A DIMENSÃO ONTOLÓGICA DO TERRITÓRIO NO DEBATE DA CIDADANIA: O EXEMPLO CANADENSE

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1 A DIMENSÃO ONTOLÓGICA DO TERRITÓRIO NO DEBATE DA CIDADANIA: O EXEMPLO CANADENSE PAULO CESAR DA COSTA GOMES* Há algum tempo, nestes últimos anos, somos levados a constatar a ressurgência de um discurso que pretende revitalizar a noção de cidadania. Em diversos domínios da sociedade e nas mais variadas áreas do conhecimento esta noção é justaposta a outras e, através desta aproximação, os sentidos de justiça, de eqüidade, de solidariedade, de ética ou de direitos civis são sugeridos. Cidadania, portanto, é nos dias atuais uma idéia multiforme muito valorizada, porém pouco precisa em seu conteúdo. Se hoje esta nova forma é uma maneira imprecisa de simplesmente caracterizar uma preocupação ética e de justiça social, difusamente contida nesta expressão de cidadania, historicamente, no entanto, podemos observar que, em outros momentos de valorização desta noção, ela foi o veículo de transformações bastante específicas. No mundo grego, onde a expressão tem sua origem, cidadania era uma forma de relação social, mas não só isto, era também, o que poucas vezes nos é dito, uma forma de arranjo espacial destas relações. O poder cidadão surgiu da confrontação dos habitantes, concentrados em uma certa área, no caso a cidade de Atenas, contra o poder de uma oligarquia rural que controlava o poder político e a produção da riqueza desta sociedade. Esta oligarquia, como tantas outras da Antiguidade, se reproduzia segundo as regras da filiação e da limitação ao acesso a um grande número de lugares (nos dois sentidos do termo, isto é, como hierarquia social e como lugar ffsico). A valorização da cidadania na Grécia era, portanto, a luta pela reorganização do poder travada contra os "genos" e as "fratrias" e sua forma de solidariedade, baseada em laços de consangüinidade. Foi também a adoção de uma nova forma de legitimidade no exercício do poder, não mais submisso às hierarquias da tradição, mas estabelecido segundo critérios isonômicos, baseados numa argumentação racional-lógica, segundo o princípio da não-contradição. Toda esta transformação denominada como o "milagre grego" é bastante conhecida e uma bibliografia numerosa e profunda pode ser facilmente consultada. O que propriamente nos interessa aqui não é voltar às descrições deste momento nem explorá-lo em seus múltiplos aspectos, mas sim mostrar que na. Professor do Departamento de Geografia da UFRJ.

2 44 Revista TERRITÓRIO, 1(2), 1997 raíz destas transformações havia um componente espacial que funda o próprio fenômeno político, a despeito de ser esta uma faceta raras vezes discutida. Em sua obra clássica sobre a cidade antiga, Fustel de Coulanges afirma a existência de uma certa continuidade entre o clã, o genos, a fratria, a tribo e o demos, ou seja, entre o núcleo familiar, o grupo consangüíneo, o grupo unido pela imagem dos ancestrais comuns e o grupo de cidadãos haveria uma continuidade e uma evolução no qual um grau de complexidade e de desenvolvimento crescente se pôs em marcha (COULANGES, 1945 [1893]). Desta forma, sua tendência é ver e sublinhar no comportamento dos cidadãos do século V a.c. os reflexos da antiga comunidade familiar, trata-se assim de uma conquista a mais do espírito humano em seu progresso infinito. Segundo alguns comentadores, esta continuidade foi a forma de valorizar um corte entre a democracia moderna, fundada em instituições impessoais e não comprometida com os intereses privados e a democracia do mundo antigo, ainda fortemente influenciada, pois derivada da família, dos laços sangüíneos e comunitários. Em outra obra não menos clássica sobre a cidade grega, André Glotz não esconde desde o início sua discordância com este ponto de vista (GLOTZ, 1988 [1928]). Para ele, ao contrário de uma continuidade, foi rompendo os laços da solidariedade familiar que a democracia grega pode surgir e se desenvolver. A passagem do poder do genos ao demos significou uma ruptura pela qual toda a estrutura social e política se viu completamente redifinida e seu livro é, em grande parte, a descrição destas mudanças em diversos campos da vida social na cidade grega. Ainda segundo Glotz, a principal causa da decadência do mundo helenístico se deveu a sua fragmentação espacial em unidades políticas autônomas e na incapacidade das cidades-estado em firmarem acordos perenes. A fragmentação do solo resultou em um isolamento municipal "oposto à formação de um grande Estado helenístico". Para Claude Mossé (MOSSÉ, 1971), grande helenista contemporâneo, a interpretação de Glotz está impregnada do espírito dominante do momento em que ele escreveu sua obra. De fato, desde os anos revolucionários, predomina na França uma leitura que se alimenta da oposição entre atenienses e espartanos, pretendendo demonstrar a superioridade política dos primeiros e a incapacidade de se produzir uma paz duradoura entre regimes, aristocracia e democracia, tão diversos e antagônicos. Da mesma forma, a concepção do genos, como unidade harmônica, comunitária, coletivista e solidária, se deve muito mais a uma perspectiva ideológica de Glotz do que propriamente advinda de provas documentais que, aliás, segundo Mossé, contestaria esta perspectiva. Ele concorda, no entanto, na ruptura fundamental entre o sistema gentílico e a democracia e corrobora para demonstrar que este momento ocorreu justamente a partir do governo do tirano Clístenes e de suas reformas, no que é acompanhado por outros especialistas (VERNANT e NAQUET-VIDAL, 1991). Dois fatos interessantes devem ser assinalados nestes comentários. Sabemos que as reformas de Clístenes, vistas como um dos momentos fundadores da democracia grega, se constituíram essencialmente na substituição

3 A dimensão ontológica do território no debate da cidadania 45 da representação política baseada nas tribos gentílicas por uma representação de base espacial, ou seja, por uma divisão territorial e não mais por uma divisão que respeitasse as fronteiras sangüíneas e de afinidades dos genos. O que importa perceber aqui é a importância fundadora desta divisão territorial, vista como momento original de um fato político, no caso um dos fundamentos da democracia. De forma análoga, a decadência e a perda de poder das cidades gregas, assim como a fragilidade ulterior das instituições democráticas nas cidades gregas, foram vistas também como um produto da fragmentação espacial'. Assim, podemos afirmar sem medo que, apesar do pouco relevo explícito da questão territorial no discurso de alguns especialistas sobre a questão da cidadania, o território, sua dinâmica, sua configuração, sua constituição e natureza, são assinalados como elementos fundamentais na redefinição das relações políticas. A democracia começa quando uma divisão territorial das tribos é adotada, segundo a maior parte dos historiadores, e termina ou se enfraquece, segundo alguns, pela excessiva fragmentação também territorial. A dinâmica territorial está assim associada de forma necessária ao fato político da democracia em todos os seus ângulos. Desta forma, a democracia e a cidadania surgem de uma reorganização do território. O ancestral comum deixa de ser o elemento-chave da solidariedade comunitária e este laço agora é exercido pela delimitação de um território, um limite físico de inclusão e, conseqüentemente, pela delimitação de outros territórios de exclusão. O pior castigo sofrido por um cidadão é ser privado de sua cidadania, é ser expulso do território onde ele gozava de seus direitos e deveres políticos: o ostracismo. As regras de aceitação de estrangeiros nesta sociedade também são rigorosas e seguem um ritualizado processo que tem por objetivo demonstrar a aceitação, pelo estrangeiro, das regras que regem o espaço daquela cidade. O que nos mostra que ser cidadão é em certa medida uma escolha, uma localização na teia de relações sociais e uma localização espacial. Nada mais significativo do que o fato de ser pólis, o nome desta estrutura espacial, "a cidade" e ser também simultaneamente um feixe de relações sociais formais que originou a palavra "política". Em uma das mais conceituadas e conhecidas obras de história, lê-se no ínicio do capítulo sobre a cidade grega: "A cidade é, necessariamente, um Estado de pequenas dimensões. De resto, o território desempenha papel insignificante em sua definição. O essencial são os cidadãos, o povo, o demos." (AYMARD, 1953:153).2 O interesse central de nosso trabalho é demonstrar exatamente o grave equívoco desta afirmativa que, infelizmente, ainda é dominante na História, na Sociologia e na Ciência Política. Relações políticas e território são duas dimensões interatuantes e fundadoras na constituição e no 1 Para Glotz, a democracia no mundo grego/helenístico tinha sempre um caráter local e a representação política em fóruns mais amplos, entre cidades, nunca foi devidamente resolvida neste período. 2 O grifo é nosso.

