Dança do Sabonete ÍNDICE APRESENTAÇÃO

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1 Dança do Sabonete ÍNDICE APRESENTAÇÃO 1 Um Sonho Perfeito 2 Castelos na Areia 3 Hora do Prazer 4 Pequenas Esperanças 5 A Dura Realidade 6 Descobrindo Guimarães 7 Nova Identidade 8 Participação no IV SIACOT 9 Viagem a Itália 10 Esperando Papai Noel 11 O Presente Surpresa 12 A Oportunidade Tão Esperada 13 O Grande Impacto 14 Sedução e Encantamento 15 O primeiro Dia do Resto de Nossas Vidas 16 Registros Poéticos da Emoção 17 Um Natal em Família 22 Apresentando Paris

2 Apresentação As alegrias, tristezas, decepções e dificuldades da vida de um homem que não desistiu de encontrar o amor verdadeiro, os primeiros relacionamentos afetivos, a primeira namorada, o primeiro amor e a semelhança com a referência feminina amada na adolescência. A Escola de Artes, o primeiro emprego como artista gráfico na empresa de arquitetos, engenheiros, economistas, geógrafos, historiadores e médicos que estudavam na Europa, os bailes pró-formatura dos colégios, o primeiro amor, a primeira musa, a sensibilidade das primeiras poesias. O primeiro escritório, os problemas políticos criados pela revolução político-militar de 1964, a Comissão de Reforma Agrária da cidade do Rio de Janeiro, a separação do seu amor e a decisão de morar em Paris. As condições financeiras para viajar, morar e estudar na Europa, a tristeza e o prazer de comunicar ao seu amor a decisão da viagem, da mudança de vida, de escola, de bairro, de cidade, de estado, de pais, de hemisfério. A viagem e o inevitável impacto de desembarcar na França, a gare de trens e a emoção de dizer: Paris, si vous plait. O apartamento no bairro Quartier Latin, o repertório cultural nos domingos açucarados de acesso grátis ao Museu do Louvre, o trabalho no escritório de arquitetura e viagem para conhecer a Escola de Arquitetura de Grenoble e o CRATerre, na França. A viagem para Roma, o trabalho na RAI, Rádio e Televisão Italiana, o Curso Superior de Desenho Industrial, a entrevista com o diretor da escola: tu sei un bravo artista e a experiência de ser professor e morar na Piazza Navona. A cidade de Barcelona e as imagens da Catedral da Sagrada Família, a Pensió Real, a Rambla de las Flores, a Plaza de La

3 Catalunya, a Plaza Cristobán Colombo e os ícones da arquitetura de Gaudí. O retorno para o Brasil, o encontro com a família, o trabalho no Governo do Estado de São Paulo, a Universidade, o casamento, as filhas, a separação e o divórcio. O projeto de arquitetura e a construção do Grande Hotel, no Centro Oeste, financiado pela Empresa de Turismo, as Normas Técnicas, a Pós Graduação, a universidade do nordeste, a coordenação da faculdade de arquitetura. O Congresso Internacional de Arquitetura de Coimbra em Portugal, o Reitor da Universidade, as surpresas nas inscrições, os Anais do Congresso e o novo autor do Artigo Técnico. A falsa autoria do Presidente da Comissão de Ética do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo, o professor Said, a cidade de Guimarães e o Plano de Pesquisa do Curso de Pós Doutorado junto ao Departamento de Engenharia Civil da Uminho. O desinteresse dos organismos governamentais e a desistência do Brasil, a cidadania italiana: Cei tutto perfetto, alora tu sei um bravo citadino italiano. A mudança para Guimarães, o apartamento, o encontro da mulher ideal, a surpresa do divórcio e a oportunidade esperada para encontrar a felicidade.

