Seminário Final. O Processo de Bolonha em Portugal Presente e Futuro

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1 Seminário Final O Processo de Bolonha em Portugal Presente e Futuro Universidade de Aveiro, 26 de Junho de 2009 CONCLUSÕES Relatora: Maria de Lurdes Correia Fernandes Sessão de abertura: Secretário de Estado do Ensino Superior, Manuel Heitor; Reitora da Universidade de Aveiro, Helena Nazaré; Coordenador do Grupo de Peritos de Bolonha, António Ferrari Das palavras de abertura da Reitora da Universidade de Aveiro, Helena Nazaré, é de notar o relevo que deu ao esforço nestes últimos anos de toda a comunidade académica na aplicação do processo de Bolonha, bem como à necessidade futura de consolidação, de acompanhamento e de aprofundamento das reformas curriculares. Lembrando o desafio lançado pelos Ministros da Educação e Ensino Superior no encontro de Lovaina para se atingir 20% de mobilidade, considerou que esta deverá ser entendida num sentido abrangente que inclui não só a mobilidade internacional, mas também a nacional e a mobilidade inter ciclos. Igualmente relevante se afigura, do seu ponto de vista, a expectativa relativa às competências e à consequente empregabilidade dos diplomados de 1º ciclo, sendo fortemente desejável que desta reforma resultem efectivamente, para os diplomados, para a sociedade e para a economia, os frutos que todos esperamos. A intervenção do Coordenador do Grupo de Peritos de Bolonha, António Ferrari, visou essencialmente salientar o interesse com que o Grupo acolheu a sugestão, pela tutela, do tema de fundo desta sessão final dos seminários de 2009, centrado na análise exploratória e debate sobre os relatórios de concretização do processo de Bolonha nas várias IES, notando que deste modo se clarifica que tais relatórios não são apenas uma medida de incidência burocrática, mas sim instrumentos importantes para que as instituições reflictam e aprofundem as reformas iniciadas nos últimos anos, explorando os caminhos que permitam melhorar a oferta de formação das IES, esperando se que o debate no final permita esclarecer e clarificar diversos aspectos da reforma em curso. A intervenção de fundo do Secretário de Estado do Ensino Superior, Manuel Heitor, centrou se num conjunto de aspectos que visaram realçar os significados e importância das reformas do Ensino Superior em

2 curso. Começando por lembrar que falar de Bolonha é falar e reflectir sobre a reforma do ES, com a consciência dos seus sucessos e também das suas dificuldades, considerou que os relatórios que a partir de final de 2008 começaram a ficar disponíveis nas páginas das IES são um elemento novo e dão a evidência do esforço, dentro das instituições, para a concretização de uma reforma que é em si mesma um processo. Tais relatórios vêm trazer novas informações, alguns casos de sucesso, e mostram que Portugal está a cumprir, de forma empenhada, os objectivos definidos para a reforma das IES. Estes relatórios estão em fase de estudo por parte de vários centros de investigação, esperando se ainda que ano após ano permitam mostrar a evolução do processo em Portugal. Notando que a reforma em curso do sistema de ES em Portugal inclui um leque largo de medidas que abrangem também a legislação sobre reconhecimento de graus e diplomas, sobre os CET, sobre o acesso à formação superior por parte de novos públicos, nomeadamente adultos, bem como a mobilidade interinstitucional considerou que a análise dos referidos relatórios, conjugada com diversos elementos que lhes estão associados, em especial o alargamento da base de recrutamento de estudantes e o aumento do número de diplomados, nomeadamente de doutoramento, permitirá uma visão mais profunda e complexa das reformas actualmente em curso. Realçou ainda o esforço que tem sido feito pela tutela no sentido de alargar o apoio aos estudantes do ES, nomeadamente através do aumento do número de bolsas atribuídas pelos serviços de acção social que se traduziu no aumento em 21% de bolseiros, a que se acrescentou a possibilidade de apoio também através de empréstimo aos estudantes, medidas que têm em vista o alargamento da base social de frequência do ES. Mas além da preocupação com o acesso ao ES, destacou que não poderá ser desvalorizada a importância da empregabilidade e da inserção no mercado de trabalho dos diplomados do ES, dimensão fundamental no quadro da responsabilidade social das IES. Considerando importante sublinhar que estudar compensa em Portugal, realçou que o desemprego dos licenciados é menor dos que não têm o grau e que a análise comparativa dos dados do emprego em Portugal nos dá evidência clara da diferença de vencimentos a favor dos licenciados acima da média da OCDE. Notou ainda que o processo de Bolonha foi acompanhado igualmente por um processo de reforço da base científica da formação através do apoio à integração dos estudantes em projectos de investigação, traduzido já num melhor desempenho a esse nível, como o mostram os últimos dados do Eurostat que revelam que Portugal é o país com maior aumento de investimento em C&T. Esse esforço traduziu se no aumento de bolsas e na duplicação do número de investigadores, com forte intervenção das mulheres, com o consequente reforço da capacidade científica associada ao ES. Finalmente, realçou a necessidade de se olhar com atenção para a substância do processo de Bolonha, ou seja, para a natureza intrínseca do processo de ensino aprendizagem, para o reforço da prática de projecto,