4 46 Revista TERRITÓRIO, 1(2), 1997 exercício do poder. Como já foi dito, as denominações "cidade" e "Estado" possuem, amalgamadas entre si, uma imagem física e territorial e podem servir tanto para indicar determinados tipos de relações políticas, quanto servem como referência a certo tipo de fenômeno espacial. Não se trata aqui, todavia, apenas da idéia simplista de uma coalescência perfeita entre uma dada organização política e sua expressão física o que pretendemos desenvolver. De fato, nesta relação entre poder e espaço há dinâmicas complexas que o senso comum e a própria ciência por vezes ignoram, obscurecendo assim todo um campo de reflexões fundamental às análises do fato pai ítico. Comecemos pela noção de território e seus atributos. Essa noção é denotativa de uma delimitação espacial e, quando estabelecemos limites, estamos de fato criando uma separação e uma classificação das coisas que têm como parâmetro fundamental sua distribuição no espaço. Isto corresponde a dizer que o território é um conceito que atua como uma das chaves de acesso à interpretação de práticas sociais circunscritas a uma dada porção do espaço. O território é o limite destas práticas, é o terreno onde elas se concretizam e, muitas vezes, é a condição para que elas existam. Pode parecer banal, mas o fato de que uma grande parte dos conflitos humanos ocorram pela disputa de territórios é em si mesmo um forte indicador da necessidade de definir e de se apropriar de um território em dados momentos da reprodução social. Note-se que estamos tratando de um nível de necessidade que ultrapassa a questão estrita da sobrevivência física, que é comum a todos os seres vivos e da qual aliás deriva o conceito mesmo de territorialidade, desenvolvido por biólogos no final do século XIX. Na verdade, a territorialidade humana tem muito pouco em comum com aquela vivida pelo mundo animal. É possível afirmar que os três principais fatores da territorialidade humana são a classificação das coisas e das relações por área, a comunicação e o controle de uma determinada porção do espaço (SACK, 1986)- A expressão da estratégia utilizada para o aparecimento de uma territorialidade em grupos humanos é fruto pois de uma dinâmica social, revelada por um certo código de condutas que poderíamos chamar de cultural e o controle ao acesso muito mais sutil do que simplesmente àquele ditado pelo uso da força ou da intimidação direta. Tudo isso relacionado a necessidades e interesses muito mais complexos que a simples reprodução física do grupo. A despeito pois de toda uma tradição geográfica de procurar no naturalismo ou na biologia a essência do modelo de regras territoriais para a sociedade, a despeito também de todas as "humanizações" sentimentais tantas vezes veiculadas nos bem-intencionados documentários sobre a vida animai, queremos mais uma vez afirmar a irredutibilidade diferença e a especificidade da territorialidade humana. Assim, necessidades da reprodução social quer dizer aqui imposições da dinâmica social, imposição de certas regras de acesso e controle de uma dada porção do espaço. Por outro lado, a disposição destas práticas no territó-

5 A dimensão ontológica do território no debate da cidadania 47 rio e seus limites de ação são partes constituintes de uma ordem espacial. Isto corresponde a dizer que a interpretação da vida social é em parte tributária da compreensão da lógica territorial na qual ela esta organizada. Em outras palavras, toda interpretação da vida social que prescinda da análise da lógica espacial corre o sério risco de resultar em equívocos ou em julgamentos parciais. Para ser mais claro, vejamos um exemplo disso: na Idade Média européia, em algumas cidades, os judeus gozavam de inteira liberdade política e religiosa, ou ainda, este era o estatuto legal a eles atribuído. No entanto, o território da cidade era a concessão de um senhor ou um direito comprado pela comunidade urbana, o que resulta no fato de que a definição de um espaço "público" e o direito a circular nele se restringia àquelas pessoas submetidas às ordens senhoriais medievais e, dessa forma, a comunidade "livre" dos judeus, por exemplo, era, por muitas vezes, obrigada ao confinamento, uma vez que estava excluída destas ordens. Assim, a decantada liberdade política e religiosa resultava, neste caso, em prisão. De certa forma, a geografia tem, através de alguns, insistido nesta dimensão essencial do espaço na compreensão da vida social". Permanece, no entanto, em geral uma insistência em alijar as formas espaciais das análises da sociedade. A Ciência Política, por exemplo, dispõe de um enorme acervo analítico sobre questões como democracia, direitos políticos, cidadania, entre outras, sem qualquer referência a esta