Mudanças no jornalismo exigem novas formas de organização da profissão: por um conselho profissional de todos os jornalistas 1

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1 1 Mudanças no jornalismo exigem novas formas de organização da profissão: por um conselho profissional de todos os jornalistas 1 O ano de 2013 entrará para a história do jornalismo brasileiro como um divisor de águas. Nele, cristalizou-se a mudança nas grandes empresas jornalísticas, com a diminuição dos investimentos nas operações impressas e a migração de recursos para a operação digital. Também diminuiu a venda por assinaturas e avulsas dos jornais e revistas de papel, assim como caiu a audiência dos telejornais na TV aberta. E, finalmente, acentuou-se o uso da internet principalmente por meio de blogs e das redes sociais por organizações e indivíduos, como polos de distribuição de informação alternativa à mídia tradicional. Em outra frente de defesa e valorização do jornalismo, a da formação profissional, a mudança de paradigma também acarretou mudanças significativas. Com a queda da exigência do diploma em jornalismo para o exercício da profissão, em 2009 caiu de maneira significativa a procura pelos cursos de graduação em jornalismo. Ainda assim, estima-se que as cerca de 300 faculdades existentes em todo o país 2 formem de 4 a 6 mil jornalistas anualmente. Sem a obrigatoriedade do diploma, que garantiu por mais de 40 anos às faculdades de jornalismo terem alunos independemente da qualidade do ensino oferecido, parece correto supor que esses números se reduzirão até que os cursos demonstrem que são essenciais na formação de jornalistas. Por outro lado, foi dado um passo alentador para o aperfeiçoamento da formação profissional com a aprovação das Novas 1 Este texto é o resultado das conversas de um pequeno grupo de jornalistas (Antônio Graça, Bia Bansen, Costa Carregosa, Fred Ghedini, Milton Bellintani e Roberto Esteves, entre outros) que vêm se reunindo em São Paulo desde abril de 2013 para debater as mudanças por que passa o jornalismo. Trata-se fundamentalmente de um texto interno. Temos, em comum, a ideia de que os jornalistas devem criar um conselho profissional, no ritmo e no formato a serem amplamente debatidos entre os próprios jornalistas e também com a sociedade. O texto é uma primeira iniciativa nessa direção. 2 Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Jornalismo Relatório da Comissão de Especialistas instituída pelo Ministério da Educação (2009).

2 2 Diretrizes Curriculares dos Cursos de Jornalismo pelo MEC (Ministério da Educação), este ano. O cenário em mutação, como não poderia deixar de ser, provocou abalos. As grandes empresas do setor reduziram equipes, fundiram editorias, fecharam títulos e utilizaram, como nunca, o trabalho terceirizado e de estagiários muitos não estando sequer no último ano de formação, como forma de mantê-los por mais tempo nessa condição. Esta última característica se repete em portais e também em assessorias de imprensa/comunicação. Nesse quadro, o debate sobre o futuro da profissão no que se refere à formação, ao exercício profissional, às relações de trabalho e ao empreeendedorismo indivivual ou coletivo é um desafio para os 140 mil jornalistas brasileiros que não pode mais ser adiado. O PASSADO PASSOU A precarização das relações formais de trabalho provocou uma profusão de microempresas, sendo a maioria apenas razões sociais de trabalhadores transformados em pessoas jurídicas. Este é um processo complexo, que merece uma análise melhor. Mas pode-se dizer que o interesse das empresas em reduzir os gastos com suas folhas de salários e encargos, aliado às distorções da cobrança de impostos (que incidem de forma absolutamente desequilibrada sobre os salários), forçou muitos jornalistas a se adaptarem a um mercado com menos oferta de emprego no regime CLT trocando o vínculo empregatício pelo formato pessoa jurídica para continuarem exercendo a profissão. Como consequência dessas distorções, as redações sofreram um processo de juvenilização. Segundo a pesquisa Quem é o Jornalista Brasileiro Perfil da Profissão no País, realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), cerca de 81% dos jornalistas empregados em 2012 tinham até 40 anos sendo 59% até 30

