Anais do XIX Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica e VIII Encontro de Fenomenologia do Centro-Oeste

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1 Anais do XIX Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica e VIII Encontro de Fenomenologia do Centro-Oeste A Estética, A Ética e o Sagrado no Encontro Humano

2 Ficha catalográfica XIX Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica e VIII Encontro de Fenomenologia do Centro- Oeste, (84. : 2013: Goiânia, GO). Anais do XIX Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica / VIII Encontro de Fenomenologia do Centro-Oeste, de 16 a 19 de maio de 2013 Goiânia, Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia de Goiânia, Psicologia Fenomenológica / Psicologia Existencial-humanista / Fenomenologia Edição Eletrônica ISBN:

3 INSTITUTO DE TREINAMENTO E PESQUISA EM GESTALT TERAPIA DE GOIÂNIA Anais do XIX Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica e VIII Encontro de Fenomenologia do Centro-Oeste A Estética, A Ética e o Sagrado no Encontro Humano Goiânia 2013

4 É permitida a reprodução parcial ou total, desde que citada a fonte. Edição Eletrônica Presidência do ITGT Ms. Marisete Malaguth Mendonça (GO) Drª Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa (GO) Gerente do ITGT Wenilton Mamede Rabelo (GO) Comissão Organizadora do Evento Adriano Furtado Holanda (PR) Celana Cardoso Andrade (GO) Danilo Suassuna (GO) Gizele Geralda Parreira (GO) Keziany K. de M. Campos (GO) Lara Borges de Sousa (GO) Marisete Malaguth Mendonça (GO) Sirlene Mamede Rabelo Pires (GO) Virginia Elizabeth Suassuna M. Costa (GO) Waléria Pereira de Moreira (GO) Wenilton Mamede Rabelo (GO) Comissão Científica do Evento Dr. Adriano Furtado Holanda (PR) Ms. Celana Cardoso Andrade (GO) Ms. Danilo Suassuna (GO) Ms. Marisete Malaguth Mendonça (GO) Drª Virginia Elizabeth Suassuna M. Costa (GO) Ms. Marta Carmo (GO) Ms. Sandra Albernaz L. Machado Saddi (GO) Edição dos Anais Ms. Danilo Suassuna (GO) Wenilton Mamede Rabelo (GO) Produção, distribuição e informações Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia de Goiânia Home page:

5 Local do Evento Universidade Paulista UNIP Rodovia BR, 153, Km 503 Fazenda Botafogo, Goiânia - GO Ressalva: Os resumos aqui exibidos foram publicados na íntegra e não passaram por revisão, já que os textos são de inteira responsabilidade de seus autores.

6 Apresentação Apresentação O XIX Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica e VIII Encontro de Fenomenologia do Centro-Oeste é uma realização do Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestaltterapia de Goiânia-ITGT e representa a continuidade do esforço iniciado em 1995 com o primeiro Encontro, com o objetivo de apresentar e divulgar trabalhos, pesquisas e práticas na Abordagem Gestáltica e Fenomenologia. Tema do Encontro 2013: A Estética, A Ética e o Sagrado no Encontro Humano. O convite feito a comunidade para que se apresentasse a produção pessoal e ou acadêmica sobre o tema aqui proposto, nos rendeu grandes surpresas, tendo recebido valiosas contribuições que aqui relatamos em resumos, mas que se aprofunda a medida que seus autores ampliam o contato com novas experiência que é o propósito primordial deste nosso Encontro. Com o objetivo primordial de avaliação técnica e receptividade e não de restringir, a Comissão Científica, acolheu, orientou, organizou e disponibilizou aqui o resumo das 23 atividades entre Mini-cursos e Temas livres além de 03 Conferências e 04 Mesas redonda propostas para o evento. Os Encontros Goianos de Gestalt e Fenomenologia do Centro Oeste, mantiveram o propósito maior que é o de proporcionar visibilidade e divulgar o que vem sendo produzido e pesquisado além de criar um espaço onde estudantes, profissionais e pesquisadores ligados a estes pensamentos possam se encontrar para aprofundar seus conhecimentos. Wenilton Mamede Rabelo Gerente do ITGT