ordem espacial. Acreditamos, no entanto, que o poder, sua conquista, seu exercício e sua configuração estão sempre associados ou rebatidos sobre um plano espacial. Assim, na transformação da sociedade grega de um regime aristocrático para a democracia, o que estava em jogo era a pó/is, sua estrutura física, sua ordem espacial. A ágora deixa de ser simplesmente a praça do mercado e se transforma no núcleo da atividade pública, ganha a centralidade antes conferida aos templos. Eclesia e assembléia são simultaneamente tipos de relações no novo universo da democracia ateniense e unidades físicas no território. O espaço público e o espaço privado (os oikos) são delimitados territorialmente ao mesmo tempo em que se transformam em sedes de relações novas neste novo arranjo espacial, nesta nova geografia. Em Roma, da República ao Império, outro momento-chave para a compreensão da noção de cidadania, toda uma lógica espacial se reestruturou, seja no desenho interno da cidade, seja na relação que esta mantinha com as áreas em torno, pois a outorga da cidadania variou ao sabor das alianças e dos diferentes graus de submissão à ordem romana. O pomerium, limite murado da cidade, distingue direitos muito mais do que protege a cidade, ele limita o poderio militar e ninguém pode comparecer ali armado ou preparado para a guerra e os magistrados devem retirar seus símbolos da força ao adentrar este limite. Outro exemplo bastante significativo são as assembléias ou comícios romanos. Diferentes das assembléias gregas, os cidadãos se reúnem em um 3 É suficiente consultar a obra do geógrafo Milton Santos, por exemplo, para perceber a importância deste chamado.

6 48 Revista TERRITÓRIO, 1(2), 1997 terreno vazio e permanecem em pé diante do presidente sentado sobre um estrado e os votos são feitos por grupos ou tribos O mais importante neste momento, no entanto, é constatar a relação clara entre poder e território tão expressiva na formalização legal da cultura romana. Assim, as magistraturas estavam associadas a tipos de poderes e a extensão física-espacial dos mesmos. O imperium, poder supremo concedido aos cônsules e posteriormente aos tribunos, ao começar a ser exercido por um único elemento passa a denominar o próprio espaço que domina, o Império. Finalmente, um terceiro grande momento foi o século XVIII e a discussão sobre a constituição da cidadania moderna. Novamente, o que estava em jogo na discussão do "contrato social", que deu início à cidadania moderna, era também um novo tipo de território, o Estado-nação. Deste momento, herdamos novas relações sociais e novos pactos territoriais, uma redefinição das esferas do espaço público e privado, limites de autonomia locais e regionais (os regionalismos), conflitos entre diversidade cultural e poder político (os nacionalismos). Herdamos novos arranjos espaciais e planos cirúrgicos de planejamento urbano, novos limites de novas cidadanias, ou seja, de graus de implicação dos "habitantes" na responsabilidade e no direito pela produção do espaço e em seu domínio. Pactos políticos-sociais constituem assim, em qualquer nível que se considere, local, regional, global, sempre reestruturações no arranjo espacial daquela sociedade e o conceito geográfico que incorpora esta reflexão é o conceito de território. Hoje, somos testemunhas diante das mudanças vividas nestes novos tempos, de novos conflitos sociais e de novos desenhos de territorialidades e precisamos, por isto mesmo, ir além de um discurso de boas intenções e nos esforçamos para compreender os desafios que a complexidade da dinâmica atual nos coloca. Acreditamos no entanto que estes exemplos nos tornem mais aptos a compreender uma série de conflitos e questões da atualidade, referentes a lutas territoriais, assim como esperamos que constituam elementos enfáticos na aceitação da irredutivel necessidade da análise espacial para a compreensão da vida social. Nossa tarefa não é simples. Em primeiro lugar, como chamamos a atenção anteriormente, podemos percorrer longas descrições sobre as transformações na vida política sem que em momento algum a questão do território seja mencionada. Inúmeras vezes, as descrições históricas não possuem qualquer referência relativa a estrutura físico-espacial da sociedade em questão. Por outro lado, ainda que alguns geógrafos tenham nos precedido na afirmação da importância da dimensão sócio-espacial, no que diz respeito à cidadania relacionada ao território, muito pouco se escreveu sobre o tema, e o pioneirismo é quase absoluto', De fato há alguma bibliografia geográfica sobre 4Mais uma vez cabe ressaltar a iniciativa de Milton Santos, autor de O espaço do cidadão que, embora conduza sua análise em outra direção, é um marco deste tema na geografia.