3 para uma integração progressiva dos estudantes na prática de investigação, para o estímulo à procura do novo e à troca de boas experiências. Concluiu ser notório o esforço de docentes e estudantes no envolvimento nas reformas das IES e salientou que, da leitura dos relatórios de concretização do processo de Bolonha, resulta claramente evidenciado o esforço de adopção de práticas mais modernas do ensino e de aprendizagem, num processo que se pretende de melhoria continuada e de troca de experiências que a propiciem. Painel : Análise dos Relatórios de Concretização do Processo de Bolonha referentes a 2007 e 2008 Moderador: Sebastião Feyo de Azevedo As intervenções do painel foram iniciadas por António Magalhães do CIPES, com o propósito de apresentar uma primeira análise exploratória dos relatórios de concretização do processo de Bolonha nas diversas IES. Notando que a massa imensa de dados incluídos nos relatórios não permitiu ainda um estudo sistemático e que não estão ainda afinadas as grelhas de análise qualitativa e quantitativa, optou por iniciar a intervenção com um conjunto de considerações genéricas sobre a implementação do processo de Bolonha em Portugal e só depois incidir sobre aspectos concretos de alguns dos relatórios. Na primeira parte da intervenção referiu alguns aspectos gerais do enquadramento europeu do processo e o quadro legal criado em Portugal para permitir a adesão ao processo, notando que logo em 2006, alguns dias depois da publicação do Decreto lei nº 74/2006, de 24 de Março, foram apresentadas na DGES 1464 propostas, sendo 33% referentes a novos cursos e 67% a processos de adequação de cursos já existentes. Neste momento, apenas cerca de 2% dos cursos não estão ainda adequados. Realçou o facto de, em geral, ter havido uma significativa contenção na criação/adequação de 1ºs ciclos, sobretudo por parte das universidades públicas, e que o aumento se verificou sobretudo nos segundos e terceiros ciclos nas universidades públicas por terem recursos humanos mais qualificados. A segunda parte da intervenção, mais centrada em alguns dos relatórios de concretização, começou por reconhecer que a maioria das IES considera que a mudança de paradigma de ensino aprendizagem é o grande desafio e que, consequentemente, reconhecem a necessidade de formação dos docentes em novas metodologias de ensino centradas no estudante. Enfatizou o facto de, em geral, terem sido instituídos meios e formas de garantia da qualidade, aplicados inquéritos aos estudantes, reforçados os mecanismos da internacionalização, aplicadas novas modalidades de ensino, alargada a descentralização dos serviços académicos, entre outros aspectos que as IES consideraram importantes para a eficácia das reformas.

4 Realçou, contudo, que ainda se está no processo de transição do tempo da implementação para o tempo da consolidação, este necessariamente mais demorado que o primeiro. Seguiu se a apresentação de três exemplos de Relatórios, representativos dos diversos subsistemas de ES: público, politécnico e privado. Como exemplo de relatório das universidades foi apresentado o Relatório da Universidade do Minho, por Irene Montenegro, sob o lema: Bolonha, uma oportunidade: qualidade, mobilidade, internacionalização. Irene Montenegro seleccionou os aspectos mais relevantes dos vários domínios em que se centrou o relatório, nomeadamente os instrumentos da mobilidade, o programa de qualidade, a valorização das novas metodologias de ensino e de aprendizagem, a valorização da internacionalização, os instrumentos de apoio à inserção na vida activa dos diplomados, a alteração dos métodos de avaliação. De entre os aspectos positivos da reforma, realçou a maior legibilidade dos cursos e, de entre os aspectos negativos, a dificuldade em mudar culturas instituídas. Como exemplo de relatório dos institutos politécnicos, foi apresentado o Relatório do Instituto Politécnico de Leiria por João Paulo Marques, que salientou o carácter pragmático do mesmo e a metodologia que foi usada para a sua realização. Salientou em especial as mudanças em matéria pedagógica, a formação orientada para a aquisição de competências, a valorização do trabalho experimental e das competências transversais. Referiu a importância da informação e da definição de indicadores que evidenciem o progresso das reformas e permitam comparação com instituições de referência, bem como de indicadores objectivos para a contabilização das horas de trabalho do estudante, incluindo a componente experimental e de projecto. Notou ainda a preocupação com o sucesso escolar dos estudantes e a criação de medidas de apoio à sua inserção no mercado de trabalho. Concluiu que as mudanças foram consideradas globalmente positivas e que Bolonha é uma oportunidade, embora as mudanças necessitem de tempo para efectivação real. Em representando das IES privadas, foi apresentado o Relatório do IPAM, por Ferrão Filipe, que também considerou Bolonha um desafio e uma oportunidade, salientando a valorização da componente de trabalho do estudante e da aquisição de competências, nomeadamente transversais. Referiu o esforço de envolvimento dos docentes e dos estudantes no que designou operação Bolonha e concluiu que os resultados da sua concretização naquela instituição foram essencialmente positivos. Seguiram se os comentários finais de José Reis, da FEUC, e de Rui Pena Pires, do ISCTE José Reis, neste caso enquanto observador interessado nos processos de aprendizagem, considerou que: 1º O cânon relativo ao processo de aprendizagem centrada no estudante parece suficientemente definido e afirmado e é no âmbito desse cânon que se podem acompanhar as boas práticas; 2º a internacionalização é uma dimensão incontornável do processo;

