo o mais resistente às turbulências da economia mundial após Lehman Brothers e, também, o que mais tem lições a ensinar. Otimista, o ministro Mantega acrescentou ao divulgar o resultado parcial do PIB: A economia brasileira vai crescer em ritmo mais forte no terceiro trimestre, entre 2% e 3%. Isso pode significar um crescimento, no ano, superior a 4%. Boa parte da explicação para esse desempenho está no movimento franco e otimista da iniciativa privada em relação ao presente e ao futuro. Tome-se como primeiro exemplo o avanço de uma grande empresa brasileira sobre o mercado externo. A crise mundial corria alta, em outubro do ano passado, quando a brasileira Alpargatas manteve a decisão de comprar sua antiga matriz, a Alpargatas Argentina. O negócio, de 51 milhões de dólares, foi aprovado pelas autoridades argentinas no último mês. O movimento levou a Alpargatas brasileira à liderança do setor calçadista na América Latina. Mantivemos o nosso planejamento, acreditando na retomada, diz Márcio Utsch, presidente da empresa. Ele e seu time anteviram a chegada da crise internacional e procuraram se antecipar a ela. Por isso, a empresa sofreu com menos intensidade LIDE 23

2 Giovanna Nucci anos, passarão a usar a bandeira Walmart. Trata-se de mais um passo para acelerar o crescimento no mercado brasileiro. O Walmart não é um caso isolado. Para muitas outras empresas brasileiras, a crise financeira internacional, que teve início em setembro de 2008 com a quebra do Lehman Brothers, já está sendo vista pelo retrovisor. O termo da moda, agora, passou a ser superação. É o caso do atual momento da Avaya, companhia que fornece serviços e soluções para o setor de telecomunicações. Começamos o segundo semestre aprovando investimentos em áreas estratégicas que estavam em stand by, afirma Cleber Morais, presidente da empresa. O ano fiscal da Avaya, que termina em setembro, fechou com resultados positivos, traduzidos em um crescimento de dois dígitos. A subsidiária brasileira foi uma das que mais cresceram nesse período, comenta Morais. Pelas suas contas, 2010 será melhor ainda. A mesma expectativa anima a CVC, maior operadora de turismo Estamos fazendo agora o nosso maior investimento desde a chegada ao Brasil, em 1995, diz o presidente do Walmart, Héctor Núñez Acreditamos na retomada e acertamos, afirma Márcio Utsch, da Alpargatas os seus efeitos. Uma das nossas medidas, tomadas desde meados do ano passado, foi manter os funcionários motivados. Ao lado disso, adotamos uma política de redução de custos. A Alpargatas não teve receio de iniciar uma operação própria de distribuição na Europa e ampliar os negócios nos Estados Unidos, o que teve impacto positivo nas exportações. No setor varejista, a rede Walmart anunciou que vai investir, até o final do ano, no país, nada menos do que 1,6 bilhão de reais na construção de 90 novas lojas. É o maior investimento da companhia desde a sua chegada ao país, em 1995, diz Héctor Núñez, presidente do Walmart no Brasil. E os planos da empresa não param por aí. Em outra decisão típica de quem acredita na força do mercado interno, a empresa anunciou que os supermercados Bompreço e Sonae, comprados nos últimos 24 LIDE LIDE 25

3 nários. Esse segmento representava, culos são os de vender pacotes cor- cinco anos atrás, 1% do faturamente porativos para cerca de 5 mil brasi- da companhia, mas agora já chega leiros, além de disputar um merca- a mais de 40%. Estamos indo mui- do de outras 40 mil viagens avulsas. to bem, com tendência a melhorar Para continuarmos a crescer nesse ainda mais até o final do ano, uma mercado, até carregamos o cliente no vez que em 2010 teremos a Copa do colo se for preciso, diverte-se Leone. Mundo na África do Sul e já começa- A vontade de superação também mos a ser sondados para organizar foi decisiva para manter a UPS ope- Buscamos respostas rápidas para enfrentar a redução do mercado turístico internacional, com novos pacotes e preços convidativos, lembra Guilherme Paulus, presidente da CVC da América Latina e uma das maiores do mundo. Para enfrentar o cenário criado nos últimos meses do ano passado, a empresa iniciou 2009 com uma política comercial extremamente agressiva. O momento exigia respostas rápidas e foi o que fizemos, explica Guilherme Paulus, fundador e presidente da CVC. A oferta de pacotes turísticos aumentou e teve uma aceitação que ficou muito acima das expectativas. A promoção Argentina a 840 Reais é um exemplo. Em poucas semanas foram vendidos 8 mil pacotes turísticos dentro dessa ria com a TAM, para levar passageiros para os Estados Unidos quatro noites por 600 dólares, estourou a ponto de esgotar o número de carros postos em locação no aeroporto de Miami. Entre janeiro e julho, tivemos aumento de 12% no número de passageiros e conseguimos evitar demissões, mantendo o nível de emprego, explica Paulus. Na mesma batida de crescimento, mas abordando outros públicos, a Agaxtur trabalhou em 2009 com foco no turismo de incentivo, voltado para as empresas que promo- viagens para grupos de empresas, conta o presidente Aldo Leone Filho. De fato, ele realizou recentemente uma viagem de inspeção a hotéis e a pontos turísticos nas cidades em que haverá jogos do Brasil. Os cál- rando com estabilidade. Com a estratégia certa e, sem modéstia, muita criatividade, teremos este ano um desempenho semelhante ao do ano passado, conta a CEO da UPS, Nadir Moreno. Isso, para nós, já é Na Agaxtur, presidida por Aldo Leone Filho, a retomada do crescimento se dá por meio do incremento de viagens corporativas. Já começamos a ser sondados para levar grupos de empresas para a Copa do Mundo de 2010, diz ele promoção. A campanha, em parce- vem viagens para grupos de funcio- 26 LIDE LIDE 27

