ESTRESSE OCUPACIONAL E QUALIDADE DE VIDA EM TRABALHADORES DE MANUTENÇÃO DE AERONAVES DE UMA INSTITUIÇÃO MILITAR BRASILEIRA

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1 DANIELA DE ALMEIDA MARTINS ESTRESSE OCUPACIONAL E QUALIDADE DE VIDA EM TRABALHADORES DE MANUTENÇÃO DE AERONAVES DE UMA INSTITUIÇÃO MILITAR BRASILEIRA UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO CAMPO GRANDE/MS 2005

2 DANIELA DE ALMEIDA MARTINS ESTRESSE OCUPACIONAL E QUALIDADE DE VIDA EM TRABALHADORES DE MANUTENÇÃO DE AERONAVES DE UMA INSTITUIÇÃO MILITAR BRASILEIRA Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Psicologia da Universidade Católica Dom Bosco, como exigência parcial para obtenção do Título de Mestre em Psicologia Área de Concentração: Comportamento Social e Psicologia da Saúde, sob a orientação da Profa. Dra. Liliana Andolpho Magalhães Guimarães. UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO CAMPO GRANDE/MS 2005 ii

3 BANCA EXAMINADORA Profa. Dra. Liliana Andolpho Magalhães Guimarães (UCDB) Orientadora Prof. Dr. Dorgival Caetano (UNICAMP) Profa. Dra. Sonia Grubits (UCDB) iii

4 Dedico esse trabalho à minha família: Laerte, Selma, Mi, Lannes, e a nossa alegria de todos os dias, Frederico. iv

5 AGRADECIMENTOS Agradeço profundamente Aos meus pais, pelo amor, pelo exemplo, pela compreensão e pelo apoio constantes, sempre ao meu lado, incansáveis; À Mi, minha irmã querida, amiga de todas as horas, parceira para tudo, meu porto seguro, que nos deu o presente mais iluminado da vida: Frederico; Ao querido Lannes, irmão que ganhei, pela amizade e carinho constantes; A minha orientadora e amiga, Profa. Dra. Liliana Guimarães, pelo exemplo de mulher e de profissional que é, que me apoiou desde sempre, com palavras amigas, sábias e carinhosas, por ter acreditado e por me fazer acreditar que sempre é possível ir além; A querida amiga Inalda, pela companhia impagável, pelo incentivo e pela alegria com que compartilhou comigo as famosas 15 horas de viagem, sua força e amizade foram fundamentais; A UCDB, ao mestrado de Psicologia, aos professores, funcionários e colegas de turma, por todo o apoio e acolhimento que recebi; Ao CTA e a toda a equipe de manutenção de aeronaves que aceitou participar e cooperar com essa pesquisa obrigado pelo apoio e pela oportunidade; Aos amigos do Laboratório de Saúde Mental e Trabalho, pessoas especiais e companheiras que dividem comigo esse espaço privilegiado para partilhar experiências, conquistas e alegrias; Ao amigo querido Léo da Vinci, médico do trabalho e piloto, por todo o incentivo e carinho, iluminando meus primeiros passos nesse mundo apaixonante da aviação; Ao comandante e piloto Ruy Lange, querido amigo, que com toda a paciência e generosidade dividiu comigo seu conhecimento profundo e, acima de tudo, sua paixão por voar; Ao meu irmãozinho Dri, companheiro de todas as horas, pela amizade e estímulo constante; Aos amigos e familiares do meu coração, perdoem a ausência durante o período de gestação dessa dissertação. Obrigado pela torcida, pela amizade e pelas palavras carinhosas nos momentos difíceis. v