7 XVIX Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica e VIII Encontro de Fenomenologia do Centro-Oeste A Estética, A Ética e o Sagrado no Encontro Humano 17 a 19 de Maio de 2013 Goiânia Goiás - Brasil Promoção Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia de Goiânia Coordenação Geral e Organização do Evento Profª. Ms. Marisete Malaguth Mendonça Prof.ª Virginia Elisabeth Suassuna Martins Costa Comissão Científica do Evento Dr. Adriano Furtado Holanda (Universidade Federal do Paraná) Ms. Celana Cardoso Andrade (Universidade Federal de Goiás) Ms. Danilo Suassuna Martins Costa (Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestaltterapia de Goiânia) Ms. Marisete Malaguth Mendonça (Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestaltterapia de Goiânia) Drª Virginia Elisabeth Suassuna Martins Costa (PUC-GO; ITGT) Ms. Marta Carmo (Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia de Goiânia) Ms. Sandra Albernaz L. Machado Saddi (Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia de Goiânia)

8 Sumário CONFERÊNCIAS CONFERÊNCIA I: SOBRE A ÉTICA, A ESTÉTICA E O SAGRADO Ms. Marisete Malaguth Mendonça (GO) Drª Virginia E. Suassuna Martins Costa (GO) CONFERÊNCIA II: O GESTALT-TERAPEUTA É UMA PESSOA. É POSSÍVEL A AUTO- REVELAÇÃO? Dr. Gonzague Masquelier (França) Drª Marine Kergueno CONFERÊNCIA III O SAGRADO NO ENCONTRO HUMANO Dr. Jorge Ponciano Ribeiro (DF) MESAS REDONDAS MESA REDONDA I: MÉTODO FENOMENOLÓGICO: COMPROMISSO ÉTICO COM A EXPERIÊNCIA DO CLIENTE Dr. Adriano Furtado Holanda (PR) Dr. Tommy Akira Goto (MG) Dr. Andrés Eduardo Aguirre Antúnez (SP) MESA REDONDA II: A ÉTICA NAS RELAÇÕES CONTEMPORÂNEAS Ms. Marta Carmo (GO) Dr. Marcos Aurélio Fernandes (DF) Drª Yolanda Cintrão Forghieri (SP) MESA REDONDA III A ÉTICA A ESTÉTICA E O SAGRADO DO CASO CLÍNICO Ms. Lilian Meyer Frazão (SP) Ms. Sandra Albernaz L. M. Saddi (GO) Drª Teresinha Mello da Silveira (RJ) MESA REDONDA IV A CRISE ÉTICA DO PSICÓLOGO Drª. Gizele Parreira (GO) Ms. Maria Alice Q. de Brito (BA) Ms. Danilo Suassuna (GO)... 28

9 MINI CURSOS MC-01: A fenomenologia da decisão MC-02: Re-configurando o campo familiar: um enfoque transgeracional MC-03: corpo e contato: o caminho de um self integrado MC-04: Trabalhando o luto com crianças MC-05: A psicopatologia fenomenológica na perspectiva de Eugène Minkowski MC-06: Gestalt-terapia uma abordagem em movimento MC-07: O atendimento de crianças na Gestalt-terapia MC-08: Introdução à fenomenologia e à psicologia fenomenológica MC-09: Definir saúde e doença: de Canguilhem à atualidade MC-10: A questão do método fenomenológico e a psicoterapia MC-11: Contribuições da gestalt-terapia para outras abordagens MC-12: Estética, poiética e transformação MC-13: Quando o terapeuta adoece existencialmente MC-14: A significação do sintoma na gestalt-terapia MC-15: Abordagem gestáltica e gerontologia: uma prática possível TEMAS LIVRES TL-01: Hoje não vou tomar minha dose de você: amor patológico no desencontro afetivo TL-02: O plantão psicológico no contexto escolar: relato de uma experiência TL-03: A ressignificação do erro nas perspectivas educacional e da abordagem gestáltica TL-04: A estética do vínculo terapêutico TL-05: O que é fenomenologia? A concepção de fenomenologia em Edith Stein TL-06: Filhos dos desencontros: a ética e a educação de crianças na contemporaneidade TL-07: Conhecendo a Gestalt: entrevista com um profissional da Gestalt-Terapia TL-08: A ajuda e a arte do cuidar TL-09: Cem anos de psicopatologia geral: fenomenologia, humanismo e existencialismo em Karl Jaspers TL-11: Do passado ao futuro: contribuições gestálticas em projeto de prevenção ao tabagismo POSTERS... 72