4 1 - SONHO PERFEITO Depois de observar atentamente as atividades de Carlos, um engraxate que trabalhava no Largo Ubirajara, resolvi montar minha caixa de engraxate para trabalhar nos finais de semana ao lado da minha casa. Uma experiência que estimulou meu pai trocar o emprego de tecelão para montar uma barraca de macarrão e bolachas nas feiras livres, onde descobri o gosto e a vocação para desenhar. Os cursos de Desenho de Propaganda, Artes Gráficas no SENAI, Desenho, Pintura e Gravuras na FAAP que possibilitaram o primeiro emprego de desenhista na SAGMACS, escritório de arquitetos, engenheiros, economistas, médicos, sociólogos que estudavam na Europa. Os comentários interessantes, curiosos e engraçados sobre os acontecimentos que surgiram durante os eventos educacionais, técnicos ou turísticos, que, mesmo trabalhando, não podia deixar de ouvir e participar, despertando curiosidade e desejo de fazer a mesma viagem. Depois do movimento revolucionário político-militar de março de 1964, minhas relações pessoais, profissionais e estudantis ficaram prejudicadas, me obrigando sair de São Paulo para trabalhar em Cuiabá, como chefe do Setor de Desenhos do Governo do Estado de Mato Grosso. Retornando um ano depois para chefiar a equipe de desenhistas do Escritório do Consórcio das empresas HMD que iniciava os trabalhos para implantar o Projeto do Metropolitano de São Paulo, METRO, à noite trabalhava com a equipe de arquitetos que projetava o Teatro Municipal da cidade de Santos para a PRODESAN, criando condições financeiras para aceitar o velado convite para deixar o Brasil e

5 morar, estudar e trabalhar na Europa, mais especificamente na cidade de Paris, França, que meus amigos da SAGMACS comentavam. Chegando à Paris, consegui um trabalho no escritório de arquitetura de André Lengaigne, fui estudar na Aliança Francesa e nos domingos, colocava pedrinhas de açúcar nos bolsos do casaco para me alimentar, enquanto enriquecia meu repertório cultural no Museu do Louvre. Quando acabaram os projetos do escritório, depois de conhecer o centro de tecnologia de Grenoble, na França, viajei para Roma e fui trabalhar na RAI, Radio e Televisione Italiana, e estudar desenho na Escola Superior de Desenho Industrial, no resultado dos testes o diretor Romulo Gianinni comentou: Tu sei um bravo artista!, me convidava para ser professor de Desenho Gráfico no 1º ano do Curso e morar num apartamento do prédio em que morava, na Piazza Navona. Depois de um ano em Paris e um ano em Roma, voltei para São Paulo para cursar a universidade. Assim que cheguei ao Brasil, além do emprego, comecei a namorar a mulher dos sonhos juvenis, que preenchia os lindos modelos armazenados no meu repertório de imagens, era a namorada que sonhava para ser a companheira definitiva. A imagem feminina, de beleza tão sonhada, agora estava ao meu lado, cabelos bem penteados, maquiada, bem vestida, roupa da moda com grife, perfumada, unhas pintadas, sapatos bem cuidados, desenvolvendo propostas inteligentes e naturais para a vida, aversiva ao cigarro, bebidas e drogas. Sempre muito simpática com todos os meus familiares, participava nas festas dos meus familiares, não importava saber de quem era a festa, desde o aniversário de um sobrinho distante até o casamento do irmão, colaborando, fazendo sala, ajudando na cozinha, fazendo nossa presença uma ordem