6 RESUMO vi

7 MARTINS, Daniela de Almeida. Estresse Ocupacional e Qualidade de Vida de trabalhadores de manutenção de aeronaves de uma instituição militar brasileira. Campo Grande/MS, 2005, 232p. Dissertação de Mestrado Mestrado em Psicologia da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Inexistem estudos similares na literatura nacional e internacional avaliando Estresse Ocupacional e Qualidade de Vida de trabalhadores de manutenção de aeronaves. Essa atividade exige um alto nível de competência, não admite erros e demanda uma importante carga física e mental de trabalho (DAC, 1996; FAA, 2002). Dentre os riscos ocupacionais inerentes à profissão destacam-se: trabalho em espaços restritos, riscos atmosféricos; riscos físicos e carga mental. Através do estudo exploratório-descritivo, desenvolvido em uma única etapa, no setor de manutenção de aeronaves de uma instituição militar brasileira, objetivou-se a caracterização dos aspectos sócio-demográficos, a avaliação do estresse ocupacional e da qualidade de vida, comparando e correlacionando os resultados. Dos 93 funcionários, 82 (n = 82; 88,1%) participaram da aplicação dos questionários ERI Desequilíbrio entre Esforço e Recompensa no Trabalho (SIEGRIST, 1999) e do Questionário de Qualidade de Vida WHOQOL - Bref. (FLECK et al., 1999). Foram utilizados: análise de variância (ANOVA), teste de proporções, teste t de Student, e regressão linear múltipla. A ANOVA dos domínios do WHOQOL-Bref evidenciou que a média do domínio Meio Ambiente (12,4) foi significativamente inferior a dos demais domínios de QV (p < 0,05). Quanto ao ERI, 55 sujeitos (67%) apresentaram equilíbrio entre esforço e recompensa no trabalho (ERI-) e 27 (33%) apresentaram desequilíbrio nessa relação (ERI+) (p = 0,00), indicando presença de estresse ocupacional; 8 (10%) apresentaram Supercomprometimento, enquanto 74 (90%) não o apresentaram (p = 0,00). Não foram obtidas associações significativas entre as variáveis sócio-demográficas, de um lado, e os domínios de QV e o fator desequilíbrio no ERI, de outro (p>0,05). O fator Supercomprometimento (SC) apresentou associação significativa com a variável renda (p = 0,05). As sub-escalas de SC apresentaram associações significativas com as variáveis sóciodemográficas: competitividade e horas semanais de trabalho (p=0,01); irritabilidade desproporcional e renda (p = 0,02); dificuldade de se desligar do trabalho (DDT) e renda (p = 0,01); DDT e idade (p = 0,00); DDT e tipo de cargo (p = 0,01); DDT e trabalho em turnos (p = 0,02). A regressão linear múltipla entre QV e ERI revelou que os domínios de QV foram responsáveis por 33,9% da variância do ERI e que apenas os domínios Meio Ambiente (DMA) (ß =-0,044) e Físico (DF) (ß =-0,054) contribuíram significativamente para a variância explicada (p < 0,05). Tomando-se o ERI como variável preditora de cada domínio de QV, observa-se que o mesmo foi responsável por 28,3% da variância do DF e por 24,7% da variância do DMA. Os achados sugerem que a percepção inferior de QV está mais relacionada às características do ambiente de trabalho do que às características do trabalhador, o que permite concluir que condições organizacionais desfavoráveis exercem pressão sobre o trabalhador de manutenção de aeronaves militares e, quando sua energia adaptativa se exaure, podem ocorrer os erros que colocam em risco a segurança de vôo. Palavras-chave: estresse ocupacional; qualidade de vida; manutenção de aeronaves; fator humano; psicologia da saúde ocupacional. vii