4 O anúncio do crescimento do Outra boa nova foi o aumento ção das empresas de investir na ex- PIB no segundo semestre veio con- de 2,2% da produção industrial em pansão de sua capacidade produtiva. Num período em que o comércio internacional foi duramente afetado, usamos a criatividade para equilibrar nossos resultados, diz a CEO da UPS, Nadir Moreno firmar a reversão do quadro econômico, além de oficializar o fim do ciclo de recessão, caracterizado por uma queda ao longo de dois trimestres. Esse resultado vinha sendo antecipado nos últimos meses por uma série de notícias positivas. Em junho, o grau de confiança dos empresários brasileiros já estava bem acima dos resultados de março, segundo o Índice LIDE-FGV de Clima Empresarial. Foi uma importante virada, que mostrou a confiança na expansão dos negócios, analisa o CEO Cleber Moraes, da Avaya. junho, o sétimo avanço consecutivo. Dos 27 setores analisados pelo IBGE, 23 tiveram desempenho positivo. Os estoques altos do varejo, que levaram as indústrias a conviver com altos níveis de capacidade ociosa, chegaram ao fim. É um crescimento difuso, não associado apenas a alguns negócios, avalia Alexandre Schwartsman, economistachefe do banco Santander. Entre os dados mais positivos está o desempenho da indústria de máquinas e equipamentos, com incremento de 8,9%, o que confirma a determina- Da mesma forma, os resultados da indústria de máquinas e equipamentos para escritórios, que registraram um salto de 12,1%, também são um claro sinal da retomada dos investimentos, encerrando um período de contenção. Estamos indo muito bem e projetamos um segundo semestre ainda melhor, observa Raymundo Peixoto, diretor-geral da Dell Computadores. Mantivemos os investimentos previstos em todos os segmentos em que atuamos. Nos últimos meses, a companhia redobrou sua atenção em relação às pequenas uma grande vitória. Com efeito, a UPS depende, e muito, do movimento de exportações e importações, uma vez que é uma empresa de transporte e logística comercial. Sabe-se que esse foi o primeiro setor a ser atingido duramente pela crise. Para não ficarmos apenas nos lamentando, incrementamos um novo departamento dentro da empresa, na área de logísitica, contou Nadir. Em Manaus, a UPS instalou não apenas novos galpões, mas também um setor para oferecer manutenção e até mesmo consertar equipamentos eletroeletrônicos, especialmente na área de telefonia celular, como forma de oferecer um serviço extra aos clientes que têm na Zona Franca de Manaus suas plataformas de montagens. Deu super-certo. Nesta área, crescemos 160% em relação ao ano passado, o que gerou o equilíbrio do nosso resultado geral. Na área da saúde, a operadora Lincx deu uma verdadeira aula sobre como atravessar as ondas da crise. Nos últimos meses, ganhamos novas contas de grandes empresas, diz o presidente Silvio Corrêa da Fonseca. Nosso pessoal conseguiu mostrar aos empresários que é mais barato prevenirse diante de surpresas desagradáveis, como a gripe suína, do que simplesmente esperar pela chegada de epidemias que quebram todo o processo produtivo. Com um faturamento que deverá chegar a 165 milhões de reais em 2009, a Lincx está construindo agora um desempenho que tem tudo para ser 15% maior do que o verificado no ano passado. Nossa equipe mostrou aos empresários que em saúde é melhor e mais econômico se prevenir diante das surpresas, conta o presidente da Lincx, Silvio Corrêa da Fonseca 28 LIDE LIDE 29

