A Morte e o seu Mistério

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1 Camille Flammarion A Morte e o seu Mistério Traduzido do Francês La Mort et son mystère 1917 (obra em 3 volumes) VOLUME 3 Depois da Morte John Constable Nuvens

2 Conteúdo resumido Editada em três volumes, A Morte e o seu Mistério é um extenso e precioso repositório de narrações sobre fenômenos extrafísicos, expostos e comentados por Camille Flammarion com o rigor da metodologia científica. Conforme as próprias palavras do autor, a obra visa demonstrar por fatos de observação, fora de toda crença religiosa e em completa e imparcial liberdade de julgamento, a existência da alma, a sua independência do organismo corpóreo e a sua sobrevivência à desagregação deste último. Em síntese, são abordados neste trabalho os seguintes temas: o 1º volume, Antes da Morte, prova que a alma existe e independe do corpo carnal; o 2º volume, Durante a Morte, demonstra a veracidade do aparecimento de fantasmas dos vivos, as aparições e manifestações de moribundos e os fenômenos de premonição; o 3º volume, Depois da Morte, oferece-nos a certeza da sobrevivência da alma após a morte, sua existência num outro plano e a possibilidade de se comunicar com os Espíritos encarnados. Estas duas obras: A Morte e o seu Mistério, juntamente com O Desconhecido e os Problemas Psíquicos, escrita anteriormente pelo mesmo autor, formam a maior coleção de casos de fenômenos psíquicos já reunidos em obra literária, nos últimos séculos. Daí a sua grande importância como documentos históricos para as ciências psíquicas e, em decorrência, para as pesquisas sobre os fenômenos mediúnicos.

3 0 A morte é nosso destino comum. As riquezas materiais adquirem-se e perdem-se. Que a tua vida se inspire na mais pura justiça! Sê irrepreensível para o próximo como para contigo. Aproveita todas as oportunidades para te instruíres. Viverás, assim, vida sumamente agradável. Medita estes pensamentos. Quando deles estiveres compenetrado, poderás conceber a constituição de Deus, dos homens e das coisas e ajuizar da realidade da unidade de toda a natureza; Conhecerás então essa lei universal: em toda parte do mundo a matéria e o espírito, em princípio, são idênticos. Prossegue na obra da libertação da tua alma, fazendo escolha judiciosa e ponderada de todas as coisas, de modo a assegurar a vitória do que em ti existe de melhor: o Espírito. Assim, quando abandonares teu corpo material, elevar-te-ás no éter, e, deixando de seres mortal, revestirás tu mesmo a forma de um deus imortal. Pitágoras 0

4 Sumário I Pesquisa geral sobre a realidade das manifestações de mortos... 6 II Mortos que apareceram em seguida a juramentos recíprocos, a promessas, a ajustes, a declarações anteriores III Mortos que voltaram para negócios pessoais Revelações. Pagamentos de dívidas. Restituições. Promessas não cumpridas. Serviços a prestar. Testamentos. Confidências. Censuras. Protestos. Perseguições. Vinganças. Avisos. Manifestações diversas IV Manifestações e aparições de mortos imediatamente após o falecimento (alguns minutos até 1 hora depois) V Manifestações e aparições de mortos quase imediatamente depois da morte (algumas horas: de 1 a 24 horas) VI Manifestações e aparições de mortos pouco tempo depois do falecimento (intervalo de um dia a uma semana) VII Manifestações e aparições de mortos algum tempo depois da morte (de uma semana a um mês) VIII Manifestações e aparições de mortos bastante tempo depois da morte (de um mês a um ano) IX Manifestações e aparições de mortos muito tempo depois do falecimento (durante o segundo, terceiro e quarto ano depois da morte) X Manifestações e aparições de mortos muito tempo depois do falecimento (além do quarto ano)

5 XI As manifestações de mortos nas experiências de Espiritismo. As provas de identidade Conclusões dos três volumes desta obra