8 ABSTRACT viii

9 MARTINS, Daniela de Almeida. Work Stress and Quality of Life of the aircraft maintenance personnel from a Brazilian military institution. Campo Grande/MS, 2005, 232p. Dissertation submitted for Master s Degree in Psychology at Dom Bosco Catholic University (UCDB). There is no evidence of national or international studies assessing work stress (WS) and quality of life (QOL) of the aircraft maintenance personnel. The aircraft maintenance system is a complex one, requires a high level of competency, is intolerant to errors, and is characterized by high levels of mental workloads (DAC, 1996; FAA, 2002). Its hazards are associated with working in confined spaces, being exposed to air contaminants, physical demands and mental pressure. In a crosssectional study designed to describe the sociodemographic characteristics and to assess the prevalence of work stress and quality of life from 93 aircraft maintenance workers from a Brazilian military institution, two questionnaires (ERI - Effort-Reward Imbalance and the WHOQOL-Bref) were administered to 82 (88,1%) of them. The responses were subjected to analysis of variance (ANOVA), proportion tests, Student's t-test and multiple linear regressions. The WHOQOL-Bref showed that the Environment Domain (mean=12,4) was found to be significantly lower than the others domains (p < 0,05) of QOL. The prevalence of ERI was 33% (n = 55) (p = 0,00), suggesting the occurrence of work stress. The prevalence of Overcommitment (OC) was 10% (n = 8) (p = 0,00). On the one hand, sociodemographic characteristics were not significantly associated with WHOQOL-Bref and ERI (p>0,05). On the other hand, OC was significantly associated with income (p=0,05). The OC s scales were significantly associated with sociodemographic characteristics as follows: competitiveness and working hours per week (p=0,01); latent hostility and income (p=0,02); inability to withdrawal from work (IWW) and income (p=0,01); IWW and age (p=0,00); IWW and level of occupation (p=0,01); IWW and work shift (p=0,02). Through the Multiple linear regressions between QOL and ERI, QOL domains accounted for 33,9% of the variance of ERI, which is explained significantly (p<0,05) by the QOL Physical Health domain (PHD) (ß=-0,05) and by the Environment domain (ED) (ß=-0,044). On the other hand, ERI accounted for 28,3% of the variance of the PHD and 24,7% of the variance of the ED. These findings suggest that the perception of QOL is mostly related to the organizational variables than the worker s individual characteristics. In closing, unfavorable organizational conditions place pressure on the military aircraft maintenance worker and when his adaptive energy begins to succumb to these pressures, errors may occur, becoming an important risk factor for the flight safety. Key-words: work stress; quality of life; aircraft maintenance; human factors; occupational health psychology. ix

10 LISTA DE FIGURAS pág. FIGURA 1 Modelo ERI Desequilíbrio entre Esforço e Recompensa no Trabalho FIGURA 2 Distribuição da frota de aeronaves e das empresas aéreas comerciais na América Latina FIGURA 3 Distribuição da frota mundial de aeronaves ativas em FIGURA 4 Idade média da frota militar mundial FIGURA 5 Causas dos acidentes e incidentes aéreos FIGURA 6 Representação gráfica do modelo SHELL FIGURA 7 O modelo do queijo suíço de Reason x

11 LISTA DE TABELAS pág. TABELA 1 - Artigos encontrados na área da Saúde Ocupacional relacionados aos trabalhadores de manutenção aeronáutica TABELA 2 Artigos encontrados na área de Fatores Humanos relacionados aos trabalhadores de manutenção aeronáutica TABELA 3 Distribuição de freqüências e porcentagens para as variáveis sócio-demográficas dos trabalhadores do setor de manutenção de aeronaves (N = 82) TABELA 4 ANOVA dos domínios do WHOQOL-Bref (N=82) em trabalhadores do setor de manutenção de aeronaves TABELA 5 Correlação linear de Pearson entre os domínios do WHOQOL- Bref (N=82) TABELA 6 ANOVA comparando a amostra com 3 diferentes grupos ocupacionais utilizando o WHOQOL-Bref TABELA 7 Distribuição da freqüência de ERI- e ERI+ e presença de supercomprometimento nos trabalhadores de manutenção de aeronaves TABELA 8 Correlação linear de Pearson entre os Fatores do ERI TABELA 9 Classificação das questões mais referidas sobre Esforço para os grupo ERI- e ERI+, quanto ao grau de incomodo ( muito e muitíssimo ) (N=82) TABELA 10 Classificação das questões mais referidas sobre Recompensa (falta de) para os grupo ERI- e ERI+, quanto ao grau de incomodo ( muito e muitíssimo ) (N=82) TABELA 11 Distribuição das médias e desvio padrão para o fator Supercomprometimento e suas sub-escalas, comparando os resultados entre os grupos com ERI- e ERI+ (N = 82) TABELA 12 Comparação das proporções obtidas no estudo com dados normativos de 2 diferentes categorias ocupacionais da validação brasileira do ERI (teste de uma proporção) xi