6 para a próxima festa. Com propostas objetivas bem definidas sobre a política, economia e projetos sociais, uma militante estudantil fervorosa e participativa. Sempre bem vestida, era atraente, charmosa, fogosa e parecendo ser insaciável sexualmente, o que me deixava extremamente curioso e sedento para vivenciar aquele monumento de mulher. Os amigos e a família comentavam sobre a namorada, sugerindo maior seriedade no compromisso, para começar uma vida mais familiar. Acreditei. O namoro se intensifica, os carinhos vão ficando íntimos, ousados, com maior prazer, vivenciados com a mulher tão sonhada, iniciava a fase mais intensa do namoro. As viagens, os passeios e as festas não podiam passar do horário imposto pelos seus pais, em consequência disso, os programas não eram devidamente aproveitados, começando a incomodar os dois adultos, que desejavam viver, mais intensamente uma vida a dois. Uma forma de ficar livre desses limites incômodos seria assumir a grande decisão de formarem um casal, para deixar de terem seus destinos limitados e controlados pelos pais da namorada. A decisão é tomada em conjunto, o casamento está marcado, a cerimônia do casamento, que não podia ser na igreja, por que ela não acreditava na religião católica, esquecendo seus familiares e os meus que acreditavam e ficaram ressentidos com aquela decisão. Um detalhe importante que não dei a devida importância. Durante a festa, o juiz leu o livro de registro civil e emitiu a certidão de casamento e viajamos para a lua de mel. 2 CASTELOS NA AREIA Para viver o sonho idealizado deixamos de perceber, ou não queremos perceber, importantes detalhes da personalidade da representante do modelo projetado. Na viagem de lua de mel

7 surgiram novas características da mulher ideal, na primeira discussão sobre suas atitudes na nossa convivência. Assim que assinou o livro do Registro Civil, comemorava com alegria sua liberdade, depois de mudar para nosso apartamento, começava a mudar seus comportamentos naturais, demonstrando ser outra pessoa. Na verdade, comecei a ficar preocupado com o erro que estava cometendo, dois dias antes do casamento, depois de oferecer como presente de casamento, um corte de tecido tropical inglês, com um desenho xadrez em preto, cinza e branco, gigantes e maravilhosos, de extremo bom gosto, juntamente com o design do modelo de roupa que tinha desenvolvido. Produzi a embalagem com papelão colorido, duas pirâmides que se encaixavam pela base, onde coloquei o presente, assim que nos encontramos, entreguei o presente e as poesias, trocamos muitos beijos, carinhos e abraços, ela abriu o presente, leu as poesias, depois ficou tentando abrir a embalagem, com alguma ajuda, conseguiu separar as pirâmides, achou o tecido, olhou, deu um sorriso amarelo e colocou de lado. Nunca usou o tecido para fazer nada. Ainda tinha presente na memória as linda imagens das cidades de Paris, Roma, Veneza, Barcelona e a convivência com o povo europeu, fiquei preocupado com seu reduzido repertório cultural, apesar da sua beleza física e da postura política, econômica e social. Na volta da lua de mel, numa linguagem bem vulgar, o caldo iria engrossar, nos momentos em que o namorado conhece a namorada em toda sua essência: A utilização do banheiro, a higiene pessoal, as roupas íntimas, espalhadas pelo chão do banheiro, ou penduradas na torneira do chuveiro, a cozinha, o fogão, a louça suja na pia, a geladeira, o lixo, a louça das refeições sobre a mesa, a sala e o quarto de dormir ao levantar.