10 Poster 01 - Concepções da relação terapêutica nas perspectivas da gestalt-terapia e do psicodrama Poster 02 - A presentificação da experiência como metodologia terapêutica na gestalt-terapia e no psicodrama PROGRAMAÇÃO DO ENCONTRO... 77

11 CONFERÊNCIAS

12 Dia: 17/05/2013-6ª FEIRA CONFERÊNCIA I: SOBRE A ÉTICA, A ESTÉTICA E O SAGRADO Resumo Ms. Marisete Malaguth Mendonça (GO) Ms. Marisete Malaguth Mendonça (GO) (CRP: 09/06) Drª Virginia E. Suassuna Martins Costa (GO) (CRP: 09/39) Nesse ensaio, trato do meu entendimento do Ético, do Estético e do Sagrado na terapia, com algumas incursões fora dela. Não pretendo comentar sobre todos os motivos que levam as pessoas à procura de ajuda, mas sobre aqueles sofrimentos que são ocasião de reparação e de crescimento. Atendendo ao tema do presente Encontro, farei um recorte do processo terapêutico e falarei desses eventos reparadores e aperfeiçoadores da pessoa humana. O Sagrado, o Ético e o Estético acontecem e se referem a ambas as situações: na reparação e na aprendizado. Defendo a concepção de que diante do olhar aceitador do terapeuta, da sua audiência ou escuta não julgadora e não acusatória, o cliente recebe o perdão dos seus pecados, das suas culpas, e o setting se torna um templo, onde encontra a oportunidade de expiá-las. E ao encontrar o próprio perdão, inaugura em si, por superposição, o acesso à disponibilidade de conceder perdão a outrem. Tenho percebido que grande parte dos nossos sofrimentos psíquicos é de natureza espiritual, ou seja, vem das nossas dívidas para com a existência: para com a nossa existência, a existência do outro e para com a existência dos seres do mundo. O perdão, porém, não é um ato compulsório. O perdão só acontece quando eu compreendo a situação do outro, do outro de quem me queixo. É quando o percebo, assim como eu, envolvido nas ilusões introjetadas do mundo, ilusões que nos prometem o SER por meio das mais variadas aquisições levando-nos a um caminho desviante desse encontro incessantemente buscado! Então temos duas espécies de culpa existencial: a culpa de ter feito mal a nós mesmos e a culpa de ter feito mal a outrem. Precisamos do perdão para ambas. O perdão que o cliente busca é para estas ações que acresceram desventura a si ou a outrem da sua comunidade próxima ou distante. Essas escolhas não éticas, são escolhas pelas quais nos punimos ora no corpo e ora no plano psíquico. Sob o solo das más escolhas para conosco ou para com o próximo, vão nascendo certezas subjacentes, conscientes ou não, de endividamento, lançando-nos numa sensação incômoda de ansiedade e de estranheza, cujo sentido, com freqüência, não se reconhece, e que é vivida como mal estar existencial.

