Número protocolo: PR / Assunto: MATÉRIA DE DEFESA DO MEIO AMBIENTE PROMOTORIA DE JUSTIÇA DE IRAÍ Data protocolo: 26/12/2011

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1 Número protocolo: PR / Assunto: MATÉRIA DE DEFESA DO MEIO AMBIENTE PROMOTORIA DE JUSTIÇA DE IRAÍ Data protocolo: 26/12/2011 Descrição: Encontra-se em trâmite nesta Promotoria de Justiça um AT relativo a um vazamento de esgoto. O proprietário da casa informou que o banheiro de sua residência foi construído através da Prefeitura Municipal. A fossa já está saturada, não havendo mais espaço para construção de outra. A solução seria canalizar até o outro lado da rua, onde já passa uma tubulação de esgoto. Procurou a Prefeitura, mas não foram tomadas providências. Afirmou não possuir condições financeiras de executar a obra. Referiu que o esgoto está a céu aberto, sendo que os vizinhos estão inclusive reclamando. Foi oficiado ao Município, que encaminhou manifestação oriunda do secretário municipal de obras, o qual alegou que iria fazer a limpeza da sarjeta para escoar melhor e conclui que não precisa de encanamentos pois água é só quando chove e não tem como canalizar todas as ruas. Realizada vistoria no local, foi constatado que existe vazamento da fossa, exalando mau cheiro pela redondeza. Verificou-se que o proprietário, na tentativa de conter o vazamento, fez outra fossa ao lado da mesma, mas não deu certo por falta de espaço. Diante disso, solicito orientações no sentido de quais as providências a serem adotadas, bem como se há possibilidade de se exigir do Município a canalização do

2 esgoto da residência até o outro lado da rua, haja vista que o banheiro foi construído pelo Município e o proprietário da casa não possui condições financeiras de executar a obra. Resposta: O problema relatado, qual seja, deficiência na canalização de esgoto, não é exclusividade da Comarca de Iraí, sendo que o tratamento de esgoto é extremamente precário no Estado. De regra, descabe impor ao Município a canalização, tendo em vista que em consonância com entendimento jurisprudencial depende de disponibilidade orçamentária. Nesse norte, o precedente: APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO PÚBLICO NÃO ESPECIFICADO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. REDE DE ESGOTO. DISCRICIONARIEDADE DA ADMINISTRAÇÃO. Trata-se de ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público objetivando o cumprimento de obrigação de fazer consistente na instalação de uma rede de tratamento de esgoto cloacal e de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente e à saúde pública. Do conhecimento do recurso - Não conhecido o recurso do Município, por ausente o prejuízo, requisito indispensável de recorribilidade. Ademais, no único ponto de condenação do Município não houve fundamentação específica na apelação, ex vi do artigo 514, inciso II do CPC. Em que pese a existência de dever do Município em zelar pelo meio ambiente, fornecendo uma adequada estrutura de saneamento básico aos cidadãos descabe a imposição por intermédio do Poder Judiciário de obrigar o Município a construir rede de esgoto cloacal, principalmente, pelos limites impostos pela legislação financeira e orçamentária, tendo em vista que investimentos deste vulto necessitam de inclusão no plano plurianual (PPA) e na lei de diretrizes orçamentárias (LDO). Ausência de previsão legal para a imposição. Precedentes desta e. Corte. Ademais, no caso dos autos, o Poder Legislativo local rejeitou a proposta de convênio com a Corsan para melhorias no sistema de esgotos em face da eleição de

3 outras prioridades. Ainda, grande parte da poluição está presente na área das residências, com grande acúmulo de lixo, logo, condutas atribuíveis aos particulares. Sentença mantida no ponto. As pessoas jurídicas de direito público são isentas do pagamento de custas processuais nos termos da Lei , de que alterou o art. 11 do Regimento das Custas (Lei 8.121/85). Excluídas as despesas judiciais, por força da ADI n.º Sentença explicitada no ponto. DUPLA APELAÇÃO. APELAÇÃO DO AUTOR DESPROVIDA. APELAÇÃO DO DEMANDADO NÃO CONHECIDA, COM EXPLICITAÇÃO. (Apelação Cível Nº , Vigésima Segunda Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Niwton Carpes da Silva, Julgado em 09/11/2011, grifo aposto) No caso dos autos, contudo, o problema parece ser mais simples, na medida em que o Município já disponibilizou encanamento até a rua cuja casa objeto da investigação está localizada, sendo responsabilidade do proprietário a ligação faltante. Destaca-se que o Ministério Público, através do Centro de Apoio de Defesa do Meio Ambiente - CAOMA, Centro de Apoio Operacional da Ordem Urbanística e Questões Fundiárias - CAOURB e Centro de Apoio Operacional de Defesa do Consumidor CAOCONSUMIDOR, está desenvolvendo o PROJETO INTEGRADO DE RESÍDUOS SÓLIDOS E SANEAMENTO BÁSICO RESsanear, com propostas para a execução de medidas englobando os seguintes temas: abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo dos resíduos sólidos, recentemente apresentado. Quanto ao eixo de atuação que versa sobre o sistema de esgotamento sanitário, transcrevemos o seguinte trecho: 1. OBJETIVO: Reduzir o lançamento em cursos d água de esgotos domésticos em estado bruto, que contêm alta carga poluente, sobretudo de origem orgânica, e demanda, por consequência, altos índices de oxigênio, contribuindo para a piora das condições dos rios e, via de consequência, para a saúde pública. Além disso, a maior parte da água captada para fins de tratamento e distribuição para consumo humano provém de reservas