6 CAPÍTULO I Pesquisa geral sobre a realidade das manifestações de mortos As verdades matemáticas só podem ser julgadas por matemáticos. Eu desprezo o julgamento dos mateólogos ignorantes. Copérnico (Dedicatória do seu livro ao Papa, 1543) * * * Cada qual só deveria julgar do que entendesse. O bom senso Nosso volume Durante a Morte, segundo dessa trilogia metapsíquica, deu aos seus leitores a certeza dos fantasmas de vivos, das aparições e manifestações de moribundos, produzindo-se a qualquer distância, transmissões telepáticas irrecusáveis, e terminou com esta interrogação: Obteremos nós as mesmas provas de autenticidade, a mesma certeza quanto à existência real dos mortos? Eis um livro de boa fé, dizia Montaigne em seus inesquecíveis Ensaios: deve caber a mesma afirmação para esta obra. Chegamos à porta do templo fechado. Mas já esta porta pareceu entreabrir-se em nossas excursões à fronteira dos dois mundos. Este terceiro volume tem por fim estabelecer a sobrevivência por meio de fatos observados, e isto pelo mesmo método experimental, independentemente de qualquer crença religiosa. O raciocínio e a meditação podem auxiliar na pesquisa da verdade; mas não são suficientes, não o foram até hoje para descobri-la. A observação positiva é indispensável para nos

7 convencer. As teorias de nada valem quando não se esteiam em realidades. Ora, é de notar que a questão por excelência capital, qual a de sabermos se somos efêmeros ou duradouros, se sobrevivemos à morte, ficou até hoje fora do quadro das ciências clássicas. O habitante da Terra é um ente esquisito: vive num planeta sem saber onde está, sem ter a curiosidade de indagá-lo de si mesmo e sem procurar conhecer a sua própria natureza! É chegado o tempo de atacar a fortaleza da ignorância secular, e isso sem dissimular dificuldade alguma, objeção alguma. Antes de nos entregarmos a nossas pesquisas e para não nos expormos a perder nosso tempo pois não há coisa mais absurda do que o tempo perdido, parece-me que meu primeiro dever, como sinal de respeito para com os inúmeros leitores que me honram com a sua atenção, será de abranger, sob a mesma rubrica de recapitulação, as comunicações aos milhares que me foram dirigidas, aduzindo-lhes outras tantas feitas em outros países e em todas as épocas, e ver se algumas se apresentam com tal evidência que nos prometam a certeza desejada, libertem-nos do temor formulado aqui, autorizando-nos a tomar em consideração o assunto a examinar. Teremos ocasião de classificar mais tarde, em diversas categorias, os fenômenos observados. Façamos, pois, primeiro um ligeiro exame que ilumine espontaneamente nosso campo de estudos. Das cartas que recebi dos correspondentes com os quais estava ou estive depois em relações e cuja sinceridade e valor moral pude apreciar, dessas só destaquei algumas centenas de observações, dentre as que me pareceram inatacáveis. Agi exatamente como agimos para com as compilações científicas, quando publicamos uma observação astronômica, meteorológica, geológica e mesmo com maior severidade. Nada de romances, nada de fantasias. Estrita observação. Os leitores que acusariam esta obra, ou a precedente, O Desconhecido e os Problemas Psíquicos, de falta de método demonstrariam que tiveram a preguiça de examinar seriamente o assunto ou que realmente estão desprovidos do espírito de análise.