13 Diante dessa fraqueza humana, da miséria de nossas insuficiências, pode nos amparar o olhar compassivo do terapeuta, aquele olhar que vê as limitações do seu cliente, da qual ele, o terapeuta, também participa, com os déficits da sua própria humanidade. Os individamentos, possibilidades inerentes à condição humana, percebidas unicamente pelo olhar sem rótulos, pode levar o terapeuta a se deixar penetrar ou comover para com as aflitivas carências do Ser dessa pessoa. Esse momento de encontro surpreende o cliente com um intenso e inesperado alivio, confundido geralmente com a desopressão por ter falado, por ter compartilhado, mas que, na verdade, é o estar sendo perdoado das mazelas cometidas que afligiam seu espírito endividado. Porque o simples falar pode desaguar no alívio da desopressão ou pode ainda ser mais um fardo a agonizar o falante, pois a palavra inteiramente dita é apenas a palavra que foi inteiramente ouvida. Não nos enganemos com as soluções solitárias! Aí existe a perfeita reciprocidade! Esse perdoar não é um permitir, um aprovar para que prossiga uma atitude que não se pode consentir! Não se trata de uma série de intervenções egocentrógenas, isto é, geradoras do individualismo e apaziguadoras da consciência ética emergente no paciente. É uma abertura ao sagrado, que nos lança além do ego, além do pessoal, é o voltar-se ao outro sem sair de si. Não é o abandonar-se, não é o alienar-se, é o ampliar-se! É o encontrar-se no outro, na natureza, nos entes viventes. É a percepção de que fazemos parte, de que habita em nós um espírito comum... Essa é a consciência do sagrado... de que no homem se alojam todos os níveis do espírito! Assim, inúmeras doenças expressam a voz do espírito, da dívida espiritual para com a vida. A terapia deve atingir este nível inter-centrado. Não basta o nível do ego, do cuidar de si. Esta é só a primeira e necessária etapa da terapia. Que demanda, em geral, um longo tempo! Tempo de confiança e tempo de espera! Alguns pensam que é estágio suficiente do processo terapêutico. Algumas teorias até afirmam isso. É lamentável pois a terapia se torna assim um processo diabólico, solipsista de separação, e não simbólico, integrativo - de união Nessa visão inter-centrada, a terapia e o encontro terapêutico adentram o campo do sagrado! O déficit da humanidade do homem é o déficit do divino no homem, diz Buber. A compaixão, e não o acusatório, é o alento, a força para que o humano supere a sua debilidade. Pois por espelhamento, vendo à sua frente, o outro eu, o alter-ego, cujo rosto concentra o olhar amoroso da compaixão, reconhecerá por irrecusável semelhança o sentimento compassivo que, em si mesmo ele, o cliente, por medo ou ignorância, teimava, em refutar. Lembremos, contudo, que o exortar, o chamar pelo lado mais humano da pessoa é também um ato de confiança no ser e compaixão pelo ser... Porque é a superposição da condição humana, a nossa miséria e a nossa grandeza: poder descer ao fundo lamacento do mais cruel egoísmo e poder ressurgir na reparação e no aprendizado evolutivo! A superação da dívida existencial e inter-humana se revela na mudança do modo de Ser do cliente, não na aquisição de novas estratégias de ação - embora as estratégias possam ser as únicas possibilidades de ajuda no momento existencial de muitos clientes (e quiçá, do terapeuta!) Mas o processo terapêutico, fiel à sua missão incrustada na sua etimologia não pode parar aí! Estratégias são necessárias e ajudam, quando ainda não aconteceu a mudança no modo de Ser!

14 Algumas das nossas dívidas se prescrevem não pelo tempo, mas porque o nosso credor recebeu de outra fonte e não mais precisa da nossa quitação! Ou, talvez, pudemos realizar, mediante deliberação do próprio juiz da nossa consciência, uma prestação de serviço à comunidade, reparadora, para com outros, da dívida original. É o que penso ser a essência da significação da nossa missão e do nosso fazer terapêutico! A prestação de serviço à comunidade, reparadora, para com outros, da dívida original! Por isso ser terapeuta é igualmente auto-curar-se! Ético, Estético e Sagrado são simultâneos, interconectados, na vida e na terapia. A consciência Ética é a compreensão de que não sou responsável só por mim ou pela minha família, pois sou um co-criador da espécie de humanidade que habita a Terra. O Estético é a beleza que existe e em tudo que é. Penso a Estética como é a coincidência do ser consigo mesmo. A não coincidência é a perda da estética! E a Estética acontece na terapia justamente nesse encontro do paciente consigo mesmo. Quando ele é o que está sendo! Na terapia dialógica Eu-Tu quando se vai percebendo o sentido da vivência, e vai se descortinando que o sintoma está sendo o que tinha que ser, é aquilo que teve que se desenvolver para a evolução da pessoa... quando o terapeuta e cliente percebem essa espantosa pregnância existencial que o processo vivencial vai adquirindo... a Estética da terapia se revela... aquele desenlace da consciência unificada de ambos, que chega à awareness, ao insight da significação da realidade vivida, expressa pelo paciente emocionado: A minha doença foi a minha cura... a minha doença é a minha cura! É uma soberba experiência estética na terapia! No encontro com o Sagrado nos deparamos com o espírito das coisas! E então vemos que o ético e o estético são diferentes faces da mesma realidade... sendo o sagrado o fundo infindável, a matriz, o campo de onde vem à tona o real Nessa tríade presença do real, o olhar pode alcançar o nível do ético, do estético e do sagrado transcendente naquilo que é visível, material e cotidiano. O sagrado, porém é o fundante. Exige o encontro com o espírito das coisas. O encontro com o espírito das coisas não pode ser determinado nem exigida a sua ocorrência; ele acontece de maneira acidental; como o Eu-Tu, chega inesperada e repentinamente. Mas, nos alivia Buber, podemos nos preparar para a sua chegada! E quando chega, todo nosso ser se inclina ante a Sacralidade da Matéria, face à Sacralidade do Mundo! Descoberta atordoante, que pude partilhar há cinco anos atrás, no XV Encontro, quando finalizei dizendo o que continuo reafirmando agora: a evidência de que estamos inseridos no Espírito que penetra o homem... e que a tudo penetra! Palavras-chave: dívida existencial, compaixão, auto-perdão, perdão, aprendizado, evolução. Resumo Drª Virginia E. Suassuna Martins Costa (GO) Pretende-se apresentar, a partir da perspectiva de Sören Kierkegaard, um esboço dos três estágios - o estético, o ético e o religioso, sem os quais não seria possível ao humano conhecer a realidade existencial do indivíduo. Cada estágio apresenta especificidades próprias, compreensíveis para um possível funcionamento do indivíduo