8 A organização dos gastos para a casa, a programação de rádio e a decisão de proibir televisão no apartamento! Estava morando com outra mulher. Comecei a perceber que a vida a dois não seria fácil nem gostosa, como um dia sonhei. A namorada meiga, doce, carinhosa, alegre, organizada, penteada e perfumada, depois de casada, estava irreconhecível, um lindo sonho que virou pesadelo. Argumentando que, pelo simples fato de estarmos casados e sempre juntos, não era importante estar sempre arrumada, perfumada, agradável e meiga. A namorada se produz para ficar 3 ou 4 horas, exclusivamente com o namorado, agora isso não era necessário, pois estavam juntos 24 horas por dia. Ouvia tudo aquilo paralisado, sem saber como contraargumentar ou responder, estava atônito e sem saber como reagir. Dois meses depois do casamento, a namorada que tinha me seduzido, encantado e casado tinha se transformado em outra pessoa. Restava seu comportamento noturno, a cerimônia da preparação para dormir, com máscaras, cremes, rolos de plásticos cobertos com lenços estranhos. Tudo isso em cima de um corpo bonito, vestido com pijama sensual e charmoso, ela se travestia numa estranha criatura, sem nenhum charme. Estava deitando com um verdadeiro ET. Não há sensualidade ou excitação que resista. Na manhã seguinte, ao acordar, ela se transformava novamente, bem vestida e bem produzida para ir à faculdade, de onde retornava no final da noite, cansada, irritadiça e sempre com dor de cabeça, perguntando pelo seu jantar, depois tomava um banho e se transformava de novo para dormir, numa rotina enlouquecedora. Nessa época, trabalhava no Palácio do Governo, durante o período da tarde, permanecia em casa todas as manhãs e noites ouvindo o rádio, sonhando com a televisão proibida, preparando as refeições e fazendo palavras cruzadas. Aos sábados acordávamos um pouco mais tarde, depois dela tomar

9 seu banho e tirar suas máscaras e rolos do cabelo, acontecia alguns momentos de sexo semanal. Ufa! Antes de sairmos para passar o final de semana na casa dos pais dela, fazíamos compras no supermercado ou na feira, raros momentos que surgia a antiga namorada, que rapidamente se modificava quando encontrava com seus pais e seus amigos, quando ela voltava a ser a filha e amiga de antes do namoro. Admirava sua transformação sem falar nada, aquela pessoa que um dia namorei, nunca mais apareceu. Seu comportamento num dia normal: 8 horas ela dormia fantasiada, 12 horas ela ficava na faculdade, e nas 4 horas restantes, tomava banho, passava cremes, enrolava cabelos, conversava, discutia e brigava comigo, sobre qualquer assunto. Era aquela estranha convivência que tinha trocado pela minha liberdade, poder conviver com os meus amigos, com minha família, minhas namoradas, além de deixar de viajar, que sempre foi minha grande paixão. A minha expectativa do relacionamento a dois, em nada se assemelhava àquilo. Era simplesmente tudo o que não queria num casamento. Creio que ninguém queria. Quando não tinha aula e o prazer poderia ser maior, era o momento em ela me convidava para visitar seus pais, almoçar e jantar, sem que ela precisasse fazer a comida e lavar a louça, argumentando que na casa dos seus pais tinha televisão, que segundo os conceitos dela, limitava os horizontes do ser humano. Assistir futebol nos estádios, nem pensar. Concordava com tudo aquilo, sem saber o que ou como fazer, na minha ingenuidade achava que os casamentos eram assim, fazia todos os tipos de concessões, até quando brigava com ela, em detrimento das mínimas exigências, tudo em favor do entendimento e paz no relacionamento.

10 No terceiro mês, para não me sentir numa prisão de luxo, comecei a sair sozinho para fazer compras, entrar num cinema, procurar amigos e amigas, que já tinham casado, ou estavam namorando. Apesar daquela solidão, ainda não tinha procurado antigas namoradas, e muito menos olhava para outras mulheres com intenções de envolvimento, um comportamento normal de um homem sozinho. Acreditava no casamento, achei que tudo não passava de uma fase de adaptação, que um dia deveria ter um fim. Depois de seis meses, comecei a questionar meu comportamento como um todo e resolvi acabar com aquela farsa, delicadamente, sem conversar e sem brigar, apenas pedi para ela sair do apartamento e voltar para a casa dos seus pais, para repensar o casamento. Ela pouco discutiu, contra argumentou de maneira muito frágil e aceitou a minha decisão, voltou a morar na casa dos seus pais, por quarenta dias. Depois percebi que, coincidentemente, eram os dias de férias na sua faculdade, quer dizer, ela não tinha necessidade de se deslocar do bairro onde moravam seus pais, para ir à faculdade, no outro lado da cidade, fazer comidas e lavar a louça. Alguns dias antes de começarem as aulas, minha sogra veio me visitar e pedir para reconsiderar a decisão, nem que fosse para fazer a separação definitiva, mas que tivesse uma conversa mais séria com a sua filha. Numa conversa franca e amigável, expliquei os problemas surgidos durante o casamento, suas ausências, sua comodidade, a falta de tempo para namorar, com os quais, a sogra concordou. Deixei bem claro as exigências para aceitar novamente. No dia seguinte ela veio me visitar, utilizando os mesmos trejeitos da namorada, fazendo uma representação digna de indicação ao Oscar de melhor atriz, no papel do modelo da namorada, depois de uma longa conversa, séria, franca e decisiva, ela concordou e aceitou todas as minhas exigências, e voltou para iniciar nova convivência.