12 TABELA 13 Comparação das médias e Alpha de Cronbach para Esforço (E), Recompensa (R) no trabalho e Supercomprometimento entre a amostra de estudo com 2 outras categorias ocupacionais TABELA 14 Resumo das comparações realizadas através da ANOVA e do Teste t de Student para as variáveis sócio-demográficas, de QV e do ERI TABELA 15 Regressão linear múltipla dos domínios do WHOQOL-Bref sobre o ERI TABELA 16 Regressão linear múltipla dos múltipla dos domínios do WHOQOL-Bref sobre a variável SUPERCOMPROMETIMENTO TABELA 17 Regressão linear múltipla da variável preditora ERI e a variável regressora QV Domínio Físico TABELA 18 Regressão linear múltipla da variável preditora ERI e a variável regressora QV Domínio Psicológico TABELA 19 Regressão linear múltipla da variável preditora ERI e a variável regressora QV Domínio Relações Sociais TABELA 20 Regressão linear múltipla da variável preditora ERI e a variável regressora QV Domínio Meio Ambiente TABELA 21 Regressão linear múltipla da variável preditora SUPERCOMPROMETIMENTO e a variável regressora de QV Domínio Físico TABELA 22 Regressão linear múltipla da variável preditora SUPERCOMPROMETIMENTO e a variável regressora de QV Domínio Psicológico TABELA 23 Regressão linear múltipla da variável preditora SUPERCOMPROMETIMENTO e a variável regressora de QV Domínio Relações Sociais TABELA 25 Regressão linear múltipla da variável preditora SUPERCOMPROMETIMENTO e a variável regressora de QV Domínio Ambiente xii

13 Lista de Quadros Pág. QUADRO 1 Descrição geral da função e do procedimento de inspeção xiii

14 I INTRODUÇÃO

15 O presente estudo aborda os fatores de risco psicossocial do trabalho de manutenção de aeronaves de uma instituição militar brasileira e o impacto na saúde mental e na qualidade de vida de seus trabalhadores. Seu início ocorreu a partir do contato estabelecido pela instituição estudada com o Laboratório de Saúde Mental e Trabalho (LSMT), vinculado à Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, do qual faço parte desde sua fundação, em Através do contato com o livro Série Saúde Mental e Trabalho vol. 1, editado pela Casa do Psicólogo em parceria com a Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), organizado pelas Profas. Liliana A. M. Guimarães, orientadora dessa dissertação, e Sonia Grubits, coordenadora do Mestrado em Psicologia da UCDB, as psicólogas da Divisão de Saúde desta instituição militar buscaram auxílio de pesquisadores do LSMT, dado que, num período de cerca de seis meses, trinta funcionários do setor de manutenção de aeronaves da empresa (que tem um total de 93 funcionários) foram atendidos pelo serviço de psicologia. Alguns desses funcionários buscaram o serviço espontaneamente, mas muitos foram encaminhados para atendimento psicológico por diferentes especialidades médicas, sobretudo a clínica médica, a cardiologia e a pneumologia. De acordo com os relatos, os funcionários atendidos apresentavam queixas físicas (palpitação, insônia, falta de ar, gastrite), queixas psíquicas (ansiedade, depressão, fobias, irritabilidade, ideações suicidas, agressividade), e queixas relacionadas ao trabalho (atitudes inadequadas das chefias, pressão de tempo, aumento de trabalho). Com esses dados, as psicólogas da instituição militar perceberam a necessidade de realizar um diagnóstico da situação de trabalho para poderem compreender os possíveis motivos para esse aparente adoecimento em massa. Por fazerem parte do staff da empresa, não se sentiam tendo a capacitação, a objetividade e a neutralidade necessárias para uma visibilidade adequada da situação. Por consenso entre o grupo, procuraram auxílio externo à empresa, para o adequado diagnóstico da situação. Por já haver participado anteriormente de várias pesquisas na área da Saúde Mental e Trabalho, como assistente da Profa. Liliana, acreditei ser essa uma oportunidade valiosa para desenvolver uma investigação que pudesse trazer à luz 2