5 3º cresceu e é desejável o desenvolvimentos de ofertas de pós graduação, com consolidação do sistema de 3 graus; 4º se espera o reforço da interdisciplinaridade; 5º se estão a impor os standards de avaliação de qualidade; Reconheceu finalmente que um novo processo desencadeia novas práticas, mas um novo processo é também um mecanismo de transição e é um novo período de interface entre o ES e a sociedade e salientou a premência da clarificação de três aspectos críticos relativos ao conceito de aprendizagem e ao que se está a desencadear nessa aprendizagem: 1º Analisar o modo como foram reconvertidos currículos e como se fará a exploração disciplinar dos saberes, a sua estruturação, nomeadamente nos primeiros ciclos de três anos, e que tipo de saber está associado a cada um dos graus; 2º Clarificar a articulação de graus, especialmente os primeiros e segundos ciclos, questão central em que se joga a tensão criativa entre formação de base e especialização; 3º definir a articulação entre formação do primeiro ciclo e mercado de trabalho, como está a ser efectuado o desenvolvimento de competências e do saber dos seus diplomados por forma a que tenha tradução nas qualificações que o ES confere. Rui Pena Pires começou por fazer um comentário prévio sobre reforma, considerando que a mudança da forma institui de facto mudanças estruturais que no mínimo tendem a constituir um quadro novo que enforma outras mudanças. Chamou a atenção para duas questões que, do seu ponto de vista, constituem equívocos na avaliação destas reformas, designadamente: 1. Embora o processo de Bolonha inclua diferentes componentes, algumas vezes tende se a sobrevalorizar excessivamente a dimensão pedagógica em detrimento de outras; 2. A excessiva incidência nas competências parece desvalorizar o papel e importância dos conhecimentos. Defendeu por isso a necessidade de se encontrar um equilíbrio na forma como se estão a pensar os novos objectivos sem se cair numa prática pedagógica considerada diametralmente oposta ao que existia, perdendo de vista a importância da avaliação dos resultados (nomeadamente o número e qualidade dos diplomados, o aumento da mobilidade, etc.). Além disso, considerou que a excessiva preocupação com a dimensão pedagógica pode prejudicar os desenhos dos cursos, nomeadamente a flexibilidade dos planos de estudos.

6 Por último, chamou a atenção para o que considera ser a necessidade de resolver a forma de conclusão do segundo ciclo, nomeadamente no que diz respeito às dissertações e relatórios de projecto que deverão ser encurtadas e transformadas em artigos passíveis de publicação. Seguiu se um participado debate sobre os temas e assuntos apresentados nas diversas intervenções, levantando se nele algumas outras questões, nomeadamente referentes à creditação de competências não formais, à calibração do sistema de créditos, ao quadro de qualificações europeu e do ES português, entre outras, incluindo a necessidade de melhorar alguns aspectos do processo. Para concluir, o Coordenador do Grupo de Peritos de Bolonha fez um relato dos seminários promovidos, entre Abril de Junho, pelo Grupo, relembrando a missão deste e as conclusões que os vários seminários permitiram obter, em especial no que diz respeito às linhas fundamentais do sistema de garantia de qualidade (1º seminário), do reconhecimento de graus (2º seminário) e do quadro de qualificações (3º seminário). Todos estes relatórios foram divulgados amplamente junto de todos os participantes nos diversos seminários e encontram se disponíveis em e+bolonha/ Foram destacadas como conclusões dos seminários: A importância do desenvolvimento de uma efectiva cultura de qualidade em cada IES e da sua certificação por uma entidade independente, que tornam urgente o início efectivo de funções por parte da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior A3ES. A centralidade da Convenção de Lisboa sobre reconhecimento de estudos na construção do Espaço Europeu do Ensino Superior, objectivo último da declaração de Bolonha, e as dificuldades e atrasos na sua ratificação por parte de um significativo número de países. De destacar as boas práticas seguidas em Portugal, sendo 3 das 10 IES que em toda a Europa reunem as marcas de excelência ECTS Label e DS Label portuguesas. A importância da definição do Quadro Nacional de Qualificações em que, para além da produção legislativa haja um envolvimento activo de todas as partes interessadas (stakeholders), das instituições de ensino superior às associações profissionais e aos empregadores. Finalizou apresentando as linhas gerais do plano de actividades do Grupo de Peritos para o período recentemente aprovado por Bruxelas.

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