11 A temporada artística daquele novo relacionamento não durou mais do que quatro meses, aos poucos, voltava ao seu comportamento normal. Resistindo muito, procurando algumas soluções e saídas alternativas, e sem encontrar, continuava a sair sozinho, fazendo as comprar e me divertindo com os amigos. Nem o sexo, que no começo era quase bom, tinha ficado frio e distante, a justificativa era a mesma. Ficava ouvindo, olhando e participando de tudo aquilo, sem saber o que fazer. Aparentemente, para fugir da autoridade dos seus pais, utilizava a autorização que o casamento fornecia, depois de conseguir, não sabia o que fazer com o casamento. Quando ela chegava da faculdade, ficava imaginando namorar, abraçar e beijar, num relacionamento sexual fantástico e maravilhoso, mas acabava assistindo as cenas da entrada no apartamento, comer alguma coisinha, trocava algumas palavras, deixava a louça para lavar, tomava seu banho, se mascarava e se colocava na cama para dormir sozinha. Quando o homem mora sozinho, não tem estímulos sexuais ao assistir o desfile de lingerie sensual, provocativa e surrealista pela casa antes de dormir. Perplexo e sem acreditar no que estava acontecendo, novamente, tinha me transformado em seu empregado doméstico. Resolvi que a partir daquele dia, somente cuidaria da louça que eu usava, não lavaria mais a sua louça, que ficava acumulada, em cima da pia, para ela lavar no final da semana. Uma imagem desastrosa. Preocupado e incomodado com a abstinência sexual, depois de muita insistência minha, estudamos outras formas para fazer sexo, sem que ela estivesse irritada, sensível ou com dores de cabeça. A primeira tentativa foi fazer sexo pela manhã, quando ela estaria descansada e sem nenhuma irritação. Era preciso acordar mais cedo, para tirar seus apetrechos de dormir, excedendo, quase sempre, o horário limite para ela sair de casa. Não deu certo.

12 3 HORA DO PRAZER Com raras exceções, o sexo acontecia nas manhãs de sábado, aos domingos era impossível, sempre amanhecíamos na casa dos pais dela. Ela sugeriu a tentativa de marcar data e hora, para conseguir ter o prazer semanal, dessa forma ela poderia se preparar, conscientemente ou inconscientemente, para estar comigo, e não ficaria tão sensível na hora do sexo. Na primeira oportunidade com data marcada, me preparei, fiz uma comida especial, vinho na mesa, banho tomado, perfume, excitado, coloquei uma roupa sensual, procurava uma música bonita na rádio, e aguardando o momento dela chegar. Em alguma hora da noite ela chegaria. Ela chegou, entrou em casa com cara de poucos amigos, chateada, pois acontecera alguma coisa na faculdade, que ela não esperava, e dessa forma, ela não iria conseguir relaxar. Não pergunte como é que eu ficava. Acabei jantando sozinho, tomando muito vinho para conseguir dormir. A tentativa também não deu certo. Marcar hora para fazer sexo é algo surrealista. Predominava a tentativa do sexo aleatório, isto é, acontecia quando surgia a oportunidade. Numa das festas da sua faculdade, conversando com os maridos das amigas dela, procurei saber como eles resolviam esse tipo de problema, como era a sua relação com as esposas. Surpreendentemente descobri que, ninguém tinha esse tipo de problema, todos transavam duas ou três vezes por semana, fora os finais de semanas. Parece que só eu tinha sido escolhido a mulher errada. Uma noite comentei a história dos maridos das suas amigas, disse para me procurar quando estivesse descansada, pouco sensível e sem dor de cabeça, mas com desejos sexuais, como eu estava sempre disponível e com desejos, não haveria problemas de rejeição. Ela concordou imediatamente, esse