3 3 anos. Apenas 8% dos jornalistas empregados em regime de CLT têm acima de 51 anos. O impacto se fez sentir também na média salarial. Hoje, 59,9% dos jornalistas ganham até cinco salários mínimos segundo o mesmo estudo. Outro aspecto deve ser ressaltado neste diagnóstico preliminar. O aumento da participação feminina na profissão, que vem ocorrendo de forma persistente ao longo dos anos. Desde 2004 as mulheres passaram a ser maioria entre os jornalistas brasileiros: elas já representam 64% dos profissionais contratados. O percentual está quase 20 pontos acima da média nacional em todas as profissões: 45,1%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Como é de conhecimento público, a mulher jornalista ainda não recebe, como prática geral do mercado, o mesmo salário que o homem. No quadro atual, o avanço feminino não parece caracterizar uma mudança de perfil da atividade jornalística favorecida pela questão de gênero e sim uma forma a mais de as empresas e instituições reduzirem os gastos com a folha salarial. Nas duas últimas décadas, o declínio da presença da quantidade de profissionais experientes na reportagem cotidiana vinha apontando a tendência de que o tempo de permanência da média dos jornalistas no mundo do emprego formal estava se reduzindo. Considerando a pesquisa da UFSC/FENAJ, atualmente ela é de não mais de 20 anos para 8 de cada 10 profissionais empregados no setor privado. Tomando por base a aposentadoria por idade 65 anos para homens e 60 anos para mulheres e o fechamento do mercado tradicional para a ampla maioria dos profissionais com mais de 40 anos, um número crescente de jornalistas vem se dividindo entre atuar em pequenos negócios próprios, migrar para o ensino e buscar oportunidades no setor público, no terceiro setor e, ainda, disputar o mercado precarizado reservado aos free lancers.

4 4 O desenho do novo cenário confirma que o exercício do jornalismo não voltará a ser como antes, seja como modelo de negócios ou como fonte de realização profissional e de sobrevivência. O DEBATE NECESSÁRIO A formação profissional nunca colocou para a maioria dos jornalistas outra perspectiva que não a de ser mão de obra qualificada a fim de disputar um lugar no mercado de trabalho. As entidades de defesa profissional não observaram que, a exemplo de outras profissões, o jornalismo pode e deve contemplar outras possibilidades de atuação, como a de empreendedor, sem que isso represente tornar-se patrão, no sentido clássico. A diferença entre empresários que apenas controlam empresas jornalísticas e os jornalistas que se tornaram proprietários de pequenos negócios sem deixarem de pautar a sua atuação pelos valores e compromissos da profissão com o interesse público e não pela ideia de que o mercado é o regulador natural da economia, deve ser reconhecida por uma entidade que pretenda representar a categoria como um todo. Por não terem enfrentado essa discussão e até mesmo por questões históricas e legais, prevalece em muitas entidades a compreensão limitada de que só é jornalista quem está empregado, que o profissional que se tornou pessoa jurídica agora é patrão e que aquele que atua como free lancer contribui involuntariamente para o aviltamento da profissão. Mas se todos exercem o jornalismo no dia a dia e não têm como característica principal o fato de serem empregadores, por que não devem ser considerados jornalistas profissionais, assim como os que têm vínculo de trabalho formal? A inexistência de uma organização que englobe os interesses de todos os jornalistas coloca na ordem do dia a necessidade da criação desse organismo, a ser construído como voz dos que realizam o trabalho jornalístico enquanto coletividade profissional.

5 5 Esta é a expectativa da maioria dos jornalistas de todo o país que responderam à pesquisa da UFSC/FENAJ. Segundo o estudo, 72% são favoráveis à autorregulamentação do exercício profissional mas apenas um em cada quatro jornalistas está filiado a sindicatos. O CONSELHO PROFISSIONAL DE JORNALISTAS Não é o emprego formal que confere ao jornalista a sua identidade nem mesmo o que define se o seu trabalho tem relevância social. As transformações em curso colocam a necessidade desse perfil de entidade representativa de todo os jornalistas, que tenha em sua organização uma adequação institucional alinhada com os atuais desafios do exercício da profissão. Precisamos de uma instituição de novo tipo, que afirme o compromisso social do jornalista com a democratização da mídia e o interesse público, aberta ao debate sobre as novas formas de fazer jornalístico, que cuide dos aspectos ligados à vida profissional, à ética, e à necessidade de apoiar e aprimorar a formação dos novos jornalistas. Uma entidade que se empenhe na regulamentação da profissão e assegure os direitos de todos os profissionais, independentemente da relação de trabalho que, individualmente, cada um vier a estabelecer em sua área de atuação. Necessitamos, enfim, de um conselho profissional capaz de representar todos os jornalistas profissionais brasileiros. Um conselho que não concorrerá com as entidades de classe sindicatos e FENAJ, mas sim buscará ampliar as possibilidades de representação da categoria e amplificar as discussões de seu interesse, que vão muito além das relações formais de emprego. Uma entidade que nasça e seja mantida pela contribuição voluntária de seus associados, cuja força resultará da participação dos profissionais de jornalismo. Um conselho que se construa na perspectiva de manter a identidade da profissão, capaz de aglutinar os diferentes segmentos que a compõem, aberto à inovação em práticas de gestão horizontal e ágil para se adaptar às permanentes transformações do exercício profissional.