15 em suas diversas formas de existir e de realizar suas escolhas. São consideradas, portanto, diferentes possibilidades de existir e não etapas a serem superadas. Dessa forma, a pessoa percorre (ou pode percorrer) um verdadeiro itinerário existencial: o estético (caracterizado pelo prazer), o ético (caracterizado pelo dever) e o religioso (caracterizado pela fé). Enquanto no estágio estético vive-se o momento e, no ético, o tempo, no religioso a atenção está voltada ao eterno. No primeiro estágio estético o prazer é o alvo da vida. Busca-se alegria momentânea, onde somente o "agora" importa. Pode ser comparado a Dionísio, deus grego, equivalente a Baco, deus romano, considerado o deus do êxtase e do entusiasmo. Representa a tendência humana de romper os limites, como as repressões e recalques. Nesse estágio, não há um envolvimento profundo com relacionamentos e caminha-se contra obrigatoriedades, emergindo o descompromisso com o outro. Entretanto, esta postura existencial tem suas conseqüências e a principal delas é a angústia que se potencializa na medida em que se percebe que os prazeres não podem preencher a vacuidade de sua existência, culminando em desespero. Angústia diante das possibilidades de escolha pressupõe diversas possibilidades de existir, pois ocorre quando o homem confronta a liberdade. Pela autoconsciência, a angústia torna-se mais reflexiva, adquire mais significado. Desespero de não querer ser si mesmo, como a clínica revela ao escutar pacientes com tendência de culpar os outros pelas suas não-realizações, não percebendo o eu como um agente de realização. Muitas enfermidades psíquicas podem decorrer do excesso e do caráter de urgência diante das possibilidades do mundo. As queixas psicológicas que enfatizavam sobre a repressão, atualmente se revelam como a dificuldade em vivenciar limites. Já o estágio ético caracteriza-se pela responsabilidade e pelo dever. O homem ético reconhece as conseqüências e responsabilidades de seus atos e, por isso, vive de forma preocupada. Pode ser comparado ao deus Apolo da mitologia grega, considerado o deus das artes, da música, da profecia, da verdade, da poesia, da harmonia, da perfeição e da cura. Na atualidade, entretanto, a potência apolínea assumida de forma extrema pode gerar enfermidades psíquicas como compulsão e obsessão para ter um corpo perfeito. Finalmente, será apresentado o estágio religioso, que se caracteriza por uma profunda relação com Deus. A vida terrena, instantânea, não possui importância quando comparada com o futuro eterno de um homem religioso. Enquanto o estágio anterior, o ético, enfatiza a vontade de realizar o geral, a moral, o religioso caracteriza-se pelo salto no escuro que é a fé, a relação solitária do indivíduo com Deus. Diferente do estágio estético (caracterizado pela busca do prazer), do estágio ético (caracterizado pela obediência à lei moral), o religioso é caracterizado pela fé e pela relação do indivíduo para com Deus. É o encontro entre a subjetividade e o absoluto. Nesse sentido, enfatiza-se a contribuição de Kierkegaard para a psicologia por meio de uma leitura da subjetividade, que permite discutir o sujeito da psicologia não como um sujeito científico, mas enquanto um sujeito caracterizado pela sua individualidade. Palavras-chave: existencialismo, temporalidade, subjetividade. Mini-currículo Marisete Malaguth Mendonça: possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. É especialista na Abordagem Gestáltica e no