13 comportamento gerou total desinteresse pelo sexo. Agora seu comportamento era outro, parecia estar livre de um castigo, de um sofrimento, ela se sentia muito mais solta e muito menos compromissada. Com esse comportamento, atingimos a marca de 45 dias sem sexo. Não me pergunte como resistia a tudo aquilo, não saberia explicar. De uma maneira geral, o sexo acontecia, em média, a cada 30 dias, um caixa de preservativos com 12 unidades durava mais de um ano! Quase perdia a validade. 4 PEQUENAS ESPERANÇAS Depois de uma festa de aniversário, ela me procurou para fazer sexo. Fazia 45 dias que isso não acontecia. Depois de aproveitar a oportunidade sexual, quase bimestral, calmamente expliquei, de forma figurada e com muito bom humor, que tinha comprado a caixa com doze preservativos, estava durando quase um ano e meio, foi quando ela esbravejou: Não me diga que você está contando? Tentando não ser muito rude, pois ela poderia me castigar a ficar mais três meses sem sexo, respondi brincando, que a verba do preservativo precisava ser remanejada e poderia ser repassada para a verba da cerveja ou do vinho, uma vez que não estava sendo bem utilizada. Quer dizer, a última tentativa também não funcionou. Numa das relações bimestrais, ela acabou engravidando, e veio comunicar, argumentando, exatamente no mesmo dia e hora em que pedia para ela voltar para a casa dos seus pais. E agora seria de forma definitiva. Com esse forte argumento, ela me colocou numa das situações mais incríveis e inimagináveis que já tinha vivido. O que fazer agora. Aceitava ela de volta grávida, ou mandava para seus pais. Afinal a criança era minha, pelo menos acreditava nisso. Pensando na criança, de novo, acabei concordando. Foi outro

14 erro estratégico, utilizava a última das minhas fantasias: com o nascimento da criança, ela seria obrigada a dedicar mais do seu tempo para com seu filho, e com isso, ficaria um tempo maior dentro de casa. Durante a gravidez, sua vida não mudou em nada, depois do nascimento, no primeiro período de amamentação, comprei um carro novo para ela ir à faculdade e voltar para amamentar o bebe, de três em três horas. Quando terminou o período de amamentação, quem fazia a mamadeira e alimentava a criança era minha mãe. Depois que minha mãe foi embora, a empregada alternava comigo a preparação e alimentação da criança, trocar as fraldas e colocar para dormir, dando liberdade para ela voltar a ficar o dia inteiro fora de casa. Todas as noites quem fazia a mamadeira e trocava as fraldas era eu. Mas eu gostava, era uma distração e uma nova companhia, agora tinha com quem ficar em casa. Talvez tenha sido a verdadeira intenção em deixar que ela ficasse em casa. Companhia. As crianças choram muito nos primeiros meses, a nossa criança chorava quase 18 horas por dia, fomos consultar um médico gastroenterologista, pois o pediatra achava que deveria haver algum problema com a digestão da criança. Depois da consulta, percebendo que a criança nada tinha de anormal, o médico perguntou sobre as atividades da mãe, e acabou receitando colocar uma colher de azeite na mamadeira, sugerindo que a criança cobrava maior presença da mãe junto dela com o choro. Nem por isso ela mudou seu comportamento. No verão tinha vendido a casa para comprar um terreno no litoral para construção de um pequeno hotel para melhorar minhas condições financeiras. Ela concordou em vender a casa, desde que alugasse um apartamento grande, com linda decoração e que tivesse piscina.