16 aspectos que vinham sendo estudados, em nosso grupo de pesquisa, acerca da Saúde Mental, do Estresse Ocupacional e da Qualidade de Vida no Trabalho, ao mesmo tempo em que poderia proporcionar uma contribuição prática para um contexto laboral até então desconhecido para mim, ainda pouco estudado, e que necessitava de uma ação emergencial, tendo em vista as queixas apresentadas e a gravidade dos riscos envolvidos para a saúde dos trabalhadores e para a segurança de vôo. A partir desse contexto, o presente estudo foi gerado, tendo percorrido uma longa trajetória até sua finalização. Como o LSMT já vinha estudando de maneira frutífera o campo da Saúde Mental e Trabalho, tendo publicado três livros sobre o assunto e vários artigos, o conhecimento até então dos temas abordados sugeria que a investigação do Estresse Ocupacional e da Qualidade de Vida na equipe de manutenção aeronáutica poderia contribuir para uma compreensão dos fatores psicossociais do trabalho capazes de interferir na saúde mental dessa categoria ocupacional. De forma convergente, ao se estabelecer o design deste estudo, optou-se por verificar a adequação, para os objetivos pretendidos, do Questionário ERI (Effort- Reward Imbalance), baseado no modelo de mesmo nome, que viria a ser validado para uso no Brasil pela Profa. Liliana e colaboradores, simultaneamente à realização desta investigação. Concluiu-se que o mesmo mostrava-se adequado, sobretudo, por suas premissas teóricas e por suas características psicométricas. O modelo ERI tem o seguinte paradigma central: as experiências cronicamente estressantes são o resultado de um desequilíbrio entre alto esforço intrínseco e baixa recompensa extrínseca, somados a um alto nível pessoal de supercomprometimento, caracterizado por um estado prolongado de investimento ativo de energia adaptativa (SIEGRIST, 1996). Acrescente-se que várias pesquisas apontam que o desequilíbrio prolongado entre esforços e recompensas que o trabalhador vivencia na sua situação de trabalho pode ser um fator de risco substancial para doença cardiovascular, problemas gastrintestinais e ósteomusculares, transtornos mentais e percepção subjetiva da saúde (SIEGRIST, 1996; 2001; STEENLAND et al., 2000; SIEGRIST et al., 2004), sendo um preditor significativo de saúde precária tanto para homens quanto para mulheres (NIEDHAMMER et al., 2004). 3

17 As propriedades psicométricas do modelo foram investigadas por Siegrist et al. (2004) utilizando dados comparativos de estudos epidemiológicos desenvolvidos em cinco países (Bélgica, França, Suécia, Reino Unido e Alemanha). A consistência interna das escalas foi satisfatória em todas as amostras e a estrutura fatorial foi consistentemente confirmada, encontrando-se um odds ratio significativamente elevado relacionado à saúde precária em trabalhadores que apresentaram altos escores na escala de desequilíbrio, indicando ser o modelo ERI uma medida psicométrica adequada para avaliar estresse ocupacional. A validação brasileira, também apresentou altos níveis de confiabilidade, apresentando os seguintes Alfas de Cronbach: 0,71, para Esforço, 0,84, para Recompensa e 0,68, para a escala de Supercomprometimento. Para avaliar a Qualidade de Vida (QV), escolheu-se o questionário WHOQOL- Bref, desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde (WHOQOL GROUP, 1998), que aborda a QV em quatro domínios: Físico, Psicológico, Relações Sociais e Meio Ambiente. Optou-se por esse instrumento em função das propriedades psicométricas obtidas na validação brasileira (FLECK, 2000), da facilidade de compreensão e da rapidez de aplicação. Buscou-se, assim, descrever as repercussões do ERI na QV dos trabalhadores da amostra desse estudo. A opção por utilizar dois instrumentos se justifica, dado que a literatura refere que a combinação de medidas que avaliem o sentimento de bem-estar acerca do equilíbrio entre as demandas do trabalho e os recursos psicológicos, organizacionais e relacionais de que o trabalhador dispõe para enfrentar essas demandas permite viabilizar uma maior capacidade estratégica, gerencial e operacional para questões de qualidade de vida no trabalho (CORTÉS RUBIO, 2003; LIMONGI FRANÇA, 2004). Com o referencial teórico/conceitual escolhido, bem como os instrumentos de pesquisa, realizou-se as primeiras buscas na literatura científica sobre o trabalho com equipes de manutenção de aeronaves na área da saúde do trabalhador, constatando-se uma carência importante de estudos com este grupo ocupacional. Um levantamento bibliográfico nas bases de dados nacionais e internacionais, mostrou diversos estudos investigando a saúde mental ocupacional dos aeronautas (pilotos e comissários) e de controladores de tráfego aéreo. Entretanto, a literatura relacionada especificamente com o trabalho de manutenção de aeronaves 4