8 Não tenhamos nenhum preconceito, nem religioso, nem antireligioso. Nas crenças menos argumentadas descobre-se muitas vezes um fundo de verdade mal interpretada. Observemos com independência e formemos nosso juízo. Há espíritos obtusos. Não os imitemos. Eu dizia um dia certo negador impenitente a um livre pesquisador só acredito no que posso compreender. E todos sabem que o senhor em nada acredita! retorquiu o interlocutor. Os princípios do método científico nos ordenam receber as narrações de fenômenos, fora do natural, com a máxima circunspecção, considerando-os a priori como suspeitos, precisamente porque são extraordinários e inexplicáveis. E é difícil, à primeira vista, aquilatar qual o valor dos narradores, a respeito da sua própria sinceridade e do seu equilíbrio mental. Poderia citar mais de um pseudo-historiador fazendo pouco caso do respeito à verdade. O nome do signatário não é sempre uma garantia. A narração muito simples de uma observação feita por testemunha atenta e sóbria, sem pretensão literária, é muitas vezes de melhor qualidade do que a de um escritor profissional. Podemos até pensar que um romancista, habituado a inventar ficções, seja muito capaz de apresentar fatos falsos como realidades e isso sem o mínimo remorso. Todas as narrações devem ser, a priori, consideradas como suspeitas, porém declará-las todas inadmissíveis é simplesmente estupidez. Existem fatos reais. Apesar da incerteza das testemunhas históricas, peço licença para repetir a afirmação de que Luís XVI morreu na guilhotina, a 21 de janeiro de 1793, em Paris, e que o cadáver embalsamado de Napoleão jaz no sarcófago de mármore dos Inválidos. Procedamos assim: 1º- com prudência; 2º- com toda a liberdade de apreciação. O método que aqui adotamos para este estudo parece-nos o mais seguro, o mais inatacável. Verificamos, na segunda parte dessa obra, que a alma ao separar-se do corpo manifesta-se de maneiras diferentes, muitas vezes a grande distância do lugar do falecimento. Mas essas manifestações poderiam provir do ser humano ainda vivo, pois o

9 momento preciso da morte é extremamente difícil de se marcar, psicologicamente falando. Vimos passar diante de nossos olhos fenômenos diversos que se produziram num estado psíquico intermediário entre a vida e a morte e que não parecem ser manifestações de mortos. Não quisemos dissimular as objeções que se erguem diante do problema que deveremos resolver; enfrentamos as dificuldades, porque o estudo científico é, antes de tudo, franco e leal. É com a mesma lealdade, a mesma sinceridade, a mesma independência de espírito que devemos examinar os fatos de observações que agora se nos vão apresentar. Trata-se de estudar imparcialmente, de discutir, de interpretar grande número de fenômenos que se nos apresentam como manifestações de mortos; se os atos produzidos por certas faculdades da alma, desconhecidas ou pouco estudadas, tais como as transmissões psíquicas a distância, a vontade agindo sem intermediário, a telepatia, a vista sem os olhos, a audição sem os ouvidos, a previsão do futuro, revelam sob diferentes aspectos a existência pessoal da alma, que deve ser considerada, de ora em diante, não como efeito, mas como causa. Esse assunto nos dará testemunhos formais e categóricos da sobrevivência. Esses fatos, por serem inexplicáveis, nos obrigam a admitir que em nós existe um princípio espiritual, diferente dos atributos fisiológicos, físicos, mecânicos, químicos, do organismo animal, e que permanece intacto quando o corpo se desagrega. O valor, porém, das nossas conclusões está intimamente ligado à severidade do nosso método. Devemos evitar atribuir aos mortos todos os fatos inexplicáveis que nosso primeiro volume, Antes da Morte, levou-nos a suspeitar da existência de faculdades humanas ainda não determinadas. Vamos ter sob nossas vistas manifestações, aparições, observadas depois da morte, muitas vezes cumprindo intenções expressas em vida. Nosso dever é, sem a menor dúvida, tentar primeiro explicá-los como atos de viventes, como funções cerebrais; mas havemos de reconhecer que, apesar da melhor boa