16 Psicodiagnóstico de Rorschach. Professora por 33 anos dessa disciplina, de Fenomenologia e Gestalt e de Pensamento Dialógico em Psicoterapia. É Mestre em Psicologia Clínica pela PUC/GO. Há 22 anos é Professora, Supervisora Clínica, Diretora Acadêmica e Supervisora de Textos do Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-terapia de Goiânia ITGT. Possui artigos publicados nas Revistas dos Encontros da Abordagem Gestáltica. É Orientadora de várias pesquisas clínicas na Abordagem. No momento, vem pesquisando e escrevendo sobre a importância do não dito na Psicoterapia Virginia Elisabeth Suassuna Martins Costa: possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo USP (1977), mestrado em Educação pela Universidade Católica de Goiás -PUC- GO (2002) e doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília - UnB/UFG (2008). Especialista em Gestalt-terapia no Brasil e Treinamento avançado nessa abordagem na França, Suíça e Estados Unidos. Professora da Universidade Católica de Goiás - PUC- GO, desde 1978, e Fundadora, Professora, Supervisora Clínica e Diretora Administrativa do Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiânia ITGT. (GO)., Possui artigos e capítulos publicados em revistas e livros. Pesquisadora cadastrada na Plataforma Brasil, vinculada ao CNPq. Psicoterapeuta de criança, adolescente, casal e família e de grupo na perspectiva da Gestalt-terapia.

17 Dia : 18/05/ SÁBADO CONFERÊNCIA II: O GESTALT-TERAPEUTA É UMA PESSOA. É POSSÍVEL A AUTO- REVELAÇÃO? Dr. Gonzague Masquelier (França) Drª Marine Kergueno Resumo O Gestalt-terapeuta é uma pessoa. Quais as formas de auto-revelação podem ser consideradas? A questão da auto-revelação surge em qualquer forma de psicoterapia. É crucial na terapia gestática porque o terapeuta é parte do campo. Enquanto nós encorajamos o paciente a se envolver nas suas emoções, na sua consciência, nos seus segredos, podemos ficar distantes e não nos envolvermos pessoalmente? Os fundadores da Gestalt mostraram que organismo e ambiente são indissociáveis. O terapeuta, por conseguinte, não pode ser subtraído do campo terapêutico. Mas o que revela o terapeuta? Quando e como? Esta partilha emocional é a serviço da terapia? Pode criar um suporte para o paciente ou pode gerar confusão ou mesmo vergonha? Gonzague e Marine irão partilhar as suas experiências neste campo, tanto em terapia individual como de grupo, e dar alguns fundamentos teóricos e clínicos a este tema específico na abordagem gestáltica. Palavras-chave: terapeuta, auto-revelação, gestalt-terapia. Mini-currículo Dr. Gonzague Masquelier: é psicólogo e gestalt-terapeuta e também trabalha como consultor na Gestalt. Ele é diretor da École Parisienne de Gestalt (EPG) por 20 anos. Ensina Gestalt em uma dúzia de países. Escreveu os livros Gestalt nas Organizações e Gestalt Terapia: Viver Criativamente Hoje (publicados pela Gestalt Press). Recebeu um prêmio especial Le grand Livre du mois ( O grande Livro do mês ) para esta última obra, que está publicada em Francês, Inglês e Russo. Drª Marine Kergueno: iniciou suas atividades como Gestalt-terapeuta há 14 anos. Atua também em terapia familiar e na Abordagem Sistêmica. No seu consultório particular atende individual e grupos em terapia e dá treinamento e supervisão em Gestalt. É vice-presidente da Société Française de Gestalt, a associação nacional que reúne os gestaltistas francêses.