18 apresentou-se num número visivelmente menor, sendo encontrados ao todo noventa e nove (99) artigos na literatura internacional abrangendo assuntos diversos, tais como prevenção de acidentes, o gerenciamento do erro de manutenção, riscos ocupacionais, entre outros. Na literatura nacional, no entanto, não foram encontrados estudos que abordem esta categoria ocupacional nas áreas da Saúde Mental e da Qualidade de Vida. Apenas seis (6) estudos foram encontrados relacionados especificamente à saúde mental dos trabalhadores de manutenção de aeronaves, reforçando a importância de se desenvolver mais pesquisas voltadas a esse tipo de atividade laboral. Essa busca foi ampliada por referências complementares em outros campos do conhecimento para que fosse possível conhecer de maneira mais aprofundada os demais fatores envolvidos no trabalho do grupo ocupacional estudado. Inicialmente se procurou contextualizar como a aviação civil e, em especial, a militar, se comportam frente aos desafios dos tempos atuais. É notório que na aviação, tanto civil quanto militar, observa-se de maneira privilegiada a busca por maior produtividade e qualidade nos serviços, principalmente num contexto marcado pelo congestionado movimento aéreo nas grandes metrópoles, por uma intensa competitividade, pelos constantes avanços tecnológicos, pelo impacto econômico e psicológico dos atentados terroristas iniciados em 2001 e pela busca constante da supremacia militar, principalmente em tempos de conflitos e de guerras. Entretanto, no transporte aéreo o risco de acidentes é parte integrante do conteúdo do trabalho. Essa vulnerabilidade permeia as relações na aviação, passando a ser um eixo fundamental de investigação e de análise das causas dos acidentes aéreos. No caso da aviação militar, deve-se acrescentar que a presença do risco é uma condição inerente ao trabalho e à formação militar. Segundo Bray et al. (2001; 2003), os militares de ambos os sexos estão expostos a uma ampla variedade de eventos estressores que são parte do próprio treinamento e das atividades de trabalho e podem afetar não só o militar na ativa, como também sua família e amigos. 5

19 Além disso, deve-se considerar também os aspectos da cultura e dos valores militares que permeiam as relações interpessoais e de trabalho, baseados em conceitos como a hierarquia, a higidez, a lealdade e a autoridade, que apresentam importante associação com os ambientes e as relações de trabalho, que são locus de estresse que podem afetar a qualidade de vida e a capacidade dos militares desempenharem adequadamente suas tarefas (BRAY et al., 2001). Isso mostra a grande relevância para a segurança de vôo e a investigação de acidentes aéreos do campo de estudos denominado Fator Humano. Na aviação, o Fator Humano é identificado como a principal causa das catástrofes aéreas (FERREYRA; DEL VALLE, 2000; PALMA, 2002; DAC, 2004). Em concordância com tal afirmação, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA, 2003) acrescenta que: [...] a ponta de lança em qualquer atividade aeronáutica ainda é o elemento humano, independentemente dos avanços tecnológicos obtidos. (...) Dentre todos os aspectos que envolvem o sistema complexo do mundo aeronáutico, o homem ainda é o grande "vilão", responsável pelo sucesso ou insucesso desta atividade. Seja no desenvolvimento, operação ou manutenção da máquina, nos serviços oferecidos a bordo, ou no controle do tráfego, a relação entre os profissionais que permeiam estas atividades tem participado ativamente como um dos fatores contribuintes para a ocorrência de inúmeros acidentes aeronáuticos (CENIPA, 2003). De acordo com a International Civil Aviation Organization (ICAO, 2003), o conceito de Fatores Humanos refere-se ao estudo da interação humana em suas situações de trabalho e de vida: a interação das pessoas com as máquinas e os equipamentos utilizados, com os procedimentos escritos e verbais, com as regras que devem ser seguidas, com as condições atmosféricas ao seu redor e com as interações com as outras pessoas que influenciam no comportamento no trabalho de maneira a poder afetar a saúde e a segurança, transformando-se numa ciência multidisciplinar por natureza. É a partir das contribuições e do desenvolvimento do conceito de Fatores Humanos que passou a se expandir em toda a aviação uma atenção especial aos 6