10 vontade, não é isso fácil e que, sem idéia preconcebida, somos obrigados a admitir vontades de mortos. Uma comunicação entre um ente morto e um ente vivo é comunicação entre um espírito em certa fase da existência e um outro espírito em fase completamente diferente, efetuando-se por um meio diverso dos órgãos físicos, pois que do outro lado esses órgãos não existem mais. Examinemos tudo com cuidado, sem nos encerrarmos num quadro sistemático. Neste exame continuaremos a obedecer ao princípio que até agora nos guiou: nada de frases, nada de dissertações e de hipóteses: FATOS. Antes de tudo, declaremos que os fenômenos póstumos, que vamos examinar, não estão em desacordo com a lei biológica da continuidade. Demonstram, pelo contrário, que a vida continua além-túmulo, e isto muito simplesmente, muito naturalmente. As aparições no momento da morte lançaram para nós uma ponte entre os dois mundos; levam-nos diretamente, sem solução de continuidade, às aparições depois da morte. * * * A Ciência deve estudar os fenômenos psíquicos como estuda os físicos, sem se deter com as inverossimilhanças. Teríamos acaso podido admitir, antes da descoberta das ondas hertzianas, que seria possível transmitir uma onda elétrica, sem fio, a uma distância de milhares de quilômetros? Não teríamos rido se se tivesse pretendido poder fotografar um objeto de metal contido numa caixinha de madeira espessa? Não teríamos chamado louco àquele que nos tivesse dito que veríamos um dia fotografias dos nossos ossos obtidas através da nossa carne e nosso vestuário? Tudo não estava então e não está ainda por estudar? Descurar observações sob o pretexto de que são raras e excepcionais é erro e é anticientífico. A descoberta dos raios X foi devida a um acidente; a do árgon foi devida a uma anomalia no modo de agir do azoto; foi o desacordo entre as posições observadas e calculadas de Urano que revelou a existência de Netuno, etc.

11 Compreendemos nós as transmissões telepáticas no momento da morte? Não. São elas absolutamente certas? Sim. São ainda mais freqüentes do que o deixei entrever. Enquanto estava redigindo estas páginas (julho de 1921), recebi a seguinte carta de meu ilustre amigo Camilo Saint-Saëns, arrebatado alguns meses depois (16 de dezembro) à afeição dos seus admiradores: (CARTA 4.565) Tornando a ler pela nona vez teu último volume, uma recordação desperta em minha memória e não deixo para a- manhã escreve-te a esse respeito. Era em janeiro de 1871, no último dia da guerra. Estava eu nos postos avançados, em Arcueil-Cachan, acabávamos de jantar um excelente cavalo com que tínhamos feito um bom cozido e tínhamos apanhado taráxacos, cuja raiz, nesta estação do ano, está muito desenvolvida; em suma, um jantar que a todos nós satisfizera e estávamos todos tão alegres quanto era possível sê-lo, dadas as circunstâncias; subitamente ouvi cantar no meu cérebro o lamento musical de que fiz, mais tarde, o prelúdio do meu Requiem, e senti no meu íntimo que uma desgraça me acontecia. Angústia profunda me acabrunhou. Nesse momento mesmo morria Henri Regnault, ao qual me prendiam laços da mais viva amizade. A nova da sua morte me causou tal pesar, que adoeci e tive que ficar três dias de cama. Experimentei, pois, a realidade da telepatia, antes da invenção dessa palavra. Como tens razão de pensares que a ciência clássica não conhece o ente humano e que temos que aprender tudo! Teu, de todo o coração, C. Saint-Saëns. Eis mais uma observação psíquica a reunir a todas as que meus leitores apreciaram e à qual o nome daquele que a experimentou dá um valor especial.

12 A comunicação telepática de uma alma para outra, durante a vida, não é duvidosa; não o é tampouco depois da morte. Dados nossos conhecimentos atuais sobre as radiações, sobre as forças físicas e psíquicas, sobre a constituição atômica da matéria, creio que estamos agora nos casos de analisar nosso assunto com uma atenção mais proveitosa do que outrora, com a esperança fundada de obter resultados de alta importância. Examinemos, pois, este grave assunto sob todos os seus aspectos, mantendo-nos isentos das idéias preconcebidas que poderiam prejudicar a independência do nosso julgamento. Vou apresentar à atenção imparcial dos nossos leitores uma primeira série de observações que me parecem absolutamente demonstrativas. Assim deve ser a introdução lógica deste terceiro volume para merecer seu título: Depois da Morte. * * * Procurai e achareis. Jesus-Cristo Uma das mais demonstrativas manifestações de mortos que eu conheço é a que foi relatada por um positivista sinceramente materialista, o Dr. Caltagirone, de Palermo, que a observou em pessoa; vejamos a versão que dela narrou. O fato passou-se não há muito tempo, em dezembro de Escreve ele: Era eu amigo de Benjamim Sirchia e ainda seu médico. Sirchia, muito conhecido em Palermo, era um velho patriota, muito popular. Tinha qualidades morais e cívicas excelentes; era um incrédulo como eu, no sentido mais lato da palavra. Um dia, no mês de maio de 1910, começamos a discutir sobre os fenômenos psíquicos; respondi às suas perguntas assegurando-lhe que concluía por minha própria experiência que alguns desses fenômenos eram reais, porém a sua interpretação era contestável. Durante essa conversa, disse-me em tom de gracejo:

13 Escute, doutor, se eu morrer primeiro, o que é provável, pois sou velho e o senhor é ainda moço, forte e robusto, doulhe minha palavra que virei trazer-lhe a prova da minha sobrevivência, se eu ainda existir. Eu, rindo, e no mesmo tom de brincadeira, retorqui: Então virá manifestar-se quebrando alguma coisa neste quarto, por exemplo, este lustre, por cima da mesa... (estávamos então na sala de jantar). E para ser cortês acrescentei: Se eu morrer primeiro, também prometo ir a sua casa fazer alguma demonstração do mesmo gênero! Repito-o ainda, tudo isso foi falado antes como gracejo do que seriamente. Nós nos separamos e ele partiu alguns dias depois para Licata, província de Girgênti, onde se ia estabelecer. Desde esse dia nunca mais tive notícias dele, direta ou indiretamente. A conversa tivera lugar em maio de No mês de dezembro seguinte (no dia 1º ou no dia 2), pelas 6 horas da tarde, estava eu sentado à mesa com minha irmã, única pessoa que vive comigo, quando nos chamou a atenção o ruído de várias pancadinhas dadas no abajur do lustre suspenso ao teto da sala de jantar e na campainha móvel de porcelana do fumívoro, colocada por cima do vidro tubular de cristal. A princípio, atribuímos essas pancadinhas a estalidos produzidos pelo calor da chama, que tentei diminuir. Mas as pancadas se tornaram mais fortes e continuaram obedecendo a um certo ritmo. Trepei então numa cadeira para examinar com mais cuidado o que havia e verifiquei que o fenômeno não podia ser atribuído ao calor da chama, que funcionava com pressão normal. Ao demais, não se tratava aí de pequenos estalidos, como os que são produzidos por um calor extremo, porém eram pancadas curtas, de timbre especial, lembrando os estalidos feitos com as juntas dos dedos ou os que se produziria com uma varinha em objeto de porcelana. Tentei descobrir a causa dessas pancadas esquisitas. Nada. Enfim terminamos o jantar e o fenômeno cessou.

14 No dia seguinte, à noite, o mesmo tilintar foi ouvido e assim aconteceu durante quatro ou cindo dias seguintes, o que aguçou ainda mais a nossa curiosidade. Mas, na última noite, uma pancada forte e seca partiu em dois pedaços a campainha móvel, permanecendo ela nesse estado, pendurada no gancho do contrapeso metálico. Foi o que pude verificar quando fiquei em pé em cima da mesa, pois queria ver de perto o efeito da última pancada. Lembrome bem, e minha irmã igualmente, que embora tivéssemos apagado a luz central, em volta da qual se realizava o fenômeno, e tivéssemos acendido um dos ramos do lustre, as pancadas continuaram com a mesma intensidade. Devo igualmente declarar e afirmar, sob minha palavra de honra, que durante os cinco ou seis dias em que se repetiu esse fato estranho, que eu não podia explicar, nunca pensei no meu amigo Benjamim Sirchia e nem me recordei da conversa do mês de maio precedente, pois a havia esquecido totalmente. No dia que se seguiu à última noite, durante a qual a campainha arrebentara, estava eu no meu gabinete: eram mais ou menos 8 horas da manhã. Minha irmã estava à janela, vendo não sei quê, na rua; a criada tinha saído; súbito, ouviu-se um ruído estrondoso na sala de jantar, como se tivessem batido na mesa com uma clava. Minha irmã ouviu-o da janela e eu do meu gabinete; corremos ambos para ver o que tinha acontecido. É extraordinário, mas, por mais fantástico que seja esse fato, garanto-lhe a veracidade: em cima da mesa, e como se tivesse ali sido colocada por mão humana, achamos a metade da campainha móvel, tendo ficado a outra metade suspensa em seu lugar. Evidentemente o estrondo tão violento não estava em relação com o incidente. Foi o último fenômeno que pôs o remate a esses fatos esquisitos, repetindo-se eles durante cinco ou seis dias, sendo que este remate se deu em pleno dia e sem a ação do calor.