6 6 A construção de um conselho profissional de jornalistas é uma tarefa coletiva, que só terá êxito se for capaz de envolver todos os segmentos da profissão interessados no debate sobre o futuro do jornalismo trabalhadores das empresas privadas, da área pública e do terceiro setor, professores e pesquisadores, empreendedores, estudantes e profissionais aposentados. Com o objetivo de abrir este debate, propomos a discussão dos seguintes pontos iniciais: 1. Defender a liberdade de expressão, assim como a liberdade de imprensa, e apoiar a criação de regras que não se confundem com o controle da informação. Trata-se, ao contrário, de completar o trabalho iniciado na Constituinte de que definiu as condições para uma comunicação democrática no Brasil, o que até o momento não foi adequadamente complementado com a legislação infraconstituicional. Enfim, trata-se de restringir a concentração de meios, ampliar a regionalização e favorecer o florecimento da produção independente, estimulando o surgimento de outras vozes informativas; 2. Acompanhar, debater e influenciar o processo de regulamentação da profissão em curso, incluindo a exigência de diploma superior para o exercício da profissão. Somos favoráveis à melhora e ao fortalecimento da graduação em jornalismo, mas também entendemos que a pós-graduação em jornalismo para graduados em outras áreas pode ser uma solução - desde que graduados em outras áreas de conhecimento passem por cursos de especialização formatados com base nas ferramentas essenciais e nas bases éticas do fazer jornalístico; 3. Criar mecanismos de diálogo com a universidade e as entidades de classe a fim de influenciar no processo de formação do jornalista, o estágio supervisionado e a inserção no mercado de trabalho;

7 7 4. Debater, incentivar e promover a formação continuada dos jornalistas (cursos, seminários, publicações), estabelecendo relações com a comunidade acadêmica tendo em vista o aprimoramento profissional; 5. Estimular o contato intergeracional entre jornalistas, favorecendo a transmissão de conhecimentos e a troca de experiência entre profissionais de todas as idades; 6. Aprofundar o conhecimento dos jornalistas sobre seus direitos autorais, bem como fortalecer a luta em defesa desses direitos, propiciando aos jornalistas serem os detentores inalienáveis desses direitos; 7. Promover, incentivar, apoiar e participar ativamente de debates em nível internacional sobre as mudanças no jornalismo, assim como sobre a necessidade de um organismo que congregue os profissionais em nível global pra levar adiante suas demandas nas áreas da ética e do fazer jornalístico; 8. Resgatar e promover ações baseadas em uma ética de solidariedade, necessariamente inspirada em uma visão coletiva, a fim de defender a categoria do empobrecimento; facilitar aos profissionais microempreendedores o compartilhamento de serviços que, individualmente, encarecem a gestão como o de contabilidade ; e a toda a categoria o acesso a serviços os mais diversos (saúde, crédito, aposentadoria complementar etc.) com base em acordos de cooperação com outros conselhos profissionais e instituições que possam contribuir para que os jornalistas tenham uma vida melhor. 9. Afirmar a importância da autonomia do trabalho do jornalista, baseada no compromisso com os princípios fundamentais da profissão, a ética e o compromisso com o interesse público.

8 8 Para levar adiante o debate que nos propomos a fazer, vemos a necessidade de que os jornalistas se organizem. Pode ser por meio da organização de comitês pró-conselho, articulando um movimento em nível nacional para darmos este passo tão importante. Assim, a partir da aglutinação dos profissionais nas mais diferentes localidades, nossa proposta é elaborarmos um calendário de debates que culmine em uma conferência nacional dos jornalistas para definir, em um prazo viável, as formas e o ritmo de criação de nosso conselho profissional. Sabemos que tal ideia, para se concretizar, terá de contar necessariamente com a contribuição e a participação interessada de jornalistas de todo o Brasil. Aí está nosso desafio, num momento difícil mas que, ao mesmo tempo, abre novas possibilidades para serem exploradas. Como muitos colegas hoje, não só no Brasil mas pelo mundo afora, precisamos refletir para entender exatamente o que está acontecendo e como podemos viver este momento como protagonistas e não como mero espectadores. Temos, portanto, muito a aprender. O que não impede que manifestemos a seguinte certeza que nos move: nossa organização e mobilização, enquanto jornalistas, são fundamentais para sermos também sujeitos da construção do que serão o jornalismo e o exercício da profissão de agora em diante. Iniciativa Pró-Conselho Profissional de Jornalistas de São Paulo (Setembro de 2013)

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