20 aspectos organizacionais, relacionais e individuais que permeiam as atividades dos aeronautas. O foco inicial das pesquisas era voltado ao trabalho dos pilotos, passando posteriormente para o dos comissários, o dos controladores de tráfego aéreo e só nos últimos 5 anos se encontram estudos voltados aos trabalhadores de manutenção de aeronaves. Na indústria aeronáutica, sempre que as causas prováveis de um acidente aéreo são listadas, as deficiências associadas ao sistema de manutenção ocupam, invariavelmente, um lugar proeminente (FOGARTY; SAUNDERS; COLLYER, 1999). Entretanto, para a Federal Aviation Association (FAA, 2002), a atenção dada para os problemas relacionados à manutenção de aeronaves tem sido insuficiente. Graeber e Marx (1994) referem que 12% dos acidentes ocorrem em função de falhas de manutenção e inspeção e cerca de um terço dos funcionamentos defeituosos podem ser atribuídos a deficiências de manutenção. Além do impacto na segurança de vôo, a falta de eficiência nessas atividades também pode ser relacionada a atrasos nos vôos, danos em solo e outros fatores que influenciam diretamente nos custos e na viabilidade do negócio. No caso específico da manutenção de aeronaves militares, deve-se considerar a idade da frota como sendo um importante fator de risco, já que tende a ser mais antiga e a ter menor chance de reposição do que a da aviação comercial (JACKMAN, 2005). Além disso, os gastos com as aeronaves militares são maiores do que os da aviação comercial, assim como é maior a sua a frota mundial, constituída por aviões de guerra, de transporte de carga, de serviços, de treinamento, aviões-tanque, de missões especiais e helicópteros. Nessa dissertação foram formuladas as seguintes questões: quais serão os fatores ligados ao trabalho de manutenção de aeronaves militares que protegem ou colocam em risco a saúde física e mental do trabalhador? Quais serão os fatores intrínsecos do trabalhador que podem ser determinantes no seu (não) adoecimento sob condições de trabalho específicas? E como isso interfere no seu trabalho e na sua qualidade de vida? E a cultura militar, como interfere no adoecimento do trabalhador? E os fatores sócio-demográficos, como e em que medida, interferem nessa relação? 7

21 Assim, embora a presente investigação se dê com a categoria profissional dos trabalhadores militares de manutenção de aeronaves militares, pretende-se que os achados desse estudo possam contribuir para uma maior visibilidade dos fatores psicossociais de risco presentes na atividade de manutenção aeronáutica militar, para o campo da Segurança e Prevenção de acidentes aéreos e para o campo da Psicologia da Saúde Ocupacional (PSO). Essa dissertação está dividida em 7 seções: a primeira delas contém uma introdução que descreve o contexto em que se iniciou esse estudo, ressaltando sua importância. A segunda versa sobre o referencial teórico que fundamentou o presente estudo e está dividida em quatro capítulos. O capítulo 1 aborda as mudanças no universo laboral e seu impacto na saúde do trabalhador. São apresentados os principais conceitos, definições e abrangências relacionados à saúde ocupacional, à saúde mental no trabalho e os modelos de estresse ocupacional. É apresentado, então, o modelo ERI, utilizado nesse estudo, seguido de considerações acerca da Qualidade de Vida e da Qualidade de Vida no Trabalho. O capítulo 2 aborda a Atividade Aeronáutica e o Trabalho de Manutenção de Aeronaves e são apresentados os principais aspectos da atividade aeronáutica, o atual contexto mundial e brasileiro, a aviação militar no Brasil, seus valores e normas, finalizando com o trabalho de manutenção de aeronaves e a segurança de vôo. O capítulo 3 apresenta de maneira abrangente o conceito de Fatores Humanos e são apresentados um breve histórico, principais conceitos e modelos, finalizando com os treinamentos CRM (Crew Resource Management). O capítulo 4 busca tecer/construir a interface entre os conceitos de Saúde Mental, Fator Humano e Trabalho enfocando a literatura científica nacional e internacional em relação aos esses aspectos voltados especificamente para esta categoria ocupacional. A terceira seção traz a pesquisa de campo e o contexto onde ela foi realizada, as hipóteses do trabalho e os objetivos estabelecidos. A quarta descreve a 8