15 A queda da metade da campainha de porcelana não se podia realizar perpendicularmente à mesa, pois, tendo que passar pelo centro do abajur, teria esbarrado no tubo do aparelho e na camisa deste e ambos teriam quebrado com o choque, podendo assim passar a metade da campainha do fumívoro; ora, estes dois objetos estavam intactos. Se ela tivesse caído obliquamente sobre o abajur de porcelana, a metade da campainha ter-se-ia quebrado ou teria quebrado o dito abajur; se admitirmos que ela tenha escorregado sem nada quebrar, devia, neste caso, ter saltado para um ponto afastado do centro da mesa e não perpendicularmente ao eixo do aparelho. Conseqüências: o barulho foi um aviso do fenômeno, e o pedaço de campainha foi colocado de modo a demonstrar que o fato não era devido a um acidente, o qual, ao demais, estaria em oposição às leis da queda dos corpos. Devo ainda confessar que eu me tinha esquecido absolutamente de Sirchia e do pacto feito entre nós no mês de maio precedente. Dois dias depois, encontrando-me com o professor Rusci, este me disse: Sabia que o pobre Benjamim Sirchia morreu? Quando? perguntei com ansiedade. Nos últimos dias de novembro; foi a 27 ou 28. Que coisa estranha! Nos últimos dias de novembro, pensei eu então. Os fenômenos que se passaram em minha casa teriam alguma relação com sua morte? (lembrava-me da nossa última conversa, com todos os seus pormenores tão característicos). Começaram eles no dia 1º ou no dia 2 de dezembro e prosseguiram durante cinco ou seis dias. A tentativa de quebrar alguma coisa do lustre da sala de jantar fora coisa combinada entre nós, no mês de maio, e esta manifestação cessou com a execução final do que tinha sido marcado... Coisa também muito estranha, quando foi assim executado o pacto, uma pancada formidável o anunciou como para evidenciá-lo quase! O transporte da campainha para um lugar

16 onde era normalmente impossível que caísse por si, salvo o acaso, completa a estranha manifestação. Eis a minha observação pessoal. Eu e minha irmã conservamos como recordação desse fenômeno inexplicado os dois pedaços da campainha e os colocamos com as coisas que para nós são mais preciosas e mais queridas. Dr. Vicenzo Caltagirone. Tal é a narração da testemunha. Parece-me lógico tirar dessa observação a conclusão que dela ressalta, assim como procedemos numa experiência de química ou de física, e devemos afirmar que ela prova o seguinte: 1º- esse amigo ainda existia quatro, cinco, seis, sete, oito dias após a sua morte; 2º- ele tinha conservado sua consciência, sua individualidade; 3º- recordava-se da sua promessa; 4º- pôde realizá-la. É certo que ignoramos sob que forma se pode existir depois desta vida, quais as faculdades das nossas mônadas psíquicas e como podem elas agir materialmente, mecanicamente como neste exemplo tão característico. Mas o fato aí está. Não há possibilidade de evasivas. Explicá-lo é impossível, no estado em que estão os nossos conhecimentos, porém essa impossibilidade de explicar o fato não lhe diminui o valor. Para o estudo do mundo psíquico estamos no mesmo ponto em que estava Newton quando procurava explicar o sistema do mundo físico e aqui podemos aplicar seu modo de raciocinar... As coisas se realizam escrevia ele como se os corpos se atraíssem uns aos outros, em razão direta das massas e em razão inversa do quadrado das distâncias. Quanto ao saber como se faz, ignoro. Digamos do mesmo modo: As coisas se realizam como se o morto agisse. Criticar a lógica deste argumento parece-me inverossímil. A velha hipótese das coincidências acidentais não é mais aceitável. As combinações mais alambicadas nada concluem. É preciso negar a observação ou confessar que é inexplicável.