7 A dimensão ontológica do território no debate da cidadania 49 as relações de poder e o espaço, existe mesmo um ramo da Geografia, a Geografia política, que se ocupa destas relações' No que diz respeito, no entanto, a discussões sobre democracia ou cidadania o silêncio dos geógrafos tem sido a regra, quando muito, a questão é discutida sob a forma bastante geral da "justiça social" e os termos cidadania e democracia são utilizados como um novo invólucro para as já conhecidas denúncias das desigualdades e injustiças, mas jamais se transformam em um efetivo objeto de pesquisa. Na realidade, na geografia foi criada uma associação muito forte entre a noção de justiça social e a reflexão sobre as classes sociais. Nos anos 70 e 80, muito marcados pela influência do instrumental marxista, a geografia multiplicou as análises sobre segregação espacial, movimentos sociais e desigualdades espaciais, tendo, no entanto, como referência quase exclusiva a diferenciação de classes. Dentro desta perspectiva, sabendo-se que as classes sociais são fruto das diferentes inserções dos grupos na esfera da produção, estas análises derivaram sempre para uma leitura matizada de um certo economicismo, mais grave ainda, desautorizavam quaisquer outras divisões que não aquelas que pudessem ser rebatidas na dita esfera da produção. Ainda hoje, na parca bibliografia disponível sobre cidadania na Geografia, pode-se perceber o peso desta influência na tentativa de utilizar este mesmo marco, as classes sociais, como critério fundamental para a análise. Surpreende perceber, no entanto, que na raiz do próprio conceito de cidadania esteja gravada uma matriz espacial. Cidadão é aquele indivíduo que tem direitos e deveres dentro de uma sociedade, mas cidadão é também necessariamente aquele que pertence a uma certa rede de relações espaciais. De uma forma um pouco simplista, ser cidadão é aquele habitante de uma determinada porção territorial, ou seja, esta é sem dúvida uma classificação espacial. Aliás, etimologicamente, ser cidadão significa habitante da cidade. Não uma cidade qualquer, uma cidade que se define como uma associação de pessoas unidas por laços formais e hierárquicos; não simplesmente habitar, pois nem todos os moradores são originariamente cidadãps, o que nos dá uma medida da diferenciação espacial interna à própria cidade. Chegamos finalmente ao segundo ponto importante desta apresentação. Em que medida a cidadania pode ser um objeto de pesquisas geográficas? Que contribuições efetivas a reflexão geográfica poderia trazer a este importante tema? As cidades de cidadãos exibem representações espaciais do exercício desta cidadania, definindo ao mesmo tempo os espaços de exclusão, assim o foi desde a Grécia Clássica na estrutura que diferencia a pólis (com sua ágora, sua acrópole e os oikos) da asty, passando pela Roma republicana (com as noções de pomerium e de continentia) e pela cidade medieval (com o burgo e o falso burgo), até a moderna aglomeração urbana que exprime com complexidade toda uma rede espacial de pertencimento diferencial. Segundo Sack (SACK, 1986), o conceito de território é antes de mais nada uma classificação, não simplesmente uma classificação de coisas, mas

8 50. Revista TERRITÓRIO, 1(2), 1997 de coisas dentro de um espaço. Visto desta forma, o território é definido pelo acesso diferencial do qual ele é o objeto, por uma certa hierarquia social do qual ele é a representação e finalmente por um certo exercício do poder do qual ele é produto e um dos principais instrumentos. A noção de território na geografia moderna fez assim emergir com força a reflexão sobre o poder referenciado ao controle e à gestão do espaço. Se aceitarmos que uma reflexão de identidade geográfica é aquela que procura discutir uma certa "lógica" na ocupação do espaço, ou seja, em outras palavras, que a análise geográfica tem um compromisso maior com a ordem espacial das coisas, compreenderemos a importância de um tratamento geográfico da questão da cidadania. Neste sentido, a geografia pode enriquecer o debate feito pela Ciência Política que trata a cidadania como uma referência direta ao Estado Nacional. Podemos e devemos contribuir neste debate pois