18 Dia: 19/05/ DOMINGO CONFERÊNCIA III O SAGRADO NO ENCONTRO HUMANO Dr. Jorge Ponciano Ribeiro (DF) (CRP: 01/496) Resumo A manifestação do Sagrado funda ontologicamente o mundo, por isso O Sagrado está saturado de ser, por isso O Cosmo, na sua totalidade, é uma hierofania (Eliade, M. ). O encontro com o sagrado é sempre humano e humanizante, criativo e criador, mas nem por isso todo encontro de pessoas é humano e, se não é humano, também não é sagrado. Sagrado e Profano constituem uma totalidade cósmica, isto é, tudo é inicialmente profano, o qual contem, potencialmente o sagrado. Tudo só é profano, enquanto não é possuído pelo sagrado, por isso todo pro-fano (fora do templo) tem uma ínsita vocação para o sagrado. O sagrado resignifica o profano, sem que este mude de essência; assim, quando o profano se torna sagrado ele é re-siginifcado, isto é, muda de natureza conservando sua essência. Por isso, O sagrado não é uma especulação teórica é uma experiência religiosa primaria. (Eliade, M.) Passar do profano ao sagrado, e esta é a vocação de todas as coisas, é alçar ao nível da transcendência. Quando estamos na dimensão da temporalidade, que implica sempre em transpor a um nível maior de qualidade, nos encontramos no campo do sagrado, que Otto, R, diz ser o campo do sentimento do pavor que ele definiu como misteryum tremendum et fascinans tão bem expresso em êxodo, III, 5 Não te aproximes, disse Deus a Moisés no Sinai, descalça as tuas sandálias, porque onde te encontras é uma terra sagrada. (Tal poderia ser a sensação de psicoterapeuta e cliente, quando se encontram na terra sagrada do consultório, lá onde deveriam tirar as sandálias do poder e se revestir das sandálias da humanidade). Naquele momento Deus se humaniza e Moisés se diviniza, tornando tudo sagrado. Nós nos esquecemos disto. Heidegger, nesta linha, identifica a natureza com o sagrado, dizendo que o sagrado é a raiz do destino dos homens e dos deuses e vai além, quando afirma que o sagrado não é sagrado, porque é divino, mas é divino porque é sagrado. O consultório é o campo do sagrado, porque, no momento em que nos transformamos numa epochê viva, nos re-significamos e re-significamos tudo à nossa volta, psicoterapeuta e cliente deixam o campo do profano, isto é, do saber já sabido e previsto, do poder da gênese repetitiva das certezas, e se entregam um ao outro, deixando-se acontecer no misterioso benefício da dúvida, tornando-se, pura e simplesmente, duas pessoas que não desejam nada, mas que apenas procuram, amorosamente, a mesma coisa,se humanizarem. Palavras-chave: Sagrado-profano, Humanismo, psicoterapia.

19 Mini-currículo Jorge Ponciano Ribeiro é psicólogo clínico, professor titular emérito da UnB, fundador e presidente de Instituto de Gestalt-terapia de Brasília, DF.

20 MESAS REDONDAS

21 Dia : 18/05/ SÁBADO MESA REDONDA I: MÉTODO FENOMENOLÓGICO: COMPROMISSO ÉTICO COM A EXPERIÊNCIA DO CLIENTE Dr. Adriano Furtado Holanda (PR) (CRP: 01/3795) Dr. Tommy Akira Goto (MG) (CRP: 06/ ) Dr. Andrés Eduardo Aguirre Antúnez (SP) (CRP: 06/40011) Resumo Dr. Adriano Furtado Holanda (PR) A compreensão da Fenomenologia, em todo seu contexto de complexidade, deve ser remetido a uma visão que inclui quatro concepções, ou seja, o pensamento fenomenológico deve ser pensado em quatro perspectivas como caminhos para sua apreensão, quais sejam: fenomenologia como epistemologia; fenomenologia como método, fenomenologia como filosofia e fenomenologia como ciência. A proposta desse trabalho é discutir a aplicação da fenomenologia como método, para o contexto da psicologia, definindo campos de interseção, fronteiras e limites. Em outras palavras, quais as possibilidades e impossibilidades da leitura da fenomenologia como método, aplicado à psicologia. Palavras Chave: Fenomenologia; Psicologia, Método, Clínica. Resumo Dr. Tommy Akira Goto (MG) O filósofo e matemático Edmund Husserl ( ) foi o fundador da Fenomenologia Transcendental, uma filosofia do início do século XX, que influenciou diretamente outras correntes filosóficas e as ciências em geral. Dentre elas, a Psicologia foi a que mais recebeu influência da Fenomenologia, por tê-la proporcionado a possibilidade de se constituir como Psicologia Fenomenológica. Para Husserl (2001) a Psicologia Fenomenológica tem, então, um afã reformador, no sentido de resgatar, a partir do método fenomenológico, a genuína essência da vida psíquica. Ainda, a Psicologia Fenomenológica se torna radical em relação às outras psicologias (científica e empírica), porque está dirigida genuinamente à vida mental em si mesma e as suas estruturas, ou seja, dirigindo seu olhar verdadeiramente para a interioridade mental. Isso significa que, assim como o fenomenólogo o faz na redução eidética, o psicólogo deve buscar apreender as essências psíquicas. A tarefa da Psicologia Fenomenológica se resume como descreve Husserl (2001) em características