17 Repito dom Newton: As coisas se realizaram como se o a- migo do Dr. Caltagirone tivesse cumprido sua promessa. É este o verdadeiro método científico, não a negação cega, persistente e sistemática. Ainda uma vez, digamos que não sabemos como uma alma pode bater em um lustre, quebrar a campainha de um fumívoro de porcelana e dar forte pancada na mesa. 1 Há centenas de observações. As que lemos nos dois primeiros tomos desta obra nos induzem a pôr em jogo a força elétrica; mas esta hipótese nada nos ensina, pois que ninguém sabe o que é a eletricidade. Além de que há na Natureza forças desconhecidas; podem elas representar papel preponderante nesses fenômenos. Estas é que devemos descobrir e não nos inspirar no método de certos sábios contemporâneos, que pretendem que a Ciência só tem o direito de explicar os fatos observados por meio das forças conhecidas e não deve admitir o desconhecido. Recebi tão elevado número de narrações diferentes, de todos os países do mundo, em todas as línguas, de todas as classes sociais, assim como de todas as idades, desde a infância mais ingênua e mais ignorante até a idade de competência unida à experiência esclarecida e à severa análise psicológica, que fico absolutamente impossibilitado de descrer das manifestações de mortos em certos casos e do mesmo modo não posso duvidar da sua sobrevivência, pelo menos durante um certo tempo. Cumprir uma promessa para provar a um amigo que a existência perdura depois do último suspiro é, evidentemente, uma indicação bastante decisiva. Que mais podemos pedir? Essas pancadas, esses movimentos mecânicos, esses fenômenos físicos são manifestações de uma força procedente do espírito. Vimos um grande número de manifestações de força psíquica no tomo II. Este termo força psíquica, que eu tinha posto em moda em 1865, com a publicação do meu opúsculo primitivo As Forças Naturais Desconhecidas, foi discutido e mesmo algum tanto ridiculizado por certos escritores arqui-clássicos, bem intencionados e extra-prudentes. Um filósofo, aliás justamente estimado,

18 por certos trabalhos de história astronômica, o Sr. Th. Henri Martin, decano da Faculdade de Letras de Renes, membro do Instituto, escrevia entre outras coisas: Não me parece necessário discutir seriamente as forças naturais desconhecidas a que o Sr. Flammarion chama psíquicas e que seriam as promotoras dos movimentos inteligentes das mesas e dos outros prodígios atribuídos aos médiuns. 2 O célebre professor de Renes não admite a existência dessas forças desconhecidas. Após longa dissertação sobre as experiências de Agenor de Gasparin, de Thury, e outros observadores, das quais nada entendeu, e, à falta de melhor, colocando-se ao lado do R. P. Matignon e dos partidários da intervenção do demônio, escreve ele: Vejo fortes probabilidades para que esses prodígios sejam atribuídos em parte à ilusão e em parte à fraude. 3 Ou por outra: a coisa nenhuma. Eis o que disseram nossos predecessores clássicos nessa ordem de pesquisas. O fato que acabam de ler é característico. Atribuí-lo a faculdades humanas desconhecidas ou então ao acaso parece-me coisa ultra-temerária. Seguramente, preferiríamos ter visto a causa dessas pancadas propositais. Vemos os fantasmas? Sim, às vezes. Eis uma observação, precisa e positiva. A carta abaixo transcrita foi-me dirigida de Lião, a 25 de abril de (CARTA 4.462) Senhor e caro mestre: Permita-me declarar-lhe, antes de tudo, que na minha mocidade (que está longe) eu ria à vontade quando, por acaso, falavam em minha presença das manifestações do além ; tinha o cepticismo digamos a coisa como é da imbecilidade. Passou a mocidade, veio a idade madura, e se, entre as pessoas com quem estava, agitavam essas questões, já não ria mais, porém não era crente. Havia progresso. Ora, eis o que se deu comigo mesmo:

19 Uma noite de outono, a temperatura já estava fria, estava eu então sentado perto do fogão onde ardiam alguns tocos de lenha. Numa poltrona, diante de mim, minha mulher estava sentada de costas para a janela que dava para a varanda aberta, que servia de passagem aos quartos do primeiro andar da minha casa. Eu não estava sonhando, asseguro-lhe, pois acabava de percorrer um tratado Transformadores elétricos, obra que não se presta a devaneios. Estava, pois, longe de pensar em fenômenos extraterrestres, quando meu cão, um lulu da Pomerânia, deitado diante da lareira, ergueu-se e pôs-se a latir, olhando para a janela e vindo depois deitar-se, sempre rosnando, perto da minha poltrona. Olhei rapidamente para a janela e vi, por detrás do vidro, uma sombra de contornos vaporosos, indecisos, que parecia ter sido esbatida a esfuminho por Henner. Essa sombra dirigiu-se para a porta do meu quarto. Não pude conter uma exclamação. Fracamente atravessada de lado a lado pela luz de um bico de gás bastante afastado, ela caminhava lentamente, com andar que denunciava leve claudicação. Mau grado à minha vontade, exclamei: Oh! o pai! Era ao mesmo tempo o aspecto corpóreo, o andar do pai de minha mulher, falecido havia dois anos. Era ele mesmo. Levantei-me à pressa, arremessando-me à porta que abri bruscamente e... nada! Não podia ser uma alucinação; o livro que eu acabava de percorrer, e que ainda segurava, não dava propensão a isso e minha mulher que se virara, ouvindo meu grito, tinha percebido, como eu, essa sombra cuja recordação lhe era tão querida. Quando entrei no meu quarto meu cão já se tinha refugiado debaixo da cama e continuava a rosnar. Desde essa época nada mais vi. Aceite, senhor e caro mestre, a homenagem da minha admiração. Ballet-Gallifet 12, ladeira do Greillon, em Lião.

20 Todas as cartas que recebi não possuem o valor desta. O observador é um científico. Sua observação espontânea foi reforçada pela da sua senhora, e o que não se deve desprezar, pela sensação do cão. Tudo isso não é banal. Conforme meu hábito, deliberei fazer sobre o caso um inquérito independente. Entre as pessoas com quem estou relacionado em Lião, uma pareceu-me, pelos seus trabalhos e pela sua competência, indicada para me auxiliar no inquérito: a Sra. Rougier, minha digna colega da Sociedade Astronômica de França e do Instituto Metapsíquico. Escrevi-lhe sem lhe dar pormenores do assunto para que fosse, sob qualquer pretexto, visitar o autor da comunicação precedente, levar a conversa para esses assuntos e ouvir atentamente a narrativa pessoal que ele pudesse fazer a respeito da sua observação. Da sua amável resposta, copio o que segue: (CARTA 4.470) Recebi hoje de manhã, 2 de maio, a carta com que me honrou. Começo esta resposta às 6 horas menos 5 minutos, e tenho o prazer de lhe dizer que voltamos agora, eu e meu marido, da casa do Sr. Ballet-Gallifet. Esse senhor recebeunos cordialmente e não demorou em falar-nos da aparição tão surpreendente que ele e a Sra. Ballet-Gallifet viram, reconhecendo ambos o pai dessa senhora. Eis a sua narrativa: Estávamos em nossa casa, eu e minha mulher, às 9 horas da noite, quando, subitamente, nosso cão latiu, percebendo alguém que entrava. Era um homem que se adiantava vagarosamente. Fiquei tomado de espanto ao reconhecer meu sogro, pois não somente a personagem era ele mesmo, mas também coxeava como ele. Meu sogro era coxo. Se eu não tivesse notado logo esta particularidade que me fez reconhecê-lo de longe, teria ido buscar uma arma, tomando-o por um malfeitor. Minha mulher foi igualmente testemunha da aparição. Seus dois últimos livros é que levaram o Sr. B. G. a assinalar esse fato antigo, de quinze anos! Este leitor é uma inteligência que se interessa vivamente por tudo que constitui

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