temos os instrumentos para compreender a diferenciação existente na vivência da identidade territorial, para compreender também, portanto, através da dinâmica territorial na sociedade, os diferentes graus de implicação e penetração do discurso sobre o direito e o dever social. Estamos aptos a ver no espaço os signos e a apropriação diferenciada deles no exercício e na consciência desta cidadania. A cidadania não é, portanto, simplesmente uma representação dos indivíduos dentro do Estado-Nacional, é, sem dúvida, um fenômeno muito mais complexo que incide no quadro da dinâmica territorial cotidiana da sociedade. Assim, se estas diferenças existem, elas não são sinalizadas apenas pelo vago sentimento de nacionalidade em relação ao Estado, elas são vividas cotidianamente e referidas ao quadro territorial imediato onde deixam marcas, onde inscrevem seus códigos territoriais (de acesso, de hierarquia, de valorização etc.). As discussões sobre a cidadania e a democracia não podem portanto ignorar mais que estas noções possuem uma dimensão espacial ontológica e fundadora. Tendo em vista esta dimensão fundadora entre estes dois termos, a idéia de cidadania pode nos ser útil para compreender a dinâmica de fenômenos e disputas sócio-territoriais que ocorrem no mundo atual, valorizando o aspecto de disputa por um espaço, um espaço que é simultaneamente condição e meio de exercício desta cidadania. o exemplo canadense Nesse país, pelo forte contingente de imigrantes, europeus e asiáticos, pela ancestral luta entre colonos de origem francesa e de origem inglesa, pela luta destes com os habitantes originários, os ameríndios, pela diferente inserção destes grupos na composição das hierarquias do poder e, por conseguinte, pelas diferentes situações territoriais em que estão dispostos estes grupos ou pelos diferentes recortes espaciais ao quais eles têm acesso, o caráter desta discussão apresenta contornos de grande riqueza e de grande alcance.

9 A dimensão ontológica do território no debate da cidadania 51 Em face destas condições, a discussão sobre os direitos territoriais no Canadá apresenta matizes bastante variados e convidam a geografia a revisitar alguns velhos debates: nacionalismo, regionalismo, etnias, limites de autonomia territorial, graus de diferenciação do espaço, entre outros, são alguns dos ingredientes básicos para abordar os termos do debate, na maneira como ele se faz hoje no Canadá. Dado o limitado espaço que temos aqui e ao caráter introdutório deste trabalho, nos limitaremos a sugerir alguns elementos e a indicar alguns pontos sobre a questão da luta pela independência do Quebec que, nos parecem, podem ser objeto de uma reflexão mais aprofundada ulteriormente. O debate que se trava hoje em relação à autonomia do Quebec tem uma relação direta com a territorialidade. Procura-se saber se esse movimento pela autonomia pode ser visto sob o ângulo de um nacionalismo cívico, isto é, de um movimento que prega a soberania baseado em distinções territoriais, ou se o cerne dos argumentos são do tipo 'étnico-culturais, caracterizando-se pois um nacionalismo do tipo étnico. Esta distinção se baseia na definição de Gesellschaft e de Gemeinschaft. Segundo este raciocínio, a relação identitária territorial pode ser vista sob o aspecto de uma dupla matriz: a do tipo associativa e a do tipo comunitária. A primeira, define comunidades ditas frias (Gesellschaft) em que a relação com o espaço está submetida a uma rede de práticas contratuais e a relações formais, fruto de um pacto social com recursos institucionais, fundada em uma legitimidade argumentativa racional. Os "filósofos" do século XVIII fizeram deste tipo de relação identitária territorial a base dos seus discursos sobre o Estado moderno e acreditavam que somente segundo este modelo de "civilização" poderia ser alcançado um efetivo progresso social. Este tipo de comunidade é por isto, muitas vezes, visto 'como o espírito da cidade por excelência (em TONNIES, 1944 e WEBER, 1982, por exemplo) A segunda, a comunidade quente (Gemeinschaft) dá origem a comunidades não-inclusivas, em que a relação de pertencimento é soldada pelo costume, pelas tradições. São comunidades não-cosmopolitas, que