15 Nos finais de semana, levava a criança para tomar sol na piscina e assistia as mulheres do prédio desfilarem de biquíni. Era delicioso, mas tinha um problema: o que fazer com aquela excitação. Durante as costumeiras discussões e ponderações sobre a abstinência sexual de um homem casado, ela chegou a me sugerir: Porque você não procura outra mulher? Apesar de tantos problemas de convivência, comportamentos, abstinência sexual e relacionamento pessoal, nasceram mais duas crianças, aumentando, sobremaneira a minha responsabilidade, pois ela continuava fora de casa, tinha concluído a faculdade, agora tinha o seu consultório e o seu emprego. Para que ela pudesse honrar todas suas obrigações fora de casa, ela sugeriu e aceitei morar com os pais dela, para que alguém cuidasse das crianças, que não a empregada. Morávamos na mesma casa, eu, ela, três crianças, avô, avó e uma bisavó, além da empregada. Com o passar dos tempos, ficava radical sua transformação, se caracterizando como uma mulher que precisava sair de casa, definir seus limites com maior liberdade, e o casamento impunha parâmetros que ela resolvia de forma pessoal e individual, não importando o que estava acontecendo com o marido e com os filhos, e agora com seus pais. 5 DURA REALIDADE Depois de alguns anos de muita confusão com os avós, e com as crianças mais crescidas, voltamos a morar sozinhos. Numa tarde, ela veio calmamente me pedir para sair da casa, recebi a ordem aos prantos, não por ela, mas pelas minhas filhas, argumentei que era ela quem deveria ficar fora, uma vez que ela sempre do lado de fora de casa, seria mais normal a sua saída. Muito brava, ponderava que o lugar da mãe é com as filhas! Quando a mãe fica em casa, respondi. No retorno da minha viagem a Mato Grosso, para não sentir o grande impacto de

16 sair da casa, fiquei no apartamento que tinha construído no quintal do escritório do hotel que estava construindo no Centro Oeste, onde passei a morar. Depois de 90 dias de tristeza, lágrimas e bebidas, num domingo de sol de folga da minha obra, fui para a praia e comecei a olhar e ver a beleza da praia, das mulheres, da natureza e das alegrias da vida, novamente. Parei de chorar e de beber, comecei a colar os cacos do casamento, na verdade estava me preparando para uma nova vida, que até poderia incluir uma pessoa, mas ocupava meu tempo nas obras dos hotéis, nas viagens e na pós-graduação. Acostumado à pressão do casamento, estranhava a liberdade de viajar e não avisar ou combinar datas e horários com ninguém, mas estranhava voltar para casa vazia e sem ninguém para me receber. Nos finais de semana, quando as crianças ficavam na minha companhia, preparava a churrasqueira, a carne, as saladas e as bebidas, comportamento que mudou quando fui morar para cuidar da doença da minha mãe. Nos almoços de sábados na casa da minha mãe, preparava bife de contra filé, frito com ovo a cavalo, salada de alface, tomate e ovo cozido e como sobremesa, minha mãe o ensinou a fazer o pudim de leite condensado, com ovos e leite, e para o lanche procurava variar entre o Mc Donalds, as pizzas e as Esfihas. Nos almoços dos domingos, comprava na feira, frutas, verduras, saladas, mariscos e ricota, preparava ravioles de ricota, como aperitivo teria os mariscos cosidos, pudim de sobremesa, um verdadeiro banquete. As crianças me ajudavam em tudo, uma verdadeira integração, que nunca houve na casa da minha ex-mulher. Depois do almoço, lavava a louça, com uma ou outra criança, comprava o jornal, ficava conversando, jogando ou brincando com as crianças até a hora do jantar, depois com muita tristeza, levava as crianças de volta para a casa da minha ex-mulher.