5 e médias empresas e ao consumidor final, com bom desempenho nessas duas frentes, o que exige mais esforço e investimentos. A Dell já lançou mais de 20 produtos em De olho nesses mesmos mercados, a Positivo Informática aprovou o incremento de 10 milhões de reais aos 41 milhões de reais em investimentos previstos para Além disso, a companhia solicitou uma linha de capital de giro com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no valor de 200 milhões de reais. Os recursos serão destinados à ampliação da capacidade de produção de suas fábricas. Com ligação direta nos setores de negócios e turismo, a locadora Avis é outra empresa que não sentiu os efeitos da crise. Ao contrário, desenvolveu-se em meio ao clima mundial de adversidades. Nosso volume de locações cresceu 15% em relação ao ano passado, afirma o CEO Afonso Celso de Barros Santos. No primeiro semestre, acrescentamos cerca de 150 novos clientes à nossa carteira de empresas com frotas terceirizadas. Ele explica que a necessidade de cortar custos foi, para muitas empresas, o incentivo que faltava para a troca de frotas próprias por frotas locadas, o que fez as operações com a Avis aumentarem substancialmente. Na comparação de agosto deste ano com agosto do ano passado, nosso movimento foi 16% maior, registra. Os resultados da retomada também se refletem no emprego industrial, que voltou a crescer, depois de nove meses em queda. É uma guinada que, segundo os analistas, projeta uma reação mais vigorosa nos próximos meses. Essa tendência reforça o mercado interno, uma das principais bases que dão sustenta- Anúncio Teremos um segundo semestre ainda melhor que o primeiro porque mantivemos nossos investimentos, acredita Raymundo Peixoto, diretorgeral da Dell Computadores FGV 30 LIDE LIDE 31

6 O aumento das locações compensou com folga a redução do valor dos carros usados, afirma Afonso Celso de Barros Santos, CEO da Avis Anúncio ção ao crescimento econômico. No países a recuperar o fôlego e voltar a país e da capacidade de inovação Dudalina segundo trimestre, o consumo das crescer. Nessa corrida, está na frente dos empresários brasileiros pode ser famílias manteve-se em alta, a 23 a dos Estados Unidos, do Canadá e da medido pelo novo ranking de com- consecutiva, com avanço de 3,2% maioria dos países da zona do euro, petitividade do Fórum Econômico na comparação com o mesmo pe- que viram seu PIB encolher nova- Mundial. O Brasil avançou oito po- ríodo de O consumo interno mente no segundo trimestre. Um dos sições, passando da 64 a para a 56 a, foi uma espécie de Pelé contra a cri- resultados dessa visão é a queda do deixando assim o posto de lanterni- se, compara Marcelo Néri, econo- risco Brasil. A economia brasileira nha entre os países do Bric Brasil, mista-chefe do Centro de Políticas saiu-se melhor do que o esperado e Índia, China e Rússia. Criador da ex- Sociais (CPS), da FGV. um dos fatores para rever sua clas- pressão Brics, Jim O Neill, do banco A reação da economia brasileira sificação é a avaliação do mercado, de investimentos Goldman Sachs, é tem chamado a atenção no exterior, declarou Mauro Leos, analista-che- um dos gurus que reconhece que o mudando a percepção sobre a vul- fe da Moody s para o Brasil, ao co- país passou bem pela turbulência nerabilidade que o país costumava mentar que está reavaliando a nota internacional e chega com mais for- mostrar frente às crises internacio- de crédito ao país, que passaria para ça à era do pós-crise. O Brasil pode nais. Antes sempre às voltas com a grau de investimento, já concedido crescer a um ritmo de 5% nos próxi- disparada da inflação e graves pro- por outras duas agências Standard mos anos e se tornar uma das eco- blemas com o balanço de pagamen- & Poor s e Fitch. nomias mais fortes do mundo, acre- tos, o Brasil agora é um dos primeiros Um outro reflexo da reação do dita ele. Não há por que duvidar. 32 LIDE LIDE 33

7 Bolsas em alta com economia aquecida Mas estudo revela que renda fixa foi a melhor aplicação dos últimos 15 anos, com rendimento de 386% Anúncio O conjunto de boas notícias sobre o acelerado reaquecimento da economia brasileira, com geração recorde de empregos em agosto vagas formais, elevação de 1,9% no PIB do segundo trimestre e até mesmo aquisições bilionárias como a feita pelo frigorífico JBS-Friboi sobre a norte-americana Pilgrim s Pride, por cerca de 5 bilhões de reais, teve reflexos na Bolsa de Valores de São Paulo. O índice Bovespa rompeu, no dia 16 de setembro, a barreira dos 60 mil pontos, o que não ocorria há 14 meses. Naquele dia, a bolsa assisitiu a uma movimentação financeira de 7,02 bilhões de reais, volume 49% maior do que a média diária do ano. A forte movimentação na Bovespa demonstra que os investidores internacionais voltaram com tudo ao mercado brasileiro. Isso significa uma tendência de valorização para os papéis das companhias listadas. Eu não esperava que o mercado tivesse uma recuperação tão rápida, reconhece o analista chefe da XZP Investimentos, Rossano Oltramari. De qualquer forma, a tendência de alta para a bolsa prossegue. A julgar por esse tipo de análise, os investidores que gostam do risco devem ficar muito atentos à Bolsa, que promete grande volume de negócios. Não se pode esquecer, porém, a renda fixa. Não apenas pela segurança, mas também pelo rendimento em si no longo prazo. Estudo divulgado pela consultoria Economática em julho deste ano revelou que, desde o Plano Real, o Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que é um título de renda fixa, foi o tipo de aplicação mais rentável para o investidor, com ganhos de 386% sobre a inflação. Em segundo lugar ficou o Ibovespa, com 222%, à frente da caderneta de poupança, com 52%, do ouro, 14%, e do dólar, que teve rendimento negativo de 56%. Banco Alfa 34 LIDE LIDE 35

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