tendem a desenvolver e a valorizar códigos de expressão próprios e particulares e onde a relação com o espaço é vista sob uma forma orgânica de uma nação singular desenvolvida em um território que lhe é necessário e essencial. O mais completo sistema de Gemeinschaftfoi exposto por J. G. Herder no final do século XVIII, que criou um modelo teleológico da relação sociedade-natureza (a "nação"), ao qual ele atribuía o papel de reencontrar o ideal de harmonia da humanidade no período moderno. Segundo Elias, estas sociedades se baseiam sobre o modelo da preservação da "cultura", oposto ao modelo civilizador de origem iluminista (ELIAS, 1990). No mundo atual, a idéia de uma sociedade de direito (cívica) prega, em geral, a reformulação do "contrato social" que dá origem ao Estado moderno, no sentido de admitir que este espaço deve ser a garantia da possilidade de convivência com o diverso. Em outras palavras, trata-se da flexibilização da

10 52, Revista TERRITÓRIO, 1(2), 1997 norma, no sentido de simultaneamente proteger e limitar a múltipla conformação sócio-cultural e, neste aspecto, a sociedade passa a ser vista como um mosaico variado de experiências culturais, unidas por regras que as possibilitam compartilhar um espaço comum. Há nesta descrição fortes elementos de aproximação com a proposta de reforma constitucional levada a efeito pelo governo do ex-primeira-ministro Pierre Trudeau, que introduziu em 1971 a idéia de uma sociedade multicultural no Canadá". Segundo esta perspectiva, os imigrantes (alemães, italianos, chineses ucranianos etc.) têm o direito de manter seu patrimônio cultural e dispõem de algumas salvaguardas garantidas pela Constituição relativas à proteção de sua cultura de origem, ainda que imersos no bilingüismo oficial do inglês e do francês. Neste tipo de organização, a decisão de manter-se fiel à sua cultura de origem é uma opção pessoal e o Estado, através de sua isonomia legal, estabelece limites às manifestações das múltiplas culturas e garante uma legislação superior de proteção ao indivíduo e à sua liberdade de escolha. Como afirma o escritor Neil Bissoondath, "o multiculturalismo termina onde nossas noções de direitos humanos e de dignidade começam" (BISSOONDATH, 1995)' Ele insiste no fato desta escolha ser individual e não coletiva como desejam alguns grupos que pretendem impor suas regras a todos aqueles que partilham de uma mesma etnia - "compartilhar uma etnia não deve resultar em unanimidade de visões. Se o individual não for traído, uma ampla humanidade deve prevalecer sobre a estreiteza da etnia". Por outro lado e em contraposição, o momento atual pode ser compreendido como o da falência das grandes utopias racionais. O direito público, instrumento de legitimidade do Estado Moderno, é visto com desconfiança e a pretendida eqüidade dos direitos individuais não deixa espaço para a manifestação muito mais fundamental dos direitos coletivos estruturados e fundidos por uma cultura comum. Nesta interpretação, o Estado Moderno é instrumento de uma homogeneização ao impor regras gerais a 5 A grande mudança de perspectiva em favor de um reconhecimento do multiculturalismo se deu nesta época, como se pode notar pelo relatório da Commision royale d'enquête sur le bilinguisme et le biculturalisme que, em 1969, afirmava que a principal conclusão de seus trabalhos era "a recomendação para que a Confederação canadense se desenvolva segundo o princípio da igualdade entre os dois povos que a fundaram e tendo em vista a contribuição dos outros grupos étnicos que contribuíram para o enriquecimento cultural do Canadá", Rapport de la commision royale d'enquête sur le bilinguisme et le biculturalisme, Ottawa, 1969, p. 3. Em alguns anos o discurso do Estado será centrado na expressão "Multiculturalismo" e as recomendações serão de que os imigrantes se adaptem à sociedade canadense, mas simultaneamente encorajando-os a manterem seus patrimônios culturais próprios. Note-se que a menção aos povos fundadores também desapareceu. "Attitudes à I'égard du multiculturalisme et des groupes éthniques au Canadá, Rapport du Ministere d'état au Multiculturalisme, 1976.

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