4 superficiais e não subterrâneas, o que demanda maior custo no tratamento, com emprego de produtos químicos e técnicas mais apuradas, nem sempre disponíveis nas estações de tratamento. Assim, a fiscalização correta da destinação e tratamento do esgoto, seja por sistema público, seja por sistemas individuais, proporcionará, num horizonte de médio prazo, melhora da qualidade da água. 2. JUSTIFICATIVA ESPECÍFICA: Muitas vezes o Poder Público investe significativas somas de recursos públicos na construção de sistemas de coleta e tratamento de esgoto, no entanto não estimula ou fiscaliza para que as economias de fato se liguem às redes coletoras, quando existentes, o que é uma obrigação legal (artigo 45 da Lei 11445/07). Além disso, inexistindo redes coletoras públicas, há formas eficazes para tratamento individual dos esgotos domésticos, nos termos da NBR 7229/1993, cabendo ao poder público fiscalizar as economias no âmbito dos respectivos municípios, bem como adotar medidas para que novas construções não recebam habite-se sem a instalação adequada dos sistemas individuais, acaso inexistente sistema público de tratamento. 3. DESTINATÁRIOS/ENVOLVIDOS: Ministério Público (Promotorias de Justiça locais), Municípios, Companhias e Órgãos de Saneamento. 4. MEIOS DE EXECUÇÃO: O Ministério Público deverá integrar-se com Municípios e órgãos encarregados de saneamento para a adoção, no prazo estabelecido neste eixo de atuação, das seguintes medidas administrativas, no âmbito de suas competências, e após elaboração de plano específico de trabalho que preveja medidas de orientação, fiscalização e notificação objetivando o que segue: a) As economias não ligadas à rede coletora de esgoto devem promover a correta ligação, inclusive com incentivos, nos locais em que exista a rede; b) As soluções individuais de tratamento de esgoto, nos locais não servidos por rede coletora, sejam tecnicamente adequadas e eficazes, com a construção de fossas sépticas, filtros e sumidouros. Os sistemas individuais deverão ser construídos segundo a NBR 7229 (Norma Brasileira Registrada, da Associação Brasileira de Normas Técnicas); c) Cabe ao Município fiscalizar a manutenção periódica dos sistemas individuais de tratamento de esgoto, exercer poder de polícia administrativa quanto à existência, regular funcionamento e eficiência dos sistemas individuais de tratamento de esgotos sanitários nas

5 unidades residenciais e comerciais situadas na zona urbana do Município, realizando vistorias, promovendo notificações, lavrando autos de infração e aplicando todas as sanções administrativas cabíveis para compelir os responsáveis pelo despejo irregular de esgotos a adequarem suas instalações à legislação e às normas técnicas em vigor; d) Comunicar ao Promotor de Justiça casos de recalcitrância para as medidas cabíveis, inclusive penais; e) Criação de legislação municipal prevendo a obrigatoriedade dos imóveis de se ligarem às redes coletoras de esgoto, inclusive com previsão de penalidades e outras medidas coercitivas, sem prejuízo da legislação federal e estadual já existente. f) Apresentar, ao final do prazo proposto, relatório das atividades realizadas e objetivos atingidos. g) O Município só concederá habite-se às edificações situadas no perímetro urbano, mediante vistorias in loco devidamente documentadas, realizadas no curso da execução das obras, a regular instalação e funcionamento dos sistemas individuais de tratamento de esgotos sanitários, bem como a adequada destinação final desses efluentes, em conformidade com o que dispõem a legislação e as normas técnicas pertinentes em vigor. h) Caberá ao Município, para famílias em situação de vulnerabilidade social e/ou de baixa renda, assim definidas por órgão municipal competente, auxiliar ou incentivar a instalação adequada dos sistemas individuais de tratamento de esgoto (fossa séptica, filtro e sumidouro). 5. PRAZO: Todas as economias (residenciais, comerciais ou industriais) deverão estar fiscalizadas ou notificadas pelo Poder Público até dezembro de Dessa forma, até mesmo em decorrência do projeto institucional referido, tem-se que as articulações junto aos Municípios para que fiscalizem as economias, fomentando a instalação de tratamentos adequados e auxiliando os proprietários quando necessário, é norte a ser buscado pelo Ministério Público, considerando que as Promotorias de Justiça locais estão direta e expressamente envolvidas na execução do Projeto.

6 Mas considerando as condições financeiras do proprietário, poder-se-ia, ao menos, buscar que ele arque com os custos da limpeza da fossa. Outrossim, ainda que não seja cabível impor ao Município a canalização, é possível requerer algum subsídio ou auxílio para que o proprietário faça a ligação. Sendo o que cabia analisar no momento, permanecemos à disposição. Porto Alegre, 27 de dezembro de 2011 Gustavo Venzon Assessoria jurídica do CAOMA

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