22 casuística e o método de investigação, apresentando a população estudada, os recursos humanos e materiais utilizados, os instrumentos de pesquisa, os procedimentos realizados, os aspectos éticos e a análise e processamento dos dados coletados. A quinta seção descreve os resultados obtidos, evidenciando-se os achados estatisticamente significativos. A sexta apresenta a discussão dos resultados, comparando-os aos encontrados na literatura nacional e internacional. Finalmente, na seção sete são apresentadas as conclusões obtidas e as considerações finais, que incluem sugestões para a atividade de manutenção de aeronaves e para os futuros estudos na área. 9

23 Capítulo 1 AS MUDANÇAS NO UNIVERSO LABORAL E SUAS REPERCUSSÕES NA SAÚDE MENTAL E NA QUALIDADE DE VIDA DO TRABALHADOR

24 "A não ser que se consiga fazer com que as sociedades se tornem mais igualitárias e que a economia global seja mais inclusiva, poucos conseguirão alcançar segurança econômica ou o trabalho decente Juan Somavia (ILO, 2004) 12

25 1.1. As mudanças no universo laboral União Européia, Estados Unidos e Japão Na atualidade, o universo do trabalho apresenta uma complexidade singular: como uma marca simbólica da globalização, a natureza mutante do trabalho se apresenta numa velocidade cada vez mais acelerada, tornando-se imprescindível adequar máquinas, papéis, contratos, produtos, leis, sociedade, educação, economia, cultura e o homem moderno, inserido nessa especificidade dos tempos atuais (BAKER; SCHNALL, 2004). Cabe acrescentar que hoje a força de trabalho mundial tem cerca de 3 bilhões de trabalhadores, sendo que destes, dois bilhões se encontram em regiões de menor desenvolvimento e recebem salários que não chegam à metade dos rendimentos dos países ricos (OLIVEIRA, 2005). Conseqüentemente, essas diferenças entre realidades sócio-econômico-culturais tão distintas repercutem de maneira importante em um universo laboral globalizado. O National Institute of Occupational Safety and Health (NIOSH, 2002) refere que os países industrializados vêm testemunhando profundas mudanças na organização do trabalho, fortemente influenciado por fatores macroeconômicos, tecnológicos, legais e políticos, entre outros. Conseqüentemente, as práticas organizacionais vêem se transformando drasticamente nessa nova economia que busca o melhor resultado ao menor custo possível. Para competir de maneira mais eficaz, grandes empresas se reestruturaram através de processos de downsizing 1 e da terceirização de seus funcionários. Ao mesmo tempo, vêm aumentando práticas menos tradicionais de contrato de emprego, como o trabalho temporário ou por empreitada. Para o NIOSH (2002), a rubrica sistemas de trabalho de alta performance tem sido utilizada para descrever e justificar muitas dessas novas práticas organizacionais, como as estruturas de gerenciamento novas e mais achatadas, que resultam na transferência descendente da responsabilidade de gerenciamento e no 1 É o enxugamento de pessoal, delegando maior responsabilidade a gerentes e funcionários de níveis mais baixos com a finalidade de redução de custos ou racionalização de atividades. 13

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