17 Esse comportamento mudou quando minha mãe, depois de ficar muito doente, veio a falecer, quando decidi concluir minha pós-graduação e desenvolver a montagem do Workshop Internacional de Arquitetura de Terra. Depois de defender a Tese de Doutorado e trabalhar um longo ano como professor de projetos na universidade particular do nordeste brasileiro, realizando antigo sonho de ajudar as pessoas, morar em frente à praia, desfrutando do sol e da linda natureza. Tive enorme decepção como homem e professor, o preconceito demonstrava a satisfação com a vida que levam. A pobreza e a seca é assunto produzido pela mídia do sudeste. Depois de um longo e interminável ano, voltei e fui trabalhar como coordenador do curso de arquitetura de uma universidade particular na cidade de São Paulo, minha primeira experiência acadêmica, fora da sala de aula e das disciplinas de projetos de arquitetura, de percepção e representação das formas, e criatividade. Um dos professores, meu amigo de faculdade nos anos 1970, foi demitido de uma grande universidade, convidei para trabalhar comigo. Dois dias depois de ser contratado, o meu amigo professor me convida para participar no Congresso Internacional de Arquitetura de Coimbra, em Portugal. Além de dinheiro, precisava solicitar permissão à Reitoria para me ausentar da faculdade durante a realização do evento. O meu amigo professor sugeriu encaminhar o resumo de um artigo técnico baseado na síntese do meu trabalho de doutorado. Preparei o trabalho que o professor, depois de formatar atendendo as exigências da Secretaria do Congresso, encaminhou. Não tinha passado um mês, o meu amigo professor informava que o resumo do trabalho tinha sido aceito, e agora se fazia necessário preparar e encaminhar o trabalho técnico para fazer a inscrição no congresso. Emocionado e surpreso repensava a possibilidade de voltar à Europa e participar no meu primeiro Congresso Internacional

18 de Arquitetura. Em paralelo com o trabalho da universidade, tinha concluído um estudo preliminar do Projeto de Arquitetura para a construção do condomínio da cooperativa dos metroviários, cuja remuneração ajudaria na compra das passagens, mas ainda precisava da autorização do Reitor, da verba para hospedagem e inscrição no congresso. Em agosto completava 12 meses como coordenador, melhorando o curso, montando novos cursos e projetando a nova distribuição física das salas de aulas, além de criar o projeto do campus. Tinha participado do congresso estadual de arquitetos no Rio de Janeiro, juntamente com esse mesmo professor meu amigo, com todas as despesas pagas pela Reitoria, que não concordou na participação do congresso de arquitetura em Minas Gerais. Mesmo assim resolvi encaminhar um Memorando Interno ao Pró Reitor, solicitando autorização para me ausentar durante 16 dias da coordenação do curso para viajar e participar no Congresso Internacional de Arquitetura de Coimbra, e uma ajuda de custo para viagem, inscrição e estadia. Anexei uma cópia do que a Secretaria do Congresso havia encaminhado, confirmando o aceite do trabalho e convocação para fazer a inscrição. Alguns dias depois, a secretária do Reitor me convoca para uma reunião, autorizando minha ausência da Coordenaria do Curso por 16 dias para participar do congresso e liberou uma verba de US$ 4, para despesas sem comprovantes. A única exigência do Reitor era conseguir um convênio com alguma universidade portuguesa. Com lágrimas nos olhos, muito emocionado abracei o reitor e agradeci muito pela oportunidade, afirmando, que nunca tinha sido reconhecido pelo meu trabalho, voltei para minha sala, onde fiquei sentado em frente ao computador, digerindo a notícia, nem fui almoçar. E precisava? Ás 18,00 horas chegavam os alunos e os professores para cumprimentar, e

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