22 básicas, tais como: ser a priori; ser uma ciência eidética e ter caráter intuitivo ou descrição pura. Cabe advertir, assim, que a concepção de Psicologia Fenomenológica de Husserl não se aplica às questões clínicas ou psicoterápicas, por se tratar de uma fundamentação epistemológica da Psicologia. Por fim, seguindo a fenomenologia husserliana, pode-se até pensar o método fenomenológico na Psicologia Clínica como uma análise reflexiva ou uma ciência fenomenológica da clínica ou da psicoterapia, cuja tarefa é esclarecer os processos psicológicos envolvidos nesse fazer, porém não pode ser pensado como pressuposto técnico de uma prática ou ação. Palavras-chave: Psicologia Fenomenológica, Fenomenologia husserliana, Analise Reflexiva, Psicologia Clínica. Resumo Dr. Andrés Eduardo Aguirre Antúnez (SP) Edith Stein - seguindo à risca os ensinamentos de Edmund Husserl - descreve uma primeira caracterização do método fenomenológico: o de fixar nossa atenção nas coisas mesmas, sendo o princípio mais elementar do método. Stein afirma (Estructura de la persona humana, 1994/2007, p.33): Não interrogar as teorias sobre as coisas, deixar fora em quanto seja possível o que se ouviu e se leu (...) aproximar-se das coisas com um olhar livre de prejuízos e beber da intuição imediata. Se queremos saber o que é o homem, temos que colocarmo-nos do modo mais vivo possível na situação na qual experimentamos a existência humana, quer dizer, o que dela experimentamos em nós mesmos e em nossos encontros com outros homens. O segundo princípio do método é dirigir o olhar ao essencial. Pela intuição, mais além da percepção sensível de uma coisa, tal como o aqui e agora, mas a intuição do que a coisa é por essência com duplo significado: o que a coisa é por seu ser próprio e o que é por sua essência universal. Captamos a essência pelo ato da percepção espiritual, que Husserl denominou intuição. Captamos algo do universal. Que relação essa descrição do método fenomenológico teria com a clínica? Ora, para estar diante de alguém é necessário que possamos nos despir de todo conhecimento prévio ou teórico, para podermos compreender o modo de ser distinto do semelhante que está diante de nós. Há algo de universal no ser humano, que nos irmana na mesma condição humana, mas há algo de peculiar e singular, que nos diferencia dos outros humanos. É nesse último ponto que o clínico com-vive com seu paciente, não apenas pensa-com ele, mas sente-com. Como deixar à sombra nossos interesses e desejos, para podermos nos abrir ao outro? Como deixar o que se sabe de teorias, pré-conceitos, tudo o que se ouviu viu ou leu, para conhecer o outro? Isso exige um método, um caminho a seguir. Gilberto Safra afirma que o ser humano é um ser transcendente, pois está sempre atravessado pelo inédito. À medida que a terapia progride a pessoa apropria-se de um saber, ofertado pelo seu sofrimento. Podemos acompanhar a sensibilidade do outro e também seu pensamento (Edith Stein), seja pela razão e também pelo sentimento ou melhor, por compenetração (Eugène Minkowski). Trabalho numa ética da solidariedade e amizade ontológicas, acompanhando o já conhecido e o ainda não acontecido, temos biografias diferentes, mas vivemos as mesmas intempéries da existência humana, nesse sentido vivemos em comunidade de destino (Gilberto Safra). A ética está em se abrir ao

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